Fósseis РHistória e mitos populares

Os f√≥sseis ao longo dos tempos nem sempre foram encarados como registo de uma vida passada que permitem reconstituir tudo aquilo que se passou biologicamente no nosso planeta. Associa√ß√Ķes dos f√≥sseis a acontecimentos hist√≥ricos bem como tradi√ß√Ķes e mitos populares de v√°rias partes do mundo s√£o in√ļmeros. Alguns deles s√£o aqui referidos.
F√≥ssil deriva do termo fossilis referido pela primeira vez por Pl√≠nio, o Velho (23-79 DC). A sua raiz fossus, partic√≠pio passado de fodere (i.e. cavar), significa literalmente “o que se extrai cavando“.
Adrienne Mayor refere no seu livro “The first fossil hunters” que na origem da figura mitol√≥gica Grifo estar√£o estado os dinoss√°urios. Sen√£o vejamos o seu racioc√≠nio: no s√©c. VII A.C., os gregos estabelecem contactos com n√≥madas Saka (exploradores de ouro no deserto de Gobi). Estes povos da √Āsia central referiam que existia um monstro protector das reservas de ouro que teria cabe√ßa e asas de √°guia num corpo de le√£o – √© o nascimento da lenda do grifo na cultura grega. Nos anos 20 do s√©c. XX s√£o descobertos dinoss√°urios no deserto de Gobi, um dos quais o Protoceratops – dinoss√°urio com uma projec√ß√£o craneal semelhante a um bico.

A enorme semelhança de aspecto entre os restos de Protoceratops e a figura mitológica do grifo poderá explicar que os primeiros gregos (desconhecedores dos dinossáurios) tenham tomado conhecimento do seres do mesozóico muito antes de Richard Owen os definir no séc. XIX.

Outro dos exemplos históricos em que o registo fóssil e a história se cruzam diz respeito a Santo Agostinho (Aurelius Augustinus, 354-430 DC).
Em 413, no seu livro A Cidade de Deus, √© referido um molar gigantesco atribu√≠do a um gigante ancestral. Como outros autores at√© a√≠, pensava que os f√≥sseis eram o resultado do Dil√ļvio. Acreditava igualmente que os seres humanos haviam diminu√≠do de tamanho ao longo dos tempos. Esse molar seria um vest√≠gio desses tempos em que os humanos apresentavam um tamanho colossal – hoje sabemos que esse molar n√£o √© mais do que o resto fossilizado de um parente dos actuais elefantes.

Belemnite

Em rela√ß√£o a um dos f√≥sseis comuns no registo paleontol√≥gico portugu√™s – belemnites – tamb√©m existem v√°rias cren√ßas populares. As belemnites s√£o o resto fossilizado de seres marinhos semelhantes a lulas e que habitavam o planeta nos tempos dos dinoss√°urios. Os restos que s√£o preservados apresentam uma forma c√≥nica, parecida com balas. √Č a sua forma que contribui para que v√°rios povos expliquem a sua origem de maneiras distintas da real – resto de um ser vivo.

A designa√ß√£o inglesa para belemnite √© thunderstone (pedra-de-raio) pois pensava-se que resultavam da queda de um rel√Ęmpago. No folclore chin√™s as belemnites s√£o conhecidas como Jien-shih ou pedras-espada. Na Escandin√°via aqueles f√≥sseis s√£o vistos como velas de elfos, gnomos ou de fadas. Nalgumas √°reas ainda s√£o actualmente designadas de vateljus que em sueco significa literalmente luzes de gnomo.

Outro modo de explicar o aparecimento de fósseis é a sua atribuição a fenómenos religiosos.
As amonitesmoluscos cefalópodes marinhos semelhantes aos Nautilóides, existentes em várias afloramentos do país, exs: Figueira da Foz, Peniche.Na zona de Whitby, Inglaterra, considerava-se que eram restos petrificados de cobras que outrora haviam invadido esta área. A praga havia sido terminada por Santa Hilda (614-680 DC), que as transformou em rochas.

Orthosphynctes sp., Portugal

Associadas ao deus egípcio Ammon (representado por vezes com cornos retorcidos, de onde deriva o nome amonites), eram encaradas pelos gregos clássicos como símbolos sagrados capazes de curar mordeduras de cobra, cegueira, esterilidade ou impotência. Alguns romanos acreditavam que podiam prever o futuro se dormissem com uma amonite piritizada sob o travesseiro.

Dentes de tubar√£o fossilizados (geralmente de Carcharodon) eram utilizados como amuletos contra venenos. As designa√ß√Ķes tradicionais para estes f√≥sseis inclu√≠am Glossopetrae (l√≠ngua de pedra), Linguae Melitensis (l√≠nguas de Malta) ou Linguae S. Pauli (l√≠nguas de S√£o Paulo). Esta √ļltima √© explicada pela seguinte associa√ß√£o entre um facto b√≠blico e a consequente explora√ß√£o popular. Como referido em Actos dos Ap√≥stolos (28:2-7), S√£o Paulo, em Malta, foi mordido por uma cobra. Este atirou-a para a fogueira n√£o tendo sofrido qualquer dano f√≠sico.

Como castigo divino as cobras terão perdido o seu veneno bem como os olhos e língua ficando para sempre os vestígios preservados sob a forma petrificada.

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 29/09/2005)

Imagens: da Wikipedia, p√°ginas de Belemnites e Amonites.