O Tao do Google

Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucion√°rios mas com resultados concretos ainda longe de serem t√£o vistosos lan√ßou o novamente revolucion√°rio computador pessoal Macintosh em um comercial que tamb√©m se tornou ic√īnico, dirigido por Ridley Scott e veiculado durante o Super Bowl. Uma hero√≠na com o logo do Macintosh salva a humanidade da conformidade representada pelo ‚ÄúGrande Irm√£o‚ÄĚ, que discursava:

‚ÄúHoje, celebramos o primeiro anivers√°rio glorioso das Diretivas de Purifica√ß√£o de Informa√ß√£o. Criamos, pela primeira vez na hist√≥ria, um jardim de ideologia pura ‚Äď onde cada trabalhador pode florescer, seguro das ervas daninhas que transmitem verdades contradit√≥rias. Nossa Unifica√ß√£o de Pensamentos √© uma arma mais poderosa que qualquer frota ou ex√©rcito na Terra. Somos um s√≥ povo, com uma vontade, uma determina√ß√£o, uma causa. Nossos inimigos v√£o tagarelar at√© a morte, e n√≥s iremos enterr√°-los em sua pr√≥pria confus√£o. N√≥s iremos prevalecer!‚ÄĚ.

Ao que a hero√≠na lan√ßa uma marreta libertadora e destr√≥i a enorme tele-tela, deixando os espectadores estupefatos com a explos√£o. ‚ÄúEm 24 de janeiro, Apple Computer lan√ßar√° o Macintosh. E voc√™ ver√° por que [o ano de] 1984 n√£o ser√° como 1984 [de George Orwell]‚ÄĚ.

Quase 30 anos depois, a Apple Computer, Inc. j√° n√£o fabrica mais apenas computadores, mudando seu nome apenas para Apple Inc., e √© a companhia com maior valor de mercado no mundo, superando gigantes petrol√≠feras e mesmo concorrentes da ind√ļstria de tecnologia de informa√ß√£o como Microsoft e IBM ‚Äď esta √ļltima o alvo original do comercial de 1984. Suas reservas de capital s√£o maiores do que o PIB de v√°rios pa√≠ses. √Č uma ironia fina aquela que interpreta que se h√° hoje um Grande Irm√£o ‚Äúpurificando‚ÄĚ informa√ß√£o, criando um jardim de aplicativos puros onde cada usu√°rio possa florescer seguro das ervas daninhas que transmitem interfaces contradit√≥rias, √© a pr√≥pria Apple, que com sua Unifica√ß√£o de Pensamentos transformou sua marca na propriedade intelectual das mais valiosas, e poderosas, do planeta. O Grande Irm√£o carism√°tico em seus Keynotes para um p√ļblico babando pela √ļltima novidade era ningu√©m menos que o pr√≥prio Steve Jobs.

Esse c√ļmulo da ironia se deu em pouco mais de uma gera√ß√£o, em uma hist√≥ria que cont√©m meandros fractais ‚Äď reviravoltas sobre reviravoltas. Mas este √© um coment√°rio sobre o Google Inc., que precisou come√ßar pela Apple porque nenhuma outra empresa de tecnologia que busque vender tamb√©m um verniz de ideologia √© t√£o ic√īnica quanto aquela fundada por Jobs. Ou pelo menos, t√£o valiosa quanto a Apple Inc. √© hoje.

Se a Apple vendeu-se como uma empresa vision√°ria de produtos √† frente de seu tempo, o Google passou boa parte de seu tempo promovendo o lema informal menos pretensioso ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ, ou ‚Äún√£o seja malvado‚ÄĚ. Embora design nunca tenha sido seu ponto forte, o Google se destacou pela tecnologia, o que √© uma grande vantagem quando se √© uma empresa de tecnologia. Enquanto √† √©poca outras grandes corpora√ß√Ķes moviam enormes fundos e conglomerados de m√≠dia para capitalizar um ecossistema que buscava sempre prender os visitantes dentro de ‚Äújardins de ideologia pura‚ÄĚ, de propriedade desta ou daquela corpora√ß√£o, o Google apostava na efici√™ncia de seu buscador como ponto de in√≠cio e norte para todos internautas.

N√£o era necess√°rio prender o visitante em uma rede infind√°vel de sites de sua propriedade, pelo contr√°rio, quanto mais r√°pido um visitante sa√≠sse de seu buscador encontrando o que procurava, mais prov√°vel era que ele retornasse depois ao seu buscador quando pensasse ir a outro lugar. Como uma esp√©cie de koan zen budista, para fazer o visitante retornar, fa√ßa-o ir embora. Tente prend√™-lo, e ele ir√° fugir. E √† medida que o volume de informa√ß√Ķes na rede crescia geometricamente, a tecnologia do Google mostrou-se em anos decisivos a mais capaz de oferecer resultados relevantes ao usu√°rio.

Em 2011 em um testemunho no senado americano, Eric Schmidt, então chairman do Google, concordou que o Google detém hoje o monopólio na área de mecanismos de busca. Pouco mais de uma década depois de sua fundação, em menos de uma geração, uma startup baseada em ideias revolucionárias de tecnologia venceu todos os recursos investidos por gigantes de mídia e se tornou ela mesma mais valiosa que o maior conglomerado tradicional de mídia, a Disney.

E como voc√™ pode n√£o ser ‚Äúmalvado‚ÄĚ se det√©m o monop√≥lio da √°rea mais importante da Internet e √© uma das empresas mais valiosas do mundo? √Č simplesmente imposs√≠vel. Vender-se como o underdog, aquele competidor pequeno mas valente desafiando o gigante tir√Ęnico, n√£o funciona quando voc√™ mesmo se torna o gigante. Voc√™ tamb√©m se torna automaticamente o tirano.

Mal o Google consolidou seu monop√≥lio dos mecanismos de busca, uma forma nova de uso da rede emergiu ‚Äď as redes sociais. O Facebook como rede social √© desde o in√≠cio um ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ de propriedade de Mark Zuckerberg, fechado aos olhos indexadores do Google, e um ao qual os visitantes n√£o precisam se lembrar de ir ao Google para gerar, consumir ou encontrar conte√ļdo: basta perguntarem aos amigos que tamb√©m fazem parte da rede social. √Č uma forma fundamentalmente diferente de utilizar a Internet, e uma que n√£o passa pela ideologia original do jardim aberto do Google.

O que os grandes conglomerados de m√≠dia n√£o conseguiram concretizar √† for√ßa no primeiro boom da Internet na virada do mil√™nio, a tecnologia das redes sociais tornou hoje n√£o s√≥ poss√≠vel, como transformou em realidade. Com um crescimento org√Ęnico e viralizado, onde todos entram porque outros j√° entraram, e sem vender nem mesmo um verniz de ideologia, o Facebook se consolidou como o maior ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ j√° criado. Um local onde cada mudan√ßa na forma como Zuckerberg apresenta sua timeline afeta instantaneamente a maneira com que milh√Ķes de pessoas consumir√£o informa√ß√£o. Discutir o impacto que a introdu√ß√£o de hashtags ter√° no ecossistema do Facebook √© um indicador claro da pureza deste jardim onde n√£o h√° ervas daninhas que n√£o sejam podadas.

Se a possibilidade de usar outros sites em apenas um clique era um argumento usado por Schmidt para o fato de que o monop√≥lio do Google n√£o era prejudicial ao consumidor, quando esta possibilidade se mostrou uma amea√ßa concreta, o Google passou a exercer sua tirania. Todos usu√°rios de qualquer propriedade do Google, agora parte de um jardim de ideologia, precisam aderir ao Google+. A amea√ßa do Facebook √© t√£o s√©ria √† vis√£o original do Google que hoje est√° claro que esta vis√£o original foi simplesmente abandonada. Hoje, o objetivo do Google √© o mesmo que o do Facebook, Apple, IBM, Microsoft, do IngSoc e do Grande Irm√£o. √Č o mesmo que o da outrora gigante AOL. √Č prender voc√™ em um jardim de ideologia pura de sua propriedade, do qual voc√™ n√£o deve sair, onde todos seus pensamentos possam ser capitalizados e vendidos. Um perfil, um login, uma rede social, √ļnica, para todo o planeta, √© o sonho perseguido por todas estas gigantes flexionando bilh√Ķes capitalizados no mercado.

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O objetivo nada secreto de toda corpora√ß√£o √© o lucro, n√£o deveria haver nenhuma grande novidade nisto. Se por um breve per√≠odo o Google promoveu uma filosofia aparentemente diferente, √© porque na peculiar situa√ß√£o que existia, a filosofia contr√°ria prometia maiores lucros no m√©dio e longo prazo. ‚ÄúN√≥s acreditamos firmemente que no longo prazo, seremos melhor servidos ‚Äď como acionistas e de todas outras formas ‚Äď por uma companhia que faz coisas boas para o mundo mesmo que deixemos de lado alguns ganhos de curto prazo‚ÄĚ, declarava o IPO do Google no mais pr√≥ximo de um manifesto ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ a que se chegou.

Funcionou, dez anos depois o Google trouxe enormes retornos a seus acionistas. A constatação triste é que hoje, todos os ganhos do Google, incluído, devem ser de curto prazo.

Se a hist√≥ria de reviravoltas de empresas de tecnologia √© um par√Ęmetro, por√©m, √© muito prov√°vel que as empresas mais valiosas e poderosas do mundo daqui a uma gera√ß√£o ainda nem existem, e enquanto empresas com centenas de bilh√Ķes em capitaliza√ß√£o movem seus ex√©rcitos em estrat√©gias para criar jardins de ideologia pura, uma nova empresa focada em tecnologia ainda por surgir pode sequer depender de um clique para ser acessada.

Google, eu gostaria que fosse você, mas de toda forma, obrigado pelos peixes.

O Bal√£o e o 11/9

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O que faz com que a √°gua mantenha o formato do bal√£o, mesmo ap√≥s o bal√£o ter estourado? √Č a in√©rcia, a resist√™ncia de qualquer objeto f√≠sico √† altera√ß√£o de seu estado de movimento ou repouso. Nos r√°pidos instantes ap√≥s o estouro do bal√£o el√°stico, a √°gua j√° come√ßa a cair, mas al√©m da gravidade n√£o h√° nenhuma for√ßa significativa que altere sua forma. Tudo acontece t√£o r√°pido que sempre passa despercebido de nossos olhos, enxergar a in√©rcia s√≥ se torna mais claro em c√Ęmera lenta.

Mas nem sempre. Uma das demonstra√ß√Ķes mais claras da in√©rcia √© tamb√©m uma das mais famosas e tr√°gicas imagens hist√≥ricas do s√©culo 21: a queda das Torres G√™meas do World Trade Center, no atentado de 11 de setembro. As torres ru√≠ram t√£o perfeitamente para baixo, que as teorias de conspira√ß√£o sobre uma ‚Äúdemoli√ß√£o controlada‚ÄĚ voaram nos instantes seguintes aos escombros, reverberando at√© hoje.

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Pois cada uma das torres do WTC pesava aproximadamente 500.000 toneladas. ‚ÄúN√£o havia nenhuma possibilidade de que qualquer torre ca√≠sse para os lados, uma vez que um edif√≠cio de 500.000 toneladas possui muita in√©rcia para cair de qualquer outro modo exceto virtualmente direto para baixo‚ÄĚ, informam os 20 fatos sobre a queda do World Trade Center. √Č a in√©rcia. Remova a integridade estrutural de um edif√≠cio de 500.000 toneladas, e ele vai cair diretamente para baixo, algo como a √°gua do bal√£o. Apenas, dada sua escala muito fora de nossa experi√™ncia cotidiana, a queda levar√° at√© dez segundos e poder√° ser acompanhada por olhos assombrados.

Demoli√ß√Ķes controladas nem sempre lembram a queda das Torres G√™meas, muitos devem lembrar de pr√©dios gigantescos ou grandes chamin√©s tombando para os lados. A ironia aqui √© que fazer com que essas milhares de toneladas tombem para os lados √© que √© o feito de engenharia! A estrutura do edif√≠cio √© desintegrada de forma controlada, em uma sequ√™ncia planejada, aproveitando ainda a for√ßa da gravidade, direcionada pelo que resta da estrutura, para que os escombros sejam direcionados para um lado determinado.

V√≠deos de demoli√ß√Ķes foram nos fornecendo uma no√ß√£o distante de como um grande edif√≠cio rui ‚Äúnaturalmente‚ÄĚ. Gravidade e in√©rcia s√£o os principais elementos em a√ß√£o.

Claro, nada impede que a incompetência gere resultados ainda mais inesperados, como nesta demolição mal-controlada:

Um Helicóptero Movido a Pedaladas

Milhares de anos sonhando em voar como os p√°ssaros, mas apesar de ideias geniais como a do parafuso a√©reo de Da Vinci, sempre faltou torque. Seres humanos t√™m uma musculatura relativamente raqu√≠tica em rela√ß√£o aos p√°ssaros, e enquanto motores eram muito pesados e pouco potentes, as tentativas de voo estavam fadadas ao fracasso. Por vezes c√īmico.

Pois estudantes de engenharia da Universidade de Maryland levaram a tarefa a sério, e estão prestes a vencer o desafio Sikorsky: criar um helicóptero movido apenas por força humana, capaz de se sustentar no ar a três metros por um minuto sem se deslocar mais de 10 metros. Em um teste não-oficial no fim de agosto passado, com o Gamera II os estudantes parecem ter vencido a barreira de 65 segundos e mais de 8 pés de altura.

Só do que precisaram foi engenharia… e materiais compostos leves, muito leves. Se eles estão prestes a conseguir, contudo, é fascinante descobrir que ao longo de toda história da humanidade um helicóptero movido a pedaladas sempre esteve ao alcance. Sem materiais compostos a tarefa deve ser muito mais difícil, mas talvez não seja de fato impossível. Mesmo sem motores, voar é possível.

Carros e o Custo Brasil em Testes de Colis√£o

A sensação de segurança é frequentemente uma ilusão. Um carro antigo, uma verdadeira banheira de mais de uma tonelada, com um peso que pode ser sentido não apenas pelo motorista mas pelos passageiros pode parecer um veículo sólido que destruirá carros modernos que mais parecem ovos. Mas no teste de colisão acima entre um Chevrolet 1959 Bel Air e um Chevrolet 2009 Malibu, cinco décadas de avanços em segurança ficam muito claros.

A fragilidade de carros modernos em verdade embute uma série de tecnologias, como áreas que se deformam intencionalmente, absorvendo a energia do impacto, preservando ao máximo os passageiros. A tecnologia foi inventada pelo engenheiro da Mercedes-Benz, Béla Barényi, e aplicada aos carros da fabricante a partir da década de 1950. Os alemães já faziam teste de colisão há décadas:

Nos EUA a seguran√ßa de carros s√≥ se tornou um tema de reivindica√ß√£o popular, vencendo os interesses das grandes fabricantes, na d√©cada de 1960, principalmente ap√≥s a publica√ß√£o de ‚ÄúInseguro a Qualquer Velocidade‚ÄĚ (‚ÄúUnsafe at Any Speed‚ÄĚ, 1965), de Ralph Nader. Parte do mote de ‚ÄúClube da Luta‚ÄĚ, desde o conto original at√© o filme, √© em parte uma refer√™ncia ao livro de Nader:

‚ÄúSe o novo carro fabricado pela minha companhia sai de Chicago em dire√ß√£o ao oeste a noventa quil√īmetros por hora, e o diferencial traseiro trava, o carro bate e pega fogo com todo mundo dentro, minha empresa deve iniciar um recall? Pegue o n√ļmero total de ve√≠culos na √°rea (A) e multiplique pelo √≠ndice prov√°vel de defeitos (B), depois multiplique o resultado pelo custo m√©dio de um acordo extrajudicial (C). A vezes B vezes C √© igual a X. Isso √© o que vai nos custar se n√£o iniciarmos j√° o recall. Se X for maior do que custar√° para recolher o carro, faremos o recall e ningu√©m vai se machucar. Se X for menor do que custar√° para recolher o carro, ent√£o n√£o faremos o recall‚ÄĚ.

Em seu livro, Nader exp√Ķe como companhias aplicaram exatamente esta l√≥gica financeira em diversos casos documentados. Mais impressionante √© que mais de uma d√©cada depois, em 1977, uma das maiores fabricantes ainda se envolveria com um caso que √© provavelmente o que inspirou diretamente o mote em Clube da Luta. Um famoso memorando, o memorando Pinto (o modelo de carro se chamava Pinto), fazia uma an√°lise de custo-benef√≠cio entre um conserto de U$11 aplicado a todos os carros do modelo contra os custos de fazer acordos judiciais com todas as v√≠timas. Os acidentes envolviam um tanque de combust√≠vel que por falha de projeto tendia a pegar fogo. Isso n√£o foi fic√ß√£o.

Todo ano, mais de um milh√£o de pessoas morrem em acidentes de tr√Ęnsito pelo mundo. √Č a principal causa de morte por ferimentos em crian√ßas na faixa entre 10 e 19 anos ‚Äď com 260.000 v√≠timas fatais, e nada menos que 10 milh√Ķes de feridos. No Brasil, pagamos valores alt√≠ssimos por modelos gera√ß√Ķes atrasados em rela√ß√£o aos vendidos no exterior ‚Äď e esse atraso n√£o se traduz apenas em um visual menos moderno ou itens de conforto menos sofisticados, mas tamb√©m em recursos de seguran√ßa mais atrasados.

Pessoas morrem em nome de maiores lucros para grandes fabricantes às quais análises de custo-benefício são, na ausência de ação por parte de seus consumidores, a palavra final. E não é preciso esperar cinco décadas para ver o progresso em segurança automotiva: veja uma colisão frontal entre uma minivan da década de 1990 e uma da década de 2000.

Mesmo uma d√©cada j√° pode trazer diferen√ßas imensas na seguran√ßa aos passageiros. J√° √© preocupante que quem possa pagar sempre pelo √ļltimo modelo tenha sempre maior seguran√ßa ao dirigir ‚Äď enquanto o governo n√£o instituir e for√ßar fabricantes a padr√Ķes cada vez mais elevados de seguran√ßa. Agora, √© revoltante que com os valores que pagamos por ve√≠culos no Brasil, inclusive por ve√≠culos usados, poder√≠amos ter os mais avan√ßados recursos de seguran√ßa no planeta.

Ao invés, temos uma frota antiga onde modelos novos são vendidos a preços exorbitantes, o que faz com que mesmo modelos antigos e usados sejam revendidos também a preços absurdos, equivalentes ou mesmo superiores aos mais avançados veículos no exterior.

O problema não afeta apenas o seu bolso. Como testes de colisão entre modelos antigos e novos demonstram bem, pessoas morrem diariamente no Brasil em veículos ultrapassados pelos quais pagaram valores altos. Pessoas que poderiam estar vivas se tivéssemos a segurança pela qual pagamos. Em algum lugar, uma análise de custo-benefício mostra que enquanto brasileiros continuarem pagando esses preços por esses carros, não há porque evitar mais mortes. [via core77]

Proje√ß√Ķes topogr√°ficas de Jim Sanborn (e algo de como o Kinect funciona)

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Situado a quase um quil√īmetro de dist√Ęncia, um projetor m√≥vel lan√ßou padr√Ķes geom√©tricos artificiais sobre esta ilha irlandesa, destacando um belo contraste na arte de Jim Sanborn. Clique para mais fotografias da s√©rie em Design Boom.

Proje√ß√Ķes em grande escala est√£o se tornando cada vez mais comuns em espet√°culos ‚Äď basta uma busca por mapped projection ‚Äď mas elas tamb√©m funcionam no sentido inverso, como a s√©rie de Sanborn sugere: pode-se descobrir a geometria de uma cena atrav√©s de uma proje√ß√£o. O acess√≥rio Kinect do Xbox funciona desta forma, projetando um padr√£o de pontos em infravermelho e aplicando computa√ß√£o para extrair a geometria da cena a partir da imagem resultante.

O padr√£o de pontos do Kinect pode parecer aleat√≥rio, mas n√£o √©, de fato ele se repete nove vezes. Sistemas anteriores ao Kinect geralmente projetavam padr√Ķes geom√©tricos mais simples como os de Sanborn. Parte da m√°gica, e talvez a parte principal da m√°gica que torna o brinquedo da Microsoft t√£o mais barato e acurado que vers√Ķes anteriores est√° no uso inteligente e inovador desse padr√£o est√°tico de pontos. Inteligentemente, os segredos industriais por tr√°s desse padr√£o de pontos n√£o s√£o descritos em detalhe nas patentes p√ļblicas do sistema.

A forma como eles parecem aleatórios mas ao mesmo tempo são repetidos lembra a matemática dos ladrilhos de Penrose, por sua vez vistos na natureza nos quasi-cristais que renderem um prêmio Nobel em 2011.

Uma olhada no site de Jim Sanborn revela como todas suas obras misturam ciência e arte, e uma das obras mais conhecidas de Sanborn é Kryptos, que contém textos cifrados e está localizada na própria Agência Central de Inteligência, a CIA dos EUA, em Langley, Virginia.

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Arte e ciência, da CIA à Microsoft.

Paternoster, um elevador diferente

Um dos primeiros tipos de elevadores, no Paternoster os elevadores giram sem fim e dando uma volta completa. Para entender, veja a animação abaixo:

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√Č fascinante ver o pessoal subindo e descendo seja despreocupado, seja um tanto apreensivo. No topo de cada se√ß√£o h√° uma linha que √© provavelmente o dispositivo de seguran√ßa: se algu√©m n√£o conseguir sair a tempo, deve ativar a linha e o dispositivo inteiro ir√° parar.

Mas nada √© completamente √† prova de falhas, e pelo visto os riscos de um Paternoster parecem ser muito maiores que os elevadores que conhecemos ‚Äď al√©m de sua velocidade ser muito menor, tornando-os pouco pr√°ticos para edif√≠cios com muitos andares.

O Terrorismo Culto à Carga

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√Äs 8:46 da manh√£ daquele dia 11 de setembro de 2001, o v√īo American Airlines 11 atingiu a torre norte do World Trade Center. Menos de vinte minutos depois, com todas as c√Ęmeras do mundo voltadas ao local, o v√īo United Airlines 175 atingiu a torre sul.

N√£o foi mero acidente, e naquele momento todos perceberam isso. Havia sido planejado. Mil e uma c√Ęmeras registraram de todos os √Ęngulos a segunda colis√£o. Naquela manh√£, apenas 19 terroristas, patrocinados pela pequena fortuna de um dos herdeiros de uma fam√≠lia saudita, mataram quase 3.000 pessoas, ferindo mais de 6.000. E mudaram o mundo, para muito pior.

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Embora os terroristas sejam mais comumente associados a pilotos Kamikazes da Segunda Guerra Mundial, h√° uma certa diferen√ßa. Kamikazes voavam em avi√Ķes de guerra. Os terroristas do 11/9 raptaram avi√Ķes de passageiros e os transformaram em armas de guerra.

Neste uso inusitado dos avi√Ķes comerciais eles podem ser comparados √†s tribos que praticavam o Culto √† Carga.

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Sem entender por que os visitantes longínquos recebiam dos pássaros de metal todo tipo de iguarias, a Carga, os nativos passaram a imitar algo do que viam como invocação mágica. O Culto à Carga.

As origens do Culto √† Carga s√£o em verdade um tanto mais complicadas (aqui, um bom texto), assim como os terroristas do 11/9 n√£o eram selvagens que desconheciam os avi√Ķes que pilotavam ou mesmo o mundo em que viviam.

Mas no uso selvagem da tecnologia para fins diversos dos quais foi criada, os terroristas praticaram a mais abomin√°vel forma de Culto √† Carga. Em suas vers√Ķes mais brandas, este √© o culto daqueles que usam computadores para criticar os avan√ßos da ci√™ncia, que comem tomates indignados com os progressos da biotecnologia, que n√£o se lembram de ter visto algu√©m v√≠tima de paralisia infantil mas n√£o vacinam seus filhos.

São aqueles a quem a ciência e tecnologia não são compreendidas nem apreciadas, são apenas rituais, como pressionar um botão vermelho, que devem ser realizados para obter os mágicos resultados.

S√£o os ‚Äúnovos selvagens‚ÄĚ.

O Ciclo da √Āgua‚ÄďInfogr√°fico Animado

Estupendamente bem animado, ilustrando o processo do reservatório até sua casa, e de volta ao sistema de coleta e tratamento.

Como deveria ser, claro. [via DYT]

Bio-rob√īs

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‚ÄúQuando algu√©m pensar que nosso g√™nero humano n√£o tem salva√ß√£o, sempre pode lembrar da hist√≥ria de Alexei Ananenko, Valeriy Bezpalov e Boris Baranov, os tr√™s super-her√≥is de Chernobyl, de quem se diz que salvaram a Europa ou ao menos um ou outro milh√£o de pessoas a milhares de quil√īmetros ao redor, num frio dia de abril. Foram √† morte conscientemente, deliberadamente, por responsabilidade e humanidade e sentimento da honra, para que o resto de n√≥s pudesse viver‚ÄĚ.

Em um fant√°stico artigo original de Yuri que acabamos de traduzir e publicar em CeticismoAberto, ‚ÄúOs Tr√™s Super-Her√≥is de Chernobyl‚ÄĚ, conhecemos um pouco da hist√≥ria dos liquidadores que remediaram o pior acidente nuclear e foram as √ļnicas v√≠timas diretas de uma explos√£o que exp√īs a c√©u aberto um n√ļcleo ardente de material radioativo. E de toda a hist√≥ria, um dos detalhes que mais me impressionou foi que os liquidadores chamassem a si mesmos de bio-rob√īs.

Robota

A palavra ‚ÄúRob√ī‚ÄĚ em si mesma foi introduzida por Karel Capek no in√≠cio do s√©culo 20, em uma pe√ßa sobre os dilemas de pessoas artificiais servindo aos senhorios humanos. Capek teria considerado inicialmente chamar as criaturas, que podiam pensar como n√≥s, de labori, mas insatisfeito com o termo pediu uma sugest√£o de seu irm√£o, que sugeriu ‚Äúroboti‚ÄĚ. Todos esses termos estavam relacionados ao trabalho, √† servid√£o. E foi assim que os rob√īs, popularizados em larga escala anos depois por escritores como Isaac Asimov, adentrariam o imagin√°rio popular.

As primeiras hist√≥rias de Asimov sobre rob√īs foram todas desenvolvidas sobre a quest√£o de que os rob√īs, como as mais sofisticadas ferramentas criadas pelo homem para servi-lo, tamb√©m enfrentavam o dilema entrevisto por Capek entre criador e criatura, por sua vez presente desde a hist√≥ria de Frankenstein. Para resolver estes dilemas Asimov cunhou a ci√™ncia da ‚Äúrob√≥tica‚ÄĚ, com suas tr√™s famosas leis ditando que:

‚ÄúI ‚Äď Um rob√ī n√£o deve ferir um ser humano, ou pela ina√ß√£o, permitir que um ser humano seja ferido;
II ‚Äď Um rob√ī deve obedecer √†s ordens recebidas de seres humanos, exceto quando estas entrarem em conflito com a Primeira Lei;
III ‚Äď Um rob√ī deve proteger sua pr√≥pria exist√™ncia enquanto esta prote√ß√£o n√£o entrar em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.‚ÄĚ

Depois de estabelecer estas leis, Asimov automaticamente passava a questionar e mesmo a transgredi-las; a maior graça de suas histórias é lidar com os furos e paradoxos que as leis podem produzir. Posteriormente Asimov introduziria a Lei 0 da robótica, com a qual brincaria ainda mais:

‚Äú0 ‚Äď Um rob√ī n√£o deve causar mal √† Humanidade, ou por ina√ß√£o, permitir que a Humanidade seja prejudicada‚ÄĚ.

Bio-rob√īs

Uma das principais aplica√ß√Ķes aos rob√īs ent√£o puramente fict√≠cios de Asimov era em trabalhos de alta periculosidade, incluindo trabalhos no espa√ßo envolvendo alta radia√ß√£o. Com o desastre em Chernobyl, os rob√īs fict√≠cios de Asimov tornaram-se realidade. Ainda que o ano fosse 1986 e a tecnologia fosse primitiva em rela√ß√£o √†quela que conhecemos hoje, equipamentos por controle remoto j√° haviam sido usados na pr√°tica desde a Segunda Guerra Mundial, e foram colocados em a√ß√£o nas a√ß√Ķes de limpeza essenciais.

Mas aqui estava algo que talvez nem a fic√ß√£o pudesse antever. Asimov sugeriu que os delicados c√©rebros positr√īnicos de seus rob√īs poderiam ser tamb√©m vulner√°veis a altas doses de radia√ß√£o. Talvez n√£o esperasse que mesmo os n√£o t√£o delicados c√©rebros eletr√īnicos dos primitivos rob√īs por controle remoto iriam falhar com as doses extremas de radia√ß√£o recebidos do contato direto com partes do n√ļcleo do reator expostas.

No v√≠deo abaixo vemos os equipamentos eletr√īnicos falhando.

E com a falha dos rob√īs eletr√īnicos, entraram em a√ß√£o os bio-rob√īs. √Č uma ironia hist√≥rica que os pr√≥prios liquidadores talvez apreciassem como uma grande piada em meio √† trag√©dia que ao inv√©s de se chamarem de super-her√≥is, de atribu√≠rem a si mesmos nomes grandiosos como Messias ou simplesmente Salvadores, eles chamassem a si mesmos de bio-rob√īs. Simplesmente vers√Ķes biol√≥gicas dos rob√īs mec√Ęnicos que apesar de representar o que de mais avan√ßado a tecnologia podia oferecer ent√£o, acabaram mostrando-se de utilidade muito limitada. Com objetivos imediatos simples, os bio-rob√īs foram por vezes, e como na hist√≥ria de Ananenko, Bezpalov e Baranov, sem esperar retorno cumprir suas miss√Ķes.

Violaram a terceira lei da robótica, ainda que não tenham sido ordenados à morte, ainda que a tenham encarado para cumprir a prioridade da primeira lei e preservar vidas humanas, e acima de tudo, a lei zero em favor de toda a humanidade.

N√£o foi em figuras m√≠ticas ou em lendas milenares que estes her√≥is representando o melhor que podemos encontrar em todos n√≥s se inspiraram. Foi na retid√£o do dever e coragem frente √† responsabilidade que um rob√ī, ao mesmo tempo ferramenta e espelho representa que chamaram a si mesmos de bio-rob√īs.

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“1. Podem as máquinas comportarem-se como humanos?
2. Podemos n√≥s?‚ÄĚ ‚Äď Matt Harvey

– – –

*Mais de duas d√©cadas depois de Chernobyl, poder√≠amos ter criado rob√īs muito mais avan√ßados, capazes de suportar doses de radia√ß√£o para que nenhum ser humano precisasse se sacrificar para salvar outros seres humanos. Rob√īs avan√ßados capazes de reproduzir toda a destreza de m√£os humanas, mas ainda muito longe da sofistica√ß√£o que nos faria pestanejar duas vezes antes de sacrific√°-los em favor de uma pessoa. Infelizmente, n√£o foi o que aconteceu mesmo no pa√≠s mais automatizado do mundo. Nosso hero√≠smo individual acaba servo dilu√≠do do engessamento burocr√°tico e econ√īmico que falha em perceber e discutir as maiores prioridades.

O Deus Relojoeiro

Cercados como estamos de tecnologia derivada da f√≠sica de semicondutores, onde tudo √© digital e vem embalado em chips e c√°psulas, j√° nos distanciamos de alguns √≠cones da sofistica√ß√£o da tecnologia no passado. Mas nada que c√Ęmeras digitais e as maravilhas da rede de computadores n√£o possam compensar:

Charlie Visnic capturou a beleza de um rel√≥gio mec√Ęnico e seus mecanismos bem de perto, complementada por uma trilha sonora tamb√©m pr√≥pria. Aprecie e compreenda melhor como religiosos compararam, e continuam comparando, um ‚ÄúCriador‚ÄĚ do Universo a um relojoeiro.

Se tiver mais dez minutos, assista também ao vídeo abaixo, um documentário de 1949 explicando melhor como cada uma das peças funciona.

Nenhum destes mecanismos √© divino, sobrenatural, inexplic√°vel. S√£o todas cria√ß√Ķes humanas, fruto de s√©culos de desenvolvimento, e em certos aspectos remontando mesmo √† Gr√©cia Antiga, espelhando o movimento dos planetas pelo c√©u.

Um rel√≥gio eletr√īnico digital baseado nas vibra√ß√Ķes de um cristal de quartzo pode ser mais preciso, e a ci√™ncia e tecnologia envolvida em sua cria√ß√£o √© mais sofisticada, mas eu sempre admirei essas maravilhas mec√Ęnicas. Lamento o dia em que martelamos com iPhones. [via MAKE]

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