O Tao do Google

Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucion√°rios mas com resultados concretos ainda longe de serem t√£o vistosos lan√ßou o novamente revolucion√°rio computador pessoal Macintosh em um comercial que tamb√©m se tornou ic√īnico, dirigido por Ridley Scott e veiculado durante o Super Bowl. Uma hero√≠na com o logo do Macintosh salva a humanidade da conformidade representada pelo ‚ÄúGrande Irm√£o‚ÄĚ, que discursava:

‚ÄúHoje, celebramos o primeiro anivers√°rio glorioso das Diretivas de Purifica√ß√£o de Informa√ß√£o. Criamos, pela primeira vez na hist√≥ria, um jardim de ideologia pura ‚Äď onde cada trabalhador pode florescer, seguro das ervas daninhas que transmitem verdades contradit√≥rias. Nossa Unifica√ß√£o de Pensamentos √© uma arma mais poderosa que qualquer frota ou ex√©rcito na Terra. Somos um s√≥ povo, com uma vontade, uma determina√ß√£o, uma causa. Nossos inimigos v√£o tagarelar at√© a morte, e n√≥s iremos enterr√°-los em sua pr√≥pria confus√£o. N√≥s iremos prevalecer!‚ÄĚ.

Ao que a hero√≠na lan√ßa uma marreta libertadora e destr√≥i a enorme tele-tela, deixando os espectadores estupefatos com a explos√£o. ‚ÄúEm 24 de janeiro, Apple Computer lan√ßar√° o Macintosh. E voc√™ ver√° por que [o ano de] 1984 n√£o ser√° como 1984 [de George Orwell]‚ÄĚ.

Quase 30 anos depois, a Apple Computer, Inc. j√° n√£o fabrica mais apenas computadores, mudando seu nome apenas para Apple Inc., e √© a companhia com maior valor de mercado no mundo, superando gigantes petrol√≠feras e mesmo concorrentes da ind√ļstria de tecnologia de informa√ß√£o como Microsoft e IBM ‚Äď esta √ļltima o alvo original do comercial de 1984. Suas reservas de capital s√£o maiores do que o PIB de v√°rios pa√≠ses. √Č uma ironia fina aquela que interpreta que se h√° hoje um Grande Irm√£o ‚Äúpurificando‚ÄĚ informa√ß√£o, criando um jardim de aplicativos puros onde cada usu√°rio possa florescer seguro das ervas daninhas que transmitem interfaces contradit√≥rias, √© a pr√≥pria Apple, que com sua Unifica√ß√£o de Pensamentos transformou sua marca na propriedade intelectual das mais valiosas, e poderosas, do planeta. O Grande Irm√£o carism√°tico em seus Keynotes para um p√ļblico babando pela √ļltima novidade era ningu√©m menos que o pr√≥prio Steve Jobs.

Esse c√ļmulo da ironia se deu em pouco mais de uma gera√ß√£o, em uma hist√≥ria que cont√©m meandros fractais ‚Äď reviravoltas sobre reviravoltas. Mas este √© um coment√°rio sobre o Google Inc., que precisou come√ßar pela Apple porque nenhuma outra empresa de tecnologia que busque vender tamb√©m um verniz de ideologia √© t√£o ic√īnica quanto aquela fundada por Jobs. Ou pelo menos, t√£o valiosa quanto a Apple Inc. √© hoje.

Se a Apple vendeu-se como uma empresa vision√°ria de produtos √† frente de seu tempo, o Google passou boa parte de seu tempo promovendo o lema informal menos pretensioso ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ, ou ‚Äún√£o seja malvado‚ÄĚ. Embora design nunca tenha sido seu ponto forte, o Google se destacou pela tecnologia, o que √© uma grande vantagem quando se √© uma empresa de tecnologia. Enquanto √† √©poca outras grandes corpora√ß√Ķes moviam enormes fundos e conglomerados de m√≠dia para capitalizar um ecossistema que buscava sempre prender os visitantes dentro de ‚Äújardins de ideologia pura‚ÄĚ, de propriedade desta ou daquela corpora√ß√£o, o Google apostava na efici√™ncia de seu buscador como ponto de in√≠cio e norte para todos internautas.

N√£o era necess√°rio prender o visitante em uma rede infind√°vel de sites de sua propriedade, pelo contr√°rio, quanto mais r√°pido um visitante sa√≠sse de seu buscador encontrando o que procurava, mais prov√°vel era que ele retornasse depois ao seu buscador quando pensasse ir a outro lugar. Como uma esp√©cie de koan zen budista, para fazer o visitante retornar, fa√ßa-o ir embora. Tente prend√™-lo, e ele ir√° fugir. E √† medida que o volume de informa√ß√Ķes na rede crescia geometricamente, a tecnologia do Google mostrou-se em anos decisivos a mais capaz de oferecer resultados relevantes ao usu√°rio.

Em 2011 em um testemunho no senado americano, Eric Schmidt, então chairman do Google, concordou que o Google detém hoje o monopólio na área de mecanismos de busca. Pouco mais de uma década depois de sua fundação, em menos de uma geração, uma startup baseada em ideias revolucionárias de tecnologia venceu todos os recursos investidos por gigantes de mídia e se tornou ela mesma mais valiosa que o maior conglomerado tradicional de mídia, a Disney.

E como voc√™ pode n√£o ser ‚Äúmalvado‚ÄĚ se det√©m o monop√≥lio da √°rea mais importante da Internet e √© uma das empresas mais valiosas do mundo? √Č simplesmente imposs√≠vel. Vender-se como o underdog, aquele competidor pequeno mas valente desafiando o gigante tir√Ęnico, n√£o funciona quando voc√™ mesmo se torna o gigante. Voc√™ tamb√©m se torna automaticamente o tirano.

Mal o Google consolidou seu monop√≥lio dos mecanismos de busca, uma forma nova de uso da rede emergiu ‚Äď as redes sociais. O Facebook como rede social √© desde o in√≠cio um ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ de propriedade de Mark Zuckerberg, fechado aos olhos indexadores do Google, e um ao qual os visitantes n√£o precisam se lembrar de ir ao Google para gerar, consumir ou encontrar conte√ļdo: basta perguntarem aos amigos que tamb√©m fazem parte da rede social. √Č uma forma fundamentalmente diferente de utilizar a Internet, e uma que n√£o passa pela ideologia original do jardim aberto do Google.

O que os grandes conglomerados de m√≠dia n√£o conseguiram concretizar √† for√ßa no primeiro boom da Internet na virada do mil√™nio, a tecnologia das redes sociais tornou hoje n√£o s√≥ poss√≠vel, como transformou em realidade. Com um crescimento org√Ęnico e viralizado, onde todos entram porque outros j√° entraram, e sem vender nem mesmo um verniz de ideologia, o Facebook se consolidou como o maior ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ j√° criado. Um local onde cada mudan√ßa na forma como Zuckerberg apresenta sua timeline afeta instantaneamente a maneira com que milh√Ķes de pessoas consumir√£o informa√ß√£o. Discutir o impacto que a introdu√ß√£o de hashtags ter√° no ecossistema do Facebook √© um indicador claro da pureza deste jardim onde n√£o h√° ervas daninhas que n√£o sejam podadas.

Se a possibilidade de usar outros sites em apenas um clique era um argumento usado por Schmidt para o fato de que o monop√≥lio do Google n√£o era prejudicial ao consumidor, quando esta possibilidade se mostrou uma amea√ßa concreta, o Google passou a exercer sua tirania. Todos usu√°rios de qualquer propriedade do Google, agora parte de um jardim de ideologia, precisam aderir ao Google+. A amea√ßa do Facebook √© t√£o s√©ria √† vis√£o original do Google que hoje est√° claro que esta vis√£o original foi simplesmente abandonada. Hoje, o objetivo do Google √© o mesmo que o do Facebook, Apple, IBM, Microsoft, do IngSoc e do Grande Irm√£o. √Č o mesmo que o da outrora gigante AOL. √Č prender voc√™ em um jardim de ideologia pura de sua propriedade, do qual voc√™ n√£o deve sair, onde todos seus pensamentos possam ser capitalizados e vendidos. Um perfil, um login, uma rede social, √ļnica, para todo o planeta, √© o sonho perseguido por todas estas gigantes flexionando bilh√Ķes capitalizados no mercado.

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O objetivo nada secreto de toda corpora√ß√£o √© o lucro, n√£o deveria haver nenhuma grande novidade nisto. Se por um breve per√≠odo o Google promoveu uma filosofia aparentemente diferente, √© porque na peculiar situa√ß√£o que existia, a filosofia contr√°ria prometia maiores lucros no m√©dio e longo prazo. ‚ÄúN√≥s acreditamos firmemente que no longo prazo, seremos melhor servidos ‚Äď como acionistas e de todas outras formas ‚Äď por uma companhia que faz coisas boas para o mundo mesmo que deixemos de lado alguns ganhos de curto prazo‚ÄĚ, declarava o IPO do Google no mais pr√≥ximo de um manifesto ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ a que se chegou.

Funcionou, dez anos depois o Google trouxe enormes retornos a seus acionistas. A constatação triste é que hoje, todos os ganhos do Google, incluído, devem ser de curto prazo.

Se a hist√≥ria de reviravoltas de empresas de tecnologia √© um par√Ęmetro, por√©m, √© muito prov√°vel que as empresas mais valiosas e poderosas do mundo daqui a uma gera√ß√£o ainda nem existem, e enquanto empresas com centenas de bilh√Ķes em capitaliza√ß√£o movem seus ex√©rcitos em estrat√©gias para criar jardins de ideologia pura, uma nova empresa focada em tecnologia ainda por surgir pode sequer depender de um clique para ser acessada.

Google, eu gostaria que fosse você, mas de toda forma, obrigado pelos peixes.

Quicksort, em dan√ßa h√ļngara

Se você nunca ouviu falar em quicksort talvez não veja muita graça nesse vídeo. Mas deveria: é um algoritmo de ordenação e entendê-lo é entender alguns dos princípios fundamentais da computação moderna, a começar pela própria ideia de algoritmo.

Ao assistir √† peculiar dan√ßa h√ļngara, voc√™ consegue adivinhar quais s√£o as regras pelas quais o algoritmo quicksort funciona? Depois de tentar, veja a resposta aqui.

Aqui em 100nexos, já apresentamos o fabuloso algoritmo de ordenação Maggie. [via haha.nu]

Design Inteligente x Algoritmo Genético

Brincadeira de crian√ßa ‚Äď balan√ßar de p√©, mais r√°pido, mais alto. Nesta vers√£o virtual, no entanto, quem ganha: o boneco com movimentos programados pelo designer muito inteligente, o usu√°rio ‚Äúmunimuni‚ÄĚ, ou aqueles resultado de um algoritmo gen√©tico ap√≥s 22 gera√ß√Ķes?

O algoritmo gen√©tico simula a evolu√ß√£o natural. De in√≠cio, os movimentos s√£o aleat√≥rios, desengon√ßados, em uma convuls√£o descoordenada. O percurso do balan√ßo foi dividido em 32 partes, e para cada uma delas o boneco pode abaixar ou levantar (0 ou 1). Os melhores movimentos de cada gera√ß√£o s√£o transmitidos para a pr√≥xima, com pequenas varia√ß√Ķes, e assim sucessivamente. √Č fascinante ver cada batalh√£o dentro de uma gera√ß√£o e a evolu√ß√£o em pleno curso.

O resultado você vê ao final do vídeo. O boneco verde faz os movimentos programados pelo designer inteligente, muito parecidos com aquele que todos nós fazemos. Já o boneco vermelho, com movimentos determinados pelo algoritmo genético, continua com trejeitos um tanto engraçados. Mas os resultados podem surpreender!

Confira muito mais no canal de 99munimuni no Youtube.

Um guia r√°pido para o novo Google Reader

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Com as mudanças colocadas em prática hoje, as funcionalidades sociais do Google Reader foram extintas. E agora?

O bot√£o +1 substitui o antigo ‚ÄúLike‚ÄĚ, voc√™ clica e estar√° promovendo a popularidade do item que est√° lendo. Importante: ao clicar neste bot√£o voc√™ n√£o estar√° compartilhando o item que est√° lendo com ningu√©m. Veja o pr√≥ximo item.

Para onde foi o bot√£o de ‚ÄúShare‚ÄĚ, para compartilhar posts? Ele est√° no topo do Reader! Do lado superior direito:

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√Č preciso selecionar o item que voc√™ quer compartilhar e ent√£o clicar em ‚ÄúShare‚ÄĚ no topo, escolher os c√≠rculos com que deseja compartilhar e ent√£o finalmente em ‚ÄúShare‚ÄĚ outra vez.

Tamb√©m √© poss√≠vel compartilhar um item no Google+ dentro do item, clicando no bot√£o +1, passando o mouse sobre ele para ver a op√ß√£o de ‚ÄúShare on Google+‚ÄĚ, selecionando os c√≠rculos e compartilhando.

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Anteriormente, ao compartilhar um item voc√™ o compartilhava com todos seus amigos ou mesmo com toda a rede. Agora, para compartilhar com o mesmo n√≠vel de abertura ser√° preciso escolher os ‚ÄúExtended Circles‚ÄĚ. Do contr√°rio, apenas as pessoas nos c√≠rculos que voc√™ escolheu ver√£o seu item, e mesmo que algu√©m destes c√≠rculos queira ‚Äúre-compartilhar‚ÄĚ o item com mais pessoas, poder√° ter problemas.

Sim, são no mínimo três cliques, talvez mais, para substituir uma funcionalidade que na versão anterior do Google Reader necessitava de apenas um clique ou tecla.

E o bookmarklet para compartilhar qualquer p√°gina? O Google Reader se integrava com o Notes para permitir compartilhar p√°ginas com um bookmarklet. Ele n√£o funciona mais, mas h√° o bookmarklet do Google+. Ele permite compartilhar a p√°gina atual no G+ com um clique.

Para onde foram meus amigos? Quem eu seguia, quem me seguia? Todos est√£o no Google+ e a √ļnica forma de ler os itens deles, e deles lerem os seus, ser√° atrav√©s dos streams de c√≠rculos no Google+.

Mas onde est√£o os meus amigos do Reader no Google+? Para descobrir todos a quem voc√™ seguia e quem lhe seguiam, ser√° preciso acessar as configura√ß√Ķes do Reader. Dentro do Reader, no canto superior direito h√° uma engrenagem, acesse ‚ÄúReader Settings‚ÄĚ, e ent√£o a tab ‚ÄúImport/Export‚ÄĚ.

L√° voc√™ encontrar√° tanto a ‚ÄúList of people that you follow‚ÄĚ quanto a ‚ÄúList of people that follow you‚ÄĚ para fazer o download no formato JSON. O nome e endere√ßo dos perfis deles est√£o l√°, nos arquivos exportados following.JSON e followers.JSON.

E o que faço com esses JSON? O formato JSON foi feito para ser mais amigável e compreensível, mas se você abrir mesmo a pequena lista de amigos que acabou de baixar nesse formato em um editor de texto, pode não entender nada.

Thiago Avelino criou um app que filtra os arquivos JSON e lista o endereço dos perfis: http://readertogplusfriends.appspot.com/

Ainda será preciso visitar cada um dos perfis e adicioná-los um a um aos círculos do G+.

E agora? Se você se antecipou à mudança e já criou um círculo com todas as pessoas que você seguia no Reader, ou se os criou agora, basta acessar o stream desse círculo no G+ e basta que todos nesse círculo passem a compartilhar os itens no G+ e basta que aqueles que o seguiam também tenham criado seus círculos incluindo você e você também compartilhe tudo no G+ e nenhuma das pessoas tenha se confundido ou esteja compartilhando com círculos fechados para que tudo fique quase como era antes.

O Google Reader era, e continua sendo, a forma mais pr√°tica de consumir conte√ļdo da rede. Os sites disponibilizam o feed RSS de seu conte√ļdo, e o Reader, em um aplicativo completamente na nuvem, permite que voc√™ organize e acompanhe esses feeds em tempo real a partir de uma √ļnica interface focada no conte√ļdo. Lamentavelmente, esta atualiza√ß√£o pouco (ou nada) adicionou de funcionalidade no Reader como leitor de feeds.

O Google Reader também era, e não é mais, uma rede social distinta focada nos usuários desse aplicativo.

Serpentes

A sugest√£o de infinitos an√©is entrela√ßados, percorridos por tr√™s Serpentes, na √ļltima gravura do artista holand√™s M.C. Escher, revisitada em uma anima√ß√£o tridimensional de Crist√≥bal Vila.

Depois de mergulhar na vers√£o digital, confira como Escher criou originalmente a obra h√° quatro d√©cadas, gravando em madeira os blocos que imprimiriam o c√≠rculo completo em tr√™s partes id√™nticas ‚Äď cada uma delas com tr√™s cores, preto, marrom e verde.

O vídeo do artista criando estas obras desafiando a precisão manual, sempre com a sugestão da perfeição geométrica, é imperdível.

N√£o por coincid√™ncia, o pr√≥prio Escher era um admirador da arte abstrata e geom√©trica que adornava a arquitetura isl√Ęmica, tema de outros v√≠deo de Vila, Isfahan:

Vila talvez seja mais conhecido por um outro vídeo recente sensacional associando a sequência de Fibonacci a formas da natureza.

Benoit Mandelbrot (1924-2010)

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No √ļltimo dia 14 de outubro, faleceu aos 85 anos o matem√°tico Benoit Mandelbrot. Uma das figuras mais influentes na √°rea nas √ļltimas d√©cadas, Mandelbrot se tornou conhecido como pai da geometria fractal, termo que cunhou e popularizou.

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O amigo girino oferece um tutorial sobre fractais com ênfase em seu aspecto matemático e computacional. O Osame também havia escrito um texto para leigos sobre Fractais: Uma nova visão da natureza.

[Imagens: Mandelbrot recursivo; conjunto de Mandelbrot]

Somos um epifen√īmeno

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Toda a humanidade foi infectada pelo v√≠rus zumbi, que mata em 24 horas. N√£o h√° cura, todos ir√£o morrer. Todos os mortos, depois de mais 24 horas, se tornam zumbis e podem vagar indefinidamente exigindo ‚Äúc√©√©√©rebros‚ÄĚ. Mas h√° esperan√ßa.

Nem todos foram infectados ao mesmo tempo, e se duas pessoas vivas conseguirem agarrar um zumbi, podem revivê-lo como uma pessoa normal em um dia. Infelizmente, o tratamento é um paliativo que só funciona temporariamente, mais precisamente por 24 horas, após as quais a pessoa morre outra vez. E mais um dia depois, volta a se tornar um zumbi.

Pode soar como um enredo elaborado de um p√©ssimo filme de zumbis, mas s√£o as regras do ‚ÄúJogo da Morte‚ÄĚ, um apelido para uma variante criada por Brian Silverman para o ‚ÄúJogo da Vida‚ÄĚ ‚Äď n√£o, n√£o o de roletas e tabuleiro ‚Äď, uma das mais populares aplica√ß√Ķes de aut√īmatos celulares (CAs). Voc√™ confere mais sobre CAs, o Jogo da Vida de John Conway e a possibilidade de que o Universo seja um programa em um grande computador em ‚ÄúO Universo √© Matrix?‚ÄĚ.

Por aqui, convido você a apreciar a animação abaixo:

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Ela ilustra a situação já vários dias após a infecção, onde cada pixel representa uma pessoa. O cenário começa já com uma vasta área de pixels pretos, os zumbis, destino que aguarda a todos. Contudo restam algumas pessoas vivas, os pixels brancos, e algumas mortas que ainda não se converteram em zumbis, em azul. Cada quadro da animação representa a passagem de um dia. Ao todo, são 201 dias.

Note como a mudan√ßa de estado das pessoas de vivas, para mortas, para zumbis, e eventualmente de volta √† vida se propaga pela √°rea com grande rapidez. As formas que parecem viajar pela anima√ß√£o n√£o s√£o zumbis correndo em busca de ‚Äúc√©√©√©rebros‚ÄĚ. Nesta representa√ß√£o, os pixels, as pessoas, permanecem im√≥veis e o que est√° se propagando √© o padr√£o de pessoas/cad√°veres/zumbis. O que se desloca na anima√ß√£o √© a infec√ß√£o, n√£o as pessoas.

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Se voc√™ ainda est√° lendo este texto, talvez por pura paix√£o por zumbis, ainda assim j√° pode estar se perguntando aonde se quer chegar. Bem, a forma como um padr√£o inicial (a semente) rapidamente se espalha por toda a √°rea e gera uma enorme variedade de padr√Ķes em verdade indica como esta representa√ß√£o, este aut√īmato celular, √© capaz de representar complexidade. Tanto √© assim que seu nome original n√£o era ‚ÄúJogo da Morte‚ÄĚ, envolvendo infec√ß√Ķes e mortos-vivos.

O aut√īmato celular foi inicialmente batizado como ‚ÄúC√©rebro de Brian‚ÄĚ, porque ao inv√©s de zumbis voc√™ pode imaginar neur√īnios prontos para disparar ‚Äď os pixels pretos. Os neur√īnios disparando, brancos, est√£o ‚Äúvivos‚ÄĚ. Os neur√īnios que acabaram de disparar precisam de um ciclo de descanso, est√£o ‚Äúmortos‚ÄĚ, s√£o azuis. E, finalmente, um neur√īnio dispara se dois neur√īnios adjacentes est√£o disparando. Exatamente as mesmas regras, exatamente a mesma ilustra√ß√£o, mas se este texto come√ßasse falando de neur√īnios voc√™ talvez n√£o tivesse chegado at√© aqui. Confesse.

Al√©m da brincadeira e da coincid√™ncia entre zumbis e c√©rebros, este texto fala de epifen√īmenos. Na anima√ß√£o acima, por exemplo, o fen√īmeno observado de um padr√£o de infec√ß√£o propagar-se de maneira est√°vel, cruzando a tela, √© um epifen√īmeno da infec√ß√£o zumbi. Isto √©, que a humanidade est√° sendo afligida por esta terr√≠vel doen√ßa que s√≥ um p√©ssimo roteirista ou matem√°tico imaginaria, este √© o fen√īmeno principal, todos podemos concordar. Que um padr√£o de pessoas vivas, mortas e zumbis se propague entre a popula√ß√£o √© um fen√īmeno secund√°rio, paralelo. √Č um epifen√īmeno.

Agora, relembremos que a anima√ß√£o tamb√©m √© uma analogia do ‚ÄúC√©rebro de Brian‚ÄĚ, ou o seu c√©rebro, ou o meu c√©rebro. Que neur√īnios andam disparando para l√° e para c√° segundo alguma regra, esse √© o fen√īmeno. Que padr√Ķes de neur√īnios disparando se propaguem por este modelo de c√©rebro, que aumentem em complexidade aparente e gerem uma pletora de imagens, esse ser√° um fen√īmeno secund√°rio, paralelo. Ser√° um epifen√īmeno.

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Ser√≠amos um epifen√īmeno? Consci√™ncia e intelig√™ncia em si mesmas s√£o epifen√īmenos de outras adapta√ß√Ķes evolutivas. Se fossem o fen√īmeno principal da vida, da evolu√ß√£o, esperaria-se que tudo fosse consciente e inteligente, quando em verdade poucas esp√©cies dedicam muitos recursos √† intelig√™ncia, e n√≥s permanecemos largamente isolados em nossa consci√™ncia, inclusive, da solid√£o. Sentimentos e pensamentos que partilhamos apenas parcialmente com alguns de nossos parentes s√≠mios e mam√≠feros mais pr√≥ximos.

A verdadeira inspira√ß√£o para este texto, contudo, √© notar como o pr√≥prio Universo pode ser um epifen√īmeno. Em ‚ÄúO Universo √© Matrix?‚ÄĚ, abordamos a quest√£o de que, se o Universo √© um programa em um computador, n√£o √© necess√°rio presumir que este programa tenha sido projetado para processar nossa exist√™ncia. Retorne √† anima√ß√£o da infec√ß√£o zumbi ou de um c√©rebro. Note como a complexidade que se v√™ √© um epifen√īmeno, algo secund√°rio que ocorre casual e paralelamente a um fen√īmeno prim√°rio.

Pois bem, aut√īmatos celulares como o ‚ÄúJogo da Morte‚ÄĚ, ou o ‚ÄúC√©rebro de Brian‚ÄĚ, j√° foram demonstrados como computadores universais. Pode-se criar um padr√£o inicial de pessoas vivas/mortas/zumbis em um grande cen√°rio que seja capaz de processar informa√ß√£o ‚Äď representada por mais padr√Ķes de pessoas ‚Äď exatamente como qualquer computador. Se o Universo √© um programa comput√°vel, ele poderia ser computado pelo ‚ÄúJogo da Morte‚ÄĚ. Ele poderia ser computado como padr√Ķes de infec√ß√£o zumbi.

J√ľrgen Schmidhuber, do Instituto Dalle Molle de Estudos em Intelig√™ncia Artificial na Su√≠√ßa, nota que uma x√≠cara de ch√°, simplesmente ao existir, estaria efetuando c√°lculos. Epifen√īmenos ocorrem na intera√ß√£o entre o ch√° e a x√≠cara, o ar e tanto mais. O que computam? Provavelmente nada muito interessante, mas se ela pode ser vista como um computador efetuando c√°lculos quaisquer, nosso pr√≥prio Universo poderia estar tendo lugar em Outro como algo t√£o desinteressante quanto uma x√≠cara de ch√° √© para n√≥s.

O padr√£o de infec√ß√£o zumbi √© algo bem mais interessante que uma x√≠cara de ch√°, por outro lado, e ilustra talvez de forma ainda mais poderosa como epifen√īmenos complexos podem emergir. Nosso Universo pode n√£o s√≥ ser Matrix, pode ser um padr√£o de infec√ß√£o zumbi em outro Universo. Alheio a todo o o drama, o pr

A Garota Afeg√£ em 3D

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A Garota Afegã é uma das mais famosas e celebradas fotografias modernas, capturada pelo fotógrafo Steve McCurry em junho de 1984 em um campo de refugiados, enquanto o Afeganistão era ocupado por forças soviéticas. Como capa da revista National Geographic e a imagem mais reconhecida da história de mais de 100 anos da publicação, a menina só foi identificada por nome e localizada quase vinte anos depois como Sharbat Gula, já uma mulher de 30 anos vivendo sob o regime fundamentalista Talebã.

Nesta bela imagem de enorme contexto hist√≥rico, o detalhe √© que o que vemos aqui n√£o √© uma fotografia. √Č uma recria√ß√£o digital realizada por computa√ß√£o gr√°fica pelo artista Hyun Kyung Up. Ele utilizou os programas Z-Brush, 3D Max e Photoshop para ‚Äúexpressar as singulares obras de arte [de McCurry]‚ÄĚ, que vem fazendo um tour e passou inclusive pelo Brasil.

Abaixo, algumas capturas de tela do processo de modelagem:

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A recria√ß√£o √© imensamente bela e quase perfeitamente acurada, mas admirei ainda mais o relance parcial de seu rosto visto de frente ‚Äď ainda que sem os poderosos olhos verdes. Esta outra vis√£o de Sharbat Gula tem grande significado porque, como se descobriu, Gula s√≥ foi fotografada tr√™s vezes em toda sua vida. A primeira justamente aos doze anos, no que se tornou o registro ic√īnico. Apenas ao redor de 2002 a busca por ela p√īde ser empreendida, e como parte da procura ela foi fotografada uma segunda vez, identificada, para ent√£o ser finalmente clicada novamente por McCurry. Ela mesma s√≥ viu seu famoso retrato em 2003.

Hyun Kyung Up pode ter recriado outra visão de uma beleza jovem e também perturbadora que estaria do contrário perdida para sempre.

Vinte e seis anos depois, tanto mudou, e no entanto, tão pouco. No ocidente, especialmente nos EUA, onde antes uma beleza perturbadora chamou atenção ao sofrimento de refugiados por todo o mundo durante uma ocupação soviética, agora uma outra revista publica em sua capa um retrato chocante de outra bela jovem afegã, mas desta vez, horrivelmente desfigurada. Desta vez são os próprios EUA que ocupam o Afeganistão, e a mensagem que se pretendeu transmitir foi bastante diferente.

N√£o √© minha inten√ß√£o afirmar aqui qualquer posicionamento pol√≠tico simples sobre a ocupa√ß√£o do Afeganist√£o, os EUA, ou mesmo a URSS e o Taleb√£. Se 26 anos depois tanto mudou, mas t√£o pouco mudou, √© porque as quest√Ķes n√£o s√£o nada simples. Mas ao partilhar esta reinterpreta√ß√£o fabulosa de uma fotografia bel√≠ssima e repleta de significado precisava mencionar ao menos alguns dos nexos pol√≠ticos que esta arte pode inspirar. At√© porque o t√≠tulo deste post pode soar como uma vers√£o superficial e de puro entretenimento para uma fotografia t√£o s√©ria.

‚ÄúA Garota Afeg√£ em 3D‚ÄĚ e a arte digital, como arte, podem e devem provocar reflex√£o. Com ZBrush, Max e Photoshop.

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[Sugestão de Paulo Dias na Ciencialist. Arte apresentada no fórum ZBrushCentral]

A barra de progresso de download é uma ilusão

Olhar uma barra de progresso avançando lentamente não é um dos momentos mais emocionantes ao mexer em um computador, mas já inclui uma ilusão de percepção. Um estudo de Chris Harrison, Zhiquan Yeo e Scott Hudson, da Universidade de Carnegie Mellon, mostra que barras de progresso animadas, que hoje são onipresentes em sistemas operacionais, aparentam ser até 11% mais rápidas do que realmente são.

No v√≠deo acima, cortesia da New Scientist, todas as barras com anima√ß√Ķes variadas avan√ßam com a mesma velocidade, mas √© poss√≠vel perceber que algumas parecem andar mais r√°pido que outras. Posteriormente vemos como uma barra em que a varia√ß√£o de cor se torna mais r√°pida √† medida que a barra se aproxima do final parece acelerar ‚Äď quando a velocidade √©, em verdade constante. Finalmente, vemos como uma anima√ß√£o com ‚Äúondas‚ÄĚ movendo-se na mesma dire√ß√£o do progresso da barra parece faz√™-la andar mais devagar. Ondas no sentido contr√°rio, ao inv√©s, aceleram a percep√ß√£o de avan√ßo.

Tudo ilus√£o, e uma baseada em estudos anteriores que j√° haviam mostrados como est√≠mulos r√≠tmicos ‚Äď como ondas piscando ‚Äď podem alterar a percep√ß√£o de tempo, e tamb√©m como nossa percep√ß√£o de movimento depende do contexto. O primeiro efeito explicaria a ilus√£o de movimento acelerado com piscadas gradualmente acelerando, o segundo responderia pela acelera√ß√£o aparente √† medida em que as ondas viajam no sentido contr√°rio parecem destacar o movimento da barra de progresso.

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F√£s de produtos Apple ficar√£o animados com o fato de que barras de progresso com anima√ß√Ķes similares alcan√ßaram os computadores da empresa de Steve Jobs j√° h√° mais de uma d√©cada, mas usu√°rios Windows v√™m apreciando barras de progresso mais animadas em vers√Ķes recentes do sistema. Tais melhorias visuais n√£o parecem ter levado em conta tais efeitos de percep√ß√£o: as anima√ß√Ķes foram originalmente inseridas provavelmente como um simples indicador de que o sistema n√£o travou e ent√£o tamb√©m como atrativos visuais.

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Curiosamente, talvez por isso mesmo nenhum desses sistemas aplica as ilus√Ķes da forma mais efetiva indicada agora pelo trabalho de Harrison. A dire√ß√£o em que as ‚Äúondas‚ÄĚ de movimento na barra viajam deveria ser invertida, e as mudan√ßas pulsantes de cor poderiam, ao inv√©s de ser constantes, acelerar √† medida em que a tarefa chegasse perto do fim.

S√£o apenas ilus√Ķes de progresso: a velocidade das barras continuar√° exatamente a mesma, mas este √© um caso em que o usu√°rio poder√° gostar de ser enganado, vendo o tempo passar mais r√°pido.

S√≥ tor√ßamos para que operadores de telemarketing n√£o passem a explorar tamb√©m ilus√Ķes auditivas. [via Gizmodo BR]

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Harrison, C., Yeo, Z., and Hudson, S. E. 2010. Faster Progress Bars: Manipulating Perceived Duration with Visual Augmentations. In Proceedings of the 28th Annual SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems (Atlanta, Georgia, April 10 – 15, 2010). CHI ’10. ACM, New York, NY. (22% acceptance rate, Best Paper Nomination)

Espirrando — e triplicando a resolu√ß√£o de seu monitor

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Voc√™ j√° espirrou na tela do monitor? √Č algo fascinante ‚Äď se apreciado da forma correta, claro, tudo pode ser fascinante. Experimente. N√£o √© preciso contaminar a tela; pode-se molhar a m√£o e ent√£o chacoalh√°-la, jogando muito levemente got√≠culas de √°gua sobre ele. Got√≠culas, √© bom alertar, n√£o se deve encharcar o monitor.

Aqui est√° o fascinante: as gotas sobre o monitor adquirem uma apar√™ncia multicolorida, alternando entre vermelho, verde e azul, mesmo que o monitor esteja exibindo uma imagem completamente branca. Isto ocorre porque a imagem completamente branca √© em verdade formada por uma s√©rie de elementos vermelhos, verdes e azuis, e as got√≠culas de √°gua agem como lentes de aumento, permitindo que voc√™ veja estes min√ļsculos elementos individualmente. Voc√™ tamb√©m poderia se fascinar observando o monitor com uma lupa ‚Äď s√≥ n√£o seria algo t√£o nerd (ou nojento?) quanto admirar got√≠culas de cuspe sobre o monitor.

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