Quando a galinha tiver dentes e a cobra tiver pernas

À Profa. Christine Strüssman

Colega zoóloga da UFMT e nova visitante

 

No dizer popular quando você quer dizer que não faria algo de maneira nenhuma diz-se que só “quando a galinha tiver dentes” ou só “quando a cobra tiver pernas”. Cientificamente, no entanto, nenhuma das duas situações é assim tão inusitada quanto você gostaria. De fato, esta é uma das evidências mais interessantes e bonitas sobre a validade da teoria evolutiva.

A linha de pesquisa do Evo-Devo, do inglês evolution-development ou evolução-desenvolvimento, propõe estudar a origem das novidades evolutivas tanto em termos embriológicos. Ou seja, como adaptações como penas de aves ou a asa do morcego surgem durante o desenvolvimento embrionário. Na verdade é a modernização de um preceito já há muito sugerido, mas atualmente discutido, de que a ontogenia recapitula a filogenia, assistir o embrião se desenvolver seria como assistir o filme da evolução rebobinado. Claro que não é bem assim, mas é possível ter idéias muito boas sobre a evolução observando o embrião.

dentes da galinha

Os dentes da Galinha

Fonte: www.gamespot.com

 

Adoro exemplos da evolução não tão perfeitos. O besouro bombardeiro é um caso lindo da evolução, irredutível não, mas lindo. Mas o que eu gosto mesmo é das gambiarras evolutivas. Coisas que deixam claras que qualquer engenheiro de fundo de quintal faria melhor. Por que um animal que no final não teria dentes desenvolveria dentes no início de seu desenvolvimento apenas para voltar a perdê-los depois? A foto acima é de um embrião de galinha. Você consegue ver nele os dentes sendo formados? Mais adiante estes dentes regridem e desaparecem. Os Evo-Devolucionistas (acabei de inventar o termo) ainda relacionam isto ao fato de que um ancestral das aves, talvez o Arqueoptérix, tivesse dentes. É o desenvolvimento embrionário recontando a história da evolução.

 

pernas da baleia

Na setinha os brotos de pernas da baleia

Fonte: www.scienceblogs.com/pharyngula

 

O mesmo pode ser visto com as patas traseiras das baleias, por serem descendentes de um animal terrestre, as baleias necessariamente tinham quatro patas. Hoje as dianteiras formam as nadadeiras, mas o que foi feito das patas traseiras? A ontogenia nos conta que elas regrediram até desaparecerem e, de fato, o rico registro fóssil das baleias nos conta esta mesma história. As pernas das baleias chegam a surgir durante seu desenvolvimento embrionário, não uma perna completa e promissora (como era a dos ancestrais terrestres da baleia), mas os brotos que dariam origem a uma. Por isso a ontogenia não repete a filogenia, caso contrário a baleia teria em seu desenvolvimento a completa formação de uma perna para depois perdê-la. As baleias no máximo mantém vestígios dos ossos do quadril, da mesma forma que jibóias mantém vestígios das patas traseiras.

Vestígios são o que restou de um órgão que não realiza mais a sua função. Não confundam isto com Lamarckismo, não é uso e desuso! É que se, aleatoriamente, você sofre uma mutação que permite poupar a energia de produzir um ceco no intestino grosso porque já não depende para viver da digestão da celulose por bactérias que viviam ali, então esta energia pode ser gasta na produção de gametas que carregarão os genes para um apêndice no lugar em que antes havia o ceco. Membros são órgãos supérfluos para quem anda entre o folhiço no chão das florestas e podem ser substituídos para a natação, estes são os dois cenários possíveis para a evolução das serpentes e sua vida atual. Por isto a perda das pernas foi uma economia justa de energia, de fato, entre os grupos mais aparentados às serpentes, lagartos e anfisbenas, a perda dos membros é recorrente. Apenas um vestígio de membro pode ser encontrado nas jibóias, cuja persistênsia suspeita-se que se deve ao alinhamento dos parceiros durante a cópula. Em todas as outras serpentes os membros chegam a formar-se no estágio de brotos apenas para serem perdidos novamente. Que tipo de engenheiro colocaria rodas em um barco apenas para retirá-las novamente depois?

E os exemplos não param por aí, temos os axolotles do México que experimentalmente já até saíram de sua fase larval e tornaram-se adultos; temos nossa própria cauda que evolutivamente foi-se deixando tanta saudade, mas que está presente até a 16a semana da gestação. As mudanças evolutivas nunca ocorrem aos saltos ou teríamos um mundo habitado por monstros esperançosos de se encaixar num nicho e vicejar evolutivamente. Contudo, uma forma de produzir mudanças dramáticas na forma adulta de uma espécie é gerar uma pequena modificação em formas embrionárias. Galinhas têm dentes num momento de suas vidas, serpentes têm pernas também. Então, se você quer realmente denotar que não faria algo de maneira alguma, poderia dizer que só fará isso quando a evolução for refutada!

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