Margaret Cavendish

(1623-1673)

Márcio A. Damin Custódio

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)Lattes

Sueli Sampaio D. Custódio

Professora do Departamento de Humanidades, Chefe do Laboratório de Inovação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) РLattes

PDF – Margaret Cavendish

Imagem de Pieter Louis van Schuppen, after Abraham Diepenbeeck line engraving, late 17th century – National Portrait Gallery

Margaret Lucas (1623-1673), nome de fam√≠lia de Cavendish, nasceu em Colchester, Essex, em 1623, sendo a mais nova de oito crian√ßas de Elizabeth Leighton Lucas e Thomas Lucas. Em seu texto A true relation of my birth, breeding and life¬†[Sobre a Verdade de Meu Nascimento, Maternidade e Vida],¬†reflex√£o autobiogr√°fica publicada como posf√°cio da primeira edi√ß√£o de Natures Pictures [Retratos da Natureza, 1656], Cavendish exalta a import√Ęncia de seus primeiros anos, nos quais aprendeu admirar o car√°ter e a capacidade de julgar de sua m√£e, que manteve a fam√≠lia forte e unida ap√≥s a morte de Thomas Lucas em 1625, momento em que¬†a heran√ßa de fam√≠lia foi contestada, cabendo a Elizabeth Lucas a administra√ß√£o do patrim√īnio e o cuidado das crian√ßas. Neste per√≠odo, Cavendish relata tamb√©m¬†a proximidade com sua irm√£, que em carta √© referida como Pye (Cavendish, 1664,¬†carta 200).

Os Lucas n√£o gozavam de boa reputa√ß√£o entre a popula√ß√£o por conta do apoio a Carlos I e √†s prerrogativas da realeza. Eles eram considerados realistas, termo cunhado por William Prynne em 1640 para designar os apoiadores de Carlos I (Prynne, 1643, p. 12) em oposi√ß√£o aos parlamentaristas, que defendiam que o monarca deveria responder ao parlamento, tanto no que diz respeito √†s prerrogativas legislativas quanto executivas (Wilcher, 2001, p. 5). Em 1642, o epis√≥dio de invas√£o de St. John‚Äôs Abbey, resid√™ncia dos Lucas em Colchester, retrata bem a animosidade dos parlamentaristas, quando membros da fam√≠lia ficaram presos por algum tempo (Whitaker, 2002, p. 40‚Äď42). A postura pol√≠tica e social da fam√≠lia Lucas √© relevante para a compreens√£o da trajet√≥ria pessoal e intelectual de Margaret Cavendish, sobretudo para entender sua defesa da realeza em alguns momentos. Os posicionamentos amb√≠guos da autora levaram parte dos estudos contempor√Ęneos a caracterizarem-na pela aparente contradi√ß√£o de sustentar um feminismo radical para a √©poca, e, ao mesmo tempo, defender um conservadorismo social feroz (Lilly, 1992; Trubowitz, 1992, p. 229; Gardiner, 1997, p. 53). Kate Lilly (1992), na introdu√ß√£o da edi√ß√£o contempor√Ęnea de Blazing World [Mundo Resplandecente], sustenta que a defesa da igualdade de g√™nero encontra-se seriamente comprometida em Cavendish, justamente pelo compromisso da autora com o privil√©gio hier√°rquico dos estamentos sociais e as prerrogativas da monarquia absolutista.

Contudo, a literatura mais recente tem se afastado da compreens√£o de que haveria uma ruptura comprometedora entre as posi√ß√Ķes pol√≠ticas adotadas por Cavendish em sua obra. Mihoko Suzuki (2003) sustenta que embora fosse esperado que Cavendish se alinhasse completamente √†s posi√ß√Ķes da fam√≠lia e, posteriormente, do marido, n√£o √© isso que se verifica em sua obra. Margaret Cavendish apresenta uma disputa equilibrada entre as duas formas de governo e, em Natures pictures [Retratos da Natureza], afirma que “O sistema mon√°rquico de governo das abelhas √© t√£o s√°bio e feliz quanto a rep√ļblica (Republick Commonwealth) das formigas” (Cavendish, 1656, p.165). Ademais, acrescenta que nenhuma forma de governo pode ser considerada perfeita, uma vez que “n√£o h√° seguran√ßa, nem felicidade perfeita, nem continuidade constante nas obras da natureza” (Cavendish 1656, p.166). Para Walters (2005, p. 15-16), a obra de Margaret Cavendish revela-se interessante precisamente por evidenciar as contradi√ß√Ķes caracter√≠sticas de uma escritora em seu contexto hist√≥rico.

Em 1643, Margaret Lucas torna-se dama de honra da Rainha Henrietta Maria e   acompanha a corte no ex√≠lio em Paris em 1644, quando Oxford j√° n√£o era mais porto seguro em fun√ß√£o da Guerra Civil (Fitzmaurice, 1997, p. xix). Henrietta Maria participava ativamente dos movimentos pol√≠ticos e militares, controlando uma infantaria de 5.000 homens contra os parlamentaristas. Cavendish estava presente quando a rainha e poucos acompanhantes foram perseguidos pelas tropas parlamentaristas, que continuaram a persegui√ß√£o em navios de guerra durante a fuga para o ex√≠lio em 1644 (Whitaker, 2002, p. 55-56). Henrietta Maria parece ser uma figura importante n√£o s√≥ na forma√ß√£o de Cavendish em pol√≠tica da Inglaterra, mas tamb√©m em letras, uma vez que a rainha comumente tratava de teatro e era versada em platonismo (Whitaker, 2002, p. 55-56). A fam√≠lia Lucas manteve-se realista mesmo durante a Guerra Civil, pagando alto pre√ßo por seu posicionamento. Em 1648, Sir Charles Lucas, irm√£o de Margaret, √© executado no cerco de Colchester, e os cad√°veres tanto da m√£e, quanto da irm√£ de Margaret s√£o vilipendiados por tropas parlamentaristas (Dolan, 2013, p. 452‚Äď64).

No ex√≠lio, em 1645, Cavendish encontra-se com William Cavendish (1592‚Äď1676), rec√©m vi√ļvo e com duas filhas, Jane Cavendish (1622-1669) e Elizabeth Brackley (1627-1663). Ambas citaram Margaret Cavendish em The concealed fancies [Fantasias ocultas, J. Cavendish, 2018]. Margaret, por seu turno, refere-se √†s enteadas em The Life of the Thrice Noble, High, and Puissant Prince William Cavendish [A Vida do Pr√≠ncipe William Cavendish, Tr√™s Vezes Nobre, Elevado e Poderoso, Cavendish, 1667, p.‚ÄĮ95]. Durante o per√≠odo do ex√≠lio, os Cavendish mant√™m vivo interesse pelas artes, escrevem poesia, pe√ßas de teatro, e dedicam-se especialmente √† filosofia natural e √†s matem√°ticas. William e seu irm√£o Charles (1591-1654), que havia recebido alguma instru√ß√£o de Hobbes (1588-1679), encorajam Margaret Cavendish a estudar filosofia.

Em Paris, os Cavendish, entre os anos de 1645 e 1648, se re√ļnem com os fil√≥sofos ingleses exilados, todos influenciados pela nova filosofia mec√Ęnica. O grupo ficou conhecido como c√≠rculo de Newcastle, e antes mesmo do ex√≠lio fora frequentado por Hobbes, Digby (1603-1665) e Walter Charleton (1619-1707), al√©m do contato com Descartes (1596-1650), Gassendi (1592-1655) e Mersenne (1588-1648). N√£o √© clara qual a real participa√ß√£o de Cavendish nas reuni√Ķes do c√≠rculo, mas ela pr√≥pria informa que n√£o se pronunciava na presen√ßa de Descartes e teve uma intera√ß√£o m√≠nima com Hobbes, devido a sua timidez. Apesar disso, ela se interessou pelas no√ß√Ķes de √°tomos e corp√ļsculos e sobre o materialismo, sendo Hobbes o autor de sua predile√ß√£o (O‚ÄôNeill, 2001, p. xiii).

Casados em dezembro de 1645, William e Margaret Cavendish mudam-se para Antu√©rpia em 1648, onde residem at√© o retorno √† Inglaterra em 1660. No √≠nterim entre 1651 e 1653, Margaret e seu cunhado Charles viajam para Londres para peticionar uma compensa√ß√£o pela perda de patrim√īnio da fam√≠lia Cavendish durante a guerra civil. A viagem √© mal sucedida, nenhum ganho √© obtido com a peti√ß√£o e Margaret Cavendish retorna a Antu√©rpia, onde permanece com seu marido at√© o final do ex√≠lio. A vida cotidiana em Antu√©rpia, na casa que alugaram do pintor Peter Paul Rubens (1577-1640), √© relatada em diversas cartas publicadas em Sociable Letters [Cartas Sociais], especialmente as cartas finais (Cavendish, 1664).

Em Antu√©rpia, Cavendish come√ßa a publicar (Weststeijn, 2008), sendo Poems and Fancies [Poemas e Fantasias, 1653] seu primeiro livro. Mais tarde, no mesmo ano, √© publicado Philosophical Fencies [Fantasias Filos√≥ficas] com material que deveria ter sido inclu√≠do em Poems [Poemas], mas que n√£o ficara pronto a tempo da impress√£o. Em 1655,  publica The world‚Äôs of Olio [O mundo de Olio], obra que cont√©m sua cr√≠tica a Shakespeare e seu ensaio sobre a circula√ß√£o do sangue, de William Harvey (1578-1657). No mesmo ano de 1655, a autora publica a primeira vers√£o de Philosophical and Physical Opinions [Opini√Ķes Filos√≥ficas e F√≠sicas] e no ano seguinte publica Natures pictures [Retratos da Natureza] acompanhado de um texto autobiogr√°fico, A true relation of my birth, breeding and life [Sobre a Verdade de Meu Nascimento, Maternidade e Vida].

Com a restaura√ß√£o ao trono de Carlos II em 1660, os Cavendish retornam para a Inglaterra e retiram-se para as Midlands [Terras M√©dias, regi√£o central da Inglaterra], dedicando-se a reparar as propriedades da fam√≠lia. Distante da corte e da vida efervescente de Londres, Cavendish cada vez mais se ocupa em administrar as propriedades da fam√≠lia, repetindo um papel semelhante ao ocupado pela m√£e. Na d√©cada de 1660, ela  p√īde, ainda, dedicar-se aos estudos de filosofia natural, adotando como procedimento a leitura de seus contempor√Ęneos, que acabou por lev√°-la a tecer cr√≠ticas tanto √† filosofia mec√Ęnica, quanto ao dualismo de Descartes e √† filosofia experimental. Seu prop√≥sito era aproximar-se do debate p√ļblico por meio de um dom√≠nio maior da linguagem predominante na filosofia natural de sua √©poca. Durante esse per√≠odo de estudos, consolida sua concep√ß√£o materialista da natureza e desenvolve sua teoria da mat√©ria, al√©m de publicar seus principais textos de filosofia natural.

Em 1663, Cavendish reedita Philosophical and Physical Opinions [Opini√Ķes Filos√≥ficas e F√≠sicas], originalmente publicado em 1655. Em 1664, publica Philosophical Letters: or, Modest Reflections Upon Some Opinions in Natural Philosophy [Cartas Filos√≥ficas ou uma Reflex√£o Modesta Sobre Algumas Opini√Ķes em Filosofia Natural], no qual o material de estudo sobre os fil√≥sofos que lhe s√£o contempor√Ęneos √© aproveitado. Ainda em 1664, publica a edi√ß√£o revista de Poems and fancies [Poemas e Fantasias] como parte de seu projeto de revis√£o e organiza√ß√£o de sua filosofia da natureza.

Em 1666, a autora atinge o √°pice de sua publica√ß√£o em filosofia natural com dois textos publicados conjuntamente, a saber, Observations upon Experimental Philosophy [Observa√ß√Ķes Sobre a Filosofia Experimental], e sua utopia The Description of a New Blazing World [A Descri√ß√£o Sobre um Novo Mundo Resplandecente]. Em Observations [Observa√ß√Ķes], aparece seu estudo da filosofia da Royal Society of London [Academia Real de Londres], com especial aten√ß√£o para Robert Boyle (1627‚Äď91), Robert Hooke (1635‚Äď1703), e Henry Power (1623‚Äď68). Em 1668, publica seu √ļltimo livro, Grounds of Natural Philosophy [Fundamentos da Filosofia Natural], que considera a revis√£o final, mais organizada e sistem√°tica de suas ideias dedicadas “a todas as universidades da Europa” (Cavendish, 1668, sem pagina√ß√£o). O texto n√£o √© completamente in√©dito, mas sim a revis√£o ampliada de Philosophical and Physical Opinions [Opini√Ķes Filos√≥ficas e F√≠sicas], publicada primeiro em 1655.

A profus√£o de publica√ß√Ķes da d√©cada de 1660 revela a inten√ß√£o da autora em se inserir no debate p√ļblico sobre filosofia da natureza. Cavendish deixa transparecer em seus textos, muitas vezes em pref√°cios, a recep√ß√£o de sua obra, especialmente entre os fil√≥sofos naturais. Sua visita √† Royal Academy [Academia Real] em 1667 √© considerada por parte da literatura uma evid√™ncia da dificuldade da mesma em estabelecer interlocu√ß√£o com os membros. Para Sarasohn (2010), a recep√ß√£o fria de Cavendish revela a avers√£o da sociedade exclusivamente masculina em admitir que uma mulher se posicionasse como fil√≥sofa da natureza (Sarasohn, 2020, p. 1-14). De fato, Cavendish n√£o apenas se colocou como fil√≥sofa da natureza, mas tamb√©m como cr√≠tica da filosofia experimental feita na Royal Society. Para ela, os fil√≥sofos modernos ‚Äúfazem um grande barulho por quase nada, como c√£es que ladram para a lua‚ÄĚ (Cavendish, 1666, cita√ß√£o no anexo Further observations [Demais Observa√ß√Ķes], p. 72). H√° v√°rios relatos de membros da Royal Academy [Academia Real] e contempor√Ęneos desqualificando-a. Alguns a trataram como insana por conta de suas opini√Ķes, sua escrita pouco formal e suas vestimentas consideradas masculinizadas. Esse qualificativo deu origem mais tarde, provavelmente no s√©culo XIX, ao designativo de Mad Madge [A Louca “Madge”], express√£o usada por parte da cr√≠tica liter√°ria durante o s√©culo XX, sendo bastante conhecido o ataque que lhe √© desferido por Virginia Woolf em 1929 e em 1945. Woolf afirma que o texto de Cavendish se assemelha a um jardim ca√≥tico, impenetr√°vel e que cresce fora de controle: “como se um pepino gigante tivesse crescido sobre as rosas e cravos do jardim, asfixiando-as at√© a morte” (Woolf, 1994 (1929), p. 59).

A abordagem desqualificadora da obra de Cavendish passa por revis√£o no in√≠cio do s√©culo XXI. Katie Whitaker (2002), por exemplo, recupera a relev√Ęncia da recep√ß√£o de Cavendish entre seus pares e revela ter havido recep√ß√£o sofisticada e cuidadosa por parte de Joseph Glanvill (1636-1680). Whitaker sustenta que a obra de Glanvill seria, em grande medida, r√©plica √† concep√ß√£o de mat√©ria de Cavendish (Whitaker, 2002, p. 324). Natalie Davis sustenta, por sua vez, que a obra de Cavendish influenciou outras autoras, dentre as quais Lucy Hutchinson (1620-1681) que a imitava abertamente (Davis 1984). Ademais, Cavendish alcan√ßa muito sucesso com sua publica√ß√£o de Poems and fancies [Poemas e Fantasias], listado como um dos livros mais vendidos na Inglaterra em 1657 (Walters, 2005, p.5). Outro destaque da recep√ß√£o de Cavendish √© o trabalho de divulga√ß√£o realizado por Walter Charleton e a correspond√™ncia com Robert Hooke (1665), especialmente sobre a observa√ß√£o VII Of some phaenomena of Glass Drops [Sobre Alguns Fen√īmenos das Gotas de Vidro] da Micrographia, 1665.

Margaret Cavendish morreu em 15 de dezembro de 1673 e foi enterrada na Abadia de Westminster em 7 de janeiro de 1674.

Obra: temas e conceitos

1. O encanto com o atomismo antigo

         O c√≠rculo de Newcastle, e depois o sal√£o dos Cavendish no ex√≠lio de Paris, foi centro de debates e de propaga√ß√£o do materialismo antigo revisitado por fil√≥sofos da modernidade, como Walter Charleton (Hutton, 1997, p. 421-432). Segundo Charles Cavendish, em carta a John Pell de dezembro de 1644, esses fil√≥sofos por vezes “se reuniam com grande alegria para debates acalorados sobre o epicurismo” (Kroll, 1990, p. 133, nota 154). O c√≠rculo tamb√©m era frequentado por Lucy Hutchinson (1620-1681), que mostrou sua tradu√ß√£o privada de partes do poema de Lucr√©cio para Margaret Cavendish, que dessa forma teve acesso direto √† obra pela primeira vez, dado que lia apenas textos em l√≠ngua inglesa (Wilson, 2008, p. 27-30).

         Os debates vividos em Paris parecem ter influenciado os primeiros textos publicados por Cavendish em seu per√≠odo na Antu√©rpia. Este √© o caso de Poems and Fancies [Poemas e Fantasias,1653], que remete √† tem√°tica de Lucr√©cio, e Philosophical Fancies [Fantas√≠as Filos√≥ficas, 1653], texto complementar ao Poems [Poemas]. Em resson√Ęncia com Lucr√©cio, a autora sustenta a autonomia e independ√™ncia da natureza como senhora de si, livre da opress√£o de d√©spotas arrogantes, livre da jurisdi√ß√£o dos deuses. Trata-se de uma no√ß√£o de natureza que parece dispensar um princ√≠pio criador:      

Pequenos √Ātomos organizam por si mesmos o mundo que fazem,

Por serem sutis, adquirem qualquer forma;      

E conforme dançam ao redor, encontram lugares,

Das Formas que mais lhes agradam, fazem de tudo (Cavendish, 1664, p. 6).

Em World‚Äôs of Olio [O Mundo de Olio, 1655], o materialismo ganha contornos mais modernos, ficando mais evidente outra influ√™ncia, mais duradoura para Cavendish: Thomas Hobbes (Hutton, 1997, p. 421-432). Em Olio, a autora sustenta que √© prefer√≠vel o ate√≠smo ao mundo das supersti√ß√Ķes, uma vez que os ateus cultivam a humanidade e a civilidade, enquanto os supersticiosos nutrem-se de crueldades sem fim. O ataque √† supersti√ß√£o permite compreender a abrang√™ncia do materialismo no pensamento de Cavendish. Segundo a autora, a Filosofia n√£o √© o lugar para se tratar de esp√≠ritos, seres supranaturais ou subst√Ęncias incorp√≥reas. Do mesmo modo, o intelecto √© concebido como a subst√Ęncia material do c√©rebro, organizado para perceber e apreender o mundo.

A fantasia envolvendo muitos mundos tamb√©m aparece na obra inicial de Margaret Cavendish. Trata-se de uma caracter√≠stica do per√≠odo, que se encontra em Pierre Borel (1620-1671) com seus Discours nouveau prouvant la pluralit√© des mondes [Novos Discursos Provando a Pluralidade dos Mundos, 1657], no qual argumenta que o Sol e a Lua s√£o habitados, ou mesmo Cyrano de Bergerac (1619-1655) em sua Histoire comique des estats et empires de la Lune [Hist√≥ria C√īmica dos Estados e Imp√©rios da Lua, 1657]. O texto √© um conjunto de exerc√≠cios de imagina√ß√£o que misturam elementos de epicurismo com a firme ades√£o ao Copernicanismo. No caso espec√≠fico de Cavendish, o interesse pelos √°tomos tem predom√≠nio sobre a astronomia, o que a faz imaginar mundos diminutos:

Assim como em um conjunto de caixas

Encontramos tamanhos diferentes em cada caixa,

Assim também neste mundo e em muitos outros,

Gradualmente menos e menos espessos;

Embora n√£o seja sujeito aos nossos sentidos,

Um Mundo talvez n√£o seja maior que uma moeda de dois pences (Cavendish, 1664, p. 6).

         Ao referir-se a pequenos mundos, Cavendish parece sugerir que a estrutura, segundo a qual a mat√©ria se agrega para compor o mundo percebido por n√≥s, segue certa ordem que se repete em todos os graus de tamanho dos agregados da mat√©ria. A concep√ß√£o de que h√° uma ordena√ß√£o do mundo acompanha, no per√≠odo, a ideia de que h√° muitos mundos, cada qual exibindo organiza√ß√£o e variando principalmente em tamanho, se comparados entre si e ao mundo da nossa experi√™ncia. A ideia de micromundos tamb√©m √© recorrente em fil√≥sofos modernos, e podemos encontr√°-la, por exemplo, em carta de Leibniz a Arnauld, de 9 de outubro de 1687: “N√£o h√° part√≠cula de mat√©ria que n√£o contenha um mundo de inumer√°veis criaturas todas bem organizadas” (Leibniz, 1989, p. 347). Para Cavendish, trata-se de compreender que, se h√° uma ordena√ß√£o para as coisas no tamanho afeito aos nossos sentidos, essa mesma ordena√ß√£o se multiplica pelos outros astros do mundo, se repete em uma ordem estelar de grandeza, e tamb√©m se repete em uma ordem at√īmica de grandeza. O Sol, a lua, as montanhas e os vales e todas as ordena√ß√Ķes de movimentos que percebemos, inclusive aqueles criados pelos homens, as cidades e as guerras, teriam seu an√°logo em tamanho at√īmico.

         O encanto e por vezes a obsess√£o com o materialismo antigo n√£o era exclusividade dos Cavendish, como conta o qu√≠mico Daniel Sennert: “Em todo lugar, entre os Fil√≥sofos e F√≠sicos, Antigos e Modernos, √© feita men√ß√£o a estes pequenos Corpos de √Ātomos, a tal ponto que eu me pergunto se a Doutrina dos √Ātomos deveria ser tratada como Novidade” (Sennert, 1600 e 1618; publicado em ingl√™s em 1660 bk. XI, ch. 1, p. 446).

2. O desencanto com o atomismo e com a filosofia mec√Ęnica

Margaret Cavendish rapidamente se desencantou com o atomismo ou, mais precisamente, assimilou dele v√°rios elementos e o expandiu, de modo a superar aquilo que via como limita√ß√£o na doutrina dos antigos. Essa cr√≠tica aparece em sua melhor forma nas Observations upon Experimental Philosophy [Observa√ß√Ķes sobre Filosofia Experimental, 1666], em que a autora sustenta que a Filosofia dos antigos carece de profundidade para tratar dos fen√īmenos.

Nas Observations [Observa√ß√Ķes], encontram-se as afirma√ß√Ķes sobre cada parte da natureza ser subst√Ęncia viva, de igual poder e que raramente se unifica sob um mesmo governo, o que explica a variedade infinita da observa√ß√£o. Para ela, se equivocam aqueles que “reduzem a natureza a certo √°tomo proporcional, al√©m do qual imaginam que a natureza n√£o pode ir, porque seus c√©rebros ou sua raz√£o particular finita n√£o pode alcan√ßar mais distante‚Ķ [desse modo] cometem a fal√°cia de concluir a finitude e a limita√ß√£o da natureza a partir da pr√≥pria estreiteza de sua concep√ß√£o racional” (Cavendish 1666, cita√ß√£o extra√≠da de 2003, p. 199).

         Apesar da cr√≠tica e de n√£o abra√ßar a doutrina atomista, Cavendish nunca deixou de debater com os autores que recepcionaram esta filosofia na modernidade. Sabe-se que estudou as par√°frases da History of Philosophy [Hist√≥ria da Filosofia] de Thomas Stanley (1660), obra na qual h√° cerca de cem p√°ginas dedicadas a Epicuro, e sabe-se tamb√©m de sua proximidade com Walter Charleton, respons√°vel pela introdu√ß√£o da obra de Gassendi na Inglaterra. A materialidade plena do mundo √©, para Cavendish, constatada pela experi√™ncia cotidiana, que exibe ineg√°vel variedade na natureza: “prova de que h√° infinita variedade na natureza, e que a natureza √© corpo em perp√©tuo automovimento, dividindo, compondo, formando, transformando suas partes por movimento figurativo corp√≥reo” (Cavendish 1666, cita√ß√£o extra√≠da de 2003, p. 85).

         Para Cavendish, os fen√īmenos produzidos pelos homens s√£o igualmente considerados como fen√īmenos naturais, cujo princ√≠pio √© material. A infinita variedade na natureza abarca indistintamente fen√īmenos naturais como as cores dos p√°ssaros, os caprichos dos homens, as diferen√ßas no entendimento das coisas do mundo, a imagina√ß√£o, o ju√≠zo, as carnes, as pedras e o c√©u. A considera√ß√£o sobre a infinita variedade do mundo resulta n√£o s√≥ em seu afastamento do atomismo dos antigos, mas tamb√©m de um afastamento de explica√ß√Ķes puramente mec√Ęnicas do mundo, o que se d√° pela considera√ß√£o de que n√£o √© razo√°vel que tamanha variedade seja explicada pela simples mec√Ęnica dos corpos, ou seja, sua figura e seu movimento.

3. A matéria e sua percepção

O afastamento do materialismo antigo n√£o significa o retorno a alguma teoria das formas, o que fica claro em seu tratamento da percep√ß√£o dos fen√īmenos naturais. Cavendish se afasta de explica√ß√Ķes que se valem de um princ√≠pio oculto, do espiritualismo ou do vitalismo, e apresenta no√ß√Ķes de padroniza√ß√£o e imita√ß√£o como atributos da mat√©ria (James, 1999, p. 235). Ela  sustenta que a percep√ß√£o √© “propriamente feita por padroniza√ß√£o e imita√ß√£o, pelos movimentos figurativos inatos das criaturas animais, e n√£o pela recep√ß√£o, seja das figuras dos objetos exteriores nos √≥rg√£os dos sentidos, ou mesmo pelo envio de algum tipo de raio invis√≠vel do √≥rg√£o para o objeto, e muito menos por press√£o e rea√ß√£o” (Cavendish, 1666, cita√ß√£o extra√≠da de 2003, p. 15).

         Em Cavendish, a infinita variedade na natureza, tal qual a percebemos, com seus padr√Ķes e movimentos, n√£o pode ser nem tratada como um fen√īmeno de observa√ß√£o, inexistente na coisa observada, nem explicada pelo movimento e figura dos √°tomos. Essa admiss√£o de complexidade na natureza parece apontar para dois caminhos explicativos poss√≠veis. O primeiro requer sustentar que h√° alguma forma de imaterialidade e de divindade como princ√≠pio garantidor da complexidade, o que n√£o √© o caso para Cavendish. A segunda possibilidade requer a admiss√£o de que a complexidade na natureza √© decorrente daquilo que nela h√° de mais complexo, ou seja, a pr√≥pria intelec√ß√£o humana. Esta, n√£o √© a produtora ou imaginadora de tal complexidade. Ao inv√©s disso,  serve de modelo para que a totalidade da natureza seja ao modo do observador.

         Nos termos da autora, tudo est√° vivo, atento e √© sens√≠vel: “N√£o h√° parte da natureza que n√£o tenha sensa√ß√£o e raz√£o, que n√£o tenha vida e conhecimento; e se todas as partes infinitas tem vida e conhecimento, a natureza infinita n√£o pode ser tola e insens√≠vel” (Cavendish, 1666, cita√ß√£o extra√≠da de 2003, p. 82). Isto n√£o quer dizer que haja subst√Ęncia imaterial na natureza. Tudo que h√° √© mat√©ria que se transforma o tempo todo, sem que haja qualquer perda ou aniquila√ß√£o: “o que √© chamado de morte √© somente a altera√ß√£o dos movimentos naturais corp√≥reos de uma figura para os de outra figura” (Cavendish, 1664, p. 223).

4. Política e sociedade

         A utopia Blazing World √© escrita para um p√ļblico mais amplo que aquele leitor dos ensaios ou tratados filos√≥ficos. O texto apresenta quest√Ķes de filosofia natural e cr√≠ticas a fil√≥sofos experimentais da rec√©m-fundada Royal Society of London, e se organiza em um pref√°cio e tr√™s se√ß√Ķes. A primeira, descreve um mundo ut√≥pico e sua organiza√ß√£o pol√≠tica. A segunda apresenta di√°logos sobre teorias cient√≠ficas e busca esclarecer os debates filos√≥ficos presentes √† √©poca. Por fim, a terceira, introduz uma narrativa fantasiosa em que a personagem viajante leva consigo o modelo do mundo novo para o mundo de origem e o imp√Ķe justificando a unifica√ß√£o pol√≠tica por conta do argumento da estabilidade. A estabilidade √© o aspecto central na constru√ß√£o do novo mundo, sobretudo porque, em um estado de natureza, as pessoas estariam em perp√©tuo medo e n√£o seriam capazes de viver muito tempo, ou viver em paz, al√©m de n√£o poderem atualizar suas potencialidades.

         Para Cavendish, a estabilidade da sociedade n√£o √© um fim em si mesmo, mas uma condi√ß√£o necess√°ria para que as pessoas possam alcan√ßar seus pr√≥prios objetivos. Ao apresentar o mundo novo, Cavendish exp√Ķe o problema das guerras e insurrei√ß√Ķes civis, ao mesmo tempo em que aponta para a necessidade de ordena√ß√£o. Nessa medida, o relato dos debates da personagem da imperatriz em  Blazing World pode ser interpretado como uma vers√£o fict√≠cia que se quer real, sobretudo porque o relato de viagem pode ser interpretado como uma cr√≠tica √† sociedade pol√≠tica constitu√≠da e √†s suas imperfei√ß√Ķes. O di√°logo da personagem Duquesa de Newcastle, alter ego da pr√≥pria Cavendish, com a Imperatriz, evidencia bem essa posi√ß√£o:

um mundo miser√°vel como aquele do qual eu venho, onde h√° mais soberanos que mundos, e mais falsos governantes que governo, mais religi√Ķes que deuses e mais formas de pensar naquelas religi√Ķes que verdades; mais leis que direitos e mais subornos que ju√≠zes; mais pol√≠ticas que necessidades e mais medos que perigos; mais cobi√ßa que riqueza, mais ambi√ß√£o que m√©rito; mais servi√ßos que recompensas, mais linguagens que intelig√™ncia, mais controv√©rsias que conhecimento, mais relat√≥rios que a√ß√Ķes e mais presentes por parcialidades que acordos por m√©rito; tudo isso √© uma grande mis√©ria (Cavendish, 1666, trad. Silvia Baldo, 2014, p. 252)

          Percebe-se, na passagem acima, que a autora adota uma posi√ß√£o bastante cr√≠tica e ao mesmo tempo in√©dita sobre a sociedade em que vive, sobretudo quando prop√Ķe que tanto a personagem da Duquesa quanto qualquer outra pessoa tem o direito de criar e organizar mundos paralelos ordenados em suas mentes conforme suas escolhas e a√ß√Ķes. Esse construto ficcional n√£o s√≥ sinaliza a insatisfa√ß√£o da autora em rela√ß√£o aos usos e costumes do per√≠odo, mas tamb√©m visa incluir as mulheres no mundo restrito das sociedades cient√≠ficas e pol√≠ticas:

se alguma alma gostar do mundo que criei e estiver disposta a ser s√ļdita, pode imaginar-se dessa forma e o ser√°, quero dizer, em sua mente, fantasia ou imagina√ß√£o; mas se n√£o suportar ser s√ļdita, pode criar seu pr√≥prio mundo e govern√°-lo como lhe aprouver (Cavendish, 1666, trad. Silvia Baldo, 2014, p. 298).

         Nesse mundo criado, h√° defesa de poucas leis no reino, uma vez que a exist√™ncia de muitas leis s√≥ causa divis√Ķes ou fac√ß√Ķes. Curioso notar que, a despeito da autora escolher a Monarquia como forma de governo, ela defende o uso da persuas√£o e n√£o da for√ßa para obter obedi√™ncia dos membros da comunidade:

ela (imperatriz) bem sabia que crer era algo que n√£o deveria ser for√ßado ou imposto sobre as pessoas, mas incutido em suas mentes por meio de uma af√°vel persuas√£o. Dessa forma, encorajou-os tamb√©m a submeterem-se a todos os outros deveres e ocupa√ß√Ķes; pois o medo, embora fa√ßa com que as pessoas obede√ßam, ainda assim n√£o dura muito tempo, nem √© uma forma t√£o certa de mant√™-los em suas fun√ß√Ķes, como o amor (Cavendish, 1666 trad. Silvia Baldo, 2014, p. 277).

         Na utopia cavendishiana, o exerc√≠cio do poder e a forma de governo s√£o apresentados de forma d√ļbia. Se por um lado a monarquia √© vista como sendo mais natural ao corpo pol√≠tico por ter apenas um governante, por outro lado a autora defende limites ao poder do monarca quando trata dos direitos e liberdades de atua√ß√£o dos indiv√≠duos, como fica evidente na sequ√™ncia de di√°logos entre a Duquesa de Newcastle e a personagem Fortuna. A autora apresenta sua insatisfa√ß√£o com o confisco do patrim√īnio do marido e de seu alijamento da vida pol√≠tica na corte de Carlos II. O di√°logo √© iniciado pela Fortuna, que representa Carlos II:

Nobres amigos, n√≥s aqui nos encontramos para ouvir a causa relacionada √†s diferen√ßas entre mim e o Duque de Newcastle. […] saiba que este Duque que reclama ou exclama tanto contra mim tem sido sempre meu inimigo, pois ele preferiu a Honestidade e Prud√™ncia a mim e desprezou todos os meus favores, ou melhor, n√£o s√≥ isso, como lutou contra mim e preferiu sua inoc√™ncia a meu poder (Cavendish, 1666, trad. Silvia Baldo, 2014, p. 242).

Após a fala da Fortuna, a Imperatriz pede a palavra e responde a favor do Duque:

sendo de natureza honr√°vel, assim como honesta, n√£o poderia confiar √† Fortuna aquilo que valorizava acima de sua vida, que era a sua reputa√ß√£o, em raz√£o da Fortuna n√£o tomar parte com aqueles que eram honestos e honrados, mas renunci√°-los; e como n√£o poderia estar em ambos os lados, escolheu ser daquele que era agrad√°vel tanto para sua consci√™ncia quanto para a natureza de sua educa√ß√£o (Cavendish, 1666,  trad. Silvia Baldo, 2014, p. 243-244).

Na sequ√™ncia, Cavendish exp√Ķe os limites da monarquia, quando a Imperatriz reitera a defesa do Duque frente √† Fortuna, expondo que o mesmo servir√° a Monarquia desde que observadas certas condi√ß√Ķes e virtudes: “Ele est√° pronto a qualquer momento para servi-la desde que honestamente e prudentemente” (Cavendish, 1666, trad. Silvia Baldo, 2014, p. 244). Cavendish esclarece ao leitor que a responsabilidade moral do monarca sobre o reino est√° intimamente correlacionada √† no√ß√£o de sabedoria, prud√™ncia e ao seu conhecimento das mais diversas ci√™ncias.   

         Por fim, buscando esclarecer seus objetivos com o texto, a autora, no Ep√≠logo, esclarece:

Por meio desta descri√ß√£o po√©tica, podeis perceber que minha ambi√ß√£o n√£o √© apenas ser uma Imperatriz, mas a autora de todo um mundo e que os mundos que constru√≠, tanto o Blazing World quanto o outro mundo filos√≥fico, mencionados na primeira parte dessa descri√ß√£o, s√£o moldados e compostos de maior pureza, ou seja, as partes racionais da mat√©ria, que s√£o as partes de minha mente, o que foi uma cria√ß√£o mais f√°cil e rapidamente efetuada que a conquista de dois monarcas mais famosos do mundo: Alexandre e C√©sar (Cavendish, 1666,  trad. Silvia Baldo, 2014, p. 297).

Percebe-se na passagem que Cavendish vincula suas reflex√Ķes pol√≠ticas ao mundo plenamente material de sua filosofia natural, e n√£o se isenta de apresentar publicamente suas convic√ß√Ķes sobre o mundo e sobre a sociedade em que vive.

Bibliografia

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Outros Materiais

Verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy escrito por David Cunning

https://plato.stanford.edu/entries/margaret-cavendish/

Verbete do Project Vox

https://projectvox.org/cavendish-1623-1673/

The International Margaret Cavendish Society

https://www.margaretcavendishsociety.org/

https://www.facebook.com/Margaret-Cavendish-Society-135112673212390/

Projeto de digitaliza√ß√£o de Philosophical and Physical Opinions (1663), Institute for Digital Research in the Humanities, University of Kansas

https://idrh.ku.edu/digital-humanities-projects/margaret-cavendish-philosophical-and-physical-opinions

Material sobre Cavendish do Projeto Uma Filósofa por mês

‚Äč‚ÄčVideoconfer√™ncia de Sueli Sampaio D. Cust√≥dio, Margaret Cavendish e o Atomismo.

Videoconferência de Janyne Sattler, Margareth Cavendish por Janyne Sattler, Rede Brasileira de Mulheres Filósofas