Se a gal√°xia de Andr√īmeda fosse mais brilhante‚Ķ

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O objeto mais distante que podemos ver a olho nu, em uma noite suficientemente escura e limpa, √© a gal√°xia de Andr√īmeda. Ela surge no c√©u apenas como uma t√™nue mancha, e com isso os planetas e estrelas pr√≥ximas de nossa pr√≥pria gal√°xia nos chamam muito mais a aten√ß√£o.

Se Andr√īmeda fosse mais brilhante, pareceria algo como a imagem acima composta por Tom Buckley-Houston, fazendo um pouco mais de jus ao que √©: uma gal√°xia com 140.000 anos-luz de tamanho, maior do que nossa pr√≥pria Via L√°ctea.

Mais de dois milh√Ķes de anos-luz de dist√Ęncia esmaecem o brilho das bilh√Ķes de estrelas de Andr√īmeda, assim como dist√Ęncias ainda maiores fizeram passar despercebido o fato de que h√° mais de 100 bilh√Ķes de gal√°xias no Universo.

[via Reddit, Bad Astronomer]

O Maior Mapa do Mundo do Mundo

Com 131 metros de altura, este √© segundo o Livro dos Recordes Guinness o maior mapa do mundo do mundo. A obra foi criada pelo artista Christoph Rihs em 1994 sobre uma torre de resfriamento desativada na cidade de Meppen, Alemanha. E a continua√ß√£o de um trabalho que come√ßou pintando mapas-m√ļndi em cilindros muito menores.

E o mapa gigante ainda est√° l√°!

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A ideia de um enorme mapa do mundo lembra o conto de Jorge Luis Borges de um mapa tão grande quanto o próprio espaço que representava:

‚ÄúNaquele Imp√©rio, a Arte da Cartografia logrou tal perfei√ß√£o que o mapa de uma √ļnica Prov√≠ncia ocupava toda uma Cidade, e o mapa do imp√©rio, toda uma Prov√≠ncia. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos n√£o satisfizeram e os Col√©gios de Cart√≥grafos levantaram um Mapa do Imp√©rio, que tinha o tamanho do Imp√©rio e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gera√ß√Ķes Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era In√ļtil e n√£o sem Impiedade o entregaram √†s Inclem√™ncias do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despeda√ßadas Ru√≠nas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o Pa√≠s n√£o h√° outra rel√≠quia das Disciplinas Cartogr√°ficas‚ÄĚ.

[via Reddit, Brilliant Maps]

Planeta vivo: admirando um raso e √ļmido ponto azul

Observe o movimento das nuvens pelo planeta durante uma semana do ano de 2005, e o que era para representar a evolu√ß√£o de um tuf√£o na costa da China se torna uma evid√™ncia de que o planeta Terra parece um √ļnico ser vivo. Com pulsos e movimentos de complexidade absurda, pode-se entender melhor por que √© t√£o dif√≠cil acertar a previs√£o do tempo.

S√≥ h√° um detalhe: repare que √† medida que o dia passa, as partes iluminadas do planeta continuam as mesmas. √Č porque o v√≠deo √© uma representa√ß√£o gr√°fica, n√£o s√£o imagens reais capturadas do espa√ßo. Ao inv√©s, um mosaico de dados de uma s√©rie de sat√©lites foi composto para criar essa imagem t√£o clara do movimento acelerado da camada de nuvens sobre o planeta.

Pois se o que você quer ver agora é um vídeo capturando o planeta de verdade, aqui está:

O Hypercubic explica melhor como James Tyrwhitt-Drake criou o v√≠deo a partir das imagens do sat√©lite russo Elektro-L. Ainda que haja alguns ajustes no espectro vis√≠vel ‚Äď grosso modo, nas cores ‚Äď s√£o imagens reais em movimento do planeta. Poder√≠amos ver isto com nossos pr√≥prios olhos. Quais s√£o as principais diferen√ßas entre a representa√ß√£o e a realidade?

Além da luz do Sol passando pela Terra e marcando os dias e noites, a maior diferença está em como o relevo das nuvens foi exagerado no primeiro vídeo. E entender isso torna tudo isso ainda mais curioso, porque veja, toda essa complexidade de nuvens que transmite a sensação de um ser vivo se dá em uma camada extremamente fina sobre a superfície do planeta. Particularmente, a maior parte de toda aquela agitação se dá na troposfera, a camada mais baixa da atmosfera que vai até pouco mais de 12km de altitude.

Considere que a Terra tem um di√Ęmetro de quase 13.000km, toda aquela agita√ß√£o ocorre em uma espessura ao redor de um mil√©simo deste tamanho. Olhe para seu polegar, considere que ele tem, ora, uma polegada de tamanho. Sua pele tem ao redor de 2,5mm de espessura, ou um d√©cimo deste tamanho. Se a troposfera, com todas as nuvens de tempestades, fosse considerada a ‚Äúpele‚ÄĚ de nosso planeta, ela seria cem vezes mais fina que a nossa pr√≥pria pele. Muito mais delicada.

Outra representação, baseada em dados reais, dá uma dimensão desta delicadeza:

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A esfera azul maior representa toda a √°gua no planeta Terra. Do oceano √† calota polar,¬†da tempestade¬†ao orvalho, toda a √°gua no planeta poderia ser reunida em uma esfera com 1.385km de di√Ęmetro, um d√©cimo do tamanho do planeta ‚Äď mas um mil√©simo de seu volume. Novamente, na analogia com nosso pr√≥prio corpo, ao redor de pouco mais de 60% de nosso corpo √© composto de √°gua. E voc√™ n√£o se considera um ser particularmente pegajoso. A Terra, como ser vivo apenas escassamente √ļmido, pensaria diferente.

Se o planeta parece vivo, √© porque esta min√ļscula propor√ß√£o de √°gua se¬†distribui de forma absurdamente inst√°vel — passando¬†de gelo a √°gua e vapor — percorrendo¬†a¬†camada extremamente fina¬†de sua superf√≠cie entre as profundezas do oceano e a alta atmosfera.

Cidadania Elementar: como 2 minutos podem mudar o país

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Elementar, meu caro Watson“. Em “O signo dos quatro“, para testar as not√≥rias habilidades dedutivas do detetive Sherlock Holmes, o pobre Dr. Watson lhe entrega um rel√≥gio de bolso que acaba de ganhar e pede que Holmes opine sobre o car√°ter e h√°bitos do antigo dono. A dedu√ß√£o √© devastadora:

Ele era um homem de h√°bitos desordenados — muito desordenados e descuidados. Iniciou a vida com boas perspectivas, mas desperdi√ßou as oportunidades, viveu algum tempo na pobreza, com intervalos ocasionais de prosperidade, e por fim, entregando-se √† bebida, faleceu“, deduz Holmes, simplesmente analisando o rel√≥gio de bolso.

Watson fica consternado, n√£o menos porque o¬†antigo dono do rel√≥gio era seu falecido irm√£o mais velho. A riqueza de detalhes s√≥ poderia significar que¬†o detetive havia “decerto andado¬†fazendo indaga√ß√Ķes sobre a hist√≥ria de seu¬†infeliz irm√£o, e agora fingia¬†ter deduzido de um modo abstruso aquilo que j√° sabia“.

Sherlock Holmes logo se desculpa, mas assegura que até então desconhecia que Watson tinha mesmo um irmão. Era apenas a aplicação de seu raciocínio dedutivo:

O que lhe parece estranho o √© apenas porque voc√™ n√£o acompanhou a linha do meu pensamento nem observou pequenos fatos dos quais se podem tirar grandes dedu√ß√Ķes. Por exemplo, comecei por certificar-me de que seu irm√£o era descuidado. Observando a parte inferior da caixa desse rel√≥gio, notar√° que ela n√£o est√° gasta apenas em dois lugares, mas est√° toda amassada e arranhada: conseq√ľ√™ncia do h√°bito de guardar objetos duros, tais como chaves ou moedas, no mesmo bolso. Decerto, n√£o √© grande fa√ßanha supor que um homem que trata t√£o desdenhosamente um rel√≥gio de cinq√ľenta guin√©us seja um homem descuidado. Tamb√©m n√£o √© muito rebuscada a dedu√ß√£o de que uma pessoa que herda um objeto de tamanho valor n√£o esteja bem provida noutros sentidos“.

E continua:

Nas casas de penhor da Inglaterra √© muito comum gravarem o n√ļmero da cau√ß√£o, com um alfinete, na parte interna da tampa. √Č mais pr√°tico do que uma etiqueta, e n√£o h√° perigo de que o n√ļmero seja trocado ou perdido. H√° pelo menos quatro desses n√ļmeros vis√≠veis para a minha lente, no interior dessa tampa. Dedu√ß√£o principal: seu irm√£o via-se freq√ľentemente em apuros financeiros. Dedu√ß√£o secund√°ria: ocasionalmente melhorava de vida, pois, do contr√°rio, n√£o poderia resgatar o penhor. Finalmente, pe√ßo-lhe que olhe para a tampa interna, onde fica o buraco da chave. Veja os milhares de arranh√Ķes em torno dele… s√£o marcas deixadas pela chave, ao escorregar. A m√£o firme de um homem s√≥brio nunca teria feito esses sulcos. Mas podem-se v√™-los sempre no rel√≥gio de um b√™bado. Quando lhe d√° corda, √† noite, tem a m√£o insegura“.

√Č f√°cil admirar a perspic√°cia de um detetive como Sherlock Holmes, mas a triste verdade √© que Holmes √© um personagem de fic√ß√£o. A feliz verdade √© que na vida real existem exemplos ainda mais impressionantes de perspic√°cia.

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Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, estimar quantos tanques de guerra os nazistas estavam fabricando era algo crucial para decidir estrat√©gias de guerra. N√£o seria impressionante se, analisando apenas um tanque de guerra nazista, um “Sherlock Holmes” da vida real conseguisse¬†elaborar uma s√©rie de dedu√ß√Ķes fant√°sticas do inimigo?

Pois o que aconteceu foi que analisando dois tanques nazistas capturados, analistas aliados conseguiram estimar¬†que os alem√£es estavam produzindo 270 tanques ao m√™s. O Ricardo Bittencourt l√° no blog Caixa Azul explica em Matem√°tica x Tanques de Guerra os detalhes de como estat√≠stica foi usada para esta incr√≠vel dedu√ß√£o. Ao final da guerra, ap√≥s¬†verificar os registros de produ√ß√£o dos pr√≥prios alem√£es, descobriu-se que o n√ļmero de tanques produzidos naquele m√™s¬†foi de… 276.

De Sherlock Holmes a tanques de guerra,¬†estes nexos foram para chegar √†s elei√ß√Ķes:

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=wQEsHOqXP9s”]

Cito aqui o “Voc√™ Fiscal“:

Apesar do que √© divulgado, a urna eletr√īnica brasileira tem falhas grav√≠ssimas de seguran√ßa. Ningu√©m da sociedade civil tem acesso aos detalhes de como os votos s√£o contados pelo software da urna.

Os √ļltimos testes em 2012, mesmo limitados e curtos, quebraram o sigilo do voto com facilidade. O TSE suspendeu a realiza√ß√£o de novos testes depois disso.

E o que n√≥s fazemos agora? Bem, podemos aproveitar uma oportunidade √ļnica de sermos detetives, ou melhor, fiscais, de verdade, do principal evento de cidadania em nosso pa√≠s. E n√£o √© nada complicado ou burocr√°tico.

Não tão diferente de como os aliados, analisando apenas um par de tanques, puderam estimar a produção de todos os tanques alemães, nós podemos fiscalizar com surpeendente efetividade os resultados das urnas registrando apenas alguns Boletins de Urna. Com um simples celular.

O Você Fiscal é um aplicativo que permite a qualquer eleitor fiscalizar a urna em que votou, registrando o Boletim de Urna (BU) ao fim da eleição para detectar fraudes através de amostragem colaborativa.

O Você Fiscal é iniciativa do Prof. Diego Aranha, da Unicamp, pesquisador respeitado nas áreas de segurança computacional e criptografia. Tudo colaborativo, transparente e simples.

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=3sIE6AxJKkU”]

Podemos duvidar das pesquisas eleitorais, podemos questionar a confiabilidade do processo eleitoral, mas mais do que isso, podemos de verdade fazer algo para garantir que o processo eleitoral seja mais transparente e com isso, válido. Fotografar um punhado de boletins de urna pode não parecer fazer muita diferença, mas com muito menos alguns dos segredos mais guardados pelos nazistas foram revelados.

E, veja, pelos riscos no seu celular podemos deduzir que você pode dedicar o que talvez sejam os minutos mais bem gastos de cidadania.

Do Barro ao Espaço (so was Sagan)

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Acima, o mapa estelar do K 8538, um disco de barro com escrita cuneiforme representando o céu em quadrantes como visto pelos sumérios há quase três milênios.

Abaixo, o disco folheado a ouro enviado com as sondas Voyager e que j√° adentra o espa√ßo exterior. Ele cont√©m na parte inferior esquerda um padr√£o radial com 15 linhas, 14 das quais representam pulsares e sua dist√Ęncia relativa ao Sol.

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Há uma semelhança visual entre o disco sumério e o da NASA, e o mais fabuloso é que ela vai além disso. Troca-se o cuneiforme pelo binário e o céu como visto da Terra pela Via Láctea demarcada por pulsares e seu centro, mas os dois riscados cumprem o mesmo objetivo.

Ambos s√£o representa√ß√Ķes simb√≥licas do conhecimento adquirido por aqueles que olhavam para as estrelas e permitem que intelig√™ncias separadas pelo espa√ßo e tempo possam encontrar umas √†s outras enquanto ainda olharem para as estrelas. Ambos discos dizem ‚Äúeu estive aqui‚ÄĚ.

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Se voc√™ conhece algo das constela√ß√Ķes, pode estudar o disco sum√©rio e compartilhar este conhecimento atrav√©s do espa√ßo e tempo com a pessoa que marcou aqueles riscos na argila entre os rios Tigre e Eufrates h√° milhares de anos. Se n√£o conhece, ainda h√° tempo de conhecer. E ainda h√° tempo para descobrir o que s√£o pulsares e como eles permitem localizar nosso sistema solar no espa√ßo-tempo mesmo a muitos milhares de anos-luz de dist√Ęncia.

Algum dia, daqui a muito tempo, em algum lugar, alguma outra inteligência pode encontrar o disco dourado das sondas Voyager e ao compreendê-lo, também compartilhará deste conhecimento. De alguma forma, saberá que você, assim como a cultura, a ciência e particularmente a pessoa que criou aquele disco de barro, existiu.

Porque a inteligência, ainda que rara, é tão Universal quanto as estrelas.

Os Vestidos do Golden Globe: Saias, Barbas e Psico-história

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Moda (s.f.): estilo passageiro que dita o modo de vestir, viver, falar, etc.

Enquanto a moda comenta hoje os vestidos do Globo de Ouro, h√° mais de sete d√©cadas atr√°s era publicado um estudo com o curioso t√≠tulo de ‚ÄúTr√™s S√©culos de Moda em Vestidos Femininos: Uma An√°lise Quantitativa‚ÄĚ (Richardson, Kroeber, 1940). Sim, h√° ci√™ncia antropol√≥gica na moda! E as conclus√Ķes podem nos levar a barbas e fic√ß√£o cient√≠fica! Mas comecemos um nexo de cada vez.

Centímetros, não sentimentos

A moda tem seu aspecto pessoal, subjetivo, qualitativo. Ainda assim, e especialmente na moda de roupas, ela produz algo físico, objetivo, mensurável e quantitativo: uma peça de roupa pode ser medida em centímetros.

Foi justamente a partir desta sacada que em 1919 o antrop√≥logo Alfred Kroeber encontrou a oportunidade para estudar a evolu√ß√£o da moda de forma objetiva. N√£o √© que fosse um um especial apreciador de vestidos, mas √© que folhear imagens de vestidos em revistas de moda feminina ‚Äúfornece um conjunto conveniente e promissor de dados para um estudo de como mudan√ßas estil√≠sticas ou est√©ticas ocorrem quando s√£o examinadas quantitativamente ao inv√©s de intui√ß√£o ou sentimentos subjetivos‚ÄĚ. Um tanto o oposto do que se esperaria de algu√©m folheando revistas de moda.

Em 1940, Jane Richardson expandiu a pesquisa inicial de Kroeber e cobriu os três séculos de moda, analisando vestidos de 1605 a 1936 e é assim graças a Richardson e Kroeber que não precisamos vasculhar três séculos de moda para ter uma ideia dos dados e ao invés simplesmente apreciar seus gráficos.

Especialmente claro é o gráfico da medida da largura da saia de 1788 a 1936:

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Note um vale ao redor de 1810, com larguras de saia mais estreitas; um pico em 1860, saias mais largas; e um novo vale ao redor de 1910-1924, saias outra vez mais estreitas.

Uma das conclus√Ķes dos antrop√≥logos √© que a moda n√£o √© uma reviravolta t√£o livre quanto seus criadores costumam pint√°-la: sim h√° flutua√ß√Ķes que n√£o podem ser previstas, especialmente em per√≠odos de instabilidade, e a moda deste ano √© diferente da do ano anterior. S√£o os pontos no gr√°fico. Contudo, analisadas ao longo do tempo em uma m√©dia m√≥vel de cinco anos ‚Äď a linha s√≥lida — as medidas dos vestidos mudam com uma certa in√©rcia, e acabam produzindo uma curva mais suave de periodicidade.

‚ÄúO papel de indiv√≠duos particulares em moldar o estilo b√°sico de vestimenta √© pequeno. A influ√™ncia de indiv√≠duos criativos ou importantes √© provavelmente exercida em sua maior parte em acess√≥rios de moda transit√≥rios‚ÄĚ, concluem os autores. Supostos grandes influenciadores da moda como Maria Antonieta eram mais provavelmente apenas representantes de movimentos culturais muito maiores a quem o cr√©dito pela mudan√ßa foi atribu√≠do.

Se estas conclus√Ķes ‚Äď a de que a moda n√£o muda no v√°cuo e apresenta in√©rcia ‚Äď parecem √≥bvias, e vasculhar tr√™s s√©culos de registros de vestidos parecer uma perda de tempo, √© apenas porque elas parecem √≥bvias em retrospecto. Sem esses dados, seria apenas um palpite. Gra√ßas a Richardson e Kroeber, √© uma conclus√£o apoiada em dados. √Č ci√™ncia!

Somatória de Barbas

Inspirado pelas conclus√Ķes e metodologia  de Richardson e Kroeber, o economista Dwight E. Robinson resolveu analisar 130 anos de barbas publicadas na revista Illustrated Longon News, de 1842 a 1972. Em ‚ÄúModa no Barbear e Corte de Barbas: os Homens da Illustrated London News, 1842-1972‚ÄĚ, encontramos estes excelentes gr√°ficos de predomin√Ęncia de costeletas, bigodes e barbas ao longo dos anos:

 

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Como pode ser notado no √ļltimo gr√°fico acima, a somat√≥ria de todos os tipos de barba mostra um padr√£o maior ainda mais claro. Ao redor de 1880 quase todos usavam algum tipo de barba, em 1970, quase ningu√©m. E, de forma intrigante, barbas em particular apresentam uma grande correla√ß√£o com a largura de vestidos:

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Ou seja, enquanto mais homens usavam barbas, mais mulheres usavam saias largas. De novo, pode parecer √≥bvio em retrospecto, basta lembrar de um t√≠pico casal vitoriano, mas observar a suavidade e concord√Ęncia destas curvas se estendendo por mais de um s√©culo √© fant√°stico.

Psico-história

‚ÄúHari Seldon desenvolveu a psico-hist√≥ria modelando-a na teoria cin√©tica dos gases. Cada √°tomo ou mol√©cula em um g√°s se move aleatoriamente, de forma que n√£o podemos saber a posi√ß√£o ou velocidade de qualquer um deles. Ainda assim, usando estat√≠stica, podemos descobrir as regras governando seu comportamento coletivo com grande precis√£o. Da mesma forma, Seldon quis descobrir o comportamento coletivo das sociedades humanas ainda que as solu√ß√Ķes n√£o se aplicassem ao comportamento de seres humanos individuais‚ÄĚ. ‚Äď Isaac Asimov

Analisar grandes movimentos hist√≥ricos estatisticamente para prever o futuro como uma ci√™ncia √© fic√ß√£o cient√≠fica ‚Äď e, como Osame Kinouchi me apontou, fic√ß√£o inspirada pela ci√™ncia, ainda que fosse e ainda sejam sonhos cient√≠ficos. √Č assim fascinante descobrir que enquanto Asimov escrevia sobre a psico-hist√≥ria j√° havia estudos como o de Kroeber e Richardson analisando de forma quantitativa a hist√≥ria de movimentos est√©ticos. Nada t√£o imponente quanto prever a ascens√£o e queda de civiliza√ß√Ķes, mas analisar o comprimento de vestidos j√° √© um come√ßo.

Se isso √© ci√™ncia, contudo, qual √© seu poder preditivo? Podemos prever o futuro da moda, o comprimento dos vestidos e das barbas das gera√ß√Ķes futuras?

Em um estudo mais recente, ‚ÄúMudan√ßa Estil√≠stica e Moda em Vestidos Femininos: Regularidade ou Aleatoriedade?‚ÄĚ (1984), John e Elizabeth Lowe revisam o trabalho de Richardson e Kroeber, comparando cinco anos de sua s√©rie com novos dados e estendendo-a com dados at√© 1983. Al√©m de confirmar as principais conclus√Ķes do estudos anterior, os Lowe v√£o al√©m e formulam um modelo para explicar medidas no passado e sua evolu√ß√£o futura! Esta equa√ß√£o explicaria os vestidos do Golden Globe deste ano e de todos os outros?

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A resposta √© negativa. ‚ÄúUma vez que o modelo √© estoc√°stico, isto √©, ru√≠do ou imprevisibilidade √© uma parte inerente do processo, a capacidade de projetar valores futuros decai rapidamente com o passar o tempo‚ÄĚ, notam os autores. ‚ÄúA conclus√£o central √© que o processo de moda de vestidos femininos √© prediz√≠vel, mas apenas escassamente‚ÄĚ.

A psico-hist√≥ria da moda de vestidos e barbas ainda n√£o enxerga muito longe‚Ķ pelo menos com dados de ‚Äúapenas‚ÄĚ tr√™s s√©culos de moda em revistas e ilustra√ß√Ķes. O que cientistas do futuro poder√£o fazer com as bilh√Ķes de fotos de moda em redes sociais desde o in√≠cio deste s√©culo 21, talvez s√≥ Hari Seldon poder√° dizer.

[via Flowing Data, ver também Measuring Time with Artifacts e Analyzing Visual Data]

Nova marginal e a obviedade do paradoxo

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“Tr√™s anos depois da amplia√ß√£o da marginal Tiet√™, a mais importante via de S√£o Paulo, o efeito positivo sobre o tr√Ęnsito acabou –e a lentid√£o na cidade voltou a subir” [Nova marginal Tiet√™ j√° n√£o alivia o tr√Ęnsito paulistano, Folha, 24/03/2013]

Quando a amplia√ß√£o da marginal foi anunciada, comentamos o Paradoxo de Braess: mais estradas podem por vezes significar mais congestionamento. Com novas estradas motoristas coletivamente alteram seus trajetos buscando, individualmente, diminuir seu tempo de viagem. O resultado paradoxal √© que coletivamente o resultado pode ser que todos perder√£o mais tempo. N√£o basta adicionar mais e mais estradas para reduzir congestionamentos, n√£o √© uma fun√ß√£o linear, mais estradas podem piorar o tr√Ęnsito. E uma vers√£o um tanto mais complexa, mas ao mesmo tempo mais previs√≠vel do paradoxo foi observada no grande experimento involunt√°rio da amplia√ß√£o da marginal.

‚ÄúAt√© quem n√£o pegava mais a marginal voltou a usar, e ent√£o j√° excedeu a capacidade da via‚ÄĚ, diz Hor√°cio Figueira, mestre em transportes pela USP. Exatamente o Paradoxo de Braess. E somado a isto, o foco em investimentos de infra-estrutura e cr√©dito baixo, incluindo descontos em impostos, para autom√≥veis teve outro resultado nada paradoxal. ‚ÄúA frota cresceu 35% de 2005 para 2011, chegando a 7,1 milh√Ķes de ve√≠culos — √≠ndice de 63,4 para cada 100 habitantes‚ÄĚ [Crescimento da frota fez tr√Ęnsito piorar em SP, afirma CET].

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Somos ref√©ns do autom√≥vel, porque o autom√≥vel √© f√°cil de ser medido economicamente. √Č um bem de consumo dur√°vel de grande valor, que gera empregos e movimenta diversos setores da economia. O impacto de um autom√≥vel na economia √© muito mais f√°cil de ser percebido do que, digamos, o de uma bicicleta. Uma bicicleta tem uma fra√ß√£o do valor de um autom√≥vel, gerando uma fra√ß√£o dos empregos e movimentando uma fra√ß√£o de setores econ√īmicos. Voc√™ n√£o v√™ anunciantes de bicicleta nos intervalos do Jornal Nacional.

O combust√≠vel que a bicicleta ir√° consumir n√£o √© medido pelo governo, felizmente. A energia vem da alimenta√ß√£o do ciclista. Mas sendo assim, como voc√™ acompanha quantas bicicletas de fato circulam em S√£o Paulo diariamente? √Č uma tarefa complicada, ser√° preciso lidar com v√°rios indicadores ‚Äúproxy‚ÄĚ, estimativas e tudo mais. Com autom√≥veis, ministros podem ter prontamente dados sobre o consumo de combust√≠veis, sobre multas, impostos e toda uma infra-estrutura criada para estimar n√£o s√≥ a frota como onde e qual a extens√£o dos congestionamentos minuto a minuto.

Esta infra-estrutura para monitorar autom√≥veis teve um custo, √© claro. A duplica√ß√£o da marginal teve um custo. Voc√™ pode ter estes custos √† m√£o‚Ķ contudo porque o autom√≥vel √© um elemento econ√īmico f√°cil de ser medido em seus impactos positivos na economia, e √© um impacto muito expressivo, estes custos s√£o sempre tomados como marginais.

H√° ent√£o os custos associados a autom√≥veis muito mais dif√≠ceis de serem estimados. Mais de 40.000 pessoas morrem ao ano em acidentes de tr√Ęnsito. Qual √© o custo disso? S√£o quase R$2 bilh√Ķes pagos anualmente em indeniza√ß√Ķes pelo DPVAT, mas uma indeniza√ß√£o do DPVAT certamente n√£o equivale ao real valor de uma vida perdida. √Č apenas uma indeniza√ß√£o definida pelos recursos que podem ser alocados de um fundo de seguro obrigat√≥rio pago por propriet√°rios de autom√≥veis. Quanto maior √© o custo ‚Äď econ√īmico! ‚Äď das vidas ceifadas? Qual √© o custo da polui√ß√£o? Quanto custa o estresse?

N√£o temos esses n√ļmeros, ou ainda que tenhamos estimativas, elas n√£o se traduzem em indicadores t√£o diretos e considerados t√£o urgentes para a economia quanto n√ļmero de empregos, impostos pagos e tanto mais. Temos os n√ļmeros dos carros, e eles guiaram a l√≥gica simples da pol√≠tica p√ļblica de investir em autom√≥veis. Isso, deixando a parte toda a quest√£o de lobbies da ind√ļstria automobil√≠stica, que amplificam o poder de influ√™ncia e decis√£o em favor do autom√≥vel, e a facilidade com que a corrup√ß√£o pode ser praticada com grandes obras vi√°rias.

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‚ÄúQuando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida‚ÄĚ, diz a Lei de Goodhart. ‚ÄúA lei de Goodhart √© um an√°logo sociol√≥gico do princ√≠pio da incerteza de Heisenberg na mec√Ęnica qu√Ęntica‚ÄĚ. Em economia, a Lei de Goodhart traduz o fato de que para alcan√ßar qualquer meta atrelada em um indicador, √© muito mais f√°cil que os fundamentos desse indicador sejam distorcidos do que realmente mudar ‚Äď e melhorar ‚Äď o que esse indicador realmente pretendia medir para in√≠cio de conversa.

√Č mais f√°cil maquiar a infla√ß√£o, congelando pre√ßos, do que controlar o que a infla√ß√£o realmente significa, que √© a eros√£o do valor dos sal√°rios. Na Uni√£o Sovi√©tica, grandes planos econ√īmicos estabeleciam metas de crescimento que levavam em conta o n√ļmero de quil√īmetros rodados por trens. Para alcan√ß√°-las, diz a lenda que trens andavam milhares de quil√īmetros vazios.

√Č mais f√°cil criar e administrar pol√≠ticas relacionadas a autom√≥veis para melhorar indicadores econ√īmicos do que tentar abordar indicadores muito mais complexos e dif√≠ceis de quantificar como qualidade de vida. Mas mesmo confiando em indicadores, todos mostram que o tr√Ęnsito em S√£o Paulo voltou a piorar, a despeito de bilh√Ķes de investimento de v√°rias esferas do governo. E quando a realidade confronta abertamente o absurdo de indicadores h√° muito inadequados, algo precisa ser feito.

Para diminuir a quantidade de congestionamentos em São Paulo, para melhorar a qualidade de vida do paulistano, deve estar claro que a solução não é simplesmente criar mais vias.

O Tao do Google

Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucion√°rios mas com resultados concretos ainda longe de serem t√£o vistosos lan√ßou o novamente revolucion√°rio computador pessoal Macintosh em um comercial que tamb√©m se tornou ic√īnico, dirigido por Ridley Scott e veiculado durante o Super Bowl. Uma hero√≠na com o logo do Macintosh salva a humanidade da conformidade representada pelo ‚ÄúGrande Irm√£o‚ÄĚ, que discursava:

‚ÄúHoje, celebramos o primeiro anivers√°rio glorioso das Diretivas de Purifica√ß√£o de Informa√ß√£o. Criamos, pela primeira vez na hist√≥ria, um jardim de ideologia pura ‚Äď onde cada trabalhador pode florescer, seguro das ervas daninhas que transmitem verdades contradit√≥rias. Nossa Unifica√ß√£o de Pensamentos √© uma arma mais poderosa que qualquer frota ou ex√©rcito na Terra. Somos um s√≥ povo, com uma vontade, uma determina√ß√£o, uma causa. Nossos inimigos v√£o tagarelar at√© a morte, e n√≥s iremos enterr√°-los em sua pr√≥pria confus√£o. N√≥s iremos prevalecer!‚ÄĚ.

Ao que a hero√≠na lan√ßa uma marreta libertadora e destr√≥i a enorme tele-tela, deixando os espectadores estupefatos com a explos√£o. ‚ÄúEm 24 de janeiro, Apple Computer lan√ßar√° o Macintosh. E voc√™ ver√° por que [o ano de] 1984 n√£o ser√° como 1984 [de George Orwell]‚ÄĚ.

Quase 30 anos depois, a Apple Computer, Inc. j√° n√£o fabrica mais apenas computadores, mudando seu nome apenas para Apple Inc., e √© a companhia com maior valor de mercado no mundo, superando gigantes petrol√≠feras e mesmo concorrentes da ind√ļstria de tecnologia de informa√ß√£o como Microsoft e IBM ‚Äď esta √ļltima o alvo original do comercial de 1984. Suas reservas de capital s√£o maiores do que o PIB de v√°rios pa√≠ses. √Č uma ironia fina aquela que interpreta que se h√° hoje um Grande Irm√£o ‚Äúpurificando‚ÄĚ informa√ß√£o, criando um jardim de aplicativos puros onde cada usu√°rio possa florescer seguro das ervas daninhas que transmitem interfaces contradit√≥rias, √© a pr√≥pria Apple, que com sua Unifica√ß√£o de Pensamentos transformou sua marca na propriedade intelectual das mais valiosas, e poderosas, do planeta. O Grande Irm√£o carism√°tico em seus Keynotes para um p√ļblico babando pela √ļltima novidade era ningu√©m menos que o pr√≥prio Steve Jobs.

Esse c√ļmulo da ironia se deu em pouco mais de uma gera√ß√£o, em uma hist√≥ria que cont√©m meandros fractais ‚Äď reviravoltas sobre reviravoltas. Mas este √© um coment√°rio sobre o Google Inc., que precisou come√ßar pela Apple porque nenhuma outra empresa de tecnologia que busque vender tamb√©m um verniz de ideologia √© t√£o ic√īnica quanto aquela fundada por Jobs. Ou pelo menos, t√£o valiosa quanto a Apple Inc. √© hoje.

Se a Apple vendeu-se como uma empresa vision√°ria de produtos √† frente de seu tempo, o Google passou boa parte de seu tempo promovendo o lema informal menos pretensioso ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ, ou ‚Äún√£o seja malvado‚ÄĚ. Embora design nunca tenha sido seu ponto forte, o Google se destacou pela tecnologia, o que √© uma grande vantagem quando se √© uma empresa de tecnologia. Enquanto √† √©poca outras grandes corpora√ß√Ķes moviam enormes fundos e conglomerados de m√≠dia para capitalizar um ecossistema que buscava sempre prender os visitantes dentro de ‚Äújardins de ideologia pura‚ÄĚ, de propriedade desta ou daquela corpora√ß√£o, o Google apostava na efici√™ncia de seu buscador como ponto de in√≠cio e norte para todos internautas.

N√£o era necess√°rio prender o visitante em uma rede infind√°vel de sites de sua propriedade, pelo contr√°rio, quanto mais r√°pido um visitante sa√≠sse de seu buscador encontrando o que procurava, mais prov√°vel era que ele retornasse depois ao seu buscador quando pensasse ir a outro lugar. Como uma esp√©cie de koan zen budista, para fazer o visitante retornar, fa√ßa-o ir embora. Tente prend√™-lo, e ele ir√° fugir. E √† medida que o volume de informa√ß√Ķes na rede crescia geometricamente, a tecnologia do Google mostrou-se em anos decisivos a mais capaz de oferecer resultados relevantes ao usu√°rio.

Em 2011 em um testemunho no senado americano, Eric Schmidt, então chairman do Google, concordou que o Google detém hoje o monopólio na área de mecanismos de busca. Pouco mais de uma década depois de sua fundação, em menos de uma geração, uma startup baseada em ideias revolucionárias de tecnologia venceu todos os recursos investidos por gigantes de mídia e se tornou ela mesma mais valiosa que o maior conglomerado tradicional de mídia, a Disney.

E como voc√™ pode n√£o ser ‚Äúmalvado‚ÄĚ se det√©m o monop√≥lio da √°rea mais importante da Internet e √© uma das empresas mais valiosas do mundo? √Č simplesmente imposs√≠vel. Vender-se como o underdog, aquele competidor pequeno mas valente desafiando o gigante tir√Ęnico, n√£o funciona quando voc√™ mesmo se torna o gigante. Voc√™ tamb√©m se torna automaticamente o tirano.

Mal o Google consolidou seu monop√≥lio dos mecanismos de busca, uma forma nova de uso da rede emergiu ‚Äď as redes sociais. O Facebook como rede social √© desde o in√≠cio um ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ de propriedade de Mark Zuckerberg, fechado aos olhos indexadores do Google, e um ao qual os visitantes n√£o precisam se lembrar de ir ao Google para gerar, consumir ou encontrar conte√ļdo: basta perguntarem aos amigos que tamb√©m fazem parte da rede social. √Č uma forma fundamentalmente diferente de utilizar a Internet, e uma que n√£o passa pela ideologia original do jardim aberto do Google.

O que os grandes conglomerados de m√≠dia n√£o conseguiram concretizar √† for√ßa no primeiro boom da Internet na virada do mil√™nio, a tecnologia das redes sociais tornou hoje n√£o s√≥ poss√≠vel, como transformou em realidade. Com um crescimento org√Ęnico e viralizado, onde todos entram porque outros j√° entraram, e sem vender nem mesmo um verniz de ideologia, o Facebook se consolidou como o maior ‚Äújardim de ideologia pura‚ÄĚ j√° criado. Um local onde cada mudan√ßa na forma como Zuckerberg apresenta sua timeline afeta instantaneamente a maneira com que milh√Ķes de pessoas consumir√£o informa√ß√£o. Discutir o impacto que a introdu√ß√£o de hashtags ter√° no ecossistema do Facebook √© um indicador claro da pureza deste jardim onde n√£o h√° ervas daninhas que n√£o sejam podadas.

Se a possibilidade de usar outros sites em apenas um clique era um argumento usado por Schmidt para o fato de que o monop√≥lio do Google n√£o era prejudicial ao consumidor, quando esta possibilidade se mostrou uma amea√ßa concreta, o Google passou a exercer sua tirania. Todos usu√°rios de qualquer propriedade do Google, agora parte de um jardim de ideologia, precisam aderir ao Google+. A amea√ßa do Facebook √© t√£o s√©ria √† vis√£o original do Google que hoje est√° claro que esta vis√£o original foi simplesmente abandonada. Hoje, o objetivo do Google √© o mesmo que o do Facebook, Apple, IBM, Microsoft, do IngSoc e do Grande Irm√£o. √Č o mesmo que o da outrora gigante AOL. √Č prender voc√™ em um jardim de ideologia pura de sua propriedade, do qual voc√™ n√£o deve sair, onde todos seus pensamentos possam ser capitalizados e vendidos. Um perfil, um login, uma rede social, √ļnica, para todo o planeta, √© o sonho perseguido por todas estas gigantes flexionando bilh√Ķes capitalizados no mercado.

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O objetivo nada secreto de toda corpora√ß√£o √© o lucro, n√£o deveria haver nenhuma grande novidade nisto. Se por um breve per√≠odo o Google promoveu uma filosofia aparentemente diferente, √© porque na peculiar situa√ß√£o que existia, a filosofia contr√°ria prometia maiores lucros no m√©dio e longo prazo. ‚ÄúN√≥s acreditamos firmemente que no longo prazo, seremos melhor servidos ‚Äď como acionistas e de todas outras formas ‚Äď por uma companhia que faz coisas boas para o mundo mesmo que deixemos de lado alguns ganhos de curto prazo‚ÄĚ, declarava o IPO do Google no mais pr√≥ximo de um manifesto ‚Äúdon‚Äôt be evil‚ÄĚ a que se chegou.

Funcionou, dez anos depois o Google trouxe enormes retornos a seus acionistas. A constatação triste é que hoje, todos os ganhos do Google, incluído, devem ser de curto prazo.

Se a hist√≥ria de reviravoltas de empresas de tecnologia √© um par√Ęmetro, por√©m, √© muito prov√°vel que as empresas mais valiosas e poderosas do mundo daqui a uma gera√ß√£o ainda nem existem, e enquanto empresas com centenas de bilh√Ķes em capitaliza√ß√£o movem seus ex√©rcitos em estrat√©gias para criar jardins de ideologia pura, uma nova empresa focada em tecnologia ainda por surgir pode sequer depender de um clique para ser acessada.

Google, eu gostaria que fosse você, mas de toda forma, obrigado pelos peixes.

Movimento de um feto humano de 24 semanas

Este v√≠deo mostra um feto de 24 semanas com uma quantidade relativamente grande de fluido amni√≥tico permitindo movimento de todos quatro membros. O registro tamb√©m demonstra os movimentos pequenos dos dedos e indica√ß√Ķes do movimento de deglutir. Este grau de movimenta√ß√£o √© t√≠pico para um beb√™ desta gesta√ß√£o e torna a captura de imagens de seu c√©rebro um desafio.

Do King’s College London, via Wired, Fogonazos

Ateísmo Humano

No Congresso Humanista 2012, com a mestre de cerimônias Shirley Galdino

No início de setembro de 2012, a Liga Humanista Secular (LiHS) realizou o I Congresso Humanista Secular em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Reunindo pela primeira vez ateístas, humanistas e secularistas de todo o país e do mundo em um grande evento no Brasil, eu estive lá, e uma palavra que pode resumi-lo é que foi histórico!

O termo pode parecer um tanto exagerado para o que, à primeira vista, pareça apenas uma série de palestras feitas lá no Sul. Para expressar e compartilhar melhor a satisfação que tive em acompanhar e participar desse evento, vou contar um pouco de minha história me aventurando como parte destes grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas.

A ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ

H√° mais de dez anos, existia no pa√≠s um grupo significativo de ateus, agn√≥sticos, humanistas, c√©ticos, racionalistas e tantos mais unidos pela internet em todo o Brasil e pelo mundo para trocar ideias e promover a√ß√Ķes defendendo seus direitos e ideais para transformar a sociedade como um todo para melhor.

Era a ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ (STR), criada em 1999 por ‚ÄúL√©o Vines‚ÄĚ. Como muitos ateus √† √©poca, tenho orgulho de ter feito parte deste grupo, ajudando a produzir como co-editor tr√™s n√ļmeros da ‚ÄúRevista Terra Redonda‚ÄĚ. Entre os outros editores volunt√°rios da STR encontramos nomes que podem ser reconhecidos ainda hoje neste mesmo ativismo: Daniel Sottomaior, que viria a fundar a ATEA, e Asa Heuser, hoje presidente da mesma LiHS. Outro co-editor da revista Terra Redonda era o professor Renato Zamora Flores, um dos palestrantes no CHS2012 e a quem tamb√©m tive o privil√©gio de enfim conhecer pessoalmente e fechar um ciclo.

Se h√° mais de dez anos j√° existia um grupo como a STR, se ele reunia algumas das figuras que hoje defendem esses ideais atrav√©s de organiza√ß√Ķes formais com a√ß√Ķes concretas, indo de campanhas de conscientiza√ß√£o a eventos com luminares internacionais, o que aconteceu com a STR?

Bem, ela n√£o aconteceu. Justamente quando os esfor√ßos eram para que se formalizasse ‚Äď em maio de 2004! ‚Äď, indo al√©m de um grupo de pessoas unidas pela rede para se tornar uma institui√ß√£o formalizada na sociedade, a figura central no grupo, seu criador, deixou-o de lado. O grupo ficou no limbo por anos, sem estar certo sobre se o presidente ainda retornaria, se delegaria responsabilidades para permitir a continuidade do projeto, ou se o barco deveria ser mesmo abandonado. Em retrospecto, hoje √© claro que o barco deveria ter sido abandonado prontamente e o momentum de colaboradores preservado. Mas se passaram oito anos. Foi um fim ‚Äún√£o com um estrondo, mas com um suspiro‚ÄĚ. Um longo e incerto suspiro.

Limbo e Renascimento

Ao longo destes anos do limbo da STR, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas, mas acreditam firmemente em outras, continuaram formando grupos e subgrupos pela internet unidos seja pela cren√ßa ou descren√ßa. Por√©m o rubic√£o de ‚Äúgrupos de internet‚ÄĚ continuou n√£o sendo cruzado. Aqui se inclui o pr√≥prio CeticismoAberto, projeto que mantenho desde 2001 e ainda n√£o √© uma associa√ß√£o formalizada.

Por algum tempo em sua evolu√ß√£o o s√≠tio online CeticismoAberto foi hospedado como uma √°rea da STR, e durante o limbo da STR, percebi o valor e a necessidade que havia em auxiliar outras iniciativas na rede a encontrar algo t√£o b√°sico quanto uma hospedagem fixa, para que seus respons√°veis pudessem concentrar seus esfor√ßos em criar e divulgar conte√ļdo. Com o estabelecimento do CeticismoAberto de forma independente, desde agosto de 2006 ele passou a sustentar o chamado projeto HAAAN, uma incubadora de projetos de divulga√ß√£o do pensamento cr√≠tico pela rede. O nome foi escolhido pela sonoridade (‚Äúh√£√£√£n‚ÄĚ) e por n√£o ter associa√ß√£o direta a nada, de forma que cada site hospedado possa firmar sua pr√≥pria identidade e ao final estabelecer-se sozinho.

Atrav√©s do projeto HAAAN hospedamos iniciativas eletr√īnicas selecionadas, com um foco em iniciativas analisando de forma cr√≠tica temas extraordin√°rios, na linha do CeticismoAberto. Apesar de n√£o ter o ate√≠smo ou o laicismo dentro do foco, o HAAAN tamb√©m j√° hospedou na rede a iniciativa ‚ÄúBrasil para Todos‚ÄĚ, que foi uma das a√ß√Ķes que Sottomaior levou √† frente depois da STR e antes de fundar a ATEA, com a bandeira do Estado laico. Hospedamos, registramos e ajudamos a criar ainda o site da ‚ÄúUni√£o Nacional dos Ateus‚ÄĚ (UNA) e mesmo o ‚ÄúBule Voador‚ÄĚ, lan√ßado na rede em 2008.

E foi em 2008 que o rubic√£o foi finalmente cruzado. Em agosto de 2008 a Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, ATEA, foi fundada por um trio incluindo Daniel Sottomaior. A associa√ß√£o logo p√īs em pr√°tica a√ß√Ķes concretas de destaque al√©m do mundo virtual, incluindo a√ß√Ķes jur√≠dicas e campanhas de divulga√ß√£o em outdoors.

Por sua parte, e ao longo do tempo o Bule Voador, de suas origens como um blog, passou a ser mantido como canal de comunicação pela LiHS, que assim como a ATEA, foi muito além do que o próprio HAAAN ou o CeticismoAberto alcançaram. Esses grupos cruzaram o rio e se estabeleceram formalmente: se o limbo da STR durou anos, eles foi superado pelo estabelecimento formal primeiro da ATEA e então da LiHS.

Depois de praticamente uma d√©cada desde que come√ßaram a se organizar atrav√©s da tal de Internet, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas no Brasil finalmente sa√≠ram da rede e solidificaram sua posi√ß√£o na sociedade. S√£o institui√ß√Ķes.

Pouca Fé

Entetanto, minha f√© em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas n√£o durou tanto. Ao longo deste ativismo, de editor da STR, j√° fui um associado da ATEA, diretor da UNA e membro-em√©rito da LiHS. Hoje n√£o sou formalmente associado a nenhum desses grupos ou associa√ß√Ķes. Para explicar essa posi√ß√£o, mais hist√≥ria.

Apoiar e participar de iniciativas promovendo ci√™ncia, com foco na an√°lise cr√≠tica de alega√ß√Ķes extraordin√°rias, ao longo de mais de uma d√©cada tem sido extremamente gratificante. N√£o me lembro de qualquer conflito ou diverg√™ncia que n√£o valesse a pena, n√£o me recordo de nenhuma frustra√ß√£o que n√£o fosse compensada por uma grande satisfa√ß√£o. Ter respondido a duas a√ß√Ķes judiciais movidas por um suposto ‚Äúpremonitor‚ÄĚ, apesar do inconveniente e do preju√≠zo financeiro, √© mais do que compensado pelo apoio recebido de todas as formas de todos amigos e colegas, o que permitiu atravessar essa pendenga jur√≠dica com duas vit√≥rias judiciais. Meu amigo e advogado, Alexandre Medeiros, aceitou a causa pelo CeticismoAberto. Foi um de v√°rios apoios fundamentais que recebi. Ser ofendido por certas figuras √© de certa forma um elogio, receber o apoio de outras √© um dos pr√™mios mais valorosos que se pode receber. O ‚Äúativismo c√©tico‚ÄĚ, se o chamarmos assim, abriu-me muitas portas, permitiu que aprendesse e ganhasse muito, inclusive profissionalmente. Nada foi em v√£o.

Infelizmente o mesmo n√£o se pode dizer do ativismo ateu. Para mim, sempre foi n√≠tida a diferen√ßa na pr√°tica entre a luta por estas duas causas t√£o pr√≥ximas. No ativismo ateu, desde o in√≠cio de meus contatos, desde a STR, diverg√™ncias internas tendem a fragmentar grupos j√° pequenos e quantidades absurdas de esfor√ßos s√£o dedicadas a tarefas pouco produtivas ou mesmo contra-produtivas ‚Äď incluindo fomentar mais diverg√™ncias internas. A STR n√£o implodiu, ela definhou antes de implodir, mas v√°rios grupos contempor√Ęneos ou mesmo posteriores implodiram ou mesmo explodiram em tempestades intern√©ticas durante o per√≠odo do limbo. N√£o que tempestades intern√©ticas fa√ßam qualquer barulho fora da Internet.

Mesmo ap√≥s o limbo, com o estabelecimento da primeira organiza√ß√£o formal para defesa de direitos de ateus e outras causas relacionadas, os desentendimentos continuaram, e em certos pontos se acentuaram. A UNA teve como um de seus germes a dissid√™ncia da ATEA, e a LiHS em sua g√™nese compartilhou tamb√©m muito com a UNA, embora por fim tamb√©m acabasse por haver diverg√™ncias entre esta e a pr√≥pria UNA. N√£o que isso a aproximasse da ATEA, pelo contr√°rio. O epis√≥dio duplo da s√©rie South Park, ‚ÄúGo God Go‚ÄĚ, satirizando o neo-ate√≠smo, pode ser simplesmente bobo ao retratar Richard Dawkins apaixonado por um Senhor Garrison transexual, mas na apresenta√ß√£o da guerra absurda entre grupos ate√≠stas sobre a ‚Äúquest√£o final‚ÄĚ irrelevante a s√°tira √© praticamente um document√°rio.

Profundamente decepcionado com a capacidade de ateus organizarem-se em torno de ideais comuns para promover a√ß√Ķes efetivas que mudem a sociedade para melhor, vendo esfor√ßos serem perdidos e erros repetidos desde o in√≠cio com a STR, acabei por solicitar meu desligamento de todos esses grupos e associa√ß√Ķes de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-deus.

Al√©m da decep√ß√£o, enquanto estava envolvido diretamente nesses grupos eu tamb√©m me envolvi em diverg√™ncias que consumiam esfor√ßos e n√£o levam a nada de positivo. O v√≠rus da necessidade de vencer o √ļltimo debate da Internet √© contagioso, e eu certamente n√£o estou imune a ele. Se a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos de minorias, ateus inclu√≠dos, ela tamb√©m infecta aqueles em sua √Ęnsia pela raz√£o e ret√≥rica, pela ilus√≥ria e breve ‚Äúfama‚ÄĚ de internet, a discuss√Ķes sem fim pela rede. Em nome da raz√£o, mas em verdade sob seu disfarce, argumentos secos s√£o disparados para servir ao que s√£o claramente desentendimentos pessoais mesquinhos.

A Internet, sua impessoalidade, seu imediatismo, desperta um lado negativo da discuss√£o racional. Se como ferramenta a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos, ela trouxe tamb√©m o cavalo de tr√≥ia que tem destru√≠do e atrasado grupos ateus h√° mais de uma d√©cada. Este n√£o √© um fen√īmeno exclusivo do Brasil, tampouco um v√≠rus no qual o √ļnico vetor seja a rede eletr√īnica, mas se h√° uma an√°lise que possa arriscar do (n√£o) desenvolvimento dos grupos ateus por aqui ao longo de uma d√©cada, √© esta.

Fé Renovada

√Č aqui, finalmente, que chegamos ao I Congresso Humanista Secular do Brasil em Porto Alegre. Descrente, penso que posso confessar hoje que n√£o esperava muito do evento. H√° um limite para o que um pequeno grupo de pessoas consegue fazer, ainda que algumas dediquem esfor√ßos heroicos. E grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, como havia me desiludido, nunca conseguem ficar muito grandes. Minha falta de f√© significou que, com pouco tempo antes do evento, n√£o preparei como deveria as palestras que fui convidado a apresentar. Ningu√©m deveria reparar muito, imaginei, n√£o esperando muito seja de mim, seja do evento.

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Eu estava errado. A imagem acima traduz como estava errado. Esses n√£o s√£o os palestrantes. Esses s√£o mais de uma dezena de organizadores presentes, ao final do evento, boa parte dos quais vieram de quase todos os cantos do Brasil. E boa parte dos organizadores n√£o p√īde estar presente, mas tamb√©m colaborou para concretizar um evento espetacular, n√£o s√≥ por si mesmo como tamb√©m pela forma como foi concretizado.

No momento em que me desiludia e me afastava do ativismo ateu e ainda prestava atenção a algumas velhas novas tempestades internéticas, se consolidava um grupo grande e organizado de pessoas centradas e dedicadas a realmente fazer coisas. Fora da Internet. E o mais importante, que descobri durante o congresso e pude acompanhar após ele: é uma instituição sólida, que não depende exclusivamente de um punhado de pessoas. Depende de um grande grupo de pessoas, suficiente para dar segurança institucional à associação.

A Liga Humanista Secular concretiza hoje não apenas o que sonhava ao participar da STR há dez anos, mas vai além. Seu escopo é amplo, sua visão é clara, sua execução tem sido muito eficiente. O evento equilibrou bem todos os eixos do humanismo secular, apresentados pelo então presidente da LiHS, Eli Vieira.

Os v√≠deos das palestras ainda devem ser divulgados pela LiHS, toda e cada apresenta√ß√£o foi espetacular. Ainda me centrando nesta vis√£o mais ampla do evento e do movimento ateu, se h√° uma palestra que gostaria de comentar, √© a palestra do fil√≥sofo portugu√™s Desid√©rio Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Em linguagem e abordagem acess√≠veis, o professor exp√īs ideias e argumentos profundos condensados no pequeno espa√ßo temporal da palestra. Na resposta √†s perguntas da plateia, o fil√≥sofo se colocava no lugar daqueles que lhe faziam perguntas e procurava a melhor forma de efetivamente transmitir sua resposta. Uma palestra de filosofia imensamente prazerosa e empolgante, de um tema central a todos que l√° estavam, proferida por um experiente professor.

O t√≠tulo deste texto, ‚Äúate√≠smo humano‚ÄĚ, √© um certo contraponto a um texto anterior publicado aqui, ‚Äúate√≠smo halsenflugel‚ÄĚ, em que criticava a abordagem feroz que Eli Vieira e um dos participantes do Bule Voador faziam sobre a defini√ß√£o ‚Äúcorreta‚ÄĚ de ‚Äúate√≠smo‚ÄĚ, apoiados largamente no que seria a abordagem filos√≥fica do tema. Pois se aquilo representava um erro e ainda outro retrocesso contraprodutivo na hist√≥ria do movimento ateu no pa√≠s, bem, Eli Vieira, ainda como presidente da LiHS, foi um dos respons√°veis pelo equil√≠brio de abordagens e tamb√©m pela participa√ß√£o brilhante do fil√≥sofo Desid√©rio Murcho.

Assistir ao espetáculo proporcionado pelo ateísmo humanista renovou minha fé e orgulho em ser humano e ateu.

Um Movimento sobre Nada ‚Äď e Tudo

O ate√≠smo, por si s√≥, √© literalmente nada, √© a aus√™ncia de cren√ßa em deus. A vertente do ate√≠smo mais popular, e a que √© tida autom√°tica e orgulhosamente como sin√īnimo de ate√≠smo, √© o ate√≠smo racionalista, aquele a que se chega ap√≥s uma an√°lise racional dos argumentos sobre deus e a conclus√£o de que n√£o haveria raz√£o para aceitar esse conceito. Que √© uma quest√£o de f√©, e uma que ateus racionais escolheram descartar.

Este ainda √© um conjunto de valores bem t√™nue, e um tanto confuso. Se √© a raz√£o o valor comum que une ateus racionalistas, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes racionalistas, ao inv√©s de ate√≠stas, sendo este mero detalhe? Se, por outro lado, a causa mais urgente pela qual devem lutar √© pela aplica√ß√£o de direitos e liberdades definidas constitucionalmente, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes de direitos humanos e constitucionais?

As duas e novas associa√ß√Ķes formais no pa√≠s oferecem escolhas, n√£o necessariamente excludentes. A ATEA, Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, tem como foco o ate√≠smo, a congrega√ß√£o de ateus, a defesa de seus direitos. A LiHS, Liga Humanista Secular, tem como foco o humanismo secular, uma posi√ß√£o filos√≥fica mais ampla e ao mesmo tempo mais estrita.

Mais ampla e mais estrita? Mais ampla porque o humanismo secular promove valores indo da razão à ética, pela qual o Congresso Humanista Secular de 2012 contou com a participação de acadêmicos, jornalistas e defensores de direitos humanos. Sua ação na rede tem se destacado ultimamente na defesa de direitos LGBT e pelo feminismo. Essa amplitude angariou a contribuição e participação de ativistas de um amplo espectro.

H√° contudo um posicionamento pol√≠tico estrito nos valores do humanismo secular. Em retrospecto, n√£o √© surpresa que isso cause repulsa daqueles que discordam de um ou outro destes aspectos promovidos ‚Äď ou simplesmente discutidos! ‚Äď pela LiHS. O humanismo secular √© amplo em sua abordagem, e pode ser um tanto estrito em suas conclus√Ķes. Apenas a toler√Ęncia pode estender e abrigar neste espectro opini√Ķes divergentes sobre assuntos espec√≠ficos quando a concord√Ęncia em temas mais relevantes deve ter prioridade. Esta toler√Ęncia nem sempre √© exercida como deveria seja por pessoas de fora ou de dentro da LiHS.

Como não é surpresa que haja aqueles que se sintam inconformados com o foco estrito da ATEA, que por vezes permite em silêncio discursos de ódio entre suas fileiras tão condenáveis quanto o mesmo ódio do qual procura defender ateus. Afinal, congregar e defender ateus é sua prioridade maior.

Fundamentalmente, tanto a LiHS quanto a ATEA s√£o associa√ß√Ķes irm√£s. A defesa dos direitos de ateus √© um dos objetivos do humanismo secular, por sua parte a ATEA declara explicitamente entre seus objetivos a promo√ß√£o de sistemas √©ticos seculares. Uma anedota ilustra bem essa congru√™ncia de valores: o presidente da ATEA, Daniel Sottomaior, √© pessoalmente um defensor ferrenho do vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional. O ex-presidente da LiHS, Eli Vieira, recentemente tamb√©m passou a defender no √Ęmbito pessoal, com √™nfase, o vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional.

A diferen√ßa na abordagem e √™nfase destes dois grupos, assim como seus eventuais conflitos, adv√©m mais das prioridades e caracter√≠sticas de seus dirigentes e seu hist√≥rico do que de uma incompatibilidade de princ√≠pios. Como s√£o institui√ß√Ķes formalizadas e democr√°ticas, √© minha esperan√ßa que estes conflitos ainda sejam solucionados, se n√£o pelos volunt√°rios de hoje, pelos de amanh√£. Foi uma pena n√£o ver a ATEA representada no Congresso Humanista Secular.

Encontrando Nada, e Tudo

E, como a hist√≥ria se repete, por pouco a LiHS n√£o se viu representada como apoiadora do II Encontro Nacional de Ateus (IIENA), coordenado pela Sociedade Racionalista, um novo grupo articulado nas redes sociais e que conta j√° com mais de 130.000 seguidores no Facebook. Ap√≥s um desentendimento em outra tempestade virtual contraproducente, os √Ęnimos por fim se acalmaram e ultimamente valores comuns prevaleceram.

Depois do Congresso Humanista, e ap√≥s um primeiro encontro bem-sucedido no ano passado, o segundo encontro nacional de ateus neste fim-de-semana (17/02) promete. Com minha f√© renovada em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, participarei de mais um evento, e j√° contribu√≠ com a ‚Äúvakinha‚ÄĚ para ajudar a cobrir os custos locais. Ser√° fabuloso encontrar outras pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, incluindo a√≠ uma palestra do procurador Jefferson Dias, autor da a√ß√£o que levou √† condena√ß√£o do canal de TV Band, ap√≥s declara√ß√Ķes proferidas pelo apresentador Jos√© Luis Datena reconhecidas pela Justi√ßa como impr√≥prias, a esclarecer a popula√ß√£o sobre a diversidade religiosa e a liberdade de consci√™ncia e de cren√ßa no Brasil.

Resultados concretos est√£o sendo alcan√ßados. A Internet tamb√©m pode favorecer e alavancar o que h√° de melhor em n√≥s, eventos em escala nacional ou internacional como os que est√£o sendo promovidos seriam imposs√≠veis, com os escassos recursos de que se disp√Ķe, sem a rede eletr√īnica. E a not√≠cia da vit√≥ria judicial sobre o discurso de √≥dio de Datena na TV acompanha o enorme sucesso que o v√≠deo-resposta de Eli Vieira, o mesmo ex-presidente da LiHS, alcan√ßou refutando as fal√°cias pseudocient√≠ficas de um pastor condenando a homossexualidade ‚Äúcientificamente‚ÄĚ.

Ainda me preocupa que a nova Sociedade Racionalista não seja uma associação formalizada, já adentrando o segundo ano organizando um evento em escala nacional. Ainda preocupa que as rixas entre os grupos por vezes se aprofundem ao invés de serem remediadas. Ainda preocupa que os mesmos erros continuem sendo repetidos. Mas já estou há algum tempo afastado de tudo isto, sentado agora confortavelmente como espectador, apenas mais um ateu na multidão, e se antes o que me restava era descrença e decepção, o que há agora é esperança e, como um termo que não me canso de repetir, fé.

As vit√≥rias e conquistas recentes s√£o espetaculares. Os √ļltimos meses t√™m sido quase inacredit√°veis ap√≥s uma d√©cada de esfor√ßos pouco produtivos. Ateus t√™m salva√ß√£o, e pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas podem criar coisas fant√°sticas e concretas para beneficiar toda a sociedade. Aos poucos, a sociedade muda, para melhor, com a participa√ß√£o de ateus, em nome de deus algum, pela sociedade em si mesma.

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[Agrade√ßo especialmente a Daniel de Oliveira e C√≠ntia Brito dos Santos pela acolhida, compartilho a honra que me foi ser palestrante acompanhado de figuras t√£o ilustres, e parabenizo todos da LiHS, em especial √† comiss√£o organizadora que vi correndo por horas seguidas, em um evento de tirar o f√īlego e inspirar √Ęnimos.]

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