O Macaco Gordo e o Nobre Selvagem

As imagens dos macacos do parque Ohama, Osaka, Japão, andam pululando pela rede. Macacos! Com obesidade mórbida! É como uma Márcia Goldschmidt (ou Jerry Springer) do Animal Planet, combinando dois filões televisivos. Vídeos dos macacos tendo dificuldade para andar e com depressão baterão todos os recordes de audiência (e se ainda mostrarem os casos de infidelidade e as brigas por bananas…!).

Mas além destas piadas sem graça e de apontar o dedo aos “Macacos! Com obesidade mórbida!” cabe um comentário talvez mais sóbrio. Há toda uma mitologia de que os animais irracionais são nobres por natureza, que o ser humano é especialmente cruel. Segundo esse sistema de crenças, o caso dos macacos gordos seria outro exemplo da terrível crueldade humana, prendendo os pobres seres em cativeiro, e então permitindo que cheguem a tal estado para seu próprio entretenimento.

O que não deixa de ser verdade, mas os macacos não são forçados a comer guloseimas. E a falibilidade que eles demonstram com tanta gordura é uma falibilidade tão familiarmente humana, em seus excessos, em seu descontrole. Não vemos mais macacos gordos pela natureza, assim, por falta de oportunidade, porque se houvesse fartas árvores de M&M’s na selva africana, é possível que houvesse uma “epidemia de obesidade” entre primatas.

Macacos não são naturalmente nobres, são apenas naturalmente limitados no que podem fazer. Mas eles também estupram e cometem infanticídio. Mesmo golfinhos não são santos.

Ecochatos podem tentar se iludir imaginando que tais atrocidades animais teriam motivações biológicas, evolutivas, mas tal justificativa também poderia ser dada a quase todas atrocidades humanas, de alguma forma. O que é o ponto sóbrio deste post. Não somos especialmente nobres, ou especialmente cruéis. Não temos a marca do “pecado original”, nossa inteligência é única em vários aspectos, mas é mais em aspectos quantitativos do que qualitativos. Nossas limitações e falibilidades são partilhadas por todos nossos parentes pelo planeta, às vezes de forma assustadora, como genocídios primatas, ou por vezes morbidamente curiosa, como os macacos gordos.

Seja como for, não há nada a ser louvado na irracionalidade dos animais. Sua limitada capacidade mental não os torna “naturalmente bondosos”, ao mesmo tempo que não é a nossa inteligência, nossa capacidade “distingüir o bem do mal”, que nos torna especialmente cruéis ou condenados a uma mancha eterna.

Como dizia Asimov, “se o conhecimento pode criar problemas, não será através da ignorância que os resolveremos”.

Discussão - 5 comentários

  1. Como assim os GOLFINHOS não são assim tão bonzinhos?! Calúnia!!!

    :p

  2. Atila disse:

    foi como eu disse no blog, acho que não somos os únicos primatas com problemas de sedentarismo e muita disponibilidade de comida… benditos mecanismos de recompensa que te incentivam a aproveitar cada caloria ingerida. Se não me engano, ano passado saiu um artigo dizendo que se apresentarmos a mesma comida em dois recipientes para alguém e dissermos que uma delas é mais calórica, ela vai ser mais apetitosa.

  3. Ronaldo Silva disse:

    Falou e disse.

  4. Ulisses Adirt disse:

    Lindo… É assim que se termina um texto.

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