Observ@rte 2013

Um bocadinho de auto-promoção descarada.

Observ@rte 2013No pr√≥ximo dia 23 de Mar√ßo vou estar no Museu Nacional de Arte Antiga para participar no Observ@rte 2013,¬†encontro que “visa¬†estabelecer pontes atrav√©s de pr√°ticas pedag√≥gicas e projetos inovadores, entre a Ci√™ncia, a Arte, o Conhecimento, a Escola e os Museus.”

A minha participação será feita na Mesa Redonda:

A Ciência na Arte e a Arte na Ciência | 15h00

Fábrica Centro Ciência Viva | Universidade de Aveiro | Dulce Ferreira 
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto | João Carlos Paiva
Museu de Ciência | Universidade de Coimbra | Miguel Gomes
Centro Ciência Viva de Lagos | Luís Azevedo Rodrigues
Moderação | Clara Pinto Correia
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Bichinho-de-prata (Lepisma saccharina)

(texto escrito para o “Not√≠cias do Gil”, jornal da Escola Secund√°ria Gil Eanes)
tv300002.jpgQue sabia eu do bichinho-de-prata (Lepisma saccharina), para al√©m das t√©nues mem√≥rias? Mem√≥rias que, n√£o sendo de nojo ou repugn√Ęncia, como as que tenho das baratas, ou mesmo de alegria, como as dos bichos-de-conta, ainda assim existem. Apesar de n√£o impressionantes, as mem√≥rias que recordo desses bichos n√£o se foram, est√£o impregnadas.
Mas por que motivo n√£o olvidei esse bichinho? Pela semi-precisosidade do seu nome comum – bichinho-de-prata? N√£o me parece. Decidi ent√£o procurar nos livros.
Estes animais são aquilo que os biólogos designam por cosmopolitas. Não por irem assistir a passagens de modelos a Nova Iorque, ou jantar a Paris, porque também o fazem, mas antes porque são encontrados em ambientes domésticos um pouco por todo o mundo.
Fujo da luz, porque não me é boa. Há qualquer coisa no sossego da sombra que me faz bem. Discreto e fugidio como sou, é no escuro que me sinto em casa.
Quais ratos-de-biblioteca, abominam a luz, escapando-se para locais escuros mal s√£o descobertos. Os seus olhos compostos s√£o muito reduzidos, valendo-se este animal de outros sentidos para sobreviver.
Os bichinhos-de-prata, insectos da ordem Zygentoma, possuem o abd√≥men achatado e longas antenas. Esta ordem tamb√©m inclui outras 470 esp√©cies recentes, sendo encontrado o seu membro mais antigo em rochas que datam do Cret√°cico inferior do Brasil, com 108 milh√Ķes de anos idade.
Julgam que n√£o como os comp√™ndios, n√£o devoro os manuais, n√£o engulo papel, enfim. A verdade √© que sou letrado, n√£o pelo estudo, mas pelo est√īmago.
Literalmente letrados, porque √© esse um dos seus ambientes humanos preferidos, entre palavras e letras. Refugiando-se da luz e procurando um ambiente ideal para se alimentarem, os bichinhos-de-prata instalam-se entre p√°ginas de livros. Por a√≠ andam, embora n√£o s√≥ de celulose se alimentem, j√° que poeiras e outros restos org√Ęnicos fazem parte da sua alimenta√ß√£o. Como poucos outros insectos que se alimentem de restos org√Ęnicos, os bichos-de-conta possuem subst√Ęncias que transformam a celulose (enzimas), n√£o necessitando de estabelecer parcerias com bact√©rias para digerir o material de que s√£o feitos os livros.
Sempre que um desses bichos enormes abre os livros onde me escondo, fujo, e se por algum motivo me apanham, as bestas enormes ficam com as suas m√£os cobertas de restos das escamas prateadas que revestem todo o meu corpo.
Sem asas e com apenas um cent√≠metro de comprimento, safam-se rapidamente com as suas seis pernas sempre que regressamos a um livro h√° muito fechado. No √ļltimo segmento abdominal t√™m tr√™s cerdas que lhes conferem o seu aspecto caracter√≠stico, para al√©m da cor prateada que lhes valeu o nome comum.
E a fama de bicho letrado. Pelo menos para mim.
Apesar de n√£o ser esquisito, h√° autores que prefiro para os meus repastos: o negrume das p√°ginas de um livro de Saramago deixa-me, por vezes enfastiado; o branco em excesso dum poema da Sophia, apesar de satisfat√≥rio, causa-me algum desconforto, pois sinto-me desprotegido. J√° a assimetria dos textos do O’Neill me deixa um pouco sem saber para que lado ir.
Imagem: daqui

BIOFORMAS

Imagens – daqui; daqui; daqui; daqui. (de cima para baixo e da esquerda para a direita, respectivamente)

Noblella pygmaea

Noblella pygmaea – 11,4 mil√≠metros de vida…

Referência:
A New Species of Minute Noblella (Anura:Strabomantidae) from Southern Peru: The Smallest Frog of the Andes. Copeia, Volume 2009, Issue 1 (February 2009), pp. 148-156.

Imagem
daqui

Drag√Ķes beb√©

Imagens de juvenis de drag√Ķes-de-Komodo (Varanus komodoensis).
Algo mais sobre esta esp√©cie em “Podcasts, modernices e erros”.

Baby Komodo Dragons
http://mediaservices.myspace.com/services/media/embed.aspx/m=52518561,t=1,mt=video

Patas para que vos quero!

ResearchBlogging.org A propósito do aparecimento dos primeiros tetrápodes e do Tiktaalik, republico um post e artigo de jornal que publiquei em 2007.

“Tira da√≠ as patas!”, grita um qualquer mam√≠fero de forma semi-agressiva.

Mas e se fosse um peixe?
“Dois belos p√©s!” afirma o comentador desportivo, numa tarde de futebol.
Nós temos. Os peixes não.
A “simples” diferen√ßa na forma do esqueleto, como ter “m√£os” e “p√©s” ou aut√≥podes, carrega uma importante hist√≥ria evolutiva desde os peixes at√© aos animais como n√≥s.
Ao segurar um jornal, o leitor está, em termos evolutivos, a utilizar uma barbatana muito complexa e evoluída, e pertence a um grupo de vertebrados chamados tetrápodes, animais com quatro membros, que incluem animais como os mamíferos, aves, répteis e anfíbios.

O aparecimento dos ossos dos dedos em alguns anf√≠bios deveria ser resultado de nova “maquinaria” gen√©tica, pois todas as estruturas org√Ęnicas s√£o o resultado da informa√ß√£o que est√° contida nos genes. Ser√° assim?


Um estudo publicado, a 24 de Maio (de 2007), na revista Nature, refere que os genes necess√°rios √† forma√ß√£o dos dedos das “m√£os” e “p√©s” dos tetr√°podes t√™m uma hist√≥ria que remonta h√° 360 milh√Ķes de anos ou seja antes de os animais terem feito a “invas√£o” da terra. O estudo molecular dos genes HoxD (genes reguladores do desenvolvimento em diferentes organismos e √°reas do corpo, concretamente no desenvolvimento do esqueleto apendicular, i.e., dos membros) vem mostrar que o patrim√≥nio gen√©tico necess√°rio j√° estava presente em peixes primitivos como o actual peixe actinopter√≠geo Polyodon spathula, considerado um aut√™ntico f√≥ssil vivo.
A an√°lise gen√©tica deste animal permitiu afinar as informa√ß√Ķes paleontol√≥gicas com as da biologia do desenvolvimento, possibilitando que estas analisassem dados gen√©ticos de peixes menos “evolu√≠dos” – os actinopter√≠geos – e os comparassem com os dos tetr√°podes. Tradicionalmente, estas an√°lises eram efectuadas em peixes mais “evolu√≠dos”, os tele√≥steos.

Os estudos paleontol√≥gicos em exemplares de transi√ß√£o morfol√≥gica entre peixes e animais com verdadeiros membros locomotores deixavam em aberto a possibilidade daquela “revolu√ß√£o” evolutiva se ter dado de uma forma r√°pida em termos de tempo geol√≥gico mas o Polyodon revelou que o patrim√≥nio gen√©tico que permitiu o aparecimento de verdadeiras patas √© mais antigo do que se suponha.
Fundamental para se compreender esta “novela” cient√≠fica √© o conhecimento dos f√≥sseis de transi√ß√£o deste trajecto evolutivo.
Os “fotogramas” que permitem visualizar as altera√ß√Ķes morfol√≥gicas entre as barbatanas e verdadeiros membros locomotores s√£o v√°rios. Conhecia-se j√° h√° algum tempo a parte mais inicial do “filme” – os peixes
Eusthenopteron e Panderichthys – e a mais avan√ßada – os anf√≠bios do Dev√≥nico superior como Acanthostega e Ichthyostega. Recentemente foi descoberto mais um “fotograma” – o peixe Tiktaalik; este, apresenta um mosaico de caracter√≠sticas morfol√≥gicas antigas e modernas, no trajecto evolutivo para o aparecimento de verdadeiros aut√≥podes.

Algumas curiosidades morfol√≥gicas destes “primos” afastados: Ichtyostega possu√≠a sete dedos em cada pata; o Acanthostega, oito.
Desculpem mas n√£o resisto a dizer: “v√£o-se as barbatanas mas fiquem os dedos!”.
Da pr√≥xima vez que um qualquer criacionista falar em falta de f√≥sseis de transi√ß√£o nada como descrever estes belos nomes –
Eusthenopteron, Panderichthys, Acanthostega, Tiktaalik e Ichthyostega!

Um outro estudo, de 2006 e desta vez embriol√≥gico, levado a cabo em Barcelona, permitiu analisar o processo de forma√ß√£o e disposi√ß√£o de dois ossos do p√© em embri√Ķes humanos – o calc√Ęneo (osso que constitui o nosso calcanhar) e o astr√°galo, ambos ossos do p√©.
Foram descritas semelhan√ßas morfol√≥gicas entre um embri√£o humano de 33 dias, nas extremidades inferiores, com barbatanas; aos 54 dias o calc√Ęneo e o astr√°galo est√£o localizados no mesmo preciso local que em Bauria cynops, um r√©ptil mamaliforme que viveu h√° 260 milh√Ķes de anos. As semelhan√ßas anat√≥micas de posicionamento √†s 8 semanas e meia dos ossos referidos s√£o enormes entre o embri√£o humano e a esp√©cie f√≥ssil Diademodon, que viveu h√° 230 milh√Ķes de anos.
Os autores afirmam que, nesta fase, o posicionamento, e respectivas consequ√™ncias ao n√≠vel da locomo√ß√£o, dos ossos analisados est√£o a meio “caminho” entre r√©pteis e mam√≠feros. Este tipo de an√°lises incr
ementa o conhecimento morfol√≥gico efectuado por v√°rios autores no s√©c. XIX, mesmo antes de Darwin publicar a sua obra magna, como Karl Ernst von Baer (1792-1876), que notou semelhan√ßas morfol√≥gicas entre embri√Ķes de grupos diferentes.
Conta a “tradi√ß√£o”, que von Baer, trabalhava no seu gabinete, e encontrou dois frascos com embri√Ķes de aves e lagartos; sem r√≥tulos, n√£o os p√īde distinguir √† primeira vista…

Von Baer prop√īs que est√°dios embrion√°rio iniciais conservavam padr√Ķes morfol√≥gicos comuns a v√°ria esp√©cies sendo os est√°dios mais avan√ßados reveladores de diverg√™ncia morfol√≥gica – as similitudes observadas entre embri√Ķes humanos e esp√©cies do passado comprovam que anda bem que os frascos de von Baer deveriam ter os r√≥tulos!
Resumindo: espécies que divergem morfologicamente em estádios mais iniciais irão ser morfologicamente mais distintas em estádios adultos.

Von Baer foi pioneiro nas propostas que fez ao nível do desenvolvimento embrionário sendo o seu trabalho basilar numa das áreas mais importantes das Biologia actual Рa evolução e o desenvolvimento, Evo-Devo.
De tudo o que vimos s√≥ me resta afirmar que a as teorias evolutivas que explicam o nosso trajecto na hist√≥ria da Terra t√™m cada vez mais “p√©s para andar…!”
(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 31/5/2007)

BIBLIOGRAFIA
Carroll, R.L., Irwin J. & Green, D.M. 2005. Thermal physiology and the origin of terrestriality in vertebrates. Zool. J. Linn. Soc. 143: 345-358.

Carroll, S. B. 2005. Endless Forms Most Beautiful: The New Science of Evo Devo and the Making of the Animal Kingdom, W. W. Norton & Company.

Davis MC, Dahn RD, & Shubin NH (2007). An autopodial-like pattern of Hox expression in the fins of a basal actinopterygian fish. Nature, 447 (7143), 473-6 PMID: 17522683

Evo-Devo – http://www.pnas.org/cgi/content/full/97/9/4424

Goodwin, B. 1994. How the Leopard Changed its Spots, Phoenix Giants.

Isidro, A. & Vazquez, M.T. 2006. Phylogenetic and ontogenetic parallelisms on talo-calcaneal superposition. The Foot 16, 1-15.

FIGURAS
Carroll, R.L., Irwin J. & Green, D.M. 2005. Thermal physiology and the origin of terrestriality in vertebrates. Zool. J. Linn. Soc. 143: 345-358.

Clack, J. 2002. An early tetrapod from Romer’s Gap, Nature 418, 72 – 76.
Horder, T.J
. 2006. Gavin Rylands de Beer: how embryology foreshadowed the dilemmas of the genome. Nat Rev Genet. 7(11):892-8.

Bolas oculares

Campanha de um canal televisivo de desporto – daqui

Mulher e girafa

Peter Beard – fot√≥grafo, artista (seja l√° o que isto for) e, acima de tudo, amante da hist√≥ria natural, com longos per√≠odos da sua vida em √Āfrica.
Amigo de Truman Capote, Francis Bacon e Andy Warhol.

As minhas manh√£s ficam mais belas com a imagem da girafa e da mulher.

Site oficial – aqui
Entrevista (1996) – aqui

Imagens – do site oficial √† excep√ß√£o de “Maureen and Late-Night Feeder, Hog Ranch, Kenya, 1987″, do site da entrevista

GRAVIDEZ VEGETAL

(gravidez vezes dois, em fundo e em primeiro plano)
Palo borracho Рárvore do género Chorisia (agora Ceiba speciosa).

Escultura de autor desconhecido.

Imagem РLuís Azevedo Rodrigues, Córdoba, Argentina, 2006.

Fus√Ķes

Quando a locomoção animal encontra o showbiz.
√Č o que d√° misturar trabalho e prazer.

Imagem – montagem de Lu√≠s Azevedo Rodrigues a partir de “The Horse in Motion” (1878), Edward Muybridge e Hilary Swank (2005), Norman Jean Roy