Anne Conway

(1631 – 1679)
Por Nastassja Pugliese

Professora adjunta da Faculdade de Educação e membro do PPGLM do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) РLattes

PDF – Anne Conway

‚ÄúJovem com uma carta‚ÄĚ, Samuel van Hoogstrate,¬†Royal Cabinet of Paintings, Mauritshuis, The Hague. √Č poss√≠vel que a jovem retratada seja Anne Conway. Essa imagem aparece na capa da biografia de Conway escrita por Sarah Hutton (2004)

Anne¬†Conway¬†(1631- 1679), nascida em Londres como Anne¬†Finch, foi educada em casa onde recebia tutores que a ensinavam letras cl√°ssicas. Ela¬†‚Äúpassava a maior parte do seu tempo estudando Latim e Grego, e lendo vorazmente a literatura cl√°ssica e filos√≥fica‚Ä̬†(White 2008 p.5). Anne era irm√£¬†mais nova de John¬†Finch. Os dois eram muito pr√≥ximos e dividiam interesses pela filosofia. Quando John¬†Finch¬†foi aceito para o¬†Christ‚Äôs¬†College¬†em¬†Cambridge, continuou o contato com a irm√£¬†atrav√©s de cartas. Anne recebia os principais tratados estudados pelo irm√£o em Cambridge e tinha acesso¬†√†s discuss√Ķes intelectuais e a manuscritos de obras importantes do seu tempo (como o¬†Principia¬†de Descartes) atrav√©s desta correspond√™ncia. Em apoio a Anne e visando desenvolver suas habilidades intelectuais, John¬†Finch¬†pede a Henry More, tamb√©m um¬†fellow¬†do¬†Christ‚Äôs¬†College, para ser tutor de sua irm√£. More aceita e realiza a instru√ß√£o de¬†Conway¬†atrav√©s de cartas¬†e visitas. A troca de correspond√™ncias leva os dois a tornarem-se amigos. Esta amizade que durou at√©¬†o fim de sua vida permitiu¬†Conway¬†a ter educa√ß√£o filos√≥fica de excel√™ncia e a conhecer v√°rios outros intelectuais da¬†√©poca.¬†Como sua casa era frequentada¬†pelos amigos de seu irm√£o,¬†Conway¬†teve contato com muitos outros pensadores e membros da Escola de Cambridge.¬†Atrav√©s de More,¬†Conway¬†foi apresentada a¬†Franciscus¬†Mercurius¬†van¬†Helmont¬†(1614-1698), fil√≥sofo holand√™s estudioso da cabala, do ocultismo renascentista e da tradi√ß√£o herm√©tica, que em um esfor√ßo conjunto com Henry More (que traduziu a obra do ingl√™s para o Latim), organizou a publica√ß√£o p√≥stuma do¬†Principia.¬†Tamb√©m foi por¬†influ√™ncia¬†de van¬†Helmont¬†que¬†Conway¬†se converte ao¬†Quakerismo¬†no fim de¬†sua vida. Os¬†Quakers¬†s√£o um grupo religioso formado por¬†crist√£os protestantes que¬†possu√≠am¬†posi√ß√Ķes¬†pol√≠ticas radicais para a¬†√©poca¬†e acreditavam que Cristo¬†√©¬†uma entidade que existe em cada pessoa. ¬†

Conway, apesar de n√£o ter cursado a universidade de Cambridge, compartilha com os outros membros do grupo dos¬†Platonistas¬†de Cambridge o apre√ßo pelos problemas da metaf√≠sica e um interesse na cr√≠tica¬†√†¬†religi√£o. Sua obra¬†√©¬†um exemplo do resgate do neoplatonismo nas discuss√Ķes metaf√≠sicas do XVII, oferecendo importantes cr√≠ticas ao cientificismo mecanicista de Descartes, ao materialismo¬†Hobbesiano¬†e ao monismo¬†Espinosista. Entretanto, como diz White (2008):¬†‚ÄúConway¬†√©¬†mais conhecida por suas eternas dores de cabe√ßas que exauriram os recursos da medicina do s√©culo XVII do que por suas contribui√ß√Ķes para a filosofia natural‚Ä̬†(p.4). Essas dores de cabe√ßa tornaram-se famosas, pois ela tentou todos os tipos de tratamento dispon√≠veis, inclusive os descritos por Boyle. Entre os tratamentos, ela realizou ingest√£o de caf√©, tabaco,¬†√≥pio, merc√ļrio e uma cirurgia no cr√Ęnio para aliviar a press√£o.¬†Os m√©dicos¬†n√£o tiveram coragem de abrir o¬†cr√Ęnio¬†de¬†Conway¬†e cortaram sua jugular. More a acompanhou durante a cirurgia, que ocorreu na Fran√ßa, e seu marido, ao tentar se juntar a¬†eles,¬†√©¬†capturado e preso na Fran√ßa. Depois de pagar fian√ßa, ele consegue se juntar aos dois e ent√£o os¬†tr√™s voltam para a Inglaterra.¬†Suas dores de cabe√ßa era¬†frequentes e exigiam que ela ficasse em um quarto escuro pela maior parte do tempo. Como¬†Conway¬†ficou muito doente¬†do meio ao¬†fim de sua vida, ela¬†n√£o sa√≠a da cama e seu tratado foi escrito em meio a febres e fortes dores no corpo.¬†Alguns temas do tratado de¬†Conway¬†tem liga√ß√£o com o extremo sofrimento pelo qual passou, como por exemplo, a no√ß√£o de purifica√ß√£o pelo sofrimento e pelo pecado, al√©m da defesa da uni√£o do corpo e do esp√≠rito.¬†√Ȭ†esperado que, com os trabalhos de resgate da obra de¬†Conway¬†e sua inser√ß√£o no c√Ęnone filos√≥fico,¬†a¬† justi√ßa¬†seja feita para que¬†Conway¬†torne-se, agora, mais¬†conhecida por sua filosofia natural do que por suas dores de cabe√ßa.¬†¬†

 

Obra: temas e conceitos 

A pouca literatura que h√°¬†sobre a obra de¬†Conway¬†pode ser compreendida hoje a partir de quatro eixos tem√°ticos: no√ß√Ķes gerais sobre a obra e o legado de¬†Conway¬†(White 2008,¬†Hutton¬†2004), cr√≠ticas de¬†Conway¬†√†¬†Descartes (McRobert¬†2000,¬†Couder¬†&¬†Corse¬†1996), influ√™ncia de¬†Conway¬†na obra de Leibniz (Merchant 1979,¬†Mercer¬†2012), criticas de¬†Conway¬†a Espinosa (Pugliese¬†2019) e an√°lises das teses do¬†Principia¬†(Lascano¬†2013, Duran 1989).¬†¬†

A metaf√≠sica de¬†Conway¬†√©¬†um exemplo das filosofias de transi√ß√£o que s√£o presentes no come√ßo da modernidade. O¬†Principia¬†deve ser compreendido dentro deste contexto de transi√ß√£o, obra de um tempo em que a filosofia se d√°¬†tanto em meio¬†√†s cren√ßas religiosas quanto em meio aos exerc√≠cios intelectuais de motiva√ß√£o estritamente cient√≠fica ou filos√≥fica.¬†Conway, segundo¬†McRobert¬†(2000):¬†‚Äúapresenta sua filosofia¬†como um am√°lgama dos antigos e dos modernos. Entretanto, caracterizar o que ela¬†tira de inspira√ß√£o dos antigos n√£o¬†√©¬†uma tarefa f√°cil. Ela¬†√©¬†um¬†Platonista¬†mas no sentido mais amplo do Platonismo Renascentista que toma de empr√©stimo com o mesmo grau de entusiasmo tanto dos di√°logos de Plat√£o, as interpreta√ß√Ķes Neoplat√īnicas, quanto do¬†misticismo cabal√≠stico e de v√°rios escritos herm√©ticos‚Ä̬†(p.23) Seu sistema metaf√≠sico, apesar dos elementos religiosos que s√£o pr√≥prios de¬† tantos outros sistemas metaf√≠sicos do s√©culo XVII,¬†√©¬†uma proposta original.¬†¬†

H√°¬†tamb√©m quem defenda que¬†Leibniz tomou o conceito de¬†m√īnada¬†de empr√©stimo de Giordano Bruno, mas¬†√©¬†bem mais prov√°vel que a influ√™ncia tenha vindo de¬†Conway, atrav√©s de van¬†Helmont¬†(Courdet¬†1995). Uma evid√™ncia clara¬†√©¬†uma carta de Leibniz a Burnet onde explica as diferen√ßas entre sua filosofia e a de Locke. Nela, Leibniz confessa:¬†‚Äúminha filosofia se aproxima muito mais daquela da finada Lady¬†Conway‚Ä̬†(Nicolson¬†1992 p.456).¬†Para¬†Leibniz, as m√īnadas s√£o entes vivos e¬†perceptivos¬†que agem em vista de uma causa final (Popkin¬†p.117) E como¬†Leibniz,¬†Conway¬†utiliza o conceito de m√īnada para indicar um conjunto de atividades de um ser individual que¬†est√°¬†em constantemente em processo de¬†mudan√ßa.¬†Ainda que Leibniz, procure conjugar o vitalismo com as explica√ß√Ķes mecanicistas (Popkin¬†p.117), atrav√©s do conceito de subst√Ęncia individual,¬†Conway¬†defende o monismo substancial.¬†O conceito de¬†subst√Ęncia¬†de¬†Conway, entretanto, n√£o reflete o de¬†Leibniz.¬†

A metaf√≠sica de¬†Conway, expressa¬†nos¬†Principia,¬†√©¬†uma alternativa ao racionalismo nascente no s√©culo XVII. Segundo¬†Popkin¬†(1991),¬†Conway¬†e os¬†Platonistas¬†de Cambridge fazem parte da¬†‚Äúterceira for√ßa no pensamento do s√©culo XVII‚ÄĚ, sendo as duas primeiras, o racionalismo e o empirismo. O¬†Principia¬†√©¬†um tratado dividido em 8 cap√≠tulos que¬†seguem a ordem de dedu√ß√£o¬†metaf√≠sica tradicional. Ele inicia com um cap√≠tulo sobre Deus e seus atributos que d√°¬†os fundamentos para os cap√≠tulos seguintes: um cap√≠tulo sobre as criaturas, outro sobre a rela√ß√£o entre Deus e as criaturas e um outro sobre a necessidade de se conceber um ente intermedi√°rio entre Deus e as criaturas (Cristo). Da√≠¬†o tratado segue para a defini√ß√£o dos movimentos no interior da subst√Ęncia a partir da media√ß√£o do ente intermedi√°rio, at√©¬†chegar¬†a¬†individua√ß√£o dos seres. O¬†√ļltimo e um¬†dos mais importantes cap√≠tulos¬†√©¬†um posicionamento frente as quest√Ķes do s√©culo XVII e, mais especificamente,¬†√©¬†onde se encontram suas cr√≠ticas a Descartes, Hobbes e Espinosa. Assim, a ordem de dedu√ß√£o come√ßa desde o ente mais perfeito e imut√°vel para a deriva√ß√£o dos seres imperfeitos que s√£o constitu√≠dos pela mudan√ßa e pelo movimento.¬†

Um dos principais temas do tratado de¬†Conway¬†√©¬†a no√ß√£o de transforma√ß√£o, que¬†√©¬†uma opera√ß√£o fundante da individua√ß√£o e um atributo principal das criaturas.¬†Conway¬†considera que o movimento¬†√©¬†da natureza das criaturas e argumenta que, em um processo de transforma√ß√£o para uma maior ou menor perfei√ß√£o, as criaturas s√£o constitu√≠das pelo movimento que sucede de suas opera√ß√Ķes (Conway¬†1996 p14). Estas transforma√ß√Ķes que ocorrem nas criaturas n√£o s√£o, no entanto, fruto de um mecanismo causal determinado. Ao contr√°rio, estas transforma√ß√Ķes, constituintes do processo de individua√ß√£o, s√£o fruto da transforma√ß√£o da mat√©ria em esp√≠rito e vice-versa. Ou seja, a mudan√ßa¬†√©¬†caracter√≠stica intr√≠nseca da mat√©ria, fazendo parte de sua natureza.¬†Conway¬†defende o princ√≠pio vitalista de que a mat√©ria¬†√©¬†vivente, n√£o sendo, portanto, inerte. H√°¬†v√°rios argumentos em¬†Conway¬†que interessam para a¬†compreens√£o da filosofia no come√ßo da modernidade. A caracteriza√ß√£o da mat√©ria e sua rela√ß√£o com o pensamento¬†√©¬†um dos temas mais ricos para contextualiza√ß√£o filos√≥fica de sua obra. Entretanto, nos deteremos aqui nos fundamentos iniciais do¬†Principia¬†para¬†que, como uma primeira introdu√ß√£o, seja poss√≠vel estabelecer as bases de sua metaf√≠sica. Vejamos, portanto, as defini√ß√Ķes iniciais de¬†Conway: sua metaf√≠sica da subst√Ęncia e a divis√£o tripartite do ser como fundamento para o seu conceito de indiv√≠duo.¬†¬†

A metaf√≠sica de Anne¬†Conway, expressa em seu¬†Principia¬†Philosophiae,¬†√©¬†estruturada¬†segundo um realismo moral de inspira√ß√£o neoplat√īnica (Hutton¬†2004). Ou seja, a totalidade do que existe¬†√©¬†dividida em tr√™s grupos distintos de seres: as esp√©cies inferiores, as esp√©cies mediadoras e as esp√©cies superiores. Tal divis√£o tripartite do ser no interior da natureza se segue da defini√ß√£o de subst√Ęncia que¬†√©, por sua vez,¬†√ļnica e, ao mesmo tempo, mut√°vel segundo a hierarquia de perfei√ß√£o¬†de seus seres. No que¬†diz respeito a sua concep√ß√£o de subst√Ęncia,¬†Conway¬†concebe um monismo¬†anti-cartesiano¬†e com uma aceita√ß√£o ambivalente da teoria da subst√Ęncia de Espinosa.¬†Conway¬†procura mostrar, contra Espinosa, que apesar da natureza ser constitu√≠da de uma s√≥¬†subst√Ęncia, Deus n√£o participa dessa subst√Ęncia e nem a subst√Ęncia pode ser identificada com Deus. Ou seja,¬†Conway¬†argumenta que Deus e a subst√Ęncia n√£o s√£o id√™nticos, apesar de defender o monismo.¬†Conway¬†concebe um monismo no qual Deus age como causa transitiva¬†das criaturas e, portanto, n√£o pode ser completamente identificado com a subst√Ęncia e nem pode ser considerado como uma subst√Ęncia separada.¬†

A dificuldade que a tese de¬†Conway¬†enfrenta¬†√©¬†a seguinte: ao conceber Deus como causa transitiva as criaturas, Deus¬†as causa¬†sem ser causado por elas. Mas se esse¬†√©¬†o caso, ent√£o as criaturas s√£o exteriores a Deus e Deus deveria ser considerado uma subst√Ęncia separada. Para solucionar esse problema,¬†Conway¬†precisa conceber a subst√Ęncia de modo que ela n√£o seja completamente exterior a Deus. Portanto,¬†Conway¬†concebe a rela√ß√£o entre Deus e a subst√Ęncia de modo tal que eles compartilham propriedades. Deus tem certos atributos que, ao agir como causa, esses atributos passam para os efeitos.¬†Estes efeitos, no entanto, n√£o¬†se mant√©m¬†em Deus, mas por compartilhar propriedades, devem ser considerados, sob certo sentido, em unidade com a divindade. Com essa condi√ß√£o,¬†Conway¬†ent√£o defende que Deus e subst√Ęncia possuem uma certa¬†unidade¬†mas n√£o s√£o completamente id√™nticos. As caracter√≠sticas compartilhadas, segundo¬†Conway, s√£o o esp√≠rito e a bondade. O esp√≠rito¬†√©¬†o atributo atrav√©s do qual a rela√ß√£o entre Deus e a subst√Ęncia¬†√©¬†explicada. J√°¬†o atributo da bondade, tem a fun√ß√£o operativa de justificar a estrutura ontol√≥gica no¬†interior da natureza. Apesar de Deus ser um agente livre e sua exist√™ncia ser necess√°ria, a vontade do ente perfeito n√£o¬†√©¬†indiferente, mas guiada pela bondade (Conway¬†1996 p.16).¬†

Conway¬†oferece¬†tr√™s¬†conceitos¬†para explicar a¬†rela√ß√£o¬†entre Deus e a subst√Ęncia:¬†o da¬†vontade,¬†o da¬†luz e¬†o de¬†vida.¬†O conceito de luz, inspirado na Cabala, ajuda na constru√ß√£o do argumento da uni√£o parcial entre Deus e a subst√Ęncia. Este conceito, diferente dos outros dois por ser metaf√≥rico, n√£o permite uma explica√ß√£o exaustiva¬†e n√£o dissolve os paradoxos metaf√≠sicos com os quais¬†Conway¬†se depara, mas ilustra o argumento e nos permite elencar os problemas que ainda precisam ser tratados e estudados com mais detalhes. No primeiro cap√≠tulo do¬†Principia,¬†Conway¬†concebe Deus como¬†‚Äú¬†a¬†mais intensa e infinita luz‚Ä̬†(Conway¬†1996, p.10). Pela intensidade de sua luz e¬†atrav√©s de um ato de benevol√™ncia¬†‚Äúpara o benef√≠cio das criaturas (a fim de que houvesse espa√ßo para elas), ele diminuiu o grau m√°ximo de sua luz intensa‚ÄĚ. Atrav√©s deste ato, um lugar se abriu, onde foi poss√≠vel o surgimento de v√°rios mundos. A met√°fora procura ilustrar que Deus e a subst√Ęncia (e nela, a multiplicidade de criaturas) podem ser vistas como sendo um¬†√ļnico espectro de luz, onde Deus¬†√©¬†o grau mais intenso do espectro e as criaturas s√£o a parte mais fraca do espectro. Ou seja, as criaturas se misturam com as sombras (a aus√™ncia de luz) e Deus¬†√©¬†o espa√ßo mais luminoso do espectro; mas tanto¬†criaturas quanto criador¬†fazem parte do mesmo feixe de luz. Com esta met√°fora,¬†Conway¬†procura mostrar a continuidade entre Deus e subst√Ęncia de modo que sua metaf√≠sica n√£o leve ao dualismo. Para¬†Conway, portanto, h√°¬†uma¬†√ļnica subst√Ęncia com os atributos mat√©ria e esp√≠rito, mas criada por um deus transcendente. A mat√©ria, para¬†Conway¬†√©¬†a forma do esp√≠rito quando sua luz fica escassa. J√°¬†o esp√≠rito¬†√©¬†a parte com mais intensidade no espectro de luz. Assim, Deus e subst√Ęncia partilham o mesmo atributo: o esp√≠rito, ilustrado por ela com a met√°fora da luz.¬†Conway¬†ilustra a rela√ß√£o entre¬†Deus e subst√Ęncia com a met√°fora da luz e o esp√≠rito como atributo partilhado.¬†¬†

Al√©m disso, a¬†metaf√≠sica de¬†Conway¬†√©¬†fundada em valores que, como primitivos¬†metaf√≠sicos, determinam a hierarquia dos seres.¬†Ou seja, ao estabelecer que o mais alto grau de¬†perfei√ß√£o¬†√©¬†o fim para o qual tendem todas as criaturas, ela consegue,¬†a partir de uma¬†vis√£o¬†teleol√≥gica,¬†estruturar e definir tr√™s tipos de movimento: (1) a in√©rcia, representada pela aus√™ncia completa de movimento, (2) o movimento em dire√ß√£o¬†√†¬†perfei√ß√£o,¬†(3) o movimento que pode ir em dire√ß√£o¬†√†¬†perfei√ß√£o ou para longe dela. Estes tr√™s movimentos, que cumprem um papel mais geral de serem princ√≠pios de transforma√ß√£o da realidade, funcionam como crit√©rios de distin√ß√£o entre os tr√™s tipos de ser: o ser da¬†esp√©cie superior, o ser da esp√©cie mediadora e os seres inferiores. Com essa divis√£o,¬†Conway¬†justifica o movimento no interior da subst√Ęncia. Estas distin√ß√Ķes tamb√©m deixam claro que a metaf√≠sica de¬†Conway¬†carrega influ√™ncias neoplat√īnicas.¬†¬†

A teoria da individua√ß√£o de¬†Conway, por sua vez,¬†√©¬†t√£o radical quanto¬†contra-intuitiva. Dado que os indiv√≠duos da esp√©cie inferior s√£o partes da subst√Ęncia¬†√ļnica, e dado que os indiv√≠duos s√£o parte de um mesmo n√≠vel hier√°rquico, ent√£o os indiv√≠duos podem transformar-se¬†uns nos outros sem que isso implique em uma mudan√ßa na subst√Ęncia. Os seres da esp√©cie inferior podem transformar-se em outros de acordo com sua capacidade de desenvolver sua perfei√ß√£o.¬†Conway, como afirma¬†Duran (1989), concebeu uma teoria que permite a continuidade entre os seres humanos e outras criaturas n√£o-vivas:¬†‚Äún√£o h√°¬†linha demarcat√≥ria clara para¬†Conway¬†ente o humano e o n√£o-humano, o vivente e o n√£o-vivente. (‚Ķ) Ela defende que, por grada√ß√Ķes, um humano pode se transformar em uma mosca‚Ä̬†(Duran, 1989, p.69). Nesse contexto da individua√ß√£o, o processo de transforma√ß√£o e de mudan√ßa¬†√©¬†anterior as ess√™ncias e a institui√ß√£o de um ser individual. Ou seja, os indiv√≠duos s√£o caracterizados por transforma√ß√Ķes que variam de acordo com sua capacidade¬†de a√ß√£o. N√£o h√°¬†um crit√©rio de identidade individual que seja anterior ao estado das transforma√ß√Ķes atuais de um indiv√≠duo. Al√©m disso, essas transforma√ß√Ķes s√≥¬†s√£o poss√≠veis porque os indiv√≠duos fazem parte de uma s√≥¬†subst√Ęncia e porque s√£o constitu√≠dos de uma pluralidade de corpos.¬†Conway¬†concebe a tese de que as criaturas podem modificar-se e transformar-se umas nas outras. Esse argumento da transmuta√ß√£o¬†√©¬†uma alternativa – ainda que¬†contra-intuitiva¬†–¬†√†s dificuldades decorrentes dos crit√©rios de identidade na individua√ß√£o no contexto de uma metaf√≠sica monistas. O argumento da transmuta√ß√£o de¬†Conway¬†leva¬†√†s¬†√ļltimas consequ√™ncias a tese de que os indiv√≠duos s√£o modifica√ß√Ķes da subst√Ęncia¬†√ļnica.¬†

H√°¬†muito o que ser pesquisado sobre a filosofia de¬†Conway¬†e sua rela√ß√£o com os c√≠rculos intelectuais do s√©culo XVII.¬†Conway¬†√©¬†uma das primeiras mulheres a publicar filosofia em l√≠ngua inglesa e, certamente, uma das primeiras a escrever sobre Espinosa. O resgate de seu breve tratado de metaf√≠sica e tamb√©m do conjunto de sua correspond√™ncia traz uma compreens√£o mais rica e justa dos debates filos√≥ficos do s√©culo XVII. Esta narrativa sobre o come√ßo da modernidade em que Anne¬†Conway¬†aparece como protagonista nos permite tra√ßar os argumentos¬†anti-mecanicistas, a¬†defesa do vitalismo, e as teses monistas do come√ßo da modernidade e capturar de modo mais preciso as discuss√Ķes filos√≥ficas da¬†√©poca. Uma revis√£o da metaf√≠sica produzida no XVII que ignore a contribui√ß√£o de¬†Conway¬†√©¬†uma revis√£o certamente incompleta.¬†

[Texto adaptado pela autora de seu cap√≠tulo¬†‚ÄúO¬†Principia¬†de Anne¬†Conway: metaf√≠sica¬†neoplat√īnica no s√©culo¬†XVII‚Ä̬†presente em¬†Vozes Femininas na Filosofia¬†(org.) Schmidt, A.,¬†Secco, G. &¬†Zanuzzi, I. ED. UFRGS. Porto Alegre: 2018).]¬†

 

Bibliografia 

Obras de Conway 

Tradução para o Latim: 

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Tradu√ß√Ķes para o Ingl√™s:¬†¬†

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Excertos em Inglês 

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Tradução para o Português 

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Tradução para o Espanhol 

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POPKIN, Richard.¬†(1984)¬†‚ÄėSpinoza‚Äôs Relations with the Quakers in Amsterdam‚Äô.¬†Quaker History¬†Vol.73 (Spring), pp.14-28.¬†¬†

PUGLIESE, Nastassja.¬†(2018)¬†‚ÄúO¬†Principia¬†de Anne¬†Conway: metaf√≠sica¬†neoplat√īnica no s√©culo¬†XVII‚Ä̬†em¬†Vozes Femininas na Filosofia¬†(org.) Schmidt, A.,¬†Secco, G. &¬†Zanuzzi, I. ED. UFRGS.¬†Porto Alegre.¬†

PUGLIESE, Nastassja.¬†(2019)¬†‚ÄúMonism and Individuation in Anne Conway as a critique of Spinoza‚ÄĚ. In¬†British Journal for the History of Philosophy.¬†Special Issue: Women Philosophers in Early Modern Philosophy. guest Editors Ruth¬†Hagengruber¬†and Sarah Hutton. Volume 27, Number 4 (July) 771-785.¬†

THOMAS, Emily.¬†(2017)¬†‚ÄėTime, space, and process in Anne Conway‚Äô.¬†British Journal for the History of Philosophy: 1-21.¬†¬†¬†

VIENNE¬†Y.¬†(1997)¬†‚ÄúIntroduction‚ÄĚ.¬†In¬†The¬†Cambridge Platonists in Philosophical Context. Politics, Metaphysics and Religion.¬†Ed by G.A. Rogers, J. M. Vienne, Y.C.¬†Zarka, International Archives of the History of Philosophy.¬†

 

Outros materiais:  

V√≠deo da apresenta√ß√£o de Nastassja¬†Pugliese¬†no¬†Dutch¬†Seminar¬†–¬†Early¬†Modern¬†Philosophy¬†em 2018:¬†

https://www.youtube.com/watch?v=QZv36_2Xs80&list=PLGs_mpVpZS7uD-PidbghgSB_m5pkKEsuf&index=9&t=0s 

Project Vox sobre Conway:  

https://projectvox.org/conway-1631-1679/ 

Verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy escrito por Sarah Hutton: 

https://plato.stanford.edu/entries/conway/ 

Na Encyclopedia of Concise Concepts do Center for the History of Women Philosophers and Scientists há três verbetes sobre Conway: 

https://historyofwomenphilosophers.org/ecc/#hwps