At√© quando aguentar estar sem trabalhar…ou seja em breve!

“Monstros Marinhos” e rigor cient√≠fico

“N√£o perca esta oportunidade de conhecer r√©pteis marinhos ancestrais e as mais recentes teorias sobre as causas que ter√£o provocado a sua extin√ß√£o!
A exposição está dividida em quatro cenários distintos que apresentam a Terra, em
termos geol√≥gicos, enquanto planeta em constante mudan√ßa e os seus mecanismos de evolu√ß√£o.”

Decidi efectuar esta an√°lise a esta exposi√ß√£o ap√≥s uma visita informal durante a qual constatei variados erros/omiss√Ķes/incorrec√ß√Ķes cient√≠ficas.
A an√°lise e revis√£o feitas est√£o sistematizadas em seguida.
A exposição é constituída por diversos painéis com breve descrição de criaturas marinhas Рa maioria extinta Рde grande tamanho: o principal critério unificador.
Não existem fósseis ou réplicas dos exemplares apresentados, apesar de estes serem, na sua maioria, unicamente conhecidos pelo registo fóssil.
Uma das ideias mais promissoras e com “valor de mercado” √© a intitulada Cultura Pop – Percep√ß√Ķes Culturais e a sua rela√ß√£o com conceitos cient√≠ficos, neste caso num contexto de criaturas marinhas.
Este conceito, apesar de promissor, não foi suficientemente aproveitado, sendo a sua abordagem limitada a um painel em que é referida, introdutoriamente, a influência daquelas criaturas no imaginário colectivo.
De real√ßar a excelente qualidade gr√°fica das ilustra√ß√Ķes, sempre com escala humana, que muito contribuem para o aspecto geral, agrad√°vel e apelativo.

Revisão/Análise científica

Descrevo seguidamente, de forma que n√£o pretende ser exaustiva, algumas das v√°rias incorrec√ß√Ķes/omiss√Ķes/falhas cient√≠ficas detectadas, documentadas por fotos.
Crit√©rios pouco uniformes na designa√ß√£o cient√≠fica dos exemplares, por exemplo: nomes de grupos gen√©ricos (“Notossauro”, “Ictiossauro”) misturados com esp√©cies, uma vezes identificadas (Thalassomedon haningtoni) outras vezes n√£o, apenas pelo g√©nero (Dakosaurus, Henodus, Platypterigius).
– Na parte final (em termos do movimento do p√ļblico) √© apresentada num painel representativo, de forma resumida e cronol√≥gica, a hist√≥ria, quer geol√≥gica, quer biol√≥gica, da Terra. Este painel poderia explorar os intervalos temporais relativos de cada uma das fases da Hist√≥ria da Terra, ou seja, cada um dos sub-pain√©is poderia ter um tamanho proporcional √† sua amplitude temporal.
РEstando os períodos temporalmente mais próximos do presente antropomorficamente sobreavaliados, poderia ter-se feito um destaque, com painel isolado, revelando pormenores biológicos/geológicos destes períodos.
“primeiros tetrap√≥dios” – deveria ser primeiros tetr√°podes ou Tetrapoda
“Pangea” e “Pangeia” – utilizados de forma n√£o coerente: deveria ter-se utilizado Pangeia.
РThalassomedon haningtoni, assim designada em inglês, surge como Thalassomedon hanington em português, o que dá a sensação de que o nome da espécie se altera do português para inglês.
“Plioceno” em vez de Plioc√©nico – todas as refer√™ncias deveriam ser Plioc√©nico (per√≠odo geol√≥gico entre os 5.3 e 1.8 milh√Ķes de anos).
“Paleoceno” em vez de Paleoc√©nico – todas as refer√™ncias deveriam ser Paleoc√©nico (per√≠odo geol√≥gico entre os 65 e 55 milh√Ķes de anos).
“Tri√°ssico” em vez de Tri√°sico – todas as refer√™ncias deveriam ser Tri√°sico (per√≠odo geol√≥gico entre os 251 e 200 milh√Ķes de anos).
“Carbon√≠fero” em vez de Carb√≥nico – todas as refer√™ncias deveriam ser Carb√≥nico (per√≠odo geol√≥gico entre os 359 e 299 milh√Ķes de anos).
Dunkleosteus, mencionado como primeiro animal com reprodução sexuada e com comportamento canibal.
Em rela√ß√£o ao facto de ser canibal, faltaria acrescentar a informa√ß√£o de que este comportamento foi inferido a partir de marcas de mand√≠bulas encontradas num cr√Ęneo de Dunkleosteus. Uma vez que este animal seria o maior predador da √©poca, os paleont√≥logos deduziram que s√≥ outro elemento daquela esp√©cie poderia ter infligido tal marca – faltaria adicionar, de forma breve, esta infer√™ncia paleontol√≥gica.
No que diz respeito à afirmação de que seria o primeiro animal com reprodução sexuada, qualquer pessoa com um mínimo de formação biológica sabe que esta afirmação carece de qualquer sentido. Quereriam os autores referir-se a primeiros animais com dimorfismo sexual?
Uma das ilustra√ß√Ķes Dunkleosteus tem como texto de suporte “…comia tudo o que via.” Esta afirma√ß√£o, apesar de talvez apelativa, parece-me exagerada do ponto de vista biol√≥gico, podendo cair facilmente na especula√ß√£o n√£o-cient√≠fica.
Eric leptocleidus– esta esp√©cie n√£o existe, tendo sido confundido o nome informal “Eric” dado a um exemplar do g√©nero Leptocleidus, descoberto na Austr√°lia.

“Per√≠odo C√Ęmbrico”
“…maioritariamente organismos marinhos” – toda a vida existente neste per√≠odo da Terra era exclusivamente marinha, uma vez que a “invas√£o” terrestre s√≥ aconteceu muito mais tarde.
– A frase, geradora de confus√£o, √© contradita pelo cartaz “Ordov√≠cico”, onde se afirma “vida apenas nos mares…” (ver coment√°rios a esta afirma√ß√£o em “Per√≠odo Ordov√≠cico”)
“Trilobites – f√≥sseis indicadores” – √© verdade, mas falta referir de que √© que s√£o indicadores – de idade geol√≥gica, de ambiente ou de que outro tipo de informa√ß√£o.
“Myllokunmingia” – faltaria acrescentar o nome completo (Myllokunmingia fengjiaoa, a sua idade (530 milh√Ķes de anos) e a proveni√™ncia (China, prov√≠ncia de Kunming)

“Per√≠odo Ordov√≠cico”
“…come√ßa com clima n√£o muito intenso e alta humidade” – a aparente falta de sentido desta frase somente pode ser justificada pela m√° tradu√ß√£o de “milder” para “n√£o muito intenso”.
“vida apenas nos mares com, inicialmente, n√≠veis muito altos” – n√≠veis muito altos de qu√™?
– √Č representada uma trilobite designada por “Trilobite Gigante”, enquanto um escorpi√£o-marinho j√° √© apresentado como Megalograptus – faltaria a designa√ß√£o cient√≠fica desta esp√©cie.

“Per√≠odo Tri√°sico”
“…anf√≠bios labirint√≥ides” – os anf√≠bios pertencentes ao grupo Labyrinthodontia t√™m como designa√ß√£o em portugu√™s Labirintodontes. Para al√©m disto, √© referido que este grupo de anf√≠bios se extingue no final do Tri√°sico: esta afirma√ß√£o √© incorrecta, uma vez que se conhece pelo menos uma esp√©cie deste grupo – o Koolasuchus cleelandi, do Cret√°cico inferior da Austr√°lia, prolongando-se, assim, o registo paleontol√≥gico dos Labirintodontes (cerca de 55 milh√Ķes de anos mais tarde do que referido).
“dinossauros dominam depois da extin√ß√£o” – at√© ao final do Tri√°sico, as faunas dominantes eram outros grupos, que n√£o os dinossauros – por exemplo, os grupos Rhynchosauria, r√©pteis herb√≠voros, os Aetosauria, tamb√©m herb√≠voros, e os carn√≠voros Phytosauria, entre outra fauna.
– traduziu-se “ferns” por abetos, quando deveria ser fetos.
– √© referido, no painel deste per√≠odo, que teria surgido o primeiro tubar√£o, quando o primeiro representante conhecido do grupo dos tubar√Ķes, Doliodus problematicus, data do Dev√≥nico inferior (cerca de 200 milh√Ķes de anos mais cedo do que referido).

Conclus√£o
Esta exposi√ß√£o tem como ponto mais positivo apresentar o tema (raramente abordado no contexto de exposi√ß√Ķes em Portugal) do registo de vertebrados marinhos mesoz√≥icos – leia-se fauna contempor√Ęnea dos dinoss√°urios mas mas n√£o pertencendo a este grupo.
O ponto mais negativo é a deficiente revisão científica e tradução dos texto dos painéis.
Se se tivesse tido o mesmo cuidado na apresenta√ß√£o e descri√ß√£o das esp√©cies passadas como o que o Ocean√°rio tem nas esp√©cies presentes, esta exposi√ß√£o poderia constituir um marco id√™ntico aos das exposi√ß√Ķes que esta institui√ß√£o tem levado a cabo no passado.
Faltou-lhe mais forma√ß√£o paleontol√≥gica…

P.S.- o Ocean√°rio de Lisboa inaugurou, no passado dia 15 de Junho de 2007, a exposi√ß√£o “Monstros Marinhos”; este texto foi enviado ao Ocean√°rio de Lisboa, a 10 de Julho de 2007, n√£o tendo tido eu, at√© ao momento, qualquer resposta.

Imagens – links nas imagens

V√£o-se as malas mas ficam as sopas!

Tratamentos diferentes a membros de Archosauria

“BEIJING (Reuters) Chinese police have saved 270 crocodiles from ending up as shoes or handbags after tracking a suspicious boat on a border river, Xinhua news agency said on Monday.”

“HOUSTON (Reuters) Texas turtles ending up in China soup pots”

N√£o foi falta de compar√™ncia…foi KO!

Ao contr√°rio do que se pensava os dinossauros n√£o dominaram todo o Mesoz√≥ico (251-65 milh√Ķes de anos).
Os vertebrados terrestres dominantes eram outros.
Até ao final do Triásico, algumas das faunas dominantes eram, por exemplo, os grupos Rhynchosauria, répteis herbívoros, os Aetosauria (1, 2), também herbívoros, e os carnívoros Phytosauria.

Entre os representes mais antigos do clado Dinosauria contam-se o Herrerasaurus ischigualastensis e o Eoraptor lunensis, ambos procedentes de jazidas da Formação Ischigualasto do Triásico superior Argentina.
Para além das análises filogenéticas que proporcionaram formular, permitindo perceber o enquadramento dos vários elementos basais de Dinosauria, aquelas duas espécies revelaram igualmente pormenores anatómicos que permitem compreender a evolução locomotora do grupo*.

A transição entre as faunas de não-dinossáurios para um domínio faunístco de dinossáurios, ao nível de diversidade e ocupação de ecossistemas, deu-se, segundo a revista Science, de forma diferente e menos rápida do que se supunha**.

O grupo de paleont√≥logos que apresentou estes resultados prop√īs que essa substitui√ß√£o faun√≠stica, ao n√≠vel de vertebrados terrestres, ter-se-√† dado n√£o s√≥ mais lentamente mas tamb√©m de forma distinta em v√°rios locais do planeta.
Os vertebrados terrestres dominantes, pensava-se, teriam entrado em declínio, permitindo assim que os secundários dinossauros ocupassem os nichos ecológicos abandonados.
Mas o que prop√Ķem os paleont√≥logos √© que ambas as faunas – dominantes e dinossauros – coexistiram durante um per√≠odo grande de tempo – 15 a 20 milh√Ķes de anos.
O que se verificou , por outras palavras, foi uma vitória por KO (adaptativamente os dinossauros foram melhores) e não uma vitória por falta de comparência (as faunas até aí dominantes coexistiram com os dinossauros e não se extinguiram previamente ao aparecimento daqueles).

* – Ao contr√°rio do que sucedeu com os mam√≠feros, cujos elementos conhecidos (alguns exemplos 1, 2 , 3) mais primitivos eram todos quadr√ļpedes, a locomo√ß√£o original nos dinossauros era a locomo√ß√£o b√≠pede.
**- A associação faunístca estudada e que permitiu estes resultados foi a da Formação Chinle do Triásico superior do Novo México, nos EUA.

Referências:

Langer, M.C., Benton, M.J. 2006. Early dinosaurs: a phylogenetic study.Journal of Systematic Palaeontology 4 (4): 309‚Äď358

Sereno, P. 2007. The phylogenetic relationships of early dinosaurs: a comparative report. Historical Biology, 2007; 19(1): 145‚Äď155

Randall B. Irmis, Sterling J. Nesbitt, Kevin Padian, Nathan D. Smith, Alan H. Turner, Daniel Woody, Alex Downs. A Late Triassic Dinosauromorph Assemblage from New Mexico and the Rise of Dinosaurs. Science 20 July 2007: Vol. 317. no. 5836, pp. 358 – 361
DOI: 10.1126/science.1143325

Imagens Рcapa da revista Science de 20 de Julho de 2007; ©Carlos Papolio 2006

Cada vez mais altriciais…*

Antes, ia aos correios, com 6 ou 7 anos, pagar as contas ou levantar uma encomenda à minha mãe.
Andava de uma lado para o outro, ia a casa dos meus amigos desafiá-los para jogar à bola ou simplesmente para passear.
Agora, sobrinhos com o dobro da idade que eu tinha quando circulava sozinho, têm cada vez menos autonomia.
V√£o √†s discotecas, mas s√£o ‚Äúdeixados e levantados‚ÄĚ √† porta; passam horas ao telem√≥vel com os amigos, mas raramente os v√™m, fora das c√Ęmaras da net; n√£o aparecem l√° por casa, marcam-se horas.
Agora, na idade adulta, sa√≠mos cada vez mais tarde do tecto dos pais; casamos mais tarde; temos filhos mais tarde;…

Estaremos a ficar cada vez mais altriciais?
Ou as amea√ßas dos ‚Äúpredadores‚ÄĚ cada vez mais intensas?
Ou apenas paranóicos?

* o grau de desenvolvimento e de dependência das crias em relação aos progenitores pode ser diverso.
Basta comparar um vitelo (precocial- bem desenvolvido e ao fim de pouco tempo j√° se desloca autonomamente) com as crias de coelho (altricial – com um grau de desenvolvimento baixo e completamente dependentes dos progenitores).

Imagens – “Views of a Fetus in the Womb”, Leonardo da Vinci ; e daqui com diversos v√≠deos e textos.

Da Tanz√Ęnia para Berlim – nova exposi√ß√£o de dinoss√°urios

O Museu de História Natural de Berlim reabriu a sua exposição de dinossáurios.
Para bem dos meus pecados, no mês que lá passei em 2006, grande parte do material de saurópodes estava desmontado, facilitando-me a digitalização e estudo de Brachiosaurus, Barosaurus, Plateosaurus e Dicraeosaurus.
A equipa canadiana que os remontou, trabalhava num enorme armazém (mesmo ao lado do arquivos da cinemateca alemã!!!) o que me obrigava a passar o tempo entre as caves do Museu e o dito armazém.

Agora j√° pode ser vista a fauna proveniente, sobretudo, das jazidas de Tendaguru, Tanz√Ęnia.
Foram os alem√£es nos anos 20 do s√©c. XX, em especial expedi√ß√Ķes lideradas por Janensch, os principais exploradores das jazidas da Tanz√Ęnia.”

a). – √ļmero de Brachiosaurus com Homo sapiens a servir de escala.

b) aspecto do armazém de remontagem; Brachiosaurus remontado (foto Der Spiegel)
Imagens РLuís Azevedo Rodrigues (duas primeiras)

Jonatasianices

Desculpem, mas n√£o resisti…s√≥ mesmo rindo dos coment√°rios de sempre dos jonatasianos.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=bMEkCHU2KtA]

No meio das claques…

(Na sequ√™ncia de um post que publiquei e a que a Palmira F. Silva fez refer√™ncia fui apelidado, por um blogger an√≥nimo, de “…(e agora at√© liga outros) blogs anti-religi√£o.”)

Caro anónimo(s) jonatasianos e criacionistas menos derivados,

Raramente vos comento em matérias que não envolvam a minha área de trabalho.
N√£o poderia, no entanto, deixaria de vos dizer o seguinte:
-com agrado, fundado apenas na ignor√Ęncia de pessoas por quem nutro desacordo intelectual, verifiquei que os ep√≠tetos √† minha pessoa entraram num campo original ‚Äď apelidarem-me de anti-religioso.
-poderia tecer considera√ß√Ķes sobre a minha religiosidade ou a inexist√™ncia dela mas seria, na minha opini√£o, revelar pormenores pessoais que somente a mim dizem respeito ‚Äď n√£o conhece quem quer, apenas quem a isso est√° disposto ‚Äď e Vossas Excel√™ncias n√£o merecem tal agrado.
-√© com satisfa√ß√£o que vejo que n√£o largaram as dicotomias argumentativas a que, habitualmente, se recorrem ‚Äď ou pr√≥-criacionismo ou anti-religioso.
Deverei, por analogia e no mesmo nível de raciocínio, perguntar-vos que se for pró-Beira-Mar serei um esconjurado anti-Académica? Pois então sim! Venham de lá essas capas da Briosa inundar os meus ovos-moles beira-maristas!!

E quanto ao Sumol? Prazenteiros consumidores de Sumol de ananás inibirão a consulta de blogs pró-Sumol de laranja?

Se ser anti-religioso √© pactuar intelectualmente com as atoardas, ignor√Ęncias volunt√°rias e manique√≠smos de Ci√™ncia vs Religi√£o, pois que seja.

Prefiro partilhar o Inferno com os primos Pan troglodytes que o Céu com exemplares Homo sapiens como vós.
Ao menos sei o que move os meus primos ‚Äď felicidade, seja a procriar, comer ou o que for.
A vós o que vos move? A felicidade dos outros?
Duvido.
O medo. A ignor√Ęncia. A manipula√ß√£o deliberada.
A mim move-me procurar a minha felicidade e a dos outros.
Se passar pela religi√£o, que passe.
Se n√£o passar, deixai-a.
O que vos digo é o mesmo que digo a quem critica a religião alheia: não voltareis a provocar que sinta tristeza por pertencer ao mesmo género e espécie que vós.
Ignoro-vos. Ou melhor, tento.

Luís Azevedo Rodrigues

O mar e as entranhas Рhistórias de bactérias

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 12/07/2007)
A escuridão é total. Mas há vida.
Não poderíamos viver nestes ambientes. Mas conhecemo-los.
Ou partes dele.
O fundo do mar.
O nosso sistema digestivo.
O grande desconhecido que é o profundo marinho tem equivalências no invisível interno humano.
O PNAS*, de 5 de Julho de 2007, publicou um estudo sobre a vida microscópica, onde se relacionam os dois ambientes, com personagens que estão mais relacionadas do que até aqui se imaginava.
Quer o sistema digestivo quer o fundo do mar s√£o ambientes in√≥spitos – escuros e com baixas concentra√ß√Ķes de oxig√©nio.
Ainda assim estão repletos de bactérias.

Sulfurovum litthotrophicum, descrita em 1984, e Nitratiruptor tergarcus s√£o duas esp√©cies de bact√©rias do grupo őĶ-Proteobacteria, que habitam o fundo do mar. Sobrevivem a temperaturas comos as que temos no frigor√≠fico l√° de casa, 4¬ļ C, at√© aos 70¬ļ C. Vivem ambas no substrato marinho de grandes profundidades obtendo energia atrav√©s da fixa√ß√£o de azoto provenientes de fontes hidrotermais. S√£o consideradas das mais resistentes formas de vida, pois conseguem sobreviver naqueles ambientes adversos, onde as temperaturas podem atingir mais de 100¬ļ C, a profundidades, como no caso da fonte hidrotermal “Menez Gwen” dos A√ßores, de 1700 m.
Apesar da enorme resistência daquelas bactérias em ambiente natural, só recentemente foram cultivadas em laboratório permitindo que fossem estudadas mais detalhadamente.

O outro grupo de bactérias que ninguém gostaria conhecer, pelo menos na prática ocupa, com maior ou menor frequência, o nosso sistema digestivo.

A Helicobacter pylori, descoberta em 1982, est√° presente em metade da popula√ß√£o mundial, sendo a causadora da inflama√ß√£o da mucosa do est√īmago bem como das √ļlceras g√°stricas e do duodeno. A descoberta desta rela√ß√£o concedeu, em 2005, o pr√©mio Nobel da Medicina a Barry Marshall e J. Robin Warren.
O min√ļsculo ser vivo acompanha a esp√©cie humana desde h√° muito num fen√≥meno coevolutivo, facilitado pela sua grande variabilidade gen√©tica.
Segundo investigadores do Instituto Max Planck em Berlim, a Helibobacter tem sido transmitido de pais para filhos desde a nossa ancestral sa√≠da de √Āfrica.
Reconstruindo a √°rvore evolutiva desta bact√©ria, foi poss√≠vel identificar dois grandes ramos – um que infecta os europeus e norte-americanos e outro que afecta sobretudo os asi√°ticos. Essas duas linhagens est√£o associadas √†s migra√ß√Ķes humanas, permitindo reconstituir essas antigas movimenta√ß√Ķes.
Outro dos g√©neros de bact√©rias patog√©nicas analisado foi o Campylobacter jejuni, respons√°vel por intoxica√ß√Ķes alimentares nomeadamente a gastroenterite. Os ambientes favoritos para a sua dissemina√ß√£o s√£o leite cru ou mal pasteurizado, aves mal cozinhadas e √°gua n√£o tratada (l√≠quida ou em gelo).

A equipa de investigadores procedeu à análise do ADN presente nas bactérias que partilham o nosso ambiente digestivo РHelicobacter e Campylobacter Рe o das bactérias das profundezas marinhas РSulfurovum e Nitratiruptor.
Os dois grupos de bact√©rias apresentaram afinidades gen√©ticas, que lhes possibilitam viverem em ambientes hostis. Entre as semelhan√ßas est√£o a quase aus√™ncia de genes de repara√ß√£o do ADN. Este facto permite n√£o s√≥ a grande adapta√ß√£o destes seres vivos a novas condi√ß√Ķes extremas, mas tamb√©m ao pr√≥prio sistema de defesa de um organismo hospedeiro.
Segundo os investigadores, as bact√©rias humanas evolu√≠ram a partir de ancestrais de grande profundidade, adquirindo o seu “mau-feitio” quando estabeleceram rela√ß√Ķes simbi√≥ticas com invertebrados marinhos.
Não era novidade que tínhamos todos uma origem marinha.

Foi de l√° que viemos.
O profundo marinho e o sistema digestivo humano partilham coincidências evolutivas.
O sistema digestivo humano serve de mar a uma variedade de fauna microscópica; sabemos agora que parte dessa fauna tem parentes próximos nos fundos marinhos.

* Proceedings of the National Academy of Sciences


Referências consultadas

-Inagaki, F. et al. 2004. Sulfurovum lithotrophicum gen. nov., sp. nov., a novel sulfur-oxidizing chemolithoautotroph within the őĶ -Proteobacteria isolated from Okinawa Trough hydrothermal sediments. International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, 54, 1477-1482.
-Nakagawa, S. et al. 2007. Deep-sea vent őĶ-proteobacterial genomes provide insights into emergence of pathogens PNAS published July 5, 2007, 10.1073/pnas.0700687104.
-Nakagawa, S. et al. 2005. Nitratiruptor tergarcus gen. nov., sp. nov. and Nitratifractor salsuginis gen. nov., sp. nov., nitrate-reducing chemolithoautotrophs of the -Proteobacteria isolated from a deep-sea hydrothermal system in the Mid-Okinawa Trough. International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, 55, 925

Bioformas



Fotos – Ettan Ettan; Bilal Zaheer; Igor Siwanowicz; Yuri Bonder