Angela Davis

Por Thais Rodrigues – Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de São Paulo, docente no Instituto Federal de Goiás e integrante do Grupo FiloPol – UNIFESP/CNPq e Diversas IFG/CNPq – Lattes

E por Laíssa Ferreira – Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do Grupo de Pesquisa em Filosofia Política – CNPq – Lattes

PDF – Angela Davis

Foto: Djeneba Aduayom for TIME

A filósofa e ativista Angela Yvonne Davis, conhecida por sua luta anticapitalista, antirracista e feminista, nasceu em 26 de janeiro de 1944 na cidade de Birmingham, Alabama, região Sul dos Estados Unidos. Filha mais velha de Sally e Frank Davis, Angela Davis cresceu em uma família politicamente ativa durante o período de vigência das leis de segregação Jim Crow. Seus pais eram professores, participavam de movimentos antirracistas como a NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) e tinham como amigos próximos integrantes do Partido Comunista. Portanto, não foi inesperado o seu envolvimento na luta pelos direitos civis, uma vez que essa consciência política foi desenvolvida desde a sua infância.

Angela Davis teve uma carreira educacional muito promissora e com episódios que a marcaram por toda a vida, a começar pela sua vivência na escola segregada Carrie A. Tuggle Elementary School. A experiência de convívio somente com crianças negras tornou possível a construção de uma identidade negra mesmo em um local com uma estrutura tão precária (Cf. Davis, 2019, p.102). Aos 15 anos, Davis foi para Nova York estudar na Elisabeth Irwin High School pelo programa American Friends Service Committee (Comitê de Assistência dos Amigos Estadunidenses; AFSC, na sigla original), onde aprendeu sobre socialismo nas aulas de história (Cf. Davis, 2019, p. 117-8). No socialismo ela identificou uma possibilidade concreta de resolver os problemas enfrentados pelo povo negro. A partir de então, e por conta própria, Davis buscou entender melhor este movimento nos livros aos quais tinha acesso e através da participação em uma organização marxista-leninista para jovens chamada Advance (Progresso) irmã do Partido Comunista. 

Em 1961, Davis ingressa na Universidade de Brandeis, Massachusetts, para estudar Literatura Francesa. Nessa época, ela já se declarava comunista, embora ainda não estivesse envolvida em nenhum movimento oficial, pois, nas suas palavras, “tornar-se comunista é assumir um compromisso vitalício que exige muita reflexão séria a respeito de se possuir o conhecimento, a força, a perseverança e a disciplina que uma pessoa comunista precisa ter” (Davis, 2019a, p.165). Durante a graduação, ela consegue uma bolsa de estudos de um ano pelo programa Hamilton College e vai estudar na Sorbonne, em Paris. Lá, ela se interessa por textos existencialistas de Sartre e pela fenomenologia de Merleau-Ponty. 

Quando retorna do intercâmbio na França, Davis se vê cada vez mais interessada pela filosofia, sobretudo por Marx, seus antecessores e sucessores. Decide, portanto, procurar pelo professor Herbert Marcuse, que veio a orientar os seus estudos filosóficos até o fim da graduação. 

Após se formar em 1965, Angela Davis segue para a Alemanha para fazer pós-graduação em Filosofia, cujo tema era a liberdade como categoria estética nas obras de Kant e Schiller, sob orientação do professor Theodor Adorno na Universidade Goethe, em Frankfurt. No entanto, quando o movimento pela libertação negra passa por uma metamorfose decisiva, e as organizações se transformam diante de seus olhos, Davis toma a difícil decisão de retornar aos Estados Unidos, pois sentia que precisava fazer parte daquele movimento em 1967. 

Ao retornar para os Estados Unidos, a filósofa vai para a Los Angeles com a intenção de concluir seu doutorado na Universidade da Califórnia, sob orientação do professor Marcuse. Paralelamente, ela se envolve em diversas atividades voltadas ao ativismo político e direitos da população negra e é neste período que ela se depara com uma questão que vai perdurar por toda a sua vida política: o sexismo dentro do movimento pela libertação negra (Cf. Davis, 2019, p.148-9). Este período também foi marcado pela percepção da necessidade de organização das massas, que só teria efeito concreto a partir de um processo, acima de tudo, educativo.

Em 1968, Angela Davis filiou-se oficialmente ao Partido Comunista através do Coletivo Che-Lumumba, do qual já fazia parte, e tornou-se professora assistente do Departamento de Filosofia da UCLA. Devido à filiação ao PC, ela sofreu dura perseguição política pelo corpo diretivo da universidade e do governador Ronald Reagan, até ser demitida em 1969. Davis recebeu a notícia de sua demissão enquanto participava de uma manifestação pela libertação dos Irmãos Soledad: George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette.

Seu envolvimento com o Comitê de Defesa dos Irmãos Soledad foi usado como um pretexto para acusarem-na de assassinato, sequestro e conspiração. Ao ser colocada na lista dos dez mais procurados pelo FBI, ela se manteve na clandestinidade em uma tentativa de tentar entender o que realmente estava acontecendo, mas logo foi presa e permaneceu cativa por 16 meses. Sua prisão, claramente política, mobilizou o mundo inteiro através da campanha feita pelo Comitê Libertem Angela Davis e Todos os Presos Políticos, até ela ser inocentada de todas as acusações.

Embora seu rosto tenha se tornado conhecido em todo o mundo como representante da luta pelos direitos da população negra nos Estados Unidos, Davis sempre demonstrou preocupação em não se colocar no lugar de representante de um movimento. A ação coletiva sempre foi o seu objetivo, pois entendia que a revolução não era algo temporário, mas um compromisso para a vida toda. Ela tinha consciência de que fazia parte de um processo, de um coletivo. 

Após conquistar sua liberdade, Davis dedicou-se ao ativismo, especialmente à luta pelo abolicionismo penal – um movimento teórico e social de reflexão e atuação política que visa o fim do aprisionamento como mecanismo primordial de punição. Em 1994, a filósofa retornou à UCLA como professora especialista nos estudos de raça e gênero, filosofia, teoria crítica, abolicionismo penal e feminismo negro. Atualmente é professora emérita da Universidade da Califórnia.

Sua atuação política gerou impactos na sociedade negra estadunidense, especialmente, através de seus projetos educacionais. O fato de ser professora, pesquisadora e militante tornou evidente que é possível e necessário levar uma vida que reconcilie a academia com a ação política. Embora Davis passasse por vários momentos de dúvida sobre qual caminho seguir, sua história de vida nos mostra que não se trata exatamente de uma escolha. Ela nos mostra que é possível ser intelectual, ser pesquisadora e lutar ativamente em nome dos povos oprimidos ao mesmo tempo.

A metáfora da cabeça de Jano – deus romano ligado às contradições e começos –, que Davis cita em sua autobiografia se manteve presente em sua juventude: ela expõe assim a dificuldade de escolher entre o anseio por participar da luta em Birmingham (sua ligação com o passado) e o anseio pelo seu próprio futuro acadêmico, (Cf. Davis, 2019, p.121). Ao longo de sua trajetória, ela encontra, no entanto, o caminho para que as duas faces de Jano pudessem estar juntas e olhando para um mesmo horizonte. Ela percebe, então, que não havia necessidade de se desligar da própria história para olhar para o futuro, como pensava a princípio. Sua formação acadêmica torna-se justamente uma ferramenta de luta contra a opressão.

Uma vez feita esta descoberta, Davis deixa de manter separadas a sua vida intelectual e sua vida como ativista. As questões filosóficas que a motivaram dentro da academia eram questões relacionadas às suas vivências e às contradições do seu tempo presente. Além disso, Davis pensava que a filosofia deve ser relevante para os problemas humanos: “se ela não nos diz como podemos erradicar algumas das misérias deste mundo, então não merece o nome de filosofia” (Davis, 2010, p.66, tradução nossa). 

Sua formação e o contato inicial com o marxismo na juventude pavimentou esse caminho de união entre teoria e prática, entre vida acadêmica e ativismo. Isso porque, de um lado, ela relaciona o marxismo à corrente de pensamento na qual esteve inserida desde a sua primeira formação. De outro, vê nele uma possibilidade de unir a classe trabalhadora multirracial para servir como agente histórico da mudança social. Trazendo as experiências do povo negro para o centro de debate sobre o capitalismo – atenta, portanto, às opressões de classe e de raça – Davis reformula as suas primeiras questões filosóficas. Para ela, se um conceito não corresponde à realidade, deve ser reformulado. Para pensar as questões do presente, ela combina reflexões produzidas no âmbito da filosofia alemã e da teoria crítica – por filósofos como Kant, Hegel, Marx, Marcuse, Adorno e Oscar Negt – com reflexões produzidas pelos grandes (porém esquecidos) teóricos da História e Literatura Tradicional Negra – James Baldwin, Frederick Douglass e W. E. B. Du Bois. Esta habilidade de pensar a partir da experiência comum do povo negro é uma estratégia comum usada por teóricas negras, que se mostra muito potente para ampliar o debate e trazer novas dimensões às questões tradicionais da filosofia. Com essa estratégia torna-se possível repensar questões que eram consideradas como universais, mas que na verdade não incluíam a perspectiva do povo negro. Sendo assim, liberdade, libertação e identidade, conceitos tradicionais da filosofia, tornam-se também conceitos chaves em sua literatura.

Para Angela Davis, a filosofia fornece ferramentas conceituais para abordar aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade (a interconexão das opressões de gênero, raça e classe). Essas ferramentas servem como base para desenvolver uma crítica social e criar estratégias para uma transformação real da sociedade. Seu projeto filosófico tem esse objetivo: unir filosofia, teoria crítica, teoria feminista e estudos negros para que, por fim, se consiga criar estratégias reais de transformação social que visem acabar com o capitalismo e todo tipo de opressão.

OBRAS 

As obras de Angela Davis têm sido interpretadas à luz de alguns de seus grandes temas: os escritos sobre as prisões, os estudos sobre as relações entre sexismo, racismo e capitalismo e os estudos e análises sobre a cultura. Sua vasta produção intelectual é constituída por livros, artigos, capítulos de livros, falas públicas em universidades, em eventos e em organizações políticas.

Nesse sentido, Lectures on Liberation [Discursos sobre Libertação], constituem um importante documento para o entendimento da obra da autora: são anotações das duas primeiras aulas ministradas por Davis no outono de 1969, na UCLA, sob o título “Recurring Philosophical Themes in Black Literature” [Temas Filosóficos Recorrentes na Literatura Negra]. A autora aborda o caráter complexo da escravização e da busca por liberdade, o formalismo das democracias modernas e a necessidade de desatrelarmos valores democráticos de valores burgueses, trazendo à luz abolicionistas notórios na história dos Estados Unidos, como Frederick Douglass, o sociólogo W. E. B. Du Bois, assim como importantes mulheres ativistas como Harriet Tubman e Sojourner Truth.

If They Come in the Morning…Voices of Resistance [Se Eles Vierem pela Manhã…Vozes de Resistência] é o primeiro livro publicado pela autora, em 1971. Trata-se de uma coletânea preparada para publicação por ela e por membros do Comitê Nacional para a Libertação de Angela Davis e Todos os Presos Políticos. A obra aborda as políticas de libertação do período, a função social das prisões nos Estados Unidos, as políticas prisionais, seu caráter racista e as dimensões que estas assumem quando conectados à questão de gênero. Constituído de cartas, ensaios e artigos, o livro dialoga com as formulações teóricas e práticas políticas dos movimentos negros estadunidenses do período. Denuncia a arbitrariedade de sua própria perseguição e aprisionamento, da prisão de outros inúmeros ativistas políticos do período e é pioneiro na denúncia do sistema prisional “como um apêndice do estado capitalista e um instrumento para opressão racial e de classe” (Davis, 1971, Prefácio, tradução nossa).

Outra importante obra escrita na juventude é a sua autobiografia, publicada em 1974 e intitulada Angela Davis: Uma autobiografia. Nesta obra, a autora dialoga com um importante gênero literário estadunidense, que tem raízes nas slave narratives: narrativas autobiográficas com propósitos políticos, constituídas de relatos autorais de ex-escravizadas/os. Sua autobiografia, transformada em lugar teórico, estabelece uma relação dialética entre o pessoal e o político, que visa alargar o conhecimento de um determinado contexto através da experiência compartilhada. Seus objetivos iniciais se relacionam à visibilização de experiências que permitam, de um lado, compreender os fenômenos sociais, tais como as discriminações interconectadas às quais mulheres negras estão submetidas, e, de outro lado, organizar políticas de resistência a situações de opressão, auxiliando na resolução de questões que permaneçam presentes. Sua remissão às experiências de mulheres escravizadas, a Soujorner Truth e a muitas outras, pretende apresentar ainda a importância de uma compreensão de mundo que vise estabelecer uma continuidade histórica: algo fundamental para o avanço das causas progressistas e procedimento padrão do feminismo negro estadunidense.

Obra de referência para o feminismo negro e os estudos integrativos, Mulheres, Raça e Classe, publicada em 1981, é constituída por um estudo histórico e filosófico amplo sobre as condições de existência das mulheres negras. Remontando à escravização de africanas e africanos e seus descendentes nas Américas, às campanhas feministas e abolicionistas do século XIX e XX e à dificuldade do movimento negro estadunidense em elaborar estratégias de enfrentamento ao sexismo na luta antirracista, o livro trata também do enfrentamento ao racismo na luta pelos direitos das mulheres e da tendência desses movimentos a não levar em consideração as especificidades das mulheres negras e trabalhadoras.

Parte fundamental de suas análises é a desconstrução de estereótipos e imagens fictícias atribuídas às mulheres negras e a oposição ao discurso hegemônico do movimento organizado de mulheres brancas, que invisibilizava a produção intelectual e as práticas de organização social das mulheres negras. Esta obra inicial de Davis se insere no contexto de revisitação da história da escravização, no qual estavam sendo publicadas análises sobre as comunidades negras. A autora ressalta, contudo, que poucas pesquisas tinham como foco a experiência das mulheres negras e as consequências dessas experiências para a compreensão do racismo, do sexismo e do capitalismo contemporâneos.

Composto por treze capítulos, o livro aborda de modo sistemático temas como exploração do trabalho, violência sexual, emancipação, educação, temas contemporâneos como direitos reprodutivos e a contínua exploração do trabalho doméstico. Considerado um de seus trabalhos mais históricos, este é um livro pioneiro no entendimento das inter-relações entre gênero, raça e classe, possuindo ainda a singularidade de oferecer uma análise não apenas abstrata, mas comprometida com a transformação social e com a crítica do capitalismo. 

Mulheres, Cultura e Política, publicado em 1990, reúne textos e discursos que aprofundam temas abordados em Mulheres, Raça e Classe e traz novas elaborações, especialmente no que concerne a noções de empoderamento, lutas pela paz, crise do capitalismo, feminismo negro transnacional, conexões entre gênero, raça e classe na produção das opressões e manifestações de cultura. A autora centra-se na experiência das mulheres negras em suas múltiplas dimensões, afirmando que elas estão “situadas na intersecção entre racismo, sexismo e injustiça econômica”, suportando “o peso desse processo opressivo complexo” (DAVIS, 2017, p. 56). Neste momento, Davis dialoga com a sensibilidade analítica emergente no período, que culmina na criação das teorias da interseccionalidade, ainda que faça críticas posteriores a essas teorias.

A obra Angela Davis Reader, ainda sem tradução para o português, é uma coletânea de textos da autora, publicada em 1998 e editada por Joy James. Divididos em cinco partes, os textos selecionados abordam temas centrais para a autora: prisões, repressão e resistência; marxismo, antirracismo e feminismo; estética e cultura, sendo ainda constituído por entrevistas e um apêndice. Nestes textos são abordados a sua atuação como ativista e intelectual ao longo de mais de três décadas, as elaborações sobre a luta antiprisional e sobre os feminismos antirracistas, os ensaios sobre cultura e estética, e as articulações elaboradas pela autora entre gênero, raça e classe, cultura, economia e política. Este livro configura uma importante obra da autora, na medida em que é constituído por textos antigos e recentes de sua autoria, o que demonstra o aprofundamento dos principais temas abordados por Davis ao longo de sua trajetória e suas contribuições para a teoria democrática, os feminismos antirracistas, as lutas políticas do último século e os estudos críticos da contemporaneidade.

Publicado no mesmo ano, Blues Legacies and Black Feminism: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith, and Billie Holiday [Legados do Blues e Feminismo Negro: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith, and Billie Holiday] (1998) apresenta uma análise cultural das performances de algumas das mais importantes cantoras de Blues dos Estados Unidos. A obra parte da hipótese de que estas performances correspondem a um lugar de recuperação de formas históricas de construção da consciência de mulheres negras e da classe trabalhadora, ao abordar temas como ideologia, sexualidade, violência, relações afetivas e ativismo político através da música e da estética. Esta obra pode ser considerada uma das mais instigantes análises da cultura negra produzida por mulheres nos Estados Unidos.

Dentre as obras mais recentes da autora, Estarão as Prisões Obsoletas? (2003) é um estudo sobre o abolicionismo penal, tendência de reflexão e atuação política que informa a necessidade de alternativas ao encarceramento como punição primordial e instrumento de reforma prisional. A partir das conexões entre o histórico de encarceramento e o racismo, Davis continua as reflexões sobre as prisões, iniciadas ainda no cárcere, na década de 1970. Agora explorando o nexo entre o passado escravocrata e o sistema prisional, as inter-relações entre o sistema prisional e o gênero, e o conjunto de projetos e instituições que compõem o “complexo industrial-prisional”. Segundo Davis, para o entendimento do significado social da prisão hoje se faz necessária a compreensão das relações aparentemente diretas entre crime e castigo, a consideração das estruturas e das ideologias econômicas e políticas do capitalismo, bem como o entendimento de uma persistência global do racismo. O livro é uma fundamental contribuição para o abolicionismo penal, uma das teorias mais radicalmente libertárias de nosso tempo.

A Democracia da Abolição: Para Além do Império, das Prisões e da Tortura, publicado em 2005, é um livro constituído de entrevistas, que aprofunda as investigações sobre as prisões e acrescenta uma nova abordagem que interpreta os históricos sistemas interconectados de opressão como mecanismos que impedem a construção de uma verdadeira democracia. A partir daí, Davis propõe a noção de “democracia da abolição”. Em um período paradigmático de opressão, perseguição étnica e guerra nos Estados Unidos, ela aborda a violência exercida nos presídios, a ausência de cidadania, as violações de direitos humanos perpetradas pelo exército americano no Iraque e afirma a importância da recuperação de teorias e práticas que visem à consolidação de uma identidade política nas lutas contra o racismo em todo o mundo. Davis analisa o vertiginoso crescimento da população carcerária feminina e indica a necessidade da criação de noções de democracia pautadas na igualdade econômica, racial, de gênero e sexo (Cf. 2019b, p. 80), muito distintas das ideias predominantes que associam e assemelham democracia e capitalismo.

The Meaning of Freedom and Other Difficult Dialogues, [O Significado de Liberdade e Outros Diálogos Difíceis] de 2012, é uma obra que examina o fundamental problema da liberdade, em uma retomada e reelaboração de uma questão cara à autora, abordada desde as suas primeiras Lectures na Universidade da Califórnia Los Angeles. Composto por doze discursos até então não publicados, a obra aborda as interconexões entre gênero, raça e classe, acrescidas de questões contemporâneas como os direitos das comunidades LGBTQIA+, o complexo industrial-prisional, as atualizações do racismo, o multiculturalismo e os desafios das lutas contra o capitalismo em sua dimensão neoliberal. Neste livro, ela interpreta a noção de liberdade, não como conceito abstrato ou um direito inerente ao ser humano, mas como luta coletiva que necessita hoje de novas abordagens para a criação de reflexões e práticas políticas que façam oposição às desigualdades e injustiças sociais e econômicas. Sua interpretação retoma análises históricas e visa um horizonte de emancipação e liberdade.

Publicado em 2015, A Liberdade é uma Luta Constante aborda, em dez capítulos, questões contemporâneas como o aumento e a recorrência do racismo e da violência policial nos Estados Unidos. Analisa os novos movimentos sociais contra a discriminação racial surgidos no bojo de inúmeros protestos em seu país e em todo o mundo. Neste livro, Davis indica a necessidade de que os movimentos estejam atentos ao caráter global do racismo, e às conexões entre a violência racial em seu país, na Palestina, no Brasil e em outras regiões do mundo. Ela também dá continuidade à sua crítica ao capitalismo, indicando feminismo e abolicionismo como teorias e práticas potentes do século XXI, incitando à criação de solidariedades transnacionais na busca pela desestruturação das relações desiguais de poder no sistema capitalista. A ideia central é a criação de elos entre as lutas sociais para a consolidação do que ela denomina “interseccionalidade de lutas”, um aprofundamento do conceito que permite o entendimento global das ligações entre as lutas contra o racismo e a busca por justiça social, a criação do socialismo e de “futuros mais habitáveis” (DAVIS, 2021a, n.p).

PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES

Ainda que sejam muitos os temas abordados em sua obra, consideramos que o feminismo antirracista e anticapitalista possui centralidade em sua produção intelectual, desde a abordagem das opressões interconectadas vivenciadas pelas mulheres negras escravizadas em seu primeiro artigo Reflections on the Black Woman’s Role in the Community of Slaves [Reflexões sobre o Papel da Mulher Negra na Comunidade de Pessoas Escravizadas], até o último livro mencionado, A Liberdade é uma Luta Constante. Na abordagem dessa temática está uma das mais relevantes contribuições da autora, que, ao conectar a categoria gênero à raça e classe em uma análise descritiva e prescritiva, visa à transformação social. Estão dentre as principais contribuições: 1) a reelaboração da história dos movimentos feministas estadunidenses, indicando uma longa genealogia de contribuições políticas e intelectuais de mulheres negras; 2) a afirmação da importância das conexões entre movimentos sociais, da atenção às questões de gênero nos movimentos negros e da temática racial nos movimentos feministas.

Para além da apreciação dos marcadores sociais gênero, raça e classe como conformadores de identidades, ao problematizar as conexões entre as opressões em suas múltiplas dimensões, Davis nos insta à problematização das relações de poder em níveis macrossociais, o que contribui para o desenvolvimento de explicações mais potentes sobre a natureza das desigualdades sociais em geral. Nesse sentido, ela antecipa as teorias que visam o entendimento das conexões entre racismo, sexismo e opressão de classe, tais como a interseccionalidade e os Race, Gender and Class Studies [Estudos de Raça, Gênero e Classe], e alia essa conexão entre teoria e prática a uma contundente crítica ao capitalismo, entendido como o sistema econômico que mobiliza as opressões racista e sexista para a manutenção da exploração econômica e de sociedades baseadas na injustiça social. Com isso, Davis possibilita a emergência de uma nova abordagem do poder, pautada no entendimento das conexões entre sistemas históricos de opressão, em detrimento de uma abordagem fragmentadora. A filósofa desenvolve suas elaborações simultaneamente ao desenvolvimento de teorias que visam uma compreensão mais ampla das conexões entre racismo e sexismo, oferecendo uma contribuição que tem como horizonte a constituição de resistências pautadas por um feminismo transnacional, antirracista e anticapitalista.

A liberdade é outro tema presente ao longo de toda a trajetória intelectual de Angela Davis, sendo o objeto principal da sua tese de doutorado sobre a noção de liberdade em Kant – pesquisa interrompida pela urgência de sua participação nas lutas por libertação negra do período – e também o tema central do primeiro curso ministrado na Universidade da Califórnia em 1969, que abordava o problema da liberdade a partir da perspectiva de pessoas escravizadas. Naquele curso, Davis parte do relato de Frederick Douglass na obra Narrativa da Vida de Frederick Douglass para mostrar aos seus alunos que a tradição filosófica não havia abordado o conceito de maneira suficientemente crítica. Angela Davis reflete sobre a liberdade da perspectiva daqueles que não a possuem para defender uma abordagem não meramente abstrata: quando interpretada por pessoas que não a possuem, a liberdade ganha o caráter dinâmico de um processo de libertação, que envolve resistências múltiplas.

Para Angela Davis, o que tem ocorrido é um “nivelamento do discurso político” que toma como evidentes termos como “democracia” e “liberdade”, e esse entendimento tem possibilitado a agressão e a injúria (DAVIS, 2019b, p. 85). Davis anuncia essa crítica em seu primeiro livro publicado If They Come in the Morning, no qual afirma haver uma incongruência entre democracia e capitalismo, já que “a despeito de toda a retórica em contrário, o povo não é matriz última das leis que o governam, e menos ainda as pessoas negras e nacionalmente oprimidas” (2016a, p. 27). Nesse sentido, a noção de democracia também é objeto de crítica constante, intimamente relacionada ao questionamento da noção de liberdade. Para Davis, ambos os conceitos – democracia e liberdade – têm sido interpretados à luz da ideologia burguesa: a liberdade mormente associada à propriedade, e a democracia como mecanismo político que reforça as opressões. Daí a sua insistência na urgência da construção de noções de democracia que sejam efetivamente pautadas na justiça e na igualdade econômica, racial, de gênero e de sexo, algo que só conquistaremos a partir da luta coletiva e da constituição de alianças entre causas progressistas. Trabalho que ela tem realizado ao longo de toda a sua vida, ao conciliar reflexão filosófica e ativismo político. 

Referências Bibliográficas

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