Queer

por Aléxia Bretas

Professora de Filosofia na Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de SĂŁo Paulo (USP). É autora dos livros: A Constelação do Sonho em Walter Benjamin (Humanitas/Fapesp, 2008), Do Romance de Artista Ă  PermanĂȘncia da Arte (Annablume/Fapesp, 2013) e Fantasmagorias da Modernidade (Ed. UNIFESP, 2017). É integrante da Rede Brasileira de Mulheres FilĂłsofas e do GT de Filosofia e GĂȘnero da ANPOF – Lattes

PDF – Queer

Imagem: Exposição Queermuseu, Porto Alegre, 2017. Bia Leite / Reprodução.

Escrever um verbete sobre queer tem qualquer coisa de desconcertante. Pois o nome porta em si uma genealogia e uma vocação fortemente antinormativas que vĂŁo de encontro a toda e qualquer tentativa de definição rĂ­gida, substantiva ou essencialista – seja de teor enciclopĂ©dico, mĂ©dico ou jurĂ­dico. Por outro lado, causar estranhamento Ă© algo bastante prĂłprio Ă  expressĂŁo, que surge umbilicalmente ligada a qualidades, digamos, fora da curva. Sua histĂłria e suas estĂłrias (Hemmings, 2011) sĂŁo seculares e, nĂŁo obstante, feitas de fracassos (Halberstam, 2019), “interruqçÔes” (flores, 2013) e lacunas. De proveniĂȘncia inglesa, a palavra queer foi cunhada em torno de 1513 como sinĂŽnimo de estranho, esquisito, peculiar e excĂȘntrico. “Ai, ai! Como estĂĄ tudo esquisito [queer] hoje! E ontem as coisas aconteciam exatamente como de costume”, exclamava a Alice de Lewis Carroll, em 1865 (Carroll, 2010, p. 25). No PaĂ­s das Maravilhas, ela irĂĄ se deparar com “formas esquisitas” [queer-like shapes] como a da Lagarta, encontrar-se com um grupo singular ou “estrambĂłtico” [queer-party] de aves e animais peludos indispostos, atĂ© que depois de uma sucessĂŁo de vertigens, deslocamentos e metamorfoses, finalmente se acostumar a ver “coisas esquisitas” [queer things] acontecerem.

AtĂ© meados do sĂ©culo XIX parece nĂŁo haver qualquer atribuição de valor – seja positivo ou negativo – ao adjetivo empregado para descrever criaturas bizarras, atitudes anormais e/ou eventos insĂłlitos. Algo semelhante ocorre com o vocĂĄbulo alemĂŁo quer, que significa transversal, diagonal, oblĂ­quo, formando palavras como der Querdenker / die Querdenkerin – pensador / pensadora original, fora dos padrĂ”es. Ratificando sua predisposição a ambiguidades, torçÔes de sentido e apropriaçÔes espontĂąneas, o nome do movimento de ultradireita composto por extremistas contrĂĄrios Ă s medidas de contenção Ă  Covid-19 adotadas pelo governo alemĂŁo em 2020 Ă© precisamente Querdenken – em tradução literal, “pensar de outro modo”. Em todo caso, ainda no sĂ©culo XIX anglĂłfono, a expressĂŁo “Queer Street” – ainda nĂŁo patologizada, mas jĂĄ pejorativa – chegaria a ser utilizada no Reino Unido para se referir a pessoas falidas, quebradas ou “fodidas”, possivelmente sob inspiração dos romances de Charles Dickens. Com o passar dos anos, a dita escĂłria da sociedade – que incluĂ­a malandros, ladrĂ”es, bĂȘbados, prostitutas, “ovelhas negras”, “maçãs podres” e freaks de toda espĂ©cie – era abrigada pelo guarda-chuva queer dos perdedores [losers] (Halberstam, 2020).

Mas Ă© na passagem para o sĂ©culo XX, notadamente apĂłs o famigerado julgamento seguido da condenação do escritor Oscar Wilde por “sodomia”, em 1894-5, que o termo queer iria adquirir conotaçÔes mais diretamente associadas aos estigmas dos gĂȘneros e/ou sexualidades “invertidas” ou disfĂłricas. A partir de entĂŁo, seriam identificadas, agrupadas e depreciadas (Haddock-Lobo, 2018) em seu nome todas aquelas expressĂ”es de variabilidade de gĂȘnero (Halberstam, 2018) estranhas Ă  grade binĂĄria encarregada de enquadrĂĄ-las como “homem” ou “mulher” – exclusivamente. Ao comentar sobre a incrĂ­vel plasticidade desta palavra mutante, (Paul) Beatriz Preciado observa que em fins do sĂ©culo XIX, na austera Inglaterra vitoriana da qual tambĂ©m nos fala Foucault (Foucault, 2007), era percebido e tratado como queer qualquer corpo humano que, de algum modo, colocasse em risco o bom funcionamento de uma sociedade “hĂ©tero”, “correta” ou “direita” (straight).

“Eram ‘queer’ os invertidos: a bicha, a lĂ©sbica, a travesti, o fetichista, o sadomasoquista e o zoĂłfila. O insulto ‘queer’ nĂŁo tinha um conteĂșdo especĂ­fico: pretendia reunir todas as cifras do abjeto. Mas a palavra, na verdade, serviu para traçar um limite para o horizonte democrĂĄtico: aquele que chamou outro de ‘queer’ colocou-se confortavelmente sentado em um sofĂĄ imaginĂĄrio na esfera pĂșblica, em uma troca comunicativa silenciosa com seus pares heterossexuais, enquanto expulsava o ‘queer’ para alĂ©m dos limites do humano. Deslocado para fora do espaço social, o ‘queer’ foi condenado ao segredo e Ă  vergonha” (Preciado, 2009, p. 15). 

No entanto, quase um sĂ©culo depois de sua circunscrição Ă  invisibilidade e ao silĂȘncio, a palavra queer seria ressignificada e mobilizada pelos movimentos sociais em prol dos direitos civis das minorias sexuais, notadamente a partir da eclosĂŁo da aids em fins dos anos 1980 – a qual resultaria em uma verdadeira perseguição Ă  comunidade gay, acusada de disseminar o vĂ­rus pela sociedade hĂ©tero atravĂ©s de prĂĄticas sexuais “abjetas”, que estariam, no limite, levando a humanidade ao extermĂ­nio. Nesse contexto pandĂȘmico, os protestos dos militantes gays e lĂ©sbicas estadunidenses nĂŁo clamavam por respeito Ă  sua vida privada, isto Ă©, nĂŁo pleiteavam o direito de as relaçÔes homoafetivas e homoerĂłticas serem mantidas entre quatro paredes, senĂŁo exigiam o direito de sobreviver, ocupar e circular pelos lugares pĂșblicos, sem vetos ou restriçÔes, fossem elas legais ou morais. Nesse sentido, o texto de intervenção “Queers read this” [Queers leiam isso], publicado anonimamente pelo coletivo Queer Nation, ligado ao grupo de ação direta ACT UP, e distribuĂ­do na Marcha do Orgulho Gay em New York, em junho de 1990, Ă© uma das primeiras ocorrĂȘncias da expressĂŁo queer, a partir de entĂŁo, transvalorada.

“Como posso lhe dizer? Como posso convencĂȘ-la, irmĂŁo, irmĂŁ, de que a sua vida estĂĄ em perigo? Que todo dia que vocĂȘ acorda, viva, relativamente feliz e saudĂĄvel, vocĂȘ estĂĄ praticando um ato de rebeliĂŁo. VocĂȘ, uma queer viva e em bom estado de saĂșde, Ă© uma revolucionĂĄria. NĂŁo hĂĄ nada neste planeta que valide, proteja ou encoraje a sua existĂȘncia. É um milagre que vocĂȘ esteja aqui lendo estas palavras! VocĂȘ deveria, para todos os efeitos, jĂĄ estar morta.” (Manifesto Queer Nation, 1990/2016).

            Redigido em tom de urgĂȘncia diante de uma crise sanitĂĄria e humanitĂĄria sem precedentes a se abater sobre a saĂșde e mesmo as condiçÔes de vida de pessoas bissexuais e, especialmente, homossexuais masculinos, o prĂłprio panfleto explica o por quĂȘ do uso do vocĂĄbulo queer, e nĂŁo simplesmente gay, chamando atenção para os estereĂłtipos de gĂȘnero, bem como para a violĂȘncia antiqueer em ascensĂŁo nos Estados Unidos.

“Bem, sim, ‘gay’ Ă© lindo. Tem seu lugar. Mas quando muitos homens e mulheres gays acordam, pela manhĂŁ, sentimos raiva e desgosto, nĂŁo alegria. Por isso escolhemos nos chamarmos ‘queer’. Usar ‘queer’ Ă© uma maneira de lembrarmos como somos percebidas pelo resto do mundo. É uma maneira de dizermos que nĂŁo precisamos ser pessoas empolgadas e charmosas, que levam suas vidas discretamente e Ă  margem do mundo hĂ©tero. Usamos queer como homens gays que amam lĂ©sbicas e lĂ©sbicas que amam ser queer” (Manifesto Queer Nation, 1990/2016).

Publicado em 2018, um nĂșmero especial da revista Gay and Lesbian Literature (Fawaz; Smalls, 2018) discute o valor deste “manifesto” jĂĄ histĂłrico, chamando atenção para a irredutĂ­vel diversidade de concepçÔes, vivĂȘncias e reflexĂ”es ligadas ao queer, seja como experiĂȘncia de vida, criação artĂ­stica, disciplina acadĂȘmica ou ativismo polĂ­tico – em seus mĂșltiplos entrelaçamentos. O dossiĂȘ ainda destaca a relevĂąncia e a urgĂȘncia de questĂ”es prementes a serem enfrentadas, nos dias de hoje, pelas pessoas e coletividades LGBTQ (Colling, 2015) – como o racismo, a transfobia, a assimilação pelo mercado, o tokenismo, o pink washing, o combate Ă  “ideologia de gĂȘnero” (Miskolci; Campana, 2018), alĂ©m da ascensĂŁo da extrema direita em diversas partes do mundo.

Ora, mas se o queer, como algo positivo e digno de orgulho, surge nas ruas nas pegadas dos movimentos de liberação gays e lĂ©sbicos dos anos 1970 e 1980, como exatamente se deu sua entrada e disseminação pelo mundo acadĂȘmico? HĂĄ quem considere que a escritora e ativista chicana Gloria AnzaldĂșa tenha sido a primeira a utilizar o termo “queer” em seu livro Borderlands / La frontera, publicado originalmente em 1987 (Rea; Amancio, 2018, p. 12).

“Como mestiza, eu nĂŁo tenho paĂ­s, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os paĂ­ses sĂŁo meus porque eu sou a irmĂŁ ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lĂ©sbica nĂŁo tenho raça, meu prĂłprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças)” (AnzaldĂșa, 2005, pp. 707-8). 

Antes dela, tambĂ©m a autora e poeta negra Audre Lorde jĂĄ havia reportado, em entrevista a Adrienne Rich, ainda em 1979, o desconforto por parte de editores e militantes negros em relação a sua homossexualidade, chegando a utilizar explicitamente o termo “queer” para se referir ao modo como era percebida e tolerada por aqueles que nunca foram capazes de realmente aceitar seu modo de vida.

“Eu nunca tinha tido esse tipo de relacionamento com pessoas negras antes. Nunca. Houve um diálogo bastante desconfortável com a Harlem Writers Guild – onde eu me sentia tolerada, mas nunca aceita de verdade. Para eles, eu era louca e transviada [crazy and queer], mas tinha potencial para amadurecer e superar tudo isso” (Lorde, 2020, p. 113).

Seja como for, embora a obra Problemas de gĂȘnero (1990) de Judith Butler seja citada com frequĂȘncia como marco ou mesmo “BĂ­blia” da “teoria queer”, foi a italiana Teresa de Lauretis quem utilizou a expressĂŁo pela primeira vez – ainda que, antes dela, vĂĄrias outras autoras estivessem igualmente empenhadas em dar corpo a crĂ­ticas semelhantes, ainda que nĂŁo tenham se reportado literalmente ao nome composto “Queer Theory”, como Ă© o caso de Monique Wittig, Audre Lorde, Gayle Rubin, Eve K. Sedgwick, Adrienne Rich e Gloria AnzaldĂșa. 

“A expressĂŁo ‘teoria queer’ nasceu em 1990 como tema de um workshop que organizei na Universidade da CalifĂłrnia em Santa Cruz. (…) Como as palavras gay e lĂ©sbica, o queer designou, em primeiro lugar, um protesto social e, apenas em segundo lugar, uma identidade pessoal. Meu projeto de ‘teoria queer’ consistia em iniciar um diĂĄlogo entre lĂ©sbicas e gays sobre sexualidade e sobre nossas respectivas histĂłrias sexuais. Eu esperava que, juntos, quebrĂĄssemos os silĂȘncios que haviam sido construĂ­dos nos ‘Estudos lĂ©sbicos e gays’ sobre a sexualidade e sua interrelação com sexo e raça. (Lauretis, 2015, p. 109).

Atenta Ă  tensĂŁo entre os vocĂĄbulos “teoria” – como algo sĂ©rio, rigoroso e institucionalizado – e “queer” – como algo vulgar, irreverente e marginal –, Lauretis destaca os desafios e contradiçÔes inerentes Ă  elaboração de um termo em si mesmo heterogĂȘneo e, atĂ© certo ponto, paradoxal. Ela ainda ressalta a necessidade dos coletivos na construção de um horizonte discursivo em que as reflexĂ”es sobre o campo sexual sejam viĂĄveis e produtivas desde uma perspectiva colaborativa, interdisciplinar e interseccional. 

Seja como for, do ponto de vista estritamente filosĂłfico, a teoria queer surge da leitura e tradução (Canseco, 2020) de pensadores europeus associados ao pĂłs-estruturalismo francĂȘs, como Foucault, Derrida e Deleuze, realizadas por feministas norte-americanas como Judith Butler – que viria, inclusive, a questionar a categoria “mulheres” como “o sujeito” do feminismo. Para isso, ela se vale de um diĂĄlogo crĂ­tico com teĂłricas como Simone de Beauvoir, Luce Irigaray, Monique Wittig, Julia Kristeva e Esther Newton para pensar sobre as questĂ”es, respectivamente, da alteridade, da diferença, do pensamento hĂ©tero (straight  mind), do abjeto e da performatividade. Ao analisar as tĂ©cnicas de construção de si da drag Divine no filme Hairspray – Éramos todos jovens, Butler desmistifica o suposto fundamento “natural” do gĂȘnero – e nĂŁo apenas para as pessoas identificadas como nĂŁo binĂĄrias. “Seria a drag uma imitação de gĂȘnero ou dramatizaria os gestos significantes mediante os quais o gĂȘnero se estabelece?” (Butler, 2016, p. 9). E, mais adiante, questiona: “Ser mulher constituiria um ‘fato natural’ ou uma performance cultural, ou seria a ‘naturalidade’ constituĂ­da mediante atos performativos discursivamente compelidos, que produzem o corpo no interior das categorias do sexo e por meio delas?” (Butler, 2016, p. 9).

Tais inquietaçÔes orbitam em torno daquele que talvez seja o principal objetivo desta obra tĂŁo polĂȘmica: explicar as categorias fundacionais de sexo, gĂȘnero e desejo nĂŁo como dadas pela natureza, nem tampouco como escolhidas livremente pelo sujeito transparente, senĂŁo como resultado de uma formação especĂ­fica de poder. Para isso, ela recorre Ă  crĂ­tica genealĂłgica de Nietzsche apropriada por Foucault, a qual irĂĄ desfazer, ou melhor, desconstruir uma certa crença trĂ­plice na origem “biolĂłgica” do gĂȘnero, na verdade Ă­ntima do desejo “feminino” e na identidade sexual “autĂȘntica”. Segundo ela, o que existem, em vez disso, sĂŁo efeitos de prĂĄticas e discursos que, ao serem repetidos, se encorpam e se espraiam capilarmente pelas relaçÔes e formas de vida a partir de duas instituiçÔes ubĂ­quas: o falocentrismo e a “heterossexualidade compulsĂłria” (Rich, 2010). Butler, contudo, nĂŁo pretende apenas designar as coisas como “elas sĂŁo”, senĂŁo criar condiçÔes para desestabilizĂĄ-las ou transformĂĄ-las – ou, pelo menos, contribuir para isso. Assim, movida pelo pĂĄthos de insurgĂȘncia dos corpos queer, ela busca indicar ou mesmo abrir poros ou fissuras no sistema de gestĂŁo da sexualidade como dispositivo biopolĂ­tico (Foucault, 2007). Quais performances ou “prĂĄticas culturais produzem uma descontinuidade e uma dissonĂąncia subversivas entre sexo, gĂȘnero e desejo e questionam suas supostas relaçÔes?”, ela indaga (Butler, 2016, p. 11). 

Na verdade, um aspecto bastante controvertido de Problemas de gĂȘnero Ă© precisamente a concepção de gĂȘnero como performance (Rodrigues, 2020, p. 64). Autoproclamado bio-hacker do sistema sexo-gĂȘnero, (Paul) Beatriz Preciado vislumbra aĂ­ um dos pontos mais interessantes e mais problemĂĄticos da teoria de Butler. Em Manifesto Contrassexual, ele observa: “A noção butleriana de ‘performance de gĂȘnero’, assim como a ainda mais sofisticada ‘identidade performativa’, desfazem-se prematuramente do corpo e da sexualidade, tornando impossĂ­vel uma anĂĄlise crĂ­tica dos processos tecnolĂłgicos de inscrição que possibilitam que as performances ‘passem’ por naturais ou nĂŁo” (Preciado, 2014, p. 93). Diante das novas tecnologias do gĂȘnero acessĂ­veis na era farmacopornogrĂĄfica, suas pesquisas sobre sexualidade tĂȘm sido realizadas Ă  flor da pele (Preciado, 2018). Em Testo Junkie, por exemplo, o filĂłsofo antiacadĂȘmico realiza seu “ensaio corporal” como “autoteoria”, na qual se coloca como “autocobaia” de um experimento Ă  base de testosterona em gel, o qual coincide com seu encontro fulminante com a escritora e feminista pornĂŽ-punk Virginie Despentes – com quem foi casado por dez anos (Bretas, 2019a). Convidada a escrever o prefĂĄcio de Um apartamento em Urano, a autora de Teoria King Kong (Despentes, 2016) resume: “a histĂłria da sua transição [de Preciado] nĂŁo Ă© a passagem de um ponto a outro, mas a da errĂąncia e do interlĂșdio como lugar de vida. Uma transformação constante, sem identidade fixa, sem atividade fixa, sem endereço fixo, sem paĂ­s” (Despentes, in: Preciado, 2020, p. 14). Traduzidas e publicadas no Brasil em 2020, “as crĂŽnicas da travessia” (Preciado, 2020) acompanham todo o processo de redesignação de gĂȘnero pelo qual o filĂłsofo passou e deixou registrado em dezenas de colunas divulgadas quinzenalmente pelo jornal francĂȘs LibĂ©ration, entre 2010 e 2018. Nelas, seu prĂłprio corpo – nĂŽmade, mutante, “inexistente” – Ă© o centro virtual de grande parte do pĂ©riplo que o levaria a se tornar um homem trans, isto Ă©, um “contrabandista” entre o mundo das mulheres e o dos homens.

“Meu corpo trans Ă© uma instituição insurgente sem constituição. Um paradoxo epistemolĂłgico e administrativo. Devir sem teleologia nem referente, sua existĂȘncia inexistente Ă© a destituição ao mesmo tempo da diferença sexual e da oposição homossexual-heterossexual. Meu corpo trans volta-se contra a lĂ­ngua daqueles que o nomeiam para negĂĄ-lo. Meu corpo trans existe como realidade material, como trama de desejos e prĂĄticas, e sua inexistente existĂȘncia coloca tudo em xeque: a nação, o jĂșri, o arquivo, o mapa, o documento, a famĂ­lia, a lei, o livro, o centro de internação, a psiquiatria, a fronteira, a ciĂȘncia, deus. Meu corpo trans existe” (Preciado, 2020, p. 225).

Nesta crĂŽnica de 2014, Preciado chama atenção para os paradoxos de existir e, ao mesmo tempo, nĂŁo existir completamente de acordo com a cis-heteronorma. Na vida “real”, para ser reconhecido como cidadĂŁo pelo estado espanhol, Paul Beatriz consente em ser diagnosticado e tratado como disfĂłrico – num certo sentido como Galileu Galilei, que contradiz sua teoria mesmo sabendo que tem razĂŁo.  Ainda que tenha mantido o “B” de Beatriz em seu novo nome, Paul B. Preciado, ele assina seu novo contrato social, passando a habitar e a circular, sem ser importunado, pelo mundo dos “homens”. Teria ele “traĂ­do” sua formação feminista, bem como seu passado rebelde como lĂ©sbica radical? Quais desdobramentos de sua decisĂŁo pessoal se refletem na prĂłpria situação do queer como expediente de recusa e estranhamento ao binarismo de gĂȘnero? Dialeticamente, teria o ĂȘxito do queer precipitado sua prĂłpria destruição? Dito de outro modo, Ă  medida em que mais e mais pessoas nĂŁo binĂĄrias tĂȘm os seus direitos reconhecidos e acatados pela sociedade straight, estaria o queer fadado a ser assimilado pela mesma norma – mĂ©dica, jurĂ­dica e polĂ­tica – Ă  qual critica? Seria a inclusĂŁo do “Q” na sigla LGBTQ um sinal claro de que os dias do queer como movimento pĂłs-identitĂĄrio de contestação estariam contados? Bastante lĂșcida quando ao carĂĄter irredutivelmente dinĂąmico desta palavra, em “Criticamente queer”, Judith Butler chama atenção para a tendĂȘncia Ă  incorporação de pautas interseccionais, mais tradicionalmente associadas a polĂ­ticas consideradas “identitĂĄrias” como algumas versĂ”es de feminismo e certas vertentes do movimento negro.

“Pode ser que a crĂ­tica do termo acabe por iniciar um ressurgimento das mobilizaçÔes feministas e antirracistas dentro da polĂ­tica lĂ©sbica e gay, ou acabe por abrir novas possibilidades para formar alianças ou coligaçÔes que nĂŁo pressuponham que esses grupos sociais sejam radicalmente distintos um do outro. O termo serĂĄ revisto, dissipado e tornado obsoleto na medida em que resista Ă s demandas que se opĂ”em a ele justamente por causa das exclusĂ”es que o mobilizam” (Butler, 2019, pp. 378-379).

KUIR, CUIR, CU

“Criticamente queer”, aliĂĄs, Ă© uma boa expressĂŁo para se referir Ă  atitude daqueles e daquelas que abraçaram o movimento e a teoria queer como estratĂ©gia de desconstrução da matriz heteronormativa, sem deixar de reconhecer suas insuficiĂȘncias e contradiçÔes internas. Esse Ă© o caso das crĂ­ticas dos Queer of Colour nos Estados Unidos, que denunciaram seu viĂ©s “imperialista” ao ignorar perspectivas, autores e autoras nĂŁo brancas do sul global em suas teorias / prĂĄticas desconstrutivas (Rea; Amancio, 2018). JĂĄ na AmĂ©rica Latina, pelo menos desde os anos 2000, acadĂȘmicos e ativistas decoloniais nĂŁo tĂȘm poupado esforços para expressar suas objeçÔes quanto ao uso de um termo estrangeiro ou anglĂłfono para se referir Ă s realidades locais, de pessoas vivendo no hemisfĂ©rio sul – portanto, mais suscetĂ­veis Ă  indução programĂĄtica de sua condição precĂĄria do que seus pares europeus ou norte-americanos. O brasileiro Pedro Paulo Pereira questiona: 

“Distante do contexto de enunciação e sem atenção devida Ă  singularidade de cada corpus teĂłrico, corremos sempre o risco de nublar a densidade das proposiçÔes queer – que necessitam de um movimento autorreflexivo intenso e contĂ­nuo –, o que conduziria Ă  repetição pura e simples de teorias, sem que haja a resistĂȘncia das realidades analisadas. A teoria se torna, nesse caso, dissociada das realidades locais e, sem esse confronto, acabamos por entrar num cĂ­rculo que induz Ă  eterna repetição (perifĂ©rica) de teorias (centrais). Seria este o fardo do queer nos trĂłpicos?” (Pereira, 2012, p. 374).

            Outra crĂ­tica bastante frequente diz respeito ao amortecimento do vetor dissonante e combativo de uma palavra que, entre nĂłs, nĂŁo Ă© ouvida ou sequer proferida como ofensa ou xingamento. A esse respeito, Larissa Pelucio pondera:

“TambĂ©m em portuguĂȘs ‘queer’ nada quer dizer ao senso comum. Quando pronunciado em ambiente acadĂȘmico nĂŁo fere o ouvido de ninguĂ©m, ao contrĂĄrio, soa suave (cuier), quase um afago, nunca uma ofensa. NĂŁo hĂĄ rubores nas faces nem vozes embargadas quando em um congresso cientĂ­fico lemos, escrevemos ou pronunciamos queer. Assim, o desconforto que o termo causa em paĂ­ses de lĂ­ngua inglesa se dissolve aqui na maciez das vogais que nĂłs brasileiros insistimos em colocar por toda parte. De maneira que a intenção inaugural desta vertente teĂłrica norte-americana, de se apropriar de um termo desqualificador para politizĂĄ-lo, perdeu-se no Brasil”. (Pelucio, 2014).

Buscando salvaguadar a verve disruptiva e contestadora tanto da teoria, quanto do movimento, Berenice Bento segue autores sul-americanos/as que passaram a nomeá-la “teoria cuir” ou simplesmente “teoria cu”, propondo uma coerente alternativa “brazuca”: estudos transviados.

“Em alguns textos, eu tenho trabalhado com a expressĂŁo ‘estudos transviados’. A minha lĂ­ngua tem que fazer muita ginĂĄstica para dizer queer e nĂŁo sei se quem estĂĄ me escutando compartilha os mesmos sentidos. Ser um transviado no Brasil pode ser ‘uma bicha louca’, ‘um viado’, ‘um travesti’, ‘um traveco’, ‘um sapatĂŁo’. Talvez nĂŁo tivĂ©ssemos que enfrentar o debate da tradução cultural se reduzĂ­ssemos os estudos transviados ao Ăąmbito (muitas vezes) bolorento da academia, transformando-o em um debate para iniciados, mas aĂ­ seria a prĂłpria negação desse campo de estudos que nasce com o ativismo, tensiona os limites do considerado normal e abre espaço para uma prĂĄxis epistemolĂłgica que pensa novas concepçÔes de humanidade” (Bento, 2017, p. 249).

Fato Ă© que Ă  medida em que deixa evidente suas origens inglesas, o queer se torna mais palatĂĄvel e atrativo para ser consumido como mercadoria importada oferecida naquilo que a chilena Hija de Perra se refere como “shopping queer”.

“Hoje em dia graças a Deus temos todo o necessĂĄrio para tomar o estandarte queer dentro da metrĂłpole: mil produtos para nos transformar em seres ambĂ­guos de difĂ­cil leitura sexual e perfomar pela vida como transgressĂŁo identitĂĄria, hoje Ă© possĂ­vel estudar esta teoria em Universidades e receber informação fidedigna do tema, hoje temos Ă  disposição a compra e venda de livros que traduzem e levam essa mensagem esperançosa atĂ© o criado-mudo da sua cama, hoje existem as possibilidades de lugares de encontro multissexuais, bares, discotecas, etc. Hoje existem bandas de mĂșsica com estĂ©tica queer que vocĂȘ tambĂ©m pode adquirir e desfrutar, hoje existem lojas de artefatos contrassexuais para nossa estimulação plural ciber-carnal. Um mundo de fabulosas oportunidades para levar a cabo o discurso e o desborde estĂ©tico necessĂĄrios para nos sentirmos envolvidos e santificados pelo tema” (De Perra, 2015).

A despeito das crĂ­ticas, hĂĄ pessoas como a argentina val flores – sapatĂŁo, ativista da dissidĂȘncia sexual, heterodoxa, prĂł-sexo, Ă  margem das instituiçÔes (flores, 2013) – que irĂŁo defender, apesar de tudo, um “cuir” situado abaixo da linha do Equador. DaĂ­ o sentido do imperativo de descolonização como prĂĄtica epistemolĂłgica e polĂ­tica da maior importĂąncia para a efetividade e o futuro de uma teoria que surgiu pela voz dos corpos anormais ou “abjetos” reunidos nas ruas por uma vida vivĂ­vel.


“Contra as leituras cuir das prĂĄticas artĂ­sticas e polĂ­ticas que o situam, seja nas geografias de Buenos Aires ou do Norte ianque ou europeu, paradoxalmente estabelecendo (…) novas formas de dominação internacional, aqui o cuir Ă© disputado como o lugar de inconformidade com as hegemonias nĂŁo apenas identitĂĄrias, mas tambĂ©m geopolĂ­ticas. Descolonização do cĂąnone cuir, transformado em emblema do mercado. Contratextos capazes de desnaturalizar as rotinas da competĂȘncia do saber e combater os cĂłdigos que decretam e sancionam o poder de representação, a tutela de quem fala. Cuir nĂŁo como marca, senĂŁo como prĂĄtica, em que a escrita se move como lugar de contrapoder frente Ă s linguagens hegemĂŽnicas e binĂĄrias da fala cotidiana subsumidas na matriz do manual escolar. Escrita bastarda em que o prĂłprio silĂȘncio Ă© ruptura, resistĂȘncia a um sistema de signos, que pensa por subtração, nas pĂĄginas em branco, nas lacunas, nas fronteiras, nos espaços, nos buracos do discurso (flores, 2017, p. 55).

            JĂĄ no Brasil, Jota Mombaça Ă© uma das vozes “kuir” mais eloquentes. Diante de uma certa disputa entre as comunidades LGBTs e o queer, ela nĂŁo hesita em se posicionar como “bicha nĂŁo binĂĄria, nascida e criada no nordeste do Brasil, que escreve, performa e faz estudos acadĂȘmicos em torno das relaçÔes entre monstruosidade e humanidade, estudos kuir, giros descoloniais, interseccionalidade polĂ­tica, justiça anticolonial, redistribuição da violĂȘncia, ficção visionĂĄria e tensĂ”es entre Ă©tica, estĂ©tica, arte e polĂ­tica nas produçÔes de conhecimento do sul-do-sul global” (Mombaça, 2017). Ao falar sobre a redistribuição da violĂȘncia, Mombaça se refere ao “estado molecular” (Mombaça, 2017) e destaca a urgĂȘncia da luta interseccional contra uma certa “machulĂȘncia” (EkĂ© – CandomblĂ© Sound System) ou “masculinidade tĂłxica” como ficção de poder.

“O estado, assim como as polĂ­ticas, move-se com e pelo desejo. Quando o movimento LGBT brasileiro luta pela criminalização da homofobia, ele estĂĄ lutando, no limite, por esse desejo. O desejo de ser protegido pela polĂ­tica e neutralizado pelo estado nĂŁo importa a que preço. NĂŁo se considera, por exemplo, a dimensĂŁo racista estruturante do sistema prisional, cujo maior alvo segue sendo as pessoas pretas e empobrecidas, inclusive aquelas cujas posiçÔes de gĂȘnero e sexualidade poderiam ser compreendidas no espectro LGBT. A aposta nessas estruturas normativas como fonte de conforto e segurança para as comunidades agrupadas em torno da sigla LGBT Ă© um sinal evidente da falta de imaginação polĂ­tica interseccional desses ativismos, que estĂŁo limitados a lutar no interior do projeto de mundo do qual temos sido reiteradamente excluĂ­das” (Mombaça, 2017, p. 303).

Ao chamar atenção para as tensĂ”es recorrentes entre os movimentos LGBTs e os coletivos queer brasileiros, argentinos, chilenos, portugueses e espanhĂłis, Leandro Colling destaca alguns divisores de ĂĄguas entre as duas vertentes (Colling, 2015). Em linhas gerais, enquanto aqueles primeiros focam nas polĂ­ticas da igualdade, estes Ășltimos se detĂȘm nas polĂ­ticas da diferença. Disso resulta que enquanto os LGBTs atuam no Ăąmbito macropolĂ­tico das instituiçÔes, os queer agem prioritariamente na dimensĂŁo micropolĂ­tica da cultura. Se pautas como casamento igualitĂĄrio, adoção homoparental e identidade de gĂȘnero, por exemplo, sĂŁo bastante caras aos movimentos LGBTs, os dissidentes queer preferem agir em prol da sensibilização das pessoas por meio de performances e açÔes culturais, e nĂŁo apenas via reformas pontuais a instituiçÔes tradicionalmente repressoras. Outro diferencial entre os dois grupos sĂŁo as açÔes de desobediĂȘncia civil. Enquanto o movimento LGBT tende a optar pela pressĂŁo ao campo polĂ­tico atravĂ©s de manifestaçÔes, abaixo-assinados, comunicados Ă  imprensa etc, os coletivos queer preferem lançar mĂŁo de tĂĄticas arriscadas que, nĂŁo raro, terminam com ativistas presos e/ou respondendo a processos judiciais. Finalmente, Colling menciona uma diferença, para ele, fundamental: a interseccionalidade. Enquanto os coletivos queer tĂȘm se mostrado mais engajados em estabelecer interfaces com outros movimentos – feministas, antirracistas, ecolĂłgicos, anticapitalistas e decoloniais – os movimentos LGBTs tĂȘm se revelado mais resistentes a tais coalizĂ”es. 

Finalmente, nĂŁo obstante as heterogeneidades e os atritos, ambas as vertentes tĂȘm conseguido trabalhar juntas, apoiando-se em convergĂȘncias estratĂ©gicas na luta comum contra a violĂȘncia antiqueer e anti-LGBT em escalada, sobretudo, em governos misĂłginos, masculinistas e trans-lesbo-homofĂłbicos como o governo Bolsonaro. Nesse contexto pandĂȘmico e necropolĂ­tico, que este verbete seja lido nĂŁo como parte de uma enciclopĂ©dia escrita por e para o sujeito transparente do pĂłs-iluminismo europeu, mas como verbo pulsante de um “feminĂĄrio” queer a reverberar, coletivamente, pelos corpos e pelas mentes das guerrilheiras de Monique Wittig. “Elas dizem que se veem em movimento, com vigor e felicidade. Dizem que se ouvem gritar e cantar: o sol pode brilhar / o mundo pertence a nĂłs” (Wittig, 2019, p. 87).

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