Faça a Legenda

…nos coment√°rios.
waiting.jpg
Imagem – David J. Nightingale

Escuva terras, ou o drama de se chamar toupeira

toupeira1.jpgNa terra do meu pai havia vários montes que sempre me intrigaram. Quando digo na terra, é mesmo na terra, essa que se lavra e suja os pés.
A outra, o sítio onde se cresce ou apenas se nasce, não importa para a história, apenas que era vizinha da de Aquilino.
Os montes de terra apareciam sem eu perceber como nem porquê. Surgiam nos lameiros, terrenos junto a cursos água, bons para erva fresca e sestas olhando vacas pastar.
Nos lameiros, aqui e ali, o verde era manchado de castanho, quais pintas em cara sardenta. O caos de cores alterava-me a ordem que tentava p√īr em tudo: o lameiro era verde, ladeado pelo ribeiro, escuro pela sombra das √°rvores que a√≠ se encostavam e, do outro lado, um outro verde, rasteiro, de um batatal.
E depois os montes castanhos.
Essas constru√ß√Ķes desordenadas, pequenos altos de terra, moeram-me o ju√≠zo durante os ver√Ķes que passava nas Terras do Demo.
Um dos dias de Agosto, em brincadeiras com o Luciano, perguntei-lhe que raio era aquilo feito de terra, no meio dos lameiros.
“Escuva terras”, largou-me ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Ah…que era terra j√° eu sabia…”, avancei, tentando ver se o outro se explicava melhor.
“S√£o uns ratos danados, esses bichos. Sempre a fu√ßar, a fu√ßar na terra. Depois d√° nisto.”
“A maneira de dar cabo deles √© cortar um bocado de pl√°stico, enterr√°-lo nesses montes com o gargalo para cima que o assobio do vento na garrafa d√° logo cabo deles!”.
Toma e embrulha, faltou-lhe dizer.
Toupeiras.
E n√£o deviam gostar que lhes assobiassem nas varandas, pensei eu.
Esta história foi assim mesmo, na sua maioria, e já lá vão mais de 30 anos.
Não tenho a certeza se seriam toupeiras europeias (Talpa europaea) as escuva terras que partilhavam o lameiro do meu pai, mas é bem provável.
toupeira.jpg
As toupeiras s√£o mam√≠feros que pertencem √† ordem Talpidae sendo mais facilmente observ√°veis as suas constru√ß√Ķes do que elas pr√≥prias. Vivem a maioria da sua vida debaixo do solo, escavando e construindo t√ļneis de forma solit√°ria, e defendendo agressivamente o seu territ√≥rio √† excep√ß√£o da √©poca de acasalamento. Nessa altura, os machos tentam literalmente interceptar os t√ļneis constru√≠dos pelas f√™meas, iniciando-se ent√£o o acasalamento.
As patas anteriores, com grandes garras, permitem-lhes o seu modo de vida subterr√Ęneo, alimentando-se sobretudo de insectos ou minhocas, o seu manjar predilecto.
A anatomia especial deste animal, nomeadamente a capacidade de articula√ß√£o do √ļmero e o grande desenvolvimento muscular nesta zona, associado √†s enormes garras e um osso semelhante a um polegar, colocam este animal entre os grandes construtores zool√≥gicos. A maioria da for√ßa das patas anteriores √© exercida a partir do antebra√ßo, r√°dio e c√ļbito, sendo tamb√©m necess√°ria a colabora√ß√£o das patas posteriores para empurrarem a terra que vai sendo escavada.
As constru√ß√Ķes das toupeiras garantem-lhes alguma inimizade por parte dos agricultores que se esquecem que os t√ļneis constru√≠dos pelas toupeiras aumentam n√£o s√≥ o arejamento dos terrenos, como contribuem para uma melhor fertiliza√ß√£o dos mesmos.
A capacidade física destes animais é extraordinária, tendo sido observado uma toupeira, com cerca de 80 gramas, construir quatro montes de terra com cerca de 15 quilos em apenas 90 minutos. Se fizéssemos a comparação para a nossa espécie, seria o equivalente a um ser humano de 70 quilos escavar 10000 quilos numa hora.
N√£o consigo deixar de imaginar estas bichezas a trabalharem para o Metro de Lisboa…
Imagens:
ARKive – http://www.arkive.org
Hall, B. K. (ed). 2007. Fins into Limbs: Evolution, Development, and Transformation. Chicago: University of Chicago Press, 433 pp.

Vídeo РARKive

Esta é Nossa

O pouco que se fez muito no meu sentir Portugal aconteceu quinta-feira.
Num mundo de homens-cópia* e países-clone, na quinta fomos diferentes.
Celebrámos um homem que não era cotado em Londres ou Tóquio, que não tinha valor em Nova Iorque.
Era rico em coisa nenhuma, vendia o que não dá lucro, esbanjava tempo, em tempos de crédito mal-parado.
Era homem num mundo de ratices.
Dizia adeus de braços abertos, sem nada em troca.
H√° tempos assim.
Tempos em que sinto gana de não ser de outro lado que de um país que acena a quem passa.
País que tinha um bom louco que acenava.
D√°-nos p√£o?
Se calhar, mas p√£o para um alma desgastada.
H√° maior poesia que esta?
H√°.
Mas esta é nossa.

O Adeus, ao Sr. do ADEUS from Jo√£o Nunes on Vimeo.

P.S. – para os meus queridos leitores do Brasil em baixo poder√£o perceber sobre quem falo no texto:
Aqui, aqui e aqui
* Рpalavra de José Manuel dos Santos, um dos melhores cronistas portugueses.

A Imortalidade de Um Saco Pl√°stico

Sobre o vórtice do pacífico.
Sobre os dramas existenciais.
Sobre a morte e a necessidade de sermos desejados.
Sobre nós.
Tudo a partir da imortalidade de um saco pl√°stico.
P.S. Рuma lição de conservação planetária, bem melhor que lamechices à Al Gore.

Fonte – “Future States”
Inspira√ß√£o – Micaela Sousa, “a place to be”