Fim da Infância

Da primeira vez que folheei a revista não percebi o drama.
Só numa segunda abordagem involuntária, talvez ampliada pela luz do meio-dia, me despertou para a aberração.
Ao contrário do que Peter Pan explicitamente apregoava, as crianças de hoje não se querem crianças.
Adultos precoces ou, mais pavoroso, adolescentes cool, com laivos de sexualidade à la MTV.
Não sei que pensar.
Talvez os tempos actuais impliquem uma precocialidade de aparência.
Talvez.
O desfasamento é tanto maior quanto é do senso comum que as crianças de hoje em dia revelam uma altricialidade pouco vulgar noutros tempos, dependentes dos pais para tudo, mesmo para brincar.
Velhas nas roupas; crias dependentes nos comportamentos.
P.S. – a revista do El País de hoje revela pelo menos cinco anúncios de roupa para criança nos quais se vê tudo menos crianças.
Precocial – “Cria independente e activa pouco tempo depois de ter eclodido”
Altricial – “Cria muito dependente dos pais quando eclode”

Imagens – revista do jornal El País de 28 de Março de 2010.
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…nos comentários.
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Imagem:
digitalizada da revista “El País Semanal”, de 21 de Março de 2010, do filme “City Of Life And Death”, de Lu Chuan.

III Congresso Ibérico de Paleontologia

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III Congresso Ibérico de Paleontologia
XXVI Jornadas da Sociedad Española de Paleontología
“A Ibéria no centro das relações atlanto-mediterrânicas”
7 a 10 de Julho de 2010

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2ª Circular, Inscrições e Resumos de Comunicações
Já está disponível a segunda circular do III CIP
Ficha de inscrição e dados para o pagamento da inscrição.
Podem ser consultadas as normas para a elaboração dos resumos, bem como o escantilhão para a sua elaboração.

Site do Congresso

FedEx

Encomenda informativa urgente:
skull-100315-02.jpgNovo anfíbio.
Fóssil.
Descoberto em terrenos do aeroporto de Pittsburgh.
Que pertencem à FedEx.
Em 2004.
Com aproximadamente 300 milhões de primaveras.
Agora descrito e baptizado.
O seu nome?
Fedexia striegeli.
Entregue.
P.S. – sobre nomes científicos patrocinados por vários assuntos ver “Todos os Nomes”
fedexiax-large.jpg
Resto do pacote informativo:
Aqui e aqui.
Imagens:
Mark A. Klingler/Carnegie Museum of Natural History

Horror ao Ensinar

Uma excelente visão sobre o que é e o que deveria ser a Escola, pelo Professor Carlos Fiolhais.
Alguns excertos que me pareceram muito relevantes.
Gostei particularmente da parte do horror a que o Ministério da Educação votou o verbo ensinar, de há anos a esta parte.
Revista Notícias Magazine, 14/03/2010
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” (…)
O que é que está mal? Está tudo mal?
Não, temos bons professores, que fazem, a maioria deles, por cumprir a sua obrigação profissional num ambiente que não é nada fácil.
Se me pergunta o que está mal, dou-lhe um exemplo: o Ministério da Educação é – vou usar uma palavra brutal para fazer jus à minha fama de crítico – um monstro.
É um aparelho criado pelo Estado, que está por todo o lado em demasia, retirando liberdade aos bons professores. Há regulamentos para tudo e mais alguma coisa, os programas não são bons, os livros têm de se ater aos programas, os horários são o que se sabe, há disciplinas que não são disciplinas nenhumas. Enfim, não tenho dúvidas de que é possível fazer melhor e que isso passa por uma menor intervenção do Estado. Será precisa toda aquela burocracia? Será preciso aquela linguagem em que se exprime o monstro e que eu e outras pessoas designamos por «eduquês»? Não se pode falar claro? A actual ministra domina bem o português, é uma boa escritora, não poderá pôr aquele Ministério a falar claro?
(…)
A máquina ministerial condiciona a criatividade de alunos e de professores?
Condiciona a criatividade dos professores, que são a chave do sucesso da escola. Diminuir o papel dos professores foi o pior que se podia ter feito. Portanto, tudo o que possamos fazer para valorizar este papel, para lhes dar importância e autoridade, é útil.
Há uma palavra que não se tem usado muito em Portugal e que se devia usar mais (o Ministério da Educação, então, foge dela como o diabo da cruz), que é ensinar. A escola é um sítio onde se ensina. Claro que também é um sítio onde se aprende, mas para aprender é preciso que se ensine. Quase tudo aquilo que sei foi porque alguém me ensinou. A partir de certa altura já fui capaz de aprender por mim próprio, mas devo muito à escola e aos meus professores. Porque é que os jovens de agora não hão-de poder dizer o mesmo? Estamos a desviar-nos do essencial e o essencial é preparar para a vida. Não estaremos a alienar os nossos jovens da capacidade de saber mais, de decidir, que não devia ser apenas de alguns, mas de todos?
Esse sistema é a razão pela qual Portugal não tem sido um país de Ciência?
A nossa educação científica é uma área em que podemos progredir. A ciência devia estar presente mais cedo na escola, e não se trata tanto de falar de ciência, mas mais de ver como ela se faz. A ciência devia estar presente no jardim-escola e no ensino básico. A palavra ciência quase não aparece nos programas, aparece uma coisa chamada «estudo do meio».
O que é isso? Um cientista é um estudioso do meio?
Percebo a ideia de que o meio não é só o meio material, é também o meio social. Muito bem, é evidente que vivemos num meio social, mas antes disso pisamos um planeta que nos puxa para baixo, respiramos ar, bebemos água, e é bom que no básico façamos experiências que nos permitam compreender o que é o planeta, o que é o ar, e o que é a água. A descoberta do mundo pela criança tem de começar por aí. A junta de freguesia e outras construções sociais, por muito importantes que sejam, vêm depois do ar e da água.”
Imagem:
Jean-Auguste-Dominique Ingres, “Roger Freeing Angelica”
daqui

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Imagem – Luís Azevedo Rodrigues

O Chapeleiro Louco e as Aves Desafinadas

P04043_9.jpg – Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Março. Visita o que quiseres, ambos são loucos.
– Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu Alice.
– Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.


Que têm em comum o Chapeleiro Louco e o canto das aves?
A resposta tortuosa pode ser…o mercúrio.
Não Mercúrio, o deus dos comerciantes, da eloquência e dos ladrões, mas antes o elemento químico.
Vamos ver se consigo resumir.
Há centenas de anos que tecidos de origem animal são utilizados na manufactura de chapéus. No século XIX, a pele mais apetecível para o fabrico de chapéus era a do castor, mas a caça a este animal implicou a sua escassez, o que levou à utilização de peles de coelho.
As peles necessitam de um amaciamento prévio, sendo utilizados produtos químicos, normalmente compostos de mercúrio, como o nitrato de mercúrio (2; p.52).
Não irei descrever os processos da manufactura de chapéus, apenas refiro que o carácter rudimentar da tecnologia química e das normas de segurança laboral envolvidas, colocava os chapeleiros em sérios riscos de contaminação por mercúrio, originando o hidrargirismo (nome da contaminação).
309goya.jpgTremores físicos característicos, bem como várias patologias neurológicas designadas colectivamente de eretismo, são algumas das alterações provocadas pela intoxicação crónica por mercúrio. Timidez e irritabilidade extremas, alucinações e incapacidade de pensar correctamente, são também comportamentos típicos destas intoxicações.
Este quadro clínico, muito comum no século passado entre os chapeleiros, contribuiu para a génese da expressão “Mad as a hatter” (louco como um chapeleiro).
As alterações neurológicas por mercúrio poderão igualmente ter despertado o espírito criativo de Lewis Carroll na criação da personagem do Chapeleiro Louco, presente no intemporal “Alice No País das Maravilhas” (3).
A literatura, desta vez, não parece ter sido maior que a Vida, antes se tendo inspirado num quotidiano tão pouco poético.
O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Em que dia do mês estamos? – perguntou, voltando-se para Alice.
Tirara o relógio e olhava-o, inquieto, abanando-o de vez em quando e levando-o ao ouvido.
Alice pensou e depois respondeu:
– A quatro.
– Dois dias atrasado! – disse o Chapeleiro com um suspiro.
– Bem te disse que a manteiga não lhe faria bem! – acrescentou, lançando à Lebre de Março um olhar furibundo.
– Mas era manteiga da melhor qualidade! – respondeu a Lebre de Março com brandura.
– Sim, mas também devem ter entrado migalhas de pão lá para dentro – resmungou o Chapeleiro. – Não devias ter usado a faca do pão.

Aves Desafinadas
Thryothorus ludovicianus.jpgAs contaminações ambientais podem influenciar directa ou indirectamente muitas funções biológicas dos seres vivos. Entre as consequências temos, por exemplo, alterações dos ciclos reprodutivos, desenvolvimento de tumores ou até o canto de algumas aves.
Investigadores americanos avaliaram o chilrear de três espécies de aves, a carriça da Carolina (Thryothorus ludovicianus), da curruíra (Troglodytes aedon) e do pardal-cantor (Melospiza melodia), numa área contaminada por mercúrio – South River, na Virgínia.
Esta área industrial foi contaminada durante mais de 30 anos, sendo os níveis de mercúrio no sangue e nas penas das aves desta região muito superiores ao das aves de áreas circundantes.
Este grupo de pássaros adquire as suas capacidades sonoras de “ouvido”, ou seja por intermédio da audição de outras aves. Este facto exclui que diferentes performances sonoras possam ser de origem genética, sendo antes um reflexo de aprendizagens distintas. Desta forma, podem ser avaliadas as implicações ambientais nas alterações dos trinados das aves.
Apesar dos resultados estarem condicionados pela diminuta amostra (veja-se, por exemplo a recta de regressão), este trabalho indicia que as aves em terrenos contaminados por mercúrio apresentam uma menor diversidade de sons emitidos do que as mesmas aves de terrenos não-contaminados.
O mercúrio parece ter assim um papel uniformizante de uma característica que tanto apreciamos nas aves: o canto.
Mas porquê? Estariam estes pássaros a enlouquecer, como os chapeleiros do século XIX?
regressão.jpgOs resultados apoiam outros autores que já anteriormente haviam demonstrado que aves vivendo próximo de siderurgias apresentavam transtornos semelhantes, isto é, os seus cantos eram menos diversificados do que aves vivendo em áreas não-contaminadas.
Poderemos pensar que se vivêssemos perto de uma siderurgia também teríamos pouca vontade de cantar….é verdade.
Mas o click para este problema musical está no facto de que as contaminações por metais, como por exemplo o mercúrio, alteram a capacidade auditiva das aves juvenis, impedindo-as de escutar na plenitude as “lições” musicais do seus pais.
Dito de outra forma: a cantoria das aves de South River tornou-se minimalista, menos diversificada, tanto no nível de intensidade, como na variedade de tons emitidos, devido às aves juvenis ouvirem mal os seus pais – os pais de adolescentes sabem do que estou a falar…
Referências:
ResearchBlogging.org
1 Hallinger, K., Zabransky, D., Kazmer, K., & Cristol, D. (2010). Birdsong Differs between Mercury-polluted and Reference Sites The Auk, 127 (1), 156-161 DOI: 10.1525/auk.2009.09058
2Jacob, V. (2005). The Elements of Murder. A History of Poison. Von John Emsley. Angewandte Chemie International Edition, 44 (45), 7332-7332 DOI: 10.1002/anie.200585343
3Waldron HA (1983). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? British medical journal (Clinical research ed.), 287 (6409) PMID: 6418283
4 – excertos de “Alice no País das Maravilhas”
Imagens:
Peter Blake `For instance now, now there’s the King’s messenger’ , 1970
Francisco de Goya Y Lucientes, The Yard of a Madhouse, 1794 – daqui
Thryothorus ludovicianus: daqui
Gráfico – de 1.

A Cobra e o Bebé

ResearchBlogging.orgCasos em que um vertebrado é fossilizado durante a sua actividade biológica são raros.
Mas existem alguns – veja-se “O Falso Culpado” ou “O Mamífero Que Comia Dinossáurios”, por exemplo.
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Hoje é publicado na PLoS Biology um caso surpreendente.
Os intervenientes procedem são não só de dois grupos de vertebrados distintos, em associação próxima e com idades distintas, mas sobretudo porque tanto o predador como a presa ficaram impressos na rocha.
Os restos preservados são de uma nova espécie de cobra – Sanajeh indicus ( gen. et sp. nov.), descoberta junto a ovos e crias de dinossauros saurópodes, mais concretamente de um grupo titanosauros – saurópodes muito diversificado no final do Cretácico.
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A cobra, que podia atingir 3.5 metros, encontrava-se enrolada entre os ovos, e a uma distância muito curta dos recém-nascidos, que não apresentavam mais de 50 centímetros.
Quer a cobra como os jovens dinossauros e ovos foram fossilizadas devido à sua cobertura muito rápida por sedimentos, revelando assim que a cobra se encontraria em pleno processo de caça, alimentando-se de ovos e, provavelmente, também de crias de dinossauro.
A análise da Sanajeh indicus revelou que era um membro primitivo dos Macrostomata, embora ainda não apresentasse as características morfológicas típicas daquele grupo, como a capacidade de deslocarem a mandíbula de forma a poderem ingerir presas de grande porte.
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As rochas de que provêm estes fósseis foram descobertas em 1984, junto à povoação de Dholi Dungri, na parte ocidental da Índia. O paleontólogo Jeffrey Wilson, da Universidade do Michigan, procedeu à reanálise em 2001 dos blocos de sedimentos, tendo chegado à conclusão de que as vértebras seriam da nova espécie de serpente agora descrita. Os blocos foram posteriormente levados para o Michigan, onde tratamento e análise posteriores permitiram revelar o que é hoje publicado.
Referências:
Wilson J, Mohabey D, Peters S, Head J (2010) Predation upon hatchling
dinosaurs by a new snake from the Late Cretaceous of India. PLoS Biology 8(3):
e1000322. doi:10.1371/journal.pbio.1000322.

Wilson J, Mohabey D, Peters S, & Head J (2010). Predation upon hatchling dinosaurs by a new snake from the Late Cretaceous of India.
PLoS Biology, 8(3) : 10.1371/journal.pbio.1000322.

Nota:
Por motivos de comodidade de escrita e de compreensão utilizei os termos “cobra” e “serpente” como sinónimos. Esta opção pode induzir em erro os leitores menos familiarizados com a classificação do grupo Serpentes, grupo que apresenta, mesmo para especialistas, inúmeras incertezas ao nível das suas relações basais.
Imagens:
Sculpture by Tyler Keillor and original photography by Ximena Erickson; image modified by Bonnie Miljour. doi:10.1371/journal.pbio.1000321.g001
As outras duas imagens, artigo.

Sinfonia de Ciência

Um sortido de opiniões sobre o que é a Ciência, por vários brilhantes profissionais.
Olhando também para a forma, uma vez que o conteúdo é excelente, digo apenas:
não deixem os vossos empregos

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