Yo no soy yo! Os ecos da consciência

Uma senhora chamada Maruja Martinez Ferri participa ao vivo pelo telefone de um telejogo espanhol. O atraso entre o que ela diz pelo telefone e o que ela escuta pela TV faz com que insista exasperada que há uma impostora com seu mesmo nome gritando os mesmos números que ela. O resultado é muita confusão na sessão da madrugada.

A segunda parte do vídeo, e uma dissecção protocientífica da piada e suas implicações filosófico-religiosas, na continuação.

A voz parece de uma senhora idosa pouco familiar com tecnologia, e Maruja pelo menos parece ter ganho um prêmio que deve cobrir o custo da desastrosa ligação. Nada indica que ela tenha realmente limitações mentais ou doenças psiquiátricas mais graves como variações da síndrome de Capgras, que podem fazer uma pessoa não se reconhecer no espelho.

Não, Maruja não está realmente só. O terrível atraso para ouvir a própria voz também explica o infame sanduíche-íche – a nutricionista Ruth Lemos ouvia sua própria voz com atraso, com resultados diferentes mas igualmente engraçados.

Não apenas Maruja como Ruth Lemos não estão sós, elas são como todos nós (embora talvez um tanto mais atrapalhadas). Não estamos imunes a tal confusão, e que nossa capacidade aparente de falar ou mesmo de reconhecer a nós mesmos seja confundida de forma tão extensa e fácil indica algo importante aqui. E cócegas são um dos fenômenos que ajudam a elucidar o Sanduíche-íche.

TICKLE ME ELMO
Ninguém consegue fazer muitas cócegas em si mesmo. Não apenas isso, se você pedir para alguém fazer cócegas em um lugar específico de seu corpo, elas não serão tão intensas quanto se elas forem feitas de surpresa. Há claramente uma ligação entre nossa percepção de nós mesmos – ou propriocepção – e as cócegas, em níveis bem sofisticados. Nosso cérebro percebe quando as cócegas são nossas, e investigações científicas das cócegas, que sim envolveram cientistas fazendo cócegas em sujeitos, confirmam que há uma atenuação das risadas.

Mas e se fosse introduzido um “delay”? Isto é, e se entre o movimento próprio ser realizado e ser aplicado no próprio corpo, for introduzido um atraso de tempo, como o eco do retorno que criou o sanduíche-íche?

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Usando um robô para introduzir um atraso
entre o movimento e sua aplicação

Experimentos indicam que nosso cérebro pode ser assim enganado como o de Maruja, e ficaríamos em uma situação constrangedora como a do sanduíche-íche, rindo como bobos de cócegas feitas por nós mesmos. Introduza um atraso de tempo tão pequeno quanto algumas frações de segundo, e as cócegas já são gradualmente sentidas com maior intensidade, ainda que sejam provocadas por nós mesmos. Ainda que você saiba que são suas.

Nossa consciência é algo muito mais complexo e fragmentado do que a maior parte das pessoas presume, enganadas pela ilusão da própria consciência, reforçada pela doutrinação da religião e misticismo, fundadas alegremente sobre o engano. E há evidência experimental concreta, verificável e universal de tais erros.

Vimos em Penso, logo desisto, como não vemos tudo que achamos que vemos; não lembramos realmente de tudo que achamos que lembramos; e nem mesmo podemos estar muito certos de que decidimos o que achamos que decidimos.

Zumbis na Brincadeira do Copo foi o gancho para apontar como ao Quebrar o copo, o “espírito” que descobrimos lá dentro é um zumbi filosófico que vive dentro de nossas mentes, que podem ser nada menos que uma multidão cambiante de zumbis filosóficos, alguns dos quais acabam sendo percebidos como o “eu”.

Se Ruth Lemos estivesse ouvindo um ruído qualquer, mesmo uma música ou outra pessoa falando, provavelmente teria alguma dificuldade para falar sobre os nutrientes de sanduíches, mas não seria a “gaga” que se tornou um fenômeno. Ouvir sua própria voz com atraso confundiu os diversos processos envolvidos na articulação de sua fala, atrapalhando a organização dos zumbis em seu cérebro.

Maruja realmente não estava ouvindo a si mesma pela TV. Era apenas o eco de sua voz, viajando milhares de quilômetros, bufferizado, processado, codificado e decodificado inúmeras vezes. Com um atraso suficiente para que deixasse de ser percebido como próprio. Transformou-se em um zumbi, uma impostora, um doppelganger, com o mesmo nome, que teimava em escolher os mesmos números.

Era uma “entidade” como a que vive dentro do copo, e dessa, milhões de jovens têm tanto medo que não conseguem dormir à noite.

Não percebem que… Maruja soy yo.

Referências:
Central cancellation of self-produced tickle sensation (PDF);
Why can’t you tickle yourself?;
Self-Generated Touch: A Neural Perspective.

Discussão - 5 comentários

  1. Ana disse:

    nossa, que raiva dessa maruja

  2. ary disse:

    maruja é absolutamente incrivel a mederação tambem e muito oportuna ….. espero que nos afastemos as marujas de nossas mentes

  3. RI MUITO NO VIDEO AHEUEHAUHEA

  4. Cristiano Dalbem disse:

    sanduiche-iche?
    maruja podia virar apelido pra gente lerda.

  5. Luis disse:

    Foi culpa da apresentadora também por não falar a famosa frase “Abaixe o volume da sua tv e me escute só pelo telefone”

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