Rosa Luxemburgo

(1871-1919)

Por Isabel Loureiro

Doutora em Filosofia pela Universidade de S√£o Paulo (USP) – Lattes

PDF – Rosa Luxemburgo

Vida

Rosa (Rosalie, Rosalia, R√≥Ňľa) Luxemburgo (Luksenburg, Luxemburg) nasceu em 5 de mar√ßo de 1871, em ZamoŇõńá, pequena cidade na parte sudoeste da Pol√īnia anexada pelo imp√©rio russo. O pai, Eliasch Luksenburg, comerciante, e a m√£e, Lina (de solteira L√∂wenstein), ligados ao iluminismo judaico, prezavam acima de tudo a educa√ß√£o dos filhos e a alta cultura. Rosa Luxemburgo era a √ļltima de tr√™s irm√£os e uma irm√£. 

Em 1873, a fam√≠lia mudou-se para Vars√≥via.  Aos cinco anos, para tratar de uma doen√ßa do quadril, Rosa passou um ano na cama com a perna engessada. Foi quando aprendeu a ler e escrever. Como resultado do tratamento, a perna esquerda ficou mais curta, levando-a a coxear por toda a vida. Educada em casa at√© os nove anos, entrou pelo sistema de quotas para meninas judias no II Gin√°sio Feminino de Vars√≥via, col√©gio russo onde era proibido falar polon√™s.  

Em fevereiro de 1889, foi para a Universidade de Zurique onde se matriculou em ci√™ncias naturais. Pouco depois, abandonou essa carreira ao conhecer Leo Jogiches, de Vilna (Litu√Ęnia), seu companheiro por 15 anos, que a convenceu a estudar economia, filosofia e direito. Na universidade, Rosa Luxemburgo se torna ex√≠mia conhecedora da obra de Marx, com quem estabeleceu um di√°logo frut√≠fero avesso a qualquer forma de dogmatismo. 

Em 1893, com Leo Jogiches e outros revolucion√°rios poloneses, fundou a Social-Democracia do Reino da Pol√īnia, partido de base marxista, fortemente inspirado na social-democracia alem√£, que em 1899, com a ades√£o dos socialistas da Litu√Ęnia, foi rebatizada de Social-Democracia do Reino da Pol√īnia e Litu√Ęnia (SDKPiL), nome com que passou √† hist√≥ria. 

Em 1897, defendeu a tese de doutorado em economia pol√≠tica, O desenvolvimento industrial da Pol√īnia, publicada logo em seguida por uma grande editora de Leipzig. Em 1898, mudou-se para Berlim, onde fez carreira no Partido Social-Democrata Alem√£o (SPD) como jornalista, oradora e professora da escola de quadros do partido. De 1904 a 1914, representou a SDKPiL no Bureau da Internacional Socialista em Bruxelas. Ela teve sempre uma dupla milit√Ęncia, no movimento socialista alem√£o e no polon√™s. 

Em mar√ßo de 1906 foi detida junto com Leo Jogiches em Vars√≥via, onde ambos se encontravam por conta da Revolu√ß√£o Russa que havia come√ßado um ano antes. Suas reflex√Ķes sobre esse per√≠odo resultaram num de seus escritos mais famosos, Greve de massas, partido e sindicatos (1906). 

De 1907 a 1914, lecionou na escola do SPD, √ļnica professora mulher. Desse trabalho pedag√≥gico sa√≠ram suas obras de economia pol√≠tica, A acumula√ß√£o do capital (1913) e a Introdu√ß√£o √† economia pol√≠tica (1925). Em 1907, rompeu com Leo Jogiches, mas o v√≠nculo pol√≠tico manteve-se at√© o fim da vida. Nessa √©poca, come√ßou um relacionamento com Constantin Zetkin, filho mais novo de sua amiga Clara Zetkin, que durou at√© 1912. 

Em 1914, com a ades√£o do SPD √† mobiliza√ß√£o do governo imperial em prol da guerra, Rosa e seus companheiros da ala esquerda do partido fundaram o Grupo Internacional que, posteriormente, adotaria o nome de Liga Spartakus. Presa durante um ano (fevereiro de 1915 a fevereiro de 1916), acusada de agita√ß√£o antimilitarista, ela redigiu A crise da social-democracia, publicada em abril de 1916, com o pseud√īnimo Junius. Por causa da atividade contra a guerra foi novamente encarcerada em julho de 1916. Na pris√£o, entre muitos outros artigos, escreveu as notas cr√≠ticas aos bolcheviques que ficaram conhecidas como A revolu√ß√£o russa, al√©m de cartas aos amigos e amigas, publicadas postumamente. 

Com a derrota da Alemanha na guerra, a Rep√ļblica foi proclamada. Posta em liberdade (8/11/1918), Rosa voltou a Berlim, onde passou a dirigir o jornal spartakista Die Rote Fahne [A Bandeira Vermelha] em que publicava artigos corrosivos contra o governo de seus antigos companheiros social-democratas, acusando-o de sufocar a revolu√ß√£o iniciada com o fim da monarquia (Luxemburgo, 2017b). No final de dezembro de 1918 participou da funda√ß√£o do Partido Comunista Alem√£o (KPD). Foi presa, junto com Karl Liebknecht, durante a ‚Äúinsurrei√ß√£o de janeiro‚ÄĚ em Berlim. Ambos foram brutalmente assassinados em 15 de janeiro de 1919, por soldados de uma mil√≠cia protofascista criada para reprimir os revolucion√°rios. Rosa tinha 47 anos. Seu corpo, lan√ßado ao canal Landwehr, que atravessa o Tiergarten (parque central de Berlim), s√≥ foi encontrado em 31 de maio e sepultado em 13 de junho daquele ano. 

Obra: temas e conceitos

A obra de Rosa Luxemburgo se dedica a dois grandes temas, que se iluminam reciprocamente: economia e pol√≠tica. Ao n√£o separar uma da outra em polos estanques, o empreendimento intelectual de Rosa, insepar√°vel de sua milit√Ęncia socialista, se estrutura em torno do conceito de totalidade (Luk√°cs, 1970, p.94). 

Por um lado, Luxemburgo faz an√°lise do modo de produ√ß√£o capitalista com suas contradi√ß√Ķes: trata-se de um modo de produ√ß√£o que cria necessariamente a desigualdade entre os seres humanos, as classes e os pa√≠ses; que para se reproduzir precisa acumular indefinidamente, destruindo antigos modos de vida, a natureza, os v√≠nculos sociais; √© racista e sexista. Desta an√°lise decorre logicamente a necessidade da transforma√ß√£o radical desse modo de produ√ß√£o disfuncional. Ou, nos termos de Rosa Luxemburgo, a necessidade da revolu√ß√£o socialista. Aqui nos deparamos com sua obra de economia pol√≠tica, A acumula√ß√£o do capital (1913) e Introdu√ß√£o √† economia pol√≠tica (1925), para citar apenas os textos mais importantes. 

Por outro lado, ela estuda a hist√≥ria das lutas de classes, das revolu√ß√Ķes, do protagonismo da classe trabalhadora, de suas vit√≥rias e derrotas, para aprender tanto com as vit√≥rias quanto com as derrotas. Aqui Luxemburgo enfatiza o papel da experi√™ncia como a grande mestra dos oprimidos. Neste terreno encontramos, entre outros, escritos pol√≠ticos como Quest√Ķes de organiza√ß√£o da social-democracia russa (1904), Greve de massas, partido e sindicatos (1906), A crise da social-democracia (1916), A revolu√ß√£o russa (1918). Deste conjunto de textos podemos extrair sua filosofia pol√≠tica. 

Ademais, Luxemburgo √© autora de vasta correspond√™ncia com interlocutores do campo socialista europeu, de cartas de cunho estritamente pessoal com amores, amigos e amigas, al√©m de pequenos ensaios sobre a literatura russa, Tolst√≥i e Korolenko em particular. Nestes textos √© percept√≠vel uma esp√©cie de filosofia de vida, que mais do que fruto de reflex√£o elaborada e sistem√°tica, √© antes produto espont√Ęneo do seu modo de ser.  

Imperialismo e crítica do progresso

Reconhecida como a grande herdeira de Marx da primeira gera√ß√£o que se seguiu √† morte dele, Luxemburgo foi a primeira te√≥rica marxista a analisar o capitalismo como sistema global em sua obra magna de economia pol√≠tica, A acumula√ß√£o do capital (1913). Por natureza antidogm√°tica e profundamente independente, Rosa n√£o temia apontar insufici√™ncias na teoria de Marx, que considerava inacabada. No seu entender, ele n√£o expunha de maneira adequada o desenvolvimento do capitalismo e Rosa pensava continuar a obra do mestre nesse sentido. Ela foi muito criticada pelos especialistas em economia pol√≠tica, segundo os quais a revolucion√°ria polonesa n√£o havia entendido Marx, e suas cr√≠ticas eram erradas. Seu livro recebeu cr√≠ticas de todos os tipos: de ordem t√©cnica, que apontavam contradi√ß√Ķes e lacunas na argumenta√ß√£o; de ordem te√≥rica, que rejeitavam a ideia da impossibilidade da acumula√ß√£o numa economia capitalista fechada; de ordem pessoal, que consideravam inaceit√°vel que uma mulher inteligente se pusesse a corrigir Marx. 

Muito tempo se passou at√© que seu empreendimento te√≥rico original fosse avaliado de maneira justa. Independentemente dos erros, reconhecidos mesmo por seus simpatizantes, hoje √© evidente a enorme atualidade da parte hist√≥rica de A acumula√ß√£o do capital. A√≠ Rosa Luxemburgo mostra que o capitalismo na metr√≥pole s√≥ p√īde se desenvolver √†s custas da espolia√ß√£o da periferia, num processo que come√ßou h√° s√©culos e continua at√© o presente. Ela enfatiza o reverso sangrento da moderniza√ß√£o capitalista com seu conhecido s√©quito de horrores: genoc√≠dio dos povos primitivos e seus modos de vida comunit√°rios pelo capitalismo europeu, a fim de submet√™-los aos mecanismos de mercado; guerra do √≥pio na China com o mesmo objetivo; com√©rcio de escravos; enriquecimento da metr√≥pole √†s custas do endividamento da periferia; acumula√ß√£o de capital mediante compras de armas pelo Estado, o que favorece o militarismo e as guerras. 

Numa postura distante do eurocentrismo da social-democracia alem√£ e da II Internacional, Rosa demonstra grande simpatia pelas culturas ‚Äútradicionais‚ÄĚ, que foram aniquiladas pelo rolo compressor do capital. A moderniza√ß√£o capitalista n√£o significa progresso em rela√ß√£o ao per√≠odo anterior, mas apenas a ru√≠na econ√īmica e cultural dos povos origin√°rios. Diferentemente de uma concep√ß√£o iluminista do progresso, segundo a qual a viol√™ncia capitalista √© vista como mal ‚Äúnecess√°rio‚ÄĚ no caminho que leva ao socialismo, Rosa acredita que os povos origin√°rios podem ensinar aos ‚Äúcivilizados‚ÄĚ formas de sociabilidade mais igualit√°rias e n√£o predadoras, determinadas pelos interesses da coletividade. Rosa Luxemburgo, origin√°ria da Pol√īnia perif√©rica na Europa do come√ßo do s√©culo XX, tem insights que apontam para uma concep√ß√£o de hist√≥ria distinta da do marxismo ortodoxo de seu tempo, caracterizado por uma f√© ing√™nua no desenvolvimento das for√ßas produtivas. 

No come√ßo da Primeira Guerra Mundial, ao p√īr na ordem do dia a consigna socialismo ou barb√°rie, Rosa Luxemburgo se afasta do progressismo t√≠pico da II Internacional, segundo o qual o socialismo resultaria, mais cedo ou mais tarde, das contradi√ß√Ķes imanentes ao modo de produ√ß√£o capitalista. Assim procedendo ela refor√ßa a perspectiva de uma hist√≥ria indeterminada, aberta √† experi√™ncia, dando assim a entender que o socialismo deixou de ser uma garantia e passou a ser uma aposta, que s√≥ pode ser vencida se houver o engajamento das classes populares, aqui e agora, contra a barb√°rie. Essa perspectiva de uma hist√≥ria aberta adquire cada vez mais atualidade numa √©poca de crise civilizat√≥ria como a que estamos atravessando, no √Ęmago da qual ecoa a pergunta j√° formulada por Rosa, que continua n√£o querendo calar: a barb√°rie capitalista √© mesmo o horizonte inelut√°vel da humanidade? 

Socialismo democr√°tico 

A concep√ß√£o de socialismo de Rosa Luxemburgo, que ela identificava com uma sociedade igualit√°ria de seres humanos livres, rompe duplamente com a vis√£o autorit√°ria da corrente hegem√īnica da esquerda no s√©culo XX, o marxismo-leninismo. Para Rosa, n√£o se trata primeiro de tomar o poder e s√≥ depois mudar o mundo: ‚ÄúA democracia socialista n√£o come√ßa somente na Terra prometida, quando tiver sido criada a infraestrutura da economia socialista, como um presente de Natal, j√° pronto, para o bom povo que, entretanto, apoiou fielmente o punhado de ditadores socialistas. A democracia socialista come√ßa com a destrui√ß√£o da domina√ß√£o de classe e a constru√ß√£o do socialismo. Ela come√ßa no momento da conquista do poder pelo partido socialista.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017b, p.210). 

 Socialismo e democracia s√£o insepar√°veis, assim como liberdade e igualdade. O socialismo s√≥ pode resultar da a√ß√£o livre das massas populares e o caminho para l√° chegar precisa necessariamente ser democr√°tico. Meios e fins se condicionam reciprocamente. Justamente porque uma sociedade socialista s√≥ pode ser institu√≠da a partir da experi√™ncia vivida de todos os atingidos pela ordem reinante √© que ela defende incisivamente a manuten√ß√£o das liberdades democr√°ticas na transi√ß√£o ao socialismo. Rosa sempre argumentou com ardor em prol das liberdades democr√°ticas, fruto das revolu√ß√Ķes burguesas no ocidente. Tendo vivido a inf√Ęncia e a adolesc√™ncia na Pol√īnia dominada pela autocracia tzarista, conhecia bem a vida sem liberdade de imprensa, associa√ß√£o, reuni√£o; sem liberdade religiosa; sem direitos de nenhuma esp√©cie para trabalhadores, mulheres, crian√ßas prolet√°rias etc. (Luxemburgo, 2017 a, p.218-262). Da√≠ a cr√≠tica √† dissolu√ß√£o da Assembleia Constituinte pelos bolcheviques: 

‚ÄúSem elei√ß√Ķes gerais, sem liberdade ilimitada de imprensa e de reuni√£o, sem livre debate de opini√Ķes, a vida se estiola em qualquer institui√ß√£o p√ļblica, torna-se uma vida aparente em que s√≥ a burocracia subsiste como o √ļnico elemento ativo. A vida p√ļblica adormece progressivamente, algumas d√ļzias de chefes partid√°rios, de uma energia inesgot√°vel e de um idealismo sem limites, dirigem e governam; entre eles, na realidade, uma d√ļzia de cabe√ßas eminentes dirige, e a elite do operariado √© convocada de tempos em tempos para reuni√Ķes, para aplaudir os discursos dos chefes e votar unanimemente as resolu√ß√Ķes propostas; portanto, no fundo, √© um grupinho que governa (…)‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 b, p.208-209). 

√Č por acreditar na criatividade das massas que Rosa apoia com energia os conselhos de trabalhadores e soldados surgidos espontaneamente no come√ßo da Revolu√ß√£o Alem√£ de 1918, vendo neles uma nova forma de soberania popular no plano pol√≠tico, econ√īmico e cultural (Luxemburgo, 2017 b, p.289, 294-96). Esses organismos democr√°ticos e suprapartid√°rios, express√£o da auto-organiza√ß√£o das massas, seriam a base de uma democracia popular ativa. Al√©m disso, tinham papel pedag√≥gico fundamental na forma√ß√£o pol√≠tica dos trabalhadores: ‚ÄúExercendo o poder [nos conselhos], a massa deve aprender a exercer o poder. N√£o h√° nenhum outro meio de lhe ensinar isso.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 b, p.369). 

Em suma, para Rosa Luxemburgo, contempor√Ęnea dos conselhos, a democracia socialista se funda na multiplica√ß√£o dos espa√ßos de democracia direta e de autogoverno e, nesse sentido, engloba e supera a democracia representativa burguesa e o Estado de direito burgu√™s. 

Revolu√ß√£o e autonomia das massas populares 

A revolu√ß√£o imaginada por Luxemburgo n√£o consistia na troca de grupos no poder, e sim na mudan√ßa estrutural da sociedade em termos econ√īmicos, pol√≠ticos, sociais e culturais. Isso implicava mudan√ßa de valores dos indiv√≠duos e das coletividades, ou seja, uma revolu√ß√£o como processo, e, portanto, lenta (Luxemburgo, 2017 b, p.343-370). Ao mesmo tempo, ela n√£o rejeitava a conquista do poder pol√≠tico pelos trabalhadores ‚Äď revolu√ß√£o como ruptura r√°pida das rela√ß√Ķes de poder existentes, que permitiria acelerar o processo de mudan√ßa estrutural (Luxemburgo, 2017 a, p.67-77). Embora n√£o diga com clareza como isso se realizaria na pr√°tica, ela sempre afirma de maneira contundente que n√£o seria por meio do golpe de uma minoria convertida em substituta das massas (Luxemburgo, 2017 b, p.291).   

Em suma, o que subjaz √† no√ß√£o de revolu√ß√£o democr√°tica de Luxemburgo √© a ideia de que a transforma√ß√£o da sociedade capitalista em dire√ß√£o ao socialismo s√≥ pode resultar da atividade aut√īnoma das massas populares. Essa √© sua contribui√ß√£o original √† teoria pol√≠tica. A consci√™ncia pol√≠tica n√£o √© introduzida de fora por uma vanguarda esclarecida de intelectuais que supostamente sabem melhor o que os de baixo devem pensar, sentir e fazer, mas resulta da participa√ß√£o aut√īnoma dos pr√≥prios concernidos, tanto na luta quotidiana pela amplia√ß√£o de direitos, quanto para transformar de maneira radical o estado de coisas vigente. Rosa Luxemburgo sempre foi decididamente contra a ideia de vanguarda substituta das massas (Luxemburgo, 2017 a, p.151-175). Para ela, o verdadeiro l√≠der pol√≠tico socialista √© aquele que esclarece, destr√≥i as ilus√Ķes dos trabalhadores, transforma a massa em lideran√ßa de si mesma, acaba com a separa√ß√£o entre dirigentes e dirigidos e, assim, contribui para formar o que ela considera o pr√©-requisito fundamental de uma humanidade emancipada: a ‚Äúautonomia intelectual‚ÄĚ, ‚Äúautodetermina√ß√£o e iniciativa‚ÄĚ, ‚Äúpensamento cr√≠tico‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 a, p.419, 421-2), o √ļnico ant√≠doto contra a burocratiza√ß√£o das organiza√ß√Ķes de esquerda (Luxemburgo, 2017 b, p. 205-210).

A revolu√ß√£o socialista √© obra da a√ß√£o livre, espont√Ęnea, dos trabalhadores, ou n√£o √© revolu√ß√£o. Rosa Luxemburgo chega a essa ideia analisando as lutas de classes de sua √©poca, sobretudo na R√ļssia de 1905-1907, durante a primeira Revolu√ß√£o Russa (Luxemburgo, 2017 a, p.263-349). Mas, ao mesmo tempo, s√≥ espontaneidade n√£o basta: o trabalho organizativo √© fundamental para estruturar e dar continuidade √†s explos√Ķes contra-hegem√īnicas dos de baixo, que irrompem de tempos em tempos na rotina da vida quotidiana. Na obra de Luxemburgo h√° sempre essa rela√ß√£o dial√©tica entre espontaneidade e organiza√ß√£o, de tal maneira que a acusa√ß√£o de espontane√≠smo ‚Äď como se ela negasse a necessidade da organiza√ß√£o pol√≠tica dos trabalhadores ‚Äď que lhe foi endere√ßada pelo stalinismo n√£o faz o menor sentido.

A arte da vida

Nos √ļltimos anos renovou-se a tend√™ncia a valorizar a correspond√™ncia privada de Rosa Luxemburgo como fonte indispens√°vel para a compreens√£o do conjunto de sua obra (Caysa, 2017, Brie, 2019). Vida pol√≠tica e vida pessoal s√£o insepar√°veis nessa personagem que, mais do que qualquer outra, uniu teoria e pr√°tica. Luk√°cs, em uma das obras filos√≥ficas fundamentais do s√©culo XX, Hist√≥ria e consci√™ncia de classe, j√° o havia constatado: ‚Äú√Č sinal da unidade de teoria e pr√°tica na obra da vida de Rosa Luxemburgo que essa unidade de vit√≥ria e derrota, destino individual e processo total tenha formado o fio condutor de sua teoria e modo de vida.‚ÄĚ (Luk√°cs, 1970, p.117). ‚Ä®

Rosa Luxemburgo foi interpretada como aquela que exerce ‚Äúa arte da vida‚ÄĚ (Kautsky, s/d, p.41; Caysa, 2017, p.36-41), compreendida como ‚Äúuma forma de vida filos√≥fica caracterizada pela identidade concreta entre vida e pensamento e na qual se trata de configurar e dirigir a vida de modo autoconsciente de acordo com uma ideia.‚ÄĚ (Caysa, 2017, p.37). Assim, aplica-se a ela a sugest√£o de Antonio Candido a respeito de Florestan Fernandes. Para al√©m da obra de soci√≥logo e de sua atua√ß√£o como intelectual, professor e pesquisador, ‚Äúele realizou outra obra n√£o menos admir√°vel: a constru√ß√£o de si mesmo.‚ÄĚ (Candido, 2001, p.65).  

Do mesmo modo, Rosa Luxemburgo, para al√©m do jornalismo, da doc√™ncia, da milit√Ęncia revolucion√°ria, dedicou-se √† constru√ß√£o de si mesma. Qual seria ent√£o a ideia fundamental que a orientava como m√°xima de vida e que aparece nas cartas da pris√£o escritas durante a guerra? Antes de mais nada, tinha em alta conta uma concep√ß√£o de vida interior centrada em valores como harmonia, equil√≠brio, estoicismo, recusa a lamenta√ß√Ķes diante das adversidades: ‚Äú‚Äėassim‚Äô √© a vida desde sempre, tudo faz parte dela: sofrimento e separa√ß√£o e saudade. Temos de aceit√°-la com tudo isso e achar tudo belo e bom. Eu pelo menos fa√ßo assim. N√£o por meio de uma sabedoria artificial, mas simplesmente por minha natureza.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 c, p.267)

 A carta √† amiga Luise Kautsky, de 26 de janeiro de 1917, √© esclarecedora: 

‚ÄúEssa entrega total √† mis√©ria de nossos dias √© absolutamente incompreens√≠vel e insuport√°vel para mim. Veja como um Goethe, por exemplo, mantinha uma fria serenidade diante das coisas. Mas pense em tudo o que ele teve de passar: a grande Revolu√ß√£o Francesa, que, vista de perto, certamente parecia uma farsa sangrenta e completamente sem sentido, depois, de 1793 a 1815 uma s√©rie ininterrupta de guerras em que o mundo novamente parecia um hosp√≠cio desembestado. E com que tranquilidade, com que equil√≠brio espiritual ele realizou simultaneamente a tudo isso os seus estudos sobre a metamorfose das plantas, sobre a teoria das cores e mil outras coisas. Eu n√£o exijo de voc√™ que escreva poemas como Goethe, mas a concep√ß√£o de vida dele ‚Äď o universalismo dos interesses, a harmonia interior ‚Äď podem todos adquirir ou ao menos almejar.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 c, p.223)

No entanto ‚Äď e essa √© uma das facetas que fazem a riqueza da nossa personagem ‚Äď, ao mesmo tempo, ela nunca quis renunciar aos prazeres da vida. Fazia sua a m√°xima do escritor russo Vladimir Korolenko, que traduziu na pris√£o: ‚Äúo homem √© criado para ser feliz como o p√°ssaro para voar.‚ÄĚ (Kautsky, 1973, p.61).  Por isso mesmo, nunca se contentou com uma vida consagrada unicamente √† milit√Ęncia pol√≠tica: se dirigia √†s massas como jornalista e oradora, e voltava inteira para si mesma, para a solid√£o criativa, dedicando-se √† pintura, ao desenho, √† m√ļsica, √† bot√Ęnica, √† geologia. No isolamento da cela relembrava momentos de alegria com os amigos, quando bebiam champanhe e ‚Äúa vida nos formiga na ponta dos dedos e estamos sempre prontas para qualquer loucura‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 c, p.221). Mesmo aprisionada, n√£o desistia de ser feliz e mantinha um amor plat√īnico com seu amigo Hans Diefenbach; se apegava aos sinais da natureza que chegavam esparsos √† pris√£o: cultivava um pequeno jardim, herborizava, observava as nuvens, as plantas, os animais; alegrava-se com o canto dos p√°ssaros. 

Essa maneira de ser se alicer√ßava numa concep√ß√£o org√Ęnica do mundo, fortemente inspirada no amor √† natureza: ‚ÄúEm mim, a fus√£o √≠ntima com a natureza org√Ęnica (…) toma formas quase doentias‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 c, p.340). Ela procurou ajustar ‚Äúo sentimento espont√Ęneo da vida, que nunca reprimiu‚ÄĚ (Roland Holst, 1937, p.24) √† teoria de Marx, interpretada de maneira n√£o dogm√°tica:

‚ÄúO pr√≥prio marxismo √©, por ess√™ncia, o pensamento mais universal, mais fecundo que dota o esp√≠rito de uma teoria vasta como o mundo, flex√≠vel, rica de cores e de nuances como a natureza, incitando √† a√ß√£o, transbordante de vida como a pr√≥pria juventude.‚ÄĚ (Luxemburgo, apud Laschitza,1986, p.129).

Em muitas passagens encontramos refer√™ncia √† vida, ao org√Ęnico, n√£o burocr√°tico: 

‚ÄúN√£o √© a letra do estatuto, mas o sentido e o esp√≠rito nela introduzidos pelos militantes ativos que determinam o valor de uma forma de organiza√ß√£o.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 a, p.164).

 ‚ÄúSeria um engano desastroso imaginar que, desde ent√£o [desde a funda√ß√£o da social-democracia], tamb√©m toda a capacidade hist√≥rica de a√ß√£o do povo tivesse se transferido unicamente para a organiza√ß√£o social-democrata, que a massa desorganizada do proletariado teria se tornado um mingau disforme, um peso morto da hist√≥ria. Pelo contr√°rio. Apesar da social-democracia, a mat√©ria viva da hist√≥ria mundial permanece sendo a massa popular, e apenas se existir uma circula√ß√£o sangu√≠nea viva entre o n√ļcleo organizado e a massa popular, quando a mesma pulsa√ß√£o der vida a ambos, poder√° a social-democracia mostrar-se qualificada para realizar grandes a√ß√Ķes hist√≥ricas.‚ÄĚ (Idem, p.465).

‚ÄúS√≥ uma vida fervilhante e sem entraves chega a mil formas novas, improvisa√ß√Ķes, mant√©m a for√ßa criadora, corrige ela mesma todos os seus erros.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 b, p.207).

 E quando se refere √† greve de massas, que n√£o pode ser executada por um decreto do partido, com hora marcada, vemos a mesma √™nfase na vida:

‚ÄúO absolutismo na R√ļssia precisa ser derrubado pelo proletariado. Mas, para isso, o proletariado precisa de um alto grau de educa√ß√£o pol√≠tica, de consci√™ncia de classe e de organiza√ß√£o. Todas essas condi√ß√Ķes n√£o podem ser adquiridas em brochuras e panfletos, mas apenas na escola pol√≠tica viva, na luta e pela luta, no andamento progressivo da revolu√ß√£o.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 a, p.285-286).

Tamb√©m o socialismo n√£o pode ser introduzido por decreto, a partir de uma receita j√° pronta, mas √© cria√ß√£o livre das massas que, levando em conta suas experi√™ncias, exercem quotidianamente a criatividade para resolver os milhares de problemas que se colocam diante delas. Rosa se recusa a pensar a pol√≠tica nos termos da pol√≠tica burguesa, em que existe um plano tra√ßado de antem√£o para que a m√°quina funcione racionalmente e o mais eficazmente poss√≠vel e com consequ√™ncias calcul√°veis, tudo isso sem a inc√īmoda participa√ß√£o das classes populares que, com suas reivindica√ß√Ķes ‚Äúextempor√Ęneas‚ÄĚ, bagun√ßam o que foi planejado pelos dirigentes. 

Ao se contrapor √† concep√ß√£o leninista de partido como vanguarda de revolucion√°rios profissionais, ela acusa Lenin de ter uma vis√£o mecanicista do partido e da revolu√ß√£o. √Č justamente essa recusa do mec√Ęnico, sem vida, burocr√°tico que aparece tamb√©m na correspond√™ncia da jovem Rosa com seu amado Leo Jogiches. Enquanto ela fala de sua vida, de seus sentimentos, ele s√≥ tem olhos para a pol√≠tica e a causa revolucion√°ria (Luxemburgo, 2017 c, p.6, 30-31, 110-11). Ela, em contrapartida, quer conciliar a pol√≠tica com a felicidade pessoal, a luta coletiva por uma sociedade justa e igualit√°ria com a alegria das pequenas coisas quotidianas. Ela luta por uma vida plena, n√£o compartimentada, multifacetada. 

Seu ideal √© resumido de maneira l√≠mpida numa carta √† amiga Mathilde Wurm, de 28 de dezembro de 1916, em plena guerra: 

‚ÄúEnt√£o cuide de permanecer sendo um ser humano. Ser humano √© o mais importante de tudo. E isso significa: ser firme, claro e alegre, sim, alegre apesar de tudo e de todos, pois choramingar √© ocupa√ß√£o para os fracos. Ser humano significa atirar com alegria sua vida inteira ‚Äėna grande balan√ßa do destino‚Äô se for preciso, mas ao mesmo tempo se alegrar a cada dia claro, a cada bela nuvem, ah, eu n√£o sei dar uma receita de como ser humano, eu s√≥ sei como se pode s√™-lo, e voc√™ tamb√©m sempre soube quando passe√°vamos por algumas horas juntas no campo em S√ľdende e a luz rosada da tarde ca√≠a sobre as searas. O mundo √© t√£o belo, com todo o seu horror, e seria ainda mais belo se n√£o houvesse nele os fracos e covardes.‚ÄĚ (idem, p.214).  

Desse ideal de ser humano completo tamb√©m fazia parte a generosidade com os ‚Äúhumilhados e ofendidos‚ÄĚ: presos comuns, prostitutas, sem-teto, crian√ßas maltratadas, temas de alguns de seus artigos. No come√ßo da Revolu√ß√£o Alem√£, uma semana depois de sair da pris√£o, Rosa escreve no jornal spartakista Die Rote Fahne

‚ÄúA mais violenta atividade revolucion√°ria e a mais generosa humanidade ‚Äď eis o √ļnico e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada l√°grima que cai, embora possa ser enxugada, √© uma acusa√ß√£o; e aquele que, para realizar algo importante, de maneira apressada e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.‚ÄĚ (Luxemburgo, 2017 b, p.242). 

Embora herdeira do Iluminismo, marxista que era, Rosa desejava um mundo em que coubessem v√°rios mundos. Sua cr√≠tica do capitalismo levava, com uma l√≥gica implac√°vel, √† rejei√ß√£o do colonialismo, do imperialismo, militarismo, nacionalismo, racismo, assim como √† recusa da desvaloriza√ß√£o das mulheres, das crian√ßas e da natureza. Socialismo democr√°tico, humanista e internacionalista, sem d√ļvida. Mas mais que isso. Sua liga√ß√£o com a natureza, testemunhada pelas cartas da pris√£o, mais do que aned√≥tica, d√° elementos que permitem ver em Rosa Luxemburgo uma precursora da milit√Ęncia socioambiental. Por tudo isso, suas ideias continuam a frutificar, sobretudo na Am√©rica Latina, mais uma vez condenada ao eterno retorno do mesmo (Ouvi√Īa, 2019). 

Refer√™ncias bibliogr√°ficas 

Obras de Rosa Luxemburgo

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‚Äď‚Äď‚Äď‚Äď‚Äď (2017b). Textos escolhidos, vol. II (1914-1919). Organiza√ß√£o e tradu√ß√£o de Isabel Loureiro. 2a edi√ß√£o, S√£o Paulo: Editora UNESP.

‚Äď‚Äď‚Äď‚Äď‚Äď (2017c). Cartas, vol. III. Organiza√ß√£o de Isabel Loureiro. Tradu√ß√£o de M√°rio Luiz Frungillo. 2a edi√ß√£o, S√£o Paulo: Editora UNESP. 

Luxemburg, R. (1979-2017). Gesammelte Werke. Berlim: Dietz, 7v.

 _____ (1982-1993). Gesammelte Briefe. Berlim: Dietz, 6v.

 _____ (1985). A acumula√ß√£o do capital (1985). S√£o Paulo: Nova Cultural.

Luxemburgo, R. (s/d). Introdu√ß√£o √† economia pol√≠tica. Tradu√ß√£o de Carlos Leite. S√£o Paulo: Martins Fontes. 

Literatura secund√°ria

Brie, M. (2019). Mu√©stranos tu milagro! D√≥nde est√° tu milagro? Herramienta, 62, p.19-33. 

Candido, A. (2001). Florestan Fernandes. S√£o Paulo: Perseu Abramo.

Caysa, V. (2017). Rosa Luxemburg ‚Äď Die Philosophin. Leipzig: Rosa-Luxemburg-Stiftung Sachsen.

Evans, Kate. (2017). Rosa Vermelha. S√£o Paulo: Martins Fontes.

Kautsky, L. (s/d). Mon amie Rosa Luxembourg. Paris: Spartacus. 

Laschitza, A. (1986). Une marxiste √©minente. In Badia, G., Weill, C. Rosa Luxemburg aujourd‚Äôhui (p.123-139). Paris: Presses Universitaires de Vincennes. 

Loureiro, I. (2019). Rosa Luxemburgo ‚Äď os dilemas da a√ß√£o revolucion√°ria. 3a edi√ß√£o, S√£o Paulo: Editora UNESP. 

_____. (org., 2018). Rosa Luxemburgo e o protagonismo das lutas de massa. S√£o Paulo: Express√£o Popular. 

Luk√°cs, G. (1970). Geschichte und Klassenbewu√ütsein. Darmstadt: Luchterhand. Tradu√ß√£o de Telma Costa (1974): Hist√≥ria e consci√™ncia de classe. Lisboa: Escorpi√£o. 

Ouvi√Īa, H. (2019). Rosa Luxemburgo y la reinvenci√≥n de la pol√≠tica ‚Äď una lectura desde Am√©rica Latina. Bogot√°: La Fogata; Lanzas e Letras.

Roland Holst-Van der Schalk, H. (1937). Rosa Luxemburg, Ihr Leben und Wirken. Zurique: Jean-Christoph Verlag. Sch√ľtrumpf, J. (org., 2015). Rosa Luxemburgo ou o pre√ßo da liberdade. 2a edi√ß√£o, S√£o Paulo: Express√£o Popular.