Etologia de alcova – Sexo em troca de favores

Será que animais se prostituem? Uma das primeiras coisas que aprendemos quando vamos trabalhar com comportamento animal é a nunca antropomorfizar os comportamentos, nunca interpretar sua intenção de um ponto de vista humano. É provavelmente a parte mais impossível difícil da etologia, mas a gente tenta. Nesse ponto o Ciência à Bessa é uma boa válvula de escape. Aqui posso ser um pouco mais flexível com meu antropomorfismo e até colocar animais no divã de uma psicanalista, por exemplo. Esse mês vou falar sobre mais um comportamento sexual que muitos juram ser exclusividade humana, a troca de sexo por favores. Poderia denominar isso prostituição, mas seria cometer mais antropomorfismos do que estou disposto. Nesse caso, irei relatar o que acontece e deixarei o leitor definir como achar melhor.

Você me ama? Eu te trouxe uma mosca. Sexo em troca de favores (Fonte: arkive.org)

Fêmeas de diversas espécies de animais frequentemente fazem sexo em troca de favores dos machos. Estes machos usam seu status e poder para obter recursos que ele doará à fêmea se ela estiver disposta a doar-lhe alguns de seus óvulos em retribuição. Grilos da espécie XXX produzem uma substância gelatinosa junto com o espermatóforo que as fêmeas irão ingerir. Aranhas macho da família Pholcidae desenvolvem uma protuberância em partes de seu corpo que será comida pela fêmea durante a cópula.

Outras espécies oferecem presentes que, diferente das protuberâncias ou secreções mencionadas acima, não são produzidos por elas mesmas. É o caso das aranhas Trechaleidae, que capturam presas em suas teias, embrulham em teia, e entregam às fêmeas em troca de sexo. Quanto maior e mais nutritivo o presente, tanto maior serão as chances do macho obter sucesso. Algo parecido ocorre com o ciclídeo africano Lamprologus callipterus, cujos machos defendem conchas onde as fêmeas desovam. Se uma fêmea quiser desovar numa dada concha, terá que aceitar que o pai de seus filhos será o macho que a defende. Um último exemplo, nas moscas da família Empididae, machos caçam presas e procuram enxames de fêmeas para trocar sua presa por sexo. Se a presa é grande e nutritiva, as fêmeas disputam ferozmente entre si pelo macho.

Nos mecópteros, insetos voadores às vezes chamados erroneamente de mosca-escorpião numa tradução literal do nome em inglês mas que nada têm a ver com as moscas verdadeiras (dípteros), machos grandes guardam grandes quantidades de alimento que oferecem às fêmeas, isso se elas aceitarem fazer sexo com eles. Machos um pouco menores não conseguem proteger esses alimentos, então influenciam a fêmea oferecendo-lhes uma deliciosa guloseima feita com sua própria saliva. Guardar alimento como os mecópteros grandes é a forma mais certeira de conseguir sexo, os presentes de saliva garantem aos machos menores algumas cópulas, mas certamente a tática menos eficiente é não oferecer nada em troca às fêmeas, o que ocorre com machos pequenos. Nesse caso eles só conseguirá sexo se forçarem suas pretendentes.

Até construções naturais magníficas, mas que não servem para mais nada na biologia desses animais, podem ser consideradas um escambo por sexo. Na Austrália pássaros caramanchão constroem cabanas ornadas com itens metálicos, azuis e amarelos para atrair fêmeas, mas na hora da desova a fêmea usa outro local como ninho. A cabana é só uma homenagem que a fêmea exige do macho para dar-lhe o que ele quer. O mesmo vale para os assombrosos morrotes de mais de um metro construídos no Lago Malawi por pequenos ciclídeos. A fêmea usa esses morrotes para escolher o parceiro, mas não usa o morrote para depositar seus ovos.

Caramanchões, um presente? (Imagem: nus.edu.sg)

Talvez você tenha reparado que em todos esses casos é a fêmea que cede o sexo em troca do favor. Não existem casos do contrário na natureza? Não consigo me lembrar de nenhum agora, mas mesmo que exista, ele será uma exceção. Isso porque a diferença biológica básica entre machos e fêmeas é que os óvulos das fêmeas são muito mais valiosos que os espermatozoides dos machos. É por isso que as fêmeas em geral tendem a ser mais exigentes, inclusive exigindo favores dos machos em troca de sexo.

Brasil Ameaçado – Baleia Azul (Balaenoptera musculus)

Baleia Azul, um castelo construído sobre areia movediça, um predador dependente de uma presa sendo dizimada. (Foto: wikipedia.org)

Até o maior animal que já vagou sobre esse planeta está sofrendo atualmente. Tudo é superlativo nelas. As baleias azuis, Balaenoptera musculus, mamíferos de 30 m de comprimento e 170 toneladas cujo coração cabe uma pessoa e a aorta permite engatinhar dentro. É o animal que produz os sons mais altos também, e a maior diferença de tamanho entre predador e presa, já que ela se alimenta de microcrustáceos. Graças à caça indiscriminada para obtenção de gordura e talvez a mudanças climáticas as populações vêm diminuindo desde o fim do século retrasado. Atualmente são cerca de 3 mil animais distribuídos principalmente no Norte do Pacífico. Quer ajudar na conservação desse gigante? Cuide do krill que ela come. Suplementos nutricionais com Ômega 3 derivados do Krill reduzem as populações desses animais que servem de base para a cadeia alimentar que inclui as grandes baleias.

Brasil Ameaçado – Peixe anual Austrolebias cyaneus

Peixes anuais como o Austrolebias charrua da foto e o A. cyaneus do texto são afetados pelo tráfico e pela destruição do habitat. (Foto: icmbio.gov.br)

Mais de 120 peixes da família Rivulidae figuram na lista de animais ameaçados do Brasil de 2014, no entanto usarei apenas A. cyaneus a título de exemplo. Os rivulídeos, ou peixes anuais, são alguns dos peixes mais coloridos que se pode encontrar em água doce. Por isso atraem muito o interesse de aquaristas bem intencionados, mas também de traficantes de animais muito mal intencionados. Soma-se a isto a biologia desses animais, que vivem em poças temporárias, possuem alto grau de endemismo (só ocorrem em determinada região) e se reproduzem de maneira explosiva, o que os torna mais sensíveis à destruição do habitat. Estão prontos os fatores chave para a extinção de muitos desses belos animais. Austrolebias cyaneus não passa de 5 cm e são de um azul royal listrado de preto. Quanto à dieta, são micropredadores, alimentando-se de pequenos invertebrados. Na reprodução os machos cortejam a fêmea e a convidam a desovar em seus territórios. Sua distribuição é restrita a algumas poças ao redor da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, no bioma dos Pampas. Na região havia um complexo de poças alagáveis, mas aterros para o cultivo de arroz exterminaram todas exceto uma das poças. O risco de tráfico é tamanho que alguns pesquisadores que estudam o grupo nem divulgam onde coletaram espécies recém-descobertas para evitar que traficantes dizimem a população. Para ajudar os peixes anuais é só nunca comprar peixes sem uma origem comprovadamente legal atestada pelo IBAMA. Para denunciar um estabelecimento que comercialize peixes ilegalmente disque 0800-61-8080.

Brasil Ameaçado – Tartaruga gigante Dermochelys coriacea

Um gigante gentil, a tartaruga de couro, apesar do tamanho, está criticamente ameaçada de extinção no Brasil. (Foto: Albert Hering)

A maior tartaruga marinha do mundo também está criticamente ameaçada de extinção. A tartaruga de couro ou gigante, Dermochelys coriacea, visita o litoral brasileiro nos meses de outubro a fevereiro para desovar nas praias do Brasil, em especial Bahia e Espírito Santo. Ali elas cavam ninhos de 90 cm de profundidade na areia da praia e colocam cerca de 110 ovos do tamanho de bolas de ping-pong, mas com a casca flexível como papel. Cada animal adulto pode medir até 2 m de ponta a ponta do casco e pesar 700 kg. São um dos poucos répteis capazes de manter a temperatura do corpo (endotermia) e não possuem placas de queratina sobre o casco, que é revestido de couro. Apesar de ocorrerem por todo o mundo, só existem sete populações isoladas e a população decresceu cerca de 40% nos últimos anos devido principalmente à coleta de ovos e afogamento por captura acidental em redes de pesca. Elas se alimentam de águas-vivas e frequentemente são encontradas mortas engasgadas com sacolas plásticas. Imagina-se que esses animais confundam sacolas plásticas flutuando no mar com seu alimento. Portanto, para preservar a tartaruga gigante não jogue sacolas plásticas no mar (e nem em ruas onde a chuva possa arrastar a sacola para o mar).

Brasil Ameaçado – Lambari Astyanax eremus

Astyanax eremus, um lambari solitário com um futuro duvidoso. (Foto: Neotropical Ichthyology/scielo.br)

Uma das coisas mais tristes dessa lista de espécies ameaçadas do ICMBio foi ver tantas espécies recém-descritas, é o caso do lambari Astyanax eremus dessa semana, que foi descoberto pelos cientistas apenas ano passado (2014). Isso significa que tem grande chance de que espécies estejam se extinguindo antes mesmo de serem descobertas. Astyanax eremus só foi descrito pelos cientistas e reconhecido como uma espécie diferente, quase nada se sabe sobre seu papel na natureza. Não conhecemos de que eles se alimentam, quem se alimenta deles, como é sua reprodução, é um ilustre desconhecido. E quem me dera Astyanax eremus fosse uma exceção, ao contrário, muitas espécies estão assim e teremos outros exemplos até o final do ano. Um dos principais problemas que levou esse lambaria à situação em que se encontra foi sua distribuição geográfica restrita. Ele vive num córrego de cabeceira afluente do Rio Iguaçú no Paraná, num trecho curto de rio isolado por duas cachoeiras e margeado por um capão remanescente de Mata de Araucária. Era o único peixe presente ali (daí o eremus, de eremita, em seu nome científico), uma paisagem muito frágil e efêmera, que numa ação de um fazendeiro pode dizimar toda a espécie. Mesmo assim, ainda podemos fazer alguma coisa por ele, valorizem o trabalho dos cientistas taxonomistas e não desmatem as margens dos rios obedecendo ao código florestal.

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