Do Barro ao Espaço (so was Sagan)

tumblr_meje4cXeVb1qfub7eo1_500

Acima, o mapa estelar do K 8538, um disco de barro com escrita cuneiforme representando o céu em quadrantes como visto pelos sumérios há quase três milênios.

Abaixo, o disco folheado a ouro enviado com as sondas Voyager e que j√° adentra o espa√ßo exterior. Ele cont√©m na parte inferior esquerda um padr√£o radial com 15 linhas, 14 das quais representam pulsares e sua dist√Ęncia relativa ao Sol.

2036268195_3b85ad4c74_b

Há uma semelhança visual entre o disco sumério e o da NASA, e o mais fabuloso é que ela vai além disso. Troca-se o cuneiforme pelo binário e o céu como visto da Terra pela Via Láctea demarcada por pulsares e seu centro, mas os dois riscados cumprem o mesmo objetivo.

Ambos s√£o representa√ß√Ķes simb√≥licas do conhecimento adquirido por aqueles que olhavam para as estrelas e permitem que intelig√™ncias separadas pelo espa√ßo e tempo possam encontrar umas √†s outras enquanto ainda olharem para as estrelas. Ambos discos dizem ‚Äúeu estive aqui‚ÄĚ.

189739300_c42bcdb90e

Se voc√™ conhece algo das constela√ß√Ķes, pode estudar o disco sum√©rio e compartilhar este conhecimento atrav√©s do espa√ßo e tempo com a pessoa que marcou aqueles riscos na argila entre os rios Tigre e Eufrates h√° milhares de anos. Se n√£o conhece, ainda h√° tempo de conhecer. E ainda h√° tempo para descobrir o que s√£o pulsares e como eles permitem localizar nosso sistema solar no espa√ßo-tempo mesmo a muitos milhares de anos-luz de dist√Ęncia.

Algum dia, daqui a muito tempo, em algum lugar, alguma outra inteligência pode encontrar o disco dourado das sondas Voyager e ao compreendê-lo, também compartilhará deste conhecimento. De alguma forma, saberá que você, assim como a cultura, a ciência e particularmente a pessoa que criou aquele disco de barro, existiu.

Porque a inteligência, ainda que rara, é tão Universal quanto as estrelas.

Os Vestidos do Golden Globe: Saias, Barbas e Psico-história

Bd1GNMeIIAIUscA

Moda (s.f.): estilo passageiro que dita o modo de vestir, viver, falar, etc.

Enquanto a moda comenta hoje os vestidos do Globo de Ouro, h√° mais de sete d√©cadas atr√°s era publicado um estudo com o curioso t√≠tulo de ‚ÄúTr√™s S√©culos de Moda em Vestidos Femininos: Uma An√°lise Quantitativa‚ÄĚ (Richardson, Kroeber, 1940). Sim, h√° ci√™ncia antropol√≥gica na moda! E as conclus√Ķes podem nos levar a barbas e fic√ß√£o cient√≠fica! Mas comecemos um nexo de cada vez.

Centímetros, não sentimentos

A moda tem seu aspecto pessoal, subjetivo, qualitativo. Ainda assim, e especialmente na moda de roupas, ela produz algo físico, objetivo, mensurável e quantitativo: uma peça de roupa pode ser medida em centímetros.

Foi justamente a partir desta sacada que em 1919 o antrop√≥logo Alfred Kroeber encontrou a oportunidade para estudar a evolu√ß√£o da moda de forma objetiva. N√£o √© que fosse um um especial apreciador de vestidos, mas √© que folhear imagens de vestidos em revistas de moda feminina ‚Äúfornece um conjunto conveniente e promissor de dados para um estudo de como mudan√ßas estil√≠sticas ou est√©ticas ocorrem quando s√£o examinadas quantitativamente ao inv√©s de intui√ß√£o ou sentimentos subjetivos‚ÄĚ. Um tanto o oposto do que se esperaria de algu√©m folheando revistas de moda.

Em 1940, Jane Richardson expandiu a pesquisa inicial de Kroeber e cobriu os três séculos de moda, analisando vestidos de 1605 a 1936 e é assim graças a Richardson e Kroeber que não precisamos vasculhar três séculos de moda para ter uma ideia dos dados e ao invés simplesmente apreciar seus gráficos.

Especialmente claro é o gráfico da medida da largura da saia de 1788 a 1936:

 rk-5

Note um vale ao redor de 1810, com larguras de saia mais estreitas; um pico em 1860, saias mais largas; e um novo vale ao redor de 1910-1924, saias outra vez mais estreitas.

Uma das conclus√Ķes dos antrop√≥logos √© que a moda n√£o √© uma reviravolta t√£o livre quanto seus criadores costumam pint√°-la: sim h√° flutua√ß√Ķes que n√£o podem ser previstas, especialmente em per√≠odos de instabilidade, e a moda deste ano √© diferente da do ano anterior. S√£o os pontos no gr√°fico. Contudo, analisadas ao longo do tempo em uma m√©dia m√≥vel de cinco anos ‚Äď a linha s√≥lida — as medidas dos vestidos mudam com uma certa in√©rcia, e acabam produzindo uma curva mais suave de periodicidade.

‚ÄúO papel de indiv√≠duos particulares em moldar o estilo b√°sico de vestimenta √© pequeno. A influ√™ncia de indiv√≠duos criativos ou importantes √© provavelmente exercida em sua maior parte em acess√≥rios de moda transit√≥rios‚ÄĚ, concluem os autores. Supostos grandes influenciadores da moda como Maria Antonieta eram mais provavelmente apenas representantes de movimentos culturais muito maiores a quem o cr√©dito pela mudan√ßa foi atribu√≠do.

Se estas conclus√Ķes ‚Äď a de que a moda n√£o muda no v√°cuo e apresenta in√©rcia ‚Äď parecem √≥bvias, e vasculhar tr√™s s√©culos de registros de vestidos parecer uma perda de tempo, √© apenas porque elas parecem √≥bvias em retrospecto. Sem esses dados, seria apenas um palpite. Gra√ßas a Richardson e Kroeber, √© uma conclus√£o apoiada em dados. √Č ci√™ncia!

Somatória de Barbas

Inspirado pelas conclus√Ķes e metodologia  de Richardson e Kroeber, o economista Dwight E. Robinson resolveu analisar 130 anos de barbas publicadas na revista Illustrated Longon News, de 1842 a 1972. Em ‚ÄúModa no Barbear e Corte de Barbas: os Homens da Illustrated London News, 1842-1972‚ÄĚ, encontramos estes excelentes gr√°ficos de predomin√Ęncia de costeletas, bigodes e barbas ao longo dos anos:

 

48f099108

Como pode ser notado no √ļltimo gr√°fico acima, a somat√≥ria de todos os tipos de barba mostra um padr√£o maior ainda mais claro. Ao redor de 1880 quase todos usavam algum tipo de barba, em 1970, quase ningu√©m. E, de forma intrigante, barbas em particular apresentam uma grande correla√ß√£o com a largura de vestidos:

e794322ba

Ou seja, enquanto mais homens usavam barbas, mais mulheres usavam saias largas. De novo, pode parecer √≥bvio em retrospecto, basta lembrar de um t√≠pico casal vitoriano, mas observar a suavidade e concord√Ęncia destas curvas se estendendo por mais de um s√©culo √© fant√°stico.

Psico-história

‚ÄúHari Seldon desenvolveu a psico-hist√≥ria modelando-a na teoria cin√©tica dos gases. Cada √°tomo ou mol√©cula em um g√°s se move aleatoriamente, de forma que n√£o podemos saber a posi√ß√£o ou velocidade de qualquer um deles. Ainda assim, usando estat√≠stica, podemos descobrir as regras governando seu comportamento coletivo com grande precis√£o. Da mesma forma, Seldon quis descobrir o comportamento coletivo das sociedades humanas ainda que as solu√ß√Ķes n√£o se aplicassem ao comportamento de seres humanos individuais‚ÄĚ. ‚Äď Isaac Asimov

Analisar grandes movimentos hist√≥ricos estatisticamente para prever o futuro como uma ci√™ncia √© fic√ß√£o cient√≠fica ‚Äď e, como Osame Kinouchi me apontou, fic√ß√£o inspirada pela ci√™ncia, ainda que fosse e ainda sejam sonhos cient√≠ficos. √Č assim fascinante descobrir que enquanto Asimov escrevia sobre a psico-hist√≥ria j√° havia estudos como o de Kroeber e Richardson analisando de forma quantitativa a hist√≥ria de movimentos est√©ticos. Nada t√£o imponente quanto prever a ascens√£o e queda de civiliza√ß√Ķes, mas analisar o comprimento de vestidos j√° √© um come√ßo.

Se isso √© ci√™ncia, contudo, qual √© seu poder preditivo? Podemos prever o futuro da moda, o comprimento dos vestidos e das barbas das gera√ß√Ķes futuras?

Em um estudo mais recente, ‚ÄúMudan√ßa Estil√≠stica e Moda em Vestidos Femininos: Regularidade ou Aleatoriedade?‚ÄĚ (1984), John e Elizabeth Lowe revisam o trabalho de Richardson e Kroeber, comparando cinco anos de sua s√©rie com novos dados e estendendo-a com dados at√© 1983. Al√©m de confirmar as principais conclus√Ķes do estudos anterior, os Lowe v√£o al√©m e formulam um modelo para explicar medidas no passado e sua evolu√ß√£o futura! Esta equa√ß√£o explicaria os vestidos do Golden Globe deste ano e de todos os outros?

11732e01

A resposta √© negativa. ‚ÄúUma vez que o modelo √© estoc√°stico, isto √©, ru√≠do ou imprevisibilidade √© uma parte inerente do processo, a capacidade de projetar valores futuros decai rapidamente com o passar o tempo‚ÄĚ, notam os autores. ‚ÄúA conclus√£o central √© que o processo de moda de vestidos femininos √© prediz√≠vel, mas apenas escassamente‚ÄĚ.

A psico-hist√≥ria da moda de vestidos e barbas ainda n√£o enxerga muito longe‚Ķ pelo menos com dados de ‚Äúapenas‚ÄĚ tr√™s s√©culos de moda em revistas e ilustra√ß√Ķes. O que cientistas do futuro poder√£o fazer com as bilh√Ķes de fotos de moda em redes sociais desde o in√≠cio deste s√©culo 21, talvez s√≥ Hari Seldon poder√° dizer.

[via Flowing Data, ver também Measuring Time with Artifacts e Analyzing Visual Data]

Carro atravessa explos√£o em c√Ęmera lenta

√Č um carrinho de brinquedo, mas s√£o 3.000 quadros por segundo. Aten√ß√£o na forma como ao estourar, o bal√£o for√ßa um jato de hidrog√™nio contra a chama que afeta a forma como a combust√£o se espalha por todo o g√°s enquanto se mistura com o ar.

Faucaria e HR Giger

alien jaw faucaria tigrina 2

Com a estreia de Prometheus é divertido descobrir que há uma planta no estilo de HR Giger, criador da bizarra estética de Alien.

alien jaw faucaria tigrina 3

√Č uma Faucaria tigrina, do g√™nero Faucaria, com folhas triangulares com protuber√Ęncias nas extremidades que parecem bocas de animais (fauces em latim). Ou de um Alien.

faucaria377

Apesar da aparência de bocas, as plantas não são carnívoras, e sim suculentas, retendo água no interior das grossas e bizarras folhas. Não mordem ninguém.

Mais imagens em Kuriositas, e para mais Alien e Prometheus, a resenha de Gabriel Cunha no Ciensinando:

A Teia de Indra

3022863049_9fea50d9d4_b

“Na distante morada celestial do grande deus Indra, h√° uma rede maravilhosa que foi pendurada por um habilidoso art√≠fice de tal maneira que ela se estende infinitamente em todas as dire√ß√Ķes. De acordo com o gosto extravagante das deidades, o art√≠fice pendurou uma j√≥ia brilhante em cada intersec√ß√£o da rede, e uma vez que a rede √© infinita em tamanho, as j√≥ias s√£o infinitas em n√ļmero. L√° est√£o as j√≥ias, brilhando como estrelas de primeira magnitude, uma vis√£o maravilhosa de testemunhar. Se agora olharmos de perto cada uma das j√≥ias, iremos descobrir que em sua superf√≠cie polida est√£o refletidas todas as outras j√≥ias da rede, infinitas em n√ļmero.
N√£o apenas isso, mas cada uma das j√≥ias refletida nessa √ļnica j√≥ia tamb√©m est√° refletindo todas as outras j√≥ias, de modo que h√° um processo de reflex√£o infinito acontecendo‚ÄĚ.

A met√°fora da rede de Indra, desenvolvida na filosofia budista h√° quase dois mil√™nios, √© mesmerizante. E ela pode ser atualizada com o conhecimento que adquirimos do mundo natural, pois h√° v√°rios limites √† constru√ß√£o de uma teia de Indra que s√≥ viemos a descobrir em gera√ß√Ķes recentes.

O primeiro, a velocidade da luz, impediria que cada j√≥ia represente o reflexo instant√Ęneo de todas as outras, isto √©, quanto mais distantes, mais o reflexo observado estar√° no passado. Este limite se relaciona com as estrelas no c√©u noturno, √† medida que observamos estrelas como eram no passado, por vezes h√° muitos milh√Ķes de anos. Cada j√≥ia da teia de Indra reflete n√£o o presente, mas o passado das j√≥ias ao seu redor.

Ainda que a velocidade da luz fosse instant√Ęnea e uma olhada em uma j√≥ia permitisse vislumbrar o reflexo instant√Ęneo de todas as outras, encontrar√≠amos outro limite do mundo natural: a mec√Ęnica qu√Ęntica. A luz n√£o pode ser decomposta em peda√ßos infinitamente pequenos para compor reflexos de complexidade sem fim. Sua menor unidade √© um pacote discreto, um f√≥ton, e o princ√≠pio da incerteza impede que um reflexo contenha informa√ß√£o ilimitada. Cada j√≥ia da teia de Indra cont√©m em seu reflexo informa√ß√£o limitada sobre as j√≥ias ao seu redor.

Todas as jóias da rede ainda se inter-relacionam, mas o espaço e o tempo bem a quantidade de informação em cada jóia são limitados. A teia não se altera instantaneamente, qualquer mudança se propaga pelos nós ainda que eles sejam apenas jóias refletindo umas às outras. E o vislumbre do reflexo de uma jóia será apenas parte da complexidade de toda a teia, em um instante determinado do tempo.

A teia de Indra se torna mais org√Ęnica e natural.

[Fotografia de christophandre, via galeria de fotos de Kuriositas. Excerto de Francis Cook via Wikipedia]

O Ponto de Feynman

Pi_digits_distribution_update

Os primeiros d√≠gitos do Pi cont√™m muitas repeti√ß√Ķes de n√ļmeros duplos, destacados em amarelo, e algumas repeti√ß√Ķes de n√ļmeros triplos, em verde. Na posi√ß√£o decimal 762, no entanto, surge uma repeti√ß√£o de seis n√ļmeros nove: 999999.

Richard Feynman certa vez brincou que gostaria de memorizar todos os d√≠gitos do Pi at√© esse ponto, de forma que poderia recit√°-los e terminar com um ‚Äúnove nove nove nove nove nove e assim por diante‚ÄĚ, sugerindo que o Pi continuaria com a s√©rie de noves e seria assim um n√ļmero racional. √Č uma piada para iniciados, uma vez que o Pi √© um n√ļmero transcendental: se voc√™ ri da diferen√ßa entre um n√ļmero racional e um transcendental vai entender a piada.

Essa sequ√™ncia de seis noves no Pi ficou conhecida assim como ‚ÄúPonto de Feynman‚ÄĚ, e √© uma curiosa coincid√™ncia, mesmo uma anomalia. Considerando o Pi como um n√ļmero normal, em que grosso modo os n√ļmeros ‚Äúsurgem‚ÄĚ com igual probabilidade, as chances dessa repeti√ß√£o de seis d√≠gitos ocorrer √© de apenas 0,08%. Para fazer ideia de qu√£o improv√°vel ela √©, a pr√≥xima repeti√ß√£o de seis d√≠gitos id√™nticos no Pi ocorre na posi√ß√£o 193.034. E ela tamb√©m √© de noves!

Spoiler: Em ‚ÄúContato‚ÄĚ, no livro original de Carl Sagan, a protagonista ao final descobre nada menos que Deus, ou o Criador do Universo, ao decodificar uma mensagem nos d√≠gitos do Pi. O Pi √© uma constante matem√°tica e uma mensagem arbitr√°ria s√≥ poderia ser codificada nele por um Ser que tivesse criado os pr√≥prios fundamentos da Realidade. O que √© uma excelente reviravolta no romance de fic√ß√£o, mas os matem√°ticos com suas piadas sobre n√ļmeros racionais e transcendentais tamb√©m querem provar que o Pi √© em verdade um n√ļmero normal, como vimos acima, o que significaria que qualquer mensagem arbitr√°ria que fosse encontrada em seus d√≠gitos seria mero acaso.

Voc√™ pode brincar de encontrar ‚Äúmensagens‚ÄĚ no Pi clicando em Pi-Search. Buscando nos primeiros 100 milh√Ķes de d√≠gitos, as chances de encontrar qualquer sequ√™ncia de 6 n√ļmeros ‚Äď como a sua data de nascimento ou senha de banco ‚Äď √© de quase 100%.

Arte em Ondas Estacion√°rias

Uma corda, dois motores. Girando em sentidos contr√°rios, a instala√ß√£o de arte de Daniel Palacios cria ondas estacion√°rias que variam de acordo com o movimento do p√ļblico ao redor. A arte cria tanto formas tridimensionais quanto sons cortando o ar.

Entender algo da arte envolvendo ondas estacionárias revela um tanto do segredo desse outro vídeo:

Aqui, o truque principal est√° na c√Ęmera, que captura imagens em v√°rios quadros por segundo ‚Äď a olho nu n√£o se v√™em as gotas im√≥veis no ar, exceto se todo o conjunto fosse iluminado por luz piscante, estrobosc√≥pica. Mas se poderia sim ver os fios de √°gua dobrados pelo som, em ondas estacion√°rias no ar.

A Inteligência é uma Força Fundamental da Natureza

Existem quatro for√ßas fundamentais na natureza. Tudo que conhecemos interage fundamentalmente atrav√©s destas quatro for√ßas: gravidade, eletromagnetismo e as for√ßas nucleares forte e fraca. Cada uma se comporta e √© modelada de forma diferente, e depois que Albert Einstein unificou massa e energia, seu grande sonho passou a ser unificar todas as for√ßas fundamentais em um s√≥ modelo, de forma a atingir uma Teoria de Tudo. Todo o Universo modelado fundamentalmente por um conjunto √ļnico de equa√ß√Ķes.

Que as for√ßas nucleares forte e fraca fossem descobertas ‚Äď Einstein iniciou seu projeto apenas com a gravidade e eletromagnetismo ‚Äď e a f√≠sica qu√Ęntica demonstrasse que em escala subat√īmica tudo se comportava de forma, digamos, qu√Ęntica, significou que seus sonhos permaneceram inacabados. A fotografia de como deixou seu escrit√≥rio em Princeton para a posteridade de certa forma reflete sua obra sem fim.

einstein

Desde então, não descobrimos mais forças fundamentais na natureza, e de fato conseguimos unificar duas delas: a força nuclear fraca e o eletromagnetismo podem ser modelados como formas diferentes da mesma interação fundamental, a força eletrofraca. Já há alguns anos a teoria de Supercordas promete terminar o serviço, mas a Teoria de Tudo permanece ainda assim um sonho.

Quando se ouve falar de uma ‚ÄúTeoria de Tudo‚ÄĚ, um dos pensamentos mais naturais √© imaginar qu√£o estranho ou mesmo insano seria que tudo que conhecemos, que tudo que existe, seja modelado por um conjunto √ļnico de equa√ß√Ķes. Compreender√≠amos instantaneamente todo o Universo? Onde estariam nossos sonhos, seriam eles reduzidos a simples equa√ß√Ķes?

O espet√°culo de uma revoada de estorninhos deve nos ajudar a entender melhor o que exatamente o sonho de uma Teoria de Tudo representa.

Em uma revoada de estorninhos, mais de mil indiv√≠duos podem voar em conjunto. Cada um deles interage apenas com aqueles pr√≥ximos a si e reage de acordo com regras simples, por√©m coletivamente exibem um comportamento emergente hipnotizante. A simplicidade de cada agente individual, e a complexidade emergente do conjunto, foi modelada e demonstrada inicialmente no campo da Intelig√™ncia Artificial com os ‚ÄúBoids‚ÄĚ de Craig Reynolds.

Inteligência Artificial modelando o comportamento da inteligência natural de estorninhos é algo fascinante com resultados como o que você vê acima.

Talvez ainda mais fascinante é a abordagem tomada por físicos da Universidade de Roma: eles modelaram o comportamento de revoadas de estorninhos baseados no magnetismo. A forma como estorninhos mudam de direção em revoada pode ser modelada exatamente com as mesmas ferramentas matemáticas que descrevem partículas de metal mudando seu spin em reação a campos eletromagnéticos.

O que os f√≠sicos italianos indicaram √© que estorninhos podem se comportar como part√≠culas e sua intera√ß√£o pode ser modelada como uma das for√ßas fundamentais. Mas √© a intelig√™ncia de tais estorninhos que reproduz a intera√ß√£o fundamental, n√£o h√° realmente nenhum campo de for√ßa √† dist√Ęncia entre um e outro estorninho. N√£o al√©m daqueles que existem tamb√©m entre duas pedras, que sem intelig√™ncia podem colidir livremente se lan√ßadas ao ar.

Se por um lado o estudo dos f√≠sicos italianos demonstra a aplica√ß√£o de um modelo matem√°tico simples a um comportamento complexo, ele deve ressaltar como a met√°fora tamb√©m funcionaria no sentido inverso. H√° muitos outros comportamentos complexos que n√£o s√£o modelados matematicamente. A forma como a intelig√™ncia pode reger o comportamento de um sem n√ļmero de seres poderia ser interpretada como um universo de diferentes ‚Äúfor√ßas fundamentais‚ÄĚ que dificilmente seriam unificadas. Se a intelig√™ncia √© uma for√ßa fundamental da natureza, h√° infinitas for√ßas fundamentais na natureza.

Al√©m das for√ßas fundamentais, h√° uma infinidade de epifen√īmenos que emergem a partir da√≠, adicionando e multiplicando a complexidade do Universo em todas as formas que conhecemos ‚Äď e a infinitude de outras que ainda iremos descobrir.

Mola Maluca desafia a gravidade

wile_e_coyote_gravity

Publiquei no Sedent√°rio&Hiperativo um texto sobre o experimento com a ‚Äúmola maluca‚ÄĚ aparentemente desafiando a gravidade. Confira!

O Relojoeiro do Ferrofluido nas Bolhas de Sab√£o

Kim Pimmel combina ‚Äúbolhas de sab√£o comuns com um ex√≥tico ferrofluido para criar uma instigante hist√≥ria, usando lentes macro e t√©cnicas de lapso de tempo. O corante [vermelho] e o ferrofluido preto deslizam pelas estruturas das bolhas, atra√≠dos pelas for√ßas invis√≠veis da a√ß√£o capilar e magnetismo‚ÄĚ.

O vídeo deve remeter qualquer espectador a estruturas biológicas, e em especial, à complexidade das estruturas biológicas. E isso não é mera coincidência.

Na pr√≥pria origem do termo ‚Äúc√©lula‚ÄĚ nas observa√ß√Ķes de Robert Hooke no s√©culo 17, l√° estavam as bolhas de sab√£o. E mesmo nas revolu√ß√Ķes biol√≥gicas modernas que modelaram a membrana celular com conhecimentos adentrando a f√≠sico-qu√≠mica, tamb√©m l√° estavam as bolhas de sab√£o! H√° trechos fabulosos desta liga√ß√£o entre algo t√£o mundano com um conceito-chave no entendimento de uma unidade b√°sica da vida em Planar Lipid bilayers (BLMs) and their applications.

E bolhas de sab√£o ainda podem ser usadas didaticamente para entender melhor o funcionamento da membrana celular (PDF).

Al√©m das bolhas se sab√£o, o ferrofluido, um l√≠quido suscet√≠vel √† a√ß√£o de campos magn√©ticos, tamb√©m encontra liga√ß√Ķes inusitadas. O que o artista usou aqui √© provavelmente feito usando o toner negro de impressoras. O v√≠deo anterior de Pimmel ilustra essa dan√ßa de part√≠culas de toner em resposta a campos magn√©ticos:

Os nexos da origem das copiadoras fotostáticas mais conhecidas como Xerox é tema para outro post, mas no ferrofluido também está algo da história da ciência, enquanto Michael Faraday utilizava raspas de ferro para ilustrar os então misteriosos e invisíveis campos magnéticos.

Acima, um dos primeiros diagramas representando linhas de força magnéticas, por Faraday em 1832.

O que nos leva ao nexo que une todos estes: a complexidade. Estamos acostumados a associar complexidade a dispositivos artificiais intrincados, ou alternativamente à própria vida, que ao longo de quase toda nossa história só poderíamos presumir também ser algo projetado, por mãos e mentes superiores às nossas.

E, no entanto, a complexidade nos cerca. Bolhas de sabão e principalmente pó de toner de uma impressora são elementos manufaturados, sim, mas quem esperaria ver tanta complexidade neles?

De fato, a complexidade nos cerca e fen√īmenos intrincados ocorrem √† nossa volta, passando ao largo de nossos artif√≠cios bem como daquilo que consideramos vivo. Ela √© apenas largamente invis√≠vel aos nossos olhos, que do contr√°rio estariam saturados de um universo de fen√īmenos.

Mesmo quando a complexidade √© vis√≠vel, √© comumente¬† tomada como algo banal. Porque se p√≥ de toner em meio a bolhas de sab√£o em uma bacia de √°gua com um eletro√≠m√£ ao centro fossem algo que ocorresse naturalmente, provavelmente nos pareceria t√£o ‚Äúsimples‚ÄĚ e banal quanto as cores iridescentes de uma pel√≠cula de √≥leo sobre a √°gua, dos cristais de gelo sobre uma nuvem.

Há, finalmente, a complexidade visível que é atribuída ao divino, como as cores refratadas do arco-íris. O que não deixa de ser curioso ao constatarmos que em um dia de Sol podemos criar nossos arco-íris simplesmente criando um jato de água com um a mangueira, mas ver algo como o que o artista Kim Pimmel criou requer um pouco mais de trabalho.

Pelo que poderíamos pensar que o deus do arco-íris é menos poderoso ou mesmo menos criativo que Pimmel.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Pol√≠tica de Privacidade | Termos e Condi√ß√Ķes | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


P√°ginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM