Darwin Day 2026 e os 50 anos da Nova Síntese Evolutiva

É chegado o nosso Darwin Day do ano! Neste 12 de fevereiro de 2026, celebramos o Dia de Darwin, o aniversário de 217 anos de Charles Robert Darwin. Ele foi o cientista que transformou profundamente a Biologia e diversos campos do saber ao articular evidências variadas em sua teoria da evolução biológica fundamentada na descendência comum, na seleção natural e sexual, no gradualismo e na diversificação das espécies. O Darwin Day é uma celebração mundial que reconhece o legado de Darwin à ciência e convida à reflexão sobre como a teoria evolutiva segue iluminando nossa percepção do mundo e auxiliando no enfrentamento dos desafios contemporâneos.

Aqui no MARCO EVOLUTIVO comemoramos anualmente o Dia de Darwin desde 2008, passando pelo Bicentenário de Darwin e 150 anos do ‘Origem da Espécies’ em 2009, e por 20102011201220132014201520162017, pela Década de Darwin Days no Blog em 201820192020pelo sesquicentenário do “A Descendência do Homem a Seleção Sexual’ em 2021, pelo sesquicentenário do ‘A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais’ em 202220232024, 2025.

Neste Darwin Day estamos comemorando os 51 anos da publicação do livro “Sociobiologia: a Nova Síntese” de Edward Wilson (1975), e 50 anos da publicação do “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins (1976). Ambos os livros formam a grande divulgação pública das explicações evolutivas e adaptativas para o comportamento social dos animais ao abordarem cooperação, acasalamento, agressão, territorialidade, conflitos pais e filhos entre outros. Foi um período muito produtivo pois aproximou mais efetivamente o comportamento social da genética de populações e da dinâmica adaptativa da seleção natural. Os etólogos puderam finalmente afastar noções vagas e imprecisas sobre as adaptações servirem para o ‘bem da espécie’ ou ‘perpetuação da espécie’, e puderam abraçar noções de benefício genético abrangente e um maior rigor em termos de custos e benefícios das adaptações psicocomportamentais.

O próprio Darwin identificou corretamente o que a Helena Cronin (1991) chamou de o “problema da formiga”: como era possível a evolução de castas estéreis de formiga com morfologia e comportamentos próprios sem que elas mesmas deixassem seus descendentes? No Origem das Espécies (1859), em seu capítulo sobre as possíveis objeções à Teoria da Seleção Natural, Darwin escreveu sobre “uma dificuldade específica, que a princípio me pareceu insuperável e, na verdade, fatal para toda a minha teoria. Refiro-me aos indivíduos neutros ou fêmeas estéreis nas comunidades de insetos: pois esses indivíduos neutros frequentemente diferem muito em instinto e estrutura tanto dos machos quanto das fêmeas férteis, e, no entanto, por serem estéreis, não podem propagar sua espécie.” De forma geral, este era o problema evolutivo do altruísmo: como é possível evoluir alguma tendência comportamental que beneficia outros em detrimento de si mesmo?

Este paradoxo evolutivo das castas estéreis dos insetos sociais foi plenamente resolvido só em 1964 com a formalização da seleção de parentesco por William Hamilton, o qual nasceu no mesmo dia que Lamarck. Ele demonstrou que por compartilharmos mais as nossas versões dos genes com nossos parentes era possível evoluir tendências altruísticas para ajudar a sobrevivência e a reprodução dos parentes. E quanto mais próximos os parentes, maiores seriam os benefícios de se sacrificar por eles. Isso explicou a existência de castas estéreis em insetos sociais, visto que as operárias são proximamente aparentadas à rainha. A aptidão evolutiva, que antes era operacionalizada em número de filhos que sobrevivem à idade reprodutiva, passou a ser entendida de forma a abranger, além dos próprios filhos, todo o número de sobrinhos, primos, netos e filhos de outros parentes próximos que chegassem à idade reprodutiva (aptidão abrangente, ou do inglês, inclusive fitness). A partir desse avanço teórico foi possível acrescentar a explicação evolutiva para o amor parental e para muitos comportamentos, como o fato das abelhas morrerem após ferroar um possível inimigo da colmeia, que não faziam sentido pensando apenas a reprodução própria do indivíduo. A mesma lógica também lançou luz sobre o conflito entre pais e filhos, como no caso do desmame, pois apesar de proximamente relacionados geneticamente ainda existem 50 % de diferenças genéticas entre eles na maioria dos casos. George Williams foi outro grande evolucionista que ajudou a dar as bases da síntese sociobiológica.

Nos livros cinquentenários “Sociobiologia” e “Gene Egoísta” este avanço explicativo sobre o altruísmo foi amplamente demonstrado e interligado com outros avanços da época como o altruísmo reciproco (como o ‘uma mão lava a outra’), investimento parental, sinalização custosa etc. Assim, em meados de década de 1970, estes livros finalmente ajudaram a devidamente incluir o comportamento animal no mesmo arcabouço teórico da Síntese Moderna da Evolução, das décadas de 1930-40. Ambos livros ajudaram a alicerçar o estudo do comportamento social em modelos matemáticos e na genética de populações, transformando a etologia social em uma ciência quantitativa e preditiva. Desta Nova Síntese Evolutiva surgiram novas disciplinas como a Ecologia Comportamental, a Psicologia Evolucionista, a Memética, por exemplo. Sim, pois no último capítulo do “Gene Egoísta”, Dawkins introduziu o conceito de memes, que são unidades culturais coesas que se replicam de mentes em mentes por aprendizado social (imitativo) na ‘sopa primordial’ das tradições socioculturais. Décadas depois a noção de memes foi aplicada ao que hoje conhecemos como os memes de internet, em que uma cena ou expressão facial conhecida é reinterpretada em outro contexto distinto, mas com reação semelhante, o que é engraçado e nos faz compartilhar até viralizar enquanto unidade cultural de replicação.

Enquanto Dawkins foi da replicação genética para a replicação cultural no final de seu livro, no ano anterior Wilson foi das sociedades animais à sociedade humana ao final do “Sociobiologia”. Apesar de ser um especialista de formigas, Wilson conseguiu apresentar alguns insights de como poderíamos entender os comportamentos sociais humanos pelas lentes sociobiológicas. A Sociobiologia humana cultivou a interdisciplinaridade, por incluir informações paleontropológicas, históricas, etnográficas, interculturais, adaptativas e comparativas com outras espécies. Ele mostrou a importância de se considerar tanto as bases biológicas quanto os contextos socioecológicos e históricos. Porém, estava longe de ser a palavra final ou o entendimento mais profundo e avançado sobre os humanos na época. As editoras e a imprensa inflaram muito a importância dos livros gerando uma percepção que seriam a palavra final sobre o comportamento humano que substituiria as explicações das ciências sociais. O que não é verdade. É claro que o fato de ambos livros ligarem evolução aos seres humanos deixou muitos criacionistas chateados. Por terem colocado humanos na mesma dinâmica evolutiva comportamental das outras espécies incomodou pessoas antropocêntricas que acham humanos superiores aos outros animais. Por terem focado muito nos genes como unidades fundamentais de evolução e não no indivíduo deixou chateados os que queriam protagonismo ao indivíduo. Por terem focado as influências genéticas e evolutivas no comportamento animal incluindo os humanos (natureza humana) deixou chateados muitos que acreditavam no mito da tabula rasa, em que tudo é aprendido e nada é herdado ou instintivo. Muitos não tinham embasamento biológico para captar a profundidade da mensagem dos livros e passaram a rotulá-los como mero determinismo genético ou fatalismo biológico. Tanto é que muitos acharam que “O Gene Egoísta” era sobre os genes do egoísmo e não um livro sobre a evolução do altruísmo. Muitos achavam que a Sociobiologia e a perspectiva do gene egoísta eram meras racionalizações para justificar atrocidades sociais, como as realizadas no passado em nome do darwinismo social e da eugenia.

Apesar da polêmica, da recepção conturbada e da difamação infundada, as críticas científicas recebidas fizeram com que a área progredisse e se diversificasse. Hoje sabemos que além do fato dos genes serem praticamente imortais e fundamentais para a evolução, existe outras formas menos estáveis de herança, como a herança epigenética, citológica, comportamental e cultural, que também influenciam o processo evolutivo. O fato de termos herdado propensões comportamentais não quer dizer que todos vamos nos comportar igualmente, ou que não temos escolha nem capacidades inibitórias. O fato de termos inclinações comportamentais evoluídas não nos impede de aprender nem nos ajustar social e ecologicamente. Hoje a Genética Comportamental e a Sociogenômica já demostraram que temos sim centenas de genes cada um com efeitos pequenos que influenciam, junto com os efeitos ambientais, em como somos, pensamos e nos comportamos. Apesar de termos predisposições genéticas, temos até certo ponto a capacidade de melhorarmos como somos mediante mudanças de contextos e hábitos de vida.

Diante de todo avanço científico proporcionado pela ampla divulgação da solução de antigos paradoxos evolutivos comportamentais era de se esperar que toda graduação em Biologia tivesse comportamento animal como disciplina obrigatória, que toda graduação das Ciências Humanas e Sociais tivesse as bases biológicas do comportamento humano em seu contexto comparativo como disciplina obrigatória, pelo menos antropologia e psicologia. Mas, mesmo depois de 50 anos e muitos avanços subsequentes, são poucas as universidades que oferecem cursos sobre a biologia comportamental e ainda precisa avançar muito a compreensão, aceitação e integração do comportamento animal nos currículos universitários. Isso porque hoje sabemos que as abordagens evolutivas nos ajudam a entender desafios contemporâneos como a pandemia e a crise ecoclimática. Além disso, hoje sabemos que interculturalmente e controlando para religião e orientação política, a aceitação da evolução humana está relacionada a menor homofobia, transfobia, racismo e xenofobia (Syrapulous et al., 2022), ao contrário do que os críticos imaginavam. Então, neste Darwin Day 2026, vamos todos abrir a mente e nos atualizar lendo livros sobre a evolução do comportamento humano, como o Manual de Psicologia Evolucionista.

6 anos de MARCO EVOLUTIVO e Feliz 2014

cupcake-6-candle-Feliz 2014 a todos seguidores, leitores e fãs do MARCO EVOLUTIVO! Iniciamos esse ano novo comemorando o singelo fato de que em novembro de 2013 completamos não UM, nem DOIS, TRÊS, QUATRO ou CINCO, mas sim 6 anos de existência. Agradeço muito todos os comentários, elogios e críticas recebidos e também aos mais de cem novos seguidores no Facebook que tivemos no ano passado, já estamos com 368. Continuem sempre acessando e compartilhando links do blog com os amigos.

Em 2013, grandes acontecimento acabaram freando um pouco a escrita no blog. O ano passado foi meu primeiro ano completo como professor universitário, então tive bastante trabalho, ministrei muitas aulas e por isso estou muito realizado. Estou desde abril como professor substituto no Departamento de Processos Psicológicos Básicos do Instituto de Psicologia da UnB e venho ministrando a disciplina de Introdução a Psicologia para graduandos dos mais variados cursos. Estou gostando muito da UnB e de morar em Brasília.

darwin_loveNo ano passado também me casei com a mulher da minha vida, a Jaroslava Varella Valentova, Antropóloga Tcheca. Estamos muito felizes e realizados morando juntos, alternando entre a vida no Brasil e na República Tcheca. Enfrentamos o desafio de desenvolver uma cerimônia matrimonial humanista evolutivamente relevante com conteúdos de Psicologia, Biologia e Antropologia que ficou bem interessante e agradou a todos. Afinal, a ciência tem muito a dizer sobre o amor e as parcerias românticas.

fighting-irish-in-every-cultureMesmo com apenas 5 postagens, de janeiro de 2013 até janeiro de 2014 o MARCO EVOLUTIVO quase 15 mil visitas. Tivemos mais de 12 mil visitas no Brasil, 682 de Portugal e 534 dos EUA. As outras visitas foram de Angola, Moçanbique, Reino Unido, Índia, México, Espanha, França, República Tcheca, Canadá, Alemanha, Cabo Verde, Japão, Filipinas, Colômbia, Irlanda, Argentina, Chile, Suíça e Equador, todos com 10 ou mais visitas.

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Os 5 posts mais lidos de 2013 foram: 1-“Lamarck – A Verdadeira Idéia Errada”, 2-“O sexo chimpanzé e o conflito de gerações”, 3- “Dicas de Livros em Psicologia Evolucionista”, 4-“Seleção Sexual, de Parentesco, Natural, Artificial e Social”, e 5-“Festival de Vídeos: Evolução da Sexualidade Humana I”. O destaque do ano passado foi a comemoração dos Cem anos Sem Alfred Russel Wallace, quando celebramos a vida e a obra desse evolucionista esquecido por muitos.

index-tinbergen 4 questionsO presente evolutivo desse começo de ano vem também em forma de celebração. Em 2013, fez 50 anos da famosa publicação de Nikolaas Tinbergen Sobre os Objetivos e Métodos da Etologia, onde ele descreve as famosas Quarto Questões de Tinbergen para o estudo do comportamento animal.
Tinbergen's legacyEntão aí vai um número especial do Human Ethology Bulletin inteiro em homenagem ao meio século do paper On Aims and Methods do Tinbergen, que está bem interessante.
E aí vai ainda um artigo também em comemoração às 4 perguntas de Tinbergen que faz um retrospecto e atualização interessantes.
Fiquem com o vídeo do CrashCourse Biology sobre comportamento animal onde as quatro questões são abordadas de forma descontraida.

Parabéns Mendel pelos 190 anos e pelo legado!

Hoje, dia 20 de junho, estamos comemoramos os 190 anos de Gregor Johann Mendel, considerado pai da genética, mas com uma vida bem longe de uma celebridade. O Pai da Genética é famoso, mas pouco conhecido.

Então nossa intrépida equipe de jornalistas do MARCO EVOLUTIVO viajou até o Mendel Museum no seu Mosteiro Agostiniano em Brno, na República Tcheca, para trazer a você, em primeira mão, mais do que sopa de letrinha sabor ervilha.

Muitos acham que ele nasceu em dia 22 de julho de 1822, mas esse foi o dia em que foi batizado. Muitos acham que ele nasceu na Áustria, mas sua cidade de nascença e seu mosteiro estão na República Tcheca, que é considerada o Berço da Genética. Naquele época, a atual Hynčice, cidade natal, era Heizendorf, a atual Brno era Brünn, e a atual região da República Tcheca era parte do Império Austro-Húngaro e a língua oficial era o alemão.

Filho de dona Rosina e seu Anton Mendel, humildes camponeses, Johann Mendel sempre gostou de estudar. Até antes de completar 18 anos ele já ganhava a vida dando aulas particulares para outros alunos. Depois estudou Matemática, Física, Filologia, Filosofia prática e teórica, e Ética no Instituto de Filosofia de Olomouc, também Rep. Tcheca. Aos 21 anos seguiu os estudos ao ingressar no Mosteiro Agostiniano em Brno, onde incorporou o primeiro nome, Gregor.

No Monsatério teve mestres que o incentivaram muito nos estudos, o Abade Cyril František Napp foi um deles. Ele foi quem construiu a avançada estufa pra época, com 30 metros por 6 de largura, que ofereceu as condições excelentes para os experimentos de Mendel.

Aos 24 anos concluiu um curso de estudos agrícolas de frutas e vinicultura no Instituto Filosófico em Brno. Aos 29 anos o Abade Napp mandou e bancou os estudos de Mendel na Universidade de Viena, na Áustria. Lá ele estudou mais Física, Matemática e História Natural e teve aulas como Física Experimental, Anatomia e Fisiologia de Plantas e aulas práticas de utilização do microscópio.

Aos 32 anos com a estufa acabada de construir, Mendel colocou na prática seus conhecimentos ao estudar plantas, como feijões, chicória, plantas frutíferas, uva e principalmente ervilhas, nas quais descobriu as famosas Leis de Mendel. Ele também criou camundongos e abelhas, desenvolveu seu próprio tipo de apiário e ainda criou uma linhagem de abelha que se mostrou muito agressiva e teve que ser eliminada. Ele também sabia muito de astronomia e também de metereologia.

Dos 32 aos 42, trabalhou em seus cuidadosos experimentos com ervilhas (Pisum sativum). Aos 40 Mendel leu uma tradução em alemão do ‘Origem da Espécies’ de Darwin sublinhou e anotou em várias partes da obra. Ajudou a criar a Sociedade Austríaca de Meteorologia e foi co-fundador da Sociedade de Ciência Natural de Brno.

Aos 63 anos, 1865 apresentou o seu trabalho experimental em ervilhas em uma palestra intitulada “Experimentos sobre a hibridização de plantas” nas reuniões de fevereiro e março da Sociedade de Ciência Natural de Brno. Em 1866, Mendel publicou no jornal da Sociedade de de Ciência Natural de Brno sua palestra, o trabalho que fazer dele o Pai da Genética. Ele distribuiu cópias de seu manuscrito para vários cientistas, que foi ignorado por todos. Apesar de ter sido considerado sempre um ótimo professor, ele fracassou duas vezes em concurso para ser professor da Universidade de Viena.

Mendel percebeu que não herdamos as características físicas (hoje o fenótipo), mas sim os elementos, fatores particulados (hoje chamados de genes). E sua genialidade foi perceber esses fatores hereditários trabalham aos pares, nos gametas eles estão separados e na fertilização eles se unem em novas combinações. Apartir daí foi fácil perceber que alguns fatores dominavam outros ao gerarem as características físicas abrindo caminha para a genética moderna. Suas descobertas pioneiras foram ignoradas até o começo do seculo XX depois de sua morte em 1884 quando ficou consagrado.

É claro que assim que redescobertas muitos acharam contraditórias as idéias de herança particulada com a fluidez gradual da variação populacional necessária para o primeiro passo da Seleção Natural. Os mutacionistas iniciais não era Darwinistas por mais que fossem Evolucionistas. O próprio Darwin por ter abandonado o pensamento essencialista e valorização a variação individual acabou criando uma teoria de herança baseada na mistura de características, algo que para ele faria mais sentido com sua teoria.

Somente na década de 1940 que com o surgimento da Genética de Populações pode haver conciliações entre os geneticistas e os darwinistas. Eles concordaram que a evolução é gradual, que o principal motor da evolução é a seleção natural, que a hereditariedade é “dura” ou seja particulada, que o mesmo tipo de mecanismos genéticos é responsável pela variação fenotípica continua e discreta, que a macroevolução é a acumulação dos processos microevolutivos e a especiação é um processo de genética de populações.

Mendel morreu em 6 de janeiro 1884. Depois de uma vida posterior muito ocupada com a administração do monastério. Ele foi enterrado três dias depois, no Cemitério Central, em Brno. Em um obituário da Sociedade para a Promoção da Natureza, Agricultura e Geografia de 1884, n º 1 foi lido: “Suas experiências com híbridos de plantas abriu uma nova era.” Hoje, sabemos que ele realmente inaugurou toda uma gama possibilidades para explicar muitos fenômenos hereditários (híbridos, mutantes, clones, variação, efeitos ambientais no genoma, etc) e para o desenvolvimento de várias tecnologias de analise do DNA, como para solucionar crimes, por exemplo. Homenagem mais que merecida.

No mundo todo estão sendo celebradas suas realizações pioneiras para entendermos as questões fundamentais da hereditariedade. Pelo menos de três ganhadores do Prêmio Nobel vão dar palestras no Museu de Mendel mantido pela Universidade de Masaryk em Brno. Acesse o site das celebrações e façam a visita online ao Museu do Mendel.

Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do círculo da biologia e atingir outras esferas como a área de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolução Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso é o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que há uma grandeza nessa visão da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conteúdo evolucionista relacionado às seguintes áreas: Biologia, Palentologia, Cultura, Saúde, Artes, Tecnologia, Religião, Política, Mente, Economia e Educação. Mesmo com menos de um ano de existência essa revista já é um marco evolutivo na divulgação do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. Várias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas área acima. A revista é fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Consórcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por trás da “Evolution:This View of Life Magazine” está David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esforçado para expandir a influência da evolução em diversas áreas, como no ensino superior com o EvoS, nas políticas públicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religião com o Evolutionary Religious Institute. É claro que como ele é fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua área. Atualmente ela é o palco para discussões acadêmicas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relevância da seleção de grupo. Felizmente cada uma das 11 áreas acima tem seu editor próprio o que garante uma certa pluralidade para a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.

Ades Egypti e seu Entusiasmo Contagiante

Era impossível ficar ao lado de nosso querido César Ades, que nasceu no Cairo, Egito, e não ser levado por seu entusiasmo contagiante. Conheci o César em 2003 no XX Enconto anual de Etologia (EAE) em Natal, em meu terceiro ano de graduação eu ainda não havia encontrado minha área de pesquisa. Lá depois de uma brilhante palestra sobre todos os EAEs anteriores eu estava mais do que cativado pela Etologia, principalmente voltada para os humanos. Ele autografou meu livro de resumo e me desejou um futuro brilhante.

Em meu último ano de graduação fiz um trabalho sobre a consciência animal e se não fosse um texto do César ter me tocado e me motivado não teria tirado da nota máxima.

Em 2004, ao final de meu bacharelado na Unesp de Bauru com Sandro Caramaschi, ex-aluno do Prof. César, fui conversar com ele para estudar possibilidade de um mestrado. Eu estava super nervoso, mas ele me deixou bem a vontade e no decorrer da conversa percebemos que estávamos em sentidos contrários: ele era um psicólogo mais voltado para o comportamento dos outros animais e eu um biólogo interessado no ser humano. Então, ele me indicou a Profa Vera Bussab que acabou sendo minha orientadora de mestrado e de doutorado no Bloco F do IP-USP, inaugurado pelo César enquanto diretor do Instituto anos antes.

Sua disciplina de pós sobre Comunicação Animal me forneceu bases sólidas para um estudo comparativo da musicalidade humana. Cada aula com ele era uma maravilha, ambiente descontraído, informações precisas e conexões muito bem elaboradas.

Fora as belas homenagens oficiais a ele realizadas pelo Instituto de Psicologia da USP, muitas palavras relevantes e tocantes foram colocadas aqui na nossa Série Especial do ScienceBlogs Brasil em homenagem ao César, o Grande ao meu ver.

Eu (depois de ficar uma semana e meia fora do ar devido a uma fratura e cirurgia no braço dois dias após seu falecimento) gostaria de acrescentar algo que julgo muito louvável sobre ele. César Ades era tão entusiasmado e curioso por conhecimento que ele não conseguia se conter em apenas dar aulas, fazer pesquisas, publicar, orientar, ter cargos administrativos, organizar eventos, ele também fazia e valorizava a divulgação científica.

Ao ser esse acadêmico generalista digno de um Da Vinci moderno, a divulgação científica não poderia passar em branco. Ele deu diversas entrevistas tais como a brilhante ‘Psicologia e Biologia – Entrevista com César Ades’, e a ‘Entrevista: César Ades estuda a evolução do comportamento animal’. Escreveu e deu várias contribuições para a Ciência Hoje Criança como explicando a importância da limpeza nos animais em ‘Tá limpo!’. Ele deu várias palestras e também participou de várias comemorações do Dia de Darwin. Esse ano, César compareceu ao Catavento Cultural para participar de um talk show com o Prof Nélio Bizzo. Como sempre tudo bem descontraído e informativo. Ele sempre frisava na importância de Darwin enquanto o primeiro psicólogo evolucionista. Sua importância como divulgador é crucial e assim como todas suas outras características irá continuar inspirando gerações de pesquisadores e admiradores.

Uma de suas mais atuais metas era a de reunir etólogos eminentes da América Latina para um simpósio debatendo origens, desafios e perspectivas futuras da área, de modo a gerar um livro em conjunto sobre as experiências em cada país e a semente de uma aliança Latino-Americana de Etologia. Reuniremos esforços para realizar essa grande ideia junto a alunos e profs.

Um dos mais tocantes comentários sobre o César pra mim foi o do Prof. Fernando Ribeiro quando queria destacar uma virtude dele.

“Quem o vê hoje, e encanta-se com seu entusiasmo, conhece o mesmo César Ades de 40 anos atrás. E foi esse entusiasmo que escolhi, a fim de destacar uma de suas virtudes, ao cumprimentá-lo, na ocasião de sua indicação para o Instituto de Estudos Avançados, quando disse a ele: Fui percorrendo suas marcas, a inteligência, a erudição, o caráter… mas como me impus uma escolha, fiquei com o entusiasmo, sem o qual a inteligência não se acende, a erudição não se atinge, o caráter não se transmite. Sim, porque César Ades é, e sempre foi, um professor. Sua extroversão e a expressividade com que se comunica constituem sua face visível”

Fique agora com os dois vídeos de uma entrevista de César Ades concedida ao programa Trajetória da TV USP em 2011 e com o vídeo mais recente do César Ades no Dia de Darwin. Assim um pouco dele e seu entusiasmo sempre viverá em nós de modo a podermos contagiar toda uma outra geração com suas idéias e atitudes.

Dia de Darwin 2012

Jay Belsky e a Teoria Evolucionista da Socialização

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Continuando nossa série de palestras internacionais em Psicologia Evolucionista e Biologia Evolutiva veremos hoje o psicólogo do desenvolvimento Jay Belsky falando sobre a aplicação do evolucionismo ao desenvolvimento das estratégias reprodutivas. Professor na Birkbeck Univeristy of London, Belsky está preparado para a celebração esse ano dos 20 anos sua revitalizada Teoria Evolucionista da Socialização de 1991.
Gravada em outubro de 2010, sua palestra no ciclo de seminário do EvoS da Birghamtom Univesity começa com a constatação dele que muitos dos psicólogos do desenvolvimento negligenciam a importância da Evolução para o desenvolvimento. Ele conta a história de sua teoria, como foi inspirado por estudos sobre a influência da ausência paterna nas estratégias sexuais, e como a princípio relutou em abandonar teorias clássicas sobre o tema. Ele frisa que o suporte comparativo de diferentes espécies e o poder de gerar novas predições o convenceram da relevância do evolucionismo para as teorias de desenvolvimento e maturação.

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Segundo a Teoria Evolucionista da Socialização, ambientes estressantes com escassez de recursos e suporte emocional na infância acelerariam a puberdade e induziriam a estilos de apego inseguros e uma estratégia sexual de curto prazo – muito relacionamentos curtos sem muito laço afetivo. Enquanto um ambiente infantil pouco estressante levaria a estilos de apego seguros e estratégias sexuais de longo prazo. 
Ele apresenta todos seus e outros artigos mais importantes para o suporte de sua teoria, e com uma explicação rica em metáforas mostra o porquê os resultados fazem sentido. Ao final ele mostra como tem lidado com críticas e como atualizou sua teoria. A mais contundente é a possibilidade de influência genética determinar mais a estratégias sexuais futuras do que o ambiente infantil. Estranhamente ele não cita o estudo de gêmeos que mostrou que esse parecer ser o caso e nem o estudo intercultural que mostrou que a necessidade de cuidado biparental do ambiente atual é mais determinante das estratégias sexuais do que o ambiente infantil. Pelo menos ele já incorporou a possibilidade da existência de uma mistura de estratégias alternativas (genéticas) e condicionais (abertas a influências ambientais relevantes) nos determinantes das diferencias individuais quanto à maturação. E agora frisa a variação genética à suscetibilidade a essa influencia ambiental na infância.
Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited. Uma palestra de uma hora, da hora, interessante e pertinente para muitas linhas de pesquisa no país. Aproveitem.

Jay Belsky – Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited from EvoS on Vimeo.

George C. Williams (1926 – 2010) Grande Evolucionista

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Morreu no dia 08, semana passada, do mal de Alzheimer aos 83 anos George C. Williams (1926 – 2010), um dos mais importantes evolucionistas da atualidade. Professor emérito da Biologia na State University of New York em Stony Brook nos EUA, foi visionário e pioneiro que contribuiu enormemente para nosso entendimento evolutivo sobre o envelhecimento, menopausa, a reprodução sexuada, o adaptacionismo, os níveis de seleção e a medicina e doenças.
Para Niles Eldredge, George C. Williams foi um pensador profundo e cuidadoso, muito tímido e bem legal. Stephen Jay Gould o achava um cavalheiro quieto com uma enorme influência na teoria evolucionista que sempre esteve avançado em relação ao seu tempo quanto à sua clareza teórica. Para Richard Dawkins, ele foi um cientista maravilhoso e um grande cavalheiro de uma sabedoria lendária. Para Steven Pinker ele é um dos mais famosos escritores na história da ciência. Para Daniel Dennett, ele mostrou pela primeira vez como é difícil ser um bom evolucionista e como é fácil cometer erros simples. Para Martin Daly, George William faleceu sendo o maior biólogo evolucionista de seu tempo que influenciou tanto a ecologia comportamental quanto a psicologia evolucionista. Para Michael Ruse, ele foi parte do grupo de biólogos que mudou completamente a natureza da teoria da evolução a meio século atrás. Para Randolph Nesse, ele foi o mais importante biólogo do século XX que com uma abordagem consistente e um pensamento metódico perseguiu questões importantes e destilou suas conclusões em prosa límpida.

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Em seu primeiro livro e um dos mais importantes da área Adaptation and Natural Selection: A Critique of Some Current Evolutionary Thought (1966) ele influenciou gerações de evolucionistas com um adaptacionismo mais rigoroso e desbancando de vez o selecionismo de grupo ingênuo, que infelizmente, ainda vemos muito na narração de documentários sobre animais, algo do tipo “tudo para o bem da espécie”. Ele mostrou que a adaptação é um conceito oneroso e que teve ser criticamente testado segundo vários critérios antes de aceitá-lo finalmente como conclusão.

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Em Sex and Evolution (1975), Natural Selection: Domains, Levels, and Challenges (1992), ele atualizou e expandiu suas idéias anteriores, introduziu a idéia de seleção de clado e foi fundo na questão dos níveis de seleção. Ele fez um distinção muito importante para evitarmos muitos mal entendidos em biologia evolutiva. Temos que reconhecer que existem dois domínios distintos em biologia evolutiva: um é o da matéria, no qual gene significa cadeia de DNA, o outro é o da informação, no qual gene significa pacote de informação, mensagem, receita. Então para entender os níveis de seleção não se pode incorrer no erro de misturar os dois domínios como indivíduo (material) e gene (pacote de informação), pois os diferentes domínios não são correspondentes, deve-se ter a clareza de comparar níveis dentro de um mesmo domínio.

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Mais tarde em seu livro Why We Get Sick (1995) (Por que Adoecemos. A nova ciência da medicina darwinista (1997) da Editora Campus na tradução brasileira) em coautoria com Randolph Nesse, introduz o campo da Medicina Darwinista. Ambos trazem todo o poder da teoria evolutiva em dar sentido, amarrar e guias novas perguntas mas toda a área médica. 

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Williams mostrou como é um absurdo a idéia de restaurar a homeostase, ou seja, tudo de incomum manifestado em seu corpo durante a doença deve ser combatido, com um exemplo bem claro: Imagine que você chega na sua casa e dois fatos incomuns estão acontecendo: 1) tem um caminhão vermelho estacionado na frente e vários seres jogando água na sua casa; 2) tem muita fumaça saindo pela sua janela. O que você deve fazer para restaurar a homeostase da sua casa é dar um fim em todos os fatos incomuns, então você se livrar dos seres molhados, guinchar o caminhão vermelho e não deixar fumaça sair pela janela, pronto resolvido!!! Eles mostraram que muitos dos sintomas das doenças são estratégias coordenadas do seu corpo inerentes do processo. Dawkins chegou a sugerir a todos que comprem duas cópias do livro e receitem um para seu médico. Segundo profetizou o próprio Williams:
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“In twenty or thirty years, medical students will be learning about natural selection, about things like balance between unfavorable mutations and selection. They will be learning about the evolution of virulence, of resistance to antib
iotics by microorganisms, they will be learning about human archaeology, about Stone Age life, and the conditions in the Stone Age that essentially put the finishing touches on human nature as we now have it. These same ideas then will be informing the work of practitioners of medicine, and the interactions between doctor and patient. They’ll be guiding the medical research establishment in a fundamental way, which isn’t true today. At the rate things are going, this is inevitable. These ideas ought to reach the people who are in charge — the doctors and the medical researchers — but it’s even more important that they reach college students, especially future medical students, and patients who go to the doctor.”

Não deixe de receitar os seguintes links para seu médico, para seus amigos alunos e professores das áreas médicas. The Skeptical Adaptationist – blog do Randolph Nesse, The Evolution & Medicine Review, Vídeos de Randolph Nesse sobre Medicina e Psiquiatria Darwinista

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Em seu último livro Plan and Purpose in Nature (1996), Williams, rebate claramente os argumentos criacionistas mostrando que se existe um criador e ele é minimamente inteligente nunca faria algo tão mal-adaptado como nosso corpo. Os exemplos vão de peixes ao olho, garganta e muitos outros. Nesse livro fica claro o porquê Randolph Nesse o considera um mal-adaptacionista, já que eles compartilham o fascínio pelos aspectos do corpo e da mente que aparentam não fazer sentido em termos evolutivos.
Sem dúvida George C. Williams foi um marco evolutivo com alcances para além das ciências biológicas. Espero com essa homenagem aumentar o conhecimento sobre ele no Brasil e o ainda mais o alcance de sua contribuição científica.
Fique com uma palestra dada por Randolph Nesse na comemoração sobre o Ano de Darwin 2009 sobre The Great Opportunity: New Evolutionary Applications in Medicine.

2nd Biological Evolution Workshop Ao Vivo Online

Dos eventos para esse mês de novembro em comemoração aos 150 anos do Origem das Espécies divulgados aqui no MARCO EVOLUTIVO, o “II Porto Alegre Biologial Evolution Workshop” “Celebrating Darwin’s Year”, terá transmissão ao vivo pelo site www.biologicalevolution.com.br a partir das às 9 da manhã dessa segunda dia 16/11.

O evento ocorrerá em Porto Alegre de 16 a 18/11 contará com 10 conferências internacionais com convidados ilustres e sobre os aspectos mais atuais da Biologia Evolutiva.
É muito raro termos a chance de acompanhar um evento de peso como esto pel net. A outra oportunidade dessa que tivemos foi a do evento REvolución Darwin no Chile. Assistir às conferências e debates ao vivo online é uma oportunidade única importante para todos aqueles interessados que, por diversos motivos, não puderam se inscrever e viajar até Porto Alegre. Então não percam essa super dica evolutiva.

Psicologia Evolucionista no Milênio

Acabo de voltar de Natal onde participei de um mês de estudos em Psicologia Evolucionista que culminou no primeiro evento no Brasil, o “Simpósio Internacional Psicologia Evolucionista no Milênio: Plasticidade de Adaptação”. Foi um evento muito bom, inesquecível. Não estava tão lotado aponto de você não conseguir conhecer ninguém, nem tão vazio aponto de você se desanimar. A organização estava muito boa, o coffebreak também e é claro que os speakers nas palestras e os alunos nos pôsteres deram um show, tudo em inglês.

Foram cerca de 60 pôsteres abordando temas dentre comportamento social, moral, reprodutivo, cognição, investimento parental, desenvolvimento, família, tópicos teóricos e metodológicos, psicopatologia, linguagem, teoria da mente, comportamento alimentar, arte e religião. O grande destaque vai para os pôsteres ganhadores que (se eu não me engano) foram: Discounting the future: psychological and context variables de Tânia Abreu da Silva Victor, Dandara de Oliveira Ramos, Maria Lucia Seidl-de-Moura, and Luciana Fontes Pessoa; Like father like son: preference for babies that resemble their fathers in Brazilian mothers de Luísa Helena Pinheiro Spinelli, Maria Bernardete Cordeiro de Sousa, and Maria Emilia Yamamoto; e o Cooperate or retaliate? Influence of social cues on group categorization de Diego Macedo Gonçalves, Ana Carolina Morais Sales, and Maria Emilia Yamamoto.

As palestras foram as seguintes: na conferência de abertura o casal Martin Daly e Margo Wilson da McMaster University Canadá falaram sobre relações de parentesco em Kinship in human Evolutionary Psychology. No dia seguinte Maria Emilia Yamamoto da Federal do Rio Grande do Norte falou sobre identificação de coalizões em Group categorization and ethnocentrism: an evolutionary perspective e em seguida Martin Daly e Margo Wilson falaram sobre características dos homicídios Homicides. Depois do almoço Paulo Nadanovsky da Estadual do Rio de Janeiro falou sobre agressão contra crianças em Can evolutionary theory help identify circumstances conducive to child physical abuse? E em seguinda Klaus Jaffe da Universidad Simon Bolívar, Venezuela falou sobre a psicologia dos cientistas em Is there such thing as an evolution of scientific personalities? No final do dia Carol Weisfeld da University of Detroit Mercy, EUA falou sobre o relacionamento romântico estável em Long-term partnership: what it means in the postmodern era.

No último dia, Heidi Keller da Universität Osnabrück, Alemanha falou dos modelos de socialização infantil em The expression of positive emotionality in early socialization strategies in different ecocultural environments. Depois do almoço Ricardo Waizbort da Fiocruz, Rio de Janeiro falou sobre a escolha feminina em The evolutionism of the “O cortiço” of Aluísio Azevedo, depois Martin Brüne da Universität Bochum, Alemanha sobre psicopatologias em Towards an evolutionarily informed approach to understanding and testing mental disorders. E no final Suzana Herculano-Houzel da Federal do Rio de Janeiro falou sobre as regras de construção dos cérebros de roedores e primetas em Not that special: the human brain as a linearly scaled-up primate brain. Todos adoraram o simpósio e as lindas praias de natal.

A própria Suzana Herculano-Houzel em seu blog “A neurocientista de plantão” disse que gostou, ensinou e aprendeu muito nesse Simpósio Internacional de Psicologia Evolucionista. Ela falou sobre homens mulheres e evolução e percebeu que o adaptacionismo nem sempre é intuitivamente óbvio, com o caso das mães baterem nos filhos mais do que os pais, os quais têm menos certeza da paternidade. Ela também falou que gostou muito de se ver alvo de tietagem e recebeu vários elogios nos comentários. Eu mesmo pedi um autografo dela no livro Charles Darwin Em um Futuro não tão distante onde ela tem um capítulo.

Estreou também na Psico Evolucionista o Ciência Vista, grupo do qual participo interessado na divulgação científica cotidiana por meio de produtos, alguns feitos a mão, como camisetas científicas. As camisetas em comemoração o bicentenário de Darwin e dos 150 anos do Origem das Espécies fizeram o maior sucesso, muita gente gostou, comprou e vestiu a camisa da ciência.

Em resumo foi um excelente coroamento do Projeto do Milênio em Psicologia Evolucionista, o primeiro da área da Psicologia no país, que alcançou muito mais do que suas metas previstas. E principalmente graças à dedicação das professoras Maria Emilia Yamamoto e Maria Lucia Seidl-de-Moura o Instituto do Milênio catalisou o nascimento de uma área sólida, produtiva e interdisciplinar em Psicologia Evolucionista no Brasil.

Psicologia Evolucionista e Natureza Humana

A Psicologia Evolucionista (que muitos confundem com psicologia evolutiva, ou seja, psicologia do desenvolvimento) é uma área que mais cresce no mundo e no Brasil. Infelizmente muito das críticas negativas a ela está embasada em entendimentos errôneos, preconceitos e noções simplistas equivocadas sobre como o fator biológico se manifesta no comportamento humano e quais são suas implicações sociais.

Sugiro às pessoas que antes de despejarem seus “ismos” indignados: biologismo, determinismo, sexismo, naturalismo, reducionismo, fatalismo, conformismo entre outros, leiam o texto sobre se nós somos realmente dominados por nossos genes ou apenas por mal-entendidos. E descubram quantas noções preconceituosas sobre a natureza humana temos enraizadas.
Os livros estão mais voltados para resolver esses entendimentos equivocados são o O Que Nos Faz Humanos de Matt Ridley e o Tabula Rasa de Steven Pinker. Nesses livros uma coisa fica bem clara, que nossa velha noção sobre a natureza humana é uma das coisas que devemos desaprender e deixar muito dos preconceitos que impedem nosso entendimento sobre a Psicologia Evolucionista para trás.
E o programa “Coisas que nunca deviamos aprender” sobre Psicologia Evolucionista, em espanhol, que veremos abaixo, trata justamente da questão das novas noções sobre a natureza humana que estão desafiando concepções pautadas em entendimentos equivocados. Com a participação de Steven Pinker, ricamente ilustrado e com uma discussão final sobre as mudanças de paradigmas este programa tem três vídeos bem interessantes.
No primeiro vídeo veremos a discussão sobre nossa tendências agressivas e medos de cobra, sobre a antiga visão da tabula rasa, as inter-relações entre natureza e criação, as ligações com o projeto genoma e com a discussão das células tronco, veremos ainda que existe um grande preconceito frente as sociedade de caçadores coletores tribais, mas na verdade as habilidades mentais são as mesmas em todas culturas.
No segundo vídeo serão discutidas as diferenças entre homens e mulheres, seu desenvolvimento ontogenético, as influências mútuas entre cultura e circuitos cognitivos inatos, veremos que os seres humanos não têm menos se não mais instintos do que os outros animais, e como exemplo a linguagem, os tabus sexuais, ainda veremos as diferencias entre os sexos nas estratégias sexuais e o movimento hippie enquanto mais uma utopia sexual.
No último vídeo veremos o mal-entendido da suposta impossibilidade de mudança social, analisaremos a tabula rasa para perceber que diferença não é desigualdade, e na conversa final teremos a discussão sobre a revolução científica e as mudanças de paradigmas. E mudança é o que está acontecendo em todo o mundo quando se fala da natureza humana, pois como Hamilton disse em 1997 “a tabula da natureza humana nunca foi rasa e agora está sendo decifrada”.

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