Vacas fistuladas: abra aqui

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Não é um truque de mágica, é uma vaca com um buraco. Ou em um termo médico-veterinário, uma fístula criada cirurgicamente que garante acesso direto a um dos compartimentos de seu estômago. A cena bizarra que sem dúvida lhe causará pesadelos na verdade não é tão terrível quanto aparenta.

O procedimento é relativamente indolor e não prejudica os animais. Em verdade, até facilita seu tratamento caso tenham um problema digestivo. E tudo isso é feito com objetivos científicos, no estudo e experimentação com a digestão bovina. A propriedade de ter alunos e crianças enfiando suas mãos em estômagos de gado pode ser discutida – para o bem-estar das duas espécies de animais – mas o procedimento em si é bem benéfico à sociedade. Apesar das aparências.

AlexisStMfd Talvez ainda mais tenebroso, mas proporcionalmente benéfico, é lembrar que uma fístula no estômago do canadense Alexis St. Martin serviu para basicamente os mesmos propósitos. Em 1822 ele foi atingido pelo tiro acidental de um mosquete, que abriu um enorme buraco em seu torso e estômago. Martin tinha então 28 anos e os médicos não acreditavam que sobrevivesse.

O sujeito, talvez avô de Chuck Norris, não só sobreviveu como sobreviveu com o buraco em seu estômago cicatrizando-se com sua pele, em uma fístula permanente. Uma janela para seu estômago em funcionamento. Que ele ou seus parentes não se ofendam, mas não tão diferente da vaca acima.

O médico William Beaumont que o tratava viu aí uma oportunidade única de estudar a digestão humana. Durante os próximos 11 anos conduziu uma série de experimentos como lançar comida amarrada a uma corda dentro do estômago de Martin e puxá-la de volta horas depois para ver como havia sido digerida. Seus achados foram publicados em “Experimentos e Observações sobre o Suco Gástrico e a Fisiologia da Digestão”, lançando enorme luz ao tema até então abordado de formas indiretas.

Hoje em dia, tais experimentos dificilmente seriam autorizados por comitês de ética médica, mas há quase um século Beaumont pôde ter Martin como seu empregado comum, que cortava lenha, carregava peso e de quebra ainda servia como o sujeito com o estômago aberto. Segundo o médico, Martin não sofria com seu ferimento e trabalhava quase normalmente.

Soa bizarro, mas a relação entre Beaumont e Martin seria o primeiro contrato formal entre um pesquisador e um indivíduo pesquisado. Estranho como possa parecer, o Dr. Beaumont foi de fato um pioneiro na ética biomédica.

Tudo tem um fim, contudo, e em 1833 pesquisador e pesquisado tomaram seus próprios caminhos. O final da história não poderia deixar de ser curioso: enquanto o doutor morreria aos 58 anos, Alexis “Chuck Norris” Martin viveria com o estômago aberto até a avançada idade de 86 anos. [via io9, com um vídeo nauseante]

ATUALIZAÇÃO: O Karl comentou logo abaixo que:

“Na verdade isso não seria tecnicamente uma fístula e sim uma gastrostomia. Usamos palavras terminadas em “stomia” quando existe uma solução de continuidade entre uma cavidade e o meio externo provocada cirurgicamente, com objetivos terapeuticos. Exemplo mais conhecido: traqueostomia. A gastrostomia é um procedimento bastante utilizado atualmente em seres humanos com dificuldades de deglutição e pode ser realizada por endoscopia de forma pouco invasiva e indolor. Um cateter permite a alimentação do paciente (e não dá para colocar a mão). O citado paciente que levou um tiro teve mesmo uma fístula gástrica causada acidentalmente por um ferimento por arma de fogo. Nesse caso é mais comum dizermos “fistulizado” e não fistulado”.

E na lista CA, o Beto perguntou “como é que essas fístulas não infeccionam (como a de St. Martin não infeccionou)?”. Ao que o Jorge Petretski respondeu:

“Porque, topologicamente falando, o trato digestivo está "fora" do corpo. É um tubo que atravessa todo o corpo, começando na boca e terminando no ânus, mas sem contato direto com os compartimentos internos. O alimento ingerido não entra em contato direto com o sistema circulatório ou linfático, ele é digerido em moléculas menores, absorvido pela parede do intestino e depois distribuído pelo corpo pela circulação. Existem diversas barreiras físicas entre o interior do intestino e o interior do seu corpo que regulam o tráfico destas moléculas. Claro, o risco de infecção existe sempre, mas principalmente logo após o procedimento cirúrgico, quando a integridade destas barreiras foi rompida pela cirurgia. Mas depois que a fístula está cicatrizada, o risco de infecção não é tão alto. É um procedimento comum em pacientes que sofreram a retirada do ânus e/ou do reto e/ou de parte do intestino grosso, por conta de um câncer, colite ulcerativa grave ou mesmo um acidente, uma perfuração intestinal por arma de fogo (uma bala de fuzil faz muito mais estrago, por conta do vórtice que cria ao seu redor, do que simplesmente perfurar). O final do intestino é direcionado para a parede do abdômen onde será fixado, exigindo o uso permanente de uma bolsa para recolher as fezes. É uma situação desconfortável, sem dúvida, mas a maioria dos pacientes acaba se adaptando e tendo uma vida relativamente normal. O risco de infecção sempre existe mas não pela conexão com o meio exterior, difícil imaginar uma ambiente mais contaminado do que o interior do intestino, mas mais no tecido ao redor do estoma (a abertura no abdômen). Muitas vezes o trânsito normal é restabelecido cirurgicamente, quando as causas originais foram resolvidas. Em um câncer de cólon, por exemplo. Após a cura não é incomum que o paciente tenha o trânsito normal reconstituído. No estômago é mais tranquilo ainda, uma vez que a maior parte da digestão é feita depois do estômago, no intestino. O baixo pH, a alta acidez, do estômago funciona mais como uma barreira à entrada de microorganismos no trato intestinal. Basicamente no estômago o bolo alimentar apenas começa a ser digerido, mas é principalmente esterilizado pela acidez do suco gástrico. Claro que muitos micro e macroorganismos se adaptaram para sobreviver à esta barreira química. Nada é perfeito”.

Internet é uma coisa fabulosa, não? Com agradecimentos a todos.

Discussão - 4 comentários

  1. Vinicius disse:

    Ótimo post!
    Vou passar sempre por aqui.
    Blog marcado!

  2. Rafael- RNAm disse:

    Quais as possibilidades que um estomago aberto trariam para um individuo (não sou eu, tá) durante uma ressaca?
    Jogar um antiacido direto, ou retirar a a bile de forma a não sair pelo nariz seria fantástico!!!

  3. Karl disse:

    Na verdade isso não seria tecnicamente uma fístula e sim uma gastrostomia. Usamos palavras terminadas em “stomia” quando existe uma solução de continuidade entre uma cavidade e o meio externo provocada cirurgicamente, com objetivos terapeuticos. Exemplo mais conhecido: traqueostomia. A gastrostomia é um procedimento bastante utilizado atualmente em seres humanos com dificuldades de deglutição e pode ser realizada por endoscopia de forma pouco invasiva e indolor. Um cateter permite a alimentação do paciente (e não dá para colocar a mão). O citado paciente que levou um tiro teve mesmo uma fístula gástrica causada acidentalmente por um ferimento por arma de fogo. Nesse caso é mais comum dizermos “fistulizado” e não fistulado. Valeu

  4. Caca disse:

    “A propriedade de ter alunos e crianças enfiando suas mãos em estômagos de gado pode ser discutida – para o bem-estar das duas espécies de animais – mas o procedimento em si é bem benéfico à sociedade. Apesar das aparências.”

    Ficou sem explicar porque o buraco na vaca é diretamente benéfico à sociedade.

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