A Amonite e o Mamífero

Os companheiros de uma vida escolhem-se, por vezes.
Os companheiros para toda a vida, por vezes, esbarram um no outro e acabam por compartir um comum e eterno caminho de tempo e de espaço.
Acasos, dizem.
Dois seres vivos que apenas partilham um ancestral de h√° centenas de milh√Ķes de anos, partilham agora um descanso em conjunto.
Do mam√≠fero, apenas se sabe o nome e a profiss√£o ‚Äď militar, dos finais do dezanove, em linguagem de historiadores.

A amonite, de tempos jurássicos, repousou sem vida em fundos marinhos. Da campa rochosa de origem marinha, os humanos deram-lhe uso para outra laje, a do mamífero militar.
Jazem juntos, agora, l√° para os lados de Tavira.
O mamífero e a amonite.

P.S. várias amonites numa campa junto à Igreja do Carmo, Tavira.
Uma das v√°rias paragens da visita de Geologia e Paleontologia urbanas ‚ÄúDo Museu Ao Convento‚ÄĚ.

Imagens: Luís Azevedo Rodrigues
Tavira : guia de geologia e paleontologia urbana = urban geology and paleontology guide / coord., ed. Luís Azevedo Rodrigues ; textos Luís Azevedo Rodrigues, Margarida Agostinho, Rita Manteigas ; fot. Jorge F. Marques ; il. Carlos Marques da Silva ; trad. Isabel Abreu, Michelle Nobre Dias. РLagos : Centro Ciência Viva de Lagos, 2016. Р165 p. : il. ; 18 cm. РEd. bilingue em português e inglês. РISBN 978-989-99519-0-7

Cidades sem pessoas II


(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 03/08/2007 – segunda e √ļltima parte)

Continua√ß√£o de “Cidades Sem Pessoas I”

Os derrotados

Os perdedores biológicos do nosso abandono serão vários.
Sem a presença humana, as cidades e zonas próximas serão mais um ambiente a explorar. Manadas de vacas à solta serão um manancial meigo para lobos e raposas.
Estas ser√£o uma fonte de alimento f√°cil para todo o tipo de predadores, que se aproximar√£o cada vez mais dos ambientes urbanos.
Cad√°veres de , por alimentar, ser√£o fonte de alimento para todo o tipo de necr√≥fagos. Algumas das aves, como os corvos, habituais em ambientes urbanos mais a norte, invadir√£o inicialmente as urbes, alimentando-se das carca√ßas. Este ciclo ser√° apenas moment√Ęneo, uma vez que sem o factor humano presente a fonte de alimento em putrefac√ß√£o condicionar√° aqueles vencedores fugazes.
As galinhas com sua capacidade de se geo-orientarem, recentemente descoberta, n√£o encontrar√£o caminho para uma salva√ß√£o evolutiva. Voadoras d√©beis, ser√£o para o futuro sem humanos o que o Dod√≥ foi para o s√©c. XXI humanos – uma recorda√ß√£o…
Mas e os odiados ratos e ratazanas?
Dependentes dos desperdícios alimentares humanos, estas espécies de mamíferos declinarão, servindo de refeição a vários predadores.
As baratas, de quem se diz serem capazes de sobreviver a um ataque nuclear, ter√£o igualmente a vida dif√≠cil, pois os ambientes humanos aquecidos e com comida dispon√≠vel ter√£o desaparecido. Em especial no hemisf√©rio norte, como atesta Alan Weisman no seu recente livro “World without us”, as fontes de calor permitem que aqueles insectos rastejantes vivam em cidades com Invernos rigorosos.
Outros, como gorgulhos e traças, anteriormente muito abundantes em quase todos os continentes, entrarão em declínio; as fontes de alimentos que as sustentavam (essencialmente cereais) acabarão pouco a pouco.
Uma incógnita evolutiva serão as formigas. Connosco partilhavam os ambientes citadinos, apossando-se de alguns dos nossos domínios. Carreiros de obreiras invadiam as casas, procurando todo alimentos para transportarem para as suas colónias. Contudo, devido ao seu carácter social, terão maior facilidade em se adaptar a ambientes desprovidos de sobras humanas.
No c√īmputo geral, verificar-se-√° um acr√©scimo na biodiversidade bem como o lento restabelecimento das din√Ęmicas estruturais dos ecossistemas, dos ciclos biogeoqu√≠micos e das altera√ß√Ķes clim√°ticas.

Marcas n√£o vivas

As zonas florestadas das cidades, at√© agora remetidas a parques ou passeios, alastrar√£o por √°reas cada vez maiores, contribuindo com galhos e folhas para que a mat√©ria org√Ęnica depositada no solo (ou no cada vez menor alcatr√£o dispon√≠vel) seja abundante.
Todo este combust√≠vel org√Ęnico ser√° um potencial alimentador de inc√™ndios, originados por rel√Ęmpagos ou por curto-circuitos dos sistemas el√©ctricos sem manuten√ß√£o. Ao fim de alguns anos, os inc√™ndios ter√£o alterado o aspecto das cidades, destruindo constru√ß√Ķes e mobili√°rio urbano.
A estatuária, distintiva de qualquer ambiente citadino, será, pouco a pouco, tragada pelo correr do tempo. As estátuas, em especial as de calcário ou mármore, serão lentamente meteorizadas por chuvas carregadas de dióxido de carbono, que dissolverão o carbonato de cálcio de que são feitas.
Faces, membros e corpos serão arrastados pelas águas que caem do céu, levando as memórias de monarcas e poetas para os rios e o mar. Este fenómeno será geologicamente rápido, ou seja, escassas centenas de an
os.
O mesmo fenómeno ocorrerá nos revestimentos dos edifícios. O outrora imponente e belo granito polido dará lugar a uma estrutura que se desagrega Рfenómeno originado pela alteração dos feldspatos em argilas.
A ponte sobre o Tejo, sem manutenção regular, entrará num processo de desagregação. Mesmo a sua estrutura reforçada, que outrora permitia a circulação de comboios, não evitará o seu colapso.
Segundo William Rathje, da Universidade de Stanford, arque√≥logo especializado em desperd√≠cios humanos, ao fim de 10000 anos ainda ser√° poss√≠vel ler os jornais do √ļltimo dia dos seres humanos na Terra. Em ambientes an√≥xicos (sem oxig√©nio), como aqueles em que os j
ornais são cobertos por sedimentos, os constituintes do papel permanecem inalteráveis, à semelhança do que ocorreu com os papiros com mais de 3000 anos.

Ao fim de 15000 anos, os √ļltimos de vest√≠gios de edif√≠cios ser√£o tragados pelo avan√ßo de glaciares que uma nova Idade do gelo originar√°.
Os níveis de dióxido de carbono só ao fim de cem mil anos atingirão níveis idênticos ao do período pré-industrial.
Apenas decorridos 35000 anos, ter√£o desaparecido os √ļltimos vest√≠gios de chumbo, acumulados ao longo de dezenas de anos de utiliza√ß√£o autom√≥vel.
Passados dez milh√Ķes de anos, as √ļnicas marcas da nossa fugaz passagem pelo planeta ser√£o, por exemplo, est√°tuas de bronze, como a do Rei Dom Jos√© I, no Terreiro do Pa√ßo.
Apenas a sua forma contemplar√° o Tejo (ou o local onde este estaria) num planeta sem seres humanos…

Referências
Marchante, E., comun. pess.
Weisman, A. 2007. The World without Us. St. Martin’s Press.
Western, D. 2001. Human-modified ecosystems and future evolution. PNAS vol. 98 n.10 5458-5465.

Gostaria de agradecer a disponibilidade da Professora Helena Freitas do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, pela conselhos iniciais e disponibilidade.

Imagens
dos dois posts “Cidades sem pessoas” – links nas imagens)

Cidades sem pessoas I

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 02/08/2007)

continua 5ª feira
8/01/2009

Cidade sem Sono


Ninguém dorme no céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
As criaturas da lua cheiram e rondam as choupanas.

Vir√£o iguanas vivas morder os homens que n√£o sonham
e o que foge com o coração partido encontrará pelas esquinas
o incrível crocodilo imóvel sob o frouxo protestos dos astros.
(…)
Um dia
os cavalos viver√£o nas tabernas
e as formigas furiosas
atacarão os céus amarelos que se refugiam nos olhos das vacas.
Outro dia
veremos a ressurreição de mariposas dissecadas

e ainda, ao andar por uma paisagem de esponjas pardas e barcos mudos
veremos brilhar nosso anel e brotar rosas de nossa língua.

Alerta! Alerta! Alerta!
Aos que guardam ainda pegadas de garra e aguaceiro,
àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte
ou àquele morto que já não tem mais que a cabeça e um sapato,
h√° que lev√°-los ao muro onde iguanas e serpentes esperam,
onde espera a m√£o mumificada do menino
e a pele do camelo se eriça com um violento calafrio azul.
(…)
Não dorme ninguém pelo mundo. Ninguém, ninguém.
J√° o disse.
Não dorme ninguém.

Mas se alguém de noite tem demasiado musgo nas têmporas,
abri os al√ßap√Ķes pa
ra ver sob a lua
as falsas taças, o veneno e a caveira dos teatros.

Federico García Lorca

Este poema e um artigo no √ļltimo n√ļmero da Scientific American fizeram-me imaginar as cidades portuguesas sem os representantes da esp√©cie humana.
De um momento para o outro e por qualquer motivo desconhecido, todas as pessoas desaparecem das cidades; surgirão vencedores e vencidos biológicos, no contexto citadino definitivamente abandonado pelos seus criadores.

No momento em que pela primeira vez a população urbana portuguesa ultrapassou a população rural, a especulação sobre o que aconteceria num ambiente urbano sem portugueses é curiosa, apresentando-se como uma realidade que deveremos tomar em atenção.
No I Congresso Europeu de Conserva√ß√£o Biol√≥gica, em 2006, foi discutido que “com metade da popula√ß√£o mundial a viver actualmente em cidades e a previs√£o de 60% em 2030, o ambiente urbano √© um dos pontos principais da agenda global de ambiente e de conserva√ß√£o.”

Mas o que se passaria nas nossas cidades, após o desaparecimento de todos os portugueses?

Os vencedores

Entre os vencedores biol√≥gicos deste omnic√≠dio est√£o os mosquitos, que sem campanhas de exterm√≠nio, e aproveitando-se de zonas h√ļmidas, aumentar√£o exponencialmente o seu n√ļmero. Esses insectos alimentar-se-√£o de animais como as aves. Estas, sem cabos de alta-tens√£o e arranha-c√©us (entretanto destru√≠dos, por falta de manuten√ß√£o), poder√£o voar livremente.

Todos os anos os arranha-c√©us s√£o respons√°veis pela morte de 1000 milh√Ķes de aves, s√≥ nos EUA. Para Daniel Klem Jr., ornit√≥logo do Muhlenberg College, o revestimento em vidro dos edif√≠cios das cidades constitui um fen√≥meno “indiscriminado, eliminando aptos e n√£o-aptos”. As aves colidem com aquelas estruturas, pois n√£o as conseguem identificar, por serem espelhadas, vendo apenas o c√©u ou √°rvores reflectidas. Segundo este investigador, s√≥ a destrui√ß√£o de habitats tem um impacto mais negativo sobre as aves.

E os nossos animais de estimação?

Os gatos contam-se entre os prováveis vencedores do período pós-humano, caçando pequenos mamíferos, insectos e aves, à semelhança do que fazem actualmente. Gradualmente aumentarão de tamanho, competindo directamente com outros predadores.

Os c√£es poder√£o ter dois destinos. As ra√ßas de comportamento dominante agrupar-se-√£o em matilhas, √† semelhan√ßa do que ocorre hoje em dia, em matilhas de c√£es assilvestrados. Desta forma poder√£o sobreviver, readquirindo alguns comportamentos ancestrais dos lobos, percorrendo ruas e avenidas em busca de presas. Presentemente, os c√£es abandonados s√£o respons√°veis por ataques a rebanhos que ocorrem no nosso pa√≠s, embora os propriet√°rios prefiram responsabilizar o lobo-ib√©rico…
Na minha opini√£o, os c√£es mais d√≥ceis ou pequenos ser√£o remetidos para nichos ecol√≥gicos reduzidos, ou ter√£o como destino a extin√ß√£o. O meu Labrador provavelmente n√£o se safaria…

Flora exótica como espanta-lobos (Ailanthus altíssima), robínia (Robinia pseudoacacia), acácia-de-espigas (Acacia longifolia) e árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum) existem nas nossas cidades, tendo sido aí introduzidas para ornamentação de jardins, arborização de espaços urbanos e sebes.

A espanta-lobos é proveniente da China, produzindo até 350 000 sementes anualmente. Além
de extremamente agressiva para as plantas autóctones, liberta toxinas que impedem o desenvolvimento de vegetação em seu redor.

Sem campanhas de erradicação, algumas plantas exóticas substituirão definitivamente as plantas originais, colonizando cada vez maiores áreas e modificando a paisagem natural.
Segundo Elizabete Marchante, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, “desde h√° pouco tempo, come√ßou a surgir em espa√ßos urbanos outra esp√©cie (Sesbania punicea) que, apesar de ainda n√£o ser invasora em Portugal, √© uma invasora perigosa em ecossistemas com clima id√™ntico.”
As árvores vencedoras do abandono humano ocuparão a maioria das ruas ao fim de dois a quatro anos. As suas raízes irão destruir progressivamente asfalto e passeios, bem como a rede de água e esgotos, contribuindo para o cada vez maior esquecimento dos vestígios humanos.
Nada do aspecto actual das cidades será mantido. Se houvesse alguém para o descrever, veria um ambiente caótico em que as marcas de construção humana seriam, pouco a pouco, engolidas pela vegetação.

continua 5ª feira
8/01/2009

Cidades sem pessoas – II

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 03/08/2007 – segunda e √ļltima parte)

Os derrotados

Os perdedores biológicos do nosso abandono serão vários.
Sem a presença humana, as cidades e zonas próximas serão mais um ambiente a explorar. Manadas de vacas à solta serão um manancial meigo para lobos e raposas.

Estas ser√£o uma fonte de alimento f√°cil para todo o tipo de predadores, que se aproximar√£o cada vez mais dos ambientes urbanos.
Cadáveres de porcos, por alimentar, serão fonte de alimento para todo o tipo de necrófagos.
Algumas das aves, como os corvos, habituais em ambientes urbanos mais a norte, invadir√£o inicialmente as urbes, alimentando-se das carca√ßas. Este ciclo ser√° apenas moment√Ęneo, uma vez que sem o factor humano presente a fonte de alimento em putrefac√ß√£o condicionar√° aqueles vencedores fugazes.
As galinhas com sua capacidade de se geo-orientarem, recentemente descoberta, n√£o encontrar√£o caminho para uma salva√ß√£o evolutiva. Voadoras d√©beis, ser√£o para o futuro sem humanos o que o Dod√≥ foi para o s√©c. XXI humanos – uma recorda√ß√£o…
Mas e os odiados ratos e ratazanas? Dependentes dos desperdícios alimentares humanos, estas espécies de mamíferos declinarão, servindo de refeição a vários predadores.
As baratas, de quem se diz serem capazes de sobreviver a um ataque nuclear, terão igualmente a vida difícil, pois os ambientes humanos aquecidos e com comida disponível terão desaparecido.
Em especial no hemisf√©rio norte, como atesta Alan Weisman no seu recente livro “World without us”, as fontes de calor permitem que aqueles insectos rastejantes vivam em cidades com Invernos rigorosos.
Outros insectos, como gorgulhos e traças, anteriormente muito abundantes em quase todos os continentes, entrarão em declínio; as fontes de alimentos que as sustentavam (essencialmente cereais) acabarão pouco a pouco.

Uma incógnita evolutiva serão as formigas. Connosco partilhavam os ambientes citadinos, apossando-se de alguns dos nossos domínios. Carreiros de obreiras invadiam as casas, procurando todo alimentos para transportarem para as suas colónias. Contudo, devido ao seu carácter social, terão maior facilidade em se adaptar a ambientes desprovidos de sobras humanas.
No c√īmputo geral, verificar-se-√° um acr√©scimo na biodiversidade bem como o lento restabelecimento das din√Ęmicas estruturais dos ecossistemas, dos ciclos biogeoqu√≠micos e das altera√ß√Ķes clim√°ticas.

Marcas n√£o vivas

As zonas florestadas das cidades, at√© agora remetidas a parques ou passeios, alastrar√£o por √°reas cada vez maiores, contribuindo com galhos e folhas para que a mat√©ria org√Ęnica depositada no solo (ou no cada vez menor alcatr√£o dispon√≠vel) seja abundante.
Todo este combust√≠vel org√Ęnico ser√° um potencial alimentador de inc√™ndios, originados por rel√Ęmpagos ou por curto-circuitos dos sistemas el√©ctricos sem manuten√ß√£o. Ao fim de alguns anos, os inc√™ndios ter√£o alterado o aspecto das cidades, destruindo constru√ß√Ķes e mobili√°rio urbano.
A estatuária, distintiva de qualquer ambiente citadino, será, pouco a pouco, tragada pelo correr do tempo. As estátuas, em especial as de calcário ou mármore, serão lentamente meteorizadas por chuvas carregadas de dióxido de carbono, que dissolverão o carbonato de cálcio de que são feitas. Faces, membros e corpos serão arrastados pelas águas que caem do céu, levando as memórias de monarcas e poetas para os rios e o mar. Este fenómeno será geologicamente rápido, ou seja, escassas centenas de anos.
O mesmo fenómeno ocorrerá nos revestimentos dos edifícios. O outrora imponente e belo granito polido dará lugar a uma estrutura que se desagrega Рfenómeno originado pela alteração dos feldspatos em argilas.
A ponte sobre o Tejo, sem manuten√ß√Ķes regulares, entrar√° num processo de desagrega√ß√£o. Mesmo a sua estrutura refor√ßada, que outrora permitia a circula√ß√£o de comboios, n√£o evitar√° o seu colapso.
Segundo William Rathje, da Universidade de Stanford, arque√≥logo especializado em desperd√≠cios humanos, ao fim de 10000 anos ainda ser√° poss√≠vel ler os jornais do √ļltimo dia dos seres humanos na Terra. Em ambientes an√≥xicos (sem oxig√©nio), como aqueles em que os jornais s√£o cobertos por sedimentos, os constituintes do papel permanecem inalter√°veis, √† semelhan√ßa do que ocorreu com os papiros com mais de 3000 anos.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5NvDhNZNSBk]
Ao fim de 15000 anos, os √ļltimos de vest√≠gios de edif√≠cios ser√£o tragados pelo avan√ßo de glaciares que uma nova Idade do gelo originar√°.
Os níveis de dióxido de carbono só ao fim de cem mil anos atingirão níveis idênticos ao do período pré-industrial.
Apenas ao fim de 35000 anos ter√£o desaparecido os √ļltimos vest√≠gios de chumbo, acumulados ao longo de dezenas de anos de utiliza√ß√£o autom√≥vel.
Passados dez milh√Ķes de anos, as √ļnicas marcas da nossa fugaz passagem pelo planeta ser√£o, por
exemplo, estátuas de bronze, como a do Rei Dom José I, no Terreiro do Paço.
Apenas a sua forma contemplar√° o Tejo (ou o local onde este estaria) num planeta sem seres humanos…

Referências
Marchante, E. Comun. pess.
Weisman, A. 2007. The World without Us. St. Martin’s Press.
Western, D. 2001. Human-modified ecosystems and future evolution. PNAS vol. 98 n.10 5458-5465.

Imagens
(dos dois posts “Cidades sem pessoas” – links nas imagens)

Cidades sem pessoas – I

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 02/08/2007 – continua amanh√£)

Cidade sem Sono

Ninguém dorme no céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
As criaturas da lua cheiram e rondam as choupanas.

Vir√£o iguanas vivas morder os homens que n√£o sonham
e o que foge com o coração partido encontrará pelas esquinas
o incrível crocodilo imóvel sob o frouxo protestos dos astros.
(…)
Um dia
os cavalos viver√£o nas tabernas
e as formigas furiosas
atacarão os céus amarelos que se refugiam nos olhos das vacas.
Outro dia
veremos a ressurreição de mariposas dissecadas

e ainda, ao andar por uma paisagem de esponjas pardas e barcos mudos
veremos brilhar nosso anel e brotar rosas de nossa língua.

Alerta! Alerta! Alerta!
Aos que guardam ainda pegadas de garra e aguaceiro,
àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte
ou àquele morto que já não tem mais que a cabeça e um sapato,
h√° que lev√°-los ao muro onde iguanas e serpentes esperam,
onde espera a m√£o mumificada do menino
e a pele do camelo se eriça com um violento calafrio azul.
(…)
Não dorme ninguém pelo mundo. Ninguém, ninguém.
J√° o disse.
Não dorme ninguém.

Mas se alguém tem de noite demasiado musgo nas têmporas,
abri os al√ßap√Ķes para ver sob a lua
as falsas taças, o veneno e a caveira dos teatros.

Federico García Lorca

Este poema e um artigo no √ļltimo n√ļmero da Scientific American fizeram-me imaginar as cidades portuguesas sem os representantes da esp√©cie humana.
De um momento para o outro e por qualquer motivo desconhecido, todas as pessoas desaparecem das cidades; surgirão vencedores e vencidos biológicos, no contexto citadino definitivamente abandonado pelos seus criadores.

No momento em que pela primeira vez a população urbana portuguesa ultrapassou a população rural, a especulação sobre o que aconteceria num ambiente urbano sem portugueses é curiosa, apresentando-se como uma realidade que deveremos tomar em atenção.
No I Congresso Europeu de Conserva√ß√£o Biol√≥gica, em 2006, foi discutido que “com metade da popula√ß√£o mundial a viver actualmente em cidades e a previs√£o de 60% em 2030, o ambiente urbano √© um dos pontos principais da agenda global de ambiente e de conserva√ß√£o.”

Mas o que se passaria nas nossas cidades, após o desaparecimento de todos os portugueses?

Os vencedores

Entre os vencedores biol√≥gicos deste omnic√≠dio est√£o os mosquitos, que sem campanhas de exterm√≠nio, e aproveitando-se de zonas h√ļmidas, aumentar√£o exponencialmente o seu n√ļmero. Esses insectos alimentar-se-√£o de animais como as aves. Estas, sem cabos de alta-tens√£o e arranha-c√©us (entretanto destru√≠dos, por falta de manuten√ß√£o), poder√£o voar livremente.

Todos os anos os arranha-c√©us s√£o respons√°veis pela morte de 1000 milh√Ķes de aves, s√≥ nos EUA. Para Daniel Klem Jr., ornit√≥logo do Muhlenberg College, o revestimento em vidro dos edif√≠cios das cidades constitui um fen√≥meno “indiscriminado, eliminando aptos e n√£o-aptos”. As aves colidem com aquelas estruturas, pois n√£o as conseguem identificar, por serem espelhadas, vendo apenas o c√©u ou √°rvores reflectidas. Segundo este investigador, s√≥ a destrui√ß√£o de habitats tem um impacto mais negativo sobre as aves.

E os nossos animais de estimação?

Os gatos contam-se entre os prováveis vencedores do período pós-humano, caçando pequenos mamíferos, insectos e aves, à semelhança do que fazem actualmente. Gradualmente aumentarão de tamanho, competindo directamente com outros predadores.

Os c√£es poder√£o ter dois destinos. As ra√ßas de comportamento dominante agrupar-se-√£o em matilhas, √† semelhan√ßa do que ocorre hoje em dia, em matilhas de c√£es assilvestrados. Desta forma poder√£o sobreviver, readquirindo alguns comportamentos ancestrais dos lobos, percorrendo ruas e avenidas em busca de presas. Presentemente, os c√£es abandonados s√£o respons√°veis por ataques a rebanhos que ocorrem no nosso pa√≠s, embora os propriet√°rios prefiram responsabilizar o lobo-ib√©rico…
Na minha opini√£o, os c√£es mais d√≥ceis ou pequenos ser√£o remetidos para nichos ecol√≥gicos reduzidos, ou ter√£o como destino a extin√ß√£o. O meu Labrador provavelmente n√£o se safaria…

Flora exótica como espanta-lobos (Ailanthus altíssima), robínia (Robinia pseudoacacia), acácia-de-espigas (Acacia longifolia) e árvore-do-incenso (Pittosporum ondulatum) existem nas nossas cidades, tendo sido aí introduzidas para ornamentação de jardins, arborização de espaços urbanos e sebes.

A espanta-lobos é proveniente da China, produzindo até 350 000 sementes anualmente. Além de extremamente agressiva para as plantas autóctones, liberta toxinas que impedem o desenvolvimento de vegetação em seu redor.

Sem campanhas de erradicação, algumas plantas exóticas substituirão definitivamente as plantas originais, colonizando cada vez maiores áreas e modificando a paisagem natural.
Segundo Elizabete Marchante, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, “desde h√° pouco tempo, come√ßou a surgir em espa√ßos urbanos outra esp√©cie (Sesbania punicea) que, apesar de ainda n√£o ser invasora em Portugal, √© uma invasora perigosa em ecossistemas com clima id√™ntico.”
As árvores vencedoras do abandono humano ocuparão a maioria das ruas ao fim de dois a quatro anos. As suas raízes irão destruir progressivamente asfalto e passeios, bem como a rede de água e esgotos, contribuindo para o cada vez maior esquecimen
to dos vestígios humanos.
Nada do aspecto actual das cidades será mantido. Se houvesse alguém para o descrever, veria um ambiente caótico em que as marcas de construção humana seriam, pouco a pouco, engolidas pela vegetação.
(continua amanh√£)