Anjos voyeurs

Não pude deixar de os associar.
Uma das cenas em que o anjo Damiel, ansiando ser mortal, se ocupa em escutar os pensamentos dos mortais passageiros…

…e esta aplicação que agrega, em tempo real, posts do Twitter e que incluam as palavras “love”, “hate”, “I think”, “I wish”, entre outras.

Momentaneamente.
Anjos voyeurs.

Referências:
Der himmel uber Berlin (As asas do desejo) – de Wim Wenders
twistori

Conceitos parvos

Duas imagens recolhidas das vagas de informação matinal.
O mesmo conceito.
Dinossáurios, para estes senhores publicitários e jornalistas, significam algo ultrapassado, obsoleto e mal adaptado.
Ok, se os 150 milhões de anos que ocuparam a maioria dos ecossistemas terrestres e se terem diversificado de forma quase incomparável não significarem nada.
Parvoíces…

Darwin na Gulbenkian

“Um breve resumo da apresentação de Carlos Marques Silva na inauguração da série “No Caminho da Evoluçao”.”

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=YDnkZ1cwL4s]

Para ver a palestra completa aceder ao site da Gulbenkian no Youtube

Mail control

“No âmbito de auditoria que teve o aval de Teixeira dos Santos
Inspecção das Finanças leu e-mails de funcionários para tentar detectar fugas de informação
Público on-line – 18h58

Que querem que vos diga?!?

É paranóico?

Neste podcast do The Guardian pode ouvir-se a descrição de uma investigação sobre paranóia.
O estudo, levado a cabo por Daniel Freeman do King’s College, utilizou um ambiente virtual correspondente ao metro londrino.
200 voluntários tinham que percorrer o ambiente e eram avaliadas as suas reacções e interacções com os restantes passageiros fictícios – avatares.

Ainda no podcast pode ficar a conhecer-se os hábitos higiénicos dos homens britânicos – os do norte têm as mãos mais sujas, diz o estudo…

A ouvir em MP3 Science Weekly: How paranoid are you?

Referências
Freeman, D. et al. A virtual reality study of paranoid thinking in the general population. British Journal of Psychiatry, 1 April 2008.

Imagens – daqui e Adrian Fisk

Subprime natural?

Porque não poderia haver o crash e respectivas consequências na Natureza?
Antes de mais seria conveniente explicar genericamente o que gerou esta crise financeira.

Do que a minha mente limitada em termos económicos entendeu, e aconselhado por um amigo economista (obrigado PE), o negócio bancário assenta na confiança que o cliente deposita (literalmente…) no seu banco.
E confiança em quê?
Para que quem recebe o dinheiro (depósitos, PPR, etc.) faça investimentos correctos e seguros de forma a gerar mais dinheiro para o depositante.
O que agora se sabe é que muitos gestores bancários iniciaram e perpetuaram verdadeiros negócios de banha-da-cobra: emprestaram dinheiro a quem não o podia pagar em hipotecas de casas, casas essas que desvalorizaram tremendamente após o “colapso” do mercado imobiliário norte-americano. Esses empréstimos “envenenados” foram vendidos a terceiros contaminando de forma global muitas outras instituições bancárias.
Confuso?
Pois…veja o vídeo no final que pode ser que ajude, enquanto sorri com a comicidade da situação.
À grandeza da festa vem juntar-se a descoberta da alma-do-negócio, o que leva à desconfiança de quem tinha comprado acções dos grandes bancos “chico-espertos”. Os investidores correm a vendê-las massivamente, gerando ainda mais desconfiança no mercado, numa espiral de histeria.

Um dos contra-exemplos naturais que me lembrei e que contraria esta falta de confiança humana foi o da partilha de alimentos.
Os morcegos-vampiro (Desmodus rotundus) partilham, por vezes, o seu quinhão sanguíneo com outros da mesma colónia mas que não se alimentaram durante a noite. Este facto é tanto mais significativo quanto estes mamíferos dificilmente sobrevivem a mais do que duas noites sem alimento.
A partilha de alimento com um membro da colónia não-familiar directo, ou seja, geneticamente afastado, enquadra-se no que os etólogos designam por altruísmo recíproco.
Mas o que ganha o generoso morcego ao partilhar o seu alimento com um companheiro menos afortunado e, ainda por cima, que não é seu parente directo?
Se o receptor do “capital” vermelho for aparentado com o doador o comportamento altruísta pode ser compreendido pelo favorecimento dos próprios genes, uma vez que ambos os morcegos partilham um património genético comum. Assim, esses genes teriam maiores probabilidades de singrar (ou sangrar?) no futuro.
Mas o altruísmo verifica-se mesmo entre morcegos geneticamente afastados, o que invalida aquela hipótese.
Então o que justifica tal altruísmo?

Um estudo de 1990 publicado por Gerald Wilkinson avaliou que o custo-benefício da transacção sanguinolenta entre morcegos-vampiros é mais favorável para o receptor do que prejudicial para o doador.
Na figura está ilustrada a “transacção” entre o doador e o receptor. Quando o doador partilha o seu pecúlio, esta acção implica uma redução no tempo máximo até se alimentar, ou seja, uma redução em 6 horas no período até se alimentar de novo; em contrapartida, o receptor bafejado (será melhor dizer regurgitado) pela sorte ganha 18 horas de tempo de vida.
Desta maneira, todos os membros da colónia que partilham aumentam as suas possibilidades de sobrevivência, uma vez que o dador de hoje poderá ser o receptor de amanhã, ganhando toda a colónia.
Tentando passar este caso para as sociedades humanas e, concretamente, para o que se passa no mercado de capitais… bem… esqueçam!
Melhores tempos virão.
Esperemos.
E não voltem a ficar repugnados quando ouvirem falar de morcegos-vampiros…eu fico enojado com determinados gestores bancários, mas cada um cuida de si…
Excepto
nos morcegos-vampiros.
Aí, todos cuidam e são cuidados por todos.

P.S. – fica aqui uma tabela de outras espécies animais em que a troca de alimentos ocorre frequentemente, bem como as possíveis interpretações biológicas.

Referências

Stevens, J.R. and Gilby, I.C. 2004. A conceptual framework for non-kin food sharing. Animal Behavior 67: 603-614
Wilkinson, G. S. 1984. Reciprocal food sharing in the vampire bat. Nature 308: 183.
Wilkinson, G. S. 1990. Food Sharing in Vampire Bats. Scientific American. February: 76-82.
Imagens
Casa dos Morcegos
Stevens and Gilby (2004)

Mais valia ser daltónico


…é o que dá vontade, analisando este mapa!

Fonte – daqui – International Monetary Fund

Actualização – “Portugal no topo das desigualdades da OCDE”

Falta de chá

Quatro casais ingleses.
Quatro pequenos-almoços iguais.
Iguais aos da sua querida e sombria ilha.
Tinham comprado, num espírito comunitário que só a distância de casa justifica, uma caixa de chás.
Exóticos e difíceis de encontrar neste canto da Europa, para mitigar o costumeiro desejo, pensei.
Lipton.
Apenas Lipton.
Falta de chá.
É o que devem achar do Algarve.
Falta de chá, pensei eu.

Imagem – daqui

Quer conhecer NY?

…num monólogo genial de Brogan (Edward Norton), carregado de desespero mais do que ódio, leva-nos à nova Roma.

A descrição da Metrópole feita por quem irá passar os próximos anos no cárcere.
Mais do que o desprezo, é uma longa declaração de amor às tribos que habitam a mais europeia das cidades norte-americanas.
Uma despedida de quem podia mas não foi.

P.S. – a Última Hora, de Spike Lee, de onde este monólogo foi retirado, com som de fundo de Terence Blanchard.

Patas para que vos quero!

ResearchBlogging.org A propósito do aparecimento dos primeiros tetrápodes e do Tiktaalik, republico um post e artigo de jornal que publiquei em 2007.

“Tira daí as patas!”, grita um qualquer mamífero de forma semi-agressiva.

Mas e se fosse um peixe?
“Dois belos pés!” afirma o comentador desportivo, numa tarde de futebol.
Nós temos. Os peixes não.
A “simples” diferença na forma do esqueleto, como ter “mãos” e “pés” ou autópodes, carrega uma importante história evolutiva desde os peixes até aos animais como nós.
Ao segurar um jornal, o leitor está, em termos evolutivos, a utilizar uma barbatana muito complexa e evoluída, e pertence a um grupo de vertebrados chamados tetrápodes, animais com quatro membros, que incluem animais como os mamíferos, aves, répteis e anfíbios.

O aparecimento dos ossos dos dedos em alguns anfíbios deveria ser resultado de nova “maquinaria” genética, pois todas as estruturas orgânicas são o resultado da informação que está contida nos genes. Será assim?


Um estudo publicado, a 24 de Maio (de 2007), na revista Nature, refere que os genes necessários à formação dos dedos das “mãos” e “pés” dos tetrápodes têm uma história que remonta há 360 milhões de anos ou seja antes de os animais terem feito a “invasão” da terra. O estudo molecular dos genes HoxD (genes reguladores do desenvolvimento em diferentes organismos e áreas do corpo, concretamente no desenvolvimento do esqueleto apendicular, i.e., dos membros) vem mostrar que o património genético necessário já estava presente em peixes primitivos como o actual peixe actinopterígeo Polyodon spathula, considerado um autêntico fóssil vivo.
A análise genética deste animal permitiu afinar as informações paleontológicas com as da biologia do desenvolvimento, possibilitando que estas analisassem dados genéticos de peixes menos “evoluídos” – os actinopterígeos – e os comparassem com os dos tetrápodes. Tradicionalmente, estas análises eram efectuadas em peixes mais “evoluídos”, os teleósteos.

Os estudos paleontológicos em exemplares de transição morfológica entre peixes e animais com verdadeiros membros locomotores deixavam em aberto a possibilidade daquela “revolução” evolutiva se ter dado de uma forma rápida em termos de tempo geológico mas o Polyodon revelou que o património genético que permitiu o aparecimento de verdadeiras patas é mais antigo do que se suponha.
Fundamental para se compreender esta “novela” científica é o conhecimento dos fósseis de transição deste trajecto evolutivo.
Os “fotogramas” que permitem visualizar as alterações morfológicas entre as barbatanas e verdadeiros membros locomotores são vários. Conhecia-se já há algum tempo a parte mais inicial do “filme” – os peixes
Eusthenopteron e Panderichthys – e a mais avançada – os anfíbios do Devónico superior como Acanthostega e Ichthyostega. Recentemente foi descoberto mais um “fotograma” – o peixe Tiktaalik; este, apresenta um mosaico de características morfológicas antigas e modernas, no trajecto evolutivo para o aparecimento de verdadeiros autópodes.

Algumas curiosidades morfológicas destes “primos” afastados: Ichtyostega possuía sete dedos em cada pata; o Acanthostega, oito.
Desculpem mas não resisto a dizer: “vão-se as barbatanas mas fiquem os dedos!”.
Da próxima vez que um qualquer criacionista falar em falta de fósseis de transição nada como descrever estes belos nomes –
Eusthenopteron, Panderichthys, Acanthostega, Tiktaalik e Ichthyostega!

Um outro estudo, de 2006 e desta vez embriológico, levado a cabo em Barcelona, permitiu analisar o processo de formação e disposição de dois ossos do pé em embriões humanos – o calcâneo (osso que constitui o nosso calcanhar) e o astrágalo, ambos ossos do pé.
Foram descritas semelhanças morfológicas entre um embrião humano de 33 dias, nas extremidades inferiores, com barbatanas; aos 54 dias o calcâneo e o astrágalo estão localizados no mesmo preciso local que em Bauria cynops, um réptil mamaliforme que viveu há 260 milhões de anos. As semelhanças anatómicas de posicionamento às 8 semanas e meia dos ossos referidos são enormes entre o embrião humano e a espécie fóssil Diademodon, que viveu há 230 milhões de anos.
Os autores afirmam que, nesta fase, o posicionamento, e respectivas consequências ao nível da locomoção, dos ossos analisados estão a meio “caminho” entre répteis e mamíferos. Este tipo de análises incr
ementa o conhecimento morfológico efectuado por vários autores no séc. XIX, mesmo antes de Darwin publicar a sua obra magna, como Karl Ernst von Baer (1792-1876), que notou semelhanças morfológicas entre embriões de grupos diferentes.
Conta a “tradição”, que von Baer, trabalhava no seu gabinete, e encontrou dois frascos com embriões de aves e lagartos; sem rótulos, não os pôde distinguir à primeira vista…

Von Baer propôs que estádios embrionário iniciais conservavam padrões morfológicos comuns a vária espécies sendo os estádios mais avançados reveladores de divergência morfológica – as similitudes observadas entre embriões humanos e espécies do passado comprovam que anda bem que os frascos de von Baer deveriam ter os rótulos!
Resumindo: espécies que divergem morfologicamente em estádios mais iniciais irão ser morfologicamente mais distintas em estádios adultos.

Von Baer foi pioneiro nas propostas que fez ao nível do desenvolvimento embrionário sendo o seu trabalho basilar numa das áreas mais importantes das Biologia actual – a evolução e o desenvolvimento, Evo-Devo.
De tudo o que vimos só me resta afirmar que a as teorias evolutivas que explicam o nosso trajecto na história da Terra têm cada vez mais “pés para andar…!”
(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 31/5/2007)

BIBLIOGRAFIA
Carroll, R.L., Irwin J. & Green, D.M. 2005. Thermal physiology and the origin of terrestriality in vertebrates. Zool. J. Linn. Soc. 143: 345-358.

Carroll, S. B. 2005. Endless Forms Most Beautiful: The New Science of Evo Devo and the Making of the Animal Kingdom, W. W. Norton & Company.

Davis MC, Dahn RD, & Shubin NH (2007). An autopodial-like pattern of Hox expression in the fins of a basal actinopterygian fish. Nature, 447 (7143), 473-6 PMID: 17522683

Evo-Devo – http://www.pnas.org/cgi/content/full/97/9/4424

Goodwin, B. 1994. How the Leopard Changed its Spots, Phoenix Giants.

Isidro, A. & Vazquez, M.T. 2006. Phylogenetic and ontogenetic parallelisms on talo-calcaneal superposition. The Foot 16, 1-15.

FIGURAS
Carroll, R.L., Irwin J. & Green, D.M. 2005. Thermal physiology and the origin of terrestriality in vertebrates. Zool. J. Linn. Soc. 143: 345-358.

Clack, J. 2002. An early tetrapod from Romer’s Gap, Nature 418, 72 – 76.
Horder, T.J
. 2006. Gavin Rylands de Beer: how embryology foreshadowed the dilemmas of the genome. Nat Rev Genet. 7(11):892-8.

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