Heleieth Saffioti

(1934 – 2010)

 

por Daniele Motta,

doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e professora da rede estadual de ensino de São Paulo РLattes

Imagem de marxismo21.org

PDF – Heleieth Safiotti

Heleieth Iara Bongiovani Saffioti nasceu no dia quatro de janeiro de 1934 em uma família humilde em Ibirá, na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Sua mãe era costureira e seu pai marceneiro. Sua família morava na zona rural, onde à época não havia acesso à escola, fato que a fez, desde cedo, morar longe de seus pais para que pudesse estudar. Primeiramente foi alfabetizada em casa por suas tias professoras até ingressar na escola. Heleieth Saffioti morou com diversos familiares até concluir seus estudos na tradicional Escola Caetano de Campos, em São Paulo, onde se formou normalista.

            No ano de 1956 ingressou no curso de Ci√™ncias Sociais na Universidade de S√£o Paulo (USP) e se casou com o qu√≠mico Waldemar Saffioti, de quem herdou o sobrenome. Em decorr√™ncia do trabalho de Waldemar, assim que se casou foi morar nos Estados Unidos. Na sua volta ao Brasil, um ano depois, retornou ao curso de Ci√™ncias Sociais e se formou no ano de 1960. Dois anos depois de sua formatura, Heleieth Saffioti mudou-se para a cidade de Araraquara, no interior do Estado de S√£o Paulo, para acompanhar Waldemar na forma√ß√£o do curso superior de Qu√≠mica, que mais tarde iria se transformar na Universidade Estadual Paulista. Na mesma cidade tamb√©m se consolidava a Faculdade de Filosofia, Ci√™ncias e Letras, lugar em que Heleieth Saffioti atuou por 21 anos, tendo come√ßado a lecionar em 1962, a convite de Luis Pereira. Do seu casamento com Waldemar teve um filho, que veio a √≥bito precocemente, aos 17 anos de idade.

            Al√©m de uma trajet√≥ria profissional marcada pela intensa atividade docente, sua tese de livre doc√™ncia ‚ÄúA mulher na sociedade de classes: mito e realidade‚ÄĚ, defendida em 1967 e publicada em livro em 1969, foi um importante marco para as Ci√™ncias Sociais no Brasil, sendo o primeiro estudo acerca das mulheres no modo de produ√ß√£o capitalista. Heleieth Saffioti teve toda a sua carreira marcada pelos estudos sobre as mulheres. Ap√≥s a defesa de sua tese de livre doc√™ncia, seu esfor√ßo te√≥rico de apreens√£o da condi√ß√£o da mulher na sociedade capitalista a leva para a investiga√ß√£o da condi√ß√£o da mulher no mercado.

            A obra da autora pode ser dividida em dois momentos (Gon√ßalves, 2011): no primeiro, marcado pela investiga√ß√£o do trabalho feminino (final da d√©cada de 1960 at√© o final dos anos 1980), analisou a desvaloriza√ß√£o das mulheres a partir de estudos emp√≠ricos e an√°lise de dados. Entre seus textos destacam-se os estudos sobre as trabalhadoras t√™xteis e as empregadas dom√©sticas: Emprego dom√©stico e capitalismo, 1978; Do Artesanal ao Industrial: a explora√ß√£o da mulher, 1981; Mulher Brasileira: opress√£o e explora√ß√£o, 1986. Essas obras d√£o continuidade √† tese sobre o alijamento da mulher no mercado de trabalho da A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, 1969.

            No segundo momento, iniciado no final dos anos 1980 e que se estende at√© o fim de sua vida, em 2010, dedicou-se a estudar a quest√£o da viol√™ncia contra as mulheres. Sobre o tema, destacam-se as obras: O Poder do Macho, 1987; Mulher Brasileira √© Assim, 1994; Viol√™ncia de g√™nero: poder e impot√™ncia, 1995; G√™nero, Patriarcado e Viol√™ncia, 2004. Ao longo do seu processo de pesquisa sobre a condi√ß√£o feminina, ampliou o di√°logo acad√™mico com as teorias feministas (p√≥s-estruturalistas e materialistas) para elucidar seus estudos sobre a viol√™ncia patriarcal sofrida pelas mulheres. Heleieth Saffioti faz uma fus√£o entre marxismo e feminismo pois entende que ‚Äúno campo das viol√™ncias contra as mulheres, o marxismo colaboraria, mas n√£o seria suficiente para dar conta da ‚Äėcomplexidade do complexo‚Äô‚ÄĚ (Castro, 2011, p. 75). Dialogou com diversas correntes das Ci√™ncias Sociais, pois entendia que, para desvendar a viol√™ncia contra as mulheres, era preciso olhar para as diversas √°reas do social: simb√≥lica, pol√≠tica, cultural; al√©m da esfera econ√īmica.

            Mesmo ap√≥s sua aposentadoria da Unesp de Araraquara continuou pesquisando, escrevendo/publicando e lecionando na Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica (PUC) de S√£o Paulo, cidade em que manteve resid√™ncia at√© seu falecimento. Heleieth Saffioti √© at√© hoje uma refer√™ncia da √°rea de estudos de g√™nero no Brasil e foi respons√°vel pela cria√ß√£o, no ano de 1989, na Associa√ß√£o Nacional de P√≥s-Gradua√ß√£o e Pesquisa em Ci√™ncias Sociais (ANPOCS), do Grupo de Trabalho “Mulheres e Trabalho”. No ano de 1984 foi convidada a trabalhar no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), onde permaneceu por tr√™s meses.

            Heleieth Saffioti dedicou sua vida a investigar e desmistificar as rela√ß√Ķes de explora√ß√£o/domina√ß√£o, revelando como o capitalismo, ao enovelar as hierarquias de g√™nero, ra√ßa/etnia e classe, consegue aumentar ainda mais seus lucros. A soci√≥loga foi uma incans√°vel defensora dos direitos das mulheres e teve importante inser√ß√£o no movimento feminista. Suas formula√ß√Ķes, com grandes repercuss√Ķes desde a d√©cada de 1970 (momento de grande efervesc√™ncia no movimento de mulheres), fizeram com que a autora se aproximasse do movimento feminista, atuando no combate √†s desigualdades de g√™nero e a viol√™ncia end√™mica contra as mulheres. Destacam-se o curso de g√™nero e viol√™ncia que deu para profissionais da seguran√ßa, a atua√ß√£o em torno do Conselho da Mulher e as aulas que ministrou para o curso das Promotoras Legais Populares (PLPs). No ano de 1995, como reconhecimento de seu trabalho e de sua luta, seu nome foi indicado ao Nobel da Paz, ao lado de outras mulheres brasileiras, por integrar o projeto Mil Mulheres.

            Heleieth Saffioti faleceu em 13 de dezembro de 2010 na cidade de S√£o Paulo, em decorr√™ncia de uma parada cardiorrespirat√≥ria. Seu legado continua na grandeza de suas obras e nas pistas que deixou indicada para que outras pesquisadoras seguissem. Todo o seu acervo pessoal, junto com a sua biblioteca, encontram-se hoje na Ch√°cara Sapucaia, local de resid√™ncia de Heleieth Saffioti e Waldemar na cidade de Araraquara que foi doado pela autora para a UNESP ap√≥s o falecimento de seu marido, e hoje √© um centro cultural e hist√≥rico da cidade, aberto ao p√ļblico. Na cidade de Araraquara o Centro de Refer√™ncia da Mulher, vinculado √† prefeitura local, leva o seu nome.

            A import√Ęncia de Heleieth Saffioti √© imensa para a Sociologia Brasileira e para a luta feminista. Sua an√°lise sobre as mulheres, a partir das no√ß√Ķes de totalidade e singularidade, avan√ßou o debate epistemol√≥gico, colocando g√™nero (ao lado de classe e ra√ßa) como um dos estruturadores da sociedade. Dessa forma, a autora chega a uma ideia importante, ainda pouco explorada, sobre a imbrica√ß√£o de g√™nero, ra√ßa/etnia e classe, que formam um n√≥ frouxo. Dessa forma, ainda que seja uma autora vinculada ao marxismo, ela tamb√©m contesta a ideia da primazia da classe social sobre as demais rela√ß√Ķes.

Temas e conceitos

            O grande tema de Heleieth Saffioti foi a investiga√ß√£o sobre as mulheres no modo de produ√ß√£o capitalista, refletindo sobre as desigualdades de g√™nero e de classe. Para falar de Heleieth Saffioti √© preciso primeiro entender o seu pioneirismo nos estudos de g√™nero com o livro A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, publicado pela primeira vez em 1969, contando com segunda edi√ß√£o em 1976 e a terceira edi√ß√£o mais recente, em 2013. Apesar de ter ficado quatro d√©cadas esgotado e sem uma reedi√ß√£o, o livro reassumiu sua singularidade e import√Ęncia nos √ļltimos anos, o que possibilitou que a autora fosse retomada por uma nova gera√ß√£o de estudiosas sobre a quest√£o de g√™nero no Brasil.

            Seu livro foi o primeiro no Brasil a investigar a rela√ß√£o entre g√™nero e capitalismo, abrindo o campo de estudos sobre mulheres nas Ci√™ncias Sociais. A obra reflete sobre a forma como a contradi√ß√£o da sociedade de classes se articula com outras hierarquias sociais, focalizando sobretudo a quest√£o de g√™nero, destacando-a como um dos pilares de manuten√ß√£o de privil√©gios, hierarquias e status social. A conclus√£o a que chega ao final do livro √© que as mulheres foram alijadas do mercado de trabalho, posi√ß√£o que sustenta at√© o fim de sua vida.

            Embora a quest√£o de g√™nero tenha sempre pautado a obra de Heleieth Saffioti, o conceito de g√™nero (tal qual √© usado hoje) ainda n√£o havia adentrado as universidades brasileiras. A formula√ß√£o do conceito de g√™nero que impactou a teoria social, a partir de uma formula√ß√£o feminista, foi elaborada na d√©cada de 1970. No entanto, a sua ampla absor√ß√£o pelas te√≥ricas feministas no Brasil ocorreu na d√©cada de 1990.

            Mesmo que a palavra g√™nero n√£o apare√ßa em suas obras iniciais, pois ainda n√£o havia uma difus√£o do conceito na teoria feminista, a autora faz uma leitura das desigualdades entre homens e mulheres de maneira relacional j√° em sua primeira obra, quando afirma: ‚Äúo problema da mulher nas sociedades competitivas n√£o √© somente seu, mas um problema de homens e mulheres‚ÄĚ (Saffioti, 2013, p. 513). Heleieth Saffioti dialoga com diferentes tradi√ß√Ķes da teoria feminista e quando absorve o conceito de g√™nero para o interior de sua teoria o faz com ressalva, tendo em vista que este foi colocado para ser uma alternativa a outros conceitos considerados problem√°ticos, como o patriarcado, por exemplo. √Č exatamente no abandono do termo patriarcado ‚ÄĒ ou na sua substitui√ß√£o pelo termo g√™nero ‚ÄĒ que Heleieth Saffioti centra sua cr√≠tica, e faz a defesa da utiliza√ß√£o conjunta de g√™nero e patriarcado. Essa √© a marca, a singularidade, da utiliza√ß√£o do conceito de g√™nero pela autora.

            √Č a partir da ideia de g√™nero como uma forma de pensar as rela√ß√Ķes socialmente constru√≠das entre homens e mulheres que a no√ß√£o de patriarcado passou a ser questionada, acusada de ser uma maneira universal de rela√ß√Ķes de g√™nero, e que tratava de forma √ļnica as rela√ß√Ķes de poder entre homens e mulheres nos diferentes contextos e lugares. O patriarcado foi considerado a-hist√≥rico e insuficiente para tratar das rela√ß√Ķes de g√™nero. Heleieth Saffioti √© uma das te√≥ricas do campo do feminismo que vai na contram√£o dessa tend√™ncia e insiste na utilidade do conceito de patriarcado para an√°lise das rela√ß√Ķes entre homens e mulheres, tendo em vista que h√° uma desigualdade importante a ser demarcada. Ao inv√©s de abandonar a ideia do patriarcado, ela defende a compreens√£o de seus limites e fronteiras hist√≥ricas, entendendo que ‚Äúo patriarcado √© um caso espec√≠fico de rela√ß√Ķes de g√™nero‚ÄĚ (Saffioti, 2015, p. 51) e deve ser entendido a partir da forma√ß√£o social em cada pa√≠s, levando em conta que as experi√™ncias de domina√ß√£o e explora√ß√£o podem ser diferentes.

            Para Saffioti (2015), o conceito de g√™nero n√£o explicita, necessariamente, a desigualdade entre homens e mulheres; n√£o pressup√Ķe uma rela√ß√£o de explora√ß√£o/domina√ß√£o, por isso a insist√™ncia da autora no uso do conceito de patriarcado. A dimens√£o econ√īmica do patriarcado n√£o repousa apenas na desigualdade salarial, ocupacional e na marginaliza√ß√£o dos importantes pap√©is econ√īmicos e pol√≠ticos, mas inclui o controle da sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres.

‚ÄúPor que se manter o nome patriarcado? Sistematizando e sintetizando o acima exposto, porque: 1) n√£o se trata de uma rela√ß√£o privada, mas civil; 2) d√° direitos sexuais aos homens sobre as mulheres, praticamente sem restri√ß√£o; 3) configura um tipo hier√°rquico de rela√ß√£o, que invade todos os espa√ßos da sociedade; 4) tem uma base material; 5) corporifica-se; 6) representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na viol√™ncia‚ÄĚ (Saffioti, 2015 [2004], p. 60).

            O patriarcado √© uma das ideias centrais na constru√ß√£o do pensamento de Heleieth Saffioti, fundamental para os estudos da autora sobre a viol√™ncia de g√™nero e sobre a imbrica√ß√£o de g√™nero, ra√ßa/etnia e classe. Para ela, a alega√ß√£o da a-historicidade do conceito √© muito simplista porque acredita ser poss√≠vel apreender a historicidade do conceito (Saffioti, 2005).

            Da leitura que a autora faz sobre o patriarcado, destaca-se a influ√™ncia de Carole Pateman, a partir de um debate feminista sobre o contrato social. Em seu livro O Contrato Sexual (1988), Carole Pateman critica os te√≥ricos contratualistas cl√°ssicos, os utilitaristas e os socialistas, a fim de explicar a domina√ß√£o sexual e sua origem na filosofia pol√≠tica moderna. Afirma ser o pacto original tamb√©m um pacto sexual, criando o direito pol√≠tico dos homens sobre as mulheres. O termo contrato sexual √© uma den√ļncia contra a teoria do contrato, e refere-se ao poder que os homens exercem sobre as mulheres.

Para Saffioti (2004), olhar para o patriarcado, a partir dessa leitura, ajuda a demonstrar que a sociedade civil e a economia capitalista têm uma estrutura patriarcal. Segundo Pateman:

‚ÄúA liberdade do homem e a sujei√ß√£o da mulher derivam do contrato original e o sentido da liberdade civil n√£o pode ser compreendido sem a metade perdida da hist√≥ria, que revela como o direito patriarcal dos homens sobre as mulheres √© criado pelo contrato. A liberdade civil n√£o √© universal ‚ÄĒ √© um atributo masculino e depende do direito patriarcal. (‚Ķ) O pacto original √© tamb√©m um contrato sexual quanto social; √© social no sentido de patriarcal ‚ÄĒ isto √©, o contrato cria o direito pol√≠tico dos homens sobre as mulheres ‚ÄĒ, e tamb√©m sexual no sentido de estabelecimento de um acesso sistem√°tico dos homens ao corpo das mulheres. O contrato original cria o que chamarei, seguindo Adrienne Rich de ‚Äėlei do direito sexual masculino‚Äô. O contrato est√° longe de se contrapor ao patriarcado; ele √© o meio pelo qual se constitui o patriarcado moderno‚ÄĚ (Pateman, 1993 [1988], pp. 16-17 apud Saffioti, 2015 [2004], p.57).

            √Č importante destacar, entretanto, que o patriarcado n√£o √© o √ļnico estruturador da sociedade. Saffioti trabalha com a ideia da imbrica√ß√£o entre patriarcado, capitalismo e racismo. Ela concebe as diferentes origens dessas tr√™s rela√ß√Ķes sociais, mas aponta para a sua fus√£o e retroalimenta√ß√£o.

‚ÄúO g√™nero, mil√™nios anterior, historicamente, √†s classes sociais, se reconstr√≥i, isto √©, absorvido pela classe trabalhadora inglesa, no caso de Thompson, se reconstr√≥i/constr√≥i juntamente com uma nova maneira de articular rela√ß√Ķes de poder: as classes sociais. A g√™nese destas n√£o √© a mesma, nem se d√° da mesma forma que a do g√™nero. (…) as classes sociais t√™m uma hist√≥ria muito mais curta que o g√™nero. Desta forma, as classes sociais s√£o, desde sua g√™nese, um fen√īmeno gendrado. Por sua vez, uma s√©rie de transforma√ß√Ķes no g√™nero s√£o introduzidas pela emerg√™ncia das classes. Para amarrar melhor esta quest√£o, precisa-se juntar o racismo. O n√≥ formado por estas tr√™s contradi√ß√Ķes apresenta uma qualidade distinta das determina√ß√Ķes que o integram‚ÄĚ (Saffioti, 2015 [2004], p. 122).

            A autora concebe o patriarcado como um fen√īmeno social em constante transforma√ß√£o. Sendo um sistema de domina√ß√£o anterior ao capitalismo, ele se molda para coexistir e potencializar o processo de domina√ß√£o/explora√ß√£o, e penetra toda a esfera da vida social. Dessa forma, o patriarcado se produz ao mesmo tempo que reproduz o racismo e o capitalismo e vice-versa. √Č a partir da leitura patriarcal das rela√ß√Ķes de g√™nero que a autora vai formular uma vis√£o imbricacionista das rela√ß√Ķes sociais.

Método do enovelamento

            Conforme Heleieth Saffioti vai amadurecendo sua teoria, chega √† formula√ß√£o de que explora√ß√£o e domina√ß√£o s√£o duas faces do mesmo processo e que n√£o existe, de um lado, a explora√ß√£o capitalista e, de outro, a domina√ß√£o patriarcal, afinal uma se alimenta da outra. Segundo ela:

‚ÄúN√£o h√° de um lado a domina√ß√£o patriarcal e, de outro, a explora√ß√£o capitalista. Para come√ßar, n√£o existe um processo de domina√ß√£o separado de outro de explora√ß√£o. Por esta raz√£o, usa-se, aqui e em outros textos, a express√£o domina√ß√£o-explora√ß√£o ou explora√ß√£o-domina√ß√£o. Alternam-se as formas, para evitar a m√° interpreta√ß√£o da preced√™ncia de um processo. De rigor, n√£o h√° dois processos, mas duas faces de um mesmo processo. Da√≠ ter-se criado a met√°fora do n√≥ para dar conta da realidade da fus√£o patriarcado-racismo-capitalismo‚ÄĚ (Saffioti, 2005, p. 65).

            A primeira no√ß√£o que a autora trabalha √© a da simbiose entre racismo-patriarcado-capitalismo, que aparece no livro O Poder do Macho, publicado no ano de 1987. Ela procura demonstrar como cada um desses sistemas de explora√ß√£o/domina√ß√£o est√£o fundidos numa unidade contradit√≥ria. A partir de ent√£o, seus textos enaltecem e enfatizam tal perspectiva, uma vez que Saffioti considera um erro tratar a quest√£o da explora√ß√£o no campo econ√īmico e a da domina√ß√£o no pol√≠tico, pois‚Äún√£o dever√≠amos buscar a primazia do sexo, da classe ou da ra√ßa, nem as isolar como estruturas separadas, j√° que elas se fundiram historicamente‚ÄĚ (Saffioti, 1992, p. 206).

            Essa concep√ß√£o √© importante para o salto metodol√≥gico que a autora d√° na sua teoria, pois a an√°lise dos processos de explora√ß√£o e domina√ß√£o de maneira interligada √© um caminho que a autora percorre para sua formula√ß√£o da totalidade imbricada nas rela√ß√Ķes de g√™nero, ra√ßa/etnia e classe, avan√ßando numa metodologia que apreende diversas faces da realidade social, sem hierarquiz√°-las. Entende-se que h√° uma virada no pensamento da autora (que n√£o acontece repentinamente, mas √© processual), porque no seu primeiro livro (assim como em algumas obras posteriores), ainda que d√™ ind√≠cios para a an√°lise articulada de g√™nero e classe, uma vez que n√£o separa os problemas da mulher dos problemas da sociedade como um todo, ela ainda trabalha com a quest√£o da classe, partindo da an√°lise do modo de produ√ß√£o capitalista como o primordial.

‚Äú√Äs determina√ß√Ķes essenciais de cada forma√ß√£o econ√īmico-social, configuradas do emprego da m√£o de obra em geral, acrescentam-se ainda as combina√ß√Ķes que se estabelecem entre elas e os caracteres naturais dos indiv√≠duos. A utiliza√ß√£o social de caracteres raciais, assim como sexuais, permite dar aos fen√īmenos de natureza econ√īmica, tais como o posicionamento dos indiv√≠duos no sistema produtivo de bens e servi√ßos, uma apar√™ncia inibidora da percep√ß√£o de sua ess√™ncia. Neste sentido, √†s determina√ß√Ķes essenciais de cada uma das configura√ß√Ķes estruturais hist√≥rico-sociais, fornecendo-lhes cobertura, isto √©, a apar√™ncia necess√°ria sob a qual se escondem os verdadeiros mecanismos de opera√ß√£o de cada modo espec√≠fico de produ√ß√£o. Conquanto seja o fator sexo um crit√©rio menos conveniente que o fator ra√ßa para a conserva√ß√£o do dom√≠nio das camadas privilegiadas, constitui sempre um elemento pelo menos potencialmente discriminador e, portanto, estratificat√≥rio‚ÄĚ (Saffioti, 2013 [1969], p. 328).

            No entanto, √© fundamental destacar que a partir da d√©cada de 1980 ela apresenta sua perspectiva metodol√≥gica imbricacionista, enovelando g√™nero, ra√ßa/etnia e classe. Essa mudan√ßa anal√≠tica √© uma maneira da autora articular a quest√£o de g√™nero, ra√ßa/etnia com a quest√£o da classe social, de uma vis√£o marxista e dial√©tica. Nas palavras de Saffioti:

‚ÄúA figura do n√≥ foi usada por mim para mostrar, simultaneamente, a simbiose entre o racismo, o sexismo e as classes sociais, assim como deixar aberta a possibilidade de se puxar uma ou outra ponta dos eixos que o formam, para se realizar um escrut√≠nio mais acurado. N√£o se trata de separar estas contradi√ß√Ķes, que operam por meio desta nova realidade de car√°ter fusional, mas de examinar cada uma delas √† luz do n√≥ que formam. O n√≥ n√£o apresenta a frouxid√£o dos la√ßos que se desfazem ao menor movimento. Tampouco √© duro a ponto de tornar irreconhec√≠veis as contradi√ß√Ķes que o comp√Ķem. E, sobretudo, deixa as pontas dos eixos √† vista, dispostas a revelar suas especificidades. O mais importante a frisar, contudo, √© a natureza contradit√≥ria do n√≥, que, ademais, √© regido por uma l√≥gica tamb√©m contradit√≥ria‚ÄĚ (Saffioti, 1999, p. 9).

            √Č interessante notar que a autora insiste na ideia da frouxid√£o desse n√≥ (Saffioti, 1993, 2015 [2004], 2005). Para ela ‚Äún√£o se trata do n√≥ g√≥rdio nem apertado, mas do n√≥ frouxo, deixando mobilidade para cada uma de suas componentes‚ÄĚ (2015 [2004], p. 133). Trazendo a no√ß√£o de mobilidade entre as rela√ß√Ķes que considera fundamentais, auxilia a entender os ‚Äúprocessos sociais em suas dimens√Ķes micro e macro, pois aponta o emaranhado dos processos macrossociais, nas estruturas hist√≥ricas nas quais elas se criaram e se consolidaram, e permite a observa√ß√£o dessas perspectivas nas identidades e na resist√™ncia dos sujeitos, percebendo a ag√™ncia a partir das suas viv√™ncias pessoais e intera√ß√Ķes sociais, nas suas rela√ß√Ķes din√Ęmicas‚ÄĚ (Motta, 2017, p. 87). Nas palavras da autora:

‚ÄúDe acordo com as circunst√Ęncias hist√≥ricas, cada uma das contradi√ß√Ķes integrantes do n√≥ adquire relevos distintos. E esta mobilidade √© importante reter, a fim de n√£o se tomar nada como fixo, a√≠ inclusa a organiza√ß√£o destas subestruturas na estrutura global, ou seja, destas contradi√ß√Ķes no seio da nova realidade ‚ÄĒ novelo patriarcado-racismo-capitalismo ‚ÄĒ historicamente constru√≠da‚ÄĚ (Saffioti, 2005, p. 59).

A ideia do n√≥ frouxo de Heleieth Saffioti √© um mecanismo anal√≠tico interessante e complexo, pois, ao mesmo tempo em que define g√™nero, ra√ßa e classe como estruturantes, evita o engessamento da estrutura pela reitera√ß√£o da mobilidade entre esses marcadores. E mais do que isso, a ideia do n√≥ frouxo permite uma leitura segundo a qual na constitui√ß√£o das rela√ß√Ķes estruturantes seja poss√≠vel analisar outras formas de diferencia√ß√£o, que se entrecruzam com essas, como linhas que passam entre esse n√≥ frouxo, como: a idade, sexualidade, religiosidade, nacionalidade (Motta, 2017; 2018).

Referências bibliográficas

Obras da autora

Saffioti, H. (2013). A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. 3a edição. Editora expressão popular: São Paulo[1a edição: 1969].

_______. (1969). Profissionalização feminina: professoras primárias e operárias. Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara.

_______. (1978). Emprego Doméstico e Capitalismo. Vozes: Petrópolis.

_______. (1981). Do Artesanal ao Industrial: A Exploração da Mulher. Editora Hucitec: São Paulo.

_______. (1984). Mulher Brasileira: Opressão e Exploração. Achiamé: Rio de Janeiro.

_______. (1987). O poder do macho. Moderna: S√£o Paulo.

_______. (1991). Novas perspectivas metodol√≥gicas de investiga√ß√£o das rela√ß√Ķes de g√™nero. In: Moraes Silva, M. A. (org.). Mulher em seis tempos. Araraquara, FCL, pp. 141-170.

_______. (1992). Rearticulando gênero e classe social. In: Costa, A. O.; Bruschinni, C. (Orgs), Uma questão de gênero. Rosa dos Tentos Editora e Fundação Carlos Chagas: São Paulo.

_______. (1993). Diferen√ßa ou indiferen√ßa: g√™nero, ra√ßa/etnia e classe social ‚Äď Saffioti. In: A sociologia entre a modernidade e a contemporaneidade. Sergio Adorno (org.). (pp. 159-165).

_______. (1994). P√≥sfacio: Conceituando G√™nero. (p. 271-). In: Mulher Brasileira √© assim. Heleieth Saffioti e Monica Mu√Īoz-Vargas (orgs). Rio de janeiro: Rosa dos Tempos: NIPAS; Bras√≠lia, D.F.: UNICEF.

Saffioti, H. I. B.; Almeida, S. S. (1995). Violência de gênero: poder e impotência. Livraria e Editora Revinter: Rio de Janeiro.

_______. (1999). Prefácio. In: Moraes Silva, Maria Aparecida, Errantes do fim do século. Editora da Unesp: São Paulo.

_______. (2015). Gênero, patriarcado e violência. 2ª edição. Expressão popular: fundação Perseu abramo: São Paulo [1a edição: 2004].

_______. (2005). ‚ÄúG√™nero e Patriarcado‚ÄĚ (pp.35-76) In: Marcadas a Ferro. Secretaria Especial de Pol√≠ticas para as Mulheres: Bras√≠lia.

Obras sobre Heleieth Saffioti

Castro, M. G. (2011) Notas sobre a Potencialidade do Conceito de Patriarcado para um Sujeito no Feminismo. Contribui√ß√Ķes de Heleieth Saffioti – em mem√≥ria e pelo devir. Cadernos Cr√≠tica Feminista, ano V, n. 4..

Gon√ßalves, R. Heleieth Saffioti e a articula√ß√£o entre teoria marxista e ideias feministas nas Ci√™ncias Sociais. Dispon√≠vel em: Heleieth Saffioti e a articula√ß√£o entre teoria marxista e ideias feministas nas Ci√™ncias Sociais

________. O feminismo marxista de Heleieth Saffioti. Dispon√≠vel em: Vista do O feminismo marxista de Heleieth Saffioti

Teles, M. A de A. Heleieth, a ousadia do livre pensar feminista! (1934 ‚Äď 2010). Dispon√≠vel em: Heleieth, a ousadia do livre pensar feminista ! [1] – (1934 ‚Äď 2010) – Funda√ß√£o Perseu Abramo
Minella, L, S. Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil. Dispon√≠vel em: Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil
Sorj, B. Dois olhares sobre Heleieth Saffioti: o feminismo adentra a academia. Dispon√≠vel em: Dois Olhares sobre Heleieth Saffioti O Feminismo Adentra a Academia
Lovatto, A. Desvendando O poder do macho: um encontro com Heleieth Saffioti. Dispon√≠vel em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/18736/13929

Motta, D. (2017) Desvendando o nó: A Experiência de auto-organização das mulheres catadoras de materiais recicláveis no Estado de São Paulo. Tese de Doutorado, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp.

_________. Desvendando Heleieth Saffioti. Revista Lutas Sociais, vol. 22, n. 40, 2018 (p. 149-

160).

Para os leitores interessados em conhecer mais sobre a obra da autora, hoje já contamos com uma organização online que contém boa parte de seus livros, artigos e entrevistas. Todas as obras citadas acima estão disponíveis em:

Al√©m disso, em decorr√™ncia dos 50 anos da publica√ß√£o de ‚ÄúMulher na sociedade de classes: mito e realidade”, foram publicados dossi√™s sobre a autora em diversos peri√≥dicos:

Revista Lutas Sociais: ‚ÄúA mulher na sociedade de classes 50 anos depois: a atualidade de Heleieth Saffioti‚ÄĚ Dispon√≠vel em: v. 23 n. 43 (2019): A mulher na sociedade de classes 50 anos depois: a atualidade de Heleieth Saffioti | Lutas Sociais

Cadernos CRH: ‚Äú50 Anos De A Mulher Na Sociedade De Classes: o pioneirismo de Heleieth Saffioti e suas contribui√ß√Ķes te√≥ricas para os estudos feministas e de g√™nero‚ÄĚ. Dispon√≠vel em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/issue/view/2006

Revista de Estudos Feministas: Heleieth Saffioti ‚Äď 50 anos d‚ÄôA Mulher na Sociedade de Classes. Dispon√≠vel em: v. 29 n. 1 (2021) | Revista Estudos Feministas

Revista de Ci√™ncias Sociais, Trabalho e Pol√≠tica: ‚ÄúRevisitando Heleieth Saffioti: aportes para pensar a atualidade de seus conceitos‚ÄĚ. Dispon√≠vel em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho/issue/view/2467/567