Aniquilação: Hiperdoença

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Soa como o título de filmes de terror, mas a “hiperdoença” é uma hipótese científica séria que recebeu recentemente um bom apoio. Pesquisa genética da extinção de duas espécies de ratos na Ilha Natal no Oceano Índico é a primeira a demonstrar a aniquilação completa de mamíferos por um agente patogênico. No caso dos Rattus maclearu e nativitatis, a extinção total ocorreu em menos de uma década.

Tradicionalmente, pensava-se que uma doença, por mais virulenta que possa ser, sempre deixaria alguns sobreviventes resistentes, em um complexo jogo em que matar todos os infectados também faz com que a própria doença acabe com si mesma. É a Rainha Vermelha.

No caso da Ilha Natal, os ratos nativos foram extintos no início do século XX logo após a introdução de novas espécies de ratos acompanhando os colonizadores europeus, no que se acreditava ter sido uma conjunção que sim incluía a ação do Trypanosoma lewisi, ao qual os ratos eurasianos eram imunes mas os ratos nativos não… mas também a hibridização e mesmo a ação humana. Uma conjunção de fatores contra os pobres ratos nativos causaria sua extinção, sem muita surpresa.

Em um estudo publicado no ano passado, analisando amostras de DNA de espécimes dos ratos extintos conservados em museus, os pesquisadores descobriram que a doença realmente afetou os roedores nativos, contudo nenhuma evidência de hibridização surgiu. E “este não foi um caso de humanos caçando demais – não acho que ninguém estivesse com tanta fome”, diz Ross MacPhee, do Museu Americano de História Natural e uma das promotoras originais da hipótese de hiperdoença há mais de dez anos.

“Nove anos depois do contato, estas espécies endêmicas e abundantes foram claramente aniquiladas por completo por uma doença – nada mais na época ocorreu que pudesse responder por isso. Este estudo coloca algo novo na mesa como razão para extinção”.

A hipótese de uma hiperdoença talvez explique outras extinções abruptas como a de grandes animais no Pleistoceno como o Mamute, embora seja apenas mais uma possibilidade “na mesa”. O que talvez preocupe o leitor é a possibilidade de, como nos filmes de terror, uma “hiperdoença” aniquile toda a espécie humana.

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Descobrir que a hiperdoença pode efetivamente aniquilar mamíferos, ainda que pequenos, não é muito animador. Lembrar que a variabilidade genética da espécie humana é muito menor do que mesmo em outros primatas também não ajuda muito.

O que nos resta é confiar e apoiar a pesquisa médico-científica. Poucos apreciam que em anos recentes, potenciais crises epidêmicas podem bem ter sido evitadas com medidas vigorosas de prevenção. A medicina já nos salvou de doenças terríveis, e só ela poderá nos salvar caso um dia nos vejamos no caminho de uma “hiperdoença”.

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– Wyatt KB, Campos PF, Gilbert MTP, Kolokotronis S-O, Hynes WH, et al. (2008) Historical Mammal Extinction on Christmas Island (Indian Ocean) Correlates with Introduced Infectious Disease. PLoS ONE 3(11): e3602. doi:10.1371/journal.pone.0003602;

Death by Hyperdisease

Enfermedades que se autoextinguieron

Discussão - 1 comentário

  1. Karl disse:

    Calma, Kentaro.
    As pobres ratazanas não tinham médicos a cuidar delas hehe.
    Nossa aniquilação virá por outras vias…

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