Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe

Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe

(1919 – 2001)

 

por Beatriz Sorrentino Marques, 

professora da Universidade Federal de Mato Grosso РLattes 

Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe – PDF

Foto: Capa da Tradução Brasileira de Intention de G. E. M. Anscombe

 

Este verbete visa apresentar um breve recorte da vida e obra de Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe. Ela nasceu em 18 de março de 1919, Limerick, Irlanda, numa família anglicana e de classe média, e faleceu em 5 de janeiro de 2001, em Cambridge, Inglaterra. Anscombe frequentou a escola Sydenham School e depois estudou na Universidade de Oxford. No final da graduação, casou-se com o também filósofo Peter Geach, com quem teria sete filhos, mas sempre preferiu ser chamada pelo próprio sobrenome. Ela lecionou na sua alma mater até assumir a cadeira de Wittgenstein, seu professor e amigo, na Universidade de Cambridge, em 1970. 

A fil√≥sofa escreveu Modern Moral Philosophy [Filosofia Moral Moderna] (1958), que trouxe a √Čtica das Virtudes aristot√©lica de volta para as discuss√Ķes da √©tica contempor√Ęnea, The First Person ([1975]1981) e An Introduction to Wittgenstein‚Äôs Tractatus (1959). Al√©m disso, o seu livro Inten√ß√£o (1957b) criou a √°rea da filosofia da a√ß√£o como disciplina acad√™mica contempor√Ęnea. As quest√Ķes tratadas nele ditam a agenda dessa √°rea at√© hoje. Contudo, os interesses de Anscombe em filosofia eram amplos. Ela escreveu artigos muito citados e proferiu palestras sobre temas desde a causa√ß√£o, a percep√ß√£o e a primeira pessoa at√© quest√Ķes sobre religi√£o, dignidade humana, aborto e eutan√°sia. A maioria pode ser encontrada em cole√ß√Ķes de ensaio como From Parmenides to Wittgenstein, Human Life, Action, and Ethics: Essays by G. E. M. Anscombe e outras cole√ß√Ķes organizadas por Mary Geach e Luke Gormally.

 

Inf√Ęncia, fam√≠lia e contexto

 

Elizabeth Anscombe teve, de modo geral, uma inf√Ęncia comum, com dois irm√£os, eles g√™meos, e o pai professor de escola (Lipscomb, 2022, p. 51). A exce√ß√£o √† norma era personificada em sua m√£e, Gertrude Anscombe (n√©e Thomas), que era progressista para a √©poca em termos de educa√ß√£o formal para as mulheres. Ela havia frequentado a universidade, embora tenha sido em um per√≠odo em que as mulheres n√£o podiam receber um diploma de gradua√ß√£o. Al√©m disso, foi professora e diretora de uma escola antes de se casar (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 25-26).¬†

Quando crian√ßa, Gertrude Thomas (m√£e de Elizabeth Anscombe) teve uma educa√ß√£o pouco usual para uma menina. Cumhaill e Wiseman relatam que quando ela era pequena, a fam√≠lia desistiu de ter governantas por n√£o poder proteg√™-las das insistentes ‚Äúaten√ß√Ķes‚ÄĚ (2022, p. 25) do tio das crian√ßas. A fam√≠lia precisou optar por um arranjo pouco ortodoxo, em que o tutor homem ensinava tanto aos garotos como a Gertrude Thomas as mesmas mat√©rias, o que resultou no dom√≠nio pouco usual da menina de grego e de latim, algo raro na educa√ß√£o das mulheres (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 26).¬†

Essa era uma distin√ß√£o marcante a respeito da educa√ß√£o de meninos e meninas naquela √©poca. Os primeiros aprendiam as l√≠nguas mortas, exigidas para o acesso a cursos concorridos nas grandes universidades, como Cambridge e Oxford, enquanto que as √ļltimas aprendiam franc√™s e, quando tinham idade para ir √† escola, estudavam tamb√©m hist√≥ria e literatura. Isso contribu√≠a para afastar as mulheres dos cursos mais prestigiosos. Como lembra Lipscomb (2022, p. 28), esse √© um exemplo de controle de acesso [gatekeeping] em que o acesso n√£o √© proibido, mas as condi√ß√Ķes para de fato acessar os cursos, embora pare√ßam razo√°veis, em conjunto com a realidade social, tornam quase imposs√≠vel para as mulheres faz√™-lo.¬†

O grande objetivo da prepara√ß√£o dos jovens rapazes que tinham condi√ß√Ķes financeiras de ir para a universidade era justamente ingressar nas institui√ß√Ķes inglesas de excel√™ncia, em especial num curso como Honour Moderations and Literae Humaniores (Letras Cl√°ssicas), conhecido simplesmente como Greats, ou Mods and Greats (Lipscomb, 2022, p. 28). O curso abordava cl√°ssicos e humanidades e preparava para profiss√Ķes de grande notoriedade no servi√ßo p√ļblico, pol√≠tica e diplomacia, bem como outras ocupa√ß√Ķes importantes (Lipscomb, 2022, pp. 28-29). Quando ingressou na Universidade de Oxford em 1937, na faculdade de St. Hugh, Elizabeth Anscombe p√īde trilhar esse prestigioso caminho acad√™mico pois Gertrude Anscombe (n√©e Thomas), sua m√£e, havia ensinado as l√≠nguas mortas aos seus filhos e tamb√©m √† sua filha, e insistiu que ela continuasse estudando grego quando estava na escola Sydenham School (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 26).¬†

Lipscomb relata que aos doze anos Elizabeth Anscombe se interessou pelas hist√≥rias de m√°rtires cat√≥licos. A religi√£o cat√≥lica passou a ser um aspecto importante de sua vida e, posteriormente, de muitas de suas reflex√Ķes filos√≥ficas. √Č importante notar que ainda havia consider√°vel preconceito aberto contra cat√≥licos na Inglaterra antes dos anos cinquenta. Mesmo assim, a menina leu diversos livros sobre o tema e se aproximou do catolicismo e da ideia da convers√£o (Lipscombe, 2022, p. 50). Seus pais se opuseram fortemente, mas tinham dificuldade para argumentar com a filha adolescente que j√° era r√°pida e sagaz (Lipscombe, 2022, p. 51). Elizabeth Anscombe √© comumente descrita como uma grande presen√ßa intelectual (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 218) e parece t√™-lo sido desde muito jovem. Quando foi para Oxford, ela finalmente se converteu, apesar da amea√ßa dos pais de que n√£o pagariam por seus estudos se ela o fizesse, algo que sua m√£e jamais cumpriria (Lipscombe, 2022, pp. 52-3). Anscombe (doravante usarei apenas Anscombe para me referir a Elizabeth Anscombe) seguiu na universidade at√© se formar em Greats, que exigia dom√≠nio do grego e do latim.

Embora as Universidades de Oxford e de Cambridge sejam universidades medievais (a de Oxford tem quase mil anos), Cambridge s√≥ passou a emitir diplomas para mulheres em 1948, enquanto que Oxford ‚Äúj√°‚ÄĚ o fazia em 1920 (Lipscombe, 2022, p. 24). Isso n√£o significa que antes disso as mulheres estivessem totalmente proibidas de frequentar a universidade, contudo, n√£o recebiam o diploma e poucas frequentavam afinal, pois havia uma s√©rie de restri√ß√Ķes, muitas sociais. Quando passaram a receber o diploma, Lipscomb explica que havia limites. Por receio da feminiza√ß√£o da universidade, em Oxford foi imposta a regra de que as estudantes poderiam totalizar apenas um quarto do total de estudantes.¬†

Com o in√≠cio da Segunda Guerra, contudo, a demografia da universidade sofreu uma enorme altera√ß√£o, j√° que muitos homens foram enviados para a guerra ou para os esfor√ßos de guerra, inclusive muitos professores (Lipscombe, 2022, p. 38). As mulheres, ao contr√°rio, eram encorajadas a terminarem suas gradua√ß√Ķes. Com os homens ausentes, era preciso que elas tomassem seus lugares no servi√ßo p√ļblico, trabalhos administrativos e planejamento relacionado √† vida civil e aos suprimentos (Lipscombe, 2022, p. 39). Em Oxford, as mulheres passaram a compor a maioria dos estudantes avan√ßados e se tornaram, finalmente, o foco da aten√ß√£o dos tutores, at√© mesmo dos de grande fama acad√™mica e que por alguma raz√£o n√£o tinham sido convocados (Lipscombe, 2022, p. 49). Isso deu a elas um acesso √† forma√ß√£o de excel√™ncia, antes inimagin√°vel.

 

A jovem filósofa

 

Em 1941, Anscombe concluiu a graduação no mais alto estrato de notas (First Class) e se casou com Peter Geach (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 86-7). Ele foi recrutado para os esforços de guerra pouco tempo depois, enquanto que ela seguiu para a pós-graduação. O casal enfrentava grandes dificuldades financeiras na época. Cumhaill e Wiseman (2022, p. 98) relatam que Anscombe já vinha enfrentando dificuldades após a morte de seu pai, em 1939, até mesmo para terminar a graduação e, embora tivesse uma bolsa Gilchrist, o dinheiro era muito pouco, mesmo somado ao que recebia pelas tutorias que assumiu em Oxford depois de graduada. Em 1942, lhe foi concedida uma bolsa Sara Smithson para estudar em Cambridge, sem incompatibilidade com a continuação de suas atividades de doutorado em filosofia em Oxford. Grávida da primeira filha, Anscombe passou a fazer o trajeto Oxford-Cambridge (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 99). Em 1944, contudo, ela perdeu a bolsa, voltando à condição de dificuldade.

No ano seguinte, Anscombe frequentou o curso de Ludwig Wittgenstein em Cambridge. A rela√ß√£o que eles desenvolveram teve enorme significado para os dois, pois eles compartilhavam uma atitude similar em rela√ß√£o √† filosofia (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 124). A amizade e parceria entre os dois se estabeleceu na filosofia e fora dela. Quando Wittgenstein faleceu, em 1951, ele deixou os direitos de publica√ß√£o de suas obras aos cuidados de Anscombe e mais dois alunos (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 242). Ficou a cargo dela traduzir para o ingl√™s as Investiga√ß√Ķes Filos√≥ficas (1953). A fil√≥sofa manteve as ideias de Wittgenstein vivas em seu pr√≥prio trabalho filos√≥fico, contudo, √© importante notar que Anscombe n√£o foi apenas uma aluna de Wittgenstein, ela desenvolveu suas pr√≥prias ideias, um m√©todo original e um estilo pr√≥prio.

Outras grandes influ√™ncias para Anscombe foram suas amigas Philippa Foot, Iris Murdoch e Mary Midgley. As quatro estudaram na Universidade de Oxford na mesma √©poca. Elas discutiam sobre filosofia regularmente e encontraram afinidades a respeito das quest√Ķes que as incomodavam e das dificuldades que percebiam nas teorias que tentavam abord√°-las. Essas conversas seguiram mesmo depois da gradua√ß√£o (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 186-7; Lipscomb, 2022, pp. 99-100) e alguns dos temas que elas discutiam informalmente aparecem nos trabalhos publicados das fil√≥sofas.

Um dos temas de discuss√£o era a vis√£o cr√≠tica que elas compartilhavam da filosofia proposta por Alfred J. Ayer em Language, truth and logic ([1936]1972) e, posteriormente, por John L. Austin em How to do things with words (1962) e da √©tica de Richard Hare (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 186; Lipscomb, 2022, p. 100). Pouco antes da guerra, Ayer havia trazido para Oxford ideias que ele desenvolveu quando frequentou o C√≠rculo de Viena em 1933. A influ√™ncia de Viena na Inglaterra j√° havia come√ßado em Cambridge antes disso. No in√≠cio dos anos de 1930, a l√≥gica Susan Stebbing se interessou pelo trabalho do c√≠rculo de Viena antes de seus colegas homens (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 46). Ela se preocupava com a educa√ß√£o do p√ļblico em geral e com como as pessoas poderiam estar melhor equipadas pela an√°lise da linguagem para evitar a manipula√ß√£o por meio da propaganda, por exemplo, de guerra, ou de produtos. A busca pela compreens√£o do que significa aquilo que √© afirmado levou a uma virada metodol√≥gica em Cambridge (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 46). Apesar da reconhecida compet√™ncia de Stebbing, sua aplica√ß√£o das ferramentas de Viena foi esquecida e ofuscada pela proposta de Ayer, que concluiu que proposi√ß√Ķes podem ser formalizadas para que fiquem claras e depois verificadas empiricamente, e aquelas que n√£o puderem ser analisadas dessa forma n√£o teriam sentido (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 48-9).¬†

Consequentemente, tais ideias promoveram tamb√©m um duro ataque √† √©tica, pois n√£o parecia haver observa√ß√Ķes capazes de verificar afirma√ß√Ķes sobre, por exemplo, um dever moral. As proposi√ß√Ķes da √©tica passaram a ser tratadas como sem sentido (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 50). Tal consequ√™ncia deu in√≠cio a um subjetivismo moral que tratava julgamentos morais como meras prefer√™ncias ou express√Ķes de emo√ß√Ķes. Esse foi um ponto de forte desacordo para Anscombe e suas colegas (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 186-7).¬†

Richard Hare foi um dos herdeiros imediatos das ideias de Ayer. Ao aceitar a cis√£o entre descri√ß√Ķes de fatos e de valores em sua teoria, ele n√£o defendeu um conjunto de princ√≠pios √©ticos objetivos. A √©tica seguiu sendo tratada por ele como algo distante dos fatos, sendo assim uma √©tica subjetivista (Lipscomb, 2022, pp. 94-5). Esse passou a ser considerado o paradigma da √©tica de Oxford, √©tica que seria duramente criticada por Anscombe (1957a).

Foot, Murdoch, Midgley e Anscombe conversavam frequentemente sobre o que elas consideravam problem√°tico na filosofia de Oxford, especialmente os pontos relacionados √† proposta de que n√£o h√° objetividade moral que permita verificar se uma asser√ß√£o √©tica √© verdadeira ou falsa (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 185-6). O debate entre as fil√≥sofas visava n√£o apenas criticar a posi√ß√£o vigente, mas tamb√©m encontrar uma maneira de resgatar as verdades morais, reaproximando a moral das quest√Ķes relevantes da vida. N√£o √© por acaso que esse problema lhes era caro. No p√≥s-guerra, parecia-lhes que deveria ser poss√≠vel para a filosofia discutir os horrores da guerra e afirmar que tinham sido moralmente erradas as barbaridades perpetradas pelos nazistas (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 186). Afinal, era estranho que a √©tica deixasse essas quest√Ķes √† merc√™ do subjetivismo. Para avan√ßar na discuss√£o, contudo, Cumhaill e Wiseman ressaltam que era preciso tratar da metaf√≠sica que fundamenta a √©tica para reaproximar valor de fato (2022, p. 187).

A descri√ß√£o rude foi por isso muito discutida pelo quarteto. Rude √© uma descri√ß√£o que pode ser apoiada por evid√™ncias, por exemplo, ‚Äúele √© uma pessoa rude, pois muitas vezes o vi deliberadamente n√£o responder quando lhe desejam um bom dia‚ÄĚ. As a√ß√Ķes da pessoa d√£o evid√™ncia de sua rudeza, contudo, atribuir o adjetivo rude a algu√©m √© tamb√©m uma avalia√ß√£o negativa, j√° que consideramos que agir de maneira rude √© reprov√°vel (Lipscomb, 2022, p. 100). Portanto, √© importante perceber que a pr√≥pria aplica√ß√£o do termo rude requer a compreens√£o dessa avalia√ß√£o negativa e n√£o faria sentido dizer que algumas pessoas usam o termo rude para avaliar bem as a√ß√Ķes. Mesmo em um caso em que podemos avaliar que ela agiu bem ao ser rude, por exemplo, com um assediador, estamos justamente dizendo que ela fez bem em ter uma rea√ß√£o proporcionalmente ruim em resposta a algu√©m que estava se comportando mal com ela. Portanto, mesmo que seja um termo avaliativo, a avalia√ß√£o que rude encerra √© apoiada em fatos, i.e., nas evid√™ncias. Anscombe (1958) depois publica um exemplo em que a pessoa deve dinheiro ao verdureiro, sendo dever um termo avaliativo.¬†

Em conclus√£o, o uso da linguagem n√£o segue uma regra espec√≠fica que d√° significado √†s palavras, porque a linguagem surge das pr√°ticas da vida, algo que n√£o pode ser simplificado em um conjunto de regras (Lipscombe, 2022, p. 121). Nas complexas pr√°ticas da vida humana, Lipscomb enfatiza que n√£o separamos o aspecto descritivo do aspecto avaliativo da rudeza e tampouco faz sentido tentar fazer essa separa√ß√£o nas palavras. √Č poss√≠vel ver nessas ideias a influ√™ncia das ideias que Wittgenstein apresenta nas Investiga√ß√Ķes Filos√≥ficas.

 

Obras

O livro Intenção tem sido considerado a obra central de Anscombe. Como dito acima, a filósofa escreveu sobre diversos temas da filosofia. No entanto, como não é possível abordar todos eles, manterei o foco em Intenção e nos textos que ajudam a compreendê-lo.

 

  1. A filosofia moral de Oxford corrompe a juventude? 

O estado da √©tica contempor√Ęnea foi o tema do programa de r√°dio da BCC no qual Anscombe, em 1957, respondeu se a filosofia moral da Universidade de Oxford corrompe a juventude [‚ÄėDoes Oxford moral philosophy corrupt the youth?‚Äô]. A conclus√£o foi negativa, mas apenas porque Anscombe julgava que a filosofia de Oxford estava de acordo com as ideias morais do pa√≠s (Wiseman, 2016, p. 32; Lipscomb, 2022, p. 159). Subentende-se que estava t√£o de acordo, que n√£o poderia corromper a juventude para al√©m do que as ideias morais da cultura vigente j√° corrompiam.¬†

Um ano antes, a Universidade de Oxford havia decidido conceder um t√≠tulo honor√≠fico a Harry Truman, que foi presidente dos EUA durante o final da Segunda Guerra e foi respons√°vel por assinar a ordem de lan√ßar bombas at√īmicas em Hiroshima e Nagasaki. Anscombe foi veementemente contra a homenagem, ao contr√°rio da grande maioria de seus colegas, que parecia aceitar bem a proposta (Lipscomb, 2022, pp. 56-7). Homenagear algu√©m que ela considerava um assassino era um exemplo das ideias morais da sociedade √†s quais Anscombe havia se referido na BBC (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 4). Sobre a homenagem, ela escreveu um manifesto, Mr. Truman‚Äôs Degree [O diploma do Senhor Truman] (1956), argumentando que n√£o se deve conceder honras a um homem afamado por dois massacres, tampouco elogiar tais a√ß√Ķes por meio de honrarias. Os desdobramentos de suas reflex√Ķes filos√≥ficas sobre o tema apareceriam ainda em renomados trabalhos seus como Inten√ß√£o (1957b) e Filosofia Moral Moderna (1958), que Lipscomb lembra que √© um dos artigos mais citados do s√©culo XX.

Para dizer no programa da BBC que Oxford estava corrompendo a juventude, seria preciso mostrar que os jovens teriam tido ideias melhores sem a Universidade de Oxford por meio da formação na sociedade e na família. Mas, de modo geral, aquilo que era defendido pela filosofia moral em Oxford era similar às ideias da sociedade; portanto, Oxford não podia estar corrompendo a juventude (Anscombe, 1957a). Anscombe era bastante afeita à ironia e ao sarcasmo, inclusive em seus textos, mas a fala era uma crítica à ética de Oxford.

 

  1. Filosofia Moral Moderna

Em Filosofia Moral Moderna (1958), Anscombe chega √† conclus√£o de que era necess√°rio investigar as inten√ß√Ķes para que fosse poss√≠vel avan√ßar na √©tica. A √©tica, no tempo em que a fil√≥sofa escreveu, tinha duas posi√ß√Ķes fortes, a deontologia e o que Anscombe chamou de consequencialismo, cunhando o famoso termo (Wiseman, 2016, pp. 32-3). No artigo, ela rejeita as duas posi√ß√Ķes.¬†

A doutrina do duplo efeito (ou do efeito colateral) √© fundamental para entender a rejei√ß√£o do consequencialismo e a parte da motiva√ß√£o para escrever Inten√ß√£o. Wiseman (2016, pp. 18 e 39) explica que essa √© uma doutrina cat√≥lica, associada a Tom√°s de Aquino, que diz que se um evento proibido adv√©m de maneira previs√≠vel, mas n√£o intencional, de uma a√ß√£o, isso n√£o torna a a√ß√£o proibida. J√° se a consequ√™ncia proibida √© intencional, ent√£o a a√ß√£o √© proibida. O exemplo de Anscombe (1982) √© um caso imagin√°rio em que uma pessoa est√° presa entre rochas, bloqueando a sa√≠da de uma caverna que est√° inundando, e h√° outras pessoas dentro da caverna que morrer√£o afogadas junto com a pessoa que est√° bloqueando a sa√≠da. Para a fil√≥sofa, est√° claro que n√£o √© permitido explodir tal pessoa com dinamite para liberar a sa√≠da, matando-a intencionalmente, mesmo que isso salve as demais. Isso constituiria assassinato. Contudo, no exemplo, √© poss√≠vel criar outra sa√≠da; basta mover certa pedra em outro lugar da caverna. Dada a posi√ß√£o da pedra, √© previs√≠vel que, ao ser deslocada, ela cair√° e esmagar√° a cabe√ßa da pessoa presa entre as rochas, matando-a. Nesse caso, entretanto, Anscombe (1982) aceita que n√£o h√° inten√ß√£o de mat√°-la, seria um infort√ļnio, por isso, a a√ß√£o √© permitida, mesmo que a morte seja previs√≠vel. Por√©m, as circunst√Ęncias s√£o relevantes para quais descri√ß√Ķes da a√ß√£o o agente deve aceitar (Anscombe, 1982). De algumas consequ√™ncias da a√ß√£o, n√£o se pode dizer que n√£o foram intencionais, por exemplo, se, ao mover a pedra, ela imediatamente esmagar√° a cabe√ßa da pessoa presa, n√£o se pode dizer que a consequ√™ncia √© apenas previs√≠vel.

Isso mostra por que Anscombe considerava a a√ß√£o de Truman t√£o grave. Com o bombardeio, Truman tinha a inten√ß√£o de matar milhares de pessoas, o que, sup√Ķe-se, ele esperava que levaria √† rendi√ß√£o incondicional do Jap√£o. Para Anscombe, como vimos, isso constitui assassinato. Caso ele tivesse optado por ordenar uma invas√£o ao Jap√£o para for√ßar sua rendi√ß√£o, era previs√≠vel que muita gente morresse, talvez tamb√©m milhares (Anscombe, 1956), mas isso seria uma consequ√™ncia desafortunada, n√£o a sua inten√ß√£o.

Havia, portanto, um problema de filosofia da psicologia para Anscombe, pois, Schwenkler (2019) ressalta que como a filosofia moral do tempo não fazia distinção entre consequências previstas e consequências intencionais, então tratava todas as consequências como intencionalmente provocadas. Sendo assim, a distinção entre esses tipos de consequências não podia contribuir para a avaliação moral da ação e restava apenas olhar para qual consequência era menos danosa. Porém, para a filósofa, quando certa consequência vai se seguir de uma ação que realizamos, faz diferença saber se tal consequência é intencionalmente provocada (Schwenkler, 2019, XIX). Era necessária uma investigação da intenção.

Contudo, como vimos, a pr√≥pria avalia√ß√£o moral de a√ß√Ķes era problem√°tica por causa da cis√£o entre fatos e valores, tema que preocupava Anscombe e suas amigas fil√≥sofas. A quest√£o sobre como as avalia√ß√Ķes podem ser factuais e n√£o meramente subjetivas aparece tamb√©m em Filosofia Moral Moderna. Anscombe defende que h√° um pano de fundo complexo de pr√°ticas da vida humana que fazem com que, dado certo contexto, afirma√ß√Ķes sobre valores sejam verdadeiras (Wiseman, 2016, p. 42). O exemplo √© o caso em que o verdureiro entrega batatas na casa dela e ela, ent√£o, deve dinheiro ao verdureiro. Dever dinheiro √© uma avalia√ß√£o (ela deve pagar) e, se ela n√£o pagar, pode at√© ser chamada de trapaceira (Anscombe, 1958, p. 4). Novamente uma avalia√ß√£o (trapacear √© uma injusti√ßa). Para Anscombe, chega-se √† conclus√£o ‚Äúdevo dinheiro‚ÄĚ por meio de uma s√©rie de fatos que s√£o pr√≥prios do contexto institucional (pr√°ticas da vida humana), ao menos na sociedade em que ela escreveu. Para perceber isso, √© preciso considerar mais do que uma √ļnica afirma√ß√£o at√īmica. √Č preciso aceitar alguns fatos, por exemplo, que ela encomendou batatas e que o verdureiro as entregou, mas, al√©m disso, √© preciso considerar o contexto de pr√°ticas da vida humana que permitem a uma pessoa encomendar batatas e, se ela as recebe, dizemos que √© verdadeiro que ela deve dinheiro ao verdureiro (Wiseman, 2016, pp. 42-3) e que seria uma trapaceira se n√£o pagasse.

 

  1. Intenção

Embora n√£o trate de quest√Ķes da √©tica, Inten√ß√£o (1957b) √© um livro cuja preocupa√ß√£o √© a √©tica em grande medida. Vimos que Anscombe conclui que ainda n√£o era frut√≠fero discutir √©tica, porque era necess√°rio antes esclarecer quest√Ķes sobre a filosofia da psicologia para que se pudesse avan√ßar adequadamente numa investiga√ß√£o √©tica. Por isso, em Inten√ß√£o ela se dedica √† investiga√ß√£o da filosofia da psicologia, tentando elucidar o conceito de inten√ß√£o. Seu objetivo ent√£o √© dar os fundamentos que permitam a discuss√£o adequada da √©tica, e isso ela logrou. Anscombe deitou os trilhos para o ressurgimento da √Čtica das Virtudes no s√©culo XX.

Colocando de forma simplificada, um dos objetivos do livro √© elucidar a distin√ß√£o entre uma consequ√™ncia de a√ß√£o prevista e uma consequ√™ncia intencional. Para esclarecer a inten√ß√£o para o futuro, esclarecendo assim a distin√ß√£o enfatizada pelo duplo efeito, a fil√≥sofa precisa se engajar em uma empreitada anti‚ÄďCartesiana, mostrando que uma inten√ß√£o n√£o √© um estado mental que pode ser determinado pela vontade do agente (Wiseman, 2016, p. 47). Segundo Wiseman (2016, p. 47) Anscombe questiona que o valor moral da a√ß√£o esteja num estado mental que a antecede e prop√Ķe olhar para a a√ß√£o intencional. Afinal, a√ß√Ķes t√™m diferentes descri√ß√Ķes, algumas delas s√£o carregadas de valor moral devido ao pano de fundo contextual de institui√ß√Ķes, sociedade, cultura e hist√≥ria, ou seja, as pr√°ticas da vida humana que lhe conferem tal descri√ß√£o e j√° lhe atribuem uma avalia√ß√£o.¬†

Assim, Wiseman divide os tr√™s t√≥picos do livro em tr√™s objetivos. O primeiro objetivo do livro trata da doutrina do duplo efeito, que mostra a influ√™ncia tomista no trabalho de Anscombe, e distingue consequ√™ncia intencional de previs√≠vel. J√° o segundo objetivo trata de investigar a inten√ß√£o com a qual o agente age, que n√£o √© um estado mental ou a vontade. Por fim, o terceiro objetivo √© oferecer uma explica√ß√£o de a√ß√£o intencional que permita trat√°-la como virtuosa ou viciosa (Wiseman, 2016, p. 27). No √ļltimo, percebe-se a influ√™ncia aristot√©lica em Anscombe, central para a retomada da √©tica das virtudes.

 

  1. O método

O m√©todo do livro situa a fil√≥sofa em seu tempo, ap√≥s a virada lingu√≠stica. Anscombe, contudo, n√£o adotou a filosofia da linguagem de Austin, muito pelo contr√°rio, ela criticava duramente a ideia de basear a an√°lise de conceitos no uso da linguagem (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 168-9). A fil√≥sofa visa desvelar pressuposi√ß√Ķes escondidas sobre inten√ß√Ķes (Wiseman, 2016, p. 56) e a gram√°tica wittgensteiniana √© sua influ√™ncia metodol√≥gica (Diamond 2019, pp. 225-6), embora seja importante deixar claro que Anscombe desenvolveu seu pr√≥prio m√©todo, mostrando que conceitos intencionais, como inten√ß√£o (ou percep√ß√£o) esbo√ßam, ou delineiam, padr√Ķes e habilidade que constituem a vida humana (Wiseman, 2022, p. 189). Assim, ela aprimorou e desenvolveu sua investiga√ß√£o gram√°tica para mostrar que a linguagem √© aplicada nas pr√°ticas da vida humana, vivida em um ambiente moral. Que a vida humana se passa em tal ambiente √© tamb√©m enfatizado pelas fil√≥sofas de Oxford de seu tempo, suas amigas Philippa Foot, Iris Murdoch e Mary Midgley.¬†

Um ponto para o qual Wiseman (2016) chama a aten√ß√£o √© que muitas vezes a chave de leitura sugerida por comentadores do livro n√£o ajuda na sua compreens√£o. Por exemplo, se o projeto que se pensa que Anscombe visa realizar com o livro for mostrar a conex√£o (causal) entre os tr√™s t√≥picos acima listados, o livro parece oferecer rascunhos incompletos (Wiseman, 2016, p. 56). Por√©m, n√£o √© isso o que a fil√≥sofa pretende; os seus objetivos s√£o aqueles listados no final da subse√ß√£o anterior. Se interpretamos o livro como visando mostrar a tal conex√£o entre os t√≥picos, isso faz parecer que Anscombe faz afirma√ß√Ķes que precisam ser apoiadas por argumentos que ela nunca oferece. Um exemplo de uma afirma√ß√£o desse tipo, segundo Wiseman (2016, p. 69), √© que a√ß√Ķes podem ter diversas descri√ß√Ķes, algumas delas intencionais e outras n√£o. Wiseman defende que, na verdade, essa afirma√ß√£o √© a descri√ß√£o de um requisito que uma explica√ß√£o de a√ß√Ķes precisaria satisfazer, pois esse √© um fato b√°sico sobre identidade e sobre a√ß√Ķes, e se uma explica√ß√£o de a√ß√£o n√£o puder dar conta disso, precisa ser repensada. √Č uma afirma√ß√£o sobre algo t√£o b√°sico que ningu√©m o negaria, por isso, um argumento n√£o acompanha essas afirma√ß√Ķes.

Por outro lado, Davidson oferece uma teoria da identidade de eventos. Wiseman (2016, p. 67) especula que essa pode ser uma raz√£o pela qual comumente se sup√Ķe que a teoria de Anscombe pode ser subordinada √† de Davidson. Ali√°s, √© comum que a ideia de que eventos t√™m diferentes descri√ß√Ķes seja chamada de Davidson-Anscombe. Wiseman sugere que √© poss√≠vel que alguns leitores pensem que Anscombe teria apresentado apenas um rascunho da ideia e que Davidson (2001), ent√£o, a desenvolveu como teoria, mas esse n√£o era o caminho que Anscombe estava seguindo, nem o que ela almejava seguir. Ela estava apenas constatando algo elementar; que a√ß√Ķes t√™m diferentes descri√ß√Ķes. Equ√≠vocos similares na aproxima√ß√£o entre Anscombe e Davidson s√£o apontados tamb√©m por Jennifer Hornsby (2011) e Naomi Kloosterboer (2022).

 

  1. Outras quest√Ķes filos√≥ficas

Anscombe desenvolveu ideias sobre temas diversos da filosofia, como a causa√ß√£o (de a√ß√Ķes) ([1983]2005c), verdades pr√°ticas (1999), avalia√ß√£o de a√ß√Ķes (2005h), teorias da a√ß√£o ([1979]2005a), dentre outros ao longo de sua carreira. Para al√©m das a√ß√Ķes intencionais, Anscombe discutiu diversos assuntos conectados √† filosofia da mente, como a percep√ß√£o ([1965]2002), um dos t√≥picos que lhe causou perplexidade desde jovem. Mas ela n√£o se restringiu √† mente e √† metaf√≠sica, √© famoso tamb√©m o seu artigo sobre a primeira pessoa, The First Person [A Primeira Pessoa] (1981), em que ela apresenta uma proposta distinta do que habitualmente se encontra na discuss√£o sobre a quest√£o. A fil√≥sofa defende que o pronome eu n√£o √© uma express√£o de refer√™ncia. Anscombe n√£o acreditava que o uso do pronome pessoal eu fizesse refer√™ncia, por exemplo, ao seu corpo, pois o demonstrativo n√£o teria ao que se ancorar para referir o corpo (Anscombe, 1981, p. 34; Teichmann, 2008, p. 162; Wiland e Driver, 2022). Como n√£o √© poss√≠vel tratar de todas as tem√°ticas filos√≥ficas discutidas pela fil√≥sofa, um breve panorama do seu tratamento sobre aborto, eutan√°sia e a dignidade humana mostrar√° parte dos seus variados interesses filos√≥ficos.

A dignidade humana √© um tema conectado a algumas das suas preocupa√ß√Ķes morais. Ao discuti-lo, a fil√≥sofa defende uma s√©rie de posi√ß√Ķes controversas e embora eu discorde de muitas n√£o h√° espa√ßo aqui para argumentar. Anscombe (2005g) explica que h√° algo que todos os seres humanos compartilham, que √© a dignidade humana. Essa dignidade n√£o pode ser tomada de um ser humano, embora possa ser violada. Matar algu√©m em vista de um benef√≠cio para si √© violar a dignidade humana. Contudo, Anscombe n√£o considera que matar por vingan√ßa constitua uma viola√ß√£o da mesma natureza em casos em que vingar-se envolve a considera√ß√£o de que o outro merece a morte devido a uma a√ß√£o pr√©via. Essa ideia fundamenta a sua aceita√ß√£o da pena capital, pois, nesse caso, acredita-se que a pessoa merece a morte como puni√ß√£o por ter elegido agir de certa maneira, de livre vontade.

J√° a eutan√°sia, o aborto e experimentos com embri√Ķes violam a dignidade humana, segundo Anscombe (2005g). A simples interfer√™ncia na procria√ß√£o humana, por meio de contraceptivos e da fertiliza√ß√£o in vitro j√° s√£o considerados pela fil√≥sofa abusos, pois a procria√ß√£o seria intr√≠nseca para a cria√ß√£o de nova vida humana. Al√©m disso, a procria√ß√£o por meio do sexo seria o meio para a reprodu√ß√£o que pertence √† vida humana tal como vida humana. Ela chega a definir a paternidade como procria√ß√£o ‚ÄĒ defini√ß√£o que muitas pessoas certamente consideram restritiva em excesso ‚ÄĒ e, portanto, na fertiliza√ß√£o in vitro n√£o haveria um procriador, apenas um manipulador.¬†

Numa linha de raciocínio conectada à de suas ideias sobre a dignidade humana, a filósofa faz notar sua posição contrária ao aborto em algumas de suas palestras e textos. Resumindo uma de suas ideias, a proibição é o caso porque os cromossomos e genes do zigoto já determinam materialmente o ser humano que ele vai se tornar. Além disso, o zigoto tem uma alma, que é o princípio da sua unidade, e é ela que governa o seu desenvolvimento, de modo que a unidade permanece (Anscombe 1992, p. 300). O interesse da filósofa pela natureza humana e pela alma datam desde seu esboço do projeto de pesquisa na pós-graduação (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 131-2). Ela conclui que a alma intelectual é a forma dos seres humanos (Anscombe, [1985]2005d). Como os seres humanos são individualizados pela sua espacialidade e extensão, assim como os animais, isso permite que haja diferentes indivíduos com a mesma forma (2005d). Sendo assim, mesmo o caso de gêmeos não causa embaraço para o seu argumento, já que ela pensa que o zigoto que se separa em dois para virar dois aglomerados de células, no caso dos gêmeos, é o mesmo que as células nas quais se separa, mas apenas materialmente, pois trata-se de dois portadores de vida que começaram com o zigoto (Anscombe [1985]2005e).

A percep√ß√£o do que √© a vida humana nos leva a trat√°-la com respeito, o que, segundo Anscombe, √© feito numa luta at√© a morte ou na pena capital, pois essas s√£o responsabiliza√ß√Ķes por a√ß√Ķes pr√©vias da pessoa assassinada. Anscombe (2005b) admite tamb√©m matar numa guerra, porque esses s√£o casos em que a justi√ßa √© feita por algum mal feito anteriormente pela pessoa assassinada. Assim, nem todo assassinato √© proibido e nem toda omiss√£o que leva √† morte √© errada.¬†

A mesma aus√™ncia de proibi√ß√£o, contudo, n√£o √© aceita pela fil√≥sofa no caso da eutan√°sia ([1982]2005b). Uma posi√ß√£o controversa, sem d√ļvida. Matar uma pessoa inocente apenas porque parece boa ideia √© proibido, porque uma pessoa assassinada sofre um grande mal. √Č um direito das pessoas n√£o serem assassinadas e para Anscombe esse √© um direito mais b√°sico do que o direito √† vida. De acordo com ela, pessoas de idade avan√ßada ou muito jovens devem ser consideradas pessoas (2005b). Ela se op√Ķe a como alguns fil√≥sofos tratam o conceito de pessoa, associado a algumas capacidades que, quando perdidas, perde-se a pessoa. Para ela, todo ser humano √© uma pessoa. Um ser humano √© uma pessoa mesmo quando n√£o tem certas capacidades, pois √© uma pessoa por ser um tipo de criatura caracterizada pela racionalidade, o que garante a sua dignidade. Matar uma pessoa inocente, mesmo que seja pela vontade dessa pessoa, como na eutan√°sia, √©, para a fil√≥sofa, fazer-lhe mal.

Anscombe √© cada vez mais reconhecida como uma grande fil√≥sofa. Impressionantemente inteligente e sagaz, ela se posicionava de maneira extremamente honesta sobre quest√Ķes importantes de seu tempo, conectando filosofia com a vida cotidiana. Fica claro tamb√©m que ela sustentou posi√ß√Ķes controversas, que muitas de n√≥s consideramos question√°veis, sobre, por exemplo, a eutan√°sia e o aborto. O mais importante, contudo, √© que seu legado nos encoraja a pensar sobre as quest√Ķes filos√≥ficas que a motivaram.

 

Referências Bibliográficas

 

Bibliografia prim√°ria

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Tradu√ß√Ķes dispon√≠veis

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Bibliografia secund√°ria

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