Decalcamentos

male.jpgNa investigação zoológica há, por vezes, trabalhos que remetem para o imaginário comportamental humano.
Outros ainda, parecem decalcados da história etológica do macho humano.
Ou n√£o.
“Male personality, life-history strategies and reproductive success in a promiscuous mammal”
Referência:
Journal of Evolutionary Biology. Volume 22 Issue 8, Pages 1599 – 1607
Imagem:
daqui

Subprime natural?

Porque não poderia haver o crash e respectivas consequências na Natureza?
Antes de mais seria conveniente explicar genericamente o que gerou esta crise financeira.

Do que a minha mente limitada em termos econ√≥micos entendeu, e aconselhado por um amigo economista (obrigado PE), o neg√≥cio banc√°rio assenta na confian√ßa que o cliente deposita (literalmente…) no seu banco.
E confiança em quê?
Para que quem recebe o dinheiro (depósitos, PPR, etc.) faça investimentos correctos e seguros de forma a gerar mais dinheiro para o depositante.
O que agora se sabe √© que muitos gestores banc√°rios iniciaram e perpetuaram verdadeiros neg√≥cios de banha-da-cobra: emprestaram dinheiro a quem n√£o o podia pagar em hipotecas de casas, casas essas que desvalorizaram tremendamente ap√≥s o “colapso” do mercado imobili√°rio norte-americano. Esses empr√©stimos “envenenados” foram vendidos a terceiros contaminando de forma global muitas outras institui√ß√Ķes banc√°rias.
Confuso?
Pois…veja o v√≠deo no final que pode ser que ajude, enquanto sorri com a comicidade da situa√ß√£o.
√Ä grandeza da festa vem juntar-se a descoberta da alma-do-neg√≥cio, o que leva √† desconfian√ßa de quem tinha comprado ac√ß√Ķes dos grandes bancos “chico-espertos”. Os investidores correm a vend√™-las massivamente, gerando ainda mais desconfian√ßa no mercado, numa espiral de histeria.

Um dos contra-exemplos naturais que me lembrei e que contraria esta falta de confiança humana foi o da partilha de alimentos.
Os morcegos-vampiro (Desmodus rotundus) partilham, por vezes, o seu quinhão sanguíneo com outros da mesma colónia mas que não se alimentaram durante a noite. Este facto é tanto mais significativo quanto estes mamíferos dificilmente sobrevivem a mais do que duas noites sem alimento.
A partilha de alimento com um membro da colónia não-familiar directo, ou seja, geneticamente afastado, enquadra-se no que os etólogos designam por altruísmo recíproco.
Mas o que ganha o generoso morcego ao partilhar o seu alimento com um companheiro menos afortunado e, ainda por cima, que não é seu parente directo?
Se o receptor do “capital” vermelho for aparentado com o doador o comportamento altru√≠sta pode ser compreendido pelo favorecimento dos pr√≥prios genes, uma vez que ambos os morcegos partilham um patrim√≥nio gen√©tico comum. Assim, esses genes teriam maiores probabilidades de singrar (ou sangrar?) no futuro.
Mas o altruísmo verifica-se mesmo entre morcegos geneticamente afastados, o que invalida aquela hipótese.
Então o que justifica tal altruísmo?

Um estudo de 1990 publicado por Gerald Wilkinson avaliou que o custo-benefício da transacção sanguinolenta entre morcegos-vampiros é mais favorável para o receptor do que prejudicial para o doador.
Na figura est√° ilustrada a “transac√ß√£o” entre o doador e o receptor. Quando o doador partilha o seu pec√ļlio, esta ac√ß√£o implica uma redu√ß√£o no tempo m√°ximo at√© se alimentar, ou seja, uma redu√ß√£o em 6 horas no per√≠odo at√© se alimentar de novo; em contrapartida, o receptor bafejado (ser√° melhor dizer regurgitado) pela sorte ganha 18 horas de tempo de vida.
Desta maneira, todos os membros da colónia que partilham aumentam as suas possibilidades de sobrevivência, uma vez que o dador de hoje poderá ser o receptor de amanhã, ganhando toda a colónia.
Tentando passar este caso para as sociedades humanas e, concretamente, para o que se passa no mercado de capitais… bem… esque√ßam!
Melhores tempos vir√£o.
Esperemos.
E n√£o voltem a ficar repugnados quando ouvirem falar de morcegos-vampiros…eu fico enojado com determinados gestores banc√°rios, mas cada um cuida de si…
Excepto
nos morcegos-vampiros.
Aí, todos cuidam e são cuidados por todos.

P.S. – fica aqui uma tabela de outras esp√©cies animais em que a troca de alimentos ocorre frequentemente, bem como as poss√≠veis interpreta√ß√Ķes biol√≥gicas.

Referências

Stevens, J.R. and Gilby, I.C. 2004. A conceptual framework for non-kin food sharing. Animal Behavior 67: 603-614
Wilkinson, G. S. 1984. Reciprocal food sharing in the vampire bat. Nature 308: 183.
Wilkinson, G. S. 1990. Food Sharing in Vampire Bats. Scientific American. February: 76-82.
Imagens
Casa dos Morcegos
Stevens and Gilby (2004)

Todos os nomes*

Nomear e classificar são actos intrinsecamente humanos. Chamamos as coisas pelos nomes para as discriminar, mas esse acto acrescenta algo mais do que a mera nomeação da coisa.
“N√£o me chames nomes!”, dizia-me um colega de escola para n√£o ser ofendido; “Isso n√£o se diz!”, corrigia a minha m√£e quando eu apelidava, com v√°rias inten√ß√Ķes, algu√©m de quem n√£o gostava.

A classificação dos seres vivos, quer actuais quer os do registo fóssil, obedece a regras precisas com o objectivo de não gerar equívocos e mal-entendidos na comunicação científica.
Utilizando v√°rias fontes online, todas baseadas na “b√≠blia” da nomenclatura dos animais – o ICZN (International Code of Zoological Nomenclature), dediquei algum tempo √† pesquisa de nomes inusitados com que alguns animais t√™m sido nomeados

N√£o poderia deixar de come√ßar com uma personagem f√≥ssil que tem estado ligada √† minha vida profissional – o Apatosaurus louisae. Este dinoss√°urio saur√≥pode americano foi dos primeiros a ser descoberto e montado numa exposi√ß√£o, nos finais do s√©c. XIX. O mecenas das escava√ß√Ķes e trabalho cient√≠fico, Andrew Carnegie, tinha como esposa a senhora Louise, sendo esta a musa inspiradora para o nome do grande animal.

Mas a homenagem dos paleont√≥logos n√£o se ficou pela patroa; tamb√©m o senhor Carnegie teve direito ao seu quinh√£o – Diplodocus carnegii – outro saur√≥pode, sendo assim apelidado para preservar o nome do chefe. N√£o morder a m√£o que nos alimenta e aben√ßoar o seu nome devia ser a moral da hist√≥ria…

Ainda no mundo dos dinossáurios de referir o Masiakasaurus knopfleri, um carnívoro descoberto em Madagáscar. A história do baptismo é conhecida mas foi-me contada na primeira pessoa por um dos autores, Catherine Foster.
Justificou-me ela que ouviam a m√ļsica dos Dire Straits, cujo vocalista √© Mark Knopfler, quando descobriram o s√°urio.
Espero estar ouvir Am√°lia da pr√≥xima vez que estiver a escavar, pensei eu na altura. E n√£o √© que existem pelo menos 13 animais com o nome “amalia”, entre aves, moluscos e insectos?

Outro dos ícones portugueses, o Pantera Negra, entra no nome científico de dois animais РLibellula eusebioi (uma libélula fóssil) e um ácaro das Filipinas, Dolicheremaeus eusebioi.

Passou o importuno Dia dos Namorados mas nada como relembrarmos o Bela eva, um gastrópode de Moçambique. Que nome bonito e adequado para a nossa cara-metade. Bem, a menos que ela seja uma malacologista Рestudiosa de gastrópodes e bivalves Рpois nesse caso não achará grande originalidade ao nosso piropo conjugal.
Mas podemos sempre atirar-lhe com Amoraster Рouriço-do-mar do Miocénico da Austrália. Quem feio escuta, bonito lhe parece, pelo menos nesta situação.

H√° 470 milh√Ķes de anos, quando fossilizou, o equinoderme primitivo Delgadocrinus oportovinum mal imaginava que teria o seu baptismo cient√≠fico associado ao produto agr√≠cola mais famoso de Portugal – o Vinho do Porto.
Pois foi isto que a equipa liderada por um paleont√≥logo da UTAD fez; a justifica√ß√£o para a designa√ß√£o da nova esp√©cie assenta na sua morfologia j√° que esta faz lembrar um c√°lice do n√©ctar duriense, sendo a primeira parte do nome uma “v√©nia” ao ge√≥logo Nery Delgado, respons√°vel pelas primeiras recolhas de material.
Se os paleont√≥logos puderem ter algum apoio do sector vin√≠cola, √© ouro sobre…um Porto de Honra!

” ****, seu **** “, s√£o nomes que n√£o posso repetir e que apelidam o senhor do apito que corre de cal√ß√Ķes, com outros senhores que pontapeiam uma bola; mas quando “joga” o Taedia benfica – insecto pertencente √† fam√≠lia Miridae e descrita por cientistas brasileiros, n√£o me parece que haja muitos protestos, salvo se estivermos para os lados das Antas ou Alvalade.
O prémio para nome contraditório poderia perfeitamente ser atribuído à Boa canina Рum réptil da ordem Serpentes; esta besta, que mata por estrangulamento, de boa não tem nada, pelo menos para as suas vítimas; e de canino, talvez apenas a fidelidade ao seus instintos.

J√° o Turanogryllus mau – um grilo africano – pode invocar que tem a reputa√ß√£o manchada pelo nome cient√≠fico que lhe calhou na rifa…
O mundo da Internet j√° serviu igualmente de inspira√ß√£o ao “neg√≥cio” de alcunhar animais.
A Proceratium google é uma formiga de Madagáscar, descrita em 2005 e, justificam os investigadores, tem a particularidade de saber procurar muito bem as suas presas, tal como o seu homónimo informático.
A lista de nomes é imensa, mas finalizo com Libellago finalis Рuma libelinha.
Assim, acho que ainda tenho tempo para agarrar La cerveza – uma tr
aça norte-americana.

*Uma sincera homenagem à obra homónima de José Saramago.

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 15/2/2007)

Imagens
Luis Azevedo Rodrigues – duas primeiras
Amoraster paucituberculata – McNamara, K. J. & Ah Yee, C. 1989. A new genus of brissid echinoid from the Miocene of Australia. Geological Magazine 126.
Proceratium google – Brian Fisher

A REVISTA DO ANIMAL MODERNO

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 13/12/2007)
Devido a in√ļmeras manh√£s passadas a folhear e fatigado pelas revistas de fim-de-semana dos jornais portugueses, ocorreu-me lan√ßar o n√ļmero 0 de uma publica√ß√£o exclusivamente dedicada ao “Animal Moderno”.
Com sec√ß√Ķes similares a tantas outras revistas absolutamente para “encher-chouri√ßos”, a “Revista do Animal Moderno” contar√° no seu n√ļmero de estreia com os seguintes artigos:

EVAS√ēES
РMigrar Рprós e contras das viagens Рo outro lado de viajar em bando.
– Como evitar os engarrafamentos do Serengeti.

COMPORTAMENTO/VIDA AMOROSA
Albatroz – manter viva a chama ao fim de mais de 20 anos a amar o mesmo bico.
Ame o mesmo, viva mais tempo.
Na ordem Procellariiformes a que pertence o albatroz, foi identificada uma relação entre longevidade e fidelidade masculina.
Esta ordem de aves é a que apresenta maior longevidade. Em aves de grande longevidade, a fidelidade masculina aumenta com a idade provavelmente devido ao facto que a aparência se degrada com a idade sendo sendo, assim, mais difícil conseguir uma nova parceira.
Esp√©cies de aves com baixas longevidades apresentam valores de fidelidade masculina mais baixas pois a percentagem de “vi√ļvos” √© alta. Esses indiv√≠duos t√™m grandes possibilidades de voltar a acasalar.

Entrevista a António, Lobo Ibérico (Canis lupus signatus) Рcomo não perder a posição Alfa de liderança na sua matilha.

TENDÊNCIAS DE MODA/VAIDADES
Pelagem para este Inverno – o branco fica sempre bem…
Mudas de pele em répteis Рcomo e quando fazer
Entrevista ao pav√£o

DECORAÇÃO
Ideias para tocas esconsas ou como optimizar o espaço do seu covil diminuto.
Etapas na escolha do seu primeiro ninho.
Gangues de jovens machos Рetapas até ter o seu primeiro harém. Um olhar sobre a difícil etapa da passagem à vida adulta.

SA√öDE
Regeneração de membros Рmaravilhas de anfíbios, esperança para mamíferos.

GADGETS
Ecolocaliza√ß√£o, as √ļltimas vers√Ķes – test√°mos o morcego e o golfinho.

GOURMET/RECEITAS
Necrófagos Рmais slow-food que isto é impossível.
Carnívoros Рadicione vegetais às suas presas e obtenha uma vida mais saudável.

Imagens – links nas mesmas.

O Pl√°gio, o Bacalhau e a R√£

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 18/01/2007)
O pl√°gio humano pode ser uma homenagem. Pode ser um reconhecimento. Pode ser agradecimento p√ļblico. Pode ser feito √†s claras.
Mas não é nada disso.
√Č antes uma forma de usurpa√ß√£o do trabalho alheio. Um conceder de auto-indulg√™ncia √† mediocridade e ao deixa-andar. Um permanecer no contentamento da pasmaceira intelectual.
O acelerar da tristeza da mediania.
O caso de aparente pl√°gio, e digo aparente porque ningu√©m, √† excep√ß√£o do Provedor do P√ļblico o categorizou assim, muito menos o Sindicato dos Jornalistas, levado a cabo pela jornalista Clara Barata, despertou em mim o desejo de procurar exemplos naturais que estivessem relacionados com pl√°gio.
No artigo que escrevi nestas p√°ginas h√° uns meses e intitulado Falsifica√ß√Ķes Naturais¬†referi alguns exemplos de c√≥pias e imita√ß√Ķes levadas a cabo na Natureza.
Nele referi casos de Evolu√ß√£o Convergente como, por exemplo, os membros anteriores das aves, dos morcegos e dos pterossauros (r√©pteis voadores, parentes e contempor√Ęneos dos dinossauros).

g-morhua.jpgUm dos casos de evolução convergente que agora quero referir compreende proteínas que evitam o congelamento em águas muito frias.
Este tipo particular de glicoprote√≠nas anticongelantes – AFGPs – permite aos peixes sobreviver em √°guas com temperaturas t√£o baixas quanto -1,9¬ļ C (a concentra√ß√£o de sal na √°gua do mar baixa o ponto de congela√ß√£o da mesma…).
Existem diferentes tipos de AFGPs que evitam o congelamento a diversos seres vivos Рpeixes, insectos e plantas Рe em 1997 foi publicado no PNAS o caso de dois grupos de peixes filogenética (não-aparentados) e geograficamente distantes que possuem o mesmo tipo de anticongelante.
Este caso de evolu√ß√£o convergente tem como um dos protagonistas o denominado bacalhau do √Ārctico – Boreogadus saida (parente do bacalhau do Atl√Ęntico, Gadus morhua). O outro actor desta hist√≥ria de pl√°gio natural habita o lado oposto do planeta – a Ant√°rtida – e d√° pelo nome de Dissostichus mawsoni.
O mais interessante da referida publica√ß√£o cient√≠fica √© o facto destes dois peixes – o do p√≥lo norte e o do p√≥lo sul, se assim os podemos chamar – terem desenvolvido o mesmo tipo de prote√≠na anticongelante apesar de estarem separados quer ao n√≠vel da proximidade f√≠sica quer “familiar”.
Outro facto curioso √© de estes investigadores terem conclu√≠do que a mesma AFGP se originou por um percurso gen√©tico diferente nos distintos grupos bem como em momentos diferentes do passado. No caso do Dissostichus mawsoni do continente gelado do sul entre os 7 e os 15 milh√Ķes de anos; no caso do bacalhau do √Ārctico foi mais recente, h√° “apenas” 2 milh√Ķes de anos. Grupos e locais distintos utilizam as mesmas “armas”!

2123418706_c48a118323_o.jpgA r√£ do g√©nero Dendrobates pode ser uma verdadeira engenheira qu√≠mica. Esta variedade habita a Am√©rica do Sul e Am√©rica Central possuindo pele venenosa. Esta toxicidade cut√Ęnea tem fundamentalmente dois objectivos: repelir microrganismos que possam atacar a sua pele h√ļmida e, por outro lado, defender-se dos ataques de predadores.
A mat√©ria-prima para esta guerra qu√≠mica prov√©m da ingest√£o que as r√£s fazem quer de formigas, quer de artr√≥podes. O que investigadores descobriram √© que os alcal√≥ides -subst√Ęncias qu√≠micas t√≥xicas- n√£o se apresentam na mesma forma em que foram ingeridas. No PNAS de Setembro de 2003, os investigadores relatam que a r√£ n√£o s√≥ √© capaz de ingerir os t√≥xicos como ainda os aperfei√ßoa – at√© cinco vezes mais potentes!
A “maquinaria” celular – enzimas – destas r√£s √© verdadeiramente not√°vel uma vez que n√£o se limita a fazer “cortar e colar” dos venenos das formigas; melhoram-nos e aprimoram-nos!
Este caso não é plágio do mundo natural e deve servir-nos de referência- aproveitar o que há de bom, modificá-lo e produzir algo de novo.

O aparente sil√™ncio a que a maioria da comunica√ß√£o social remeteu o referido aparente pl√°gio s√≥ me leva a concordar com Clara Ferreira Alves, que na √ļltima edi√ß√£o da revista √önica do Expresso, escrevia “No mundo dos patroc√≠nios e da subordina√ß√£o ao economicismo, o jornalismo foi-se diluindo em formas que renegam e abandonam esse corpo de princ√≠pios e preceitos que fez o apogeu do jornalismo como quarto poder, e que determinar√° a sua queda e ascens√£o tecnol√≥gica dos “media” concorrentes.”
Esperemos que n√£o.
Que a Wikipedia e outras formas de massificação da informação nos dias que correm sirvam para que aproveitemos o melhor, o transformemos e criemos algo de verdadeiramente original.

Nota РPNAS refere-se à publicação científica americana Proceedings of the National Academy of Sciences.

Imagens: identificada na primeira e a segunda daqui

Museus de História Natural РDodós modernos?

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 12/10/2006)

O drama biológico do Dodó é sobejamente conhecido Рave originária das ilhas Maurícias e parente dos actuais pombos, não voava e não tinha qualquer receio da espécie humana.
Estes dois factos terão estado na origem da sua extinção no séc. XVII.

O Dod√≥ extinguiu-se porque n√£o foi capaz de se adaptar √†s altera√ß√Ķes introduzidas no seu habitat pela press√£o de um factor externo – a actividade humana.
N√£o tenho a certeza da validade da met√°fora do Dod√≥ para os Museus de Hist√≥ria Natural mas, tal como o primeiro, estes √ļltimos encontram-se, a n√≠vel mundial, a atravessar um momento de forte press√£o “ambiental”.

Durante a minha escola primária tive duas ou três visitas ao Museu Zoológico da Universidade de Coimbra.

Foram momentos de pura felicidade em que nos deslumbrámos com numerosas espécies empalhadas, só o esqueleto ou conservadas dentro de frascos.
Foi o meu primeiro contacto com parte daquilo que se entende por um Museu de História Natural (MHN).
Este conceito emanou do de Gabinete de Curiosidades (s√©c. XVI) em que os profissionais das ci√™ncias biol√≥gicas acumulavam exemplares biol√≥gicos (esqueletos, conchas, peles, flores, etc.) de “fora” com o objectivo n√£o s√≥ de os preservarem mas igualmente de os utilizarem como materiais de estudo para os seus alunos. Isto ocorreu numa √©poca em que os cientistas naturais come√ßavam verdadeiramente a construir o seu campo de investiga√ß√£o.
Posteriormente e com o apogeu dos Exploradores Naturalistas no s√©culo XIX – exemplo paradigm√°tico √© o de Darwin – as colec√ß√Ķes dos MHN s√£o ampliadas com esp√≥lio proveniente de diversas partes do mundo, “servindo” n√£o s√≥ a ci√™ncia como igualmente a curiosidade do habitantes das metr√≥poles relativamente a tudo aquilo que vinha das col√≥nias.

FUN√á√ēES DE UM MHN

INVESTIGA√á√ÉO/COLEC√á√ēES

√Č fundamental que qualquer MHN tenha uma pol√≠tica de estudo das suas colec√ß√Ķes bem como profissionais especializados (bi√≥logos, paleont√≥logos, antrop√≥logos) nos seus quadros capazes da organiza√ß√£o, cataloga√ß√£o, inventaria√ß√£o e estudo do esp√≥lio natural.
O estudo das colec√ß√Ķes por parte de investigadores deve ser uma das principais linhas de orienta√ß√£o de qualquer MHN.
Prova desta import√Ęncia √© o Programa Synthesys, suportado pela Uni√£o Europeia e que possibilita a mobilidade de investigadores de diversas √°reas (gen√©tica, zoologia, paleontologia, antropologia, etc.) a diversos MHN europeus. Desta forma se pode estudar o Patrim√≥nio Natural europeu, permitindo um conhecimento cada vez mais amplo da Hist√≥ria Natural.
Segundo Keith S. Thomson, director do Museu Universit√°rio de Oxford, as colec√ß√Ķes de um MHN devem ter tr√™s objectivos principais:
Informa√ß√£o – as colec√ß√Ķes devem constituir uma enorme biblioteca dos seres vivos que j√° habitaram e habitam o nosso planeta. Por exemplo um investigador em farmacologia deve poder localizar os “parentes” de determinada planta que tenha um efeito medicinal; um bi√≥logo molecular poder√° encontrar o ADN de uma esp√©cie extinta e compreender melhor a evolu√ß√£o do patrim√≥nio gen√©tico desse ser vivo; um agr√≥nomo poder√° estudar determinado insecto ou planta resistente a uma doen√ßa para uma poss√≠vel cura;
Desta forma o Patrim√≥nio Natural, passado e presente, que s√£o as colec√ß√Ķes de um MHN constitui a base da investiga√ß√£o em √°reas cient√≠ficas fundamentais tais como: evolu√ß√£o, ecologia, altera√ß√Ķes clim√°ticas, biogeografia, etologia e, se incluirmos as ci√™ncias humanas, aspectos culturais humanos.
Identifica√ß√£o – todo o objecto de uma colec√ß√£o de um MHN deve estar correctamente identificado e catalogado e, consequentemente, enquadrado quer temporal quer espacialmente – onde, como, quando e por quem foi colhido, s√£o informa√ß√Ķes absolutamente fundamentais. Sem estas informa√ß√Ķes bem como a posterior descri√ß√£o e enquadramento taxon√≥mico, o exemplar fica desenquadrado e praticamente sem valor cient√≠fico embora possa ser utilizado para fins de divulga√ß√£o/exibi√ß√£o. Para al√©m do referido √© necess√°rio a actualiza√ß√£o do enquadramento da classifica√ß√£o.
Compara√ß√£o – para al√©m de todos os exemplares, alguns colectados h√° mais de 200 anos, actualmente tamb√©m se “arquivam” amostras de ADN e tecidos biol√≥gicos. Por interm√©dio do estudo comparativo, os investigadores analisam exemplares de diversos pontos geogr√°ficos e de v√°rias idades, n√£o s√≥ em busca de padr√Ķes de fen√≥menos naturais como tamb√©m identificar as suas causas e prever o seu curso futuro.
No meu caso pessoal, permite-me estudar e digitalizar os restos fossilizados dos dinossáurios saurópodes, sejam espécies sul-americanas, asiáticas ou africanas, com vista à compreensão da evolução daquele grupo de animais extintos.
Como se pode compreender os MHN têm um papel fundamental não só na protecção da Biodiversidade como da sua compreensão, quer a passada quer a presente, com vista a um melhor futuro ambiental.

DIVULGAÇÃO/EDUCAÇÃO

Para al√©m das fun√ß√Ķes de investiga√ß√£o e preserva√ß√£o do Patrim√≥nio Natural, um MHN deve constituir um espa√ßo acess√≠vel de educa√ß√£o cient√≠fica em diversos campos e a diversos n√≠veis. Protec√ß√£o do Patrim√≥nio Natural, Educa√ß√£o Ambiental e Educa√ß√£o para a Cidadania s√£o √°reas em a interven√ß√£o destes espa√ßos museol√≥gicos deve ocorrer.
Apesar de todo o potencial atractivo de que gozam e sempre gozaram os MHN, tamb√©m enfrentam hoje em dia uma s√©rie de desafios que passam pelos “inimigos” de muitas √°reas: a Televis√£o, a Internet, entre outros.

Hoje em dia podemos observar quase tudo e de uma variedade enorme de maneiras. Os MHN t√™m assim que ter a capacidade de reagir √†s exig√™ncias dos novos p√ļblicos, cada vez mais informados e exigentes. Estes p√ļblicos procuram saber mais do que o nome e a proveni√™ncia quando visitam uma exposi√ß√£o de hist√≥ria natural – procuram saber qual o papel daquele actor natural no seu ambiente natural; qual o papel que essa entidade natural tem ou teve na vida actual do visitante. Este conjunto de informa√ß√Ķes deve tamb√©m procurar evitar um dos perigos comuns – o do esp√≠rito parque tem√°tico como a Disneyl√Ęndia.
Cada vez mais na base na base de uma exposi√ß√£o de hist√≥ria natural devem estar ideias e temas actuais, mais do que as colec√ß√Ķes.
Estas devem servir antes para contar uma história do que serem elas próprias a história.

Os MHN têm, assim, que se adaptar a novas realidades para que não sejam eles próprios novos Dodós.
Tenho trabalhado e feito investigação em diversos Museus de História Natural mundiais Рde Nova Iorque a Marraquexe, de Berlim a Trelew na profunda Patagónia.
Encontrei condi√ß√Ķes de trabalho muito diferentes; profissionais melhor preparados que outros; espa√ßos f√≠sicos maiores ou mais pequenos; de estilo cl√°ssico ou do mais puro vanguardismo arquitect√≥nico.
Mas em todos eles se procura preservar, compreender e divulgar o Património Natural nas suas diversas vertentes para que um dia saibamos não
só o que foi um Dodó mas também porque não podemos observar um hoje em dia.

Imagem daqui

Referências
Keith S. Thomson. Natural History Museum Collections in the 21st Century. – daqui