Museu Nacional

Sigo de férias com minha família pelo Rio de Janeiro e aproveito para curtir um pouco da parte cultural da Cidade Grande. Esses dias fui à Quinta da Boa Vista, atualmente um parque que abriga o que um dia foi a casa do imperador D. Pedor II. Essa construção é hoje o Museu Nacional do Rio de Janeiro, uma parte da UFRJ dedicada à antropologia, arqueologia, paleontologia e biologia.

A exposição está em reforma, mas o passeio valeu a pena. Há meteoritos, mamíferos pleistocênicos, um histórico da evolução humana, artefatos indígenas e de tribos africanas e até uma múmia de verdade. O parque ao redor também é lindo.

Talvez o mais ingênuo candidato da história brasileira

Talvez o mais ingênuo candidato da história brasileira


Não longe dali está também o zoológico do Rio de Janeiro, com recintos melhorados em relação à última vez que o havia visitado. As alamedas do zôo todas levam nomes de personagens famosos dali, como o macaco tião, um chimpanzé que obteve 400 mil votos para prefeito do Rio na época das eleições em cédulas.
MNRJ
Zoo RJ

Ciência cotidiana 5 – E quanto ao pão?

Ao meu pai que, celíaco,

 teve que abrir mão dos prazeres do pão!

 

Quando era estagiário do Projeto TAMAR IBAMA a padaria mais próxima ficava a 20 km da base. Uma vez na semana íamos até lá e comprávamos pão para armazenar. Acontece que pão dormido em geral é um fiasco. Um dia me cansei e pedi a minha mãe pelo e-mail uma receita caseira e fácil de pão. Ah, que maravilha a vida de repente ficou. Comprávamos farinha, fermento e às vezes até um recheio e algumas vezes na semana nosso alojamento era invadido com aquele cheirinho delicioso de pão assando. No final tínhamos que assar uma fornada a mais para a hora do preparo. Não dava para resistir.

Esse alimento preparado no forno é característico por ter uma casquinha crocante e um miolo molinho e fofo. Na hora do preparo a massa é feita em um volume relativamente pequeno, mas ao final do processo de fermentação já ganhou bastante volume. Isso acontece graças ao fermento. O fermento biológico utilizado na maioria dos pães é composto por leveduras (fungos) que se alimentam de açúcar, produzem álcool por fermentação alcoólica e expelem gás carbônico. Enquanto deixamos o fermento agir na massa o gás carbônico da respiração das leveduras fica preso na mistura liguenta do glúten de trigo com água. É isso que torna o pão esponjoso e são essas bolhas que o fazem crescer até três vezes seu tamanho original. O álcool da fermentação evapora em sua maioria, mas seus vestígios dão parte do sabor do pão.

Na hora de assar o pão recebe calor do forno principalmente por condução. Isso garante que a parte externa (mais perto do calor) aqueça mais que a interna. Igual a uma colher que você esquece dentro da panela e depois de um tempo o cabo fica quente. Se a temperatura do forno estiver correta chegará um momento em que a casca do pão irá perder boa parte de sua água que se evaporará com o calor, isto é, ficará torradinha. No entanto seu interior ainda não estará quente a esse ponto, retendo boa parte da umidade que o deixa macio.

O pão dormido começa ficando molenga quando a umidade perdida na casca é reposta pela que está no interior do pão. Ele perde sua crocância pelo processo de difusão, no qual a água migra de um local onde ela está mais abundante para outro onde falta. Se mais tempo passa com o pão exposto a um ambiente seco essa água se vai também, deixando o pão seco e duro.

Feliz Natal

Só um post bem rapidinho para desejar a todos um feliz natal (sim, um agnóstico pode comemorar e adorar o natal, é só trocar a simbologia).

Big Five – Rinoceronte

“Só então, aliviado, eu escutei o motor do jipe de safari ligando e ouvi-o vir em minha direção rapidamente em primeira marcha. Eu comecei a correr de volta pensando que cada jarda era uma jarda e me sentindo melhor a cada passo dado. O jipe de safári balançava pela trilha numa curva fechada quando eu puxei a maçaneta e entrei para a segurança do jipe, segurei-me na alça e pulei para o banco da frente enquanto o rinoceronte abria caminho com seus chifres destruindo galhos e cipós. Era a grande fêmea e ela continuava a me seguir a galope. De cima do carro ela parecia ridícula com seu pequeno filhote a segui-la galopando.” (Ernest Hemingway, As verdes montanhas da África)

 

Há, na verdade, duas espécies de rinocerontes nas savanas africanas – o rinoceronte negro, Dicerus bicornis, e o rinoceronte branco, Dicerus simus – ambos considerados integrantes dos Big Five. A maior diferença entre eles em termos morfológicos, talvez surpreendentemente, não reside na cor. Ambos são cinzentos. As espécies diferem na forma da boca: o negro tem um lábio superior alongado para prender folhas e arrancá-las dos galhos mais altos, já o branco tem o lábio curto e corta folhas de capim do chão com os dentes. De fato, o branco vem de weit, largo em holandês, que soa igual a white, branco em inglês. Daí a confusão.


rinoceronte branco

rinoceronte branco


 

O rinoceronte é um animal que se apóia sobre suas unhas, conhecidos como ungulados. Especificamente sobre três dedos, como se percebe na figura. Isso o posiciona na ordem dos perissodáctilos, junto com os cavalos, zebras e asnos, que apóiam-se em apenas um dedo, e a nossa anta, que também apóia-se em três.

Rinoceronte negro

Rinoceronte negro

Ambas as espécies estão extremamente ameaçadas pela expansão da ocupação humana, mas o rinoceronte branco está praticamente extinto devido à baixa diversidade genética existente na natureza. Suas populações hoje estão praticamente restritas, e isoladas, às reservas africanas.

O rinoceronte surpreendeu desde cedo os europeus em excursões à África, a figura mais antiga sobre ele que conheço é a de Albrecht Dürer, ilustrador alemão, de 1515. A figura em madeira refere-se a um rinoceronte indiano, mas vale o comentário. Esse animal foi capturado por navegantes portugueses em visita à Índia e levados para o rei Dom Manuel, que já tinha uma bela coleção de feras asiáticas e africanas. O rei presenteou com o rinoceronte o Papa Leão X, mas o navio que o transportava naufragou no litoral italiano e ao papa restou apenas a carcaça do animal empalhada.

figura de Dürer no British Museum

figura de Dürer no British Museum

O que mais encanta no rinoceronte talvez sejam seus estranhíssimos chifres sobre o focinho. Na realidade o chifre do rinoceronte é um tufo de cabelos completamente aderidos uns aos outros. Não tem osso por dentro e é completamente formado por queratina, a mesma substância que forma nossas unhas e cabelos, mas não duvidem da dureza dessa arma.

Big Five – Leopardo

É noite na África e faz um silêncio ensurdecedor. Tudo está tão tranqüilo que o menor ruído é perceptível, insetos rastejando sobre o capim seco, o zumbido de um bater de asas. A escuridão também impera em uma noite sem lua, as estrelas são as únicas luzes no céu e você não se lembra de ter visto brilho mais forte naqueles pontinhos celestiais. Mais próximo ao chão você observa algumas outras constelações a dançar e piscar: vaga-lumes. De repente até a miríade de pequenos ruídos que havia pouco invadiam os ouvidos se silenciam, a savana mergulha num sufocante silêncio absoluto. É então que você observa dois discos de luz entre o amarelo e o esverdeado a pouco mais de cinco metros. A princípio pensou que pudessem ser os vaga-lumes, mas andavam sempre unidos e não piscavam. A noite da África tem dentes e garras afiadas.


obtida em www.awf.org

obtida em www.awf.org


 

O leopardo (Panthera pardus) é o único outro carnívoro dos Big Five, esse sim bem mais difícil de ser visto do que o leão. O leopardo tem hábitos solitários e noturnos, além de uma camuflagem bem eficiente. Esse felino abriga-se no alto de árvores durante o dia, ficando escondido entre as folhas escorado em forquilhas. O leopardo é o menor dos grandes felinos com pupilas redondas, incluídos no gênero Panthera, que inclui ainda o leão, tigre e a onça pintada. Sua pelagem é amarela dourada e tem círculos pretos sem uma mancha no seu interior. Isso me lembrou aquela tirinha do Fernando Gonsales: O menino pergunta ao professor: “Professor, a onça tem a mancha circular sem uma pinta no meio?” E o professor: “Não, esse é o leopardo.” “Ah, então o Juninho caiu na jaula do leopardo.” Os leopardos também têm variantes melânicas, ou seja, completamente pretas.

Populações de leopardos iam desde o sul da África até a Coréia, hoje essas populações estão isoladas, mas ainda encontram-se leopardos na África, Sri-Lanka, China e Nepal. Essa extensão toda só se mantém graças à plasticidade de sua dieta. Leopardos podem comer desde roedores a babuínos, de veados a cães domésticos e pessoas. Em duas ocasiões leopardos mataram mais de 500 pessoas na Índia. Esse felino marca seu território com urina e esturra ou ruge para anunciar sua presença, encontros entre machos são raros e habitualmente violentos. A área de vida dos leopardos machos chega a 50 km², as fêmeas têm áreas menores e deixam seu hábito nômade quando ganham filhotes. Os filhotes nascem em número de quatro, mas a mortalidade infantil é alta, restando geralmente apenas um que permanece com a mãe até os dois anos. Hienas e leões muitas vezes tomam as presas capturadas pelo leopardo e podem até mesmo predar o felino. Por isso eles costumam levar suas caças para a copa das árvores onde podem comer em paz. Um leopardo, que pesa 70kg, pode erguer uma caça de 200 kg. Ele também atinge velocidades tão altas quanto 60 km/h.

Big Five – Búfalo

Depois do leão e do elefante, o búfalo (Syncerus caffer) não é exatamente dos mais glamurosos animais africanos, ainda mais levando em conta que ficam de fora da lista dos big five animais como a girafa e o hipopótamo. Mas lembrem-se que os big five referem-se aos cinco animais mais difíceis de serem caçados ou fotografados na África. Nessa lista o búfalo certamente merece um lugar, apesar de suas manadas que podem atingir até milhares de indivíduos.

Os búfalos africanos são animais muito dependentes de água e capim fresco. A disponibilidade de alimento ainda afeta mais a população do que a predação ou os parasitas. É que, sem alimento por algumas horas, o búfalo não consegue manter sua temperatura corporal e acaba morrendo por motivos fisiológicos. Por isso o ciclo de vida desses animais, assim como muitos outros, é regido principalmente pelas estações de chuvas com grama verdinha e abundante.

A dificuldade em lidar com os búfalos reside em sua agressividade. Quando acuados ou perseguidos eles são coesos no grupo e bastante valentes. Retribuem o ataque sem muita dúvida usando como armas seus longos chifres que começam descendo a cabeça e logo curvam-se para cima.

Aqui no Mato Grosso, em Chapada dos Guimarães mora um casal que fundou a pousada do inglês. A aconchegante (porém cara) pousada é gerida pelo inglês que lhe dá nome que todas as tardes partilha o seu chá com os hóspedes entre narrativas de suas caçadas na África. Seus troféus estão espalhados por toda a pousada e inclui diversos pés de búfalo. O tal inglês veio para o Brasil depois de muitos anos na África como caçador que protegia os empregados de construções de rodovias e ferrovias. Aqui seu trabalho passou a ser livrar-se dos búfalos selvagens em Marajó que, ao que ele conta, atraiam os domésticos para a fuga. Atente para o fato de que os búfalos da ilha de Marajó nada têm a ver com os africanos, tendo sua origem nas Filipinas e sendo muito mais dóceis. Certamente a Chapada dos Guimarães merece uma visita e, se lhe permite o orçamento, ficar na Pousada do Inglês é recomendado por esse blogueiro que vos escreve.

Só mais uma coisa. Sou um entusiasta da etimologia dos nomes científicos, o que os torna bem mais fáceis de entender. O búfalo africano é chamado Syncerus caffer. Syn é o prefixo que significa “unido”, cerus é “chifre”. Repararam como os chifres do búfalo parecem unidos em sua base? Caffer representa apenas a região de ocorrência da espécie, a região de Caffara, na África do Sul.

Big Five – Elefante

 


Além de abanar as orelhas, os banhos de terra ajudam a evitar a insolação. www.arkive.org e www.amnh.org

Além de abanar as orelhas, os banhos de terra ajudam a evitar a insolação. www.arkive.org e www.amnh.org


 

O maior dos big five e maior animal terrestre atual, o elefante africano, está representado na fauna por duas espécies, uma habitante das florestas (Loxodonta cyclotis) e uma das savanas (Loxodonta africana). No museu de anatomia comparada da USP há um esqueleto de um elefante, no caso um asiático, montado. É quase irreconhecível. Acontece que o elefante é muito característico por sua longa tromba e grandes orelhas, ambos compostos de cartilagens e que não permanecem após os processos de preservação do esqueleto. O esqueleto é uma cabeçorra imensa que deixa ver a inserção das orelhas e tromba que não estão lá. As orelhas no elefante africano funcionam na verdade como dois grandes radiadores. Repleta de veias, elas ficam injetadas de sangue quando faz calor. O animal então começa a abaná-las para refrescar o sangue que retorna mais frio para o interior do corpanzil que, de tão grande, tem muita dificuldade de resfriar-se. Quanto à tromba, nada mais é do que um nariz alongado e musculoso cheio de invejáveis habilidades. O elefante pode aspirar água pela tromba só até certa altura, dobrá-la e esguichar essa água dentro da boca, ele pode fazer um movimento de pinça com as pontinhas da tromba para apanhar no chão um amendoinzinho, pode mesmo enrolar um objeto maior e pesado com a tromba inteira e levantá-lo do chão. Os incisivos do elefante africano também são modificados em duas longas presas pontudas que crescem continuamente tanto nos machos como nas fêmeas. Os elefantes usam seu marfim para revirar a terra e apoiar troncos.

Crânio de elefante. O orifício central único é onde insere-se a tromba, mas confundia os antigos parecendo a cabeça de um ciclope

Crânio de elefante. O orifício central único é onde insere-se a tromba, mas confundia os antigos parecendo a cabeça de um ciclope

 

Os elefantes andam em enormes grupos de até centenas de indivíduos guiados por uma fêmea, em geral a mais velha do grupo. É ela que define a direção a seguir, a hora de se alimentar, de tomar banho ou dormir. Quando está velha a matrona é abandonada pelo grupo ou deixa-os ela mesma e vaga solitária até que morra. Já os rapazes elefantes têm uma história bem diferente, ao alcançarem a maturidade sexual, por volta dos 25 anos, deixam as barras das saias das mães e vão tentar a sorte. Eles definem territórios lutando violentamente com outros machos. Essas brigas são tão feias que assustam humanos por toda a África. Os machos permanecem solitários ou em pequenos grupos em seus territórios. Eventualmente os bandos de fêmeas cruzam esses territórios e cabe à matrona recordar-se se o macho dali é amigável ou não, o que elas fazem com grande habilidade. Daí a expressão “memória de elefante”.

 

Outro aspecto interessante da vida social dos elefantes é sua habilidade em comunicar-se pelo solo. Vibrações geradas pelo bater de pés de um grupo distante em fuga, por exemplo, podem ser percebidas através das patas ou trombas do elefante, uma habilidade que os cientistas chamam de comunicação sísmica. Elefantes também podem produzir sons em freqüências extremamente baixas e que se deslocam por longas distâncias para comunicar a presença de uma ameaça, água, alimento ou uma fêmea no cio. Essa forma de comunicação só foi descoberta nos anos 80 acidentalmente enquanto a pesquisadora Katy Payne acelerava fitas K7 nas quais tinha gravado elefantes. Partes que em velocidade normal pareciam não ter nada gravado revelaram um longo diálogo em infra-som entre animais separados por mais de 3 km.

Big Five – Leão

Selo da Blogagem Científica da África

Selo da Blogagem Científica da África

Falar em África e pensar em grandes mamíferos é na verdade um grande clichê, mas não pude evitar. Minha formação de zoólogo me proíbe de pensar automaticamente em qualquer outra coisa quando se fala em África. Depois do livro sobre África que li percebi que tem muito mais coisa no continente além de grandes mamíferos, mas não vou fugir da expectativa e aproveitarei a blogagem coletiva sobre África para falar dos “Big Five”, os cinco grandes mamíferos mais procurados da África. Originalmente referia-se aos animais mais difíceis de serem caçados, hoje são os mais difíceis de serem vistos nos safáris fotográficos.

o comprimento, cor e extensão das jubas varia muito entre populações e de acordo com o clima

O comprimento, extensão e cor da juba variam muito com a idade, dieta e clima

Começarei pelo leão (Panthera leo). O rei da selva habita savanas muito parecidas com o nosso cerrado, cheia de gramíneas e árvores baixas e retorcidas, nada de uma selva densa e alta como as que ocorrem na África equatorial. Outro mito interessante é que o leão muitas vezes toma a caça de outros predadores ou alimenta-se de carniça. Apenas metade da alimentação do leão é caça abatida por ele, menos do que a hiena, por exemplo.

Os leões são a exceção que valida a regra no que se refere aos hábitos solitários dos felinos. Enquanto a maioria dos felinos vive isoladamente exceto no momento do acasalamento e cuidado à prole, os leões “inventaram” um sistema de caça cooperativa, o que lhes permite capturar presas muito maiores do que eles próprios, como rinocerontes, girafas e hipopótamos. Os grupos são formados por cerca de 13 indivíduos, dois ou três machos que defendem seis fêmeas e seus filhotes. Os machos são, em geral, aparentados e têm o hábito de matar os filhotes quando tomam para si um grupo de fêmeas, o chamado efeito Bruce. Assim, essas fêmeas voltarão a ficar férteis gerando filhos dos novos machos. As fêmeas cuidam da prole e realizam mais de 80% da caça enquanto os machos defendem o território e a posse de suas fêmeas.

Outra curiosidade interessante é que leões podem ficar dias sem beber água na estação seca. Já foram vistos alguns desses animais bebendo a água que estava no estômago de suas presas recém abatidas. Os leões são ímpares também por suas jubas, mais longas nos indivíduos distribuídos em climas mais frios. Essas jubas são decorrentes da testosterona nos testículos do leão, o que impede a realização de castrações nos zoológicos, onde os felinos costumam acasalar-se demasiadamente. A saída tem sido vasectomias.
e para o almoço: estrelas hollywoodianas

e para o almoço: estrelas hollywoodianas

O temível leão, na verdade tem sua maior ameaça em nós humanos. O aumento da área agriculturável e das alterações na savana africana pela presença humana tem levado muitas populações ao colapso. Os leões não são grandes ameaças a nós humanos, há uma lenda sobre leões comedores de humanos que diz que, após provar nosso sabor um leão nunca mais se contenta com bisteca de zebra. Um simples fruto de nossa prepotência. Que eu saiba nunca fizeram experimentos de preferência alimentar de leões usando carne humana, mas isso me parece uma grande bobagem. Apesar disso, em 1890 dois leões vitimaram cerca de 140 funcionários de uma ferrovia antes de serem abatidos, o que deu origem ao filme: “A sombra e a Escuridão”. Hoje esses animais estão concentrados em grandes reservas naturais no Quênia, Tanzânia, Zimbábue, África do Sul e Botswana, além de uma população pequena de leões na Índia.

Leão no Parque Gir, Índia

A África explicada aos meus filhos

Imagine receber para um fim de semana em casa um ex-embaixador. Agora imagine que além de diplomata esse convidado tem a conversa agradável e fluida. Some a tudo que seu convidado viveu muitos anos em países da África e veio para narrar suas experiências. Na mesa após as refeições, nos sofás da sala ou em almofadas espalhadas no chão o convidado conta muito do que sabe sobre o continente negro. E, por erudito que seja, imortal até, tem a fala acessível e agradável de quem sabe falar ao grande público. Foi assim que me senti lendo “A África explicada aos meus filhos” do membro da ABL Alberto da Costa e Silva.

Dadas as minhas preferências bibliográficas dificilmente esse seria um livro que tiraria da prateleira. Pensei que fosse ler sobre a fauna africana, mas estava deliciosamente enganado. A leitura sobre história e cultura africana foi agradável e muito informativa. Daqueles livros que te fazem voltar à loja e procurar por mais do autor e do tema.

O livro está dividido em conversas, ao invés de capítulos. E é isso mesmo que são: conversas descontraídas e agradáveis como as de um pai com seus filhos. A primeira conversa traz um panorama da África. Na segunda a África é integrada na extensa rede comercial que toma conta do Atlântico e Índico do século XV em diante. A terceira conversa narra a chegada dos europeus ao continente negro. As religiões com toda a sua riqueza nos são apresentadas na quarta conversa. Muito relacionada à religiosidade está a arte que vem descrita na quinta conversa. A sexta conversa faz uma exploração do comércio humano dos escravos, que modificou a história da África principalmente no século XVIII. A sétima conversa nos conta sobre a colonização do território africano pelos europeus. A oitava encerra o período colonial contando sobre o conturbado processo de independência tão tardia quanto 1980 para o Zimbábue, por exemplo. A nona conversa descreve o período pós-colonial, as ditaduras, guerras étnicas e o Apartheid. Por fim, a décima conversa mostra como Brasil e África são irmãos e tanto se influenciam reciprocamente.

Recomendo fortemente a leitura a todos os interessados em conhecer um pouco mais dessa porção do globo tão relegada a segundo plano em nossa formação básica. É impressionante como, a cada página, nos identificamos com esse povo sofrido e alegre, de cultura tão rica e tão influente na nossa.

A porta

Eu sou feita de madeira

Madeira, matéria morta

Mas não há coisa no mundo

Mais viva do que uma porta.

 

(…)

Eu fecho a frente da casa

Fecho a frente do quartel

Fecho tudo nesse mundo

Só vivo aberta no céu!

(Vinícius de Moraes)

 

Tem tempo que a porta da casa onde moro se deteriorou bastante e estava precisando trocá-la. Não imaginava o trabalho que é trocar uma porta. O serviço bastante sujo começou ontem, tiramos a porta antiga, amassadinha, e estávamos aguardando a entrega da nova porta. Ela não veio. Passei a noite sem porta em casa num misto de protetor das minhas coisas e medroso. Se fechava a porta do quarto ficava com medo de alguém entrar e levar minhas coisas. Se a deixava aberta temia por mim mesmo. Foi uma noite tensa.

o que restou da minha porta, snif

o que restou da minha porta, snif

Por que será que tanto me afligiu essa situação? Somos bichos territoriais! Essa noite um desses fenótipos estendidos que criamos para expressar nossa natureza humana mais animal me faltou. Meu território estava desprotegido, sem porta. Nosso DNA, atualmente considerado o principal nível de atuação da seleção natural, é simplesmente um codificador de proteínas e peptídeos. Teoricamente ele nada diz sobre açúcares, gorduras ou qualquer outra molécula do mundo que integra seres vivos, que dirá seus comportamentos ou conseqüências dele. A teoria do fenótipo estendido, proposta pelo inglês Richard Dawkins, sugere que, apesar do DNA só codificar proteínas, tudo em nossas vidas está definido nos genes. É que as proteínas advindas do DNA podem afetar a formação de outras moléculas orgânicas como gorduras, açúcares ou outras moléculas, podem ainda definir um comportamento e até efeitos desse comportamento no ambiente. Seus exemplos preferidos de fenótipo estendido no livro são os cupinzeiros e as barragens dos castores. O meu hoje é a minha porta. Tudo bem, essa teoria do Richard Dawkins é bem determinista e coloca os genes como o centro de tudo, aliás, como tudo o que ele escreve. Mas hoje essa porta está me fazendo falta como uma enzima digestiva!

O território é uma forma de nós, animais, resolvermos em parte o problema da competição. Pegamos recursos escassos como área ideal para se viver, alimento, talvez até a nossa parceira sexual, guardamos naquele território e pronto, estamos seguros. Às vezes esses recursos podem ser tão raros e valiosos que outros bichos nas cercanias tentam tomá-los de nós. Daí nós guardamos melhor e melhor nossos recursos. Só nas cercanias aqui de casa hoje, mobilizado por esse tema, me saltaram aos olhos o tanto que nossa vida é pautada pela territorialidade. Na esquina tem uma revenda de portões e cercas de madeira, em frente um chaveiro, na outra rua uma empresa de seguranças e nos fundos uma academia que dá aulas de Muay Thai (!?!).

Uma aluna minha, a Larissa, está trabalhando com comportamento canino. Outro dia estávamos conversando sobre como evitar que um cão ataque pessoas ou outros cães. Imediatamente sugerimos tirá-lo de casa e fazer as apresentações na rua. Isso surpreende muita gente, mas é bastante lógico na verdade. Imagine-se em sua casa quando de repente aparece um cara de 1,90m com bíceps da grossura das suas coxas e uma cara meio brava. Me deparei com esse cara na academia outro dia e isso não me surpreendeu muito. A situação é totalmente diferente. Para o cachorro também. Cães, como nós humanos, são animais territoriais.

No momento em que digito esse final ouço o ruidinho áspero do concreto sendo assentado nas margens da minha porta nova e sinto o cheiro tão peculiar do cimento úmido. A casa está uma zona, toda suja, ainda terei que esperar o pintor reparar os estragos na pintura, mas essa noite dormirei melhor. Meu genótipo voltou a se expressar por inteiro, tenho uma porta novamente.

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