Simone Weil

(1909 – 1943)

Por Fernando Puente

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) –¬†Lattes

PDF – Simone Weil

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Simone Adolphine Weil, nascida em Paris no dia 3 de fevereiro de 1909 é uma das mais importantes filósofas do século XX. Em sua breve vida, vivenciou as duas Grandes Guerras. Ela faleceu aos 34 anos, no dia 24 de agosto de 1943 na cidade de Ashford (Reino Unido), sem ter podido presenciar a derrocada do nazismo e a libertação da França do jugo da Alemanha hitlerista.

Os pais de Simone Weil, Bernard e Selma Weil, eram ambos judeus n√£o praticantes e tiveram dois filhos. O primeiro, um dos mais importantes matem√°ticos do s√©culo XX, foi Andr√© Weil (1906-1998), membro fundador do Grupo Bourbaki, que revolucionou a matem√°tica no s√©culo XX. A segunda foi Simone Weil que compartilhou com seu irm√£o uma inf√Ęncia diferenciada, pois estudaram em casa com diversos professores particulares e sob os ausp√≠cios zelosos de sua m√£e em fun√ß√£o de mudan√ßas constantes que tiveram de fazer devido aos sucessivos empregos do pai. Dado que Andr√© e Simone n√£o tiveram nenhuma forma√ß√£o religiosa, eles cresceram adotando uma posi√ß√£o agn√≥stica que se reflete claramente nos textos iniciais de Simone Weil. Os irm√£os foram muito pr√≥ximos intelectualmente e a correspond√™ncia entre eles √© uma verdadeira mina de informa√ß√Ķes sobre quest√Ķes matem√°ticas, filos√≥ficas e cient√≠ficas sempre eivadas de muito humor e ironia.¬†

Simone Weil viveu em uma √©poca marcada n√£o somente pelas duas Grandes Guerras, mas tamb√©m por intensos movimentos pol√≠tico-sociais de luta por melhores condi√ß√Ķes de trabalho para os oper√°rios, bem como por um engajamento dos intelectuais na forma√ß√£o educacional dos trabalhadores. Tudo isso se manifesta fortemente em sua produ√ß√£o filos√≥fica.

Tendo tido uma forma√ß√£o cl√°ssica (latim e grego) rigorosa, Simone Weil tornou-se leitora arguta da tradi√ß√£o grega (sobretudo de Homero, dos pitag√≥ricos, de Plat√£o e dos Evangelhos) e dos fil√≥sofos modernos mais estudados tradicionalmente na Fran√ßa daquelas d√©cadas, a saber, Descartes e Kant; por fim, mas n√£o menos importante, empreendeu uma leitura atenta e profunda de Marx. Antes de ingressar na √Čcole Normale Sup√©rieure, estudou com Alain no Liceu Henry IV, no qual ingressou com 16 anos nas classes preparat√≥rias para as grandes Escolas da Fran√ßa. Alain √© o pseud√īnimo de √Čmile-Auguste Chartier (1868-1951), professor de filosofia que marcou indelevelmente diversos intelectuais franceses que foram seus alunos antes de ingressarem nas grandes Escolas ou na Sorbonne.¬†

Simone Weil foi, portanto, uma das primeiras mulheres a entrar na prestigiosa √Čcole Normale Sup√©rieure em Paris, tendo conclu√≠do sua forma√ß√£o acad√™mica com um trabalho intitulado Science et Perception dans Descartes (Weil, 1988, pp.159-221), orientado por L. Brunschvicq e defendido por ela em 1930 aos 21 anos. Not√°vel a independ√™ncia intelectual da jovem pensadora que se percebe pela invers√£o, em sua tese, da interpreta√ß√£o filos√≥fica de seu orientador em rela√ß√£o a Descartes, defendendo a presen√ßa neste de ‚Äúuma teoria das sensa√ß√Ķes como signos‚ÄĚ (idem, p.182).

Al√©m de seus estudos te√≥ricos nos quais ressalta a import√Ęncia fundamental de Marx de quem, contudo, foi igualmente uma cr√≠tica contumaz, Weil participou das lutas sindicais de sua √©poca enquanto ministrava cursos de Filosofia para as filhas de oper√°rios nos Liceus de Puy (1931-32), Auxerre (1932-33), Roanne (1933-34), Bourges (1935-1936) e Saint-Quentin (1937-38).¬†

Paralelamente √† atividade como professora de ensino m√©dio ela empreender√° outras atividades decisivas em sua forma√ß√£o pessoal e intelectual. Assim, viaja para a Alemanha em 1931, pois compreendia que l√° que estavam ocorrendo transforma√ß√Ķes efetivas na vida pol√≠tica que necessitavam ser mais bem entendidas. Em 1934, antes de ter sua experi√™ncia como oper√°ria, publica o que ela considerava ent√£o ser a sua grande obra: Reflex√Ķes sobre as causas da liberdade e da opress√£o social (Weil, 1979, pp. 235-307). Torna-se oper√°ria por um curto intervalo de tempo entre 1934 a 1935, pois havia intu√≠do que necessitava dessa experi√™ncia concreta para pensar a quest√£o oper√°ria, e ser√° precisamente dessa experi√™ncia que surgir√° o texto ‚ÄúDi√°rio de f√°brica‚ÄĚ escrito em 1936 (Weil, 1991b, pp.171-282). A seguir, em agosto de 1936, sentiu a obriga√ß√£o de se engajar na Guerra Civil Espanhola. Lutou ao lado dos republicanos na coluna comandada por Durruti, que dirigia a forma√ß√£o mais importante das mil√≠cias da Central Sindical Anarquista. Essa brev√≠ssima experi√™ncia em uma guerra servir√° para Weil conceber de modo claro a barb√°rie que domina o cora√ß√£o dos seres humanos independentemente de partidos ou posi√ß√Ķes pol√≠ticas, bem como a idolatria da for√ßa e do poder que subjaz no √Ęmago de quase todas as pessoas. Alguns textos weilianos produzidos nessa √©poca o exprimem com clareza, tais como: ‚ÄúReflex√Ķes sobre a barb√°rie‚ÄĚ (Weil, 1989, pp. 222-225) e o c√©lebre ‚ÄúIl√≠ada ou o poema da for√ßa‚ÄĚ (Weil, 1979, pp.319-344). Tampouco a quest√£o colonial passou despercebida a Weil enquanto escrevia textos cr√≠ticos em rela√ß√£o √† Fran√ßa e √†s demais na√ß√Ķes colonialistas seja nos textos de 1930-31 (em que analisava a situa√ß√£o na Indochina) ou de 1937 (em que refletia sobre os problemas que acometiam o Marrocos) (idem, pp. 121-155).¬†

De 1932 a 1938 Weil ser√° uma adepta convicta do pacifismo, provavelmente devido ao excesso de viol√™ncia que vivenciava ao seu redor, seja na experi√™ncia de f√°brica, na guerra espanhola ou nas col√īnias ocupadas pelos franceses. Em fun√ß√£o disso, ela chega at√© mesmo a defender uma pol√≠tica de n√£o interven√ß√£o quando da anexa√ß√£o de parte do territ√≥rio da Tchecoslov√°quia pela Alemanha, pensando naquele momento que ante a possibilidade iminente de uma guerra europeia, essa apropria√ß√£o territorial ileg√≠tima seria um mal menor a se assumir. Assim, √© somente com a entrada dos soldados nazistas em Praga em mar√ßo de 1939, que ela come√ßar√° a despertar desse sonho pacifista. Com habitual dureza, seja em rela√ß√£o aos demais, seja em rela√ß√£o a si pr√≥pria, ela se recriminar√° veementemente nos pr√≥ximos anos de sua breve exist√™ncia por sua ades√£o tempor√°ria ao pacifismo. Uma passagem de seu ‚Äúcaderno de Londres‚ÄĚ redigido ao final de sua vida fala do ‚Äúerro criminoso‚ÄĚ (Weil, 2006, p. 374) que ela julgava ter cometido ao ter aderido a essa posi√ß√£o pol√≠tica.¬†

Todas essas experi√™ncias que ela quis vivenciar e outras a que ela ainda se expor√° nos seus derradeiros anos de vida remetem ao profundo desejo weiliano de ‚Äúter um contato direto com a vida‚ÄĚ, como ela escreve em uma anota√ß√£o de seu ‚ÄúDi√°rio de f√°brica‚ÄĚ (Weil, 1991b, p.253). Entendendo este contato¬†direto como uma experi√™ncia que ultrapassaria a mera especula√ß√£o filos√≥fica, mas que constituiria a base de uma reflex√£o aut√™ntica nascida a partir de uma situa√ß√£o concreta, buscava assim reunir teoria (ci√™ncia) e pr√°tica (trabalho), ou pensamento e a√ß√£o, de modo singular na filosofia do s√©culo XX. Raramente se encontra numa √ļnica pessoa, como √© o caso de Weil, um discernimento pol√≠tico extremamente apurado e uma singular capacidade de pensar os problemas mais essenciais de modo profundo e original nas mais diversas √°reas da filosofia. A biografia e a obra de Weil est√£o essencial e intimamente conectadas.

Tudo na vida de Simone Weil é intenso e parece ocorrer simultaneamente. O mesmo se dará com o seu aprofundamento espiritual que acontecerá primeiro em Viana do Castelo (Portugal), para onde viaja com os pais logo após sua estafante estadia na fábrica. Novas experiências espirituais continuarão a se manifestar nos anos seguintes à  a sua participação na Guerra Espanhola, tanto na capela de Assis em 1937, quanto finalmente no mosteiro beneditino de Solesmes em 1938, e permanecerão ocultas de quase todos até a sua morte, quando certos textos e cartas de sua autoria foram finalmente publicados. 

N√£o devemos, de modo algum, dividir a vida de Weil como se ela tivesse ocorrido em etapas sucessivas completamente distintas. A sua exist√™ncia foi marcada especialmente pela necessidade de mediar posi√ß√Ķes te√≥ricas aparentemente distantes e at√© mesmo supostamente incompat√≠veis, de modo que as reflex√Ķes sobre espiritualidade crist√£ e grega t√™m de ser analisadas no contexto mesmo de suas reflex√Ķes sociais e pol√≠ticas.¬†

Nos √ļltimos seis ou sete anos de sua vida se processar√° uma integra√ß√£o – dif√≠cil de ser concebida sem preconceitos pelas partes envolvidas (isto √©: o preconceito dos estudiosos de Plat√£o e de Marx) – entre Marx e Plat√£o, tendo como horizonte espiritual a figura, para ela central, do Cristo. A isso se associa igualmente uma abertura inconteste em rela√ß√£o a outras espiritualidades, em um claro di√°logo inter-religioso, especialmente para aquelas vertentes espirituais oriundas da √ćndia, antecipando o di√°logo entre as religi√Ķes defendido pelo Conc√≠lio Vaticano II. Por essa raz√£o, Weil come√ßou a aprender o s√Ęnscrito e foi uma leitora atenta de algumas obras fundadoras da tradi√ß√£o filos√≥fico-religiosa da √ćndia, tal como o Bhagavad G√ģta, al√©m de estudar com muito interesse o Livro Eg√≠pcio dos¬†Mortos e o¬†Tao te King. Para n√£o mencionar suas pesquisas acerca dos contos e dos relatos do folclore das mais diversas culturas, incluindo os m√≠sticos crist√£os, particularmente S√£o Jo√£o da Cruz.¬†

Superada a posi√ß√£o pacifista, Weil engajou-se ativamente no movimento de resist√™ncia. Na Fran√ßa, mais precisamente em Marselha aonde chegou com os pais em setembro de 1940, at√© o embarque dos Weil para Nova Iorque em maio de 1942, Simone Weil contribuiu para a resist√™ncia distribuindo uma das mais importantes revistas clandestinas da zona livre, os Cahiers du T√©moignage Chr√©tien. Paralelamente, conheceu duas pessoas fundamentais para a sua vida: o padre dominicano Joseph-Marie Perrin e, por meio dele, Gustave Thibon, agricultor e escritor. Com o primeiro, entreteve importantes conversa√ß√Ķes sobre o cristianismo e a tradi√ß√£o grega, e gra√ßas ao segundo conseguiu vivenciar a experi√™ncia que julgava lhe faltar, a de campesina, ainda que por poucos meses. Ambos foram os amigos com os quais Weil deixou seus in√ļmeros escritos antes de partir para Nova Iorque. V√°rios textos como ‚ÄúIntui√ß√Ķes Pr√©-crist√£s‚ÄĚ, ‚ÄúA fonte grega‚ÄĚ e ‚ÄúA espera de Deus‚ÄĚ, bem como seus c√©lebres ‚ÄúCadernos‚ÄĚ foram entregues a eles. Weil sabia que seus pais somente teriam aceitado partir para os Estados Unidos se ela os acompanhasse e por isso consentiu em fazer a travessia do Atl√Ęntico, mas na esperan√ßa de poder viajar rapidamente para Londres, onde ela compreendia que se encontrava o polo mais importante da resist√™ncia aliada contra Hitler e ao qual queria se unir.

A estadia em Nova Iorque lhe foi muito tempestuosa interiormente. Devido aos grandes obstáculos que ali encontrou para viajar para Londres, ela se sentia como uma desertora. Todavia, apesar disso, ela não deixava de continuar aproveitando seu tempo visando conhecer outras realidades, como fica claro, de um lado, por suas pesquisas teóricas nas bibliotecas de Nova Iorque e, de outro, por suas visitas ao Harlem e às suas igrejas.

Por fim, ap√≥s muitos percal√ßos e muita pertin√°cia da parte dela, Weil consegue juntar-se √† resist√™ncia francesa em Londres:¬† no final de novembro de 1942 ela consegue chegar a Liverpool. Restar√£o para ela apenas mais nove meses de vida. Meses de intensa produ√ß√£o te√≥rica e de engajamento pr√°tico na resist√™ncia. Ela sente-se fracassada por n√£o conseguir a autoriza√ß√£o do General De Gaulle, chefe da resist√™ncia francesa em Londres, para poder realizar o projeto relacionado √†s enfermeiras de fronteira, por ela idealizado. O plano consistiria em lan√ßar de paraquedas, nos campos de batalha, um grupo de jovens mulheres com algum conhecimento em enfermagem (a pr√≥pria Weil capacitou-se rapidamente para poder ser enviada) a fim de socorrer os aliados, mas tamb√©m seus inimigos, o que deveria ocorrer no pr√≥prio campo de batalha. O objetivo, como o texto ‚ÄúProjeto de uma forma√ß√£o de enfermeiras de primeira linha‚ÄĚ (Weil, 2008, pp.401-411) deixa claro, n√£o √© o de ingenuamente supor que esse grupo poderia salvar muitas vidas, mas sim o de opor ao comando SS (a ‚Äútropa de prote√ß√£o‚ÄĚ (Schutzstaffel), organiza√ß√£o paramilitar ligada ao partido nazista) um grupo pequeno de jovens mulheres que serviriam como s√≠mbolo contr√°rio √†quele representado pela abomin√°vel tropa de elite hitlerista. Isso porque ela logo compreendeu a import√Ęncia da propaganda no nazismo e queria contrapor-se a essa veicula√ß√£o do √≥dio e da indiferen√ßa por meio de uma propaganda que enaltecesse um amor desinteressado. Obviamente De Gaulle recusou-se a adotar tal plano, o que causou uma imensa tristeza em Simone.

Escrevendo o relat√≥rio sobre como seria a vida da Fran√ßa livre, texto que viria a constituir o que se passou a intitular o seu √ļltimo livro, o Enraizamento, bem como outros textos sobre quest√Ķes espirituais e pol√≠ticas, ela que j√° se alimentava parcamente e fumava desenfreadamente, deixando de comer, pois se recusava a ingerir mais do que um franc√™s na Fran√ßa dominada pela Alemanha nazista poderia fazer. √Č interessante notar que essa atitude remete √† decis√£o tomada durante a Primeira Guerra Mundial, com apenas seis anos de idade, de recusar-se a comer a√ß√ļcar porque os soldados que lutavam nas trincheiras estavam privados de consumir a√ß√ļcar. Por fim, j√° enfraquecida, ela acaba adoecendo em Londres, sendo transferida em seguida para um hospital na cidade de Ashford e vindo a falecer em agosto do ano de 1943, aos 34 anos de idade. L√° se encontra a sua sepultura.¬†

Em sua breve vida, t√£o plena de experi√™ncias n√£o acad√™micas, Simone Weil escreveu abundante e quase compulsivamente o conjunto de seus textos filos√≥ficos – pouqu√≠ssimos dos quais foram publicados em vida – que comp√Ķem os 16¬†volumes de suas Obras Completas, ainda em curso de publica√ß√£o pela editora francesa Gallimard. Uma vis√£o geral do plano da edi√ß√£o das Obras Completas, que apresentamos, abaixo, nos d√° uma ideia bastante razo√°vel da amplitude tem√°tica e da quantidade de textos que ela escreveu, extraordin√°ria para algu√©m que viveu t√£o pouco e teve uma vida t√£o intensa e profundamente comprometida com quest√Ķes sociais e pol√≠ticas.¬†

Plano da edição das Obras Completas

A edi√ß√£o realizada pelas √Čditions Gallimard (Paris) est√° organizada em sete tomos subdivididos, por sua vez, em 16 volumes dos quais j√° temos publicados 13 volumes, faltando ser publicados o volume √ļnico do Tomo III – contendo a produ√ß√£o po√©tica e dramat√ļrgica de Simone Weil ‚Äď e os dois volumes do Tomo VII relativos √† correspond√™ncia mantida por Simone Weil com interlocutores em geral, excetuando aquela que manteve com a sua fam√≠lia, pois estas (volume 1 do Tomo VII) j√° foram publicadas.

Tome I: Primeiros escritos filosóficos.

Tome II: Escritos históricos e políticos. 

Volume 1: O engajamento sindical (1927-1934).

Volume 2: A condição operária (1934-1937).

Volume 3: Rumo à guerra (1937-1940).

Tome III: Poemas e Veneza salva.

Tome IV: Escritos de Marseille. 

Volume 1: Filosofia, ciência, religião.

Volume 2: Gr√©cia ‚Äď √ćndia ‚Äď Ocit√Ęnia.

Tome V: Escritos de New York e de Londres. 

Volume 1: Quest√Ķes pol√≠ticas e religiosas.

Volume 2: O Enraizamento. Prel√ļdio a uma declara√ß√£o aos deveres relativos ao ser humano.

Tome VI: Cadernos ‚Äď volumes 1-4.

Tome VII: Correspondência. 

Volume 1: Correspondência familiar.

Volume 2 et 3: Correspondência geral.

Obra: temas e conceitos

Tendo em vista a estreit√≠ssima conex√£o entre a breve vida e a extensa obra de Simone Weil acima assinalada, mostraremos a seguir que os temas e conceitos mais importantes de sua filosofia est√£o profundamente conectados com as diferentes etapas de sua biografia, ainda que, devido √† despropor√ß√£o entre uma vida t√£o curta e uma produ√ß√£o intelectual t√£o ampla, in√ļmeros temas e autores se sobrep√Ķem sendo tratados em diversos per√≠odos sucessivos.

Um primeiro n√ļcleo tem√°tico est√° ligado ao problema da percep√ß√£o e a um consequente di√°logo e reinterpreta√ß√£o de Descartes e Espinosa, feito sempre no interior do horizonte de apropria√ß√£o que ela empreende dos pensadores gregos (em especial, de Plat√£o), bem como da leitura atenta que come√ßa a fazer de Marx e do problema oper√°rio tendo como conceito fundamental a no√ß√£o de trabalho. A atividade estruturante dessa √©poca e que estimula a sua reflex√£o √© a sua experi√™ncia como oper√°ria.

O segundo n√ļcleo conceitual d√°-se em torno ao problema da opress√£o e da liberdade, no qual al√©m de Marx, comparecem Rousseau, Tuc√≠dides, Homero e Maquiavel, enfatizando a formula√ß√£o do conceito de for√ßa. Sem d√ļvida a atividade que marca mais profundamente a vida de Weil nesta √©poca √© a sua participa√ß√£o na guerra civil espanhola.

Um terceiro n√ļcleo de quest√Ķes tem como conceitos-chave as no√ß√Ķes de leitura e de decrea√ß√£o, que re√ļnem uma dimens√£o antropol√≥gica e outra teol√≥gica. S√£o textos nos quais Weil se esfor√ßa para estabelecer a media√ß√£o entre temas e problemas aparentemente dissonantes ao pens√°-los em planos distintos, mas relacionados entre si. Aqui a leitura que ela faz do Novo Testamento em direta conex√£o com a tradi√ß√£o grega se manifesta de modo decisivo. A experi√™ncia estruturante deste n√ļcleo √© a inesperada experi√™ncia m√≠stica que ela teve que a levou a ter de repensar o cristianismo e a sua rela√ß√£o com as demais tradi√ß√Ķes religiosas e espirituais.

O √ļltimo n√ļcleo se manifesta nos anos finais de Weil quando ela deseja ardentemente contribuir com os aliados na luta contra a Alemanha nazista. Ela declara estar dilacerada entre as quest√Ķes relativas √† mis√©ria humana e ao amor de Deus. Nenhum desses polos pode ser pensado sem o outro, mas como pens√°-los simultaneamente tampouco √© evidente. A no√ß√£o capital aqui √© a de enraizamento. A tentativa frustrada de participar na ofensiva dos aliados sediados em Londres contra a Alemanha constitui a atividade mais marcante dos √ļltimos anos de sua vida.

√Č preciso advertir que n√£o se pode acreditar ingenuamente que os temas e problemas mencionados nessas fases estejam plenamente superados em suas fases posteriores e que possam ser tratados como se fossem totalmente desvencilhados uns dos outros. Ao contr√°rio, todos est√£o intimamente conectados e isso torna a leitura da obra weiliana bastante dif√≠cil. Ocorre com ela o que ocorre quer com Plat√£o, quer com Kierkegaard: n√£o podemos considerar as suas obras como tendo sido escritas em meras etapas sucessivas, seu pensamento √© mais complexo.¬†

Na obra de Simone Weil ocorre que cada conceito requer para a sua plena compreensibilidade outros ainda não plenamente formulados. Todavia, esses conceitos já estão de certo modo intuídos pela autora, comparecendo assim apenas implicitamente. Por conseguinte, necessitamos de um conhecimento vasto e aprofundado da totalidade da produção weiliana para podermos pensar adequadamente a complexa articulação entre os conceitos fundamentais presentes em sua filosofia. 

Seria um grande equívoco julgar que ela é uma pensadora de fragmentos filosóficos ou de meros textos isolados de grande impacto devido a sua perfeição estilística. Há, ao contrário, uma sólida doutrina filosófica em Simone Weil que não pode, contudo, ser reduzida a um sistema, mas que possui uma lógica inerente que perpassa e aproxima textos aparentemente desconexos e circunstanciais para apresentar um painel complexo e sutil acerca do mundo, do ser humano, da sociedade, da guerra, da justiça e de Deus.

Bibliografia citada

WEIL, S. (1979). A condição operária e outros escritos sobre a opressão. Tradução de Therezinha Langlada. Org. Ecléa Bosi. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.

WEIL, S. (1988). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 1: L’ engagement syndical (1927- juillet1934).

WEIL, S. (1991b). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 2: L‚Äôexp√©rience ouvri√®re et l‚Äôadieu √† la r√©volution (juillet 1934 – juin 1937).

WEIL, S. (1989). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 3: Vers la guerre (1937-1940).

WEIL, S. (2006). A fonte grega. Tradu√ß√£o de Filipe Jarro. Lisboa: Edi√ß√Ķes Cotovia.

WEIL, S. (2008). Tome IV¬†: √Čcrits de Marseille. Volume 1: (1940 ‚Äď 1942) Philosophie, science, religion, questions politiques et sociales.

 

Fontes, literatura secund√°ria e outros materiais

  • Obras de Simone Weil em portugu√™s

WEIL, S. (1979). A condição operária e outros escritos sobre a opressão. Tradução de Therezinha Langlada. Org. Ecléa Bosi. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.

WEIL, S. (1986). A gravidade e a graça. Tradução feita pela equipe da ECE. São Paulo, SP: ECE. 

WEIL, S. (1993). A gravidade e a graça. Tradução de Paulo Neves. São Paulo, SP: Martins Fontes.

WEIL, S. (1991a). Aulas de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus.

WEIL, S. (2016). Carta a um religioso. Tradução de Monica Stahel. Petrópolis, RJ: Vozes.

WEIL, S. (2019). Contra o colonialismo. Tradução de Carolina Selvatici. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo.

WEIL, S. (1987). Espera de Deus. Tradução feita pela equipe da ECE. São Paulo: ECE, 1987. 

WEIL, S (2005). Espera de Deus. Tradução de Manuel Maria Barreiros. Lisboa: Assírio & Alvim.

WEIL, S. (1990). Li√ß√Ķes de Filosofia. Tradu√ß√£o de Paulo Neves. S√£o Paulo, SP: Martins Fontes.

WEIL, S. (2017). Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos. Tradução de Manuel de Freitas. Lisboa: Antígona.

WEIL, S. (2001). O Enraizamento. Tradução de Maria Leonor Loureiro. São Paulo, SP: EDUSC.

WEIL, S. (1964). Opressão e Liberdade. Tradução de Maria de Fátima Sedas Nunes. Lisboa: Livraria Morais Editora

WEIL, S. (2001). Opressão e Liberdade. Tradução de Ilka Stern Cohen. São Paulo, SP: EDUSC.

WEIL, S. (2006). A fonte grega. Tradu√ß√£o de Filipe Jarro. Lisboa: Edi√ß√Ķes Cotovia.

WEIL, S. (2016). Pela supress√£o dos partidos pol√≠ticos. Tradu√ß√£o de Lucas Neves. Belo Horizonte, MG: √āyin√©.

WEIL, S. (1991a). Pensamentos desordenados acerca do amor de Deus. Tradução feita pela equipe da ECE. São Paulo, SP: ECE.

WEIL, S. (2017). Reflex√Ķes sobre as causas da liberdade e da opress√£o social. Tradu√ß√£o de Maria de F√°tima Sedas Nunes. Lisboa: Ant√≠gona.

  • Obras de Simone Weil em franc√™s

Obras publicadas pela editora Gallimard, Paris

WEIL, S. (1950). La connaissance surnaturelle. 

WEIL, S. (1951). Lettre à un religieux. 

WEIL, S. (1951). La condition ouvrière. 

WEIL, S. (1953). La source grecque.

WEIL, S. (1955). Oppression et liberté.

WEIL, S. (1957). √Čcrits de Londres et derni√®res lettres.

WEIL, S. (1960). √Čcrits historiques et politiques.

WEIL, S. (1962). Pensées sans ordre concernant l′amour de Dieu.

WEIL, S. (1968). Poèmes, suivis de Venise sauvée. 

WEIL, S. (1966). Sur la Science.

Obras publicadas na editora Plon, Paris

WEIL, S. (1949). La pesanteur et la gr√Ęce. Ed. por Gustave Thibon.

WEIL, S. (1951). Cahiers, Tome I

WEIL, S. (1953). Cahiers. Tome II

 WEIL, S. (1956). Cahiers. Tome III.

WEIL, S. (1959). Leçons de Philosophie.

Obras publicadas pela editora La Colombe, Paris

WEIL, S. (1951). Intuitions pré-chrétiennes.

WEIL, S. (1949). Attente de Dieu.

Reedi√ß√Ķes pela editora Gallimard, Paris, no √Ęmbito das Obras Completas¬†

WEIL, S. Oeuvres Complètes. Edição sob a direção de A. Devaux e F. de Lussy:

WEIL, S. (1988) Tome I: Premiers écrits philosophiques.

WEIL, S. (1988). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 1: L’ engagement syndical (1927- juillet 1934).

WEIL, S. (1991b). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 2: L‚Äôexp√©rience ouvri√®re et l‚Äôadieu √† la r√©volution (juillet 1934 – juin 1937).

WEIL, S. (1989). Tome II: √Čcrits historiques et politiques. Volume 3: Vers la guerre (1937-1940).

WEIL, S. (2008). Tome IV¬†: √Čcrits de Marseille. Volume 1: (1940 ‚Äď 1942) Philosophie, science, religion, questions politiques et sociales.

WEIL, S. (2009). Tome IV¬†: √Čcrits de Marseille. Volume 2:¬† Gr√®ce – Inde¬† – Occitanie.

WEIL, S. (2019).Tome V: √Čcrits de New York et de Londres (1942-1943). Volume 1: Questions politiques et religieuses.

WEIL, S. (2013).Tome V: √Čcrits de New York et de Londres. Volume 2: L’ Enracinement. Pr√©lude √† une d√©claration des devoirs envers l‚Äô√™tre humain.

WEIL, S. (1994). Tome VI¬†: Cahiers. Volume 1¬†(1933 ‚Äď septembre 1941).

WEIL, S. (1997). Tome VI¬†:¬†Cahiers. Volume 2 (septembre 1941 ‚Äď f√©vrier 1942).¬†

WEIL, S. (2002).Tome VI¬†: Cahiers. Volume 3 (f√©vrier 1942 ‚Äď juin 1942) La porte du transcendant.

WEIL, S. (2006). Tome VI¬†: Cahiers. Volume 4¬†: (juillet 1942 ‚Äď juillet 1943) La connaissance surnaturelle (Cahiers de New York et de Londres)

WEIL, S. (2012).Tome VII : Correspondance. Volume 1: Correspondance familiale.

WEIL, S. (1999). Simone Weil. Oeuvres. Ed. de F. de Lussy. Paris: Quarto Gallimard.

  • Literatura secund√°ria

ALLEN, D. / SPRINGSTED, E.O. (1994). Spirit, Nature, and Community. Issues in the Thought of Simone Weil. New York: State University of New York Press. 

BINGEMER, M. C. L. / PUENTE, F. R. (eds.). (2011). Simone Weil e a filosofia. Rio de Janeiro / S√£o Paulo: Editora PUC Rio / Edi√ß√Ķes Loyola.

BINGEMER, M. C. L. (ed.). (2009) Simone Weil e o encontro entre as culturas. Rio de Janeiro / S√£o Paulo: Editora PUC-Rio / Paulinas.

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https://www.cairn.info/resultats_recherche.php?send_search_field=Chercher&searchTerm=Simone+Weil&searchIn=all

http://www.americanweilsociety.org/

https://plato.stanford.edu/entries/simone-weil/ 

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