F√≥sseis, animais e outros que tais…

A n√£o perder a Palestra do paleont√≥logo Carlos Marques da Silva do Dep. de Geologia da Faculdade de Ci√™ncias da UL, hoje, dia 24 de Janeiro, pelas 21h30 (v√° l√°, as novelas n√£o s√£o nada comparadas com este folhetim evolutivo…), na Galeria Matos Ferreira (bom programa antes de irem beber um copo ao Bairro Alto), na R. Luz Soriano, 14 e 18, √† cal√ßada do Combro.

Integrada no ciclo “Do Gr√£o ao Planeta”, a palestra intitula-se “Gravado na Pedra: Registo F√≥ssil e Evolu√ß√£o”

“Quando se fala de evolu√ß√£o a primeira coisa que nos vem √† mente √©: progresso!

No dia a dia, quando se usa o termo evolu√ß√£o, ele √© quase sempre empregue como sin√≥nimo de melhoria. E quando se fala de “evolu√ß√£o biol√≥gica”, uma vez mais, por arrastamento, a ideia dominante, √© que se est√° a falar de “progresso biol√≥gico” ao longo do tempo. Pois se os mam√≠feros (entenda-se: n√≥s!) ainda c√° est√£o e os dinoss√°urios se extinguiram… devemos ser melhor que eles. √Č a “Evolu√ß√£o”!

Contudo, evolu√ß√£o n√£o significa progresso, nem semanticamente, nem biologicamente. Evolu√ß√£o √© mudan√ßa! √Č transforma√ß√£o! √Č, parafraseando Cam√Ķes, mudarem-se os tempos e mudarem-se as vontades; mudar-se o ser e mudar-se a confian√ßa; pois todo o mundo √© composto de mudan√ßa, tomando sempre novas qualidades.

A “Evolu√ß√£o biol√≥gica”, por outro lado, n√£o √© “apenas” uma teoria, √© um facto! Os grupos biol√≥gicos variam, modificam-se ao longo do tempo, e isso pode ser constatado inequivocamente. Esse facto est√° bem patente no mundo em que vivemos, quer no mundo vivo, biol√≥gico, quer no seu registo fossilizado, geol√≥gico. A “Teoria da Evolu√ß√£o”, por seu turno, √© a constru√ß√£o mental que procura explicar os factos evolutivos e que, fazendo-o, permite formular um grande n√ļmero de previs√Ķes sobre a evolu√ß√£o biol√≥gica. S√£o coisas distintas, ainda que intimamente interligadas.

A palestra “Escrito na Pedra” abordar√° a Evolu√ß√£o Biol√≥gica e a Teoria da Evolu√ß√£o Biol√≥gica e, com base em exemplos paleontol√≥gicos, retirados do registo f√≥ssil, abordar√° conceitos evolutivos b√°sicos, evid√™ncias concretas e, espera-se, desmistificar√° mitos e desfar√° equ√≠vocos da Evolu√ß√£o.”

Imagens – Carlos Marques da Silva

Museus de História Natural РDodós modernos?

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 12/10/2006)

O drama biológico do Dodó é sobejamente conhecido Рave originária das ilhas Maurícias e parente dos actuais pombos, não voava e não tinha qualquer receio da espécie humana.
Estes dois factos terão estado na origem da sua extinção no séc. XVII.

O Dod√≥ extinguiu-se porque n√£o foi capaz de se adaptar √†s altera√ß√Ķes introduzidas no seu habitat pela press√£o de um factor externo – a actividade humana.
N√£o tenho a certeza da validade da met√°fora do Dod√≥ para os Museus de Hist√≥ria Natural mas, tal como o primeiro, estes √ļltimos encontram-se, a n√≠vel mundial, a atravessar um momento de forte press√£o “ambiental”.

Durante a minha escola primária tive duas ou três visitas ao Museu Zoológico da Universidade de Coimbra.

Foram momentos de pura felicidade em que nos deslumbrámos com numerosas espécies empalhadas, só o esqueleto ou conservadas dentro de frascos.
Foi o meu primeiro contacto com parte daquilo que se entende por um Museu de História Natural (MHN).
Este conceito emanou do de Gabinete de Curiosidades (s√©c. XVI) em que os profissionais das ci√™ncias biol√≥gicas acumulavam exemplares biol√≥gicos (esqueletos, conchas, peles, flores, etc.) de “fora” com o objectivo n√£o s√≥ de os preservarem mas igualmente de os utilizarem como materiais de estudo para os seus alunos. Isto ocorreu numa √©poca em que os cientistas naturais come√ßavam verdadeiramente a construir o seu campo de investiga√ß√£o.
Posteriormente e com o apogeu dos Exploradores Naturalistas no s√©culo XIX – exemplo paradigm√°tico √© o de Darwin – as colec√ß√Ķes dos MHN s√£o ampliadas com esp√≥lio proveniente de diversas partes do mundo, “servindo” n√£o s√≥ a ci√™ncia como igualmente a curiosidade do habitantes das metr√≥poles relativamente a tudo aquilo que vinha das col√≥nias.

FUN√á√ēES DE UM MHN

INVESTIGA√á√ÉO/COLEC√á√ēES

√Č fundamental que qualquer MHN tenha uma pol√≠tica de estudo das suas colec√ß√Ķes bem como profissionais especializados (bi√≥logos, paleont√≥logos, antrop√≥logos) nos seus quadros capazes da organiza√ß√£o, cataloga√ß√£o, inventaria√ß√£o e estudo do esp√≥lio natural.
O estudo das colec√ß√Ķes por parte de investigadores deve ser uma das principais linhas de orienta√ß√£o de qualquer MHN.
Prova desta import√Ęncia √© o Programa Synthesys, suportado pela Uni√£o Europeia e que possibilita a mobilidade de investigadores de diversas √°reas (gen√©tica, zoologia, paleontologia, antropologia, etc.) a diversos MHN europeus. Desta forma se pode estudar o Patrim√≥nio Natural europeu, permitindo um conhecimento cada vez mais amplo da Hist√≥ria Natural.
Segundo Keith S. Thomson, director do Museu Universit√°rio de Oxford, as colec√ß√Ķes de um MHN devem ter tr√™s objectivos principais:
Informa√ß√£o – as colec√ß√Ķes devem constituir uma enorme biblioteca dos seres vivos que j√° habitaram e habitam o nosso planeta. Por exemplo um investigador em farmacologia deve poder localizar os “parentes” de determinada planta que tenha um efeito medicinal; um bi√≥logo molecular poder√° encontrar o ADN de uma esp√©cie extinta e compreender melhor a evolu√ß√£o do patrim√≥nio gen√©tico desse ser vivo; um agr√≥nomo poder√° estudar determinado insecto ou planta resistente a uma doen√ßa para uma poss√≠vel cura;
Desta forma o Patrim√≥nio Natural, passado e presente, que s√£o as colec√ß√Ķes de um MHN constitui a base da investiga√ß√£o em √°reas cient√≠ficas fundamentais tais como: evolu√ß√£o, ecologia, altera√ß√Ķes clim√°ticas, biogeografia, etologia e, se incluirmos as ci√™ncias humanas, aspectos culturais humanos.
Identifica√ß√£o – todo o objecto de uma colec√ß√£o de um MHN deve estar correctamente identificado e catalogado e, consequentemente, enquadrado quer temporal quer espacialmente – onde, como, quando e por quem foi colhido, s√£o informa√ß√Ķes absolutamente fundamentais. Sem estas informa√ß√Ķes bem como a posterior descri√ß√£o e enquadramento taxon√≥mico, o exemplar fica desenquadrado e praticamente sem valor cient√≠fico embora possa ser utilizado para fins de divulga√ß√£o/exibi√ß√£o. Para al√©m do referido √© necess√°rio a actualiza√ß√£o do enquadramento da classifica√ß√£o.
Compara√ß√£o – para al√©m de todos os exemplares, alguns colectados h√° mais de 200 anos, actualmente tamb√©m se “arquivam” amostras de ADN e tecidos biol√≥gicos. Por interm√©dio do estudo comparativo, os investigadores analisam exemplares de diversos pontos geogr√°ficos e de v√°rias idades, n√£o s√≥ em busca de padr√Ķes de fen√≥menos naturais como tamb√©m identificar as suas causas e prever o seu curso futuro.
No meu caso pessoal, permite-me estudar e digitalizar os restos fossilizados dos dinossáurios saurópodes, sejam espécies sul-americanas, asiáticas ou africanas, com vista à compreensão da evolução daquele grupo de animais extintos.
Como se pode compreender os MHN têm um papel fundamental não só na protecção da Biodiversidade como da sua compreensão, quer a passada quer a presente, com vista a um melhor futuro ambiental.

DIVULGAÇÃO/EDUCAÇÃO

Para al√©m das fun√ß√Ķes de investiga√ß√£o e preserva√ß√£o do Patrim√≥nio Natural, um MHN deve constituir um espa√ßo acess√≠vel de educa√ß√£o cient√≠fica em diversos campos e a diversos n√≠veis. Protec√ß√£o do Patrim√≥nio Natural, Educa√ß√£o Ambiental e Educa√ß√£o para a Cidadania s√£o √°reas em a interven√ß√£o destes espa√ßos museol√≥gicos deve ocorrer.
Apesar de todo o potencial atractivo de que gozam e sempre gozaram os MHN, tamb√©m enfrentam hoje em dia uma s√©rie de desafios que passam pelos “inimigos” de muitas √°reas: a Televis√£o, a Internet, entre outros.

Hoje em dia podemos observar quase tudo e de uma variedade enorme de maneiras. Os MHN t√™m assim que ter a capacidade de reagir √†s exig√™ncias dos novos p√ļblicos, cada vez mais informados e exigentes. Estes p√ļblicos procuram saber mais do que o nome e a proveni√™ncia quando visitam uma exposi√ß√£o de hist√≥ria natural – procuram saber qual o papel daquele actor natural no seu ambiente natural; qual o papel que essa entidade natural tem ou teve na vida actual do visitante. Este conjunto de informa√ß√Ķes deve tamb√©m procurar evitar um dos perigos comuns – o do esp√≠rito parque tem√°tico como a Disneyl√Ęndia.
Cada vez mais na base na base de uma exposi√ß√£o de hist√≥ria natural devem estar ideias e temas actuais, mais do que as colec√ß√Ķes.
Estas devem servir antes para contar uma história do que serem elas próprias a história.

Os MHN têm, assim, que se adaptar a novas realidades para que não sejam eles próprios novos Dodós.
Tenho trabalhado e feito investigação em diversos Museus de História Natural mundiais Рde Nova Iorque a Marraquexe, de Berlim a Trelew na profunda Patagónia.
Encontrei condi√ß√Ķes de trabalho muito diferentes; profissionais melhor preparados que outros; espa√ßos f√≠sicos maiores ou mais pequenos; de estilo cl√°ssico ou do mais puro vanguardismo arquitect√≥nico.
Mas em todos eles se procura preservar, compreender e divulgar o Património Natural nas suas diversas vertentes para que um dia saibamos não
só o que foi um Dodó mas também porque não podemos observar um hoje em dia.

Imagem daqui

Referências
Keith S. Thomson. Natural History Museum Collections in the 21st Century. – daqui