O feminismo de Nawal El Saadawi

Por Flávia Abud Luz

Doutoranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC)

PDF – O Feminismo de Nawal el Saadawi

Nawal El Saadawi (2013) ‚Äď Cr√©ditos: Milma Kettunen/ Flickr: Global.finland.fi Dispon√≠vel em https://www.flickr.com/photos/mlk_global/8548537510/ . Acesso em 05 mai 2021

Nawal El Saadawi (nascida Nawal Al-Sayed Habash El Saadawi) foi uma mulher eg√≠pcia que ao longo de sua vida mostrou suas m√ļltiplas facetas de atua√ß√£o e resist√™ncia: ativista feminista, m√©dica psiquiatra, escritora e ensa√≠sta com diversos livros de n√£o-fic√ß√£o publicados ao redor do mundo. Sua vida e obra foram fundamentais para a elabora√ß√£o de pautas dos movimentos feministas no Egito e no mundo √°rabe ao passo que discutiram em profundidade a situa√ß√£o da mulher, sobretudo a imbrica√ß√£o das diversas formas de opress√£o social, pol√≠tica, econ√īmica e religiosa √†s quais elas estavam sujeitas.

A viol√™ncia f√≠sica a que s√£o expostos os corpos femininos, relacionada √† normatiza√ß√£o em nome de princ√≠pios que operacionalizam as diversas formas de opress√£o (entre elas a econ√īmica, social, religiosa e pol√≠tica), foi uma experi√™ncia central para o desenvolvimento dos questionamentos iniciais de El Saadawi acerca do estatuto das mulheres (e meninas) no interior das leis de fam√≠lia eg√≠pcias. Aos seis anos de idade Nawal foi submetida √† mutila√ß√£o genital feminina (MGF, pr√°tica que consiste na amputa√ß√£o parcial ou total do clit√≥ris), que era relativamente difundida na sociedade eg√≠pcia, independentemente da classe social (baixa, m√©dia, alta) ou da origem (rural ou urbana) √† qual pertencia a fam√≠lia das meninas que s√£o submetidas a tal pr√°tica.

Al√©m da experi√™ncia traum√°tica acima mencionada, que El Saadawi retoma e descreve em uma de suas obras centrais A Face Oculta de Eva: as Mulheres do Mundo √Ārabe (2002) e nas autobiografias A Daughter of Isis [A filha de Isis] (1999a) e Walking through fire: The Later Years of Nawal El Saadawi [Caminhando atrav√©s do fogo: os √ļltimos anos de Nawal El Saadawi] (2002b), outras observa√ß√Ķes cuidadosamente realizadas ao longo de sua inf√Ęncia e adolesc√™ncia lhe permitiram questionar a no√ß√£o de hierarquia de g√™nero por meio das distin√ß√Ķes sociais feitas entre meninas e meninos, e posteriormente mulheres e homens. Destaque especial √© conferido a aspectos como as tarefas realizadas no √Ęmbito familiar (as meninas voltadas √†s atividades de cuidado e dom√©sticas, enquanto os meninos podiam dedicar-se com exclusividade aos estudos religiosos e/ou acad√™micos) e as diferentes expectativas criadas em torno da atua√ß√£o social de mulheres e homens, principalmente com a constata√ß√£o de que, embora mulheres e homens fossem submetidos a pr√°ticas disciplinadoras com rela√ß√£o aos seus corpos por conta da segrega√ß√£o sexual imposta por uma combina√ß√£o de moral religiosa e aspectos culturais, eram as mulheres que tinham sua a√ß√£o em p√ļblico observada com maior √™nfase. 

O fato de El Saadawi fazer parte de uma família de classe média e bem instruída não a isentou de ter na sua juventude a projeção dos ideais anteriormente mencionados com relação ao papel que a mulher egípcia ocuparia na sociedade: o papel da esposa. Ela conseguiu escapar de um casamento arranjado ainda na adolescência ao se impor à vontade dos pais de atingirem tal expectativa socialmente encorajada. El Saadawi dedicou-se aos estudos, conseguiu entrar no curso de medicina na Universidade do Cairo e a partir de 1955 especializou-se em psiquiatria.

Ao longo da d√©cada de 1960, El Saadawi atuou no governo eg√≠pcio e desenvolveu uma carreira na secretaria de Sa√ļde P√ļblica. No entanto, os posicionamentos por ela apresentados em artigos e livros que clamavam por uma reflex√£o nacional (e at√© mesmo regional) com rela√ß√£o √† normatiza√ß√£o dos corpos femininos ‚Äď por exemplo a MGF e outras atitudes relativas √† preserva√ß√£o da honra familiar ‚Äď, al√©m da exist√™ncia da viol√™ncia intrafamiliar, conduziram a uma press√£o pol√≠tica que culminou em sua demiss√£o (em 1972) e no encerramento das atividades de uma revista por ela dirigida.

Apesar das limita√ß√Ķes impostas a ela como mulher pertencente √† sua √©poca e sociedade, Nawal El Saadawi ousou questionar as bases de pr√°ticas sociais e religiosas, rompendo o sil√™ncio e o medo que, de acordo com as reflex√Ķes da autora, conduziam √† mulher ao ponto zero, um estado que pode ser interpretado a partir de um duplo significado: a marca de um final (e o reconhecimento de que as opress√Ķes estruturais alcan√ßaram seu objetivo de manuten√ß√£o do status quo) ou a possibilidade de reescrever uma trajet√≥ria apesar das opress√Ķes encontrando inclusive formas de exp√ī-las (EL SAADAWI, 2019, p.151-153).

De sua produ√ß√£o intelectual e liter√°ria (romances, contos e pe√ßas) √© poss√≠vel destacarmos algumas reflex√Ķes, ideias e questionamentos que devem ser observados de maneira mais detalhada, visto que se correlacionam ao longo das obras. S√£o eles: a) a viol√™ncia (f√≠sica, psicol√≥gica e sexual) infligida √†s mulheres por conta de uma moral r√≠gida que se apropria da religi√£o como forma de legitima√ß√£o, b) combate √†s diversas formas de opress√£o √† mulher no Egito e no Terceiro Mundo; c) o ressurgimento de ideologias religiosas radicais e a pol√≠tica do v√©u; d) o questionamento de vis√Ķes estereotipadas com rela√ß√£o √† identidade das mulheres mu√ßulmanas.

O inc√īmodo que seus textos provocavam, estas ‚Äúpalavras afiadas‚ÄĚ, estava justamente neste trabalho de lan√ßar um foco naquela que para a autora era uma ferida importante da sociedade eg√≠pcia: viol√™ncia (f√≠sica, psicol√≥gica e sexual) infligida √†s mulheres por conta de uma moral r√≠gida que se apropria da religi√£o como forma de legitima√ß√£o. El Saadawi aponta que nas sociedades √°rabes observa-se, principalmente na primeira metade do s√©culo XX, a rigidez da moral que, advinda de costumes, cultura e hist√≥ria anteriores √† pr√≥pria religi√£o (Isl√£), perpetua ideias como a manuten√ß√£o do dom√≠nio masculino na sociedade e o refor√ßo a um padr√£o moral duplo.

Neste padr√£o moral duplo El Saadawi observou a exist√™ncia de exig√™ncias sociais e os direitos diferentes para mulheres e homens. Embora mulheres/meninas e homens/meninos fossem afetados pela moral tradicional que, por exemplo, impedia a express√£o livre da sexualidade fora de um casamento reconhecido como leg√≠timo e incentivava a segrega√ß√£o de espa√ßos com o intuito de evitar algumas intera√ß√Ķes sociais entre mulheres e homens, eram os corpos das mulheres que sofriam viol√™ncias em nome de tais princ√≠pios.

A violência apresentada advém da questão da normatização dos corpos das mulheres, principalmente da mutilação genital feminina (MGF), ou seja, uma dimensão física; a questão da honra familiar relacionada à preservação da virgindade feminina traz consigo a forte pressão psicológica para que as mulheres desde meninas se preocupassem com seu corpo, movimentos e atitudes que poderiam tirar a honra do nome da família.

Em alguns momentos El Saadawi (2002a) apresenta a justaposi√ß√£o das referidas formas de viol√™ncia. No cap√≠tulo 1, A Pergunta que n√£o Obteve Resposta, em que descreve o momento de sua submiss√£o √† mutila√ß√£o genital feminina e os questionamentos que tal pr√°tica trouxe a ela com rela√ß√£o √†s diferen√ßas entre meninos e meninas, a autora apresenta o enlace de suas formas espec√≠ficas de viol√™ncia √†s mulheres √† √©poca: a f√≠sica (pela normatiza√ß√£o do corpo) e a psicol√≥gica (pela mutila√ß√£o f√≠sica em si, que trouxe inseguran√ßa e preocupa√ß√Ķes com rela√ß√£o ao corpo e atua√ß√£o na sociedade), assim: ‚Äú(…) a sociedade me fez sentir, a partir do momento em que abri os olhos para a vida, que eu era menina, e que a palavra Bint (menina) ao ser pronunciada √© quase sempre acompanhada por uma express√£o de desagrado‚ÄĚ (EL SAADAWI, 2002a, p.27-28).

A manuten√ß√£o de pr√°ticas culturais, em espec√≠fico a mutila√ß√£o genital feminina (MGF), verificada em pa√≠ses como Egito e Sud√£o, √© um elemento que ocupou espa√ßo relevante na elabora√ß√£o te√≥rica de El Saadawi e conduziu a um questionamento acerca do uso da religi√£o para justificar tais pr√°ticas tradicionais. El Saadawi (2002) argumenta que a MGF n√£o √© um costume religioso, mas sim uma pr√°tica anterior √† inser√ß√£o do Isl√£ (no s√©culo VII) que se acomodou √†s estruturas patriarcal e capitalista das sociedades √°rabes ao longo do tempo. Neste sentido, a pr√°tica converteu-se em um aspecto ligado √† honra familiar e √† castidade da mulher, pois atendia ao ‚Äúdilema patriarcal‚ÄĚ de garantir a hereditariedade da fam√≠lia e a sucess√£o da propriedade (ou bens), evitando que fossem entregues a filhos gerados em uma rela√ß√£o com um homem de outra fam√≠lia ou linhagem.  

El Saadawi apontou, assim, o uso pol√≠tico da religi√£o e as consequ√™ncias que tal a√ß√£o trouxe para as mulheres na sociedade √°rabe, especialmente no que diz respeito √† prote√ß√£o e ao reconhecimento de seus direitos sociais, familiares, econ√īmicos e pol√≠ticos. A religi√£o, enquanto institui√ß√£o e fonte de inspira√ß√£o para a√ß√Ķes pol√≠tico-sociais, √© utilizada por aqueles que dominam nas referidas sociedades e visam a manuten√ß√£o da sociedade patriarcal, visto que: ‚Äú(…) torna-se imposs√≠vel separar a religi√£o do sistema pol√≠tico-social, ou manter o sexo isolado da pol√≠tica. A trilogia composta por pol√≠tica, religi√£o e sexo √© a mais sens√≠vel de todas as √°reas de qualquer sociedade‚ÄĚ (EL SAADAWI, 2002a, p,19). No entanto, cabe ressaltar que El Saadawi discute que a opress√£o da mulher por meio de discursos distorcidos da religi√£o n√£o √© uma especificidade do Islamismo, sobretudo tendo em vista que tal aspecto tamb√©m √© observada em outras religi√Ķes monote√≠stas (cristianismo e juda√≠smo) e nas interpreta√ß√Ķes androc√™ntricas dos textos sagrados e da teologia, de forma geral.

El Saadawi relatou as consequ√™ncias negativas, nos √Ęmbitos f√≠sico e psicol√≥gico, observadas junto √†s meninas que tinham sido submetidas √† MGF e intensificou ao longo da d√©cada de 1970 campanhas de conscientiza√ß√£o que visavam reduzir a exist√™ncia de tal pr√°tica e mitigar os danos infligidos √†s meninas. A cr√≠tica abertamente direcionada √† MFG, que em sociedades como a eg√≠pcia e a sudanesa era uma pr√°tica tradicional e cultural persistente, trouxe conflito junto √†s pessoas que trabalhavam nestas atividades e √†s autoridades m√©dicas que se viram pressionadas a enfrentar situa√ß√Ķes como a necessidade de abordar educa√ß√£o sexual nas universidades, na forma√ß√£o de seus profissionais.

A dimens√£o da viol√™ncia sexual, outra express√£o da viol√™ncia infligida contra as mulheres, esteve presente na obra de El Saadawi na discuss√£o de outro tabu: lidar com as transgress√Ķes sexuais que podem ocorrer no interior do mundo familiar e ao seu redor, como, por exemplo, a viola√ß√£o de meninas em ambientes familiares, por parentes diretos (como tios ou primos). Em A Mulher com olhos de fogo ‚Äď o despertar feminista (2019, p.31-53) a jovem Firdaus, personagem central da hist√≥ria, que conheceu Nawal El Saadawi quando a m√©dica fazia pesquisa de campo junto √†s presas da pris√£o Feminina de Qantir, teve sua vida atravessada pela opress√£o econ√īmica e social que era expressa de diversas maneiras.

A experi√™ncia da viol√™ncia sexual perpetrada por parte de um tio (na inf√Ęncia e adolesc√™ncia), recorrente na mem√≥ria de Firdaus, influenciava negativamente suas tentativas de estabelecer rela√ß√Ķes amorosas e sexuais na vida adulta, principalmente pelo fato de que as viol√™ncias exercidas por seu tio n√£o tiveram uma san√ß√£o formal. Ao deixar a casa do tio em busca de uma vida diferente, Firdaus deparou-se com outra quest√£o complexa para as mulheres eg√≠pcias de classe baixa e que n√£o possuem a prote√ß√£o familiar: uma vida √†s margens da sociedade, principalmente pela exclus√£o socioecon√īmica relacionada a uma baixa taxa de escolaridade e a uma depend√™ncia econ√īmica socialmente constru√≠da pela √™nfase na institui√ß√£o do casamento.  

O combate √†s diversas formas de opress√£o √† mulher no Egito e no Terceiro Mundo √© outro tema relevante nas reflex√Ķes de El Saadawi, sobretudo tendo em vista que este abarca discuss√Ķes como o enlace de diferentes estruturas de opress√£o (econ√īmica, religiosa, social e pol√≠tica) e suas implica√ß√Ķes para a vida pr√°tica; as desigualdades presentes nas leis de fam√≠lia mu√ßulmanas e o acesso reduzido √† educa√ß√£o.

Uma de suas principais reflex√Ķes acerca da opress√£o das mulheres e das poss√≠veis formas de enfrent√°-la diz respeito √† compreens√£o das formas de explora√ß√£o existentes e de seu enfretamento em conjunto, pois ‚Äú(…) A verdadeira emancipa√ß√£o s√≥ pode implicar uma liberta√ß√£o de todas as formas de explora√ß√£o, seja nos campos da economia, pol√≠tica, sexo ou cultura‚ÄĚ (EL SAADAWI, 2002a, p.22).  

Ao tomar como base a vida pr√°tica na sociedade eg√≠pcia El Saadawi (1993; 2002a) argumenta que o patriarcado existente nela e em diversos pa√≠ses (n√£o apenas os √°rabes) se constituiu como um sistema social, baseado na posse de bens/ recursos econ√īmicos, em que os homens controlam as decis√Ķes em assuntos familiares, pol√≠ticos e sociais, sendo a subordina√ß√£o da mulher uma esp√©cie de extens√£o da cren√ßa na superioridade masculina. No entanto, El Saadawi destaca o papel da religi√£o (enquanto institui√ß√£o) e da tradi√ß√£o (entendida aqui como um am√°lgama da manifesta√ß√£o social conjunta da cultura e da religi√£o, n√£o sendo poss√≠vel separar o dom√≠nio de cada) como elementos centrais para manuten√ß√£o de certas desigualdades materiais, tendo em vista, por exemplo, a baixa escolaridade das meninas e a falta de est√≠mulo para que estas possam desenvolver suas capacidades e alcan√ßar postos de trabalho que lhe permitam certa independ√™ncia financeira com rela√ß√£o √† fam√≠lia.

Outro √Ęmbito relevante para observar as desigualdades presentes entre os direitos e deveres de mulheres e homens √© o das leis de fam√≠lia mu√ßulmanas, um conjunto de leis que determina aspectos da vida cotidiana dos mu√ßulmanos, como o casamento, div√≥rcio, direito √† heran√ßa e √† cust√≥dia de filhos, que possui como base legal a jurisprud√™ncia isl√Ęmica (fiqh) e os entendimentos elaborados pelas escolas de pensamento jur√≠dico isl√Ęmicas. El Saadawi questiona com veem√™ncia a desigualdade de g√™nero presente no direito de heran√ßa (a mulher herda a metade do que o homem), bem como a ideia presente em algumas escolas jur√≠dicas de que a mulher precisava do consentimento de seu pai para se casar, mesmo se j√° tivesse alcan√ßado a maioridade. Ela tamb√©m reivindica direitos √† sexualidade feminina, no sentido de que falar sobre o tema deixasse de ser um tabu na sociedade e de incentivar as meninas e mulheres a entenderem seu corpo e mudarem de opini√£o acerca da manuten√ß√£o de pr√°ticas tradicionais, como a MGF.

Al√©m de propor discuss√Ķes acerca das opress√Ķes (social, religiosa, econ√īmica e pol√≠tica) √†s quais as mulheres estavam sujeitas na sociedade eg√≠pcia (e √°rabe), El Saadawi preocupa-se em demonstrar que a atua√ß√£o das mulheres em oposi√ß√£o a tais for√ßas se desenvolveu ao longo de s√©culos XIX e XX, em meio de disputa de narrativas religiosa e pol√≠tica que buscam apresentar uma defini√ß√£o final de qual seria o papel da mulher em sociedades que estavam imersas em movimentos de orienta√ß√£o nacionalista, frente ao poderio colonial europeu (franc√™s e brit√Ęnico em sua maioria).

Ao retomar a hist√≥ria de pioneiras no desenvolvimento de pensamentos cr√≠ticos acerca do status da mulher, como Aisha El Taymouria, Malak Helfni Nassef e May Ziada, El Saadawi observou a preocupa√ß√£o delas com c√≥digos ou leis de fam√≠lia que perpetuavam uma leitura androc√™ntrica e hier√°rquica da jurisprud√™ncia isl√Ęmica e, consequentemente, dos direitos e deveres de mulheres e homens na fam√≠lia e sociedade. Al√©m disso, ressaltou que em sociedades como a eg√≠pcia, em que as bandeiras do nacionalismo, feminismo e modernismo se entrela√ßaram junto aos Estados rec√©m-independentes, as demandas como a da igualdade de direitos no √Ęmbito familiar e a da participa√ß√£o pol√≠tica feminina tiveram sua composi√ß√£o diferenciada, mas com uma caracter√≠stica em comum: a influ√™ncia da religi√£o.

Para El Saadawi um elemento central foi o de que, embora a religi√£o tenha sido importante aspecto aglutinador em torno do desenvolvimento de identidades nacionais comuns, ap√≥s a independ√™ncia, tal institui√ß√£o teve seu poder e influ√™ncia transferidos para o dom√≠nio da esfera privada, na condu√ß√£o de c√≥digos de estatuto pessoal ou leis de fam√≠lia, e continuou a determinar as possibilidades de avan√ßo (ou n√£o) de demandas que as mulheres buscavam exprimir no √Ęmbito pol√≠tico-social, tais como o direito da mulher iniciar um pedido de div√≥rcio, desenvolver estudos religiosos, etc..  

O ressurgimento de ideologias religiosas radicais e a pol√≠tica do v√©u s√£o temas constantes nas obras de El Saadawi a partir da d√©cada de 1980, em conson√Ęncia com os desenvolvimentos pol√≠ticos e religiosos no Egito. Nawal reitera, principalmente em suas autobiografias A Daughter of Isis [A filha de Isis] (1999a) e Walking through fire: The Later Years of Nawal El Saadawi [Caminhando atrav√©s do fogo: os √ļltimos anos de Nawal El Saadawi] (2002b), que o problema da religi√£o n√£o est√° na cren√ßa ou na inten√ß√£o do crente em si, mas na utiliza√ß√£o dela como uma plataforma de legitima√ß√£o de a√ß√Ķes opressivas e/ou violentas.

A censura promovida √† obra de El Saadawi nos anos 1980 foi, sobretudo, fruto de uma press√£o religiosa. A autora a descreve do seguinte modo: ‚ÄúMinha vida estava capturada no fogo cruzado das for√ßas de seguran√ßa do Estado e dos movimentos terroristas que ocultavam seus objetivos por tr√°s de uma fachada religiosa. (…) A bala fatal seria disparada nas minhas costas por um guarda-costas ou na frente por uma jovem usando uma m√°scara religiosa?‚ÄĚ (EL SAADAWI, 1999b, p.14, tradu√ß√£o livre). Tal press√£o religiosa alcan√ßara El Saadawi por conta de seus posicionamentos cr√≠ticos e abertos acerca de temas como a MGF, a viol√™ncia dom√©stica em suas diversas formas e as leis de fam√≠lia.

Al√©m da experi√™ncia de censura de sua obra, El Saadawi chegou a ser presa pelo governo do presidente Anwar Sadat em 1981, junto com outros intelectuais, e permaneceu na Pris√£o Feminina de Qanatir por cerca de tr√™s meses, sob a alega√ß√£o de ‚Äúcrimes contra o Estado‚ÄĚ, por conta das cr√≠ticas sociais e pol√≠ticas que ela trazia em suas obras. Em Men, Women, And God(s): Nawal El Saadawi and Arab Feminist Poetics (1995) Fedwa Malti-Douglas argumenta que o per√≠odo de c√°rcere de El Saadawi teria justamente impulsionado uma esp√©cie de explos√£o criativa na autora, visto que, a partir do Memories from the Women¬īs Prision [Mem√≥rias de uma pris√£o feminina] (1983), ela lan√ßou-se em uma s√©rie de experimenta√ß√Ķes po√©ticas que compreendiam pe√ßas e contos em que fazia cr√≠ticas ao poder pol√≠tico-religioso, alertava para os perigos do radicalismo  e travava paralelos entre a hist√≥ria do Egito e o momento (MALTI-DOUGLAS, 1995, 159-163).

No ensaio Creativity, Dissidence and Women (2006), El Saadawi retoma a discuss√£o acerca daquelas que ela considera serem as principais consequ√™ncias de cerca de tr√™s d√©cadas de intensifica√ß√£o do poder pol√≠tico de grupos isl√Ęmicos no Egito, a saber: um retrocesso nos direitos das mulheres no √Ęmbito familiar e o retorno da pol√≠tica do v√©u, que, de acordo com a autora, ao ser apropriada por grupos islamitas refor√ßava uma leitura tradicional e patriarcal em que a mulher deveria ater-se ao seu papel no √Ęmbito dom√©stico e sob a tutela masculina. Neste contexto, El Saadawi (2006) retoma um questionamento presente em A face oculta de Eva (2002) acerca dos significados do uso do v√©u, apontando a necessidade de considerar o contexto em que √© usado por mulheres no Egito (e nas sociedades √°rabes).

El Saadawi opunha-se ao uso do v√©u enquanto uma obriga√ß√£o religiosa isl√Ęmica ‚Äď conforme era apresentado por grupos islamitas no Egito e na regi√£o ‚Äď e enfatizava que o uso de tal pe√ßa de vestimenta feminina possu√≠a um significado mais amplo e complexo que deveria ser entendido em contexto. Primeiro, o uso do v√©u n√£o √© uma obriga√ß√£o religiosa descrita no Alcor√£o, por exemplo, mas fruto de uma apropria√ß√£o de pr√°ticas sociais j√° existentes em outras religi√Ķes monote√≠stas (juda√≠smo e cristianismo) que tinham no contexto uma dupla fun√ß√£o: a de garantir que as mulheres deveriam cobrir-se em espa√ßo religioso, quando dirigiam suas ora√ß√Ķes √† Deus; bem como a de demonstrar sua perten√ßa a determinada classe social, indicando que encontrava-se sob a tutela de uma fam√≠lia.  Segundo, o uso do v√©u tomou significados diferentes ao longo dos s√©culos, sendo que, no final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX, o questionamento de seu uso esteve ligado a um aspecto pol√≠tico que assinalava para uma entendida moderniza√ß√£o dos pa√≠ses √°rabes em resposta √† atua√ß√£o europeia na regi√£o, ou seja, seria uma esp√©cie de representa√ß√£o simb√≥lica da tentativa de seculariza√ß√£o de alguns pa√≠ses, como no caso do Egito e Ir√£.

Para El Saadawi um problema mais urgente em seu pa√≠s era o fortalecimento de grupos religiosos islamitas, principalmente na segunda metade do s√©culo XX, que, para desenvolverem seus projetos de poder, acionavam uma pauta de valores e costumes religiosos como uma alternativa. Em meio a tal pauta encontrava-se a retomada de valores e pr√°ticas que traziam a autoridade masculina, o uso do v√©u e o retorno √† religi√£o e suas prescri√ß√Ķes legais (Sharia) como elemento central. Deste modo, as mulheres passaram a ter seu papel na sociedade e suas demandas sociais, econ√īmicas, educacionais e legais questionadas e deslegitimadas, o que para El Saadawi era um retrocesso com rela√ß√£o aos esfor√ßos por elas feitos para alterar seus papel e direitos nas sociedades.

A autora tamb√©m sofreu pessoalmente com o fortalecimento deste movimento religioso islamita que descreveu em seu pa√≠s. Al√©m das amea√ßas √† sua vida, que chegaram a motivar seu autoex√≠lio na d√©cada de 1990, El Saadawi tamb√©m teve seu casamento amea√ßado e questionado quando um tribunal tentou dissolv√™-lo, ao acus√°-la de apostasia e viola√ß√Ķes contra o Isl√£, uma infra√ß√£o/crime que a corte de fam√≠lia conduzia com muita seriedade como forma de coer√ß√£o social e manuten√ß√£o da influ√™ncia da religi√£o nas leis de fam√≠lia no pa√≠s. El Saadawi n√£o se intimidou pela acusa√ß√£o e processo que foram motivados por seus posicionamentos acerca dos direitos das mulheres, sobretudo no √Ęmbito familiar.

Apesar de desenvolver cr√≠ticas contundentes a aspectos da sociedade eg√≠pcia e √°rabe, sobretudo ao destacar a opress√£o e viol√™ncia infligidas √†s mulheres, El Saadawi demonstrava tamb√©m a preocupa√ß√£o com a manuten√ß√£o de vis√Ķes estereotipadas com rela√ß√£o a identidade das mulheres mu√ßulmanas e, assim, utilizava os espa√ßos em que era convidada para proferir palestras ou conceder entrevistas para apresentar reflex√Ķes a esse respeito e clamar pela necessidade de compreender a mulher mu√ßulmana como um agente social capaz de apresentar suas demandas pol√≠tico-sociais e de buscar os meios para fazer com que seja considerado por suas respectivas sociedades.

Al√©m de n√£o reivindicar um modelo europeu ou secular da posi√ß√£o da mulher nas sociedades √°rabes, a autora procurava clamar pela compreens√£o da ag√™ncia feminina na pol√≠tica em busca por direitos, sobretudo no √Ęmbito das leis de fam√≠lia. Refor√ßava, sobretudo, a necessidade das mulheres se conscientizassem de sua posi√ß√£o na sociedade e buscarem o que ela chamou de dissid√™ncia criativa, ou seja, uma forma de atua√ß√£o que implicava na observa√ß√£o dos paradoxos existentes nas sociedades patriarcais e capitalistas, tais como as injusti√ßas econ√īmicas e sociais, bem como na busca por meios de questionar o dom√≠nio neocolonial e a explora√ß√£o econ√īmica e pol√≠tica das pessoas do terceiro mundo.

Em sua fala Why keep asking about my identity?, apresentada na Confer√™ncia Anual da Associa√ß√£o Africana de Literatura (1996),a autora  apresenta o desconforto que observava de diferentes audi√™ncias ocidentais quando a sua voz e sua verdade iam de encontro com a ideia existente acerca de uma identidade √°rabe-africana, que aqueles que ‚Äúmonopolizam a palavra‚ÄĚ, inclusive a dos imigrantes, tinham em mente como ‚Äúideal‚ÄĚ. Assim, El Saadawi questionava: ‚ÄúTodas as outras culturas eram reduzidas em seu escopo, atrasadas, tendenciosas, preconceituosas, incapazes de lidar com o mundo como ele √© hoje, incapazes at√© mesmo de lidar com seus pr√≥prios problemas e encontrar sa√≠das. As pessoas na minha parte do mundo eram corruptas, acostumadas a curvar as costas, sabiam pouco sobre a ess√™ncia humana, e menos ainda sobre direitos humanos‚ÄĚ (EL SAADAWI, 1999b, p.15).

A cr√≠tica apresentada aqui pela autora diz respeito √† manuten√ß√£o de uma vis√£o orientalista no sentido da cr√≠tica de Edward Said de que desde o s√©culo XIX prevaleciam na literatura vis√Ķes imaginadas e idealizadas a partir de estere√≥tipos com rela√ß√£o √† apar√™ncia, √† import√Ęncia e √† atua√ß√£o das mulheres mu√ßulmanas em suas sociedades origin√°rias e nas sociedades ocidentais em que eventualmente viviam ou trabalhavam.

Nawal El Saadawi faleceu em mar√ßo de 2021 no Cairo, Egito, aos 89 anos de idade. Ao longo das d√©cadas mostrou as m√ļltiplas facetas de atua√ß√£o e resist√™ncia: ativista feminista, m√©dica psiquiatra, escritora e ensa√≠sta, m√£e. Sua vida, obra intelectual e liter√°ria discutiram em profundidade a situa√ß√£o da mulher no Egito (e no mundo √°rabe, a partir de suas viagens atuando como m√©dica de fam√≠lia), apresentando quest√Ķes como as possibilidades de ag√™ncia/resist√™ncia em meio √† viol√™ncia e opress√Ķes de ordem religiosa, pol√≠tica, social e econ√īmica.

A atualidade da obra de El Saadawi pode ser observada na relev√Ęncia das pautas abordadas por ela, tais como a mutila√ß√£o genital feminina (MGF), a viol√™ncia dom√©stica (em suas formas f√≠sica, psicol√≥gica e sexual), e as leis de fam√≠lia (que orientam t√≥picos como os direitos de mulheres e homens no casamento, no div√≥rcio e na cust√≥dia de filhos). Essas reivindica√ß√Ķes inspiraram a reflex√£o de estudiosas no Egito e no Oriente M√©dio acerca do status da mulher.  

Entre as diversas vozes femininas que El Saadawi inspirou destaco aqui a escritora eg√≠pcia Mona Eltahawy, que em sua obra destaca a import√Ęncia na atua√ß√£o feminina em lutar por seus direitos familiares, sociais e econ√īmicos em um contexto pol√≠tico marcado por governos autorit√°rios como √© o caso do Egito. Eltahawy tornou-se um s√≠mbolo de mobiliza√ß√£o feminina durante sua cobertura dos protestos populares da Primavera √Ārabe no Egito, principalmente pelo fato de ter denunciado que neste contexto sofreu viol√™ncia f√≠sica, sexual e foi detida pela pol√≠cia. Os principais temas discutidos por Eltahawy s√£o: o status da mulher nas sociedades √°rabes ‚Äď determinado por for√ßas pol√≠ticas, culturais e religiosas que a conduzem a uma esp√©cie de cidad√£o de segunda classe ‚Äď e a necessidade de as mulheres empreenderem um duplo confronto na atualidade, um vinculado √† luta (junto aos homens) contra os regimes opressores, e o outro contra as estruturas econ√īmicas e pol√≠ticas que oprimem e normatizam as mulheres.

Referências Bibliográficas

Obras de Nawal El Saadawi (livros, artigos, comunica√ß√Ķes, pe√ßas e contos)

Livros traduzidos em portugu√™s e edi√ß√Ķes em ingl√™s

El Saadawi, N. (2019). A mulher com olhos de fogo: o despertar feminista. S√£o Paulo: Faro Editorial.

YOUKHANNA, Nina. (2018). Translation: Isis: A Play in Two Acts by Nawal El-Saadawi. The World Hoard, n.6, pp.62-71. Recuperado de: http://ojs.lib.uwo.ca/index.php/wordhoard/article/download/7209/5907. Acesso em: 07 abr. 2021.

El Saadawi, N. (2002a). A face oculta de Eva: as mulheres do Mundo √Ārabe. S√£o Paulo: Global Editora.

El Saadawi, N. (2013). Memoirs of a woman doctor. Saqi.

El Saadawi, N. (2008). War against Women and Women against War: Waging war on the Mind. The Black Scholar, 38(2-3), pp.27-32.

El Saadawi, N. (2007). Woman at point zero. London: Zed Books.

El Saadawi, N. (2006). Creativity, Dissidence and Women. Quaderns de la Mediterr√†nia, 14, pp.113-118. Recuperado de: http://www.iemed.org/publicacions/quaderns/14/qm14_pdf/18.pdf. Acesso em: 07 abr. 2021.

El Saadawi, N. (2002b). Walking Through Fire: The Later Years of Nawal El Saadawi, In Her Own Words.  London: Zed Books.

El Saadawi, N. (1999a). A daughter of Isis: the autobiography of Nawal El Saadawi. London: Zed Books.

El Saadawi, N. (1999b). Why Keep Asking Me About My Identity. In: HURLEY, E. et al. (Eds.). Migrating Words and Worlds: Pan-Africanism Updated, (4), pp.7-27.

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El Saadawi, N. (1993). Women’s resistance in the Arab World and in Egypt. In:Afshar, H. (Ed.). Women in the Middle East: perceptions, realities and struggles for liberation. London: Palgrave Macmillan, pp.139-145.

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Obras secund√°rias (livros, artigos, resenhas)

Malti-Douglas, F. (2018). Men, Women, and Gods: Nawal el Saadawi and Arab Feminist Poetics. Los Angeles: University of California Press.

BALAA, L. (2018). El Saadawi Does Not Orientalize the Other in Woman at Point Zero. Journal of International Women’s Studies, 19(6), pp.236-253.

Amireh, A. (2000). Framing Nawal El Saadawi: Arab feminism in transnational world. Signs: Journal of Women in Culture and Society, 26(1), pp.215-249.

Luz, F. A. (2020). Entre mem√≥ria e ativismo pol√≠tico: contribui√ß√Ķes de Nawal El Saadawi para o feminismo eg√≠pcio e transnacional. Malala, 8(11), pp.169-180.