Murasaki Shikibu

(978? ‚Äď 1031?)

por M√°rcia Hitomi Namekata

Universidade Federal do Paran√° (UFPR) – Lattes

Portrait-Icon of Murasaki Shikibu (Murasaki Shikibu zu)
Tosa Mitsuoki (1617-1691)
Exposto em Ishiyama-dera Temple, Otsu, Shiga Prefecture
(crédito Wikimedia commons)

PDF – Murasaki Shikibu

Murasaki Shikibu √© mundialmente conhecida como a autora da colet√Ęnea de narrativas Genji Monogatari [‚ÄúNarrativas de Genji‚ÄĚ]. Tecer considera√ß√Ķes precisas em refer√™ncia √† antiguidade cl√°ssica japonesa consiste em tarefa dif√≠cil, ainda que se tenha √† disposi√ß√£o um n√ļmero consider√°vel de fontes. De acordo com os eventos do per√≠odo, √© poss√≠vel lan√ßarmos m√£o de dados aproximados para que possamos construir esta imagem feminina que tem se destacado de forma crescente no panorama hist√≥rico-liter√°rio n√£o s√≥ do Jap√£o (onde at√© hoje √© o homem quem se destaca em praticamente todas as esferas sociais), mas em n√≠vel global.

Considerando-se as informa√ß√Ķes dispon√≠veis acerca da autora, a data de seu nascimento deve ter sido nos anos 70 do s√©culo X: a refer√™ncia mais citada √© o ano de 978, embora outras fontes, de acordo com Morris (2014, p.254), como Dai Nihon Shi [‚ÄúGrande Hist√≥ria do Jap√£o‚ÄĚ], fa√ßam refer√™ncia ao ano de 974 e, ainda, Shika Shichiron [‚ÄúSete Coment√°rios Acerca da Fam√≠lia de Murasaki‚ÄĚ], um coment√°rio do s√©culo XVIII, prefira o ano de 976-7. Nascida em Kyoto, capital do Jap√£o durante o per√≠odo Heian (794 d.C.-1185 d.C.), Murasaki pertenceu √† m√©dia aristocracia da corte, descendendo de um ramo da poderosa fam√≠lia Fujiwara, cuja pol√≠tica de regentes dominou o cen√°rio pol√≠tico de Heian, sobrepujando o poder imperial. Os Fujiwara foram tamb√©m respons√°veis por prover diversas consortes a imperadores da √©poca.

Mesmo no que concerne ao nome, as mulheres ficavam √† sombra dos homens da fam√≠lia, sendo que, muitas vezes, nem eram reconhecidas atrav√©s de seus pr√≥prios nomes ‚ÄĒ percebemos isso em muitas personagens femininas de Genji Monogatari. Shikibu era o t√≠tulo dado ao ministro de cerimoniais da corte de Heianky√ī (denomina√ß√£o dada a Kyoto na √©poca), cargo ocupado pelo pai de Murasaki, Fujiwara no Tametoki (Morris, 2014, p.252). A origem do nome Murasaki √© ainda mais imprecisa: uma das hip√≥teses √© que se refere ao nome de sua primeira hero√≠na, Waka Murasaki. Outras possibilidades ainda s√£o aventadas: a conex√£o do termo com um conhecido poema da colet√Ęnea Kokin Wakash√Ľ [‚ÄúColet√Ęnea de Poemas Antigos e Modernos‚ÄĚ], de 905 d.C., principal comp√™ndio de poemas do per√≠odo Heian, e com a cor violeta (em japon√™s, ‚Äúmurasaki‚ÄĚ) da flor fuji (glic√≠nia, esp√©cie de trepadeira com flores roxas ou brancas).

A data de seu falecimento √© tamb√©m motivo de controv√©rsias. Consta em alguns registros que ela se tornou monja em 1015 e faleceu em 1031. H√° tamb√©m algumas evid√™ncias de que, ap√≥s o tempo em que a imperatriz Sh√īshi retirou-se da capital por motivo de falecimento de seu marido (o imperador Ichij√ī, em 1011), Murasaki a teria acompanhado, mantendo-se ao seu servi√ßo. Cabe aqui afirmar que Sh√īshi era a filha mais velha de Fujiwara no Michinaga, o mais poderoso dessa linhagem familiar √† √©poca, que casou tr√™s filhas com imperadores; e essas imperatrizes tinham √† sua disposi√ß√£o um s√©quito de damas de companhia, havendo inclusive uma hierarquia entre elas. Murasaki era sua dama mais pr√≥xima tendo, nessa escala, a posi√ß√£o mais elevada, em muito atribu√≠da ao n√≠vel de conhecimento que ostentava. Nesse mesmo ano de 1011, seu pai, Tametoki, foi nomeado governador da prov√≠ncia de Echigo (atual prov√≠ncia de Niigata), a noroeste do arquip√©lago, tendo sido acompanhado por seu filho Nobutaka, que faleceu no local alguns anos depois. Em 1016, Tametoki tomou os votos budistas. Ap√≥s esse per√≠odo n√£o h√° nenhum registro acerca da vida de Murasaki; h√° hip√≥teses de que teria se retirado em um monast√©rio entre 1025 e 1031, ou at√© mesmo falecido, com a idade aproximada de 50 anos.

Embora pertencesse a um ramo menor dos Fujiwara, a fam√≠lia de Murasaki Shikibu viveu sob uma atmosfera liter√°ria. Desde muito jovem a autora esteve entre pessoas altamente versadas nos cl√°ssicos, e que compunham elegantes versos em chin√™s ‚ÄĒ cabe afirmar que o desenvolvimento da cultura japonesa ocorreu, desde seus princ√≠pios, sob o padr√£o chin√™s, considerado o m√°ximo em termos de avan√ßo e refinamento. O pai de Murasaki assumiu postos de governo nas prov√≠ncias de Harima (parte sudoeste da atual prov√≠ncia de Hy√īgo), Echizen (parte leste da atual prov√≠ncia de Fukui, local para onde a filha o acompanhou) e Echigo. Foi um estudioso dos cl√°ssicos chineses, e tinha grandes ambi√ß√Ķes em rela√ß√£o a seu filho mais velho, Nobunori, fazendo todo o poss√≠vel para que recebesse uma educa√ß√£o cl√°ssica, com √™nfase nos conhecimentos sobre hist√≥ria e literatura, essenciais √†queles que almejavam a carreira pol√≠tica. Nobunori assumiu um cargo no Minist√©rio de Cerimoniais ‚ÄĒ onde tamb√©m servira seu pai ‚ÄĒ e, mais tarde, acompanhou-o em seu posto na prov√≠ncia de Echigo, onde faleceu em 1003.

Apesar de as mulheres n√£o serem encorajadas ao estudo dos cl√°ssicos chineses ‚ÄĒ ao contr√°rio, n√£o era adequado que elas tivessem acesso √† l√≠ngua do pa√≠s continental, sendo tal conhecimento considerado um tabu ‚ÄĒ, Murasaki obteve destaque nessa √°rea de estudos, mais do que o pr√≥prio irm√£o, para desapontamento de seu pai. Murasaki teria adquirido, atrav√©s dos ensinamentos paternos, vastos conhecimentos acerca dos cl√°ssicos chineses e budistas, tendo passado boa parte de sua juventude dedicando-se aos estudos. Casou-se entre os anos de 998 e 999 com um parente, Fujiwara no Nobutaka, ao redor dos vinte anos ‚ÄĒ uma idade consideravelmente avan√ßada para a √©poca, visto que a maioridade para uma mulher se dava aos doze anos. Segundo registros, o per√≠odo de vida conjugal foi bastante ef√™mero, visto que seu marido faleceu em 1001, provavelmente v√≠tima de uma epidemia. Sua filha Katako (ou Kenshi), conhecida posteriormente como Daini no Sanmi, nasceu provavelmente em 999 e deve ter falecido ao redor de 1080. Segundo algumas fontes, o casal teve tamb√©m outra filha, mas o destaque √© dado a Katako por tamb√©m ter sido escritora.

Durante cinco anos após a morte do marido, Murasaki teria vivido em retiro em sua casa, e foi provavelmente nessa época que começou a escrever Genji Monogatari, sua obra-prima.

Obras

A despeito de toda a import√Ęncia atribu√≠da a Genji Monogatari, Murasaki Shikibu tem apenas mais duas obras de sua autoria: Murasaki Shikibu Nikki [‚ÄúO Di√°rio de Murasaki Shikibu‚ÄĚ], 1008, e Murasaki Shikibush√Ľ [‚ÄúColet√Ęnea de Murasaki Shikibu‚ÄĚ], 1014(?). A primeira, caracterizada como literatura de di√°rios (nikki bungaku), consiste de uma parte contendo vinhetas que trazem uma lenta descri√ß√£o acerca dos diversos fatos envolvendo o nascimento do primog√™nito da imperatriz Sh√īshi, desde o in√≠cio da gravidez at√© os festejos decorrentes do parto bem-sucedido; e uma se√ß√£o epistolar. Por outro lado, v√°rias passagens do di√°rio mostram a insatisfa√ß√£o da autora com a vida na corte (Keene, 1999, p.44). Evidenciam-se o sentimento de desamparo, seu senso de inadequa√ß√£o quando se comparava aos seus parentes e aos cortes√£os de posi√ß√£o mais elevada entre os membros do cl√£ Fujiwara, e a solid√£o penetrante advinda da morte de seu marido (Mason, 1980, p.30).

Os diários do período Heian assemelham-se mais a memórias autobiográficas do que o diário tal qual aparece na literatura moderna. O autor de um diário, à época, era quem decidia o que incluir no texto, ou o que expandir, ou excluir. O tempo era tratado de forma semelhante: um diário poderia incluir longos trechos de um evento simples, enquanto outros eram omitidos. O nikki era considerado uma forma literária, quase sempre escrita em terceira pessoa, às vezes incluindo elementos fictícios ou históricos.

No caso de Murasaki Shikibu Nikki, ao contr√°rio do que se poderia supor, n√£o temos ali um ve√≠culo atrav√©s do qual a autora possa tecer cr√≠ticas acerca da condi√ß√£o feminina √† sua √©poca; trata-se de um exemplar que descreve, com riqueza de detalhes, o cotidiano da corte de Heian: a apresenta√ß√£o de eventos e da vida das damas da corte, os perfis femininos (que se restringem √†s descri√ß√Ķes f√≠sicas e do temperamento dessas mulheres perante seus pares), coment√°rios e refer√™ncias a outras escritoras e, no que tange √† pr√≥pria Murasaki, suas rela√ß√Ķes dentro da corte e o sentimento de tristeza decorrente da morte do c√īnjuge.

H√° poucas refer√™ncias acerca de Genji Monogatari em Murasaki Shikibu Nikki, al√©m de alguns paralelos entre os √ļltimos cap√≠tulos da colet√Ęnea e o di√°rio: de acordo com Shirane (1987, p.221), a cena do di√°rio que descreve a prociss√£o imperial de Ichij√ī √† mans√£o de Michinaga, em 1008, corresponde de forma pr√≥xima √† prociss√£o imperial retratada no cap√≠tulo 33 de Genji Monogatari, levando a crer que tais similaridades sugerem que partes da colet√Ęnea tenham sido escritas durante o per√≠odo em que Murasaki esteve a servi√ßo imperial.

J√° Murasaki Shikibush√Ľ apresenta-se como uma colet√Ęnea de waka (poema japon√™s) cuja tem√°tica reflete os aspectos das outras obras, por√©m com uma vis√£o mais niilista a respeito da vida.

Murasaki esteve a servi√ßo da imperatriz Sh√īshi como dama de companhia numa √©poca em que, em termos pol√≠ticos, a autoridade era exercida pelo imperador; no entanto, devido √† institucionaliza√ß√£o do sistema de regentes, conhecido como sekkan seiji (‚Äúpol√≠tica sekkan‚ÄĚ), sua autoridade acabou se enfraquecendo devido ao dom√≠nio da fam√≠lia Fujiwara sobre tal sistema. De acordo com a pol√≠tica do sekkan seiji, um regente, o sessh√ī, era nomeado para governar no lugar do imperador que ainda n√£o tivesse alcan√ßado a maioridade, o que era muito comum √† √©poca; no entanto, mesmo depois de o imperador chegar √† maioridade, era nomeado o kanpaku, que continuava a governar em seu lugar. Constituiu-se em uma estrat√©gia elaborada pela fam√≠lia Fujiwara para se manter no poder, visto que proveu a administra√ß√£o da corte com boa parte de seus sessh√ī e kanpaku. No per√≠odo em que Fujiwara no Michinaga, o mais poderoso membro do cl√£, ocupou sucessivamente v√°rios postos ministeriais (foi nomeado sessh√ī em 1016 e daij√ī daijin ‚ÄĒ cargo que, nos dias atuais, equivaleria ao de um primeiro-ministro ‚ÄĒ em 1018), a corte de Heian atingiu o auge do desenvolvimento cultural, sendo que Michinaga conseguiu fazer tr√™s de suas filhas consortes imperiais.

Murasaki viveu em um per√≠odo em que, no √°pice do desenvolvimento cultural patrocinado por Michinaga, houve um processo de nacionaliza√ß√£o da cultura japonesa. Anteriormente a isso, desde o per√≠odo Asuka (538-710), passando pelo per√≠odo Nara (710-784), o referencial do conhecimento e do saber era a China. No per√≠odo Nara temos o surgimento das primeiras obras liter√°rias japonesas: o Kojiki [‚ÄúRegistro de Fatos Antigos‚ÄĚ], de 712, o Fudoki (comp√™ndio de registros geogr√°ficos e culturais datado de 713) e o Nihonshoki [‚ÄúCr√īnicas do Jap√£o‚ÄĚ], de 720. No que concerne √† linguagem, o Nihonshoki foi inteiramente escrito em chin√™s, enquanto o Kojiki seguiu um estilo que mesclava o chin√™s cl√°ssico ao japon√™s. A escrita chinesa ainda se fez presente em Heian, nos documentos oficiais e em escritos de autoria masculina. Assim, n√£o √© exagero afirmar que a cultura japonesa foi constru√≠da sobre modelos chineses: desde o primeiro contato ‚Äúoficial‚ÄĚ entre os dois pa√≠ses, que aconteceu no ano de 238 d.C., emiss√°rios japoneses eram enviados √† China com o intuito de absorver a avan√ßada cultura continental e difundi-la no Jap√£o. Dessa forma, at√© o per√≠odo Nara foi intensa a influ√™ncia chinesa na administra√ß√£o pol√≠tica, na arte e na cultura japonesas. No entanto, tal conhecimento se restringia aos homens.

No in√≠cio do per√≠odo Heian, a influ√™ncia chinesa foi efetivamente reduzida com a √ļltima miss√£o imperial sancionada √† China da dinastia T‚Äôang, em 838. Dessa forma, manifesta√ß√Ķes culturais de car√°ter nacional come√ßaram a emergir. No campo liter√°rio, de acordo com Orsi:

‚ÄúEntre as tentativas mais significativas de liberta√ß√£o da escravid√£o dos caracteres chineses encontra-se o nascimento dos alfabetos fon√©ticos, hoje conhecidos como hiragana e katakana. Em particular o hiragana ‚ÄĒ apesar de nascido das exig√™ncias pr√°ticas e ter sido alimentado nos escrit√≥rios de um Estado que se organizara sobre bases burocr√°ticas ‚ÄĒ ter-se-ia tornado um elemento-chave na cria√ß√£o do assim chamado estilo japon√™s (wabun), que por sua vez teria dado vida, no decurso dos s√©culos X e XI, a uma produ√ß√£o em prosa que conscientemente exclu√≠a o m√°ximo poss√≠vel de palavras de origem chinesa, acrescentando o contato com a l√≠ngua coloquial; mas, n√£o menos importante √© que, por meio do hiragana, com seus caracteres arredondados, delicados e fluentes, derivados de uma simplifica√ß√£o dos kanji, o mundo das damas da corte entra na hist√≥ria da l√≠ngua e da literatura no Jap√£o. T√£o estreitamente o hiragana estava ligado ao universo feminino, que foi denominado tamb√©m onnade (‚Äėescrita das mulheres‚Äô).‚ÄĚ (Orsi, 2009, p.431).

Somos, assim, conduzidos a um universo liter√°rio onde predominou a figura feminina, que ganhou destaque em Heian com o surgimento de g√™neros liter√°rios in√©ditos: os monogatari (narrativas), os zuhitisu (ensaios), os nikki (di√°rios), al√©m do waka, que foi um elemento imprescind√≠vel n√£o s√≥ na literatura mas nas rela√ß√Ķes sociais ‚ÄĒ e amorosas ‚ÄĒ entre os cortes√£os da √©poca.

Como j√° consta do pr√≥prio t√≠tulo, Genji Monogatari pode ser considerada uma colet√Ęnea de narrativas. Considerando-se o termo monogatari, este √© empregado desde o per√≠odo Heian, e caracteriza um g√™nero liter√°rio que se apresenta sob diferentes formas. Segundo verbete da obra de Fr√©d√©ric (2008, p.812), poderia ser traduzido por ‚Äúnarrativa‚ÄĚ, ‚ÄúNome dado a muitos romances e roman√ßas, can√ß√Ķes de gesta e narrativas diversas sob forma de textos longos‚ÄĚ.

Durante o per√≠odo Heian, o termo monogatari tinha um significado diverso do que √© a ele atualmente atribu√≠do. ‚ÄúConversa √† toa‚ÄĚ, ‚Äúnonsense‚ÄĚ, ‚Äúfic√ß√£o em prosa em vern√°culo‚ÄĚ s√£o defini√ß√Ķes que se op√Ķem ao chin√™s cl√°ssico, que aparece no contexto japon√™s como modelo de alta literatura desde meados do s√©culo VI, compreendendo todo o per√≠odo cl√°ssico at√© o final da idade m√©dia japonesa (1867). Os monogatari eram relegados √†s mulheres, que n√£o liam o chin√™s, a l√≠ngua oficial do governo e da religi√£o.

Na √©poca de Murasaki Shikibu a prosa narrativa era levada a s√©rio sob a forma de biografias, escritos hist√≥ricos, tratados religiosos e ensaios filos√≥ficos, que eram escritos sob forma de kanbun (escrita chinesa). Tinham uma finalidade pr√°tica ou did√°tica, mantendo a tradi√ß√£o confucionista. Genji Monogatari come√ßou a ser considerado com maior seriedade ao final do Per√≠odo Muromachi (1338-1573), mas sob o vi√©s budista. Na verdade, isso j√° havia acontecido no in√≠cio de Kamakura (1192-1333), mas n√£o foi apreciado enquanto fic√ß√£o em prosa, mas sim por seus waka e suas passagens po√©ticas. Cabe aqui afirmar que, ao longo do enredo de Genji Monogatari, h√° um processo de intertextualidade com outras obras do per√≠odo Heian, especialmente colet√Ęneas po√©ticas, como o Kokin Wakash√Ľ.

A religi√£o, em Genji Monogatari, √© abordada da forma sob a qual se apresenta no Jap√£o desde os seus prim√≥rdios: um sincretismo dos pensamentos xinto√≠stas ‚ÄĒ a religi√£o aut√≥ctone do pa√≠s ‚ÄĒ, budistas e confucionistas. Embora o Confucionismo tenha sido introduzido no Jap√£o ao redor do s√©culo V (cem anos antes do Budismo, que entrou no ano de 538), n√£o se verifica, em territ√≥rio japon√™s, um conflito entre diferentes doutrinas; tanto uma quanto a outra vieram do continente, mas n√£o entraram em choque com o Xinto√≠smo, ‚Äúcujos temas centrais eram a aceita√ß√£o jubilosa do mundo natural e a gratid√£o por sua benevol√™ncia, em conjun√ß√£o a um horror pela doen√ßa e pela morte, consideradas a fonte de toda a profana√ß√£o‚ÄĚ (Morris, 2014, p.93).

No início do período Heian, as seitas budistas mais difundidas foram a Tendai e a Shingon, ambas do Budismo esotérico. No entanto, a que mais se destacou entre os nobres foi a Tendai, estritamente ligada à família Fujiwara; assim, não é exagero afirmar que ambas as seitas foram as que, em toda a história do Japão, alcançaram um nível de poder político nunca antes visto, nem em território chinês. Muitos nobres da corte ocupavam cargos religiosos dentro dos monastérios budistas, e muitos superiores de grandes complexos de templos foram príncipes imperiais.

No entanto, √† √©poca de Murasaki os monast√©rios budistas tinham diversas fun√ß√Ķes: os numerosos templos que circundavam a capital eram locais de excurs√Ķes e peregrina√ß√£o, oferecendo, especialmente √†s mulheres que viviam enclausuradas nos pal√°cios, uma oportunidade de se distra√≠rem e observarem o mundo exterior. Ademais, pelo fato de muitos deles estarem localizados em locais pitorescos, era comum que muitos nobres da corte os utilizassem como locais de excurs√£o, o que lhes confere um aspecto secular.

Por outro lado, esses templos eram tamb√©m locais de retiro espiritual, aspecto que se relaciona a outra ideia que √© fortemente explorada na colet√Ęnea de Murasaki: o desapego. Era bastante comum que, em determinado per√≠odo de suas vidas, membros da nobreza ‚ÄĒ tanto homens como mulheres ‚ÄĒ entrassem em retiro, vivendo uma vida mon√°stica. No caso das mulheres, tratava-se especialmente de casos em que ficavam vi√ļvas, ou quando eram abandonadas por seu c√īnjuge ou amante. Neste contexto, quando se fala em ‚Äúdesapego‚ÄĚ, isso significava uma reclus√£o total, sem qualquer contato at√© mesmo com as pessoas mais pr√≥ximas, √†s vezes at√© o final da vida do retirado.

No que concerne ao aspecto religioso do Budismo em Genji Monogatari, o fundamento espiritual comum a todas as seitas era o sentimento de transitoriedade, de evanesc√™ncia (muj√īkan). Percebe-se, n√£o s√≥ na obra de Murasaki mas em toda a cultura do per√≠odo cl√°ssico, a representa√ß√£o desse sentimento atrav√©s de manifesta√ß√Ķes da natureza: a florada e o fenecer das flores de cerejeira, assim como a mudan√ßa de cores das folhas de bordo do outono, aparecem como exemplos de marcas da passagem do tempo e da brevidade da vida, marcando as fases de um ciclo.

No universo retratado por Murasaki, tal ideia √© expressa na arte po√©tica, que tinha um valor n√£o s√≥ est√©tico como social de suma import√Ęncia na corte de Heian. A base dessa arte era o waka, elemento chave no relacionamento homem-mulher que, desde o in√≠cio, era mediado por cartas-poema, que atestavam o n√≠vel intelectual e de eleg√Ęncia daqueles que as escreviam. Quando um homem mostrava interesse por uma mulher e era correspondido, ele come√ßava a visit√°-la √† noite, e a comunica√ß√£o entre ambos acontecia de maneira mediada, ele oculto por um biombo e ela, por um cortinado, sendo que ele deveria partir antes do amanhecer. Ap√≥s tr√™s noites consecutivas, acompanhadas de tr√™s cartas na manh√£ seguinte, o compromisso entre ambos era selado com ta√ßas de saqu√™ e a presen√ßa dos pais da futura noiva. No entanto, segundo Wakisaka e Cordaro (2013, p.22), as esposas continuavam vivendo em seus lares de origem e recebiam visitas amorosas dos esposos oficiais, sendo a influ√™ncia de seus pais fundamental no exerc√≠cio do poder pol√≠tico, pois as utilizavam como progenitoras de poss√≠veis futuros imperadores que lhes ficavam sob a guarda. As filhas passavam a ter, ent√£o, excepcional valor, e eram escondidas dos olhares comuns atr√°s de cortinas, cortinados, biombos, treli√ßas: a chama da lamparina e a penumbra (e seus correlatos: a ambiguidade, a alus√£o, o subentendido, a sutileza) passaram a ser elementos est√©ticos da tradi√ß√£o cl√°ssica japonesa.

Cabe aqui acrescentar que, no Jap√£o antigo, o sistema de casamento vigente era a poligamia, que perdurou at√© o in√≠cio da era moderna, em 1868, quando foi oficialmente institu√≠da a monogamia. No per√≠odo Heian era permitido a um nobre da corte ostentar at√© dez esposas oficiais ‚ÄĒ excluindo-se as concubinas ‚ÄĒ, desde que as tratasse, e tamb√©m a seus filhos, com igualdade.

√Č este o pano de fundo de Genji Monogatari, que tem sido considerado por muitos cr√≠ticos, inclusive ocidentais, como o ‚Äúprimeiro romance psicol√≥gico mundial‚ÄĚ. Os principais aspectos que levam a tal caracteriza√ß√£o seriam a cria√ß√£o de personagens altamente individualizadas em um contexto social real√≠stico, a apresenta√ß√£o sutil de pensamentos e emo√ß√Ķes e um drama cont√≠nuo, elementos que o distinguem de seus predecessores.

Genji Monogatari divide-se em 54 capítulos, ou livros, divididos em três partes:

  • cap√≠tulos 1 a 33 ‚Äď juventude e meia-idade de Genji;
  • cap√≠tulos 34 a 41 ‚Äď √ļltimos anos do her√≥i;
  • cap√≠tulos 42 a 54 ‚Äď trajet√≥ria dos descendentes de Genji e das pessoas a ele relacionadas.

Pode-se dizer que o fio narrativo da obra √© o protagonista, Hikaru Genji (‚ÄúGenji, o Brilhante‚ÄĚ), pr√≠ncipe que ficou √≥rf√£o muito cedo. Sua m√£e era amante de seu pai, o imperador, que tinha por esposa oficial a princesa K√īkiden (que, por sua vez, tinha um filho com o imperador). Mas quando Genji nasceu, todos logo perceberam que era extremamente belo, o que atraiu a prefer√™ncia de seu pai com rela√ß√£o a seu meio-irm√£o. A m√£e de Genji, embora n√£o fosse uma esposa oficial, era considerada a preferida de seu pai, fato que desperta o √≥dio de K√īkiden, que passa a perseguir a rival. A m√£e de Genji, n√£o tendo com quem contar, por ser de baixa estirpe, sofre imensamente com a persegui√ß√£o psicol√≥gica e vem a falecer.

Genji cresce na corte e, aos doze anos, casa-se com Aoi, sua prima ‚ÄĒ um casamento por conveni√™ncia; inclusive o pr√≥prio Genji diz que n√£o a ama. Mas, nessa √©poca, seu pai casa-se com Fujitsubo, uma bela mulher que em muito lembrava Kiritsubo, a m√£e de Genji. O protagonista fica fascinado pela madrasta e a seduz (muitos estudiosos sugerem aqui o estabelecimento de uma rela√ß√£o ed√≠pica entre ambos). Fujitsubo tem um filho com o enteado, fato que muitos anos depois √© descoberto pelo pai de Genji e lhe causa um grande ressentimento. Esse acontecimento serve como pretexto para K√īkiden arquitetar um plano que culmina com a expuls√£o de Genji da capital e seu ex√≠lio. Longe da corte, sob situa√ß√Ķes adversas, √© auxiliado por for√ßas sobrenaturais e retorna em triunfo √† capital.

Dos cap√≠tulos 34 a 41 seguem-se v√°rios infort√ļnios na vida do protagonista, decorrentes de uma s√©rie de choques emocionais, inclusive a morte de Murasaki ‚ÄĒ uma de suas esposas e que, segundo alguns te√≥ricos, teria sido o grande amor de sua vida. A morte de Genji acontece no cap√≠tulo 41 e, na √ļltima parte da obra, temos a apresenta√ß√£o de Niou (neto de Genji) e Kaoru (seu suposto filho mas, na verdade, neto de T√ī no Ch√Ľj√ī, melhor amigo de Genji) dos cap√≠tulos 42 a 49 e, dos cap√≠tulos 50 a 54, a rivalidade entre ambos pelo amor de Ukifune.

A despeito desta divis√£o, uma d√ļvida que at√© hoje n√£o foi esclarecida refere-se √† autoria da terceira parte. Embora o pr√≠ncipe Hikaru Genji ‚ÄĒ o protagonista ‚ÄĒ seja o elo entre as tr√™s partes, normalmente a √™nfase √© dada √†s duas primeiras partes da obra, que tratam de sua jornada em vida. No entanto, dada a diferen√ßa de estilo com rela√ß√£o √†s duas primeiras partes, e a transi√ß√£o abrupta que acontece da segunda para a terceira parte, especula-se se a autora desta seria de fato Murasaki Shikibu; uma das hip√≥teses √© a de que essa autoria seja atribu√≠da a sua filha Katako (Daini no Sanmi).

Tem√°ticas de Genji Monogatari

 

Genji Monogatari pode ser pensado como um tipo de Bildungsroman, um romance de forma√ß√£o em que o autor revela o desenvolvimento da mente e do car√°ter do protagonista atrav√©s do tempo e da experi√™ncia (Shirane, 1987). Na obra, o crescimento ocorre n√£o apenas na vida de um simples her√≥i ou hero√≠na, mas sobre diferentes gera√ß√Ķes e sequ√™ncias, com dois ou mais personagens. O processo de forma√ß√£o e desenvolvimento n√£o termina com a morte de uma personagem mas, ao contr√°rio, desdobra-se atrav√©s de diferentes gera√ß√Ķes e indiv√≠duos. Genji, por exemplo, gradualmente se conscientiza da morte e da imperman√™ncia atrav√©s da experi√™ncia e do sofrimento. Kaoru, seu suposto filho, come√ßa sua vida ‚ÄĒ ou narrativa ‚ÄĒ com uma profunda sensibilidade em rela√ß√£o a esses aspectos sombrios do mundo. Mesmo personagens que n√£o t√™m rela√ß√£o entre si em termos de enredo ou genealogia carregam o fardo psicol√≥gico e social deixado pelos personagens que se v√£o.

Todas as tem√°ticas que surgem na obra est√£o intrinsecamente ligadas √† quest√£o do tempo que, pela pr√≥pria estrutura da obra ‚ÄĒ onde s√£o constantes os fluxos de consci√™ncia, as refer√™ncias a fatos passados e o clima de sonho ‚ÄĒ, caracteriza-se como circular (caracterizado pela estrutura n√£o-linear da obra). Na sequ√™ncia narrativa, o passado exerce forte influ√™ncia sobre o presente: cada sequ√™ncia maior da obra (cap√≠tulo ou livro) √© consequ√™ncia de uma narrativa existente, trazendo problemas e dilemas criados ou deixados para tr√°s.

Na cultura japonesa, a concep√ß√£o de ‚Äútempo‚ÄĚ remete √† vis√£o chinesa, segundo a qual o tempo que ‚Äúflui para um processo determinado sobre uma linha reta infinita coexiste (…) com a concep√ß√£o de tempo que se sucede infinitamente sobre uma circunfer√™ncia‚ÄĚ (KATO, 2011, pp.38-9). Dessa forma h√°, ‚Äúde um lado, a vis√£o hist√≥rica c√≠clica e, de outro, a consci√™ncia de que tudo acontece entre o c√©u e a terra, com um tempo em linha reta, em que a luz e a sombra v√£o e n√£o voltam mais‚ÄĚ, o que faz com que, para o oriental, o ‚Äúagora‚ÄĚ seja algo valioso. A partir deste referencial, remetemo-nos ao conceito de imperman√™ncia que √©, possivelmente, uma das principais tem√°ticas de Genji Monogatari:

‚Äúa ‚Äėefemeridade de todas as coisas‚Äô n√£o diz respeito a uma sucess√£o c√≠clica do tempo hist√≥rico, mas √† vida com come√ßo e fim de uma pessoa. A vida √© curta. Esta √© a condi√ß√£o humana, e n√£o difere segundo a cultura. O que difere de acordo com a cultura √© o modo de se lidar com essa realidade. Por exemplo, o tao√≠smo prolonga a vida e busca ‚Äėa juventude e a imortalidade‚Äô. No budismo e no cristianismo, pensa-se que, ap√≥s a morte, a alma entra numa ‚Äėsegunda vida‚Äô, e tamb√©m h√° o misticismo que ultrapassa a vida e a morte atrav√©s da experi√™ncia da uni√£o com o ente absoluto. Nos casos em que n√£o se toma uma posi√ß√£o religiosa, h√° tamb√©m uma imers√£o num indefinido sentimento de tristeza de que a vida √© como um sonho, como tamb√©m h√° uma postura hedonista que diz que, j√° que a vida √© curta, deve-se aproveitar o presente. Ambas aparecem na poesia l√≠rica em todas as √©pocas e lugares, e o Jap√£o n√£o √© uma exce√ß√£o.‚ÄĚ (Idem, pp.52-3)

Outro elemento que poder√≠amos elencar dentro da tem√°tica da obra, e que est√° intrinsecamente ligado ao conceito de imperman√™ncia, √© o mono no aware que, na est√©tica do per√≠odo Heian, sugere o pathos inerente √† beleza do mundo exterior, uma beleza inexor√°vel fadada a desaparecer a qualquer momento. Trata-se de um termo essencialmente relacionado ao Budismo mas que, por outro lado, enfatiza mais a experi√™ncia emocional do que uma compreens√£o religiosa. Isso se reflete na pr√≥pria etimologia do termo aware, cujo ‚Äúa‚ÄĚ inicial apresenta-se como interjectivo, refletindo uma emo√ß√£o daquele que fala: ‚ÄúAh!‚ÄĚ.

A jornada do her√≥i √© uma tem√°tica de car√°ter universal que se configura como paralela que, no entanto, tem uma import√Ęncia dentro da narrativa: para o seu protagonista, est√° diretamente relacionada √† presen√ßa e √† a√ß√£o da madrasta, K√īkiden, consorte principal do imperador, seu pai. A madrasta n√£o √© uma imagem recorrente na literatura japonesa ‚ÄĒ especialmente na forma como aparece na literatura ocidental. Na literatura da idade m√©dia japonesa, que se estende de 1192 a 1867, a madrasta m√° aparece normalmente como a segunda ou a esposa seguinte √† consorte principal, que favorece seus pr√≥prios filhos sobre a descend√™ncia da falecida primeira esposa. Mas nos monogatari do per√≠odo Heian, que refletem a pr√°tica do per√≠odo de se ter esposas de alta e baixa estirpes ao mesmo tempo, a madrasta m√° normalmente √© a consorte principal, de status mais alto (denominada kita no kata); isso est√° estreitamente relacionado ao intrincado jogo de poder estabelecido pelo cl√£ Fujiwara, j√° exposto anteriormente. A m√£e da hero√≠na, ao contr√°rio, √© a segunda esposa, de n√≠vel mais baixo, ou uma amante. Sob press√£o da kita no kata, ela morre ou desaparece, deixando a hero√≠na para lutar sozinha. Desde que o status social e econ√īmico √© normalmente decidido pelos parentes maternos, que criam e d√£o suporte √† crian√ßa, a morte da m√£e normalmente significa que a hero√≠na est√° sem um lar, mesmo que o pai seja uma figura poderosa ou bem posicionada socialmente. No entanto, em Genji Monogatari, a imagem da v√≠tima da madrasta desloca-se para o protagonista masculino, Genji, que, conforme a sinopse apresentada da obra, tem sua transgress√£o exposta e √© exilado da corte. Considerando-se toda a sequ√™ncia de a√ß√Ķes que a ele se relacionam desde o in√≠cio, sua trajet√≥ria perfaz essa tem√°tica da jornada do her√≥i: no cap√≠tulo 1 √© fornecida a informa√ß√£o de que Genji ser√° um ser excepcional, previs√£o que √© feita por um or√°culo coreano, de onde surge o ep√≠teto ‚Äúbrilhante‚ÄĚ, que lhe confere um aspecto quase divino. Durante seu ex√≠lio em Suma, Genji passa por um processo de purifica√ß√£o: a tempestade que enfrenta √© analisada por alguns cr√≠ticos como um ritual de passagem. Ademais, na tradi√ß√£o narrativa japonesa o ex√≠lio √© associado, sob o ponto de vista xinto√≠sta, √† purifica√ß√£o e √† expia√ß√£o de transgress√Ķes anteriores (tamb√©m verificado na perspectiva budista). Sugere-se, portanto, que ele se redime de seus pecados ‚ÄĒ sendo o maior deles o de ter seduzido a madrasta e tra√≠do o pai ‚ÄĒ e retorna triunfante √† capital.

Grande parte da trama de Genji Monogatari centra-se sobre os amores vividos pelo protagonista, o que confere um destaque √†s personagens femininas: alguns cap√≠tulos da obra aparecem intitulados com nomes de mulheres que apresentam algum grau de relacionamento com Genji, como por exemplo Kiritsubo (nome de sua m√£e e t√≠tulo do cap√≠tulo 1), Utsusemi (cap√≠tulo 3), Y√Ľgao (cap√≠tulo 4), Murasaki (cap√≠tulo 5), Aoi (primeira esposa de Genji, que intitula o cap√≠tulo 9). Boa parte dos nomes femininos remetem √† natureza, ou a aspectos ligados √† eleg√Ęncia da vida na corte: os nomes Kiritsubo (paul√≥vnia), Fujitsubo (esp√©cie de trepadeira com flores roxas) e Murasaki (lavanda) est√£o associados √† cor roxa, a cor mais cobi√ßada entre os nobres e, dessa forma, o m√°ximo do refinamento, devido √† dificuldade em sua obten√ß√£o.

Isso nos permite afirmar que um aspecto de import√Ęncia na obra s√£o as mulheres. Os monogatari de Heian constitu√≠ram, inicialmente, um g√™nero liter√°rio dominado por escritores homens; nesses casos, a trama girava em torno da corte e da persegui√ß√£o amorosa. No caso dos monogatari de autoria feminina, a tradi√ß√£o liter√°ria objetiva as consequ√™ncias da uni√£o marital: em sua obra, Murasaki tra√ßa um verdadeiro panorama das dificuldades e as agruras da poligamia, como o ci√ļme amargo, a resultante neurose, a desintegra√ß√£o familiar e o sofrimento dos filhos expulsos.

Temos aqui a configura√ß√£o de uma situa√ß√£o nova que o acesso √† escrita propiciou √†s damas de Heian: o surgimento de novos g√™neros liter√°rios ‚ÄĒ a ela atribu√≠dos ‚ÄĒ que permitem que tenham uma esp√©cie de ‚Äúvoz‚ÄĚ atrav√©s da qual podem expressar seus sentimentos. Provavelmente o principal ve√≠culo para isso seja o nikki bungaku (literatura de di√°rios), de car√°ter confessional. No entanto, para essas mulheres, a literatura funciona mais como uma esp√©cie de ‚Äúv√°lvula de escape‚ÄĚ: elas n√£o escrevem para serem ouvidas, para reivindicarem seus direitos mas, simplesmente, para poderem aliviar seus fardos. O sistema patriarcal, a pol√≠tica dos Fujiwara ‚ÄĒ que passa a definir as rela√ß√Ķes entre os membros da corte ‚ÄĒ s√£o t√£o consolidados que qualquer reviravolta positiva nessa situa√ß√£o √© algo que n√£o lhes passa pelo imagin√°rio. Percebemos isso atrav√©s da trajet√≥ria de boa parte das mulheres de¬†Genji Monogatari, sempre √† merc√™ das conven√ß√Ķes sociais e dos desejos masculinos.

A incerteza do amor e do casamento foram situa√ß√Ķes tamb√©m expostas na poesia do per√≠odo. Os livros 3 e 4 do Kokin Wakash√Ľ [‚ÄúColet√Ęnea de Poemas Antigos e Modernos‚ÄĚ], de 905, s√£o dedicados ao tema: a desconfian√ßa em rela√ß√£o aos homens, a inconst√Ęncia de suas visitas, o terror de perder um amante ou marido, o medo da humilha√ß√£o social, o senso de desilus√£o, e a incerteza quanto ao futuro.

A situa√ß√£o social dessas mulheres √© um aspecto de relev√Ęncia dentro da obra. No cap√≠tulo 2 (‚ÄúHahakigi‚ÄĚ), Genji e outros homens trocam ideias acerca da ‚Äúmulher ideal‚ÄĚ. No decorrer da trama, percebe-se que as principais personagens masculinas nutrem uma prefer√™ncia afetiva por mulheres socialmente inferiores a eles; no caso de Genji, a rela√ß√£o infeliz que tem com Aoi, sua prima e principal consorte, revela que os casamentos consangu√≠neos n√£o o agradavam. E nota-se que ele n√£o apresenta rela√ß√£o de sangue com as mulheres que foram marcantes em sua vida: Murasaki, Fujitsubo e Tamakazura.

Provavelmente a personagem que melhor exemplifica esse sofrimento √© Murasaki. Criada por Genji quando foi abandonada pelo pai, posteriormente se casam. No entanto, Murasaki era sempre assolada pela presen√ßa de mulheres de estirpe superior √† sua na vida de Genji. O primeiro sinal de seu sofrimento √© seu desejo de renunciar ao mundo, ato muito comum entre as mulheres que ficavam vi√ļvas ou que eram abandonadas. Genji rejeita o pedido duas vezes, mas o senso de transitoriedade que a leva a desejar a salva√ß√£o religiosa sustenta-se n√£o na doutrina budista ou no confronto com a morte, mas sim na consci√™ncia aguda da imperman√™ncia do casamento ou na inconst√Ęncia do sexo oposto. Suas rivais no amor, na maioria dos casos, t√™m liga√ß√Ķes com o trono; o mesmo aconteceu com Fujitsubo, a amante do imperador que teve um filho com Genji. Isso afeta sensivelmente Murasaki, cujo √ļnico elo com o poder √© o pr√≥prio Genji.

Cabe aqui uma refer√™ncia √† obra de Waithe (1989), que dedica a primeira se√ß√£o do segundo volume de sua obra, A History of Women Philosophers [‚ÄúUma Hist√≥ria das Fil√≥sofas Mulheres‚ÄĚ], a Murasaki Shikibu. O destaque dado pela autora √† terceira parte da obra confere uma abordagem diversa daquela que j√° se tornou comum ‚ÄĒ que √© concentrar a an√°lise de Genji Monogatari em suas duas primeiras partes, com destaque √† personagem-t√≠tulo ‚ÄĒ, na medida em que o ponto central de sua an√°lise √© Ukifune, alvo da disputa entre dois nobres da corte: Niou, neto de Genji, e Kaoru, supostamente filho de Genji mas que, na verdade, era neto de T√ī no Ch√Ľj√ī, cunhado e amigo de Genji.

Para Waithe, Ukifune √© estuprada por Niou. No entanto, essa vis√£o n√£o condiz com a condi√ß√£o da mulher √† √©poca; mesmo em grande parte das an√°lises liter√°rias de Genji Monogatari nenhuma men√ß√£o √© feita ao estupro. Isso se deve, possivelmente, a alguns fatores que devem aqui ser mencionados. Primeiramente, no sistema polig√Ęmico vigente em Heian, da mesma forma como era poss√≠vel ao homem relacionar-se com v√°rias mulheres ao mesmo tempo, √† mulher n√£o era exigida fidelidade ao marido (podemos tomar como exemplo Y√Ľgao, destaque feminino do cap√≠tulo 4, que √© ‚Äúdescoberta‚ÄĚ por Genji em um bairro distante e inicia um relacionamento com ele. Posteriormente, vem-se a saber que se tratava da esposa de um governador provincial). Outra quest√£o se refere ao ritual das tr√™s noites, j√° mencionado neste texto, que eram as tr√™s noites em que o casal se encontrava e, caso a mulher agradasse ao homem, este fazia dela sua esposa. Naturalmente, o relacionamento √≠ntimo entre ambos fazia parte de tal ritual, o que no entanto n√£o configuraria um estupro.

Waithe tamb√©m teria pensado em Genji Monogatari enquanto um Bildungsroman voltado √† educa√ß√£o feminina. No entanto, dada a posi√ß√£o de Murasaki na corte enquanto dama de companhia da imperatriz Sh√īshi, e considerando-se o que foi anteriormente colocado no tocante √† condi√ß√£o das mulheres na corte, presume-se que ela narrava a hist√≥ria de sua autoria como uma forma de entretenimento que, para os leitores de √©pocas posteriores, acabam sendo um documento, um retrato pormenorizado da sociedade cortes√£ do s√©culo XI.

Outra personagem feminina relevante, que encontra ecos na literatura dos per√≠odos posteriores, √© Rokuj√ī. Tia de Genji, consideravelmente mais velha, envolve-se com o sobrinho, por quem nutre uma paix√£o quase patol√≥gica, que faz com que seu esp√≠rito deixe seu corpo para matar suas rivais. Trata-se da imagem do ikiry√ī, traduzido por ‚Äúesp√≠rito de pessoa viva‚ÄĚ e que, a partir de Genji Monogatari, vem a povoar o imagin√°rio japon√™s de todas as √©pocas. Os aristocratas de Heian acreditavam que o esp√≠rito de uma pessoa viajava e aparecia nos sonhos de outra pessoa por quem seria obcecada revelando, assim, de um modo reminiscente a um esp√≠rito maligno, as emo√ß√Ķes mais profundas de uma pessoa. Podemos dizer que se trata de um reflexo da poligamia centrada no homem, que obriga a mulher a reprimir sentimentos de ci√ļme e ressentimento, como Murasaki, que os mant√©m sob controle. A incapacidade de Rokuj√ī de suprimir emo√ß√Ķes proibidas torna-a um s√≠mbolo de apego excessivo e um emblema do caos social e da destrui√ß√£o. E √© condenada por seu comportamento: perde o seu lugar de hero√≠na, retira-se da capital e vem a falecer precocemente.

√Ä primeira vista, a imagem de Rokuj√ī poderia sugerir um tabu no contexto de Genji Monogatari. No entanto, era muito comum que parentes de sangue se relacionassem entre si, assim como n√£o se tratava de um tabu uma consider√°vel diferen√ßa de idade entre homem e mulher em um casal, como acontece entre Genji e Aoi, sua primeira esposa (no caso, a mulher sendo mais velha do que o homem).

Em sua obra, Shirane (1987) afirma que, em Genji Monogatari, a ess√™ncia da vida humana tende a ser compreendida em termos do seu fim, mais nos momentos derradeiros do que no nascimento ou na cria√ß√£o. A esta√ß√£o do ano dominante na obra √© o outono, quando tudo √© tingido pela melancolia e parece secar e morrer. Tecendo rela√ß√Ķes com as ideias aqui expostas acerca da poesia de Heian e da literatura feminina do per√≠odo, a for√ßa, a teimosia, a agressividade perdem lugar para o delicado, o fr√°gil e o mortal.

Isso nos leva a refletir sobre o final da obra, que parece n√£o se aproximar de um final absoluto. Este se mostra inconclusivo, na medida em que o √ļltimo cap√≠tulo teria um sentido de fim e antecipa√ß√£o: o potencial para um crescimento e desenvolvimento futuros existe aqui, assim como em qualquer ponto de uma narrativa descentralizada. Lembremos o fato de que a pr√≥pria autoria da obra, na √≠ntegra, ainda √© motivo de controv√©rsias. O primeiro questionamento acerca do assunto surgiu no s√©culo XV, quando um estudioso da obra sugeriu que a filha de Murasaki teria sido a autora do √ļltimo ter√ßo da colet√Ęnea (dos cap√≠tulos 42 ao 54). J√° no s√©culo XX, a escritora Yosano Akiko (1878-1942), que publicou duas tradu√ß√Ķes de Genji Monogatari para o japon√™s moderno, aventou a possibilidade de Murasaki ter escrito apenas dos cap√≠tulos 1 ao 33, atribuindo o restante da obra √† sua filha. Outros t√™m questionado a autoria dos cap√≠tulos 42 ao 54 ou, ainda, do 42 ao 44, e an√°lises recentes indicam discrep√Ęncias significativas de estilo entre os cap√≠tulos 45 ao 54 em rela√ß√£o √†s primeiras partes da obra.

De qualquer maneira, considerando o que discorremos acerca da cultura japonesa, onde predomina a imagem da espiral quando pensamos no tempo, o fim em si √© algo et√©reo, difuso: como a representa√ß√£o da natureza e da vida, que se fundem num clima de sonho. E que pode ser vislumbrado atrav√©s do poema elaborado pela pr√≥pria Murasaki Shikibu, registrado em Ogura Hyakunin Isshu [‚ÄúCem Poemas Por Cem Poetas de Ogura‚ÄĚ], antologia po√©tica organizada por Fujiwara no Teika (1162-1241):

Meguriaite Mishiya soretomo

Wakanu mani Kumogakurenishi

Yowano tsuki kana

“Encontrei por acaso,

quiçá, fosse quem vira antes.

Enquanto eu pensava

as nuvens esconderam

a lua da meia-noite.‚ÄĚ

Referências

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