Sarah Kofman

por Paula Glenadel

Professora Titular da Universidade Federal Fluminense, mestre em Letras Neolatinas, doutora em Letras Neolatinas, pós-doutorado na Université de Paris VIII (2002) e pesquisadora PQ-1D do CNPQ – Lattes

PDF – Sarah Kofman

Foto: Coleção IMEC, dossiê “Photographies de Sarah Kofman”, cote 572IMC/33/0.

 

  1. Informações biográficas

Sarah Kofman, filósofa e escritora de origem judaica polonesa, nasceu em 14 de setembro de 1934 em Paris, e morreu na mesma cidade em 15 de outubro de 1994, tendo se suicidado nessa data que marcava o 150º aniversário de nascimento de Friedrich Nietzsche. O pai de Sarah, Berek Kofman, era um rabino hassídico que havia emigrado da Polônia para a França no final da década de vinte com sua esposa Fineza Koenig. Ele foi detido em Paris pelas forças policiais do governo de Vichy em 16 de julho de 1942, preso no campo de deportação de Drancy e em seguida levado para Auschwitz, onde foi morto, ao que consta, por ter rezado e se recusado a trabalhar durante o Shabbat (Kofman, 2000, p. 30-31). Sarah passa todo o período da ocupação nazista de Paris escondida, assim como sua mãe e seus cinco irmãos, embora tenham se separado por força das circunstâncias, pois era mais seguro espalhar temporariamente as crianças entre diferentes famílias não-judias que as abrigassem, dentro e fora de Paris. Essa separação, como ela conta em seu último livro publicado, o relato autobiográfico Rue Ordener, rue Labat [Rua Ordener, Rua Labat], de 1994, representou um risco de perda de sua identidade judaica e constituiu um motivo de intensa disputa entre sua mãe e “Vovó”, como ela chamava “a senhora da rua Labat”, a mulher que a acolheu em sua casa durante a maior parte do período da guerra.

Essa não foi a primeira tentativa de relato autobiográfico feita por Kofman. Ela se define como “uma intelectual judia que sobreviveu ao holocausto” em Paroles suffoquées [Palavras sufocadas], de 1987, livro dedicado a seu pai, vítima de Auschwitz, a Robert Antelme – membro da Resistência francesa, sobrevivente e autor do testemunho L’Espèce humaine [A espécie humana] sobre sua estada nos campos de Buchenwald e de Dachau, publicado em 1947) – e a Maurice Blanchot, pensador do extremo “desastre” da representação, da narração e do pensamento “após Auschwitz”, (Kofman, 1987, p. 13). Mas é em Rue Ordener, rue Labat, que ela constata – tendo diante dos seus olhos a velha caneta tinteiro do pai, toda remendada – que “(m)eus numerosos livros foram talvez caminhos oblíquos que tive de tomar para chegar a narrar ‘isto’” (Kofman, 2000, p. 22): o trauma silencioso da separação e da perda. De maneira talvez algo surpreendente, o livro é dedicado a Philippe Cros, médico que a atendia regularmente em seus frequentes adoecimentos. Como já foi observado, porém, “em Rua Ordener, Rua Labat, o aparecimento de uma doença coincide às vezes com uma emoção violenta ou um acontecimento difícil, seja o medo, o pânico de uma separação […] ou a angústia sentida por ocasião de uma fuga feita às pressas para escapar de uma incursão policial” (Saint-Louis Savoie, 2012, p. 38). Assim, o ato de inscrever o relato no campo da doença e do tratamento, através dessa dedicatória, assume um valor simbólico em relação a esses acontecimentos traumáticos que o ato narrativo vem tentar articular como discurso.

Além disso, o livro evoca por vezes temas já abordados por Kofman em outros escritos, construindo interpretações a posteriori da angústia inominável que marcou sua infância, como no capítulo em que menciona o “esboço (ou cartão) de Londres” comentado em “Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci” de Freud, que ilustra o tema das “duas mães”, imagem escolhida por Kofman para a capa do seu A infância da arte (Kofman, 2000, p. 101-103). Há também a evocação de “Maredewitchale”, “(e)ssa figura fantasmagórica e terrificante de minha infância” (Idem, p. 116) com a qual a mãe ameaçava os filhos, já aludida em Comment s’en sortir? Cauchemar [Como sair disso? Pesadelo], de 1983. A primeira parte dessa obra é dedicada à questão da aporia e do poros em Platão, ou seja, do que faz impasse e do que, como a filosofia, oferece uma passagem – a exemplo do jogo dialético ou dialógico de cunho socrático praticado por Platão – e a segunda parte, intitulada Cauchemar é autobiográfica, apresentando sua infância aporética.

Como ela narra em Rua Ordener, Rua Labat, seus primeiros estudos foram sucessivas vezes interrompidos e retomados até que, após o final da Segunda Guerra Mundial, ela pôde enfim concluí-los, tendo passado cinco anos no “Moinho” em Moissac, casa-escola para crianças cujos pais haviam sido deportados. Para sua formação posterior, concorreram: Jean Hyppolite, que a orientou em um projeto sobre o conceito de cultura em Nietzsche e Freud, interrompido com a morte de Hyppolite em 1968 (embora retomado sob a orientação de Gilles Deleuze, este projeto específico acabou sendo abandonado); Mikel Dufrenne, que orientou seu doutorado sobre a estética de Freud, publicado com o título L’Enfance de l’art [A infância da arte] em 1970; e, por fim, ainda Deleuze, que supervisionou o “doutorado sobre trabalhos desenvolvidos” de Kofman, apresentado em 1976 e baseado em seis textos já publicados por ela sobre Nietzsche e Freud. Em 1969, Kofman encontrou Jacques Derrida e passou a frequentar seus seminários na Escola Normal Superior de Paris.

Entre 1960 e 1970, ela lecionou filosofia em liceus em Toulouse e em Paris. Em 1970, assumiu o cargo de professora assistente (maître-assistante) na Université de Paris I, Sorbonne, onde lecionou por toda a sua vida. Contudo, apenas em 1991 ela foi indicada para uma cátedra nessa Universidade. A filósofa Pleshette DeArmitt indica que “Kofman jamais atribuiu a demora na promoção a ser mulher ou judia. Ela acreditava, em vez disso, que era discriminada porque tanto na docência quanto na escrita elegera pensadores radicais e marginais, especialmente Nietzsche e Freud” (DeArmitt, 2009). Frente ao que consideravam uma injustiça, alguns intelectuais de prestígio, como Jacques Derrida, Emanuel Levinas, Jean-François Lyotard, Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy formalizaram em 1988 uma reclamação ao então Ministro da Educação, Lionel Jospin, a qual teve efeito apenas três anos depois, com a promoção de Kofman a professeur, aos 57 anos. Ela também deu aulas na Berkeley University e em Genebra.

Dirigiu a coleção “La philosophie en effet” [“A filosofia com efeito”] na editora Galilée, junto com Nancy, Lacoue-Labarthe e Derrida – com os quais, no começo da década de 70, participou do GREPH – Grupo de Pesquisas sobre o Ensino Filosófico. Surgido na esteira dos movimentos de maio de 68, como Derrida declara em entrevista concedida a Bernard Defrance, o grupo de pesquisa “por um lado, analisaria as estruturas institucionais e as práticas do ensino da filosofia e, por outro lado, faria propostas transformadoras”, como por exemplo a introdução do ensino de filosofia nas turmas antes da “terminale”, o último ano do curso secundário (Derrida, 1989). Kofman publicou o texto “Philosophie terminée. Philosophie interminable [Filosofia terminada. Filosofia interminável]”, no volume do GREPH, Qui a peur de la philosophie ? [Quem tem medo da filosofia?], de 1977, onde joga com a perspectiva da “análise terminável e interminável” de Freud ao refletir sobre a questão. Sarah Kofman também esteve envolvida na fundação do Colégio Internacional de Filosofia (1983).

 

  1. Obra: temas e conceitos

Seu trabalho intelectual, publicado entre os anos de 1970 e 1994 ao ritmo de aproximadamente um livro por ano, às vezes dois livros no mesmo ano, consistiu em estudar e produzir interpretações originais de importantes pensadores ocidentais, como Platão, Nietzsche e Freud. Ela refletiu sobre filosofia, psicanálise, arte, teoria feminista e o impacto da Shoah – o genocídio dos judeus – no pensamento moderno. Em sua obra, observa-se uma intensa e produtiva imbricação entre os âmbitos da escrita filosófica e da escrita autobiográfica ou, mais precisamente, da atenção – ou escuta – ao elemento autobiográfico na construção do pensamento. Certamente, o fato de situar-se em um espaço de trânsito entre esses dois modos de produção de sentido constitui a parte mais singular do seu legado. Junto com este último aspecto, pode-se considerar que sua principal contribuição para a filosofia tenha sido o enfrentamento de uma misoginia estrutural em textos centrais para a nossa cultura. Em consonância com a perspectiva desconstrutivista praticada por Derrida, ela interroga, por meio de leituras suspeitosas e atentas aos detalhes discursivos, os preconceitos metafísicos presentes nos sistemas expostos nesses textos prestigiosos, revelando os interesses envolvidos em sua construção. Para a filósofa Isabelle Ullern, estudiosa do trabalho de Kofman, “seu recurso obstinado ao detalhe se baseia tanto no método de análise freudiana do sonho quanto na memória talmúdica de sua infância” (Ullern, 2014, p. 36).

O interesse pelo humor é outra marca característica das abordagens filosóficas de Kofman, que chegou a dedicar em 1986 um livro ao estudo do Witz [piada] em Freud (Pourquoi rit-on? Freud et le mot d’esprit [Por que rimos? Freud e o chiste]). Pleshette DeArmitt aponta que, para Kofman, “o humor não era apenas um meio de desviar os temas filosóficos mais sérios, mas um meio de revelá-los mais profundamente”. Um desses temas, a que Kofman dedicou boa parte de suas publicações, é que a ‘mulher’ ou o ‘feminino’ funcionam como um ponto cego, talvez um ponto cego privilegiado, nos sistemas filosóficos ou especulativos de muitos pensadores caros ao cânone ocidental (Cf. Kofman, 1992b). O que interessava a Kofman era não somente ‘a mulher dentro da filosofia’, mas também ‘a repressão por filósofos homens da feminidade neles mesmos’ (Guertin)” (DeArmitt, 2009). Alguns dos seus livros mais importantes sobre esse tema são: Aberrations: Le devenir-femme d’Auguste Comte [Aberrações: O devir-mulher de Auguste Comte], de 1978; L’énigme de la femme: La femme dans les textes de Freud  [O enigma da mulher:  A mulher nos textos de Freud], de 1980; e Le respect des femmes [O respeito às mulheres (Kant e Rousseau)], de 1982.

Kofman permaneceu durante algum tempo muito próxima de Jean-Paul Sartre: ela narra a descoberta, após a Liberação de Paris, de Les chemins de la liberté [Os caminhos da liberdade], trilogia de novelas escritas por ele e publicadas de 1945 a 1949, L’âge de raison [A Idade da Razão], Le sursis [Sursis] e La mort dans l’Âme [Com a Morte na Alma], tida por alguns críticos como uma obra com forte dimensão autobiográfica. Eram leituras feitas debaixo dos lençóis, com a ajuda de uma lanterna elétrica, porque sua mãe apagava a luz muito cedo, insinuando o valor especial que essa leitura assume naquela fase da sua vida (Kofman, 2000, p. 129). O pensamento sartriano, à primeira vista, parece dificilmente conciliável com a lógica da psicanálise, em função da questão do inconsciente. Ainda assim, ao se aproximar da psicanálise, inclusive na condição de analisanda, à qual foi levada pelo forte efeito que a leitura das obras completas de Freud teve sobre ela, a filósofa buscou um arranjo entre essas duas influências, conforme declara em entrevista concedida a Roland Jaccard para o jornal Le Monde em 1986: “Antes da análise, Sartre me salvou, porque me fez acreditar na liberdade […] É antes da análise que se é menos livre. Consigo, de fato, conciliar o que há de interessante em Sartre, isto é, a possibilidade da liberdade, e uma análise” (Kofman, 1986a, p. vii).

Esse tipo de “conciliação” operada por Kofman, contudo, não é pacificada ou estática, e caracteriza bem o trabalho desenvolvido pela filósofa, como ela mesma explica nessa entrevista: “quando me volto para Nietzsche et Freud, eu os transformo e eles me transformam […] Seguro Nietzsche e Freud com as duas mãos e simultaneamente. Quando me inclino sobre Freud, eu o leio à luz de Nietzsche, isto é, fazendo uma leitura genealógica dos textos psicanalíticos. Quando me interesso por Nietzsche, coloco todo meu saber analítico a serviço da minha leitura” (Idem, ibidem).

Assim, a crítica a Freud será genealógica, investigando os valores que subjazem às afirmações alegadamente “não especulativas” (ver Kofman, 1984, p. 125) feitas sobre a mulher e o feminino em alguns de seus textos. É o que ela propõe, por exemplo, em “Ça cloche”, capítulo de seu livro Lectures de Derrida [Leituras de Derrida], de 1984, texto inicialmente apresentado como uma conferência no colóquio de Cerisy dedicado a Derrida em 1980, Les fins de l’homme [Os fins do homem]. A expressão é de difícil tradução e necessita de um comentário e de uma contextualização para ser bem compreendida. Ela se aplica ao “mancar”, ao “claudicar” da teoria freudiana sobre o feminino (termo oriundo do verbo “clocher” – do lat. vulg. cloppicare), sendo que “cloche” significa também “sino” (oriundo do termo de origem céltica, presente no lat. tardio, clocca), remetendo, assim, a Glas, livro derridiano de 1974. “Glas” é o toque ou dobre fúnebre dos sinos, termo que intitula esse livro onde Derrida joga com a obra do escritor Jean Genet e com o sistema do filósofo Hegel, em um texto organizado em duas colunas dissimétricas, entre as quais um vazio oferece um espaço para o jogo entre o decidível (da ordem da verdade) e o indecidível (da ordem do fetiche). A proposição estabelecida por Genet em seu texto autobiográfico publicado em 1949, Journal du voleur [Diário do ladrão], é inspirada pela semelhança entre as cores da vestimenta dos detentos e as das flores: “A fragilidade, a delicadeza das flores são de mesma natureza que a brutal insensibilidade dos detentos. Minha emoção é a oscilação de umas aos outros” (Genet, 2019, p. 9). Glas trabalha essa “oscilação” nomeada por Genet como leitmotif de uma investigação da dialética especulativa, no sentido do “processo à Aufhebung e à verdade” (Idem, p. 133).

Em “Ça cloche”, Kofman persegue o argumento freudiano da “inveja do pênis”, através da observação atenta da utilização freudiana, por mais que ela seja atravessada por subterfúgios, do protótipo do embrião de Abraham ou da paleobiologia de Ferenczi para estabelecer um “fenômeno primário insuperável: um rochedo inabalável” (Kofman, 1984, p. 124), no sentido de uma preferência da natureza pelo sexo masculino (Idem, p. 124-125). Em suma, trata-se do “apelo a uma teleologia natural para camuflar uma finalidade falocrática” (Idem, p. 126). Em um movimento semelhante, “Freud sublinha em toda parte que é demasiado leviano fazer corresponder a atividade com a masculinidade e a passividade com a feminilidade. E quando ocorre de ele próprio fazer isso, ele declara que é apenas para obedecer à convenção” (Idem, ibidem). Assim, apesar das denegações de Freud, seu gesto “tende, como em toda a metafísica, a assimilar e não mais por simples convenção, a masculinidade à atividade, a feminilidade à passividade” (Idem, p. 127). Daí a importância da noção de oscilação recuperada por Kofman da leitura derridiana de Genet. Correspondendo a uma generalização do fetichismo, ela não deixará que as posições se estabilizem em detrimento do feminino, em um gesto proposto como “primeira etapa de uma desconstrução do falo-logocentrismo” (Idem, p. 132), e que a filósofa interpreta em nota como seguimento por Derrida de um “método totalmente nietzschiano” (Idem, ibidem).

  Em relação a Nietzsche, na introdução ao seu Nietzsche et la métaphore [Nietzsche e a metáfora], livro de 1972 (reeditado e revisto em 1983), em que as relações entre o conceito e a metáfora são esmiuçadas a partir da obra desse filósofo, Kofman identifica algo comparável à oscilação apontada anteriormente, no sentido em que ele “multiplica as perspectivas […] e diversifica intencionalmente seus estilos para evitar ao leitor o engano de um estilo único, de um ‘estilo em si’” (Kofman, 1983a, p. 10). Ela considera que tanto escrever de modo conceitual quanto escrever de modo metafórico são gestos que têm o mesmo valor, uma vez que o próprio conceito passa a ser compreendido, conforme a reflexão nietzschiana em Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, escrito em 1873 e publicado em 1896, como um condensado de metáforas, trabalhado pelo esquecimento que apaga essa origem metafórica. Pois seja a escrita “conceitual ou metafórica, (a oposição não sendo mais pertinente a partir de Nietzsche), o essencial é saber rir dela, estar à distância suficiente dela para poder brincar com ela” (Idem, p. 11). Ela se identifica com essa filosofia que, “misturando em sua escrita todos os ‘gêneros’, risca todas as oposições com uma grande gargalhada” (Idem, p. 13).

Em uma nota luminosa ao capítulo dedicado à escrita e à leitura desse mesmo livro, Kofman evoca ainda mais detalhadamente o funcionamento do pensamento e da escrita nietzschianos em relação com o princípio da multiplicidade: “A escrita da gaia ciência repete deslocando, despedaçando antigas montagens, recompondo e acoplando o diferente, separando o semelhante: nova construção lúdica, escrever é brincar, é parodiar. E primeiro parodiar a ‘criação’: o ex nihilo é um engodo; o mundo é apenas o jogo eterno do Zeus heraclitiano, que sempre retorna, mas deslocado, desconstruído e reconstruído a partir dos mesmos elementos” (Idem, p. 171).

A atração filosófica de Kofman pela oscilação e pela multiplicidade, presente nas suas abordagens de Freud e de Nietzsche, vem encontrar-se com a multiplicidade proporcionada pela perspectiva autobiográfica, pela relação (não mimética) entre escrita e vida. Na contramão de uma visão tradicional desse “gênero”, Ullern esclarece que a autobiografia se torna interessante por permitir uma desconstrução da identidade e da ilusão de unidade de um “eu” que falasse conscientemente. Assim, “É esse ‘eu’ atacado que deve ser buscado pela bio-grafia. Nesse sentido, a autobiografia não é um relato, mas inicialmente um engajamento vital na escrita, na escrita da palavra viva. Sarah Kofman transforma o defeito da biografia em qualidade, e faz dos livros, da relação com o texto, a repetição incansável de projeções salvadoras, porque lançam a escrita em um jogo estético vivo, interminável” (Ullern, 2019) – assim como a escrita nietzschiana.

Mas Kofman teve ainda de enfrentar a questão do “antissemitismo de Nietzsche”, em Le mépris des Juifs: Nietzsche, les Juifs, l’antisémitisme [O desprezo aos judeus: Nietzsche, os judeus, o antissemitismo], publicado no mesmo ano que Rua Ordener Rua Labat (1994), estando, portanto, estes dois últimos livros publicados em vida por Kofman ligados por uma aguda interlocução em torno da questão judaica. Mais do que compreender determinadas afirmações de Nietzsche como “erros de juventude” superados a partir da publicação do seu primeiro livro (O nascimento da tragédia, de 1872), ocorre que a complexidade “aristocrática” da sua obra, “destinada ao pequeno número de pessoas esclarecidas o suficiente para evitar a armadilha da ‘estrita literalidade’” (Catonné, 1995, p. 152) a coloca de saída em risco de incompreensão e exige uma aprendizagem de leitura, tarefa assumida por Kofman, “maravilhosa pedagoga” (Idem, ibidem).

De muitas maneiras, essa aprendizagem não é estranha à observação de Deleuze sobre a novidade representada pelo pensamento nietzschiano: “Trata-se antes de encontrar, de assinalar, de reunir as forças exteriores que dão a tal ou tal frase de Nietzsche seu sentido liberador, seu sentido de exterioridade. É ao nível do método que se coloca a questão do caráter revolucionário de Nietzsche: é o método nietzschiano que faz do texto de Nietzsche não mais alguma coisa a respeito da qual seria preciso se perguntar “é fascista, é burguês, é revolucionário em si?” – mas um campo de exterioridade onde se defrontam forças fascistas burguesas e revolucionárias” (Deleuze, 1985, p. 62).

Nesse sentido, nada de mais oportuno e atual do que a visão de Kofman para o ensino da leitura, especialmente porque é Nietzsche quem ela invoca para esclarecer a sua posição de apostar na dimensão política da leitura:

 

“Sou também professora, e inicio meus alunos à leitura de textos filosóficos. Ensinar a ler equivale para mim a um gesto político. Nietzschiana nesse ponto, penso que o homem é uma animal cujos traços ainda não se fixaram. Dentre os múltiplos poderes do homem, o poder de matar e o poder de manter a palavra (isto é, falar e deixar falar, mas também fazer promessas) são os dois polos importantes. Ora, ensinar a ler bem, é ensinar os homens a manterem a palavra. Tentando manter a palavra, impedimos o poder de matar, quer dizer, atrasamos o retorno de Auschwitz” (Kofman, 1986b, p. vii).

 

  1. Obras, literatura secundária e outros materiais

 

Obras de Sarah Kofman

Kofman, S. (1970). L’enfance de l’art : Une interprétation de l’esthétique freudienne. Paris : Payot. No Brasil, A infância da arte (1996). Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Kofman, S. (1972). Nietzsche et la métaphore. Paris: Payot.

Kofman, S. (1973). Camera obscura : De l’idéologie. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1974). Quatre romans analytiques Paris: Galilée.

Kofman, S. (1976). Autobiogriffures. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1978a). Aberrations : Le devenir-femme d’Auguste Comte. Paris: Flammarion.

Kofman, S. (1979a). Nerval : Le charme de la répétition. Lausanne: L’Age d’Homme.

Kofman, S. (1979b). Nietzsche et la scène philosophique. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1980). L’énigme de la femme : La femme dans les textes de Freud. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1982). Le respect des femmes (Kant et Rousseau). Paris: Galilée.

Kofman, S. (1984) Lectures de Derrida. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1983a). Comment s’en sortir ? Paris: Galilée.

Kofman, S. (1983b). Un métier impossible : Lecture de “Constructions en analyse”. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1983c). Nietzsche et la Métaphore. 2a. edição revista e corrigida. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1985). Mélancholie de l’art. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1986a). Pourquoi rit-on ? Freud et le mot d’esprit. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1987a). Paroles suffoquées. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1987b). Conversions: Le Marchand de Venise sous le signe de Saturne. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1989a). Socrate(s). Paris: Galilée.

Kofman, S. (1990a). Séductions : De Sartre à Héraclite. Paris: Galilée.

Kofman, S. & Masson, J.-Y. (1991). Don Juan ou le refus de la dette. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1991). “Il n’y a que le premier pas qui coûte” : Freud et la spéculation. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1992a). Explosion I : De l’ “Ecce Homo” de Nietzsche. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1993a). Explosion II : Les enfants de Nietzsche. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1994a). Le mépris des Juifs : Nietzsche, les Juifs, l’antisémitisme. Paris: Galilée.

Kofman, S. (1994b). Rue Ordener, rue Labat. Paris: Galilée. No Brasil, Rua Ordener, Rua Labat (2000). Tradução de Luiz Fernando Medeiros de Carvalho e Paula Glenadel. Rio de Janeiro: Caetés.

Kofman, S. (1995). L’imposture de la beauté et autres textes. Paris: Galilée.

 

 

Literatura secundária e outros materiais

Catonné, J.-Ph. (1995). Sarah Kofman, Le Mépris des Juifs: Nietzsche, les Juifs, l’antisémitisme et Rue Ordener, rue Labat, 1994 [Resenha de Le Mépris des Juifs e Rue Ordener, rue Labat, de S. Kofman]. Raison Présente, 114, pp. 150-152. Recuperado de: https://www.persee.fr/doc/raipr_0033-9075_1995_num_114_1_3283_t1_0150_0000_1. Acesso em: 23 abr. 2021.

Collin, F. & Proust, F. (orgs.) (1997). Les Cahiers du Grif, Hors-Série, 3, Sarah Kofman (inclui textos de F. Collin, F. Proust, J.-L. Nancy, M. Schneider, J. Maurel, M.-B. Tahon, F. Duroux, J. J. Hermsen, J. Derrida, três textos curtos de S. Kofman e uma bibliografia completa 1963-1993). Recuperado de: https://www.persee.fr/issue/grif_0770-6081_1997_hos_3_1?sectionId=grif_0770-6081_1997_hos_3_1_1929. Acesso em: 01 mai. 2021.

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Entrevistas de Sarah Kofman

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Demais referências bibliográficas referidas

 

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