Você sabe que eu sei que você sabe?

cuban-missile-crisis-kennedy-kruschev

‚ÄúEsses terr√°queos s√£o est√ļpidos. Isso os torna imprevis√≠veis‚ÄĚ. ‚Äď V: A invas√£o (1983)

‚ÄúSuponha que um pai diga a suas crian√ßas ‚Äď um menino e uma menina ‚Äď que n√£o devem se sujar. Elas brincam na rua, e acabam as duas sujando suas testas. As crian√ßas n√£o podem ver a lama em suas pr√≥prias testas, j√° que est√° acima de seus olhos. Mas cada uma delas pode ver a lama na testa da outra. Como elas querem ver uma √† outra levando castigo, nenhuma diz nada. Por acaso, estas crian√ßas tamb√©m s√£o muito inteligentes, de fato, nunca cometem erros em l√≥gica ou falham em deduzir algo que pode ser deduzido logicamente. Voc√™ pode cham√°-las de prod√≠gios de l√≥gica. Al√©m disso, elas nunca mentem. Por fim, o pai chega e diz: ‚ÄėPelo menos um de voc√™s tem lama na testa‚Äô. Ele pergunta √† garota: ‚ÄėH√° lama na sua testa?‚Äô. Ela responde: ‚ÄėN√£o sei‚Äô. O pai ent√£o pergunta ao garoto ‚ÄėE voc√™, h√° lama na sua testa?‚Äô. Ele responde a contragosto: ‚ÄėSim‚Äô‚ÄĚ.

Entender este conto de f√°bulas l√≥gico √© simples. O garoto deduziu que tinha lama em sua testa porque caso n√£o tivesse, sua irm√£ teria visto tal. E como pelo menos um deles estava sujo, ela saberia que seria ela a estar com a testa suja, respondendo ao pai de acordo. Uma vez que ela n√£o sabia se tinha ou n√£o lama na testa, isso s√≥ poderia indicar que ela havia visto lama na testa dele. Talvez ela tamb√©m estivesse suja ‚Äď como estava ‚Äď mas ao dizer que n√£o sabia se era ou n√£o pelo menos um dos irm√£os que estavam sujos, ela permitiu que o irm√£o deduzisse que ele sim estava sujo. Elementar.

O que é fascinante aqui é algo que você pode nem ter estranhado a princípio.

Antes que o pai dissesse aos dois que pelo menos um deles tinha lama na testa, cada uma das crianças já sabia disso. Elas haviam visto a lama um na testa do outro. Quando o pai perguntou à garota se ela tinha ou não lama na testa, ela respondeu que não sabia. Não sabia, não podia responder.

Como ent√£o estas duas informa√ß√Ķes que n√£o adicionaram nada ao que os prod√≠gios j√° sabiam permitiram que o garoto deduzisse algo que previamente n√£o podia deduzir?

‚ÄúAo dizer a eles que ‚Äėum de voc√™s tem lama na testa‚Äô o pai n√£o apresentou nenhuma informa√ß√£o nova, no entanto ele ainda assim alterou o estado do conhecimento: ele fez com que o garoto soubesse que a garota sabia que um deles estava sujo. (‚Ķ) Se ao inv√©s de informar aos dois filhos em voz alta o pai tivesse chamado cada um deles em privado e dito que pelo menos um deles estava sujo, nenhuma dedu√ß√£o poderia ser feita. O menino n√£o saberia o que o pai havia cochichado √† irm√£, assim ele n√£o poderia saber que a garota sabia que pelo menos um deles estava sujo‚ÄĚ.

Como Sam Alexander, autor de quase todo o texto que voc√™ leu at√© aqui nota, esta f√°bula ‚Äúilustra a sutileza de raciocinar sobre o conhecimento. Dedu√ß√Ķes n√£o-triviais podem exigir n√£o apenas conhecimento de fatos, mas conhecimento sobre o pr√≥prio conhecimento‚ÄĚ. O aparente paradoxo traz √† lembran√ßa outros casos mais conhecidos, como o problema de Monty Hall.

portascorredordr

No problema de Monty Hall, ou a Porta dos Desesperados (clique para mais), entre as muitas formas de entender o resultado contra-intuitivo, uma das mais esclarecedoras é perceber que ao abrir uma porta o apresentador está fornecendo informação valiosíssima. Ao contrário do que faz parecer e do que a maioria das pessoas presume, o apresentador não abrirá uma porta aleatoriamente, porque jamais abrirá a porta com o prêmio. Isso arruinaria todo o suspense e acabaria com o jogo.

Ao revelar uma porta, o apresentador está mostrando qual das portas que o apostador não escolheu inicialmente não contém o prêmio. Se você sabe que o apresentador sabe qual das portas contém o prêmio, e se sabe que o apresentador sabe que não deve abrir essa porta, suas chances de ganhar passem de meros 1/3 para os muito mais atraentes 2/3.

Mais do que uma curiosidade l√≥gica, h√° uma certa beleza po√©tica no fato de que o conhecimento compartilhado permite chegar a conclus√Ķes que cada um dos participantes, isoladamente, n√£o poderia deduzir. Esta situa√ß√£o tamb√©m √© relevante na Teoria de Jogos, e pode ser aplicada. Durante a Guerra Fria, EUA e Uni√£o Sovi√©tica s√≥ alcan√ßaram maior estabilidade quando ambos os lados chegaram a um acordo t√°cito onde o arsenal b√©lico de um lado seria conhecido pelo outro lado, atrav√©s de imagens de sat√©lite.

airplane-graveyard-2

Isto explica algo como o cemit√©rio de avi√Ķes nos EUA. Cada um queria ver a lama na testa do outro lado, e cada lado devia saber que o outro sabia que os dois possu√≠am lama. O √°pice desta l√≥gica foi a Destrui√ß√£o Mutuamente Assegurada. Cada um sabia que o outro sabia que qualquer ataque direto levaria inevitavelmente √† destrui√ß√£o de ambos. Se cada um soubesse disso, a l√≥gica dizia, nenhum jamais atacaria e a paz estaria assegurada atrav√©s das mais terr√≠veis armas.

Mas os terr√°queos s√£o est√ļpidos, e isso os torna imprevis√≠veis. Isso n√£o impediu, obviamente, que cada lado tentasse tomar vantagem e manipular o jogo, de forma que na pr√°tica n√£o sabiam realmente se sabiam o que o outro sabia que sabia. Nos per√≠odos de maior tens√£o, toda a teoria de jogos e toda a fria l√≥gica proposicional, epistemologia e muito mais deu lugar ao simples instinto e √† mera sorte. √Č assustador. O ex-Secret√°rio de  Defesa Robert McNamara, conhecido por introduzir no complexo militar-industrial americano t√©cnicas de administra√ß√£o mais ‚Äúcient√≠ficas‚ÄĚ, comentou em suas mem√≥rias sobre a Crise dos M√≠sseis de Cuba:

‚ÄúEu quero dizer isso, e isso √© muito importante: no final, n√≥s tivemos sorte. Foi sorte que impediu a guerra nuclear. N√≥s chegamos a um fio da guerra nuclear no final. Indiv√≠duos racionais: Kennedy era racional; Kruschev era racional; Castro era racional. Indiv√≠duos racionais chegaram muito pr√≥ximos da destrui√ß√£o total de suas sociedades. E esse perigo ainda existe hoje‚ÄĚ.

Anos depois, um desconhecido militar russo teve na ponta dos dedos a decisão de não iniciar o Apocalipse. Todos os alarmes diziam que os EUA haviam disparado uma série de mísse
is que matariam milh√Ķes de russos. Seria racional que apertasse o bot√£o vermelho. N√£o apertou. Como imaginou, o alarme era falso, o avan√ßado sistema de alerta estava confundido algo t√£o corriqueiro como o Sol com o disparo de m√≠sseis nucleares.

Agora que eu sei que você sabe o que eu sei sobre o que se sabe neste texto, podemos apreciar melhor que ainda não sabemos bem o que sabemos. Devemos prezar e partilhar o pouco que sabemos.

Das propriedades físicas de uma fumaça

Primeiro pensei que a fuma√ßa deve ser comportar dessa forma porque est√° misturada ao ar viciado que exalamos, repleto de g√°s carb√īnico.

Mas então, a fumaça em si mesma deve ser também mais pesada que o ar, como um aglomerado de partículas, contribuindo para o efeito.

Ou n√£o? [via Nerdcore]

Ficção Nada Científica

A NASA elaborou uma lista da melhor — e pior — ci√™ncia em filmes de Hollywood, mas h√° uma reviravolta digna de M. Night Shyamalan a respeito.

√Č o que conversei com o pessoal do Melhores do Mundo, Change, Hell, Bugman e Rodney Buchemi: Podcast MdM #107 – Fic√ß√£o cient√≠fica nada cient√≠fica.

Confira acima, ou como o MdM alerta, "se voc√™ quiser ocupar espa√ßo in√ļtil no seu HD, que poderia ser preenchido com as entrevistas do ET Bilu, clique no link para fazer o download".

Humor fotográfico de René Maltête

611

Clique para a galeria de imagens com um humor refinado de uma França na década de 1960. [via DYT]

Tatiana Plakhova ‚Äď‚ÄúChaos and Structure‚ÄĚ

5327654769_013e5d28e7_z

Arte ainda √© abstrata se for baseada em dados reais? A russa Tatiana Plakhova criou representa√ß√Ķes incr√≠veis baseadas em mapas estelares, biologia, matem√°tica e mais. Clique para seu portf√≥lio em ‚ÄúComplexity Graphics‚ÄĚ. [via DYT]

Pluralidade de Mundos

‚ÄúPara ver um Mundo em um gr√£o de areia e um C√©u em uma flor selvagem, segure a Infinidade na palma de sua m√£o e a Eternidade em uma hora‚ÄĚ. ‚Äď William Blake [c.1793]

H√° uma Infinidade de coisas ocorrendo no v√≠deo acima, onde gotas de oxig√™nio l√≠quido dan√ßam por uma superf√≠cie, devidamente registradas em c√Ęmera lenta estendendo a Eternidade de alguns segundos.

As gotas deslizam com quase nenhum atrito devido ao efeito Leidenfrost, onde o oxig√™nio l√≠quido √© vaporizado em contato com a superf√≠cie, produzindo uma camada de vapor isolante e com muito pouco atrito. Voc√™ pode ver este efeito aquecendo uma frigideira anti-aderente, deixando cair pequenas gotas d‚Äô√°gua. O efeito n√£o s√≥ diminui o atrito como tamb√©m fornece isolamento t√©rmico, o que voc√™ pode perceber pelo fato de que a gota deslizando pela frigideira pode levar muito mais tempo para evaporar do que deveria se estivesse em contato direto com a chapa. Motivo pelo qual a camada de vapor tamb√©m explica como se pode mergulhar a m√£o em chumbo quente ou nitrog√™nio l√≠quido sem sofrer queimaduras. N√£o √© magia, n√£o √© bem um truque. √Č um efeito descrito por Johann Leidenfrost no s√©culo 18.

As gotas de oxigênio líquido se mantêm coesas em si mesmas graças à tensão superficial, e ao longo do vídeo a tensão e a dança das gotas são colocadas à prova devido a ainda outro efeito.

O oxigênio líquido é um material paramagnético, o que significa que não possui magnetismo próprio, mas é atraído por campos magnéticos. Por isso quando um ímã é colocado abaixo da gota, ela se achata, atraída, e uma série de eletroímãs consegue desacelerar e parar uma gota em movimento. Fazem isso, não sem que a forma das gotas seja distorcida devido à interação complexa entre a tensão superficial e inércia. E ainda o efeito Leidenfrost que garante o deslocamento da gota com pouco atrito enquanto ela evapora.

Tudo isso, ocorrendo com uma parte do ar liquefeita atrav√©s do congelamento, manipulada pelo mesmo eletromagnetismo que responde pela luz que chega a seus olhos e mant√©m suas mol√©culas coesas, desenrolando-se em fra√ß√Ķes de segundo que passariam literalmente em um piscar de olhos.

Admirando aqui a poesia do vídeo de uma gota de oxigênio líquido deslizando sobre uma superfície magnetizada, pensei que nossa imaginação por vezes não faz jus ao mundo em que vivemos.

Ent√£o, sempre descobrindo que estou errado e esquecendo das coisas mais simples, me deparo com isso.

;

Somos criaturas dotadas de uma imagina√ß√£o mais do que adequada √† Infinidade e √† Eternidade, mas enquanto crescemos vemos esta potencialidade infinita limitada por barreiras n√£o t√£o diferentes daquela que faz com que ao olharmos um gr√£o de areia vejamos apenas um min√ļsculo ponto e n√£o um Mundo.

Pois bem, Giordano Bruno foi o primeiro Renascentista a ver um Universo infinito em suas dimens√Ķes. Galileu Galilei daria outro passo gigante ao apontar o telesc√≥pio ao c√©u. Menos conhecido, Robert Hooke, atrav√©s de sua  Micrographia, mostrou por sua parte que h√° realmente um Mundo em um gr√£o de areia, como h√° em flocos de neve e todos os objetos que perscrutou com seu microsc√≥pio. Um Mundo de fen√īmenos ocorrendo mesmo entre os c√≠lios de nossos olhos. Em escalas muito maiores e muito menores do que aquela que podemos segurar entre nossos dedos, h√° uma pluralidade de mundos.

Uma pluralidade de mundos estendida h√° menos de quatro s√©culos atrav√©s de instrumentos que estenderam nossos sentidos. Quatro s√©culos estendendo o Universo a bilh√Ķes de anos-luz e um gr√£o de areia em mol√©culas, √°tomos e subpart√≠culas.

Vivemos h√° poucos anos com novos instrumentos, antes apenas sonhados por vision√°rios, estendendo nossa comunica√ß√£o e retirando pouco a pouco as limita√ß√Ķes que t√£o rapidamente encontramos √† nossa imagina√ß√£o. Imagine o que quatro s√©culos n√£o poder√£o fazer com os hipop√≥tamos da garotinha francesa.

‚ÄúAssim, toda a incerteza e os enganos das a√ß√Ķes humanas adv√™m seja da limita√ß√£o de nossos sentidos, da ilus√£o de nossa mem√≥ria, do confinamento de nossa compreens√£o, de forma que n√£o √© surpresa que nosso poder sobre as causas e efeitos naturais avance t√£o lentamente, dado que n√£o apenas lidamos com a obscuridade e a dificuldade das coisas sobre as quais trabalhamos e pensamos, como mesmo as for√ßas de nossas pr√≥prias mentes conspiram para nos trair. Sendo estes os perigos do processo da raz√£o humana, os rem√©dios a todos eles s√≥ podem proceder da filosofia real, mec√Ęnica, experimental, que tem esta vantagem sobre a filosofia de discurso e disputa, uma vez que onde esta almeja a sutileza das dedu√ß√Ķes e conclus√Ķes, sem muita considera√ß√£o ao primeiro trabalho de coleta, que deve ser bem fundado nos sentidos e mem√≥ria, a outra pretende orden√°-las todas, tornando-as √ļteis uma √† outra‚ÄĚ. ‚Äď Robert Hooke, Micrographia, 1665

[via Misterhonk, BoingBoing]

Ordem e Progresso N√£o-Linear

sr71

√Č objetivamente o avi√£o mais espetacular do mundo. N√£o s√≥ possui linhas agressivas que parecem t√£o modernas quanto o mais estiloso dos b√≥lidos de F√≥rmula-1, como √© detentor do recorde oficial de velocidade a mais de 3.500km/h riscados no dia 28 de julho de 1976.

Voc√™ leu bem, o SR-71 bateu os 3.500km/h no distante ano de 1976, quando a Apple foi fundada por dois jovens barbados e os Ramones lan√ßaram seu primeiro √°lbum. ‚ÄúO avi√£o mais avan√ßado e mais r√°pido do mundo voou pela primeira vez 47 anos atr√°s. O recorde de velocidade tem 35 anos‚ÄĚ, destacou Carlos Cardoso em um excelente texto no MeioBit sobre o avi√£o supers√īnico: ‚ÄúAinda Que eu voe pelo Vale Da morte‚Ķ‚ÄĚ. Parece um paradoxo tecnol√≥gico. Onde est√° o sucessor do SR-71? E se for assim, onde est√£o nossos jetpacks? As quest√Ķes est√£o entrela√ßadas e antes de respond√™-las √© bom rever rapidamente o que consideramos progresso.

Vivemos cercados por tecnologia progredindo a um ritmo alucinante: computadores, celulares, MP3s, MP4s, MPns. Este ritmo alucinante tem um nome, √© a exponencial Lei de Moore verificada h√° mais de cinco d√©cadas, e como tal, nos acostumamos com ela. Toda a ind√ļstria de informa√ß√£o se estruturou em torno deste progresso previsto e concretizado, e com ela, muitos outros setores da sociedade, das finan√ßas ao entretenimento. Assim √© f√°cil esquecer que ela se aplica rigorosamente apenas √† tecnologia de informa√ß√£o.

‚ÄúSe a ind√ļstria automotiva tivesse avan√ßado sua tecnologia como a ind√ļstria de computadores, estar√≠amos dirigindo carros custando R$50 que andariam mais de 1.000km/l‚ÄĚ, dizia o e-mail que voc√™ deve ter recebido pela primeira vez em um computador jur√°ssico. E isto porque autom√≥veis sim progrediram imensamente nas √ļltimas d√©cadas em v√°rios aspectos. ‚ÄúEm 1964 est√°vamos dirigindo verdadeiras carro√ßas, hoje carros t√™m mais eletr√īnica embarcada que avi√Ķes de ca√ßa. √Č ABS, controle de tra√ß√£o, sensores de pista, software que detecta quando voc√™ VAI perder o controle e reage evitando‚Ķ at√© uma Palio com acelerador DBW detecta que o motor vai morrer e for√ßa a acelera√ß√£o sem que voc√™ pise mais fundo (aconteceu comigo, me senti no KITT)‚ÄĚ, escreveu Cardoso. Note contudo que s√£o todos avan√ßos relacionados diretamente com circuitos integrados.

Se h√° uma grande diferen√ßa que n√£o deva diretamente algo a Gordon Moore, √© que seu carro hoje, mesmo um Palio, pode ser Flex. √Č sua fonte de energia.

Na era dourada da fic√ß√£o cient√≠fica sonhava-se com um futuro repleto de carros voadores, jetpacks, conquista espacial e tanto mais. Bem, j√° foram criados muitos carros voadores, jetpacks e n√≥s sim conquistamos a Lua. Podem ter sido saltos gigantescos para a humanidade, mas aqui est√° a quest√£o, foram saltos movidos a energia qu√≠mica. Gasolina, querosene, mesmo per√≥xido de hidrog√™nio ou hidrog√™nio l√≠quido s√£o todos combust√≠veis qu√≠micos. Foram assim n√£o por coincid√™ncia todos breves saltos, porque a energia qu√≠mica de liga√ß√£o entre √°tomos √© muito menor que aquela que une seus n√ļcleos. √Č ordens de grandeza menor que a energia nuclear.

Se apenas tiv√©ssemos √† disposi√ß√£o reatores nucleares compactos, ent√£o carros voadores, jetpacks e a conquista espacial avan√ßariam no ritmo sonhado pelas vis√Ķes tecnol√≥gicas ut√≥picas do tempo dos Jetsons. Mas voc√™ se sentiria confort√°vel com um reator nuclear nas costas? Por tr√°s deste sonhos estava o pr√©-requisito de uma revolu√ß√£o energ√©tica que a tecnologia a princ√≠pio permite, mas a riscos e custos ambientais que logo provaram ser inaceit√°veis.

E n√£o s√≥ o uso da energia nuclear encontrou limita√ß√Ķes, como o futuro dourado de progresso linear e cont√≠nuo sofreu um enorme golpe quando mesmo a fonte de energia qu√≠mica abundante de que disp√ļnhamos encontrou seus limites naturais e ambientais.

energy_cons_graph1

No gr√°fico acima [fonte], √© f√°cil entender como os Jetsons no in√≠cio da d√©cada de 1960 podiam sonhar com carros voadores. O consumo de energia aumentava a um ritmo quase t√£o alucinante quanto uma Lei de Moore ‚Äď especialmente nos EUA. O progresso energ√©tico estava em curso. O in√≠cio da d√©cada de 1960 tamb√©m foi o per√≠odo de financiamento e desenvolvimento do que se tornaria o SR-71 e em que John Kennedy prometeu pisar na Lua at√© o fim da d√©cada. O progresso parecia seguro. Parecia.

palais_graph2

Este segundo gr√°fico √© menos animador. √Č o consumo comercial de energia por habitante de 1860 a 1995. Note que a partir da d√©cada de 1950 o ritmo de crescimento per capita √© ainda mais fenomenal, contudo em meados da d√©cada de 1970 o progresso sofre uma queda e ent√£o estagna√ß√£o. Foram as crises do petr√≥leo, quando a produ√ß√£o nos EUA atingiu seu √°pice. Passou-se a depender cada vez mais de fontes no Oriente M√©dio e outros pa√≠ses que quase imediatamente capitalizaram sua nova import√Ęncia criando cart√©is. Logo depois a instabilidade pol√≠tica de tais fontes s√≥ se acentuaria, e entre muitas outras consequ√™ncias as crises levaram √† cria√ß√£o no Brasil do PROALCOOL que hoje leva ao seu carro Flex.

O consumo de energia global continua crescendo vertiginosamente, mas a popula√ß√£o aumenta a um passo ainda maior. At√© o fim deste ano seremos sete bilh√Ķes de pessoas, dependendo primariamente de combust√≠veis f√≥sseis, enfrentando o dilema dos muitos riscos da energia nuclear e a incerteza de fontes alternativas, sem a revolu√ß√£o energ√©tica de que os Jetsons dependem, limitados n√£o pela quantidade de energia que conseguimos usar, mas pela que podemos usar. O que, no dia-a-dia, √© o que podemos pagar. Os desafios s√£o ainda maiores enquanto a produ√ß√£o mundial de petr√≥leo, Oriente M√©dio inclu√≠do, pode j√° ter atingido seu √°pice.

Relembre agora o ano do recorde do SR-71. 1976. Note que o √ļltimo ser humano pisou na Lua em 1972, com o encerramento antecipado do programa Apollo. Entre as muitas perspectivas que podem ser oferecidas para n√£o termos voltado √† Lua ou n√£o termos quebrado o recorde do SR-71, uma das mais fundamentais √© a de encar√°-los como o canto do cisne de uma era em que energia n√£o era um problema.

Em 1964, pod√≠amos dirigir carro√ßas, mas essas carro√ßas sob certo ponto de vista eram m√°quinas mais poderosas que as que dirigimos hoje, simplesmente porque consumiam mais energia. Eram muito menos eficientes, mais pesadas, mais barulhentas, mais poluentes. O SR-71 tamb√©m era menos eficiente que os sat√©lites e avi√Ķes espi√Ķes n√£o-t
ripulados que o substitu√≠ram. N√£o havia mais raz√£o econ√īmica para manter a frota de SR-71s, como n√£o havia para criar uma pr√≥xima gera√ß√£o: ainda que exista um sucessor secreto em atividade hoje, que voe ainda mais r√°pido e seja mais vers√°til que sat√©lites de reconhecimento, √© pouco prov√°vel que seja tripulado. Em 2004 a NASA testou o pequeno X-43, n√£o-tripulado, que atingiu o recorde de velocidade 12.144km/h, quase o triplo do SR-71. Em uma certa ironia, o X-43 foi lan√ßado de um B-52, aeronave que deve prestar servi√ßo por mais de um s√©culo.

A ci√™ncia tem h√° mais de trezentos anos progredido vertiginosamente em in√ļmeras √°reas do conhecimento, fundamentando avan√ßos tecnol√≥gicos estupendos em ciclos de progresso que parecem eternos enquanto duram. Poucos deles t√™m sido progressos inexor√°veis, e nenhum deles poder√° se manter indefinidamente.

Não temos jetpacks para ir ao trabalho, por outro lado hoje podemos trabalhar sem sair de casa. E sem o risco de um acidente radioativo caso deixemos cair café na mochila.

– – –

Leitura recomendada:

[Imagem no topo: Drublair.com]

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Pol√≠tica de Privacidade | Termos e Condi√ß√Ķes | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


P√°ginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM