Ondas do Feminismo

Por Ilze Zirbel

Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina – Lattes

PDF – Ondas do Feminismo

Mulheres feministas se manifestam em Santiago do Chile, pedindo por democracia durante o governo militar de Augusto Pinochet. Fotografia de Kena Lorenzini doada ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Feministas_en_lucha_anti_Pinochet_%28de_Kena_Lorenzini%29.jpg

A met√°fora da onda

No ano de 1968, a feminista Martha Weinman Lear escreveu um pequeno artigo em um famoso jornal dos estados Unidos (New York Times) com o t√≠tulo ‚ÄúA segunda onda feminista‚ÄĚ. No texto,   Lear fazia refer√™ncia √† luta de milhares de mulheres pelo direito de votar, no final do s√©culo XIX e in√≠cio do XX, como uma esp√©cie de onda de feminismo e anunciava que outra havia se formado ou estava em forma√ß√£o. Algumas d√©cadas depois, Rebecca Walker (1992) publicou o ensaio ‚ÄúTornando-se a terceira onda‚ÄĚ, no qual defendia que as lutas feministas estavam longe de acabar e comprometia-se em seguir com elas. A met√°fora das ondas consolidou-se, ent√£o, como forma de nomear momentos de grande mobiliza√ß√£o feminista.

Inicialmente, as narrativas sobre as ondas privilegiaram a a√ß√£o de feministas brancas da classe m√©dia estadunidense e ativistas brancas inglesas e francesas. Ou, pelo menos, estas foram as narrativas que mais se espalharam. E elas podem e devem ser contestadas, como veremos ao longo deste verbete, uma vez que ocultam a forte atua√ß√£o das mulheres da classe oper√°ria e das mulheres negras ‚Äď para dar apenas dois exemplos ‚Äď dentro e fora dos limites fronteiri√ßos desses pa√≠ses. Sem elas, as ondas n√£o teriam sido realmente ondas, pois n√£o haveria for√ßa suficiente para fazer a press√£o necess√°ria √†s mudan√ßas que reivindicavam.

Por muito tempo, tamb√©m, a met√°fora da onda foi usada para dar visibilidade a certas pautas ou momentos hist√≥ricos espec√≠ficos. Tais momentos representariam o ‚Äúponto alto‚ÄĚ ou de maior for√ßa de cada onda. No entanto, assim como uma onda mar√≠tima √© formada por um conjunto de fen√īmenos,  podemos pensar as ondas do feminismo de maneira mais org√Ęnica e n√£o como algo que desponta, repentinamente, na realidade social e, certo tempo depois, desaparece. Podemos pens√°-las de maneira mais cont√≠nua, geradas pela a√ß√£o de milhares de mulheres, de diferentes locais, etnias, gera√ß√Ķes e vis√Ķes de mundo. √Č desta maneira que ser√£o descritas aqui.

As ondas feministas

Podemos abordar a tem√°tica das ondas partindo de diversos pontos, questionando, inclusive, quem foram suas protagonistas, em quais locais despontaram, qual tempo hist√≥rico, com quais demandas e qual a dura√ß√£o de cada uma. As respostas n√£o s√£o simples e s√£o constantemente enriquecidas com novos dados e narrativas oriundos de pesquisas e discuss√Ķes feministas. 

Um estudo mais amplo das lutas feministas pelo mundo e ao longo do tempo nos mostra que mulheres de variadas etnias e classes, de diferentes gera√ß√Ķes, nacionalidades, orienta√ß√£o sexual, constitui√ß√£o f√≠sica (etc.) estiveram em di√°logo umas com as outras ao longo dos s√©culos, embora nem sempre tenham articulado o mesmo conjunto de prioridades ou concordado entre si (Molony e Nelson, 2017). Al√©m disso, uma variedade de perspectivas marcou e marca o que hoje chamamos de feminismo, uma vez que suas protagonistas enfrentaram variadas formas de opress√£o e marginaliza√ß√£o.

Nenhuma onda formou-se por conta de uma √ļnica perspectiva ou por meio da a√ß√£o de um √ļnico grupo, ainda que, em algum dado momento, v√°rios grupos de mulheres tenham decidido lutar em conjunto para potencializar algum ponto presente em suas pautas. Este √© considerado o caso das manifesta√ß√Ķes sufragistas do final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX. Muitos dos grupos que impulsionaram as manifesta√ß√Ķes formaram-se na segunda metade do s√©culo XIX, ganhando as ruas em v√°rios pa√≠ses dali em diante.

Em geral, afirma-se que o ocidente vivenciou pelo menos tr√™s momentos de grande movimenta√ß√£o e articula√ß√£o feminista n√£o restritos a um √ļnico espa√ßo geogr√°fico e que poderiam ser chamados de ondas feministas, em uma perspectiva mais global. A primeira dessas ondas formou-se na segunda metade do s√©culo XIX, em diferentes pa√≠ses, impulsionando in√ļmeras demandas at√© o in√≠cio da I Guerra Mundial, quando milhares de mulheres viram-se obrigadas a lidar com a devasta√ß√£o e os problemas gerados pelos contextos da guerra. A segunda onda despontou em meados da d√©cada de 1960, intensificando-se na d√©cada de 1970 e espalhando-se por v√°rios contextos sociais nas d√©cadas seguintes. Quanto √† terceira onda, h√° controv√©rsias sobre a sua periodiza√ß√£o e caracteriza√ß√£o. Essa controv√©rsia implica a exist√™ncia ou n√£o de uma quarta onda. De qualquer forma, no in√≠cio do s√©culo XXI tornou-se percept√≠vel, em v√°rios pontos do globo, uma nova onda feminista, seja ela a terceira ou a quarta onda, e cujos efeitos e rumos ainda n√£o s√£o de todo conhecidos. Trataremos dessa quest√£o na √ļltima parte deste texto.

A primeira onda

A primeira grande onda feminista, de um ponto de vista mais global, √© identificada com os movimentos em massa de mulheres que irromperam na cena p√ļblica de v√°rios pa√≠ses no final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX, identificados com a luta pela isonomia e pelo sufr√°gio (voto). Tal identifica√ß√£o √© correta, mas, igualmente, reducionista, uma vez que deixa de apontar a riqueza das pautas e lutas de in√ļmeros grupos de mulheres daquele per√≠odo.

Ida B. Wells Barnett, feminista sufragista estadunidense, co-fundadora do The¬†National Association of Colored Women¬†‚ÄstNACW, 1896, e do¬†Alpha Suffrage Club ‚Äst1913). Defendia o sufr√°gio como uma forma das mulheres negras se envolverem politicamente em suas comunidades e usarem o voto para elegerem pessoas negras para cargos pol√≠ticos influentes. Fotografia de Mary Garrity de c. 1893.¬† Dispon√≠vel em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ida_B._Wells#/media/File:Mary_Garrity_-_Ida_B._Wells-Barnett_-_Google_Art_Project_-_restoration_crop.jpg

As mudan√ßas pol√≠ticas, jur√≠dicas e trabalhistas que vinham ocorrendo na Europa no in√≠cio da modernidade estabeleceram sociedades chamadas de democr√°ticas que beneficiaram, no entanto, pequenos grupos de homens brancos e donos de propriedades em detrimento do restante da popula√ß√£o. Tais grupos estabeleceram as regras dos mais variados setores sociais e negaram a todas as mulheres a possibilidade de tomarem decis√Ķes em qualquer √Ęmbito da vida social e, consequentemente, sobre suas pr√≥prias vidas.

Um sistema econ√īmico pautado na valoriza√ß√£o do capital e na explora√ß√£o da m√£o de obra da popula√ß√£o foi igualmente estabelecido, o capitalismo. Tal sistema beneficia-se do trabalho gratuito das mulheres nos n√ļcleos familiares e da diferen√ßa salarial entre os sexos para gerar e ampliar lucros. A sociedade e os indiv√≠duos dependem do trabalho dom√©stico e das variadas atividades de cuidado realizadas pelas mulheres, mas n√£o lhes atribuem valor. 

Explora√ß√£o e controle da vida, das atividades e da sexualidade das mulheres veio a ser a regra, mantida pelos discursos religiosos, filos√≥ficos, econ√īmicos e pol√≠ticos da Europa no s√©culo XIX. A indigna√ß√£o das mulheres aumentou e a id√©ia de ‚Äúfeminismo‚ÄĚ como uma luta de mulheres contra injusti√ßas e por melhoria das suas condi√ß√Ķes de vida foi se impondo (Fraisse, 1989; Offen, 1988). 

O que hoje chamamos de primeira onda feminista foi se formando aos poucos em muitos pa√≠ses da Europa e das Am√©ricas, assim como da Austr√°lia, Nova Zel√Ęndia, R√ļssia, Bulg√°ria, Ucr√Ęnia, Hungria, Tchecoslov√°quia, etc. E essa forma√ß√£o deu-se em meio a um processo intenso de lutas, materializadas em associa√ß√Ķes de mulheres, panfletagens, publica√ß√Ķes em jornais, manifesta√ß√Ķes, greves, congressos, passeatas. 

Os temas de discuss√£o e as reivindica√ß√Ķes das feministas eram bastante diversos e diziam respeito √†  autodetermina√ß√£o sexual, ao acesso a algumas profiss√Ķes e melhorias das condi√ß√Ķes de trabalho assalariado, ao acesso √† educa√ß√£o formal e a um curr√≠culo escolar que n√£o fosse voltado √†s atividades dom√©sticas, √† reforma do direito matrimonial (que subjugava as esposas aos maridos, permitia a expropria√ß√£o dos bens das mulheres pelos esposos e um tratamento desigual diante do adult√©rio, impossibilitava o div√≥rcio etc.) dentre outros. Muitas feministas tamb√©m estiveram envolvidas em outros movimentos sociais defendendo causas socialistas ou liberais, anarquistas, religiosas, higienistas, pacifistas, anti-escravistas etc. (Offen, 1988; Briatte, 2016; Bard, 2017; Rochefort, 2018). 

V√°rias organiza√ß√Ķes e congressos internacionais foram criados, como a Alian√ßa Internacional para o Sufr√°gio Feminino e o Conselho Internacional de Mulheres, que chegou a ter 7 milh√Ķes de membros distribu√≠dos por 24 pa√≠ses. 

No final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX era poss√≠vel encontrar grupos de mulheres que se intitulavam feministas ‘crist√£s’, ‘socialistas’, ‘familiares’, ‘cat√≥licas’ ou mesmo ‘homens feministas’ (Turgeon, 1902; Offen, 1988). De igual forma, um termo equivalente a feminismo aparecia em textos √°rabes (Badran e Cooke, 1990). 

Manifesta√ß√Ķes p√ļblicas organizadas por mulheres tamb√©m ocorriam fora do eixo EUA-Europa. Na cidade do Cairo, por exemplo, em mar√ßo de 1919 ocorreu a ‚Äúmarcha das mulheres veladas‚ÄĚ, de cunho anti-colonial. Quatro anos depois a Uni√£o Feminista Eg√≠pcia foi criada para lutar pela reformula√ß√£o das leis civis, pela educa√ß√£o das mulheres e pelo voto (Rachidi, 2019). 

Apesar de n√£o formarem um grupo homog√™neo e defenderem diferentes opini√Ķes pol√≠ticas, milhares de mulheres, em diferentes pa√≠ses e momentos distintos, em um dado momento, uniram-se em torno da luta pelo sufr√°gio. Por meio dela, pretendia-se acessar direitos civis b√°sicos. Em alguns pa√≠ses, as manifesta√ß√Ķes de rua alcan√ßaram n√ļmeros impressionantes, como ocorreu na Inglaterra em 1908 onde 500 mil mulheres reuniram-se no Hyde Park; nesse pa√≠s foi formado, no ano seguinte, um movimento de homens anti-sufr√°gio e mais de mil mulheres entraram em greve de fome para pressionar as mudan√ßas nas leis vigentes (Museum and Heritage, 2018).

√Č comumente afirmado que as protagonistas da primeira onda eram mulheres de classe m√©dia. No entanto, a maioria das manifestantes presentes nas grandes manifesta√ß√Ķes que deram visibilidade a essa onda era da classe trabalhadora, lutando contra as p√©ssimas condi√ß√Ķes de vida e trabalho a que estavam submetidas. Em comum, partilhavam com as feministas de outras classes a esperan√ßa de que, uma vez obtido o direito de votar e o acesso aos lugares de decis√£o pol√≠tica, seria poss√≠vel alterar as leis e institui√ß√Ķes que as exploravam e oprimiam como mulheres e como trabalhadoras.

As guerras desencadeadas entre diversos pa√≠ses durante a segunda d√©cada do s√©culo XX afetaram as pautas e mobiliza√ß√Ķes feministas nos pa√≠ses envolvidos, arrefecendo suas lutas. No entanto, na Am√©rica Latina, em pa√≠ses como o Brasil, Chile, Argentina, M√©xico, Peru e Costa Rica, distantes do front de guerra e nos quais tamb√©m havia sido iniciada uma luta pelo sufr√°gio, muitos grupos seguiram focados nessa luta e em suas pautas locais.

A segunda onda

No per√≠odo das duas guerras mundiais, milhares de mulheres assumiram postos de trabalho considerados masculinos, tanto na Europa quanto nos EUA. Atuaram como bombeiras, mineiras, condutoras de transporte p√ļblico, mec√Ęnicas, metal√ļrgicas, al√©m de produzirem alimentos, atuarem na ind√ļstria t√™xtil e no campo da sa√ļde. No intervalo entre as guerras, pol√≠ticas natalistas foram implementadas e o tema da maternidade ocupou um lugar central nas discuss√Ķes p√ļblicas e feministas de muitos pa√≠ses, dividindo opini√Ķes. As lutas feministas ora avan√ßavam, ora estagnavam.

Ap√≥s a segunda guerra, alguns Estados cederam √† press√£o das mulheres e reconheceram-lhes alguns direitos, como o de votar (Fran√ßa, 1944; It√°lia, 1945; B√©lgica, 1948; Cro√°cia e Eslov√™nia 1945; Alb√Ęnia, 1946; Iugosl√°via, 1947). Em 1948, a Declara√ß√£o Universal dos Direitos Humanos reconheceu a igualdade entre os sexos, assim como a igualdade entre os c√īnjuges. No entanto, campanhas foram realizadas para convencer as mulheres, em especial as de classe m√©dia e brancas, a retomarem suas posi√ß√Ķes de esposas submissas e ‘do lar’. Al√©m disso, as inst√Ęncias decis√≥rias (na pol√≠tica, nas igrejas, nas ind√ļstrias, nas ci√™ncias, na justi√ßa, etc.) seguiam sob o controle de homens, na maioria brancos e com maior poder aquisitivo.

Em muitos pa√≠ses da √Āfrica, do Caribe e do sudoeste asi√°tico, lutas por emancipa√ß√£o do jugo colonialista intensificaram-se, resultando na independ√™ncia de muitos deles. Na d√©cada de 1960, os l√≠deres pol√≠ticos dos Estados Unidos e as parcelas mais racistas e sexistas da popula√ß√£o estadunidense foram sacudidas pela luta pelos direitos civis, protagonizada por uma grande parte da sua popula√ß√£o (mulheres e negros). Na Am√©rica Latina, por sua vez, golpes de Estado deram origem a governos militares e ditatoriais. 

Paralelamente, algo in√©dito ocorria nos pa√≠ses que investiram em um projeto de ensino universal e no qual in√ļmeras mulheres haviam se inserido: uma nova gera√ß√£o de mo√ßas minimamente ou muito instru√≠das circulava por essas realidades sociais. Livros e textos com conte√ļdo feminista atingiam um n√ļmero crescente de pessoas. Estudos sobre as mulheres e Estudos Feministas come√ßavam a ser organizados, propondo novos temas e questionando os conte√ļdos tradicionais.

A obra O segundo sexo, publicada por Simone de Beauvoir em 1949 e traduzida para outras l√≠nguas, circulava. Nela evidenciava-se o fato de alguns intelectuais homens terem designado a si mesmos como representantes da humanidade e definido ‚Äúa mulher‚ÄĚ como algo diferente de si e inferior. Al√©m disso, Beauvoir denunciava ser produto da domina√ß√£o masculina aquilo que se acreditava ser a ess√™ncia de uma mulher. Em 1963, Betty Friedan publicou A m√≠stica feminina, apontando o papel da publicidade e do sistema educacional no convencimento e restri√ß√£o das mulheres √†s tarefas dom√©sticas. Friedan discutia, igualmente, o ‚Äúmal que n√£o tem nome‚ÄĚ, vivido como um sentimento de perda de sentido da vida e identidade pelas mulheres restritas ao modelo da mulher ‚Äúdo lar‚ÄĚ. O livro foi editado in√ļmeras vezes e traduzido para outras l√≠nguas. Nas d√©cadas seguintes houve uma explos√£o de livros e textos feministas em v√°rios pa√≠ses, abordando temas distintos e variados. A arte feminista tamb√©m irrompeu na forma de filmes, m√ļsicas, pe√ßas de teatro, instala√ß√Ķes‚Ķ

A ideia de que a sororiedade entre mulheres era algo necess√°rio e importante come√ßou a difundir-se. Kathie Sarachild a defendeu em um panfleto de 1968 contendo um discurso para a primeira a√ß√£o p√ļblica do grupo ‚ÄúMulheres Radicais de Nova York‚ÄĚ. Nele, cunhou a express√£o ‚Äúa irmandade de mulheres √© poderosa‚ÄĚ (sisterhood is powerful). Dois anos depois, Robin Morgan editou uma colet√Ęnea de textos feministas sob esse t√≠tulo, disseminando de vez essa express√£o quanto a id√©ia contida nela.

Durante as d√©cadas de 1970 e 1980, milhares de mulheres ressurgiram na cena p√ļblica dos Estados Unidos e da Europa, nos mais variados contextos, com organiza√ß√Ķes feministas locais, estaduais e federais criadas ou fortalecidas naquele per√≠odo. Um importante jornal da Fran√ßa noticiou que ‚ÄúPor toda a Europa Ocidental, de maneira simult√Ęnea, por mais de dois anos, na Inglaterra, Holanda, Su√©cia, Dinamarca, Alemanha, Fran√ßa e agora na It√°lia, grupos de mulheres se formaram espontaneamente para pensar em maneiras de lutar contra a sua opress√£o‚ÄĚ (La Liberation, 1970).

Disponível em: https://liberationschool.org/feminism-and-the-mass-movements-1960-1990/

 

Em outras partes do mundo, o colonialismo havia relegado, por meio de suas leis e pol√≠ticas, a uma condi√ß√£o de inferioridade as mulheres dos pa√≠ses que explorava, al√©m de ter forjado uma separa√ß√£o entre as esferas p√ļblica e privada (Nakayi, Twesiime-Kirya e Kwagala, 2005, p. 267). In√ļmeros grupos de mulheres organizaram-se e, em meio √†s lutas anti-coloniais, questionaram o sexismo e o racismo a que eram submetidas (Blain, 2016; Monqid, 2016).

As ditaduras militares implantadas na Am√©rica Latina (Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolivia, Guatemala, Rep√ļblica Dominicana, Brasil), intensificaram o conservadorismo e a viol√™ncia, assim como a censura. Reuni√Ķes p√ļblicas foram proibidas ou eram vigiadas, impedindo a organiza√ß√£o de muitos grupos. Por conta disto, a luta contra a ditadura foi um dos elementos centrais dos feminismos latino-americanos, assim como a luta por melhoria das condi√ß√Ķes materiais da vida das mulheres (creches, transporte p√ļblico, luta contra a carestia etc.). 

Como consequ√™ncia das mobiliza√ß√Ķes protagonizadas em dezenas de pa√≠ses, a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas decretou o ano de 1975 como o ‚ÄúAno Internacional da Mulher‚ÄĚ e a cidade do M√©xico foi escolhida para realizar a Primeira Confer√™ncia Mundial sobre as Mulheres. No ano seguinte estabeleceu-se a D√©cada das Mulheres (1976-1985) para enfrentar as profundas desigualdades entre os sexos no campo da educa√ß√£o, da pol√≠tica, dos direitos civis, do acesso ao trabalho, das atividades dom√©sticas. O fato repercutiu em muitos pa√≠ses, inclusive no Brasil, onde grupos de mulheres fizeram avan√ßar quest√Ķes feministas mesmo sob a vigil√Ęncia dos √≥rg√£os estatais da ditadura militar (Zirbel, 2007 e Tabak, 1985). 

Grupos de conscientiza√ß√£o e atividades coletivas foram organizados em praticamente todos os continentes a fim de apoiar mulheres e motiv√°-las √† lutar por melhorias de suas condi√ß√Ķes de vida. As pautas dos grupos foram ricas e diversas: anticolonialismo, luta anti-racista, valoriza√ß√£o do trabalho dom√©stico, seguran√ßa no trabalho, educa√ß√£o, creches, licen√ßa-maternidade, lesbianismo, direitos reprodutivos (acesso a m√©todos contraceptivos, direito a aborto seguro, lutas contra programas de esteriliza√ß√£o compuls√≥ria de mulheres negras e pobres), viol√™ncia dom√©stica, ass√©dio, estupro, etc. Em meio a essa diversidade, √© poss√≠vel perceber dois pontos comuns, como bem pontuou Jo Freeman (1972): a cr√≠tica feminista da sociedade e a ideia de opress√£o.

Em sua cr√≠tica √† sociedade, os variados feminismos partiam da premissa de que mulheres e homens possuem as mesmas capacidades humanas e deveriam, por isso, ser igualmente respeitados e ter os mesmos direitos sociais, o que n√£o ocorria. Havia, ainda, o forte sentimento de que as opress√Ķes vivenciadas nos espa√ßos privados se entrela√ßavam com as desigualdades e opress√Ķes pol√≠ticas. O slogan ‚ÄúO Pessoal √© Pol√≠tico‚ÄĚ, cunhado por Carol Hanisch em um texto de 1969, exemplificava a consci√™ncia desse fen√īmeno. 

No plano da a√ß√£o, a ideia geral passar√° a ser: libertar-se da opress√£o. No entanto, para as diferentes mulheres, em suas diferentes posi√ß√Ķes sociais e experi√™ncias de vida, a opress√£o era vivenciada de maneiras distintas. Para muitas, a liberta√ß√£o no plano da sexualidade (poder ter prazer, ter mais de um parceiro sexual ou expressar sua homoafetividade, por exemplo) era central e urgente. Para outras, a quest√£o da opress√£o estava atrelada ao casamento e ao universo dom√©stico, assim como a impossibilidade de estudar ou ter uma profiss√£o. Para milhares de trabalhadoras, no entanto, o cerne do problema seguia sendo o sistema econ√īmico que as explorava: o capitalismo. E para a maioria delas, o racismo intensificava ainda mais a situa√ß√£o. 

No cen√°rio europeu e estadunidense, formas de interpretar as causas das diferentes opress√Ķes e a melhor maneira de enfrent√°-las deram origem a diferentes reflex√Ķes e pr√°ticas feministas. O feminismo radical, o feminismo socialista e o feminismo liberal costumam ser identificados como as tr√™s grandes linhas de elabora√ß√£o te√≥rica da segunda onda, o que √© verdadeiro apenas em parte, uma vez que feministas negras, latinas, l√©sbicas, anarquistas e ecologistas tamb√©m estavam produzindo suas ferramentas te√≥ricas e reflex√Ķes sobre a realidade.

Para as feministas radicais da d√©cada de 1970, a raiz da opress√£o das mulheres estava no patriarcado, um sistema de cren√ßas e organiza√ß√£o da sociedade em que os homens, enquanto categoria social, exercem poder e domina√ß√£o sobre todas as mulheres, explorando-as de diversas maneiras. A fam√≠lia e o papel da mulher na procria√ß√£o seriam a fonte prim√°ria da subordina√ß√£o feminina (Millet, 1971). 

Por sua vez, as feministas socialistas e marxistas apontavam o capitalismo como o sistema respons√°vel pela explora√ß√£o e opress√£o, identificando o advento da propriedade privada como a base da opress√£o das mulheres, implicando a sua subordina√ß√£o dentro da fam√≠lia e a explora√ß√£o tripla de suas capacidades produtivas: na reprodu√ß√£o de seres humanos, nas atividades dom√©sticas e na for√ßa de trabalho. 

Apesar de nenhum grupo de feministas identificar-se como ‘feminista liberal’ no in√≠cio da segunda onda, esta terminologia passou a ser utilizada na d√©cada de 1980. Ela designou feministas ou grupos de mulheres que lutaram por mudan√ßas pol√≠tico-jur√≠dicas-culturais como forma de enfrentamento da opress√£o e que acreditavam que a liberdade (sexual, do dom√≠nio masculino no casamento, na escolha de modos de viver, etc.) era essencial, podendo ser alcan√ßada por meio da a√ß√£o estatal e com pol√≠ticas que atendessem √†s necessidades das mulheres (punindo a viol√™ncia, criando apoios √† maternidade, eliminando a desigualdade salarial). 

Muitas feministas negras e latinas da segunda onda apontaram para o entrela√ßamento de diversas formas de opress√£o que inclu√≠am o racismo e a explora√ß√£o dos corpos de pessoas racializadas. Assim, o Coletivo Combahee River (1974), para dar apenas um exemplo, argumentava que a liberta√ß√£o das mulheres negras implicaria a liberdade de todas as pessoas, uma vez que exigia o fim do racismo, do sexismo e da opress√£o de classe. O coletivo assumia o compromisso de ‚Äúlutar contra a opress√£o racial, sexual, heterossexual e classista‚ÄĚ, tendo como tarefa ‚Äúo desenvolvimento de uma an√°lise e uma pr√°tica integradas, baseadas no fato de que os maiores sistemas de opress√£o se encadeiam‚ÄĚ (La Colectiva, 1977/1988). 

Feministas l√©sbicas, por sua vez, questionavam a imposi√ß√£o da heterossexualidade como norma e refletiam sobre a sua rela√ß√£o com o patriarcado, o capitalismo e o colonialismo. A heterossocialidade, assim como a heterossexualidade, foram tidas como aspectos de um hetero-poder a ser confrontado e resistido (Rich, 1986, p. 23). Nesse sentido, o lesbianismo era uma resposta pol√≠tica √† opress√£o e √† aliena√ß√£o produzidas por esse hetero-poder e suas institui√ß√Ķes sociais. Alguns grupos propuseram a cria√ß√£o de comunidades separatistas a fim de implantar uma vida livre da domina√ß√£o masculina.

Uma reflex√£o de cunho ecofeminista tamb√©m √© percept√≠vel no per√≠odo, estabelecendo conex√Ķes entre a opress√£o das mulheres e a explora√ß√£o da natureza. Entre essas conex√Ķes estava um sistema de pensamento dualista, racionalista e hier√°rquico que opera por meio de oposi√ß√Ķes que posicionam as mulheres, a natureza e os povos nativos de um lado (considerados inferiores) e os homens, a cultura e os colonizadores de outro (considerados superiores). 

A terceira onda?

Nos EUA, durante a d√©cada de 1980, a m√≠dia come√ßou a rotular mulheres adolescentes e na casa dos vinte anos como uma gera√ß√£o ‚Äúp√≥s-feminista‚ÄĚ, que desfrutava de certos ganhos sociais (acesso √† educa√ß√£o, a diferentes tipos de emprego‚Ķ), dando a entender, igualmente, que os objetivos do feminismo haviam sido alcan√ßados. Sob esta √≥tica, o feminismo deixava de ser algo necess√°rio. O ensaio de Rebecca Walker (1992), no entanto, documentava o sexismo persistente do in√≠cio dos anos 1990 e convocava as jovens a se unirem √† luta feminista. Nesse sentido, ela invocava uma terceira onda, ao mesmo tempo que identificava-se com ela. A partir dali, feministas estadunidenses passaram a descrever as d√©cadas seguintes como pertencentes a esta terceira onda.

√Č comum descrever a nova fase, pelo menos nos EUA, como marcada por discuss√Ķes e disputas internas, contrastando com as d√©cadas anteriores, que teriam agrupado diferentes grupos de mulheres em torno de uma identidade comum (de mulher). No entanto, essa narrativa simplifica as discuss√Ķes e os debates que acompanham a hist√≥ria do feminismo, ao mesmo tempo que fixa a cr√≠tica racial e sexual protagonizada por in√ļmeras mulheres em uma d√©cada espec√≠fica. 

Como pontuou Claire Hemmings (2009, p. 216), a desconstru√ß√£o da categoria mulher n√£o √© algo que ocorre a partir dos anos 90, mas √© uma das preocupa√ß√Ķes mais duradouras para a maioria das feministas, de distintas √©pocas. Confrontos e discuss√Ķes entre feministas sobre o que hoje chamamos de ‘pautas identit√°rias’ (ou sobre a defini√ß√£o de mulher) acompanharam o feminismo desde antes da primeira onda. No entanto, esse fato foi apagado ou minimizado por meio da a√ß√£o da m√≠dia, que sempre deu destaque para as experi√™ncias e narrativas de mulheres brancas de classe m√©dia, como apontou hooks (hooks, 2015 e 2018, cap. 2). 

Feministas latinas, negras, revolucion√°rias, prolet√°rias, l√©sbicas, pr√≥-sexo, antipornografia (dentre outras) fomentaram o debate feminista por todo o s√©culo XX, evidenciando a grande diversidade do feminismo (de indiv√≠duos, grupos, pautas, estrat√©gias). √Č poss√≠vel dizer que, com o avan√ßo das novas tecnologias da comunica√ß√£o, esses grupos conquistaram maior visibilidade no in√≠cio da d√©cada de 1990, ao lado das feministas brancas e de classe m√©dia que as m√≠dias tradicionais colocavam em evid√™ncia. Al√©m disso, as ferramentas conceituais elaboradas na d√©cada anterior, como os conceitos de g√™nero, interseccionalidade, consubstancialidade do poder, conhecimento situado, e v√°rios outros, ultrapassavam as barreiras da academia, onde haviam sido cunhados.

Quest√Ķes que eram pensadas em pequenos grupos (como os problemas atrelados ao capacitismo e ao etarismo ou enfrentados por pessoas trans e feministas comunitaristas e ind√≠genas) entraram na pauta de variados grupos de feministas. As ferramentas te√≥ricas possibilitaram um aprofundamento da an√°lise das variadas e simult√Ęneas formas de opress√£o vivenciadas por uma mesma mulher, assim como da quest√£o das diferen√ßas e da diversidade internas ao movimento feminista. As novas m√≠dias, por sua vez, possibilitaram a dissemina√ß√£o dessas an√°lises e ideias para al√©m das fronteiras locais de uma maneira acelerada.

Ao inv√©s de pensar o que ocorria nos grupos de mulheres (feministas ou n√£o) do final do s√©culo XX como uma terceira onda do feminismo, podemos pensar esse fen√īmeno como formativo da terceira onda, que surge uma ou duas d√©cadas depois na forma de grandes mobiliza√ß√Ķes transnacionais. Esta √© a vis√£o de feministas como Cinzia Arruzza (2019), Barbara Molony e Jennifer Nelson (2017), com as quais tamb√©m me alinho. Apesar de Walker ter reivindicado fazer parte de uma terceira onda feminista em seu pa√≠s, no in√≠cio da d√©cada de 1990, podemos pensar que este era o seu desejo, mas a onda ainda n√£o estava formada, vindo a formar-se apenas d√©cadas mais tarde. Se usarmos o crit√©rio das ‚Äúmanifesta√ß√Ķes em massa‚ÄĚ para tipificar uma onda, isso fica ainda mais evidente, inclusive para os Estados Unidos. 

Em uma escala mais global, a segunda onda pode ser pensada como estendendo-se por um longo per√≠odo (de 1940 at√© o in√≠cio do s√©culo XXI), assim como ocorrera com a primeira. Talvez seu ponto mais vis√≠vel tenha sido as manifesta√ß√Ķes de rua das d√©cadas de 1960 e 1970, em determinados pa√≠ses, mas ela seguiu refletindo no campo das artes, na forma√ß√£o de centros de pesquisa sobre a condi√ß√£o das mulheres, em milhares de publica√ß√Ķes, no ingresso de feministas em variadas inst√Ęncias de poder, na mudan√ßa de leis e costumes, no amadurecimento de discuss√Ķes e teorias etc.

Na virada do s√©culo XX para o XXI havia uma forte presen√ßa do feminismo em todos os continentes e uma forte atua√ß√£o de feministas jovens, muitas delas engajadas nas m√≠dias sociais (Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr, YouTube e blogs). O uso das m√≠dias sociais para mobiliza√ß√£o ou conscientiza√ß√£o tem sido uma caracter√≠stica marcante dessa nova onda. 

Pautas antigas foram acentuadas, de acordo com o contexto das jovens feministas. Para aquelas a quem o acesso √† educa√ß√£o, ao saneamento, ao aborto seguro, ao div√≥rcio, √† mobilidade b√°sica estavam garantidos por lei, foi poss√≠vel focar mais intensamente em outras quest√Ķes. Para as que n√£o viviam esse tipo de realidade, foi necess√°rio seguir lutando por direitos m√≠nimos de cidadania. Outras pautas seguiram sendo comuns √† maioria: a luta contra a explora√ß√£o, a viol√™ncia f√≠sica e psicol√≥gica, o feminic√≠dio, a discrimina√ß√£o no trabalho, as jornadas duplas ou triplas, os privil√©gios masculinos.

No ano de 2000, foi organizada a Marcha Mundial de Mulheres, um movimento feminista internacional que contou com a ades√£o de seis mil grupos de mais de 150 pa√≠ses e que produziram um documento assinado por 5 milh√Ķes de pessoas, entregue de forma simb√≥lica √† ONU. Dentre as principais reivindica√ß√Ķes estavam o enfrentamento da pobreza e da viol√™ncia contra as mulheres. A Marcha seguiu, desde ent√£o, organizada de forma global e com atividades nacionais. No Brasil, este ano tamb√©m marcou a primeira Marcha das Margaridas, que reuniu cerca de 20 mil agricultoras, quilombolas, ind√≠genas, pescadoras e extrativistas que lutam contra a fome, a pobreza e a viol√™ncia sexista e defendem o desenvolvimento sustent√°vel, a justi√ßa social e a democracia.

As quest√Ķes do ass√©dio (na rua, no trabalho, no transporte p√ļblico, nos espa√ßos de lazer), da misoginia, das agress√Ķes sexuais e dos estupros apareceram como motor de v√°rias manifesta√ß√Ķes virtuais e de rua pelo mundo (√ćndia, Canad√°, Chile, EUA, China, Filipinas). No Brasil foram exemplo disso as campanhas #MeuPrimeiroAss√©dio, #MeuAmigoSecreto e #Agora√ČQueS√£oElas e no plano mais global pode-se citar o movimento #MeToo, que resultou em mais de 12 milh√Ķes de postagens virtuais em apenas vinte e quatro horas, em abril de 2017. As postagens incentivaram o debate sobre o ass√©dio e a cultura do estupro. Apesar da √™nfase dada a importantes figuras da m√≠dia, trata-se de um problema generalizado e agudo vivido por mulheres dos mais variados segmentos, nos lares e nos ambientes de lazer e trabalho, submetidas, muitas vezes, a rela√ß√Ķes abusivas por seus familiares, chefes e colegas.

Manifesta√ß√Ķes contra a viol√™ncia sexual e o feminic√≠dio despontaram nas ruas de in√ļmeros pa√≠ses, como ocorreu em 03 de junho de 2015 em oitenta cidades argentinas sob a bandeira ‚ÄúNenhuma a Menos‚ÄĚ. As manifesta√ß√Ķes repetiram-se nos anos seguintes e estenderam-se pela Am√©rica Latina (Uruguai, Chile, Brasil, Equador, Col√īmbia, Venezuela, Per√ļ, Nicar√°gua), atingindo tamb√©m a Europa (It√°lia, Fran√ßa, Alemanha, Turquia, B√©lgica). Da mesma forma, a luta pela garantia de direitos reprodutivos levou √†s ruas de S√£o Paulo 15 mil brasileiras para barrar um Projeto de Lei (5069/2013) visando restringir o direito ao aborto previsto em lei. O epis√≥dio passou a ser conhecido como ‚Äúprimavera feminista‚ÄĚ ou ‚Äúa primavera das mulheres‚ÄĚ e foi organizado nas redes sociais. 

No dia 08 de mar√ßo de 2017, um dia global de mobiliza√ß√£o e greves de mulheres foi organizado por um feminismo transnacional, vindo a chamada a se repetir nos anos seguintes. A Espanha registrou uma enorme manifesta√ß√£o em 2018, assim como a Argentina e a It√°lia. As greves pontuaram, em especial, a precariza√ß√£o crescente do trabalho, a desigualdade salarial, as atividades de cuidado n√£o pagas, os feminic√≠dios, a viol√™ncia de g√™nero, os encarceramentos em massa, o racismo, a destrui√ß√£o dos ecossistemas e a mudan√ßa clim√°tica, dentre outros. Defenderam, igualmente, a autodetermina√ß√£o, a liberdade sexual e o acesso ao aborto seguro e legal nos pa√≠ses em que isso n√£o ocorria. 

Em junho 2018, uma ‚Äúmar√© verde‚ÄĚ formou-se em torno do congresso argentino, com cerca de um milh√£o de pessoas, na grande maioria mulheres, demandando o aborto legal, seguro e gratuito. No mesmo ano ocorreu o que pode ter sido a maior manifesta√ß√£o de rua da hist√≥ria do Brasil protagonizada por mulheres, resultante de uma mobiliza√ß√£o feminista em rede. Sob o slogan #EleN√£o, as brasileiras manifestaram-se em 160 cidades, incluindo as maiores capitais do pa√≠s (S√£o Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador), com o intuito de impedir o avan√ßo de um candidato √† presid√™ncia abertamente mis√≥gino, homof√≥bico, racista e antidemocr√°tico. No facebook, o grupo ‚ÄúMulheres Unidas contra Bolsonaro‚ÄĚ chegou a contar com mais de tr√™s milh√Ķes de integrantes. Em mar√ßo de 2020, uma manifesta√ß√£o de quase dois milh√Ķes de mulheres ocupou a pra√ßa central de Santiago, no Chile, denunciando e posicionando-se contra a viol√™ncia sexual. 

A irrup√ß√£o da pandemia causada pelo coronav√≠rus no ano de 2020 levou √† brusca diminui√ß√£o das grandes manifesta√ß√Ķes de rua que vinham marcando as duas d√©cadas do s√©culo XXI, mas a onda feminista que se formou segue ativa nas redes sociais. O uso de blogs, sites, p√°ginas e perfis nas redes sociais segue em funcionamento para criar conscientiza√ß√£o e aprofundar debates.

Apesar das diferen√ßas de contexto e de experi√™ncia de milit√Ęncia, v√°rios grupos de feministas t√™m produzido uma agenda interseccional pautada nas lutas anti-sexistas, anti-racistas, anti-capitalistas, anti-homof√≥bicas, decolonialistas e ecofeministas. Possuem em comum o enfrentamento de formas complexas e entrela√ßadas de viol√™ncia e opress√£o perpetradas por um sistema que poder√≠amos chamar de patriarco-capitalo-racista de domina√ß√£o. Para enfrent√°-lo, uma articula√ß√£o internacional tem sido organizada e fortalecida a cada ano.

Quais ser√£o os rumos dessa terceira onda ainda √© dif√≠cil prever. Possivelmente novos arranjos e ideias surgir√£o em seu bojo, assim como pautas antigas seguir√£o revisitadas visto a realidade social seguir marcada por desigualdades, opress√Ķes, explora√ß√Ķes e viol√™ncias que afetam profundamente a vida de milh√Ķes de mulheres. 

A met√°fora da onda nos √© √ļtil?

Narrar as movimenta√ß√Ķes feministas pelo mundo por meio da met√°fora da onda pode suscitar problemas, dependendo da maneira como essas narrativas s√£o constru√≠das. Al√©m do que j√° foi citado na primeira se√ß√£o deste texto, e que diz respeito √† uma narrativa focada apenas em um grupo de mulheres brancas, de determinada classe e local geogr√°fico, Nancy Hewitt (2010) aponta para um outro perigo: o das narrativas que produzem ‚Äúzonas livres de feministas‚ÄĚ, ao focarem apenas em determinadas d√©cadas consideradas as d√©cadas ‚Äúda onda‚ÄĚ. Uma outra quest√£o importante diz respeito √† cren√ßa em um ‚Äúprogresso‚ÄĚ do pensamento ou das posturas feministas. Tal cren√ßa tende a diminuir ou desqualificar a a√ß√£o de feministas de tempos passados ao mesmo tempo que corre o risco de considerar as suas pautas como superadas.

Apesar dos problemas apontados – e, com certeza, poderemos nomear outros -, a met√°fora da onda possui uma for√ßa imag√©tica capaz de criar conex√Ķes com o passado e com o futuro em meio √† luta de variadas gera√ß√Ķes de feministas, em sua grande diversidade, resist√™ncia, criatividade e for√ßa. Ela nos permite inscrever diferentes gera√ß√Ķes de feministas – e seus esfor√ßos – em uma longa e cont√≠nua hist√≥ria de lutas contra a discrimina√ß√£o, a opress√£o e a explora√ß√£o, assim como pela melhoria das condi√ß√Ķes de vida e aquisi√ß√£o ou manuten√ß√£o de direitos civis. Muitas vezes essas lutas avan√ßam pelo tecido social de forma arrebatadora e, em determinados momentos, recuam ou diminuem em for√ßa – como ocorre nos momentos de refluxo da √°gua do mar. Contudo, a met√°fora da onda nos permite pensar, igualmente, que o feminismo n√£o desaparece nos momentos em que n√£o h√° grande movimenta√ß√£o na cena p√ļblica, mas segue em atividade, possivelmente re-organizando-se e ganhando suficiente for√ßa para um novo e significativo avan√ßo. Tempos de ‚Äúcalmaria‚ÄĚ (ou de persegui√ß√£o e silenciamento) n√£o implicam, necessariamente, o fim da indigna√ß√£o, da esperan√ßa e do desejo de melhorar as condi√ß√Ķes de vida materiais e simb√≥licas nas quais nos encontramos.

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