Em algum lugar do passado… molecular.

Texto de autoria de um blogger que desconhe√ßo e como resultado do interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica InterCi√™ncia.

[Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Mammuthus
Os tecidos recuperados de mamutes enterrados em permafrost possibilitam a observação inédita de fragmentos da pré-história molecular.

O mamute lanoso Mammuthus primigenius n√£o √© apenas um dos animais pr√©-hist√≥ricos mais simp√°ticos ‚Äď seus ca√ßadores provavelmente discordam de mim nesse ponto ‚Äď e de grande reconhecimento popular.
Recentemente, a aplicação de técnicas avançadas aos espécimes recuperados do permafrost talvez tenha feito de mamutes e mastodontes os objetos de estudo mais ricos da Paleontologia.
O permafrost é um solo que nunca descongela ou fica constantemente congelado por milhares de anos. Com esse frio todo, de vez em quando os pesquisadores são presenteados com animais em ótimo nível de preservação.
Desses mamutes congelados podem ser coletadas amostras de tecidos moles como pele e m√ļsculos, al√©m de sangue e conte√ļdo estomacal. E o estudo desse material com t√©cnicas como clonagem, amplifica√ß√£o/sequenciamento de DNA e espectrometria de massas abre uma janela in√©dita para o seu passado molecular!
Em 2009, uma equipe japonesa aparentemente conseguiu ‚Äúressucitar‚ÄĚ c√©lulas de um mamute congelado h√° 15 mil anos. Por transfer√™ncia nuclear de c√©lula som√°tica (SCNT, na sigla em Ingl√™s), a mesma abordagem utilizada na clonagem da ovelha Dolly, eles relatam a recupera√ß√£o do material nuclear de m√ļsculo e pele com sucessos de 55% e 67%, respectivamente. N√£o √© nada mau quando lembramos de onde vieram esses n√ļcleos e por quanto tempo ficaram congelados.

Infelizmente não consegui acesso mais detalhado à pesquisa, mas é importante ressaltar que não houve comunicado de avanços desde então. Isso é ao mesmo tempo um sinal ruim e uma grande pena, pois seria fantástico cultivar células de mamute in vitro.
Mesmo sem tecidos moles, hoje os ossos fornecem material para muito mais que estudos morfológicos. Pesquisadores alemães publicaram em 2005 o primeiro sequenciamento completo de um genoma mitocondrial ancestral que usou DNA extraído do osso congelado de mamute lanoso.
Já em 2012 ocorreu a primeira identificação positiva de proteínas desses animais. Do osso de um mamute de 43 mil anos foram extraídas e analisadas por espectrometrial de massas mais de 100 proteínas diferentes. O sequenciamento dessas moléculas revelou semelhanças grandes com os elefantes africano, indiano e também com amostras mais recentes de outra espécie de mamute (Mammuthus columbi).
√Č claro que estudar biomol√©culas separadas por milhares de anos e compar√°-las ao nosso conhecimento atual j√° √© incr√≠vel, mas ao mesmo tempo √© imposs√≠vel n√£o ficar ansioso pelo futuro.
Estamos discutindo a possibilidade ‚Äď remota, admito ‚Äď de se recuperar fragmentos celulares funcionais e talvez at√© reestabelecer essas c√©lulas mortas h√° dezenas de milhares de anos.
Tem como pensar nisso e n√£o abrir um sorriso ao perceber que convivemos com situa√ß√Ķes mais avan√ßadas que muita obra de fic√ß√£o cient√≠fica?
***
[Este texto √© parte da primeira rodada do InterCi√™ncia, o interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Referências:
Cappellini et al. Proteomic Analysis of a Pleistocene Mammoth Femur Reveals More than One Hundred Ancient Bone Proteins. J. Proteome Res. 2012, 11, 917‚Äď926. dx.doi.org/10.1021/pr200721u – Published: 21 November 2011.
Kato et al. Recovery of Cell Nuclei from 15 000-Year-Old Mammoth Tissues and Injection into Mouse Enucleated Matured Oocytes. Reproduction, Fertility and Development. 22 (5305) 189‚Äď189 http://dx.doi.org/10.1071/RDv22n1Ab62 – Published online: 08 December 2009
Krause et al. Multiplex amplification of the mammoth mitochondrial genome and the evolution of Elephantidae. Nature, 439, 724-727. doi:10.1038/nature04432 – Published online: 18 December 2005.

Devaneios evolutivos…

394952_530625956958420_24964258_nEsta imagem/post, retirado e mais do que partilhado pela p√°gina de Facebook ‚ÄúI fucking love science‚ÄĚ √© uma excep√ß√£o √†s suas excelentes e divertidas imagens-mensagem.

E porquê?

1¬† ‚ÄúYou are the result of 3.8 billion years of evolutionary success‚ÄĚ
O aparente topo evolutivo ocupado pelo ser humano, de alguma forma reflectido no texto desta imagem, não é verdadeiro, já que a nossa espécie é um acaso da História Evolutiva da vida na Terra.
Ao contr√°rio do que est√° impl√≠cito, a Evolu√ß√£o da vida n√£o tem o ser humano como o pin√°culo evolutivo, o seu porto de chegada, o seu mais perfeito representante, o final do caminho da vida sobre a Terra, isto apesar da nossa exist√™ncia actual ser fruto de um sem n√ļmero de sucessos interm√©dios.
Seremos t√£o pin√°culo evolutivo da Hist√≥ria da Terra como outros seres vivos actuais ‚Äď representantes no presente de v√°rias linhagens de seres vivos que singraram ao longo do tempo.
2 Outra mensagem que poderá induzir em erro, e subjacente neste texto, é que a Evolução é sinónimo de um cada vez maior aperfeiçoamento e complexidade dos organismos, sendo o representante deste conceito nesta imagem/texto o ser humano.
Isto não é de todo verdade.
Embora existam casos de incremento de complexidade, a Evolu√ß√£o conduz* tamb√©m a redu√ß√£o de complexidade biol√≥gica, √† diminui√ß√£o de estruturas, entre outras altera√ß√Ķes morfol√≥gicas e/ou fisiol√≥gicas.
Evolu√ß√£o biol√≥gica n√£o √© sin√≥nimo de maior complexidade ‚Äď pode ou n√£o s√™-lo.

3 Ainda outra mensagem subjacente é a de cariz moral/comportamental. Devemos actuar em função do sucesso obtido pelos nossos antepassados, sejam eles mais ou menos distantes.
O que não me agrada nesta mensagem é a mistura entre sucesso evolutivo e a matrizes de comportamento moral/ético. Isto talvez possa justificar parte do sucesso evolutivo recente dos nossos antepassados, mas não justifica a esmagadora maioria do tempo geológico.
O singrar de um organismo e o sucesso de um c√≥digo de conduta, embora possam estar interligados, s√£o quest√Ķes distintas, sendo perigoso generaliz√°-los.
Se nos focarmos no comportamento humano e na diversidade de valores √©ticos e morais existentes, ent√£o estaremos de certeza a misturar alhos com bugalhos quando afirmamos que nos deveremos comportar em fun√ß√£o do sucesso biol√≥gico de um passado t√£o long√≠nquo como o de h√° centenas ou milhares de milh√Ķes de anos.

Apenas alguns devaneios evolutivos…já há muito debatidos e analisados por outros muito melhores do que eu.

* a utilização deste vocábulo é exagerada, sendo aqui utilizada por simplificação na leitura.

Podcast Ciência Viva À Conversa 2013

CIENCIA VIVA A CONVERSA LOGO√Č o regresso do espa√ßo de r√°dio e podcast Ci√™ncia Viva √Ä Conversa.

Depois dos 23 programas que gravei, com a excelente e indispensável edição do Director de antena da Rádio Universitária do Algarve, Pedro Duarte, retomamos este programa semanal.

Para além da difusão na Rádio Universitária do Algarve à 5ª feira (8h15, 12h15 e 15h15), o programa pode ser ouvido e descarregado nos sites dos Centros Ciência Viva no Algarve (Faro, Lagos e Tavira), no site do jornal Sul Informação, no site da RUA e e também no sítio de arquivo, para além deste blog (na barra lateral).

 

ADELINO CANARIOO primeiro programa Ciência Viva À Conversa de 2013 é com Adelino Canário do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e que será concluído na próxima 5ª feira.

 

Os C√£es do Estado

O risco parece ser o tempero principal do prato que nos servem nos dias em que nos assam.
As elites governativas apelam a que cada um de nós largue o gatinhar seguro e se atire, sem medos, para a iniciativa própria.
Arriscar e aguentar, dizem eles, que o Estado j√° fez o que devia e todos devemos largar o consolo a que nos habitu√°mos por direito.
Devemos arriscar mais, fugindo da segurança que o Estado nos deveria proporcionar.

01ladies CARPACCIO (Large)A hist√≥ria evolutiva dos c√£es apresenta, como explica√ß√Ķes para o seu aparecimento, duas alternativas. A mais comummente aceite √© a de que os seus ancestrais lobos foram seleccionados artificialmente pelo Homem e, assim, adquiriram as caracter√≠sticas comportamentais, primeiro, e f√≠sicas, depois, que interessam e agradam ao ser humano.
Uma segunda alternativa, defendida por Raymond Coppinger [1] envolve, para al√©m da selec√ß√£o artificial dos nossos antepassados de alguns lobos, a selec√ß√£o natural. Em resumo, os lobos, como outros animais, apresentam graus distintos do que se designa por ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ, ou seja, a dist√Ęncia m√≠nima que um animal est√° disposto aceitar √† aproxima√ß√£o de um ser humano, ou outro perigo, antes de iniciar a fuga. Intuitivamente compreendemos este conceito de ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ, tanto mais que j√° todos vimos, pelo menos na televis√£o, que diferentes animais apresentam ‚Äúdist√Ęncias de fuga‚ÄĚ distintas e, mesmo dentro da mesma esp√©cie, esta dist√Ęncia variar√° de indiv√≠duo para indiv√≠duo. Se n√£o acreditam, experimentem alimentar pombos ou gaivotas‚Ķ
A ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ est√° relacionada com a sobreviv√™ncia do animal, seja por permitir que obtenha alimento f√°cil arriscando mais, seja por poder ser ferido ou morto caso se aproxime do eventual perigo que est√° entre ele e o alimento.
O autor referido apresenta como motivo para a domestica√ß√£o do lobo e consequente aparecimento do c√£o que a dist√Ęncia de fuga dos lobos que circundavam os acampamentos humanos primitivos se ter√° reduzido. Por outras palavras, alguns lobos arriscavam mais e seriam esses que despertaram o esp√≠rito de domestica√ß√£o dos nossos antepassados. No surgimento do c√£o parece ter estado um aumento do esp√≠rito de risco ou a diminui√ß√£o da dist√Ęncia de fuga por parte de alguns lobos.

Ora o risco e empreendedorismo, bandeiras que se devem aplicar à Banca mais do que a nenhum outro sector da economia, parecem ter ficado na gaveta.
Verdadeiros lobos, os bancos arvoram-se, historicamente, como basti√Ķes do risco e da independ√™ncia face √† protec√ß√£o.
Mas o que verifica recentemente é que o espírito protector e paternalista parece ter assolado as mentes de quem nos governa. Só uma mãozinha, que eles são pequeninos, justificam. Era mesmo só o que lhes faltava, este naco de carne dado à boca, que os bancos de pedigree não singram sem esta ajuda, carpem os que mandam no Estado.
Do que me ensina a evolução dos lobos e dos cães resta-me adivinhar que os bancos, protegidos e esquecidos do risco, saltem para ao colo dos seus donos.
4892685898_ef8ed1d949_b (Large)E para quê?
H√° que tomar conta dos rebanhos, especulo.
H√° que fazer companhia financeira, quando dela precisarem os futuros ex-governantes.
E quem melhor para estas tarefas?
Estes novos cães do estado, amansados e alimentados à mão.
Pena é que quem manda se esqueça que por vezes os cães mordem a mão de quem os alimenta.
E estes, ao contr√°rio dos c√£es de quatro patas, j√° deram provas de que o far√£o.
Mais tarde, ou mais cedo.
E a nós, o que nos resta?
Voltar à selva, que o canil do Estado, que todos pagámos, já está ocupado.

 

 

Referências:
[1] Dawkins, R. 2009. O Espect√°culo da Vida – A Prova da Evolu√ß√£o. P√°ginas: 430. Casa das Letras. ISBN: 9789724619354 ‚Äď p√°ginas consultadas 75-78.

‚ÄúEstado injecta 1 100 milh√Ķes de euros na recapitaliza√ß√£o do Banif‚ÄĚ jornal i 31 de Dezembro de 2012

‚ÄúInjec√ß√Ķes de dinheiro no BPN ascendem a 8,5 mil milh√Ķes‚ÄĚ jornal DN 25 de Outubro de 2011

Imagens:
Vittore Carpaccio ‚ÄúTwo Venetian Ladies‚ÄĚ (1510)

Daqui

 (PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)