Beatas no Ninho

Embora o título possa parecer um pouco reles, o teor deste texto é tudo menos provocador.
Bem, talvez o seja para alguns seres vivos.
As beatas de que falamos são as pontas dos cigarros depois de fumados ou, em português do Brasil, as bitucas ou guimbas de cigarro.
animals,nature-214cf02b3e5291e0ec0b6c33eea85cad_hMas porqu√™ falar da terminologia de um produto t√£o nocivo √† sa√ļde e, pior, mistur√°-lo com ninhos?
√Č que por vezes a natureza d√° voltas por onde menos se espera. Neste caso, verificou-se que algumas aves da cidade do M√©xico utilizam as beatas de cigarros na constru√ß√£o dos seus ninhos.
O comportamento foi observado e avaliado por investigadores da Universidad Nacional Autónoma de México, que utilizaram um procedimento experimental para comprovarem a influência das guimbas de cigarro sobre parasitas que atacam as crias de aves.

Os cientistas verificaram que ninhos com pontas de cigarros fumados apresentavam menos parasitas externos do que aqueles construídos com pontas de cigarros não fumados.
Bem, nada de especial, escarnecerão os mais radicais, acrescentando que o tabaco é tão mau que nem os parasitas o aguentam.
cigarette-butt-bird_V√≠ctor ArgaezOs investigadores verificaram que as aves que utilizam as beatas nos seus ninhos, pardais (Passer domesticus) e a esp√©cie de tentilh√£o Carpodacus mexicanus, o poder√£o fazer como recurso a um insecticida natural, j√° que as pontas dos cigarros preservam quantidades de nicotina e outras subst√Ęncias qu√≠micas.
Um amigo meu ingl√™s j√° me havia descrito que infus√Ķes frias de beatas de cigarros quando vertidas nos vasos de plantas ornamentais as tornam mais saud√°veis. Ou assim diz ele.
Estes investigadores não descartaram a hipótese de que as aves utilizem as beatas como um revestimento térmico para os ninhos, uma vez que estas têm celulose. Tão pouco afastam que as vantagens de as aves utilizarem a nicotina como desparasitante sejam anuladas pelos efeitos tóxicos dos químicos tabágicos.
art-016Ainda que n√£o totalmente esclarecidos, os autores prop√Ķem duas hip√≥teses para o comportamento das aves: as subst√Ęncias qu√≠micas presentes nas pontas de cigarro poder√£o estimular o sistema imunit√°rio das crias e, assim, favorecer as suas hip√≥teses de sobreviv√™ncia. A segunda hip√≥tese aponta para que os qu√≠micos presentes nas bitucas de cigarros possam ter um papel mais directo, evidente e j√° referido: as beatas seriam um insecticida natural, que desinfectaria os ninhos de parasitas externos.

Esquecendo as infus√Ķes de nicotina e desejando que as hip√≥teses levantadas sejam testadas, o que as aves urbanas parecem ter descoberto √© a reutiliza√ß√£o do arsenal qu√≠mico dos cigarros a favor das suas crias.
Ao contrário do que escreveu Tchekov, estas aves mexicanas descobriram os benefícios do tabaco.

Aparentemente.

 

ResearchBlogging.orgReferências:

Suárez-Rodríguez M, López-Rull I, & Macías Garcia C (2012). Incorporation of cigarette butts into nests reduces nest ectoparasite load in urban birds: new ingredients for an old recipe? Biology letters, 9 (1) PMID: 23221874

Imagens:

1 – daqui

2 – de Vitor Argaez – daqui

3 – daqui

 (PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

Dinossauros e as Aves

ResearchBlogging.orgContinuação de Dinossauros: Novas Técnicas, Velhos Mitos (2)
Desde a descoberta, em 1861, do Archaeopteryx lithographica, animal que apresentava características comuns às aves e aos répteis, os paleontólogos percorreram uma verdadeira cruzada científica para provar que as aves descendiam dos dinossauros. O Archaeopteryx apresentava verdadeiras asas e penas, o que o classificava como ave, mas, simultaneamente, podia-se observar que as suas asas apresentavam garras e o seu bico tinha uma série de dentes.
A partir de meados da d√©cada de 80 do s√©culo passado, v√°rias descobertas t√™m completado o traArchaeopteryx (Large).jpgjecto de parentesco entre aves e dinossauros. A maioria dessas descobertas foi feita em jazidas chinesas, mas n√£o s√≥. Contudo, antes de apresentar estas novas “contrata√ß√Ķes” √© importante referir que tanto o Archaeopteryx, como a maioria dos exemplares chineses, procedem de um tipo especial de jazida designada, a partir do alem√£o, de Konservat-Lagerstatten.
Estas jazidas, pelas suas características geológicas, apresentam a propriedade de preservar em detalhe estruturas frágeis como, por exemplo, asas de insecto, pêlos de mamíferos e, importante para se perceber a evolução das aves, também as penas e os seus ossos frágeis. Se o Archaeopteryx procedia de um Konservat-Lagerstatten da Baviera alemã, a maioria das preciosidades paleontológicas que foram descobertas apenas a partir de 1984, são oriundas das jazidas de Liaoning, no nordeste da China [8].
500px-Archiesizeall1.svg.pngOs paleontólogos de vertebrados costumam afirmar, em jeito de brincadeira, que podemos esperar quase tudo de Liaoning. A inveja salutar subjacente a este comentário não minimiza, contudo, a realidade científica excepcional que os achados de Liaoning representam, tendo estes servido para comprovar quase todas as etapas evolutivas dos dinossauros para as aves, numa realidade científica sem precedentes.

Confuciusornis
, Changchengornis, Eoconfuciusornis ou Sinornis são algumas das espécies de aves primitivas que foram descobertas nas jazidas chinesas, podendo as morfologias corporais das aves actuais ser observadas nestes exemplares fósseis.
Para al√©m das penas, outras caracter√≠sticas anat√≥micas, como um bico c√≥rneo, banal nas aves da actualidade, pode ser observada pela primeira vez no grupo de aves primitivas a que pertencem Confuciusornis ou Eoconfuciusornis, esp√©cies que viveram num intervalo temporal que se estendeu entre os 120 e os 131 milh√Ķes de anos.
A presença de penas assimétricas, características de um voo activo, já pode ser observada nalgumas aves primitivas de Liaoning.
Confuciusornis sanctus and Eoconfuciusornis (Large).jpg
Apesar da enorme diversidade de aves primitivas provenientes da China, outros países têm contribuído para esta saga de conhecimento da transição evolutiva dinossauros-aves. Na jazida de Las Hoyas, em Cuenca, Espanha, foram descobertos os vestígios que permitiram classificar outra ave primitiva РIberomesornis romerali [9].
Esta esp√©cie contribuiu para a compreens√£o dos mecanismos de voo das primeiras aves, j√° que √© uma ave que apresenta o que se designa por f√ļrcula, estrutura √≥ssea que permite que os membros anteriores das aves executem os movimentos de voo semelhantes aos das aves modernas. Iberomesornis apresentava tamb√©m as v√©rtebras caudais distais fundidas, tal como as aves modernas.
Mas outros exemplares de aves primitivas foram descobertos e descritos pela equipa de paleontólogos da Universidad Autónoma de Madrid, como Concornis lacustris e Eoalulavis hoyasi.
Recentemente, Las Hoyas revelou outra das etapas evolutivas, desta vez não das aves, mas ainda dos dinossauros não-avianos, com a apresentação de Concavenator corcovatus, o mais antigo dinossauro com evidências de penas na sua anatomia [10].
Se os exemplos de aves primitivas apresentados e respectiva sequência de características anatómicas próximas às modernas atestam parte do percurso evolutivo destes animais, também é possível verificar nos dinossauros ditos não-avianos algumas particularidades anatómicas comuns à linhagem aviana, das quais saliento a presença de penas em várias espécies de dinossauros.
A maioria dos não-especialistas apontaria a presença de penas como condição suficiente para a classificação de um animal como ave, já que esta estrutura não é encontrada actualmente em mais nenhum grupo zoológico. Contudo, o registo fóssil de penas em grupos de dinossauros não-avianos tem vindo a crescer, quer na quantidade de dinossauros descritos, quer na sua antiguidade.
Dinossauros como Sinosauropteryx, Shuvuuia, Beipiaosaurus, Caudipteryx, Sinornithosaurus ou Microraptor apresentavam penas, de diversos tipos e em zonas corporais distintas.
Microraptor, dinossauro datado de h√° 128 milh√Ķes de anos, revelava penas n√£o s√≥ nos membros anteriores, mas tamb√©m nos membros posteriores, avan√ßando alguns paleont√≥logos que este dinossauro poderia ter apresentado um padr√£o de voo planado semelhante ao observado em alguns mam√≠feros planadores actuais.
No próximo post abordarei o aparecimento do voo e das penas.
Para j√° um v√≠deo sobre o Archaeopteryx que apesar de algumas pequenas imprecis√Ķes serve para introduzir este importante exemplar da hist√≥ria evolutiva das Aves aos mais novos

Referências:
[8] Hou, L. & Liu, Z. 1984. A new fossil bird from Lower Cretaceous of Gansu and early evolution of birds. Scientific Sinica (Series B) 27(12): 1296-1302.
[9] Sanz, J., Bonapartet, J., & Lacasa, A. (1988). Unusual Early Cretaceous birds from Spain Nature, 331 (6155), 433-435 DOI: 10.1038/331433a0
[10] Ortega F, Escaso F, & Sanz JL (2010). A bizarre, humped Carcharodontosauria (Theropoda) from the lower cretaceous of Spain. Nature, 467 (7312), 203-6 PMID: 20829793
Imagens:
1Archaeopteryx lithographica a) vista lateral do esqueleto; b, c) cr√Ęneo em vista lateral; d) mand√≠bula inferior direita com dentes; e) penas.
Imagem compósita adaptada de figura 9.2. de Benton, M. J. (2004) Vertebrate Palaeontology, 3rd Edition ISBN: 978-0-632-05637-8 e de figura 10.5 de Fastovsky, D. E. and Weishampel, D. B. (2009) Dinosaurs: A Concise Natural History. Cambridge University Press ISBN 978-0-521-71902-5.
2– os v√°rios exemplares de Archaeopteryx comparados com o ser humano. Daqui.
3– a) Esqueleto de Confuciusornis sanctus, reconstitui√ß√£o (canto inferior esquerdo) e detalhe de pena caudal (canto superior direito). Imagem comp√≥sita adaptada de Chiappe et al. 1999. b) Cr√Ęneo e mand√≠bula de Eoconfuciusornis zhengi. Imagem de Zhang et al. 2008.

Aprender de Ouvido

Em crian√ßas, balbuciamos o que ouvimos, esperando que nos escutem. Praticamos futuros discursos a partir de ouvidas conversas, trauteando a m√ļsica de palavras que desconhecemos, cobertos por emprestadas capas sonoras.
Vemos os nossos pais também com os ouvidos, numa aprendizagem que é conhecida por todos, enfim.
Mas n√£o somos os √ļnicos a faz√™-lo.
Cheryl Warrick1.jpgAs aves canoras aprendem igualmente com um adulto a arte que as ir√° transformar em verdadeiras bandas-sonoras ambulantes. Aprendem de ouvido, deduzo.
O que agora revelam os cientistas é a descoberta de uma zona cerebral responsável pela memorização/aprendizagem do canto pelas aves.
ResearchBlogging.orgA novidade científica é importante para a poesia ou para a compreensão dos processos biológicos dos animais que povoam os nossos céus, arrisco. Para os colegas cientistas, o essencial desta descoberta reside em que poderá contribuir para a compreensão dos processos de aprendizagem da linguagem no ser humano. Tal como nós, nas aves canoras as zonas da memória auditiva e da produção sonora estão localizadas em áreas distintas dos seus cérebros. A memória auditiva, por vezes negligenciada tanto no nosso imaginário, como sobretudo em áreas da pedagogia, tem um papel vital na aprendizagem da produção oral.
Memorizar o que se ouve √© fundamental na aquisi√ß√£o e desenvolvimento da linguagem pelas crian√ßas. H√° que ouvir, para depois falar, sempre ouvi dizer… as aves que o comprovem, canto eu de galo.
As memórias sonoras parecem ser assim responsáveis pela iniciação musical das divas que voam nos campos.
Numa das suas saborosas cr√≥nicas, Fernando Alves citava um destes dias um prov√©rbio chin√™s: “Um passarinho n√£o canta porque tem uma resposta. Canta porque tem uma can√ß√£o.”
Cheryl Warrick.jpgE de onde lhes vem a canção que cantam?
Já vimos que ouvindo um mestre, mas é preciso algo mais que saber ouvir.
O cérebro das jovens aves revive, durante a noite, o canto do progenitor, sendo activadas as zonas cerebrais da memória sonora. A activação neuronal nocturna implica, assim, a memória auditiva.
Para cantar, a jovem ave sonha com o canto do mestre, penso eu.
Sem solfejo ou conservatório, as aves canoras aprendem.
Aprendem de ouvido.
Nos dias alcatifados de sons em que vivemos, estará a arte de aprender ouvindo próxima do silêncio total?
Referência:
Gobes, S., Zandbergen, M., & Bolhuis, J. (2010). Memory in the making: localized brain activation related to song learning in young songbirds Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 277 (1698), 3343-3351 DOI: 10.1098/rspb.2010.0870
Imagens: Cheryl Warrick
Publicado no jornal barlavento de 20 de Janeiro de 2011

O Chapeleiro Louco e as Aves Desafinadas

P04043_9.jpg РNaquela direcção Рdisse o Gato, levantando a pata direita Рvive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Março. Visita o que quiseres, ambos são loucos.
РMas eu não quero estar ao pé de gente louca Рrespondeu Alice.
РOh, não podes evitá-lo Рdisse o Gato. РAqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.

Que têm em comum o Chapeleiro Louco e o canto das aves?
A resposta tortuosa pode ser…o merc√ļrio.
N√£o Merc√ļrio, o deus dos comerciantes, da eloqu√™ncia e dos ladr√Ķes, mas antes o elemento qu√≠mico.
Vamos ver se consigo resumir.
Há centenas de anos que tecidos de origem animal são utilizados na manufactura de chapéus. No século XIX, a pele mais apetecível para o fabrico de chapéus era a do castor, mas a caça a este animal implicou a sua escassez, o que levou à utilização de peles de coelho.
As peles necessitam de um amaciamento pr√©vio, sendo utilizados produtos qu√≠micos, normalmente compostos de merc√ļrio, como o nitrato de merc√ļrio (2; p.52).
N√£o irei descrever os processos da manufactura de chap√©us, apenas refiro que o car√°cter rudimentar da tecnologia qu√≠mica e das normas de seguran√ßa laboral envolvidas, colocava os chapeleiros em s√©rios riscos de contamina√ß√£o por merc√ļrio, originando o hidrargirismo (nome da contamina√ß√£o).
309goya.jpgTremores f√≠sicos caracter√≠sticos, bem como v√°rias patologias neurol√≥gicas designadas colectivamente de eretismo, s√£o algumas das altera√ß√Ķes provocadas pela intoxica√ß√£o cr√≥nica por merc√ļrio. Timidez e irritabilidade extremas, alucina√ß√Ķes e incapacidade de pensar correctamente, s√£o tamb√©m comportamentos t√≠picos destas intoxica√ß√Ķes.
Este quadro cl√≠nico, muito comum no s√©culo passado entre os chapeleiros, contribuiu para a g√©nese da express√£o “Mad as a hatter” (louco como um chapeleiro).
As altera√ß√Ķes neurol√≥gicas por merc√ļrio poder√£o igualmente ter despertado o esp√≠rito criativo de Lewis Carroll na cria√ß√£o da personagem do Chapeleiro Louco, presente no intemporal “Alice No Pa√≠s das Maravilhas” (3).
A literatura, desta vez, não parece ter sido maior que a Vida, antes se tendo inspirado num quotidiano tão pouco poético.

O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
РEm que dia do mês estamos? Рperguntou, voltando-se para Alice.
Tirara o relógio e olhava-o, inquieto, abanando-o de vez em quando e levando-o ao ouvido.
Alice pensou e depois respondeu:
– A quatro.
– Dois dias atrasado! – disse o Chapeleiro com um suspiro.
РBem te disse que a manteiga não lhe faria bem! Рacrescentou, lançando à Lebre de Março um olhar furibundo.
РMas era manteiga da melhor qualidade! Рrespondeu a Lebre de Março com brandura.
РSim, mas também devem ter entrado migalhas de pão lá para dentro Рresmungou o Chapeleiro. РNão devias ter usado a faca do pão.

Aves Desafinadas
As contamina√ß√Ķes ambientais podem influenciar directa ou indirectamente muitas fun√ß√Ķes biol√≥gicas dos seres vivos. Entre as consequ√™ncias temos, por exemplo, altera√ß√Ķes dos ciclos reprodutivos, desenvolvimento de tumores ou at√© o canto de algumas aves.
Investigadores americanos avaliaram o chilrear de tr√™s esp√©cies de aves, a carri√ßa da Carolina (Thryothorus ludovicianus), da curru√≠ra (Troglodytes aedon) e do pardal-cantor (Melospiza melodia), numa √°rea contaminada por merc√ļrio – South River, na Virg√≠nia.

Esta √°rea industrial foi contaminada durante mais de 30 anos, sendo os n√≠veis de merc√ļrio no sangue e nas penas das aves desta regi√£o muito superiores ao das aves de √°reas circundantes.
Este grupo de p√°ssaros adquire as suas capacidades sonoras de “ouvido”, ou seja por interm√©dio da audi√ß√£o de outras aves. Este facto exclui que diferentes performances sonoras possam ser de origem gen√©tica, sendo antes um reflexo de aprendizagens distintas. Desta forma, podem ser avaliadas as implica√ß√Ķes ambientais nas altera√ß√Ķes dos trinados das aves.
Apesar dos resultados estarem condicionados pela diminuta amostra (veja-se, por exemplo a recta de regress√£o), este trabalho indicia que as aves em terrenos contaminados por merc√ļrio apresentam uma menor diversidade de sons emitidos do que as mesmas aves de terrenos n√£o-contaminados.
O merc√ļrio parece ter assim um papel uniformizante de uma caracter√≠stica que tanto apreciamos nas aves: o canto.
Mas porquê? Estariam estes pássaros a enlouquecer, como os chapeleiros do século XIX?
regressão.jpgOs resultados apoiam outros autores que já anteriormente haviam demonstrado que aves vivendo próximo de siderurgias apresentavam transtornos semelhantes, isto é, os seus cantos eram menos diversificados do que aves vivendo em áreas não-contaminadas.
Poderemos pensar que se viv√™ssemos perto de uma siderurgia tamb√©m ter√≠amos pouca vontade de cantar….√© verdade.
Mas o click para este problema musical est√° no facto de que as contamina√ß√Ķes por metais, como por exemplo o merc√ļrio, alteram a capacidade auditiva das aves juvenis, impedindo-as de escutar na plenitude as “li√ß√Ķes” musicais do seus pais.
Dito de outra forma: a cantoria das aves de South River tornou-se minimalista, menos diversificada, tanto no n√≠vel de intensidade, como na variedade de tons emitidos, devido √†s aves juvenis ouvirem mal os seus pais – os pais de adolescentes sabem do que estou a falar…
Referências:
ResearchBlogging.org
1 Hallinger, K., Zabransky, D., Kazmer, K., & Cristol, D. (2010). Birdsong Differs between Mercury-polluted and Reference Sites The Auk, 127 (1), 156-161 DOI: 10.1525/auk.2009.09058
2Jacob, V. (2005). The Elements of Murder. A History of Poison. Von John Emsley. Angewandte Chemie International Edition, 44 (45), 7332-7332 DOI: 10.1002/anie.200585343
3Waldron HA (1983). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? British medical journal (Clinical research ed.), 287 (6409) PMID: 6418283
4 – excertos de “Alice no Pa√≠s das Maravilhas”
Imagens:
Peter Blake `For instance now, now there’s the King’s messenger’ , 1970
Francisco de Goya Y Lucientes, The Yard of a Madhouse, 1794 – daqui
Thryothorus ludovicianus: daqui
Gr√°fico – de 1.

Baleias com patas, a Origem das Espécies e aves fósseis

Charles Darwin - Evolution(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 24/11/2005)

Hoje comemoram-se 146 anos de exist√™ncia de um livro que teve fortes repercuss√Ķes pelas suas propostas de Evolu√ß√£o pelo mecanismo de Selec√ß√£o Natural. A 24 de Novembro de 1859, Charles Darwin publicou “A Origem das Esp√©cies” com uma primeira edi√ß√£o de 1250 exemplares que esgotou no seu dia de lan√ßamento.
Darwin defendia que o meio ambiente e as rela√ß√Ķes entre os pr√≥prios seres vivos exercem uma selec√ß√£o que favorece os mais aptos enquanto os menos dotados s√£o eliminados, transmitindo-se √† gera√ß√£o seguinte as diferen√ßas que facilitam aquela sobreviv√™ncia. Ao longo das gera√ß√Ķes, essas caracter√≠sticas acentuam-se e geram uma nova esp√©cie.
Darwin foi convidado em 1831 a participar numa volta ao mundo no navio Beagle promovida pela marinha inglesa. A expedição Рque durou cinco anos Рtinha o objectivo de melhorar e completar dados cartográficos. Esta viagem foi decisiva para fundamentar as suas teorias evolutivas.
Am√©rica do Sul, Austr√°lia e Nova Zel√Ęndia foram alguns dos locais em que Beagle efectuou paragens. Surpreendeu-se com o grande n√ļmero de esp√©cies de plantas e de animais que, at√© ent√£o, eram desconhecidos. O que lhe chamou mais aten√ß√£o foram a enorme diversidade de tentilh√Ķes, que s√≥ conheceu no arquip√©lago das Gal√°pagos.
Early_birds_dinosaursO registo fóssil

Quando Darwin prop√īs que a Evolu√ß√£o se dava pela Selec√ß√£o Natural, o registo f√≥ssil oferecia ainda poucas evid√™ncias que apoiassem as suas ideias.
Actualmente os paleont√≥logos contam com mais informa√ß√£o fossil√≠fera do que aquela que dispunha Darwin. Este dedicou dois cap√≠tulos da sua “Origem das Esp√©cies” √† imperfei√ß√£o do registo f√≥ssil, provavelmente porque constatava que estaria a√≠ um dos pontos mais fracos da sua argumenta√ß√£o. Dois anos depois da publica√ß√£o do seu livro, o primeiro exemplar de Archaeopteryx foi descoberto na Baviera, constituindo um dos “elos perdidos” entre as aves e os r√©pteis.
O registo fóssil está longe de ser perfeito Рfaltam assim muitos elementos de transição na história evolutiva dos seres vivos. Este é um dos argumentos com que os Criacionistas (opositores à Teoria da Evolução, populares sobretudo nos EUA) se valem no seu ataque a Darwin.

As √ļltimas estimativas apontam para que apenas 1% de todas as esp√©cies animais e vegetais que habitaram o nosso planeta ficaram preservadas como f√≥sseis. Raz√Ķes para esta escassez de informa√ß√£o f√≥ssil s√£o v√°rias, mas podemos apontar que as condi√ß√Ķes f√≠sicas necess√°rias √† preserva√ß√£o de um ser vivo sob a forma de f√≥ssil s√£o muito raras. Grande parte dos seres vivos √© constitu√≠da por partes moles; este facto contribui igualmente para que o registo f√≥ssil seja desprovido da maioria dos “actores” da vida sobre a Terra.
Mas existem numerosos exemplos que reflectem as etapas de transição entre diversos grupos de organismos, corroborando Darwin.
Para al√©m do j√° referido Archaeopteryx (descoberto em sedimentos da Baviera com 150 milh√Ķes de anos) foi descoberta nos √ļltimos 20 anos toda uma pan√≥plia de formas de transi√ß√£o entre os dinoss√°urios carn√≠voros (semelhantes ao Velociraptor) e as actuais aves: Confuciusornis (China, primeira evid√™ncia de um bico sem dentes); Iberomesornis (Espanha, apresentava uma estrutura √≥ssea semelhante √†s aves actuais que permitia inserir a musculatura espec√≠fica para o voo), entre in√ļmeros outros exemplos.
Whales evolutionAs patas das Baleias

Outro dos exemplos que se podem apresentar para ilustrar as transi√ß√Ķes evolutivas sofridas pelos organismos √© a evolu√ß√£o das baleias.
A maioria das pessoas tem, pelo menos a no√ß√£o, de que a vida terrestre surgiu a partir de vertebrados que deixaram o ambiente aqu√°tico. Todas as formas de animais que ocuparam e ocupam um ambiente terrestre, descendem desses primeiros colonizadores. O que a maioria das pessoas n√£o sabe √© que o grupo de animais a que pertencem as actuais baleias descendem de um grupo que “decidiu” voltar a ambientes aqu√°ticos, donde tinham sa√≠do h√° mais 250 milh√Ķes de anos.
Em 1983 foram descobertos no Paquist√£o f√≥sseis de um animal que tinha vivido h√° cerca de 52 milh√Ķes de anos. Este animal, Pakicetus, apresentava ainda corpo com forma para a vida terrestre (membros com capacidade de locomo√ß√£o em terra) mas tinha um cr√Ęneo e dentes com caracter√≠sticas t√≠picas dos ancestrais dos actuais baleias. Onze anos mais tarde e igualmente no Paquist√£o foi descoberto o Ambulocetus natans (literalmente baleia caminhante que nada). O Ambulocetus tinha o tamanho de um le√£o-marinho e apresentava as patas (sim esta baleia ancestral tinha patas!) com capacidades para desloca√ß√£o em ambiente terrestre. Igualmente exibia os seus p√©s e m√£os com capacidade natat√≥ria – ou seja este animal possu√≠a capacidades para se deslocar em ambiente terrestre e aqu√°tico.
Aparentemente o Ambulocetus nadava como uma lontra, com movimentos para cima e para baixo (dados da morfologia da sua coluna vertebral atestam-no).
Em 1995 um terceiro elemento de transi√ß√£o foi descoberto – o Dalanistes. Apresentava os membros mais curtos que Ambulocetus, cauda e cr√Ęneo mais alongados ou seja mais semelhantes √†s actuais baleias.
Actualmente mais de uma d√ļzia de f√≥sseis ilustrativos das transi√ß√Ķes evolutivas dos cet√°ceos (grupo a que pertencem as baleias) j√° foram descobertos.
Complementarmente análises de ADN mitocondrial aos actuais representantes dos cetáceos permitem apontar que estes pertencem ao grupo dos artiodáctilos, mais concretamente são parentes próximos dos hipopótamos.
No dia de anivers√°rio da A Origem das Esp√©cies, que fez com que o Homem descesse de mais um dos seus in√ļmeros pedestais, podemos afirmar que o registo f√≥ssil √© mais um dos motivos de orgulho para Darwin.
Ao contr√°rio do que receava, o trabalho de investiga√ß√£o paleontol√≥gico nos √ļltimos 100 anos, permitiu que o registo f√≥ssil seja mais uma prova de que Darwin n√£o estava e n√£o est√° errado.

Imagem – Werner Horvath: “Charles Robert Darwin – Evolution”. Oil on canvas