Vida de Biólogo

Coisa engraçada essa vida que nós biólogos levamos. Num mesmo dia podemos estar expostos a situações muito diversas e fora da realidade da grande maioria das pessoas. Como exemplo cito minha última 3a feira:
06:30 – Alvorada preguiçosa para alguém cujo cérebro só acorda às 9 da manhã
08:30 – Dentro de sala de aula. Tema: Biodiversidade de Anuros
10:30 – Fila do Banco para resolver problemas na conta que depositaram meu rico dinheirinho da pesquisa
12:30 – Almoço com os colegas de trabalho e vou comprar as passagens para um congresso em Pirenópolis, GO
14:30 – Aula de novo, outra dsciplina. Ecologia de populações
16:30 – Eu ajudando o pessoal da biblioteca a carregar prateleiras e mais prateleiras para a biblioteca a ser inaugurada
17:30 – Reunião sobre a nova grade curricular da Biologia
19:30 – Até a cintura num brejo com um sapo nas mãos sob o olhar desconfiado/enojado/surpreso das minhas alunas em aula de campo
21:30 – Cervejada com os formandos desse semestre, todo arrumadinho e perfumado!
É isso aí! Um dia me disseram que blogs são diários abertos na internet. Resolvi experimentar a fórmula.

Pensamento de segunda

“Concentre-se em aprender alguma coisa sobre todas as coisas, e todas as coisas sobre alguma coisa.” (Thomas Huxley)

Cientista bom não morre, entra para a história

Entrou para a história hoje, aos 89 anos, o cientista Crodowaldo Pavan. Pavan, um de meus avós acadêmicos (orientador de minha primeira orientadora), foi pioneiro na genética do Brasil imergindo na biologia molecular poucos anos depois da descoberta do DNA por Watson e Crick. Pavan descobriu em uma espécie de moscas brasileiras que a quantidade de DNA nas células aumenta independente da divisão celular, formando o que Pavan chamou de um pufe. A participação dele como meu avô acadêmico não foi assim tão direta, ele orientou um trabalho com peixes de caverna, algo bastante fora de seu escopo. Mas isso só mostra sua versatilidade. Ele foi presidente da SBPC e do CNPq na década de 80, trabalhou na Universidade do Texas e até recentemente ainda era muito ativo nos laboratórios do ICB da USP e na Associação Brasileira de Divulgação Científica. Uma máquina! O mundo decidiu que a ciência brasileira precisava tanto de mais Pavan que suas células começaram a se multiplicar incessantemente. Pavan foi vítima de um câncer.

Obtido em www.faculty.uca.edu

Pavan nasceu como biólogo na convivência com André Dreyfus, catedrático da genética na Biologia da USP, sob a orientação de Theodozius Dobzhansky e como bolsista da fundação Rockefeller. Minha lembrança dele é de um professor polêmico e apaixonado. Cada ensinamento nascia de longos causos que nós alunos quase nunca imaginávamos onde iria dar, mas que sempre carregavam uma moral da história. Não se controlava muito em suas opiniões sobre o que discordava e não poupava neurônios para construir críticas. Um dos principais desdobramentos da biologia molecular, por exemplo, a genômica, era atacada por Pavan sem dó. “Sem uma pergunta e uma hipótese não há ciência.” Dizia ele, “e a genômica se atem a descrever sequências genéticas.” Não posso deixar de concordar, assim como listar espécies ou comportamentos não é ciência.
Boa noite, Pavan. Obrigado por tudo o que nos deixou. Durma bem.

Ciência Cotidiana 7 – Onde encontro um pé de trigo selvagem?

Por Eduardo Bessa com a supervisão da Prof. Virgínia Azevedo, especialista em melhoramento genético vegetal da UNEMAT

Estamos no Oriente Médio de 19 mil anos atrás. O local onde estamos um dia será a fronteira de Israel com a Síria. Somos um grupo de caçadores coletores nômades, nosso clã estabelece residência em um local, ali arma tendas nas quais as mulheres cuidam das crianças e coletam frutos e raízes para comer. Os homens passam um ou vários dias vagando pelas redondezas caçando pequenos cervos, cabras e o que mais puderem abater. Quando o alimento começa a escassear levantamos acampamento e nos mudamos para outro local ainda inexplorado e o ciclo recomeça. Nossos pertences não podem ser muitos devido à dificuldade de carregá-los na migração. Tanta andança impede que tenhamos muitos filhos e que os velhos vivam mais por incapacidade de acompanhar o grupo. Há escassez de proteína na alimentação, já que a caça é pouco produtiva. A vida não é fácil no começo do Período Neolítico. Num determinado momento de nossa evolução cultural uma nova técnica foi inventada. Embora aparentemente trivial, ela levou muitos anos para surgir, mas provocou uma vantagem tão grande àqueles que a realizavam que rapidamente a técnica se espalhou por todas as culturas que tinham contato naquele período. Era a agricultura.
A agricultura consistia em coletar na mata sementes dos vegetais mais utilizados na alimentação e plantá-las nas redondezas das vilas. Método semelhante foi realizado com os animais de caça que, em vez de abatidos, eram presos e alimentados até que se reproduzissem e fossem mortos para servir de alimento. Desta forma, era bem menos necessário migrar de uma área para a outra atrás de comida, era mais fácil adquirir proteína essencial para a ovulação e a população humana teve sua primeira explosão.
De quase 20 mil anos para cá muita coisa mudou. As plantas mais consumidas não mais eram coletadas nas matas, mas eram cruzadas dentro das próprias lavouras. Assim, apenas as mais vantajosas eram usadas como reprodutoras: os milhos mais doces, as batatas mais resistentes a fungos, as maiores abóboras. Esta técnica chamada de seleção artificial fez com que as plantas cultivadas fossem diferindo cada vez mais de seus ancestrais selvagens.
Com o advento da genética um segundo grande passo da evolução das plantas cultivadas ganhou terreno. O melhoramento genético dos vegetais trouxe ainda mais produtividade e vigor aos cultivares. Foi a chamada revolução verde que ocorreu na década de 1960 e junto trouxe o uso de fertilizantes, maquinário agrícola e agrotóxicos. Mais uma vez os vegetais cultivados diferiam de seus ancestrais selvagens. Só para se ter idéia, a soja não aguentava o fotoperíodo (a duração do dia) do Brasil, que hoje é o segundo maior produtor mundial do grão. O arroz é uma planta aquática da China, só crescia em solos alagados, mas através do melhoramento genético passou a tolerar solos secos em sua variedade conhecida como arroz de terras altas.
É por isso que não existe um pé de trigo igual aos que plantamos brotando naturalmente em lugar nenhum do mundo, o trigo atual é uma planta artificial, hexaplóide (com seis conjuntos de cromossomos ao invés dos dois usuais) e autógama, é capaz de se autofecundar, ao contrário da maioria das plantas selvagens. O milho, por exemplo, deriva de uma planta chamada teosinte, era bem menor do que a espiga de milho que conhecemos, tinha grãos com cores diferentes que variavam do amarelo pálido, roxo, preto ao vermelho, isso na mesma espiga. Até hoje produtores tradicionais usam variedades multicoloridas chamadas de milho crioulo, bem mais resistente a pragas do que o milho amarelinho que comemos cozido.

teosinte.jpg

Obtido em www.gmo-safety.eu

Governos de países como Peru e Índia têm incentivado os produtores a manter variedades de seus vegetais de cultivo nativos (milho e arroz, respectivamente) de forma a ter um plantel de genes diversos que podem ser a salvação de nossas monoculturas caso surja uma praga dos principais alimentos utilizados. Imagine um fungo que acabe com toda a plantação de arroz do mundo. Com a baixa diversidade genética nesses vegetais uma praga que afete um pé de arroz afetaria potencialmente todos os pés de arroz. Um bom enredo para um holocausto ficcional. Foi isso que aconteceu com as batatas na Irlanda em 1845, o que levou, em grande parte, à colonização dos Estados Unidos. Diversidade genética é primordial para a conservação de qualquer espécie viva, de micos leões dourados a pés de arroz, milho ou trigo.

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