“Tenho cólera, mas tô na moda”: saneamento e prioridades

Qual é o maior avanço médico dos últimos 200 anos? E o que é mais importante, salvar seu filho da morte ou estar na moda? Respostas: a privada, ou melhor, o saneamento básico, e a moda, respectivamente. A primeira resposta reflete um julgamento baseado em evidências científicas, já a segunda, é a que aldeias inteiras sugeriram na prática. E elas não estão tão sozinhas.

TheBigNecessitya32No livro “The Big Necessity”, a jornalista britânica Rose George aborda “o mundo não mencionado dos dejetos humanos e por que ele importa”, contando suas aventuras pelo mundo – que foram desde uma visita às entranhas do sistema de esgotos de Londres até os banheiros públicos da China – bem como os inusitados resultados de pesquisas acadêmicas sobre o tema.

Em entrevista à Salon (em inglês), a jornalista lembra como o saneamento foi eleito por mais de 11.000 médicos e cientistas como o maior avanço médico desde 1840, em um concurso realizado pelo British Medical Journal no ano passado. Tratar o esgoto salvou bilhões de vidas, vencendo concorrentes mais lembrados como os antibióticos e vacinas. Rose George não brinca quando diz que “devíamos venerar a privada”. Ela pode não curar doenças, mas faz algo ainda melhor. Evita que fiquemos doentes, como o inglês John Snow descobriu ao estudar uma epidemia de cólera e inaugurar a epidemiologia.

Que o banheiro é no mínimo muito conveniente não é novidade para nós, mas o valor da peça não é tão claro para quase metade dos seres humanos no planeta. Mais de 2 bilhões e meio de pessoas não utilizam nenhum tipo de banheiro, nem mesmo latrinas ou penicos. Fazem suas necessidades em qualquer lugar, ao ar livre, e elas ficam lá, como veículo de incontáveis doenças. “Pessoas em vilas que defecam a céu aberto estão provavelmente ingerindo 10 gramas de fezes por dia”, conta Rose.

Disseminar um dos maiores avanços da medicina à outra metade do mundo é uma prioridade, e aqui voltamos às perguntas do início. Os programas tradicionais para promover o saneamento em culturas que nunca viram uma privada na vida nem se importam muito com latrinas não são muito efetivos: eles se centram em explicar às pessoas os benefícios à saúde que uma higiene básica pode oferecer.

Mas em Benin, África, “mães que não possuíam uma latrina podiam ver seus filhos adoecer com diarréia toda semana. Gastariam dinheiro com remédios e seus filhos não iam à escola, mas as mães ainda não compravam uma latrina”.

Marion Jenkins, da Universidade da Califórnia, e Val Curtis, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, descobriram que o que realmente levava as pessoas a instalar e usar latrinas era a moda e outros fatores de prestígio e conveniência. A grande motivação em Benin era se sentir “real”, porque a família real tinha uma latrina. Considerações sobre a saúde pouco influenciaram a decisão dos locais, no que Rose chama de “raciocínio dos médicos que fumam”. Sabem racionalmente as conseqüências à saúde, mas ainda o fazem – o que também envolve prestígio e conveniência.

Não ria dos aldeões. Na Inglaterra, onde a privada que conhecemos foi inventada, as motivações para que as pessoas desejassem uma eram as mesmas. É o nosso trono. Que, aliás, como Rose conta, não promove a posição fisiologicamente mais adequada: agachados, como fizemos por milhares (provavelmente milhões) de anos, é mais saudável.

Estas e outras informações escatologicamente fascinantes, como a pergunta “papel ou bidê?” (bidê), em “The Big Necessity”. Esperamos que seja logo traduzido ao português. [via Overcoming Bias]

Mais
Achieving the ‘good life’: Whysome people want latrines in rural Benin (PDF);
Who Buys Latrines, Where and Why? (PDF);
Rose George’s blog

Discussão - 7 comentários

  1. Paula disse:

    Estou ainda horrorizada com o fato de tudo ser um modismo, e não uma comodidade ou uma preocupação com a saúde…

  2. Patola disse:

    Isso não é nem um pouco surpreendente. Até hoje, na nossa cultura, mesmo com uma boa abertura para a escatologia, ainda evitamos falar de coisas tão básicas quanto os cagalhões que fazemos. Um exemplo? Sobre esse discurso bidê vs. papel, nunca ouvi ninguém falar que a melhor solução seria algo intermediário. Pense assim: se você suja o braço de merda, como você vai limpar? Se você pegar um papel ou pano seco e passar no braço, pode remover grande parte, mas ainda vai restar um resíduo seco e malcheiroso. E se você aplicar apenas um jato d’água, como no bidê, geralmente não resolve, pois partículas gordurosas impermeáveis acabam restando no seu braço.
    Portanto, a solução – que eu pessoalmente adoto já há alguns anos – seria: água + sabão líquido + papel. Limpa todo o braço – e outros lugares também 😉 (olha o impedimento cultural de mencionar meu olho do cu aqui).
    E o guia sobre lavar mãos do link do blog que você colocou menciona claramente em usar água e sabão e depois um papel pra secar as mãos. O que quer dizer: aqueles filhos da puta que planejam banheiros de shoppings estão completamente ERRADOS em abandonar o papel em detrimento daquelas máquinas de bafo quente, que não secam as mãos nem removem sujeira!

  3. Kentaro Mori disse:

    O Japão é um dos países mais avançados do mundo em celulares… e banheiros.
    Lá, mesmo quando se usa papel, ele é descartado junto com a água (você joga na privada, não em um cesto). Isso envolve tanto sistemas de esgoto quanto paéis higiênicos especiais (principalmente o papel, que se dissolve quase na hora).
    Mas boa parte das pessoas têm bidês cibernéticos T-1000, com centenas de funções.
    Mesmo as privadas comuns, tradicionalmente são umas especiais para usar de cócoras, não sentado. São mais higiênicas, embora eu nunca tenha conseguido usar uma.
    A questão das máquinas de ar quente, acredito que a principal consideração seja pelo convervacionismo ao invés de apenas higiene… Pode parecer a princípio que aquela coisa barulhente com centenas de Watts consome muita energia, mas na verdade consome menos do que usar uma toalha de papel.
    ONde está “conservacionismo”, leia-se dinheiro. Não só consome menos energia, como no final sai mais barato.

  4. Kentaro Mori disse:

    É… o serumano é um macaco.
    Eu ainda ia pegar o gancho para mencionar como isso indica coisas ainda mais aterrorizantes quando celebridades se manifestam contra a vacinação ou fazem outras recomendações de saúde estúpidas.
    POdem influenciar muito mais do que o Ministério da Saúde, a OMS e tudo mais.

  5. Caio Reis disse:

    Só uma coisa, o que a ira (=cólera) de uma pessoa tem a ver com privada?? rs…
    o titulo não deveria ser “tenho CÓLICA, mas to na moda”??
    talvez eu não tenha entendido o que o título quis de dizer em relação ao texto (que por sinal está muito interessante), mas todo caso, ele está meio confuso. Oo

  6. Patola disse:

    Caio, are you kidding?
    Leia http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3lera – é uma doença, não um sentimento.

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