Angela Davis

(1944)

Por Thais Rodrigues – Doutoranda no Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Filosofia da Universidade Federal de S√£o Paulo, docente no Instituto Federal de Goi√°s e integrante do Grupo FiloPol ‚Äď UNIFESP/CNPq e Diversas IFG/CNPq – Lattes

E por La√≠ssa Ferreira – Doutoranda no Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do Grupo de Pesquisa em Filosofia Pol√≠tica ‚Äď CNPq – Lattes

PDF – Angela Davis

Foto: Djeneba Aduayom for TIME

A fil√≥sofa e ativista Angela Yvonne Davis, conhecida por sua luta anticapitalista, antirracista e feminista, nasceu em 26 de janeiro de 1944 na cidade de Birmingham, Alabama, regi√£o Sul dos Estados Unidos. Filha mais velha de Sally e Frank Davis, Angela Davis cresceu em uma fam√≠lia politicamente ativa durante o per√≠odo de vig√™ncia das leis de segrega√ß√£o Jim Crow. Seus pais eram professores, participavam de movimentos antirracistas como a NAACP (Associa√ß√£o Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) e tinham como amigos pr√≥ximos integrantes do Partido Comunista. Portanto, n√£o foi inesperado o seu envolvimento na luta pelos direitos civis, uma vez que essa consci√™ncia pol√≠tica foi desenvolvida desde a sua inf√Ęncia.

Angela Davis teve uma carreira educacional muito promissora e com epis√≥dios que a marcaram por toda a vida, a come√ßar pela sua viv√™ncia na escola segregada Carrie A. Tuggle Elementary School. A experi√™ncia de conv√≠vio somente com crian√ßas negras tornou poss√≠vel a constru√ß√£o de uma identidade negra mesmo em um local com uma estrutura t√£o prec√°ria (Cf. Davis, 2019, p.102). Aos 15 anos, Davis foi para Nova York estudar na Elisabeth Irwin High School pelo programa American Friends Service Committee (Comit√™ de Assist√™ncia dos Amigos Estadunidenses; AFSC, na sigla original), onde aprendeu sobre socialismo nas aulas de hist√≥ria (Cf. Davis, 2019, p. 117-8). No socialismo ela identificou uma possibilidade concreta de resolver os problemas enfrentados pelo povo negro. A partir de ent√£o, e por conta pr√≥pria, Davis buscou entender melhor este movimento nos livros aos quais tinha acesso e atrav√©s da participa√ß√£o em uma organiza√ß√£o marxista-leninista para jovens chamada Advance (Progresso) irm√£ do Partido Comunista. 

Em 1961, Davis ingressa na Universidade de Brandeis, Massachusetts, para estudar Literatura Francesa. Nessa √©poca, ela j√° se declarava comunista, embora ainda n√£o estivesse envolvida em nenhum movimento oficial, pois, nas suas palavras, “tornar-se comunista √© assumir um compromisso vital√≠cio que exige muita reflex√£o s√©ria a respeito de se possuir o conhecimento, a for√ßa, a perseveran√ßa e a disciplina que uma pessoa comunista precisa ter” (Davis, 2019a, p.165). Durante a gradua√ß√£o, ela consegue uma bolsa de estudos de um ano pelo programa Hamilton College e vai estudar na Sorbonne, em Paris. L√°, ela se interessa por textos existencialistas de Sartre e pela fenomenologia de Merleau-Ponty. 

Quando retorna do interc√Ęmbio na Fran√ßa, Davis se v√™ cada vez mais interessada pela filosofia, sobretudo por Marx, seus antecessores e sucessores. Decide, portanto, procurar pelo professor Herbert Marcuse, que veio a orientar os seus estudos filos√≥ficos at√© o fim da gradua√ß√£o. 

Ap√≥s se formar em 1965, Angela Davis segue para a Alemanha para fazer p√≥s-gradua√ß√£o em Filosofia, cujo tema era a liberdade como categoria est√©tica nas obras de Kant e Schiller, sob orienta√ß√£o do professor Theodor Adorno na Universidade Goethe, em Frankfurt. No entanto, quando o movimento pela liberta√ß√£o negra passa por uma metamorfose decisiva, e as organiza√ß√Ķes se transformam diante de seus olhos, Davis toma a dif√≠cil decis√£o de retornar aos Estados Unidos, pois sentia que precisava fazer parte daquele movimento em 1967. 

Ao retornar para os Estados Unidos, a filósofa vai para a Los Angeles com a intenção de concluir seu doutorado na Universidade da Califórnia, sob orientação do professor Marcuse. Paralelamente, ela se envolve em diversas atividades voltadas ao ativismo político e direitos da população negra e é neste período que ela se depara com uma questão que vai perdurar por toda a sua vida política: o sexismo dentro do movimento pela libertação negra (Cf. Davis, 2019, p.148-9). Este período também foi marcado pela percepção da necessidade de organização das massas, que só teria efeito concreto a partir de um processo, acima de tudo, educativo.

Em 1968, Angela Davis filiou-se oficialmente ao Partido Comunista através do Coletivo Che-Lumumba, do qual já fazia parte, e tornou-se professora assistente do Departamento de Filosofia da UCLA. Devido à filiação ao PC, ela sofreu dura perseguição política pelo corpo diretivo da universidade e do governador Ronald Reagan, até ser demitida em 1969. Davis recebeu a notícia de sua demissão enquanto participava de uma manifestação pela libertação dos Irmãos Soledad: George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette.

Seu envolvimento com o Comit√™ de Defesa dos Irm√£os Soledad foi usado como um pretexto para acusarem-na de assassinato, sequestro e conspira√ß√£o. Ao ser colocada na lista dos dez mais procurados pelo FBI, ela se manteve na clandestinidade em uma tentativa de tentar entender o que realmente estava acontecendo, mas logo foi presa e permaneceu cativa por 16 meses. Sua pris√£o, claramente pol√≠tica, mobilizou o mundo inteiro atrav√©s da campanha feita pelo Comit√™ Libertem Angela Davis e Todos os Presos Pol√≠ticos, at√© ela ser inocentada de todas as acusa√ß√Ķes.

Embora seu rosto tenha se tornado conhecido em todo o mundo como representante da luta pelos direitos da popula√ß√£o negra nos Estados Unidos, Davis sempre demonstrou preocupa√ß√£o em n√£o se colocar no lugar de representante de um movimento. A a√ß√£o coletiva sempre foi o seu objetivo, pois entendia que a revolu√ß√£o n√£o era algo tempor√°rio, mas um compromisso para a vida toda. Ela tinha consci√™ncia de que fazia parte de um processo, de um coletivo. 

Após conquistar sua liberdade, Davis dedicou-se ao ativismo, especialmente à luta pelo abolicionismo penal Рum movimento teórico e social de reflexão e atuação política que visa o fim do aprisionamento como mecanismo primordial de punição. Em 1994, a filósofa retornou à UCLA como professora especialista nos estudos de raça e gênero, filosofia, teoria crítica, abolicionismo penal e feminismo negro. Atualmente é professora emérita da Universidade da Califórnia.

Sua atua√ß√£o pol√≠tica gerou impactos na sociedade negra estadunidense, especialmente, atrav√©s de seus projetos educacionais. O fato de ser professora, pesquisadora e militante tornou evidente que √© poss√≠vel e necess√°rio levar uma vida que reconcilie a academia com a a√ß√£o pol√≠tica. Embora Davis passasse por v√°rios momentos de d√ļvida sobre qual caminho seguir, sua hist√≥ria de vida nos mostra que n√£o se trata exatamente de uma escolha. Ela nos mostra que √© poss√≠vel ser intelectual, ser pesquisadora e lutar ativamente em nome dos povos oprimidos ao mesmo tempo.

A met√°fora da cabe√ßa de Jano ‚Äď deus romano ligado √†s contradi√ß√Ķes e come√ßos ‚Äď, que Davis cita em sua autobiografia se manteve presente em sua juventude: ela exp√Ķe assim a dificuldade de escolher entre o anseio por participar da luta em Birmingham (sua liga√ß√£o com o passado) e o anseio pelo seu pr√≥prio futuro acad√™mico, (Cf. Davis, 2019, p.121). Ao longo de sua trajet√≥ria, ela encontra, no entanto, o caminho para que as duas faces de Jano pudessem estar juntas e olhando para um mesmo horizonte. Ela percebe, ent√£o, que n√£o havia necessidade de se desligar da pr√≥pria hist√≥ria para olhar para o futuro, como pensava a princ√≠pio. Sua forma√ß√£o acad√™mica torna-se justamente uma ferramenta de luta contra a opress√£o.

Uma vez feita esta descoberta, Davis deixa de manter separadas a sua vida intelectual e sua vida como ativista. As quest√Ķes filos√≥ficas que a motivaram dentro da academia eram quest√Ķes relacionadas √†s suas viv√™ncias e √†s contradi√ß√Ķes do seu tempo presente. Al√©m disso, Davis pensava que a filosofia deve ser relevante para os problemas humanos: “se ela n√£o nos diz como podemos erradicar algumas das mis√©rias deste mundo, ent√£o n√£o merece o nome de filosofia” (Davis, 2010, p.66, tradu√ß√£o nossa). 

Sua forma√ß√£o e o contato inicial com o marxismo na juventude pavimentou esse caminho de uni√£o entre teoria e pr√°tica, entre vida acad√™mica e ativismo. Isso porque, de um lado, ela relaciona o marxismo √† corrente de pensamento na qual esteve inserida desde a sua primeira forma√ß√£o. De outro, v√™ nele uma possibilidade de unir a classe trabalhadora multirracial para servir como agente hist√≥rico da mudan√ßa social. Trazendo as experi√™ncias do povo negro para o centro de debate sobre o capitalismo ‚Äď atenta, portanto, √†s opress√Ķes de classe e de ra√ßa ‚Äď Davis reformula as suas primeiras quest√Ķes filos√≥ficas. Para ela, se um conceito n√£o corresponde √† realidade, deve ser reformulado. Para pensar as quest√Ķes do presente, ela combina reflex√Ķes produzidas no √Ęmbito da filosofia alem√£ e da teoria cr√≠tica ‚Äď por fil√≥sofos como Kant, Hegel, Marx, Marcuse, Adorno e Oscar Negt ‚Äď com reflex√Ķes produzidas pelos grandes (por√©m esquecidos) te√≥ricos da Hist√≥ria e Literatura Tradicional Negra ‚Äď James Baldwin, Frederick Douglass e W. E. B. Du Bois. Esta habilidade de pensar a partir da experi√™ncia comum do povo negro √© uma estrat√©gia comum usada por te√≥ricas negras, que se mostra muito potente para ampliar o debate e trazer novas dimens√Ķes √†s quest√Ķes tradicionais da filosofia. Com essa estrat√©gia torna-se poss√≠vel repensar quest√Ķes que eram consideradas como universais, mas que na verdade n√£o inclu√≠am a perspectiva do povo negro. Sendo assim, liberdade, liberta√ß√£o e identidade, conceitos tradicionais da filosofia, tornam-se tamb√©m conceitos chaves em sua literatura.

Para Angela Davis, a filosofia fornece ferramentas conceituais para abordar aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade (a interconex√£o das opress√Ķes de g√™nero, ra√ßa e classe). Essas ferramentas servem como base para desenvolver uma cr√≠tica social e criar estrat√©gias para uma transforma√ß√£o real da sociedade. Seu projeto filos√≥fico tem esse objetivo: unir filosofia, teoria cr√≠tica, teoria feminista e estudos negros para que, por fim, se consiga criar estrat√©gias reais de transforma√ß√£o social que visem acabar com o capitalismo e todo tipo de opress√£o.

OBRAS 

As obras de Angela Davis t√™m sido interpretadas √† luz de alguns de seus grandes temas: os escritos sobre as pris√Ķes, os estudos sobre as rela√ß√Ķes entre sexismo, racismo e capitalismo e os estudos e an√°lises sobre a cultura. Sua vasta produ√ß√£o intelectual √© constitu√≠da por livros, artigos, cap√≠tulos de livros, falas p√ļblicas em universidades, em eventos e em organiza√ß√Ķes pol√≠ticas.

Nesse sentido, Lectures on Liberation [Discursos sobre Liberta√ß√£o], constituem um importante documento para o entendimento da obra da autora: s√£o anota√ß√Ķes das duas primeiras aulas ministradas por Davis no outono de 1969, na UCLA, sob o t√≠tulo ‚ÄúRecurring Philosophical Themes in Black Literature‚ÄĚ [Temas Filos√≥ficos Recorrentes na Literatura Negra]. A autora aborda o car√°ter complexo da escraviza√ß√£o e da busca por liberdade, o formalismo das democracias modernas e a necessidade de desatrelarmos valores democr√°ticos de valores burgueses, trazendo √† luz abolicionistas not√≥rios na hist√≥ria dos Estados Unidos, como Frederick Douglass, o soci√≥logo W. E. B. Du Bois, assim como importantes mulheres ativistas como Harriet Tubman e Sojourner Truth.

If They Come in the Morning‚ĶVoices of Resistance [Se Eles Vierem pela Manh√£…Vozes de Resist√™ncia] √© o primeiro livro publicado pela autora, em 1971. Trata-se de uma colet√Ęnea preparada para publica√ß√£o por ela e por membros do Comit√™ Nacional para a Liberta√ß√£o de Angela Davis e Todos os Presos Pol√≠ticos. A obra aborda as pol√≠ticas de liberta√ß√£o do per√≠odo, a fun√ß√£o social das pris√Ķes nos Estados Unidos, as pol√≠ticas prisionais, seu car√°ter racista e as dimens√Ķes que estas assumem quando conectados √† quest√£o de g√™nero. Constitu√≠do de cartas, ensaios e artigos, o livro dialoga com as formula√ß√Ķes te√≥ricas e pr√°ticas pol√≠ticas dos movimentos negros estadunidenses do per√≠odo. Denuncia a arbitrariedade de sua pr√≥pria persegui√ß√£o e aprisionamento, da pris√£o de outros in√ļmeros ativistas pol√≠ticos do per√≠odo e √© pioneiro na den√ļncia do sistema prisional ‚Äúcomo um ap√™ndice do estado capitalista e um instrumento para opress√£o racial e de classe‚ÄĚ (Davis, 1971, Pref√°cio, tradu√ß√£o nossa).

Outra importante obra escrita na juventude √© a sua autobiografia, publicada em 1974 e intitulada Angela Davis: Uma autobiografia. Nesta obra, a autora dialoga com um importante g√™nero liter√°rio estadunidense, que tem ra√≠zes nas slave narratives: narrativas autobiogr√°ficas com prop√≥sitos pol√≠ticos, constitu√≠das de relatos autorais de ex-escravizadas/os. Sua autobiografia, transformada em lugar te√≥rico, estabelece uma rela√ß√£o dial√©tica entre o pessoal e o pol√≠tico, que visa alargar o conhecimento de um determinado contexto atrav√©s da experi√™ncia compartilhada. Seus objetivos iniciais se relacionam √† visibiliza√ß√£o de experi√™ncias que permitam, de um lado, compreender os fen√īmenos sociais, tais como as discrimina√ß√Ķes interconectadas √†s quais mulheres negras est√£o submetidas, e, de outro lado, organizar pol√≠ticas de resist√™ncia a situa√ß√Ķes de opress√£o, auxiliando na resolu√ß√£o de quest√Ķes que permane√ßam presentes. Sua remiss√£o √†s experi√™ncias de mulheres escravizadas, a Soujorner Truth e a muitas outras, pretende apresentar ainda a import√Ęncia de uma compreens√£o de mundo que vise estabelecer uma continuidade hist√≥rica: algo fundamental para o avan√ßo das causas progressistas e procedimento padr√£o do feminismo negro estadunidense.

Obra de refer√™ncia para o feminismo negro e os estudos integrativos, Mulheres, Ra√ßa e Classe, publicada em 1981, √© constitu√≠da por um estudo hist√≥rico e filos√≥fico amplo sobre as condi√ß√Ķes de exist√™ncia das mulheres negras. Remontando √† escraviza√ß√£o de africanas e africanos e seus descendentes nas Am√©ricas, √†s campanhas feministas e abolicionistas do s√©culo XIX e XX e √† dificuldade do movimento negro estadunidense em elaborar estrat√©gias de enfrentamento ao sexismo na luta antirracista, o livro trata tamb√©m do enfrentamento ao racismo na luta pelos direitos das mulheres e da tend√™ncia desses movimentos a n√£o levar em considera√ß√£o as especificidades das mulheres negras e trabalhadoras.

Parte fundamental de suas an√°lises √© a desconstru√ß√£o de estere√≥tipos e imagens fict√≠cias atribu√≠das √†s mulheres negras e a oposi√ß√£o ao discurso hegem√īnico do movimento organizado de mulheres brancas, que invisibilizava a produ√ß√£o intelectual e as pr√°ticas de organiza√ß√£o social das mulheres negras. Esta obra inicial de Davis se insere no contexto de revisita√ß√£o da hist√≥ria da escraviza√ß√£o, no qual estavam sendo publicadas an√°lises sobre as comunidades negras. A autora ressalta, contudo, que poucas pesquisas tinham como foco a experi√™ncia das mulheres negras e as consequ√™ncias dessas experi√™ncias para a compreens√£o do racismo, do sexismo e do capitalismo contempor√Ęneos.

Composto por treze cap√≠tulos, o livro aborda de modo sistem√°tico temas como explora√ß√£o do trabalho, viol√™ncia sexual, emancipa√ß√£o, educa√ß√£o, temas contempor√Ęneos como direitos reprodutivos e a cont√≠nua explora√ß√£o do trabalho dom√©stico. Considerado um de seus trabalhos mais hist√≥ricos, este √© um livro pioneiro no entendimento das inter-rela√ß√Ķes entre g√™nero, ra√ßa e classe, possuindo ainda a singularidade de oferecer uma an√°lise n√£o apenas abstrata, mas comprometida com a transforma√ß√£o social e com a cr√≠tica do capitalismo. 

Mulheres, Cultura e Pol√≠tica, publicado em 1990, re√ļne textos e discursos que aprofundam temas abordados em Mulheres, Ra√ßa e Classe e traz novas elabora√ß√Ķes, especialmente no que concerne a no√ß√Ķes de empoderamento, lutas pela paz, crise do capitalismo, feminismo negro transnacional, conex√Ķes entre g√™nero, ra√ßa e classe na produ√ß√£o das opress√Ķes e manifesta√ß√Ķes de cultura. A autora centra-se na experi√™ncia das mulheres negras em suas m√ļltiplas dimens√Ķes, afirmando que elas est√£o ‚Äúsituadas na intersec√ß√£o entre racismo, sexismo e injusti√ßa econ√īmica‚ÄĚ, suportando ‚Äúo peso desse processo opressivo complexo‚ÄĚ (DAVIS, 2017, p. 56). Neste momento, Davis dialoga com a sensibilidade anal√≠tica emergente no per√≠odo, que culmina na cria√ß√£o das teorias da interseccionalidade, ainda que fa√ßa cr√≠ticas posteriores a essas teorias.

A obra Angela Davis Reader, ainda sem tradu√ß√£o para o portugu√™s, √© uma colet√Ęnea de textos da autora, publicada em 1998 e editada por Joy James. Divididos em cinco partes, os textos selecionados abordam temas centrais para a autora: pris√Ķes, repress√£o e resist√™ncia; marxismo, antirracismo e feminismo; est√©tica e cultura, sendo ainda constitu√≠do por entrevistas e um ap√™ndice. Nestes textos s√£o abordados a sua atua√ß√£o como ativista e intelectual ao longo de mais de tr√™s d√©cadas, as elabora√ß√Ķes sobre a luta antiprisional e sobre os feminismos antirracistas, os ensaios sobre cultura e est√©tica, e as articula√ß√Ķes elaboradas pela autora entre g√™nero, ra√ßa e classe, cultura, economia e pol√≠tica. Este livro configura uma importante obra da autora, na medida em que √© constitu√≠do por textos antigos e recentes de sua autoria, o que demonstra o aprofundamento dos principais temas abordados por Davis ao longo de sua trajet√≥ria e suas contribui√ß√Ķes para a teoria democr√°tica, os feminismos antirracistas, as lutas pol√≠ticas do √ļltimo s√©culo e os estudos cr√≠ticos da contemporaneidade.

Publicado no mesmo ano, Blues Legacies and Black Feminism: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith, and Billie Holiday [Legados do Blues e Feminismo Negro: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith, and Billie Holiday] (1998) apresenta uma an√°lise cultural das performances de algumas das mais importantes cantoras de Blues dos Estados Unidos. A obra parte da hip√≥tese de que estas performances correspondem a um lugar de recupera√ß√£o de formas hist√≥ricas de constru√ß√£o da consci√™ncia de mulheres negras e da classe trabalhadora, ao abordar temas como ideologia, sexualidade, viol√™ncia, rela√ß√Ķes afetivas e ativismo pol√≠tico atrav√©s da m√ļsica e da est√©tica. Esta obra pode ser considerada uma das mais instigantes an√°lises da cultura negra produzida por mulheres nos Estados Unidos.

Dentre as obras mais recentes da autora, Estar√£o as Pris√Ķes Obsoletas? (2003) √© um estudo sobre o abolicionismo penal, tend√™ncia de reflex√£o e atua√ß√£o pol√≠tica que informa a necessidade de alternativas ao encarceramento como puni√ß√£o primordial e instrumento de reforma prisional. A partir das conex√Ķes entre o hist√≥rico de encarceramento e o racismo, Davis continua as reflex√Ķes sobre as pris√Ķes, iniciadas ainda no c√°rcere, na d√©cada de 1970. Agora explorando o nexo entre o passado escravocrata e o sistema prisional, as inter-rela√ß√Ķes entre o sistema prisional e o g√™nero, e o conjunto de projetos e institui√ß√Ķes que comp√Ķem o ‚Äúcomplexo industrial-prisional‚ÄĚ. Segundo Davis, para o entendimento do significado social da pris√£o hoje se faz necess√°ria a compreens√£o das rela√ß√Ķes aparentemente diretas entre crime e castigo, a considera√ß√£o das estruturas e das ideologias econ√īmicas e pol√≠ticas do capitalismo, bem como o entendimento de uma persist√™ncia global do racismo. O livro √© uma fundamental contribui√ß√£o para o abolicionismo penal, uma das teorias mais radicalmente libert√°rias de nosso tempo.

A Democracia da Aboli√ß√£o: Para Al√©m do Imp√©rio, das Pris√Ķes e da Tortura, publicado em 2005, √© um livro constitu√≠do de entrevistas, que aprofunda as investiga√ß√Ķes sobre as pris√Ķes e acrescenta uma nova abordagem que interpreta os hist√≥ricos sistemas interconectados de opress√£o como mecanismos que impedem a constru√ß√£o de uma verdadeira democracia. A partir da√≠, Davis prop√Ķe a no√ß√£o de ‚Äúdemocracia da aboli√ß√£o‚ÄĚ. Em um per√≠odo paradigm√°tico de opress√£o, persegui√ß√£o √©tnica e guerra nos Estados Unidos, ela aborda a viol√™ncia exercida nos pres√≠dios, a aus√™ncia de cidadania, as viola√ß√Ķes de direitos humanos perpetradas pelo ex√©rcito americano no Iraque e afirma a import√Ęncia da recupera√ß√£o de teorias e pr√°ticas que visem √† consolida√ß√£o de uma identidade pol√≠tica nas lutas contra o racismo em todo o mundo. Davis analisa o vertiginoso crescimento da popula√ß√£o carcer√°ria feminina e indica a necessidade da cria√ß√£o de no√ß√Ķes de democracia pautadas na igualdade econ√īmica, racial, de g√™nero e sexo (Cf. 2019b, p. 80), muito distintas das ideias predominantes que associam e assemelham democracia e capitalismo.

The Meaning of Freedom and Other Difficult Dialogues, [O Significado de Liberdade e Outros Di√°logos Dif√≠ceis] de 2012, √© uma obra que examina o fundamental problema da liberdade, em uma retomada e reelabora√ß√£o de uma quest√£o cara √† autora, abordada desde as suas primeiras Lectures na Universidade da Calif√≥rnia Los Angeles. Composto por doze discursos at√© ent√£o n√£o publicados, a obra aborda as interconex√Ķes entre g√™nero, ra√ßa e classe, acrescidas de quest√Ķes contempor√Ęneas como os direitos das comunidades LGBTQIA+, o complexo industrial-prisional, as atualiza√ß√Ķes do racismo, o multiculturalismo e os desafios das lutas contra o capitalismo em sua dimens√£o neoliberal. Neste livro, ela interpreta a no√ß√£o de liberdade, n√£o como conceito abstrato ou um direito inerente ao ser humano, mas como luta coletiva que necessita hoje de novas abordagens para a cria√ß√£o de reflex√Ķes e pr√°ticas pol√≠ticas que fa√ßam oposi√ß√£o √†s desigualdades e injusti√ßas sociais e econ√īmicas. Sua interpreta√ß√£o retoma an√°lises hist√≥ricas e visa um horizonte de emancipa√ß√£o e liberdade.

Publicado em 2015, A Liberdade √© uma Luta Constante aborda, em dez cap√≠tulos, quest√Ķes contempor√Ęneas como o aumento e a recorr√™ncia do racismo e da viol√™ncia policial nos Estados Unidos. Analisa os novos movimentos sociais contra a discrimina√ß√£o racial surgidos no bojo de in√ļmeros protestos em seu pa√≠s e em todo o mundo. Neste livro, Davis indica a necessidade de que os movimentos estejam atentos ao car√°ter global do racismo, e √†s conex√Ķes entre a viol√™ncia racial em seu pa√≠s, na Palestina, no Brasil e em outras regi√Ķes do mundo. Ela tamb√©m d√° continuidade √† sua cr√≠tica ao capitalismo, indicando feminismo e abolicionismo como teorias e pr√°ticas potentes do s√©culo XXI, incitando √† cria√ß√£o de solidariedades transnacionais na busca pela desestrutura√ß√£o das rela√ß√Ķes desiguais de poder no sistema capitalista. A ideia central √© a cria√ß√£o de elos entre as lutas sociais para a consolida√ß√£o do que ela denomina ‚Äúinterseccionalidade de lutas‚ÄĚ, um aprofundamento do conceito que permite o entendimento global das liga√ß√Ķes entre as lutas contra o racismo e a busca por justi√ßa social, a cria√ß√£o do socialismo e de ‚Äúfuturos mais habit√°veis‚ÄĚ (DAVIS, 2021a, n.p).

PRINCIPAIS CONTRIBUI√á√ēES

Ainda que sejam muitos os temas abordados em sua obra, consideramos que o feminismo antirracista e anticapitalista possui centralidade em sua produ√ß√£o intelectual, desde a abordagem das opress√Ķes interconectadas vivenciadas pelas mulheres negras escravizadas em seu primeiro artigo Reflections on the Black Woman‚Äôs Role in the Community of Slaves [Reflex√Ķes sobre o Papel da Mulher Negra na Comunidade de Pessoas Escravizadas], at√© o √ļltimo livro mencionado, A Liberdade √© uma Luta Constante. Na abordagem dessa tem√°tica est√° uma das mais relevantes contribui√ß√Ķes da autora, que, ao conectar a categoria g√™nero √† ra√ßa e classe em uma an√°lise descritiva e prescritiva, visa √† transforma√ß√£o social. Est√£o dentre as principais contribui√ß√Ķes: 1) a reelabora√ß√£o da hist√≥ria dos movimentos feministas estadunidenses, indicando uma longa genealogia de contribui√ß√Ķes pol√≠ticas e intelectuais de mulheres negras; 2) a afirma√ß√£o da import√Ęncia das conex√Ķes entre movimentos sociais, da aten√ß√£o √†s quest√Ķes de g√™nero nos movimentos negros e da tem√°tica racial nos movimentos feministas.

Para al√©m da aprecia√ß√£o dos marcadores sociais g√™nero, ra√ßa e classe como conformadores de identidades, ao problematizar as conex√Ķes entre as opress√Ķes em suas m√ļltiplas dimens√Ķes, Davis nos insta √† problematiza√ß√£o das rela√ß√Ķes de poder em n√≠veis macrossociais, o que contribui para o desenvolvimento de explica√ß√Ķes mais potentes sobre a natureza das desigualdades sociais em geral. Nesse sentido, ela antecipa as teorias que visam o entendimento das conex√Ķes entre racismo, sexismo e opress√£o de classe, tais como a interseccionalidade e os Race, Gender and Class Studies [Estudos de Ra√ßa, G√™nero e Classe], e alia essa conex√£o entre teoria e pr√°tica a uma contundente cr√≠tica ao capitalismo, entendido como o sistema econ√īmico que mobiliza as opress√Ķes racista e sexista para a manuten√ß√£o da explora√ß√£o econ√īmica e de sociedades baseadas na injusti√ßa social. Com isso, Davis possibilita a emerg√™ncia de uma nova abordagem do poder, pautada no entendimento das conex√Ķes entre sistemas hist√≥ricos de opress√£o, em detrimento de uma abordagem fragmentadora. A fil√≥sofa desenvolve suas elabora√ß√Ķes simultaneamente ao desenvolvimento de teorias que visam uma compreens√£o mais ampla das conex√Ķes entre racismo e sexismo, oferecendo uma contribui√ß√£o que tem como horizonte a constitui√ß√£o de resist√™ncias pautadas por um feminismo transnacional, antirracista e anticapitalista.

A liberdade √© outro tema presente ao longo de toda a trajet√≥ria intelectual de Angela Davis, sendo o objeto principal da sua tese de doutorado sobre a no√ß√£o de liberdade em Kant ‚Äď pesquisa interrompida pela urg√™ncia de sua participa√ß√£o nas lutas por liberta√ß√£o negra do per√≠odo ‚Äď e tamb√©m o tema central do primeiro curso ministrado na Universidade da Calif√≥rnia em 1969, que abordava o problema da liberdade a partir da perspectiva de pessoas escravizadas. Naquele curso, Davis parte do relato de Frederick Douglass na obra Narrativa da Vida de Frederick Douglass para mostrar aos seus alunos que a tradi√ß√£o filos√≥fica n√£o havia abordado o conceito de maneira suficientemente cr√≠tica. Angela Davis reflete sobre a liberdade da perspectiva daqueles que n√£o a possuem para defender uma abordagem n√£o meramente abstrata: quando interpretada por pessoas que n√£o a possuem, a liberdade ganha o car√°ter din√Ęmico de um processo de liberta√ß√£o, que envolve resist√™ncias m√ļltiplas.

Para Angela Davis, o que tem ocorrido √© um ‚Äúnivelamento do discurso pol√≠tico‚ÄĚ que toma como evidentes termos como ‚Äúdemocracia‚ÄĚ e ‚Äúliberdade‚ÄĚ, e esse entendimento tem possibilitado a agress√£o e a inj√ļria (DAVIS, 2019b, p. 85). Davis anuncia essa cr√≠tica em seu primeiro livro publicado If They Come in the Morning, no qual afirma haver uma incongru√™ncia entre democracia e capitalismo, j√° que ‚Äúa despeito de toda a ret√≥rica em contr√°rio, o povo n√£o √© matriz √ļltima das leis que o governam, e menos ainda as pessoas negras e nacionalmente oprimidas‚ÄĚ (2016a, p. 27). Nesse sentido, a no√ß√£o de democracia tamb√©m √© objeto de cr√≠tica constante, intimamente relacionada ao questionamento da no√ß√£o de liberdade. Para Davis, ambos os conceitos ‚Äď democracia e liberdade ‚Äď t√™m sido interpretados √† luz da ideologia burguesa: a liberdade mormente associada √† propriedade, e a democracia como mecanismo pol√≠tico que refor√ßa as opress√Ķes. Da√≠ a sua insist√™ncia na urg√™ncia da constru√ß√£o de no√ß√Ķes de democracia que sejam efetivamente pautadas na justi√ßa e na igualdade econ√īmica, racial, de g√™nero e de sexo, algo que s√≥ conquistaremos a partir da luta coletiva e da constitui√ß√£o de alian√ßas entre causas progressistas. Trabalho que ela tem realizado ao longo de toda a sua vida, ao conciliar reflex√£o filos√≥fica e ativismo pol√≠tico. 

Referências Bibliográficas

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