Iris Marion Young

Iris Marion Young

(1949 – 2006)

 

por Carolina Antoniazzi, doutoranda no

 Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo РLattes 

Iris Marion Young – PDF

Iris Marion Young. Ilustração de Little maquisart (fonte: https://www.instagram.com/little maquisart/)

Iris Marion Young nasceu em 02 de janeiro de 1949 em Nova Iorque e faleceu em 01 de Agosto de 2006 em Chicago. Ela graduou-se em filosofia pelo Queens College em 1970 e realizou seu mestrado e doutorado em filosofia na Universidade do Estado da Pensilv√Ęnia, obtendo o t√≠tulo de Doutora em 1974. Em sua trajet√≥ria acad√™mica, Young foi professora de Filosofia no Instituto Polit√©cnico de Worcester e na Universidade de Miami. No ver√£o de 1995, foi professora visitante de Filosofia na Universidade Johan Wolfgang Goethe em Frankfurt, Alemanha. Antes de ir para a Universidade de Chicago, onde terminou sua carreira, deu aulas de Teoria Pol√≠tica por nove anos na Universidade de Pittsburgh, na Escola de Gradua√ß√£o de Assuntos P√ļblicos e Internacionais. No ano de 2000, Young torna-se professora de Ci√™ncia Pol√≠tica na Universidade de Chicago, sendo membra do conselho docente do Centro de Estudos de G√™nero e do Programa de Direitos Humanos de sua universidade. Ap√≥s um ano e meio de luta contra um c√Ęncer na garganta, a autora faleceu aos 57 anos.¬†

Young tamb√©m fazia parte do conselho editorial da Revista Constela√ß√Ķes: uma publica√ß√£o internacional de teoria cr√≠tica e democr√°tica. Al√©m disso, fazia parte de diversos movimentos sociais, como membra ativa da Associa√ß√£o de Fil√≥sofos Radicais (1985-1987), de movimentos contempor√Ęneos de mulheres e contra a interven√ß√£o militar, segundo ela pr√≥pria descreve. Assim, a autora est√° o tempo todo referendando sua reflex√£o te√≥rica com os aprendizados e experi√™ncias que viveu nos movimentos sociais. Sua experi√™ncia pessoal tamb√©m influenciou fortemente as teorias que viria a desenvolver no futuro. Com a morte de seu pai, Young e os irm√£os, foram encaminhados para um abrigo. O estado julgou sua m√£e culpada por neglig√™ncia infantil. Aos olhos de Young, anos mais tarde, quando analisa a situa√ß√£o de sua m√£e em um de seus trabalhos, sua falha foi n√£o ter limpado a casa de acordo com os padr√Ķes esperados pelos oficiais estatais. O impacto de sua experi√™ncia no abrigo, bem como a interven√ß√£o estatal e suas burocracias, reflete as reflex√Ķes de Young sobre fam√≠lia, pap√©is de g√™nero, divis√£o social do trabalho e justi√ßa.¬†

Young produziu diversos artigos publicados em jornais e revistas ao longo de sua trajet√≥ria, n√£o havendo at√© hoje nenhuma tradu√ß√£o para a l√≠ngua portuguesa de quaisquer de seus trabalhos, ainda que tenha sido traduzida para diversos outros idiomas. Todos os seus livros s√£o compostos ou por artigos j√° publicados anteriormente em congressos e revistas ou ensaios incipientes, mas sempre reelaborados para formarem um todo coeso. Justice and the Politics of Difference [Justi√ßa e as Pol√≠ticas da Diferen√ßa] (1990) √© sua obra mais conhecida e de maior prest√≠gio; Throwing like a Girl and Other Essays in Feminist Philosophy and Social Theory [Jogando como uma Garota e Outros Ensaios em Filosofia Feminista e Teoria Social] (1990), foi republicado pela Oxford em 2005 sob o nome On Female Body Experience ‚ÄúThrowing like a Girl‚ÄĚ and Other Essays [Sobre a Experi√™ncia do Corpo Feminino ‚ÄúJogando como uma Garota‚ÄĚ e Outros Ensaios] (2005), que incluiu um ensaio in√©dito; Intersecting Voices: Dilemmas of Gender, Political Philosophy, and Policy [Vozes que se cruzam: Dilemas de G√™nero, Filosofia Pol√≠tica e Pol√≠tica] (1997); Inclusion and Democracy [Inclus√£o e Democracia] (2000). Global Challenges: War, Self-Determination and Responsibility for Justice [Desafios Globais: Guerra, Autodetermina√ß√£o e Responsabilidade pela Justi√ßa] (2007) e Responsibility for justice [Responsabilidade pela justi√ßa] (2011) foram publicados ap√≥s sua morte. Iris Young ainda participa como co-autora de outros livros.¬†

Como a autora afirma, seu interesse pessoal no pol√≠tico come√ßa pelo feminismo. Ainda que nem todos seus escritos sejam explicitamente sobre tal tema, suas reflex√Ķes sobre teoria cr√≠tica, justi√ßa, diferen√ßa, √©tica, democracia e pol√≠ticas p√ļblicas passam por uma vis√£o feminista. Apesar de seus ensaios serem mais difundidos e utilizados no campo da Ci√™ncia Pol√≠tica, Young possui grande conhecimento filos√≥fico e estabelece debates com grandes nomes da filosofia como Habermas, Sartre, Merleau-Ponty, Heidegger, Derrida, Foucault, Lyotard, Marcuse, Adorno, Marx, Simone de Beauvoir, Judith Butler, Julia Kristeva, Susan Okin, Seyla Benhabib e Luce Irigaray, entre outros. Ainda que a lista de interlocutores seja extensa, Young √© sempre muito did√°tica e expl√≠cita quando apresenta seus argumentos, o que torna a leitura de sua obra flu√≠da e compreens√≠vel.¬†

Após esse breve panorama, pretendo apresentar uma abordagem que considero pertinente para entender temas cruciais no pensamento dessa filósofa. 

 

Principais temas e conceitos

 

Uma das principais caracter√≠sticas do trabalho de Iris Young √© sua preocupa√ß√£o em sempre delimitar o seu objeto de estudo. Outro ponto fundamental √© a explicita√ß√£o de sua pr√≥pria situa√ß√£o: Young se reconhece como uma autora branca, heterossexual, de classe m√©dia, fisicamente apta, n√£o velha, estadunidense e detentora de privil√©gios; o que n√£o a afasta de tratar sobre temas importantes como racismo, pessoas incapacitadas, idosos, sexismo, usu√°rios de drogas, imigrantes e outros grupos oprimidos. Young √© meticulosa ao definir conceitos, demonstrar sua aplicabilidade, sem perder seu rigor te√≥rico. A autora tem sempre em vista como os princ√≠pios, categorias e argumentos por ela utilizados s√£o ferramentas te√≥ricas que podem e devem alargar o pensamento como modo de propor a√ß√Ķes concretas para promover mudan√ßas na realidade social. Isso significa que a teoria de Young est√° sempre atrelada aos contextos e situa√ß√Ķes por ela descritos, podendo ser aplicada em outras circunst√Ęncias, desde que ressituada. Young entende a teoria cr√≠tica como hist√≥rica e culturalmente posicionada, o que significa afirmar que a no√ß√£o de situa√ß√£o √© essencial para o pensamento da autora. Indiv√≠duos interagem e lidam com estruturas sociais a todo instante, de modo que ao mesmo tempo em que Young n√£o pretende universalizar qualquer experi√™ncia, reconhece que h√° imposi√ß√Ķes que incidem na vida desses mesmos indiv√≠duos. Portanto, inicio com o que considero que perpassa, ainda que tacitamente, toda sua obra.¬†¬†

 

Corpo vivido

 

Young adota a corrente fenomenol√≥gica explicitamente apenas em seu livro Sobre a Experi√™ncia do Corpo Feminino ‚ÄúJogando como uma Garota‚ÄĚ e Outros Ensaios (2005), no qual a autora descreve diversos aspectos e modalidades de estar no mundo a partir de um corpo feminino.¬† Segundo ela, apesar dos diversos ganhos dos movimentos feministas das √ļltimas d√©cadas, as mulheres ainda n√£o deixaram de serem vistas como o Outro, como corpos vulner√°veis atrav√©s de estruturas sociais que assim as posicionam. √Č na retomada do conceito de corpo vivido para teorizar subjetividades que acredito que a fil√≥sofa tenha se destacado e fornecido para a teoria feminista uma grande ferramenta te√≥rica. Young retoma este conceito a partir de Merleau-Ponty e Simone de Beauvoir, segundo proposta de Toril Moi.¬†

Este conceito √© pe√ßa-chave uma vez que desse modo a autora consegue abarcar uma multiplicidade e singularidade ao mesmo tempo, sem cair num reducionismo biol√≥gico ou essencialismo de g√™nero. Segundo ela, ‚Äúo corpo vivido √© uma ideia unificada de um corpo f√≠sico agindo e experienciando um contexto sociocultural espec√≠fico; √© um corpo-em-situa√ß√£o‚ÄĚ (2005, p.16, tradu√ß√£o minha, sem men√ß√Ķes adiante). Assim, a situa√ß√£o seria o cruzamento da facticidade e da liberdade. A facticidade consistiria em todas as rela√ß√Ķes materiais concretas da exist√™ncia de uma pessoa em seu corpo com o ambiente f√≠sico e social que a rodeiam. Ou seja, cada ser enfrenta os fatos materiais de seu corpo e sua intera√ß√£o com determinado ambiente ‚ÄĒ o que significa dizer que posso nascer em determinado local, num certo tempo hist√≥rico, com √≥rg√£os espec√≠ficos, sem que isso determine nada, sendo apenas um fato com o qual devo lidar. A pessoa, por outro lado, √© um ator. Possui uma liberdade ontol√≥gica para se constituir em rela√ß√£o √† facticidade. Cada ator possui¬† projetos espec√≠ficos, coisas que deseja alcan√ßar e maneiras que deseja se expressar, deixando sua marca no mundo, transformando o seu meio e rela√ß√Ķes. Assim, a situa√ß√£o seria o modo pelo qual os fatos relacionados ao corpo, ao meio f√≠sico, social e cultural aparecem √† luz dos projetos de algu√©m. Como esta pessoa ir√° valorar tais fatos (positiva, negativa ou criticamente) e lidar com eles, depende de cada um e √© a√≠ que se encontra sua liberdade.

Propor a utiliza√ß√£o do conceito de corpo vivido para a teoriza√ß√£o da subjetividade seria sugerir que cada corpo pr√≥prio possui sua especificidade sem que seja constrangido por seu sexo biol√≥gico ou outras caracter√≠sticas f√≠sicas a agir e a se expressar de determinada maneira, pois cada corpo seria uma singularidade a partir do qual vive a facticidade e pode desenhar sua liberdade. Ainda, a categoria de corpo vivido n√£o encerraria as diferen√ßas por orienta√ß√Ķes ou desejos sexuais, n√£o tendo que estabelecer uma correla√ß√£o entre o corpo vivido e dimorfismo sexual ou normas heterossexuais. Segundo Young: ‚ÄúA ideia do corpo vivido, al√©m disso, recusa a distin√ß√£o entre natureza e cultura que fundamenta uma distin√ß√£o entre sexo e g√™nero. O corpo, como corpo vivido, √© sempre enculturado‚ÄĚ (2005, p. 17). O corpo enculturado √© aquele marcado pelas caracter√≠sticas de um determinado local e tempo, das intera√ß√Ķes com os outros corpos e o que se espera dele. A ideia de corpo vivido seria capaz de abarcar a pluralidade de comportamentos sem reduzi-los ao binarismo heterossexual de masculino e feminino. Pois, cada pessoa √© um corpo vivido √ļnico, com capacidades e desejos singulares, que podem ser diferentes ou similares a outros corpos num determinado aspecto.

Portanto, a ideia de um corpo vivido reconheceria a subjetividade de cada pessoa ‚ÄĒ situada por fatores socioculturais, comportamentos e expectativas dadas de forma pr√©via, n√£o necessariamente escolhidas ‚ÄĒ, mas a forma como ir√° lidar com cada situa√ß√£o e aspecto dependeria da liberdade pr√≥pria de cada ser. Em resumo, Iris Young retoma o conceito de corpo pr√≥prio de Merleau-Ponty, j√° que, segundo ela, a conceitualiza√ß√£o do fil√≥sofo daria mais espa√ßo para a liberdade e diferen√ßa individual. Contudo, a autora o faz a partir de Simone de Beauvoir por alguns motivos: segundo ela, Beauvoir teria aprofundado a situa√ß√£o do corpo vivido ao tematizar a diferen√ßa sexual como grande definidora da situa√ß√£o da mulher. Al√©m disso, o conceito de corpo vivido implica que cada corpo √© √ļnico e perpassado por diversas estruturas, n√£o s√≥ as de g√™nero. Isto porque a ideia de situa√ß√£o √© indissoci√°vel ao corpo vivido. Assim, quando Young pensa as cinco¬† categorias que comp√Ķem a opress√£o, ou a realidade de grupos sociais, podemos l√™-la com esse pano de fundo.¬†

 

Grupos Sociais

 

Se por um lado Young est√° √†s voltas com a possibilidade de teorizar a subjetividade sem que se operem exclus√Ķes ou normatiza√ß√Ķes, ela tamb√©m est√° empenhada em entender como √© poss√≠vel que grupos sociais possam ser pensados. Young descreve o que entende por grupos sociais em seu livro Justi√ßa e as Pol√≠ticas da Diferen√ßa (1990) no ensaio As Cinco Faces da Opress√£o (1988), mas tamb√©m aborda esse tema quando pensa o g√™nero como serialidade, que veremos em seguida. Segundo ela: ‚ÄúUm grupo social √© um coletivo de pessoas diferenciado de, ao menos, um outro grupo por formas culturais, pr√°ticas e modo de vida. (‚Ķ) Grupos s√£o uma express√£o de rela√ß√Ķes sociais; um grupo existe apenas em rela√ß√£o a pelo menos um outro grupo‚ÄĚ (1990, p.43). Young ainda diferencia grupos de associa√ß√Ķes e agrega√ß√Ķes. Agrega√ß√Ķes podem ser formadas por pessoas que compartilhem algum atributo, ao passo que o grupo social se define por um senso de identidade. Young afirma: ‚ÄúGrupos s√£o reais n√£o enquanto subst√Ęncias, mas como formas de rela√ß√Ķes sociais‚ÄĚ (1990, p.44), o que significa dizer que o pertencimento a um grupo conta para o sentido de identidade de uma pessoa. Young define a associa√ß√£o, por sua vez, como uma institui√ß√£o formalmente organizada, como clubes, corpora√ß√Ķes, partidos pol√≠ticos, igrejas, etc.

Young retoma a fenomenologia heideggeriana para pensar a caracter√≠stica de pertencimento a um grupo social como se encontrar (a partir do conceito de ‚Äúthrownness‚ÄĚ) membro de um grupo, numa experi√™ncia de como se sempre estivesse pertencido ali, porque, segundo ela, nossa identidade se define em como os outros tamb√©m nos definem, e este processo se d√° em termos de grupos que j√° estavam ali definidos anteriormente com determinados atributos, estere√≥tipos e normas. Isso n√£o significa uma perten√ßa imut√°vel mas, antes, nas mudan√ßas identit√°rias que ocorrem ao longo da vida. Encontrar a identidade como dada a partir de um grupo e tom√°-la para si de determinado modo, n√£o funda em si um grupo, mas pode traz√™-lo a uma nova exist√™ncia. Ainda, o modo de ver grupos como fic√ß√Ķes e, portanto, como relacionais e mais flu√≠dos, √© um dos modos de afirmar a diferencia√ß√£o de grupos sem que haja opress√Ķes. O erro estaria em afirmar a caracteriza√ß√£o de um grupo em termos de naturezas essenciais imut√°veis, determinando o que lhes cabe e o que s√£o capazes, negando o car√°ter de similaridades entre grupos e atributos que muitas vezes s√£o sobrepostos. A ideia de que a elimina√ß√£o de grupos eliminaria por conseguinte opress√Ķes, e que pessoas deveriam ser tratadas apenas como indiv√≠duos, √© um equ√≠voco. Seria tolo negar a realidade de grupos sociais. Ainda, a diferencia√ß√£o de grupos n√£o √© em si opressiva. Como veremos, a autora defende uma ideia de diferen√ßa.¬†

 

Coletividade em série

 

Young desloca o conceito de g√™nero para pensar as estruturas sociais e os processos que se d√£o em n√≠vel sist√™mico. Logo, sendo o corpo vivido experienciado dentro deste contexto, a categoria de g√™nero (como outros marcadores sociais) se faz necess√°ria a fim de avaliar as implica√ß√Ķes de tais estruturas sociais que cercam estes corpos. √Č certo que um indiv√≠duo ocupa m√ļltiplas posi√ß√Ķes dentro das estruturas sociais, o que pode levar com que seja oprimido ou opressor, a depender do caso. Assim, tratando de encontrar desigualdades sociais, e n√£o encontrar pessoas que individualmente perpetuem tais opress√Ķes ou injusti√ßas, adotar a perspectiva das estruturas √© mais proveitoso √† teoria cr√≠tica social.

No cap√≠tulo um do livro Vozes que se cruzam: Dilemas de G√™nero, Filosofia Pol√≠tica e Pol√≠tica (1997), Iris Young retoma, no ensaio G√™nero como Serialidade: pensando sobre mulheres como um Coletivo Social (1994), a problem√°tica que Butler e autoras negras denunciavam: ap√≥s os primeiros movimentos feministas (at√© alguns atuais), em que a afirma√ß√£o da categoria mulheres se fez necess√°ria para sa√≠rem do lugar do outro e afirmarem-se como sujeitos, passou-se a questionar a pr√≥pria categoria de mulheres. Segundo ela, as cr√≠ticas que apontam para uma normaliza√ß√£o e exclus√£o de determinadas pessoas, quando esse agrupamento se d√° atrav√©s da busca de caracter√≠sticas em comum entre elas, s√£o v√°lidas. Por√©m, Young insiste que h√° raz√Ķes pol√≠ticas pragm√°ticas para insistir na possibilidade de se pensar sobre mulheres enquanto algum tipo de grupo. Este impasse ‚ÄĒ pensar num coletivo social, como o de ‚Äúmulheres‚ÄĚ, espec√≠fico √† teoria feminista, sem que sejam identificadas por atributos em comum para fazer parte deste grupo ‚ÄĒ √© resolvido pela autora a partir da reconceitualiza√ß√£o de coletividade social ou de grupos sociais atrav√©s da obra de Sartre, A Cr√≠tica da Raz√£o Dial√©tica (1960).

Ao longo de sua análise, passa pelos argumentos acerca do tema em Butler, Spelman, Ann Furgson, Nancie Caraway e Chandra Mohanty. Sua proposta é que entendamos gênero como referindo-se a uma série social, um tipo específico de coletividade social que Sartre distingue de grupos. Entender o gênero como serialidade possui algumas virtudes: fornece uma maneira de se pensar nas mulheres como um coletivo social sem exigir que todas as mulheres tenham atributos ou situação em comum; além disso, não se funda em identidade ou auto identidade para entender a produção social ou o sentido de fazer parte de um coletivo. Sartre distingue vários níveis de coletividades sociais a partir de sua ordem interna de complexidade e reflexividade. A distinção que nos importa é entre grupo e série. 

Grupo é um coletivo de pessoas que se reconhecem e reconhecem uns aos outros, como em uma relação unificada um com o outro, possuindo um projeto em comum. Os membros do grupo, portanto, são unidos pela ação que tomam conjuntamente. Cada indivíduo reconhece que o projeto comum também é um projeto de seu interesse. Entendo que aqui Young dá contornos mais elaborados ao que já havia realizado em relação aos grupos sociais. 

A s√©rie, por sua vez, adv√©m de uma uni√£o passiva. Coletividade em s√©rie, segundo leitura de Young de Sartre, √© justamente o oposto da t√≠pica identifica√ß√£o m√ļtua de um grupo. Cada um faz parte da s√©rie com vistas a seu pr√≥prio objetivo, mas cada um tamb√©m √© ciente do contexto serializado daquela a√ß√£o num coletivo social, cujas estruturas as constituem dentro de certos limites.

O prop√≥sito te√≥rico de Sartre ao desenvolver o conceito de serialidade, para Young, era¬† descrever o sentido de classe social. Na maior parte do tempo o que significa ser membro da classe trabalhadora (ou capitalista) √© viver em s√©rie com outras pessoas dessa classe, atrav√©s de um conjunto complexo e interligado de objetos, estruturas e pr√°ticas em rela√ß√£o ao trabalho, √† troca e ao consumo. Dizer que uma pessoa √© de determinada classe social, significa dizer que isso √© uma facticidade social sobre as condi√ß√Ķes materiais da vida dessa pessoa, o que n√£o internaliza uma identidade para ela. Tal condi√ß√£o adota o sentido de identidade quando o indiv√≠duo afirma: ‚Äúsou um trabalhador‚ÄĚ, momento este que passa a fazer parte de um grupo, juntamente com outros trabalhadores, com os quais estabeleceu la√ßos de solidariedade autoconsciente.

De maneira an√°loga, Young sugere aplicar este conceito de serialidade √† categoria de ‚Äúmulheres‚ÄĚ. H√° portanto uma estrutura pr√©via que identifica e posiciona esses corpos, o que n√£o significa que isso n√£o pode ser subvertido, como no uso da linguagem neutra ou mesmo na subvers√£o dos papeis de g√™nero. Essas estruturas de g√™nero, assim como aquelas de classe e ra√ßa s√£o realidades com as quais cada ser deve lidar. Mas, a forma e o peso que cada sujeito atribuir√° a tais eventos √© particular, o que significa que tais estruturas n√£o nomeiam atributos essenciais ou aspectos da identidade desses diferentes sujeitos. Segundo Young, ‚ÄúUma das maiores vantagens de se pensar o g√™nero como serialidade √© que isto desconecta g√™nero de identidade‚ÄĚ (1997, p.33).

 

As cinco faces da opressão 

 

No ensaio As Cinco Faces da Opress√£o presente no livro Justi√ßa e as Pol√≠ticas da Diferen√ßa (1990), Young parte da premissa que a justi√ßa n√£o deveria limitar-se a quest√Ķes relativas √† distribui√ß√£o de bens dentre aqueles que n√£o constituem o hegem√īnico ‚ÄĒ homem, branco, heterossexual, em idade adulta, classe social alta e europeu. Segundo ela, √© preciso que haja condi√ß√Ķes institucionais para o exerc√≠cio e desenvolvimento da capacidade individual e coletiva, atrav√©s de decis√Ķes, divis√£o do trabalho e cultura.¬†

Para Young, a opress√£o √© uma condi√ß√£o de grupos, um conceito estrutural. Isso significa que o vi√©s adotado n√£o √© o da opress√£o de um tirano, a conquista de um grupo sobre outro ou a domina√ß√£o colonial. Young refere-se √† opress√£o posta em pauta pelos movimentos sociais de esquerda dos anos 1960 e 1970, em que algumas pessoas s√£o injusti√ßadas ou est√£o em desvantagem nas pr√°ticas cotidianas de uma sociedade liberal. Assim, suas causas est√£o arraigadas em h√°bitos, normas, s√≠mbolos, regras institucionais e no cumprimento de tais regras. Isso tamb√©m significa que n√£o h√° necessariamente um √ļnico agente que perpetua tal opress√£o ‚ÄĒ ainda que em rela√ß√Ķes pessoais esse possa ser o caso ‚ÄĒ mas que isso se d√° de forma estruturada socialmente. De acordo com Young, isso nos leva ao reconhecimento de que os diferentes grupos incidem na vida individual de forma t√£o m√ļltipla, que pode implicar privil√©gio e opress√£o para o mesmo sujeito a depender do caso.

O conceito de opressão é caro a Young uma vez que sua teoria da justiça é diretamente ligada a ele e ao conceito de dominação. Questionar as causas da injustiça significa necessariamente reconhecer a existência de grupos sociais e a opressão que alguns estão submetidos. Portanto, subjacente a qualquer análise crítica teórica que Iris Young faça, está a análise situada, histórica, cultural e socialmente, sobre opressão e dominação. Para tanto, Young nos oferece cinco categorias de análise para a opressão: exploração, marginalização, impotência, imperialismo cultural e violência. 

A categoria de explora√ß√£o est√° diretamente ligada aos conceitos marxistas de luta de classes, lucro e mais-valia. Se todos s√£o formalmente livres, como h√° domina√ß√£o de classes? √Č atrav√©s do conceito de mais-valia que Marx explica como o lucro se d√° nas rela√ß√Ķes capitalistas. Young alarga o conceito, pois para ela n√£o se trata apenas de uma quest√£o econ√īmica, mas tamb√©m de transfer√™ncia de poder entre grupo. O trabalhador perde n√£o s√≥ os meios materiais de produ√ß√£o, mas o controle de qualquer tipo de poder e, em consequ√™ncia, √© privado de elementos de respeito numa raz√£o muito maior do que aquilo que √© de fato transferido. Ainda, o conceito marxista de explora√ß√£o n√£o leva em considera√ß√£o a transfer√™ncia de poderes (num sentido largo) de mulheres aos homens. ‚ÄúA liberdade, poder, status e auto-realiza√ß√£o dos homens √© poss√≠vel precisamente porque mulheres trabalham para eles. Explora√ß√£o de g√™nero possui dois aspectos, transfer√™ncia dos frutos materiais do trabalho para os homens e transfer√™ncia de energia sexual e vital para os homens‚ÄĚ (1990, p.50). Outra forma de transfer√™ncia de energia das mulheres para os homens seria o cuidado emocional destes e da prole. Assim, ao serem exploradas, as mulheres liberam os homens para trabalhos mais importantes e criativos socialmente, aumentando seu status na sociedade.¬†

Outro modo de explora√ß√£o analisado por Young se d√° na especificidade das rela√ß√Ķes raciais. Pois, onde h√° racismo, h√° a assun√ß√£o de que os membros do grupo racial oprimido devem servir aos do grupo privilegiado. Na opress√£o racial, a marginaliza√ß√£o ‚ÄĒ condi√ß√£o a que pessoas exclu√≠das do sistema de trabalho s√£o sujeitas ‚ÄĒ √© a forma mais not√°vel e, talvez, a mais perigosa de domina√ß√£o, uma vez que toda uma categoria de pessoas √© expulsa da participa√ß√£o da vida social e sujeita a priva√ß√£o material, o que pode lev√°-las ao exterm√≠nio. A distribui√ß√£o de bens materiais por sociedades do bem-estar social, n√£o soluciona os males causados por esse tipo de opress√£o.

Para Young, a depend√™ncia ‚ÄĒ n√£o apenas do provimento de bem-estar social pelo Estado mas na rela√ß√£o entre cidad√£os ‚ÄĒ em si n√£o deveria ser um fator opressivo, j√° que todos em algum momento da vida ser√£o dependentes de outros: crian√ßas, doentes, mulheres recuperando-se do parto, idosos debilitados, etc. Para a autora, a viv√™ncia feminina demonstra como a depend√™ncia deve ser reconhecida como condi√ß√£o b√°sica da experi√™ncia humana.¬†

A impot√™ncia tende a ser explicada negativamente: a falta de poder ou de autoridade, status e o senso pr√≥prio que profissionais costumam ter, √© o que falta em trabalhos considerados n√£o profissionais. A rela√ß√£o entre profissionais e n√£o profissionais, numa divis√£o social do trabalho, tende a produzir impot√™ncia do segundo em rela√ß√£o ao seu pr√≥prio trabalho, j√° que n√£o possui o poder de determin√°-lo. S√£o aqueles que o poder √© exercido sobre, n√£o aqueles que o det√™m. Suas caracter√≠sticas s√£o a falta de autonomia, falta de exerc√≠cio criativo, falta de expertise t√©cnica e autoridade. Comumente s√£o aqueles designados como a classe trabalhadora. Assim, essa posi√ß√£o de trabalho √© concomitante a uma posi√ß√£o social de n√£o poder. Por fim, a divis√£o entre trabalhos ‚Äúmanuais‚ÄĚ e ‚Äúmentais‚ÄĚ estendem para a vida os privil√©gios da classe de profissionais para al√©m do local de trabalho, possuindo um senso de respeitabilidade na sociedade. Assim, homens e mulheres da classe trabalhadora, se v√™em a todo momento tendo que se provar, de alguma forma, perante a sociedade.¬†

Explora√ß√£o, marginaliza√ß√£o e impot√™ncia referem-se a rela√ß√Ķes de poder e opress√£o que ocorrem em virtude da divis√£o do trabalho, de rela√ß√Ķes estruturais e institucionais que delimitam a vida de muitas pessoas materialmente, sendo uma quest√£o concreta de poder de uns sobre outros.

O imperialismo cultural, por sua vez, √© a experi√™ncia de como os s√≠mbolos dominantes de uma sociedade tornam a perspectiva particular de grupos oprimidos invis√≠vel, ao mesmo tempo que estereotipa e marca tais grupos como o Outro. O conceito de imperialismo cultural √© uma forma de opress√£o que, segundo Young, adv√©m de teorias feministas e do movimento por liberta√ß√£o negra, tomado de Lugones e Spelman. Nas palavras de Young: ‚ÄúImperialismo cultural envolve a universaliza√ß√£o da experi√™ncia e cultura de um grupo dominante e seu estabelecimento como a norma‚ÄĚ (1990, p.59). Ao faz√™-lo, o grupo dominante projeta sua pr√≥pria experi√™ncia como representativa da humanidade, assim como os produtos culturais expressam a perspectiva de tal grupo. No encontro com outros grupos, o que ocorre √© que estes se tornam inferiores e desviantes ou, ainda, como faltantes. Outro desdobramento √© que aqueles que s√£o culturalmente dominados sofrem uma opress√£o paradoxal: ao mesmo tempo em que s√£o estereotipados, s√£o invisibilizados. Young recorre a Du Bois para explicar o fen√īmeno da dupla consci√™ncia que emerge do processo de opress√£o: o sujeito deseja ser reconhecido como humano, mas recusa a coincidir com as vis√Ķes estereotipadas, objetificadas e desvalorizadas de si. A injusti√ßa do imperialismo cultural consiste no fato de que as experi√™ncias e interpreta√ß√Ķes da vida social dos grupos oprimidos encontram pouco eco na cultura dominante, enquanto essa mesma cultura lhes imp√Ķe experi√™ncias e interpreta√ß√Ķes consoante a norma.¬†

Por fim, h√° o aspecto da viol√™ncia a que muitos grupos est√£o submetidos de forma sistem√°tica como √© o caso da viol√™ncia contra corpos negros, femininos, gays, l√©sbicos, ou seja, todos aqueles que fogem da norma hegem√īnica. Nesta categoria est√£o inclusas formas menos severas de viol√™ncia f√≠sica, como o ass√©dio, humilha√ß√£o ou estigmatiza√ß√£o de grupos. √Č seu car√°ter sist√™mico, sua exist√™ncia como pr√°tica social, que torna a viol√™ncia um fen√īmeno de injusti√ßa social. Sistem√°tica porque ocorre com determinados grupos apenas por serem marcados como diferentes. ‚ÄúA opress√£o da viol√™ncia consiste n√£o apenas na direta vitimiza√ß√£o, mas no conhecimento di√°rio partilhado por todos os membros de grupos oprimidos que eles s√£o sujeitos a viola√ß√£o, apenas pelo fato de sua identidade enquanto grupo‚ÄĚ (1990, p.62). Para Young, √© somente atrav√©s das mudan√ßas em imagens culturais, estere√≥tipos e a consequente dissolu√ß√£o das rela√ß√Ķes de domina√ß√£o que esse cen√°rio de perpetra√ß√£o de viol√™ncias contra determinados grupos, que s√£o tolerados e at√© mesmo encorajados por pr√°ticas sociais e institui√ß√Ķes, poder√° mudar.

Enfim, Young entende que a pluraliza√ß√£o da categoria de opress√£o nas formas em que apresentou pode ajudar a teoria social a evitar a exclus√£o ou simplifica√ß√£o que marcadores como racismo, sexismo, classismo, heterosexismo podem trazer. Isto porque, opress√Ķes se interrelacionam e podem apresentar similaridades entre grupos diversos. Al√©m disso, o posicionamento de cada indiv√≠duo dentro de um grupo √© √ļnico e, geralmente, marcadores sociais tendem a representar a situa√ß√£o de membros diferentes de um grupo como √ļnica.

 

Justiça e Diferença

 

√Č no seu livro Justi√ßa e as Pol√≠ticas da Diferen√ßa (1990) que Young aborda diretamente os temas da justi√ßa e da diferen√ßa, o que n√£o significa que n√£o estejam presentes nas outras obras aqui j√° mencionadas. Inclus√£o e Democracia (2000) trata de quest√Ķes pr√≥ximas a essas.¬†

Young aborda o tema da justi√ßa por entender que esta √© a quest√£o central da filosofia pol√≠tica. Em sua cr√≠tica ao positivismo da teoria pol√≠tica, afirma que muitas vezes as estruturas institucionais s√£o assumidas como dados, ao inv√©s de serem questionadas. Esse reducionismo, por sua vez, conduz os sujeitos √† uma unidade e √† valoriza√ß√£o do comum, ao inv√©s da especificidade e diferen√ßa. Ainda que trate sobre justi√ßa, Young defende que n√£o pretende construir uma teoria da justi√ßa, porque h√° de se considerar a temporalidade e espacialidade das rela√ß√Ķes sociais, que s√£o sempre complexas, ao passo que uma teoria nesse sentido se pretende atemporal e universal.¬†

Segundo a fil√≥sofa, as teorias contempor√Ęneas de justi√ßa tendem a focar no paradigma da redistribui√ß√£o, que √© de fato necess√°rio, mas que obscurece as quest√Ķes de opress√£o e domina√ß√£o. Estes sim deveriam ser os termos prim√°rios para uma conceitualiza√ß√£o da injusti√ßa social. Seu ponto √© que o paradigma da redistribui√ß√£o deveria se ater √† distribui√ß√£o de bens materiais, pois alargar este conceito para a distribui√ß√£o de poder e oportunidade n√£o daria conta de abarcar as m√ļltiplas perspectivas, interesses e opini√Ķes nas sociedades contempor√Ęneas complexas. Ainda, poder e oportunidade se d√£o em termos de opress√£o e domina√ß√£o, como examinamos acima.¬†

Em sua an√°lise da justi√ßa, Young afirma a exist√™ncia de grupos sociais, como vimos, al√©m da defesa de que a diferen√ßa em si mesma n√£o s√≥ n√£o deveria ensejar opress√£o, mas deveria ser afirmada enquanto um valor social democr√°tico. As diferentes perspectivas enriquecem o debate p√ļblico e pol√≠tico, e esta positiva√ß√£o da diferen√ßa deveria ser buscada, ao inv√©s de uma unidade ut√≥pica. Processos democr√°ticos de tomada de decis√£o s√£o outro elemento importante e condi√ß√£o para justi√ßa social. Outro paradigma desmontado por Young √© o da imparcialidade, que pressup√Ķe a separa√ß√£o te√≥rica entre corpo e raz√£o. Se, como propomos, Young entende as subjetividades a partir do conceito de corpo vivido e, se sua teoria √© coerente, tal divis√£o n√£o cabe dentro de uma perspectiva justa de sociedade.¬†

Na busca por uma sociedade justa em que as diferen√ßas de ra√ßa, sexo, religi√£o, etnia n√£o sejam a causa de diferentes oportunidades e direitos, Young questiona o ideal de justi√ßa que busca a libera√ß√£o como a transcend√™ncia da diferen√ßa de grupos, numa ideia de assimila√ß√£o. Al√©m disso, afirma que a pol√≠tica tradicional que exclui ou desvaloriza determinadas pessoas, assume os atributos de um grupo como uma diferen√ßa essencialista, como se tais grupos tivessem diferentes naturezas. O que a autora busca √© a afirma√ß√£o da diferen√ßa enquanto um processo flu√≠do e relacional, como produto de processos sociais. Segundo ela, uma sociedade sem diferen√ßas de grupos n√£o √© poss√≠vel ou desej√°vel. Logo, h√° de se reconhecer que grupos existem e que alguns ocupam uma posi√ß√£o de privil√©gio enquanto outros s√£o oprimidos. A diferen√ßa enquanto afirma√ß√£o desloca o hegem√īnico como norma, que torna a diferen√ßa em exclus√£o. Assim, enquanto grupos privilegiados s√£o neutros e exibem uma subjetividade male√°vel e livre, os grupos exclu√≠dos s√£o marcados por uma suposta ess√™ncia, aprisionados sob determinadas possibilidades. Nas palavras de Young: ‚ÄúDiferen√ßa passa a significar n√£o outridade, oposi√ß√£o exclusiva, mas especificidade, varia√ß√£o, heterogeneidade. Diferen√ßa nomeia rela√ß√Ķes de similaridade e dissimilaridade que n√£o podem ser nem reduzidas a identidades coextensivas nem a alteridades n√£o sobrepostas‚ÄĚ (1900, p.171). Assim, um sentido positivo de diferen√ßa de grupos √© emancipat√≥rio porque reclama a defini√ß√£o do grupo pelo pr√≥prio grupo, como uma cria√ß√£o e constru√ß√£o, ao inv√©s de uma ess√™ncia dada ou pr√©via.¬†

A diferen√ßa tamb√©m √© sustentada por Young na sua defesa de uma vida justa na cidade. Segundo ela, a maioria dos te√≥ricos encontram como sa√≠da para as sociedades capitalistas contempor√Ęneas a defesa da comunidade. Para ela, o ideal da comunidade falha em oferecer alternativas para uma pol√≠tica democr√°tica. Resumidamente, porque o ideal comunit√°rio expressa um desejo por uma fus√£o dos sujeitos em pr√°ticas que operam por excluir aqueles que n√£o se identificam com eles. Al√©m disso, nega e reprime diferen√ßas sociais. Sua proposta √©, portanto, um ideal de vida que afirme diferen√ßas entre grupos, para que todos possam ter voz sem que isso forme uma comunidade coesa.

 

Referências Bibliográficas

 

Obras da autora

 

YOUNG, I M. (1990). Justice and the Politics of Difference. Princeton, New Jersey: Princeton University Press.

_______. (1997). Intersecting Voices: Dilemmas of Gender, Political Philosophy, and Policy. Princeton, New Jersey: Princeton University Press.

_______. (2000). Inclusion and Democracy. New York: Oxford University Press.

_______.(2005). On female body experience: ‚ÄúThrowing like a girl‚ÄĚ and other essays. New York: Oxford University Press.

_______. (2007). Global Challenges. War, Self-Determination and Responsibility for Justice. Cambridge: Polity Press, 2007.

_______. (2011). Responsibility for justice. New York: Oxford University Press.

 

Literatura secund√°ria

 

ANTONIAZZI, C.B. (2022). Subjetividade e opressão a partir do corpo gestante. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais, Universidade de São Paulo. São Paulo. 

BEAUVOIR, S. de. ([1949] 2016). O segundo sexo. 3ªed. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
BENHABIB, S.; DEAN, J. (2006). In Memoriam: Iris Young, 1949-2006. In: Constellations Volume 13, No 4., Reino Unido.

ELIAS, R. do V. (2018). Justiça, grupos sociais e responsabilidade: estrutura e agência em Iris Young. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Filosofia do Direito e Teoria Geral do Direito, Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo. São Paulo.

MERLEAU-PONTY, M. ([1945] 1999). Fenomenololgia da percepção. 2ª ed. trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes.

MOI, Toril. (1999). What Is a Woman? And Other Essays. New York: Oxford University Press.

NEVES, Raphael Cezar da Silva. (2005). Reconhecimento, multiculturalismo e direitos. Contribui√ß√Ķes do debate feminista a uma teoria cr√≠tica da sociedade. Disserta√ß√£o de Mestrado do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Ci√™ncia Pol√≠tica, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci√™ncias Sociais, Universidade de S√£o Paulo. S√£o Paulo.¬†

UHDE, Zuzana. (2010). On Sources of Structural Injustice: A Feminist Reading of the Theory of Iris M. Young. In: Human Affairs 20, pp.151-166. Institute of Sociology, Academy of Sciences of the Czech Republic. Czech Republic.

 

Outras fontes

 

Oxford Learning Link: https://learninglink.oup.com/access/content/garner-2ce-student-resources/key-thinkers-iris-marion-young (√ļltimo acesso em 29/08/2023)

 

Constellations Journal: https://onlinelibrary.wiley.com/journal/14678675 (√ļltimo acesso em 29/08/2023)