O Apocalipse Inevit√°vel (parte II)

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Esta é a história pouco conhecida de um homem que salvou o mundo. Físico e meteorologista na Universidade de Arizona, EUA, James McDonald tornou-se mais conhecido porém por sua apologia aos OVNIs. Acreditava firmemente que eram um mistério não resolvido e que a academia e órgãos oficiais não lhe dedicavam a atenção devida. Chegou a testemunhar no Congresso defendendo os discos voadores.

Foi sobre outra quest√£o que McDonald testemunhou no Congresso pela segunda vez, em 1970. J√° h√° mais de uma d√©cada pol√≠ticos nos Estados Unidos discutiam a cria√ß√£o de sua pr√≥pria frota de avi√Ķes supers√īnicos comerciais ‚Äď abordamos a rocambolesca hist√≥ria do Concorde aqui. Mais alto, mais r√°pido, quest√£o de orgulho nacional enquanto os europeus e os sovi√©ticos investiam em seus avi√Ķes supers√īnicos. Como ser contr√°rio a tal progresso?

Havia um problema: a polui√ß√£o lan√ßada por esses avi√Ķes diretamente na alta atmosfera, alterando a composi√ß√£o entre outras da camada de oz√īnio. Anos antes cientistas j√° haviam notado que esta polui√ß√£o poderia interagir com o oz√īnio, diminuindo sua concentra√ß√£o e a prote√ß√£o que ofereceria ao barrar radia√ß√Ķes solares mais intensas. Diferentes acad√™micos incluindo Paul Crutzen ‚Äď que ganharia o pr√™mio Nobel por tais pesquisas ‚Äď alertariam sobre as poss√≠veis consequ√™ncias das emiss√Ķes de √≥xido n√≠trico por avi√Ķes supers√īnicos.

d6f56e655611Entra McDonald e seu segundo testemunho no Congresso. ‚Äú√Č minha estimativa presente que a opera√ß√£o de SSTs [avi√Ķes supers√īnicos] nos n√≠veis de frota estimados atualmente para 1980-1985 poderia aumentar tanto a transmiss√£o de radia√ß√£o solar ultravioleta a ponto de causar algo na ordem de 5~10.000 casos adicionais de c√Ęncer de pele ao ano apenas nos EUA‚ÄĚ. Lembra o Sunblock 5000, n√£o? Levem o projeto √† frente, e ver√£o milhares de mortes por c√Ęncer, advertiu McDonald.

Funcionou. O Congresso cortou o financiamento ao avi√£o supers√īnico americano, depois de j√° ter investido mais de um bilh√£o de d√≥lares, √† √©poca. Mais do que convencer o Congresso, o risco √† camada de oz√īnio e as milhares de mortes que poderia causar foram explorados pela imprensa e impressionaram o p√ļblico, tornando-se elemento importante no movimento ambientalista. T√£o relevante que tais temores foram finalmente amplificados, tornando-se conhecimento comum e mesmo alvo de par√≥dias de Hollywood, ap√≥s a descoberta de que de fato havia uma diminui√ß√£o na concentra√ß√£o do oz√īnio sobre a Ant√°rtida ‚Äď nunca chegou a formar um buraco de fato, mas constitui uma rarefa√ß√£o significativa ‚Äď e o entendimento de que, mesmo sem centenas de avi√Ķes supers√īnicos na estratosfera, poluentes ent√£o largamente usados em geladeiras ou latas de spray, os CFCs, silenciosa e lentamente rumavam at√© o espa√ßo onde destru√≠am a camada protetora.

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N√£o foi tudo apenas devido a McDonald, √© bem verdade ‚Äď o Concorde europeu, como vimos, foi levado at√© o fim causando preju√≠zo a brit√Ęnicos e franceses, sem nunca se tornar economicamente vi√°vel e com apenas 20 avi√Ķes produzidos em toda a hist√≥ria, por isso mesmo de efeitos negligenci√°veis sobre a camada de oz√īnio. No in√≠cio da d√©cada de 1970, discutiam-se frotas de centenas de avi√Ķes supers√īnicos voando diariamente, e isso nunca se concretizou, talvez nunca se concretizasse. Lembre-se tamb√©m que McDonald n√£o foi o √ļnico a alertar sobre os perigos ambientais de poluir a alta atmosfera, e outros cientistas como Crutzen foram mesmo premiados com o Nobel por suas pesquisas na √°rea. N√£o falamos aqui de um super-her√≥i que interrompeu sozinho um aster√≥ide em dire√ß√£o √† Terra, estes s√£o infelizmente apenas personagens de fic√ß√£o. O que temos √© a hist√≥ria real, e nesta hist√≥ria, o uf√≥logo sim desempenhou seu papel. E ao inv√©s de levar o Nobel, McDonald suicidou-se poucos meses depois de seu testemunho no Congresso.

Se lembramos aqui como uma curiosidade o interesse e apologia de McDonald a OVNIs, isso certamente n√£o foi ignorado √† √©poca em que se lutava ferozmente a respeito. E em se tratando de verbas de bilh√Ķes de d√≥lares √† ind√ļstria aeron√°utica, n√£o faltaram os que ridicularizaram o f√≠sico por suas cren√ßas em discos voadores. Um congressista foi especialmente enf√°tico e buscou direcionar o questionamento a McDonald √† ufologia, que em nada se relacionava com a quest√£o do oz√īnio e avi√Ķes supers√īnicos. Mas, argumentou o congressista, qualquer um que acreditasse em homenzinhos verdes n√£o merecia ser levado a s√©rio.

Depois de mais de uma d√©cada de confrontos e ostracismo por seu envolvimento com OVNIs, somado a problemas pessoais, James McDonald decidiu tirar a pr√≥pria vida em 13 de junho de 1971. Mesmo hoje o envolvimento de McDonald com OVNIs √© usado por aqueles que defendem que a id√©ia do buraco no oz√īnio seria uma farsa, uma conspira√ß√£o ‚Äď assim como o aquecimento global. Buscam ressaltar o envolvimento do uf√≥logo como se o perigo sobre o qual alertou fosse algo absurdo, comumente omitindo que McDonald foi apenas um dos cientistas que advertiram com base em evid√™ncia razo√°vel sobre as consequ√™ncias de poluir a alta atmosfera. N√£o foi o primeiro, nem foi o √ļltimo. Foi apenas um deles, um que tamb√©m era um uf√≥logo.

O uf√≥logo, e f√≠sico, e meteorologista, desempenhou sua parte em um esfor√ßo que ajudou a preservar a camada de oz√īnio. O desenvolvimento de modelos atmosf√©ricos confirmaria os fundamentos do alerta, e o cancelamento do projeto supers√īnico americano e o posterior banimento internacional de poluentes como os CFCs, com sinais de que a camada protetora deve se recuperar, tamb√©m vindicariam um ponto em que o homem que acreditava em homenzinhos verdes estava essencialmente correto. A seu modo, e fazendo bem mais do que a parte que cabe a cada um de n√≥s, James McDonald salvou o mundo.

A hist√≥ria n√£o pararia a√≠, e um Apocalipse ainda mais imediato e terr√≠vel seria impedido atrav√©s de ideias derivadas do mesmo buraco na camada de oz√īnio. Era a vez de Carl Sagan salvar o mundo do Holocausto Nuclear. No pr√≥ximo nexo.

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Releia toda a série:

O Apocalipse Inevit√°vel (parte I)

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Um uf√≥logo salvou o mundo. Carl Sagan tamb√©m salvou o mundo. N√≥s precisamos salvar o mundo. Ou, como George Carlin dizia, precisamos salvar a n√≥s mesmos, afinal o planeta pode se virar muito bem. ‚ÄúTem estado a√≠ por 4,5 bilh√Ķes de anos. O planeta n√£o vai a lugar nenhum. N√≥s vamos‚ÄĚ.

Quem tem mais de vinte anos deve se lembrar do chamado buraco na camada de oz√īnio. Ele ainda est√° l√° e todos, mesmo os mais jovens, deveriam saber a respeito. Por√©m h√° vinte anos o tema era t√£o ou mais discutido quanto o aquecimento global √© hoje. Confira, por exemplo, este comercial futurista do protetor solar Sunblock 5000 em ‚ÄúRobocop 2‚ÄĚ (1990):

Par√≥dia, claro, mas representando os temores da √©poca. Duas d√©cadas depois podemos comemorar o sucesso do Protocolo de Montreal e o banimento do CFC, principal vil√£o da hist√≥ria, e como desde 1994 a concentra√ß√£o de tais subst√Ęncias na alta atmosfera vem diminuindo. A camada de oz√īnio deve se recuperar completamente at√© a segunda metade do novo s√©culo ‚Äď um bom tempo, mas um bom prospecto e uma prova de que acordos internacionais podem funcionar. O desafio de controlar emiss√Ķes de carbono √© um imensamente maior do que controlar o CFC, mas √© extremamente interessante ver como √† √©poca, ind√ļstrias que lucravam com o CFC tamb√©m afirmavam que seria primeiro desnecess√°rio, e ent√£o de toda forma imposs√≠vel banir o produto qu√≠mico t√£o √ļtil √† economia.

Virar o jogo e convencer o p√ļblico e os governantes da necessidade de medidas economicamente custosas e que s√≥ veriam resultados a longo prazo envolveu uma hist√≥ria igualmente longa e complexa, e no pr√≥ximo nexo abordaremos a participa√ß√£o do uf√≥logo que salvou o mundo: James McDonald.

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Ciência na Copa do Mundo: Troféu, Vuvuzelas, HD e Sorte

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Milh√Ķes de brasileiros torcem para que em vinte dias a sele√ß√£o levante o trof√©u da Copa. Dourado, erguido duas vezes por nosso time ‚Äď at√© o tricampeonato, erguemos, e levamos para casa, a ta√ßa Jules Rimet ‚Äď o trof√©u tem 36 cent√≠metros de altura e pesa pouco mais de seis quilos, feito de ‚Äúouro maci√ßo 18 quilates‚ÄĚ, segundo a FIFA.

Há uma mentira no parágrafo acima, você pode descobrir qual é?

N√£o √© a torcida, n√£o √© nosso penta. S√£o as dimens√Ķes, o peso, a composi√ß√£o do trof√©u que tanto almejamos para o hexa. Eles simplesmente n√£o batem. Aqui entra ci√™ncia, e ci√™ncia simples de ensino m√©dio que pode denunciar o que seria uma grande fraude. Vamos l√°, para estimar o peso do trof√©u, sendo este maci√ßo de acordo com a FIFA, basta saber seu volume e a densidade do ouro 18 quilates.

pic90Ouro 18 quilates pesa ao redor de 16 gramas por cent√≠metro c√ļbico, √© sua densidade. Estimar o volume exato do trof√©u √© algo mais complicado, mas podemos fazer uma estimativa com base na fotografia acima: s√£o 600 pixels de altura, 230 no ponto mais largo e 100 pixels mais estreito. Como vacas esf√©ricas, suponha que seja um trof√©u cil√≠ndrico com 600 pixels de altura por 150 de largura, isto √©, quatro vezes mais alto do que largo. Como a FIFA informa que o trof√©u tem 36 cent√≠metros de altura, o cilindro equivalente para estimar o seu volume teria 9 cent√≠metros de di√Ęmetro.

Com isso obtemos um volume ao redor de 2.290 cent√≠metros c√ļbicos. Lembrando que cada cent√≠metro c√ļbico do ouro usado no trof√©u pesa por volta de 16 gramas, basta multiplicar os valores para estimar o peso do trof√©u. Resultado: mais de 36kg. Mais de seis vezes o peso informado pela FIFA, e um valor de fato muito grande, parece pouco prov√°vel que Caf√ļ estivesse erguendo mais de 30kg acima de sua cabe√ßa com tanta facilidade.

O peso indicado pela FIFA parece ser verdadeiro, ent√£o alguma das outras informa√ß√Ķes n√£o deve estar correta. Mesmo que o volume do trof√©u fosse estimado pela sua menor largura, que √© seis vezes menor que sua altura, ainda ter√≠amos um volume superior a 1.000 cent√≠metros c√ļbicos, ou 16 kg. Os n√ļmeros n√£o batem, n√£o t√™m como bater. Seria um trof√©u de bijuteria?

Como o professor Martin Poliakoff nota, a resposta pode ser simples. O trof√©u √© em verdade oco. Esta explica√ß√£o faz muito sentido, e significaria que a FIFA n√£o mente em nenhum de seus n√ļmeros sobre a composi√ß√£o, dimens√Ķes e peso. Nem mesmo quando informa que o trof√©u √© de ‚Äúouro maci√ßo‚ÄĚ estaria mentindo, porque em verdade a FIFA informa em ingl√™s que √© de ‚Äúsolid gold‚ÄĚ, que embora traduzido comumente como ‚Äúouro maci√ßo‚ÄĚ, pode significar em ingl√™s apenas que √© feito de uma s√≥ subst√Ęncia, de uma s√≥ liga de metal. √Č de fato s√≥lido, s√≥ n√£o √© maci√ßo. A FIFA n√£o mente, mas deixa todos presumirem que a Copa do Mundo √© um belo trof√©u de ouro maci√ßo quando, embora de fato belo, deve ter ar em seu interior.

√Č uma Copa do trof√©u oco. A ci√™ncia demonstra, embora a FIFA n√£o admita, nem √† BBC. S√≥ dizem que o trof√©u √© ‚Äúsolid‚ÄĚ, n√£o informam que seja oco.

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Neste campeonato mundial, a ci√™ncia tamb√©m se envolve com as Vuvuzelas. O scibling Igor Zolnerkevic do Universo F√≠sico publicou um excelente post: Vuvuzelas, aprenda a am√°-las sem ficar surdo. Para estimar a frequ√™ncia do som fundamental das Vuvuzelas, o professor Dulc√≠dio do F√≠sica na Veia tamb√©m trabalhou com vacas esf√©ricas, e com f√≠sica estimou a vuvuzela como um cilindro de 68 cent√≠metros, obtendo o primeiro harm√īnico de 250Hz, muito pr√≥ximo do valor de fato medido e ao qual as vuvzelas s√£o afinadas (pois elas s√£o afinadas, embora irritantes, o que explica por que vuvuzelas soam todas igualmente irritantes). O Igor explica melhor as sutilezas de uma vuvuzela, incluindo como se pode filtrar as frequ√™ncias espec√≠ficas para que os jogos pela TV fiquem livres de vuvuzelas.

O problema de filtrar a frequ√™ncia das vuvuzelas, contudo, √© que a voz humana tamb√©m se sobrep√Ķe ao redor das mesmas frequ√™ncias, principalmente no primeiro harm√īnico, justamente o fundamental. O espectrograma abaixo mostra como a vuvuzela se sobrep√Ķe √† voz do narrador, e por mais que alguns n√£o apreciem um conhecido narrador esportivo, assistir a uma partida sem narra√ß√£o n√£o deve ser uma experi√™ncia muito divertida.

Vuvuzela

Ao final, e porque as próprias emissoras já processam o áudio dos jogos, reforçando a narração e abafando as vuvuzelas do estádio, pode-se sim remover a frequência das vuvuzelas sem afetar muito a narração, que soa apenas um pouco estranha. Só há mais um problema: caso se escute tempo suficiente ao som com a frequência filtrada, seu ouvido se adapta e… você passa a escutar novamente as vuvuzelas abafadas, e talvez especialmente as vuvuzelas ao vivo em sua sala e vizinhança. Nosso sistema auditivo é algo fabuloso, não?

Um nexo complementar antes de pular ao pr√≥ximo: filtrar as vuvuzelas e a adapta√ß√£o de nosso ouvido t√™m rela√ß√£o com a compress√£o MP3, uma tecnologia que revolucionou a m√ļsica. E um dos mais importantes truques que permitem que o formato de arquivo MP3 reduza o tamanho de arquivos de som √© similar ao filtro da vuvuzela, mas enquanto calar as vuvuzelas afeta o som da voz humana como o percebemos, o MP3 comprime e remove justamente a gama de frequ√™ncias sonoras que nosso sistema auditivo n√£o processa muito bem de toda forma. √Č a psicoac√ļstica. Deixando de lado os sons que n√£o escutar√≠amos bem, ao contr√°rio
das vuvuzelas, arquivos MP3 soam quase id√™nticos a grava√ß√Ķes integrais do som, a uma fra√ß√£o do tamanho.

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Falando em compress√£o digital, esta Copa tamb√©m √© aquela em que como nunca se promovem transmiss√Ķes em alta defini√ß√£o, e a curiosa ironia √© que, como notou a Folha, ‚Äúquem assiste ao Mundial com sinal HD via sat√©lite escuta o grito de gol do vizinho muito antes; quanto melhor a recep√ß√£o, maior √© o ‚Äėdelay‚Äô‚ÄĚ. A imagem anal√≥gica cheia de fantasmas pode chegar at√© 15 segundos antes que aquela digital l√≠mpida em que se v√™em os detalhes da bola. A culpa √©, entre outros, da mesma compress√£o digital.

A imagem em alta defini√ß√£o envolve um volume t√£o grande de informa√ß√£o que √© simplesmente imposs√≠vel que seja transmitida sem alguma forma de compress√£o, mesmo no curto trajeto entre o decodificador e a TV. E toda forma de compress√£o envolver√° alguma esp√©cie de ‚Äúdelay‚ÄĚ, para que um determinado volume de informa√ß√Ķes seja acumulado (nos infames ‚Äúbuffers‚ÄĚ) para ser ent√£o processado e comprimido. Por certo que estes pacotes n√£o duram 15 segundos, podem ser em verdade muito r√°pidos, mas um sinal de alta defini√ß√£o vindo de outro continente provavelmente ser√° comprimido e descomprimido mais de uma vez, passando por diferentes redes, incluindo, via sat√©lite.

O curioso √© que mesmo o sinal anal√≥gico tamb√©m possui um ‚Äúdelay‚ÄĚ, afinal, mesmo a velocidade da luz n√£o √© instant√Ęnea. Leva pouco mais de um d√©cimo de segundo para dar a volta ao mundo ‚Äď r√°pido, mas n√£o instant√Ęneo. A ‚Äúvia sat√©lite‚ÄĚ, contudo, √© um caminho muito mais longo do que uma volta ao mundo! Sat√©lites de comunica√ß√£o em √≥rbita geoestacion√°ria se encontram a aproximadamente 36.000km de altitude (de fato, em √≥rbita), e um sinal leva um quarto de segundo para chegar at√© l√° e retornar a outro ponto da superf√≠cie. Menos r√°pido, e bem menos instant√Ęneo. Um hipot√©tico cabo de TV ligando diretamente a √Āfrica do Sul ao Brasil permitiria gritar ‚ÄúGol!‚ÄĚ fra√ß√Ķes de segundo antes que todos os outros mesmo em suas TVs anal√≥gicas via sat√©lite.

Volume de cilindros e densidade do ouro, vuvuzelas e psicoac√ļstica, compress√£o digital e √≥rbitas geoest√°cionarias √© apenas algo da ci√™ncia e tecnologia presentes em todos os aspectos de nossas vidas, por tr√°s de cada torcida, de cada ‚Äúf√≥√≥√≥√≥m‚ÄĚ. E a ci√™ncia, em especial a matem√°tica estat√≠stica, pode fornecer mesmo uma revela√ß√£o inacredit√°vel sobre a Copa do Mundo.

250_0_KEEP_RATIO_SCALE_CENTER_FFFFFF Todos presumem que a sele√ß√£o campe√£ de uma Copa seja merecidamente a melhor sele√ß√£o. Mas pense um pouco sobre isso: como podemos estar seguros de que a sele√ß√£o campe√£ era mesmo a melhor de todas, 32 no total, quando joga apenas sete partidas rumo ao trof√©u? Sendo que pode empatar ou mesmo perder em jogos durante as tr√™s primeiras partidas nos grupos? Qualquer um pode entender que, para assegurar que uma sele√ß√£o √© a melhor de todas, deveria jogar pelo menos uma vez contra todas as outras 31 sele√ß√Ķes. Provavelmente mais.

Pesquisadores norte-americanos do Los Alamos National Lab, Eli Ben-Naim e Nick Hengartner mostram que o n√ļmero de partidas necess√°rio para garantir que a melhor equipe ganhe um campeonato √© realmente muito, muito maior. Algo em torno do n√ļmero de equipes elevado ao cubo, o que no caso da Copa do Mundo significariam 32.768 partidas (ao inv√©s de meras 64). Cada sele√ß√£o precisaria jogar em torno de 1.000 partidas, ao inv√©s de sete.

Mais de 32 mil jogos, mil para cada sele√ß√£o. Apenas isso asseguraria matematicamente com margem de erro desprez√≠vel que a melhor sele√ß√£o se sagre vencedora de um campeonato. A diferen√ßa destes n√ļmeros aos n√ļmeros da Copa (64 e 7, respectivamente) mostra o quanto a Copa do Mundo e a sele√ß√£o campe√£ dependem do acaso.

Ao final, que erga um troféu de ouro sólido, mas oco, pode não ser tão inapropriado assim. Não é apenas a FIFA que não diz toda a história ao falar de seu troféu, a seleção campeã, mesmo uma pentacampeã, também não irá fazer questão de dizer que ganhar depende tanto de habilidade quanto da sorte.

Boa sorte, Brasil!

Teseu e o fio de Ariadne

XXX

‚ÄúSegundo a  mitologia grega um jovem her√≥i ateniense chamado Teseu, ao saber que sua cidade deveria pagar a Creta um tributo anual composto de sete rapazes e sete mo√ßas a serem entregues ao insaci√°vel Minotauro que se alimentava de carne humana, solicitou ser inclu√≠do dentre eles.
O Minotauro vivia em um labirinto, constituído de salas e passagens intrincadas do palácio de Knossos, cuja construção é atribuída ao arquiteto Dédalo.
Ao chegar em Creta, Teseu conheceu Ariadne, a filha do rei, que se apaixonou por ele. Ariadne, resolvida a salvar Teseu, pediu a Dédalo a planta do palácio. Ela acreditava que Teseu poderia matar o Minotauro, mas não saberia sair do labirinto.
Ariadne deu um novelo a Teseu recomendando que o  desenrolasse √† medida que entrasse no labirinto, onde o Minotauro vivia encerrado, para encontrar a sa√≠da. Teseu usou essa estrat√©gia, matou o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de volta‚ÄĚ. [fonte]

Na fotografia, capturada em 14 de maio de 2010, vemos o √īnibus espacial Atlantis em sua √ļltima viagem rumo ao espa√ßo. A trilha que deixa desde o solo lembra o fio de Ariadne, ligando a Terra √†s grandes altitudes, em um t√™nue rastro de produtos de combust√£o que todavia logo ir√° se desfazer ao vento. Os herois que sobem ao v√°cuo do espa√ßo devem encontrar seu pr√≥prio caminho de volta.

Mas h√° ainda outra interpreta√ß√£o no mito do fio de Ariadne e a explora√ß√£o espacial: estamos em verdade dentro do labirinto do Minotauro, lutando e sacrificando milh√Ķes de jovens e mo√ßas em conflitos est√ļpidos e ultimamente f√ļteis nos meandros deste √ļnico planeta. Um P√°lido Ponto Azul, como dizia Carl Sagan, um gr√£o de poeira suspenso em um raio de Sol, um palco muito pequeno em uma imensa arena c√≥smica.

E, no entanto, jamais saímos dele. O mais longe a que enviamos herois foi a nossa própria Lua. Estamos presos em um labirinto e somos nossos próprios monstros, quando há um Universo infinito de possibilidades e conquistas aguardando para ser explorado.

Os fios de Ariadne que criamos com nossas naves espaciais indicam não o caminho de volta à Terra, mas o de destino ao Universo sem fim. [foto via Bad Astronomy]

Benjamin Redentor

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‚ÄúE os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram sobre a cabe√ßa, e lhe vestiram roupa de p√ļrpura. E diziam: Salve, Rei dos Judeus‚ÄĚ. ‚Äď Jo√£o 19:2-3

Com quase 40 metros de altura, o Cristo Redentor no Rio tamb√©m usa uma coroa de espinhos, mas uma que √© raramente vista e n√£o faz exatamente parte do projeto art√≠stico do monumento religioso, porque √© parte do sistema de p√°ra-raios que o protege contra descargas el√©tricas. Na fotografia acima, de Ricardo Zerrenner (clique para ampli√°-la), pode-se ver a ‚Äúcoroa‚ÄĚ e o sistema que se estende tamb√©m pelos bra√ßos da est√°tua.

A prote√ß√£o dos p√°ra-raios √© muito necess√°ria, uma vez que como o peri√≥dico O Dia n√£o deixou de notar, ‚Äúprote√ß√£o divina n√£o foi suficiente para preservar uma das Sete Novas Maravilhas do mundo‚ÄĚ. Parte do dedo da m√£o direita e peda√ßos da testa foram danificados em 2007, e autoridades eclesi√°sticas alertaram que a prote√ß√£o tecnol√≥gica dos p√°ra-raios estava danificada e inefetiva.

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Reformas recentes restauraram também o sistema de proteção redentora, pára-raios inventados por Benjamin Franklin em 1749.

O curioso aqui, al√©m da ironia do monumento religioso portar uma coroa de espinhos derivada da ci√™ncia da eletricidade, √© que o famoso experimento de Franklin ao empinar uma pipa em meio a uma tempestade √© em si mesmo uma anedota cient√≠fica. Embora a imagem ic√īnica do cientista americano de √≥culos (bifocais, que ele tamb√©m inventou) empinando uma pipa em meio a rel√Ęmpagos seja bem conhecida, fato √© que Ben Franklin apenas prop√īs o experimento e h√° s√©rias d√ļvidas de que alguma vez o tenha realmente conduzido.

Outros cientistas sim levaram o experimento a cabo, mas alguns deles encontraram como consequ√™ncia um triste fim. Empinar pipas em meio a uma tempestade √© um grande risco, como o pr√≥prio Franklin sabia muito bem. Como boas hist√≥rias acabam logo se tornando ‚ÄúHist√≥ria‚ÄĚ, a exemplo de anedotas religiosas, a do cientista com peruca branca empinando pipas na tempestade continua sendo recontada. Se a ci√™ncia salva o Cristo Redentor, o faz atrav√©s de conhecimento que tamb√©m se conta por anedotas. Em dois mil anos √© prov√°vel que se Franklin ainda for lembrado, o seja por um experimento que nunca realizou.

Por que falar subitamente do Cristo Redentor e pára-raios? Os nexos foram motivados por uma notícia recente indicada pelo professor José Ildefonso. Uma outra estátua com quase vinte metros de altura de Jesus em Ohio, EUA, foi atingida por um raio nesta segunda-feira.

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Ao contr√°rio de nosso Cristo Redentor, devidamente protegido por um p√°ra-raios, a obra constru√≠da por uma vertente crist√£ local era feita de pl√°stico, fibra de vidro e uma estrutura de a√ßo‚Ķ sem p√°ra-raios. Era um convite ao desastre, ou talvez f√© demais em uma prote√ß√£o divina. Erguida em 2004, √© mesmo not√°vel que tenha durado tanto ‚Äď embora dificilmente seja um milagre. Ap√≥s o raio que cedo ou tarde cairia, pouco restou do monumento religioso:

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A religi√£o precisa se curvar √† ci√™ncia? Todo Jesus precisa de uma coroa de espinhos de Ben Franklin? A imagem das labaredas acima lembra um anjo com asas abertas? Deixamos as interpreta√ß√Ķes e li√ß√Ķes de moral destes contos sem fadas, mas com Messias, aos leitores, e encerramos com mais um nexo curioso.

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As est√°tuas monol√≠ticas da ilha de P√°scoa seriam resultado da mitologia dos nativos, e de certa forma, podem ser monumentos religiosos mais sofisticados que o de Ohio, e mesmo o Cristo Redentor com sua coroa de p√°ra-raios. √Č a fabulosa teoria defendida pelo professor Francisco Soares, da Universidade Federal do Maranh√£o, segundo a qual os Moai seriam em si mesmos grandes p√°ra-raios.

Distribu√≠das ao redor da Ilha, as est√°tuas com at√© dez metros ofereceriam prote√ß√£o a √°reas habitadas ao atrair descargas em tempestades. Os chap√©us de rocha vermelha porosa que ostentavam seriam capazes de dissipar as descargas el√©tricas, e os olhos de rocha branca chegariam a brilhar quando atingidos. Deveria ser uma vis√£o magn√≠fica. Os raios n√£o seriam um inconveniente natural ao qual seria necess√°rio uma coroa de espinhos de metal, e sim um fen√īmeno controlado e apreciado em si mesmo atrav√©s de grandes monumentos combinando supersti√ß√£o e tecnologia.

Uma hist√≥ria fant√°stica, com o pequeno detalhe que talvez n√£o seja verdadeira. N√£o pude encontrar refer√™ncia a avalia√ß√Ķes independentes √† teoria de Soares, e a cr√≠tica mais elementar que se pode fazer √© por que as est√°tuas n√£o parecem funcionar mais como p√°ra-raios, o que se presume que deveriam continuar agindo como se ainda est√£o de p√©. O microclima na ilha de P√°scoa j√° foi bem diferente, principalmente no √°pice da cultura Rapa Nui que erigiu os Moai, e talvez a ilha fosse palco para constantes tempestades el√©tricas, e talvez os Moais desempenhassem a fun√ß√£o proposta. Mas a arqueologia mainstream n√£o parece dar muita aten√ß√£o √† ideia.

Seja qual for a resposta, esta viagem pelos muitos nexos entre religião, superstição, raios, história e tecnologia já está de bom tamanho. Que um raio caia na minha cabeça se estiver mentindo.

Mergulhando em um Fractal 3D

‚ÄúSplit point‚ÄĚ, √© o novo v√≠deo de teamfresh mergulhando fundo em um fractal, desta vez uma Mandelbox em tr√™s dimens√Ķes.

A paleta de cores e a boa qualidade do vídeo enfatizam a similaridade com arquitetura, lembrando uma catedral gótica. Que lembre uma caixa também trouxe à mente a Lament Configuration da série de filmes de terror Hellraiser.

Teamfresh também produziu um deep zoom no bom e velho conjunto de Mandebrot. [via misterhonk]

Entendendo o Diagrama de Venn

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Dificilmente poderia ser mais claro. At√© porque os diagramas de Venn foram criados em 1880 pelo l√≥gico ingl√™s John Venn para representar mais claramente rela√ß√Ķes entre conjuntos. Voc√™ pode ler o interessante artigo de Andrzej Solecki para entender mais sobre o Diagrama de Venn.

Isso, claro, depois de rir com a imagem acima. [via Neatorama, é o design para uma camiseta]

Do chão à estratosfera

V√≠deo capturado em alta defini√ß√£o de uma viagem do ch√£o at√© a alta atmosfera, resumido em 5 minutos. Voc√™ j√° pode ter assistido a v√≠deos similares ‚Äď a ideia j√° foi mesmo propaganda viral ‚Äď mas o diferencial aqui √© a grande angular.

Com a lente olho de peixe, os primeiros momentos do v√≠deo lembram muito os primeiros momentos do cl√°ssico ‚ÄúPot√™ncias de dez‚ÄĚ, outra ideia bem revisitada recentemente.

As imagens podem dar certa vertigem, o que torna ainda mais not√°vel apreciar que h√° 50 anos atr√°s, o norte-americano Joseph Kittinger fez essa mesma viagem pessoalmente, nada menos que tr√™s vezes. Compare os v√≠deos modernos capturados com c√Ęmeras de alta defini√ß√£o com essas imagens do ponto de vista de Kittinger:

Em 1960, em seu √ļltimo salto, Kittinger subiu em um bal√£o a uma altitude superior a 31 quil√īmetros, em uma queda livre que durou quase 5 minutos, com uma velocidade m√°xima de quase 1.000km/h, tocando a barreira do som. Em queda livre, √© preciso repetir. Depois de quebrar v√°rios recordes, incluindo o de ser o humano mais r√°pido a cruzar a atmosfera (sem o aux√≠lio de nenhum ve√≠culo) bem como o de, a rigor, ser o primeiro homem a alcan√ßar os limites do espa√ßo, Kittinger continuou sua carreira militar e foi mesmo prisioneiro de guerra no Vietn√£.

Joseph tem hoje 81 anos e vive na Fl√≥rida, sendo ainda consultor do projeto de Felix Baumgartner de quebrar seu pr√≥prio recorde. Ainda h√° muitos herois vivendo entre n√≥s. O que antes exigia imenso hero√≠smo, no entanto, hoje pode ser experimentado de certa forma por qualquer um por algumas centenas de d√≥lares, um bal√£o e uma c√Ęmera. [via Fogonazos]

A Hist√≥ria da Matem√°tica ‚Äď s√©rie da BBC legendada

historiamatematica

Clique para a série de vídeos no blog Estudar Computação. [via Giseli]

Um mundo sem carros

‚ÄúE se amanh√£, todos os carros desaparecessem?‚ÄĚ. Ross Ching concretizou uma Los Angeles sem carros atrav√©s da m√°gica da fotografia em lapso de tempo e um tanto de edi√ß√£o de imagens e v√≠deos ‚Äď os curiosos sobre o processo, inspirado nas fotografias de Matt Logue, podem conferir sua p√°gina sobre Running on Empty.

√Č um v√≠deo hipnotizante, ajudado pela trilha de Radiohead, que provoca todo tipo de reflex√£o. Por aqui, o nexo que oferecemos √© Futurama, a utopia tecnol√≥gica promovida pela General Motors na Feira Mundial de 1939.

Los Angeles é, hoje, a realização desta utopia tecnológica. As maquetes de 1939 podem não parecer muito modernas hoje, porque nós as vivemos ao dirigir por rodovias mesmo no Brasil, mas na época eram apenas sonhos e fantasias. Ou melhor, eram uma utopia sonhada pela General Motors, de um mundo repleto, sem surpresa, de carros.

Sete décadas depois, a própria General Motors se viu à beira da falência, algo inesperado, mas a utopia que sonhou e promoveu se tornou realidade. O que talvez seja ainda mais inesperado. O adágio de que é preciso tomar cuidado com o que se deseja, porque pode se concretizar, vem à mente, pois vivemos na Futurama da General Motors mesmo nas principais metrópoles brasileiras. E essa não é exatamente uma utopia.

A quem veja nesta uma distopia terrível, entretanto, é preciso tomar cuidado ao desejar que todos os carros desapareçam: o desejo pode se tornar realidade, e o resultado pode não ser um belo clipe contemplativo ao som de Radiohead. Já advogava Sidarta Gautama o caminho do meio, e a este não há highway. [via Nerdcore]

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