Colonizando o Universo com bombas nucleares


De todos os sonhos dos anos dourados do século XX, em que carros voadores cruzavam os céus de utopias tecnológicas, um deles tinha chances muito concretas de se tornar realidade quase que exatamente como imaginado em histórias em quadrinhos. Pouco depois de pisar na Lua, estaríamos pisando em Marte, visitando Saturno, os satélites de Júpiter e indo até Plutão, tudo em gigantescas espaçonaves de centenas de metros de tamanho, milhares de toneladas e centenas de astronautas. Colônias gigantescas permanentes seriam estabelecidas em outros planetas e até Próxima Centauri estaria a nosso alcance. Tudo isso seria possível graças um projeto: Orion.
Repleto de extremos e beleza poética, o projeto nasceu no cérebro de um dos primeiros homens a conceber a mais destrutiva arma já criada pelo homem. Stanislaw Ulam, que junto com Teller criou o conceito que permitiu as primeiras bombas termonucleares de fusão, inventou pouco antes em 1947 o conceito de “propulsão por pulsos nucleares”. Ele consideraria esta a sua maior invenção.
Praticamente desde o início do século XX, físicos notaram como as energias envolvidas em reações nucleares eram estupendamente maiores do que em reações químicas, e passaram as décadas seguintes tentando dominá-la. Com a bomba atômica, finalmente conseguiram liberar tal energia de forma avassaladora. Se apenas tal energia pudesse ser aplicada de forma benéfica… Ulam imaginou que através de uma série de pequenas explosões nucleares controladas, um foguete poderia efetivamente ser lançado ao espaço, pulso por pulso. O desenvolvimento de tal conceito — cujo manuscrito original continua classificado como secreto pelo governo americano — tomaria forma anos depois como o projeto Orion.
A idéia básica não é nada complexa: exploda uma pequena bomba nuclear e tenha um disco resistente para receber impulso direto da explosão, acoplado a um sistema de amortecimento para absorver o choque e não estraçalhar o resto do foguete. Repita o processo a cada segundo. Mas poderia uma idéia tão simples realmente funcionar? Os cientistas do projeto Orion conseguiram vencer o ceticismo inicial com testes muito práticos:

Os testes foram conduzidos com explosivos convencionais, químicos, mas demonstraram ser um feito de engenharia possível. E, ao contrário de quase tudo na história da conquista espacial, toda a técnica e engenharia conspirava para o sucesso do projeto.
Na mesma época, os militares americanos haviam desenvolvido bombas nucleares pequenas, incluindo bombas atômicas que podiam ser lançadas de canhões. No projeto Orion, a espaçonave teria milhares de pequenas bombas nucleares dessa natureza, devidamente armazenadas como se fossem garrafas de refrigerante, aguardando serem lançadas uma a uma por um sistema inspirado nas fábricas de engarrafamento da Coca-Cola (!).
E o enorme impulso produzido pelas explosões só podia implicar em um tipo de foguete praticamente viável: um foguete gigantescamente maciço. Ao contrário dos foguetes que conhecemos, construídos para ter o mínimo de massa e no limite de sua resistência, quanto mais massa os foguetes Orion tivessem, melhor lidariam com tais impulsos, traduzindo-os em acelerações mais seguras a frágeis seres humanos. As naves do projeto foram projetadas tendo em vista submarinos, de aço, e não aeronaves, de ligas leves. Sua massa girava sempre em torno das milhares de toneladas. Tal massa também seria essencial como um escudo para a radiação cósmica e a produzida pelas explosôes nucleares da propulsão. As espaçonaves gigantes de histórias em quadrinhos subitamente se tornavam uma solução de engenharia, e não um problema.
A alta eficiência e empuxo da propulsão também permitiria alcançar velocidades praticamente impossíveis a foguetes químicos, tornando viagens de ida e volta a Plutão e mesmo a estrelas próximas, a frações da velocidade da luz, projetos plausíveis. Tais cálculos chegaram a ser feitos no projeto.
Uma a uma, todas as dificuldades técnicas foram sendo solucionadas. E os militares ficaram empolgadíssimos com tudo, dispostos a jogar recursos sem fim para seu sucesso. O que acabou sendo um dos motivos para seu fim.
Iniciado em 1958, por volta do início dos anos 1960, quando estava chegando à maturidade, a política do mundo real alcançou o projeto Orion e seus “efeitos colaterais”. Nem tudo era um sonho de quadrinhos. Ao detonar tantas bombas nucleares, ainda que pequenas, um foguete do projeto Orion liberava resíduos radioativos em abundância na atmosfera. Cálculos sugeriram que, estatisticamente, tal aumento de radiação na atmosfera poderia matar até dez pessoas por câncer. tantas explosôes nucleares também gerariam pulsos eletromagnéticos que afetariam equipamentos em terra em um raio de centenas de quilômetros, e também satélites no espaço. Que os militares tenham criado um modelo de espaçonave gigante repleta de lançadores de mísseis atômicos e o exibido orgulhosos para John Kennedy também não ajudou em nada. Kennedy havia acabado de passar pela crise dos mísseis de Cuba, e uma corrida com encouraçados atômicos no espaço era a última coisa de que precisava. Ao final, o tratado banindo a realização de testes nucleares na atmosfera acabou por selar o fim do projeto Orion em 1963.
Mesmo hoje, a propulsão por pulsos nucleares permanece a melhor tecnologia concebida para a viagem espacial. Ela não é a única forma de aplicar a energia do átomo para viajar pelo céu, mas é a única que combina uma alta eficiência com um alto empuxo. Motores iônicos, ou outros tipos de motores nucleares têm uma boa eficiência, mas geram pouco empuxo. Nossos conhecidos motores químicos podem ter enorme empuxo, mas a eficiências baixíssimas. É praticamente impossível sair da órbita terrestre com apenas um estágio de foguetes químicos — mas isso seria possível com um foguete Orion,
Pode parecer paradoxal que bombas nucleares possam significar tanto o fim de nossa espécie através de um Armagedon de bombas intercontinentais, ou a garantia de nosso futuro, por foguetes nucleares interplanetários. Mas isso apenas sublinha o caráter essencial da ciência e tecnologia, que é acumular conhecimento sobre o mundo e encontrar meios de aplicá-lo. Se e como iremos aplicá-lo, é algo a cargo de outros sistemas criados pelo homem. Até o momento, ainda não nos aniquilamos, mas também não demos o passo de audácia que poderia nos levar “aonde nenhum homem jamais esteve”.

Acima: excerto do ótimo documentário da BBC, “To Mars by A-Bomb“, enviado ao Youtube por este que escreve aqui. A referência sobre o projeto Orion é o livro “Project Orion: The True Story of the Atomic Spaceship“, de George Dyson, filho de Freeman Dyson, o físico mais destacado do projeto (famoso por unificar a QED, especular sobre os avanços tecnológicos e promover idéias sobre a coexistência da ciência e religião).
A entrada da Wikipedia em inglês sobre o tema é um bom sumário, e para um texto mais detalhado disponível gratuitamente na rede, há “Project Orion: Its Life, Death, and Possible Rebirth“, que lista uma enorme série de links e referências.

Discussão - 2 comentários

  1. Eu li o livro do Dyson, e é realmente muito interessante, especialmente a primeira parte, em que se conta como juntaram os melhores físicos da época, no Institute for Advanced Study em Princeton – o Freeman projeta o primeio reator nuclear à prova de idiotas enquanto tomava café com outro cientista! 🙂
    Outro livro do Dyson que é excelente é o “Darwin Among the Machines”, tem uma boa abordagem sobre métodos evolutivos para aprendizado de máquina e inteligência artificial.

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