Neusa Santos Souza

(1951 ‚Äď 2008)

 

PDF – Neusa Santos Souza

Fonte: Léa Freire/acervo pessoal

 

por √Črico Andrade, professor associado da Universidade Federal de Pernambuco¬† – Lattes¬†e

Priscilla Santos de Souza, doutoranda em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S√£o Paulo – Lattes

Baiana de Cachoeira, no rec√īncavo baiano, Neusa Santos Souza nasceu em 30 de mar√ßo de 1951, e n√£o em 1948, como encontramos em diversos lugares que falam da autora. Essa informa√ß√£o foi esclarecida recentemente por sua afilhada, Lu√≠za Nasciutti, que √© tamb√©m pesquisadora e faz, atualmente, seu doutorado em ci√™ncias sociais, sob o t√≠tulo ‚ÄúTornar-se NEUSA: Ra√ßa, subjetividade e mem√≥ria a partir da trajet√≥ria e obra de Neusa Santos Souza”, isso para dizer dos enigmas e transmiss√Ķes da mulher e intelectual que continua a inspirar a dizer sobre sua obra, sua vida. Ela viveu em uma fam√≠lia fortemente marcada pela religi√£o de matriz africana, o Candombl√©, e pela cultura afro-brasileira. De uma fam√≠lia simples, pobre, ela sai do rec√īncavo e, ainda muito jovem, entra na Faculdade de Medicina em Salvador e escolhe, fruto de suas afeta√ß√Ķes com o tema, a √°rea da psiquiatria, tendo se formado em 1070. Sabemos pouco a respeito de sua vida antes de ingressar na faculdade, bem como temos poucas informa√ß√Ķes sobre sua fam√≠lia.¬†

Faleceu em 20 de dezembro de 2008, no Rio de Janeiro. A constrangedora cena do seu enterro, onde um funcion√°rio do cemit√©rio perguntou se tinha algu√©m da fam√≠lia para guardar o n√ļmero da l√°pide e teve como resposta o sil√™ncio, transmite uma solid√£o, palavra t√£o marcada na vida de mulheres negras e que pouco representa as descri√ß√Ķes dos amigos de Neusa Santos Souza ao relatarem sua receptividade e alegria em partilhar sua casa e vida com os mais pr√≥ximos. O que podemos e desejamos dizer, √© sobre a sua trajet√≥ria cl√≠nica, pol√≠tica e intelectual que se desenvolve agudamente com a sua ida ao Rio de Janeiro, que √© a cidade na qual ela foi enterrada aos 57 anos de idade.

Neusa Santos Souza decide ir ao Rio de Janeiro continuar os seus estudos. De forma surpreendente, sem ter passado pelo curso de especializa√ß√£o, trajet√≥ria quase obrigat√≥ria para conseguir entrar no mestrado, ela adentra a p√≥s-gradua√ß√£o e, com um tema que trouxe grandes debates dentro dos circulos psicanaliticos e do movimento negro no per√≠odo, defende sua disserta√ß√£o em 1981, que vir√° a se tornar o livro que, 42 anos depois, √© retomado como leitura imprescind√≠vel para pensar a psican√°lise e as rela√ß√Ķes raciais no Brasil. Na bel√≠ssima disserta√ß√£o de William Pereira Penna, ‚ÄúEscreviv√™ncias sobre a mem√≥ria de Neusa Santos Souza‚ÄĚ, de 2019, encontramos not√≠cias da trajet√≥ria da vida da psiquiatra entusiasmada, rec√©m chegada no Rio de janeiro, que se envolve em uma s√©rie de atividades relacionadas √† psican√°lise. Vinculou-se ao Instituto Brasileiro de Psican√°lise, Grupos e Institui√ß√Ķes (IBRAPSI), em que a forma√ß√£o se articulava com sindicatos, partidos pol√≠ticos, movimentos sociais com perspectivas de atua√ß√£o institucional. Tamb√©m se vinculou ao N√ļcleo de Atendimento Terap√™utico, o NAT, ao lado de Jurandir Freire. O n√ļcleo era coordenado por Katarina Kemper e H√©lio Pellegrino. De l√°, seguiu para o Centro Psiqui√°trico Pedro II ‚ÄĒ atual IMAS Nise da Silveira ‚ÄĒ que foi local de aglutina√ß√£o de muitos psiquiatras militantes que come√ßavam a construir uma das primeiras experi√™ncias da reforma psiqui√°trica no Brasil. Nesse meio tempo, ela passou pelo Hospital do Engenho de Dentro, de que saiu ap√≥s grandes diverg√™ncias quanto ao tratamento ali aplicado, num momento importante na reforma psiqui√°trica.

Na √ļltima entrevista concedida por Neusa Santos Souza ela assim se apresenta:¬†

Meu nome é Neusa Santos Souza. Sou psiquiatra, psicanalista. Vivo aqui no Rio e faço clínica psicanalítica e também tenho uma atividade de ensino, de transmissão. Eu trabalho dando seminários clínicos num hospital chamado Casa Verde, que é um hospital para pacientes graves, e a referência, assim, fundamental, talvez, na minha trajetória seja o fato de eu ter escrito Tornar-se Negro, que foi a rigor uma dissertação de mestrado e que virou um livro e que parece que hoje ainda é uma referência. As pessoas continuam me procurando muito em função desse livro e enfim, foi um livro que escrevi, portanto, há 25 anos (Souza, Programa espelho, 2008).

Apesar de nessa entrevista o sorriso acompanhar as suas palavras, Neusa Santos Souza parecia guardar certa dist√Ęncia de sua obra seminal Tornar-se Negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens√£o social, quando destacava que o seu livro j√° tinha 25 anos naquela que seria a sua √ļltima entrevista, dada ao programa Espelho. Neusa Santos Souza:¬†

Eu acho que √© porque eu me detive, depois disso, no estudo de uma quest√£o tamb√©m muito marginal que √© a quest√£o dos loucos. Eu me detive em estudar e trabalhar e me desenvolver nessa dire√ß√£o. Ent√£o eu mergulhei fundo na quest√£o da psicose, inclusive escrevi um livro tamb√©m sobre a psicose e me detive nisso. Quer dizer, a quest√£o racial est√° a√≠, est√° presente na minha vida ela √© cotidiana, ent√£o eu estou confrontada com essa quest√£o. Mas eu me recusei ‚ÄĒ e hoje √© realmente uma exce√ß√£o ‚ÄĒ a falar nessa quest√£o por que eu n√£o estou na milit√Ęncia cotidiana, aquela milit√Ęncia organizada. Ent√£o tem muita gente, muitas pessoas que est√£o nessa milit√Ęncia e eu acho que √© hora de elas falarem, mesmo porque de direito elas t√™m muito mais raz√£o de falar do que eu (Souza, 2008).

 

A recusa sistem√°tica em falar do texto parecia se apresentar como uma forma de datar as ideias que ele continha ou pelo menos parecia mostrar um abandono da pretens√£o de que a psican√°lise poderia contribuir para uma discuss√£o sobre o sofrimento racial. Ela destaca que faz tempo que publicou o texto com aparente intuito de dizer: passou. Foi outro momento. ‚ÄúN√£o me atenho mais a esse tema‚ÄĚ, insistiria ela ao longo da entrevista e na sua pr√≥pria atitude de se recusar a dar entrevistas sobre o livro Tornar-se Negro.¬†

Assim, escrever sobre Neusa Santos Souza, como Maria Lucia da Silva fala em seu pref√°cio da nova edi√ß√£o de Torna-se negro, ‚Äú√© uma honra e um grande desafio‚ÄĚ (Souza, 2021, p.05). Uma honra em poder recuperar sua mem√≥ria, escritos, e destacar sua contribui√ß√£o intelectual depois de anos de sil√™ncio sobre temas e textos que lhe foram importantes e permanecem, ainda hoje, insistindo em repetir. Um desafio pois, diante de sua morte prematura e inesperada, marcada pelo suic√≠dio, de algu√©m que √© descrita pela marca do sorriso, da amizade e generosidade em seus encontros. Mas tamb√©m por suas declara√ß√Ķes em entrevista ao programa Espelho, que tinha como foco principal seu livro de um ‚Äúpassado‚ÄĚ onde ela se reconhecia como militante e que, apesar de ‚Äúbem feito‚ÄĚ, n√£o era mais objeto de suas inquieta√ß√Ķes e dedica√ß√£o. Definitivamente n√£o √© uma tarefa f√°cil. Diante disso nos restam algumas apostas, uma delas √© insistir em pensar a obra de Souza com foco no seu √ļnico livro escrito sobre o tema do racismo sem desconsiderar os seus artigos posteriores que t√™m outras tem√°ticas como fio condutor, nem muito menos o seu livro introdut√≥rio sobre psicose a partir da obra de Lacan. O nosso desafio √© apresentar a obra da autora com foco no livro que ela n√£o retomou, e, ao mesmo tempo, mostrar que seus artigos e sua breve introdu√ß√£o √† psicose tanto carregam quest√Ķes novas como n√£o deixam de dialogar, ainda que indiretamente, com Tornar-se Negro.

A recusa sistem√°tica em falar do tema central do seu livro, Tornar-se Negro, n√£o parecia ser apenas um acerto de contas com a ideia, imposta pela branquitude, de que as pessoas negras s√≥ poderiam falar sobre o racismo. Sem d√ļvida n√≥s, pessoas negras, estamos acostumadas a sermos convocadas para falar das marcas do racismo em nossa subjetividade como se n√£o tiv√©ssemos quest√Ķes, contradi√ß√Ķes, conflitos, dilemas e sofrimentos que n√£o se reduzem √† esfera do racismo. √Č imposs√≠vel n√£o acolher essa reinvindica√ß√£o porque ela comp√Ķe, entre outras coisas, a luta antirracista. Souza n√£o precisaria mais falar do racismo. Certo.

No entanto, a sua fala na √ļltima entrevista se revelar√° mais contundente. Ela diz que ‚Äún√£o republicaria o livro‚ÄĚ. A pergunta que um texto sobre a obra dessa pensadora tem que enfrentar √©: Por que Neusa Santos Souza n√£o faria uma nova reedi√ß√£o do seu livro? Lembrando contudo que, paradoxalmente e a despeito de sua vontade, Tornar-se Negro foi republicado em 2021 pela editora Zahar. Por que ela n√£o desejava voltar para as quest√Ķes raciais por meio da psican√°lise?

Duas indica√ß√Ķes parecem estar presentes na fala dela. Com essas indica√ß√Ķes iremos apresentar a sua obra no presente verbete. Por um lado, Souza faz uma defesa de um limite da psican√°lise no que diz respeito √†s ‚Äúgeneraliza√ß√Ķes‚ÄĚ de car√°ter social, mais precisamente no que concerne √† explica√ß√£o do racismo. A psican√°lise teria, nesse caso, um limite de natureza epistemol√≥gica. Por outro, ela entende que a psican√°lise √© radicalmente uma pr√°tica do singular e, nesse caso, ela s√≥ faria sentido como uma atividade eminentemente cl√≠nica. Aqui, temos uma compreens√£o da psican√°lise circunscrita ao cuidado com a sa√ļde mental. Esses dois pontos est√£o correlacionados e ser√£o desenvolvidos ao longo do presente texto, mas vamos primeiro mostrar como Neusa Santos Souza pensou inicialmente a psican√°lise como uma teoria cr√≠tica da ideologia, a exemplo de outros pensadores e pensadoras que em geral faziam uma aproxima√ß√£o entre psican√°lise e marxismo.¬†

Em Tornar-se Negro, Souza envereda pela an√°lise da ideologia e da sua rela√ß√£o com o processo de subjetiva√ß√£o das pessoas negras. A obra se divide em seis cap√≠tulos. Os tr√™s primeiros cap√≠tulos s√£o dedicados √† rela√ß√£o entre ideologia e racismo, ao passo que os dois seguintes s√£o dedicados ao relato e an√°lise das entrevistas feitas com as pessoas negras em ascens√£o social. No √ļltimo cap√≠tulo √© apresentada a metodologia do trabalho ‚ÄĒ presente por se tratar de uma disserta√ß√£o de mestrado.

Quando decide tratar do conceito de ideologia numa obra de psican√°lise, Neusa Santos Souza se filia a uma leitura corrente na √©poca, qual seja, a leitura da obra de Louis Althusser. √Č com base no conceito de ideologia daquele pensador que Neusa Santos Souza ir√° promover uma importante reorienta√ß√£o tanto no debate no interior da pr√≥pria psican√°lise quanto no debate sobre o pr√≥prio conceito de ideologia. Ela oferece uma fina defini√ß√£o de ideologia que articula as quest√Ķes de classe com as quest√Ķes de ra√ßa. √Č nessa perspectiva que √© poss√≠vel notar que n√£o se trata de reproduzir o conceito de ideologia, tal como formulado por Althusser, mas de orient√°-lo para a quest√£o da ra√ßa, uma vez que, no contexto brasileiro, ra√ßa informa a pr√≥pria compreens√£o de classe. Ou seja, a compreens√£o de Althusser de que a ideologia se inscreve sobretudo na economia libidinal, ou poder√≠amos dizer nas formas pelas quais se organiza a circula√ß√£o dos afetos, √© ampliada por Souza quando p√Ķe em cena a ra√ßa como aquilo que enquadra a circula√ß√£o dos afetos ou daquilo que ela chama de emocionalidade no seio da sociedade brasileira.

Para Neusa Santos Souza a ‚Äúemocionalidade‚ÄĚ das pessoas negras no modo como elas tra√ßam as suas pr√≥prias narrativas de si e dos seus processos de subjetiva√ß√£o √© marcada pela ideologia da branquitude. As suas palavras precisam ser citadas:¬†

Convém explicar que raça aqui é entendida como noção ideológica, engendrada como critério social de distribuição e posição na classe e na cultura. Apesar de estar fundamentada em qualidades biológicas, principalmente a cor de pele, raça sempre foi definida no Brasil em termos sociais de atributo social compartilhado por um determinado grupo social, tendo em comum uma mesma gradação social, um mesmo contingente de prestígio e mesma bagagem e valores culturais (Souza, 2021, p.48). 

 

A ideologia se refere, nesse contexto, aos valores que orientam a vida social.

O ponto principal da autora √© que a pessoa negra introjeta a inferioridade atribu√≠da ao negro na mesma propor√ß√£o que o ideal da branquitude determina, de modo impositivo, a √ļnica forma de se conferir identidade humana a uma pessoa. Isto √©, a ideologia que a branquitude imp√Ķe √© que a √ļnica forma de reconhecimento de si √© por meio da assimila√ß√£o dos valores da branquitude. Neusa Souza mostra que n√£o tem como passar por gente sem se passar por branco: vestir, portanto, a ‚Äúm√°scara branca‚ÄĚ, para recuperar aqui a express√£o que d√° t√≠tulo a obra de Fanon e que aponta para o embranquecimento como uma estrat√©gia de sobreviv√™ncia das pessoas negras numa sociedade de hegemonia branca.

Para desfazer a ideia de que o racismo √© apenas uma quest√£o de classe, conforme certa compreens√£o do marxismo poderia levar a acreditar, a autora argumenta que o racismo informa os modos de subjetiva√ß√£o das pessoas no Brasil. Em seu livro Tornar-se negro, ela apresenta dez entrevistados, entre homens e mulheres, que preenchem o requisito de serem negros, brasileiros e em condi√ß√£o de mobilidade social ascendente. A sua ideia consistia em demonstrar que mesmo pessoas negras que conseguiram mudar de classe social continuavam sendo v√≠timas do racismo. √Č nesse sentido que ela escreve:¬†

A hist√≥ria social da ascens√£o do negro brasileiro √©, assim, a hist√≥ria de sua assimila√ß√£o aos padr√Ķes brancos de rela√ß√Ķes sociais. √Č a hist√≥ria da submiss√£o ideol√≥gica e um estoque racial em presen√ßa de outro que se fez hegem√īnico. √Č hist√≥ria de uma identidade renunciada, em aten√ß√£o √†s circunst√Ęncias que estipulam o pre√ßo do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua nega√ß√£o (Souza, 2021, p.53).¬†

 

A afirma√ß√£o da branquitude como universal e par√Ęmetro para o humano implica, por um lado, a constru√ß√£o da ra√ßa negra e, por outro, a sua pr√≥pria ren√ļncia. √Č sobre essa ambival√™ncia que a obra se envereda.

O ponto central √© que, mesmo ascendendo socialmente, a pessoa negra √© negra, ou seja, permanece racializada. Nisso, Neusa Santos Souza segue a posi√ß√£o de Fanon que diz que a pessoa negra √© sempre identificada como negra numa sociedade marcada pela hegemonia branca, independentemente de sua classe social. Mesmo com capital, decorrente da ascens√£o social, a epiderme ‚ÄĒ para usar outra express√£o de Fanon ‚ÄĒ mant√©m-se como crit√©rio de demarca√ß√£o racial e, claro, de exclus√£o social. A alternativa para a sociabiliza√ß√£o √© a nega√ß√£o da origem. Nessa nega√ß√£o da hist√≥ria em que, segundo Souza, ele se afasta ‚Äúdos seus valores originais, representados fundamentalmente por sua heran√ßa religiosa, o negro tomou o branco como modelo de identifica√ß√£o, como √ļnica possibilidade de tornar-se ‚Äėgente‚Äô‚ÄĚ (Souza, 2021, p.46). A afirma√ß√£o de algo requer a nega√ß√£o de outra coisa. Afirma-se, neste caso, a identidade entre ser branco e a humanidade para obrigar as pessoas negras a viverem os par√Ęmetros da branquitude.

De algum modo o mito do negro √©, segundo Souza, a cria√ß√£o do negro e a sua ren√ļncia. Ela √© precisa quando diz que o mito √© ‚Äúuma converg√™ncia de determina√ß√Ķes econ√īmica-pol√≠tico-ideol√≥gicas e ps√≠quicas‚ÄĚ (Souza, 2021, p.54), gra√ßas √†s quais se cria o negro como contraponto ao branco.¬†

Para Souza, a ‚Äúdescoberta‚ÄĚ de ser negra √© mais que a constata√ß√£o do √≥bvio (descortinar os v√©us):

Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades (Souza, 2021, p.54)

 

O reconhecimento da especificidade da condi√ß√£o da pessoa negra leva Neusa Souza a posicionar racialmente alguns conceitos da psican√°lise. Ela sublinha dois: o narcisismo e o ideal do ego. Primeiramente, o ideal do ego para o negro √© branco (Souza, 2021, p.65) porque ele concentra em si todos os predicados por meio das quais o reconhecimento se d√° em termos positivos, dado estarem diretamente ligados aos estamentos com destaque social. H√° uma indissociabilidade entre o fator econ√īmico e ideol√≥gico, independentemente da ascens√£o econ√īmica a pessoa negra permanece no estigma de inferioridade cujo lugar, a psican√°lise neste ponto tem raz√£o, se inicia no seio das rela√ß√Ķes familiares (Souza, 2021, p.69).

A tend√™ncia das pessoas negras √©, portanto, de se negarem, por meio de uma adapta√ß√£o √† branquitude ou por um processo de autodeprecia√ß√£o. Nesse sentido, a puni√ß√£o supereg√≥ica incide sobre as pessoas negras, especialmente num ambiente de classe alta. Ao ser humilhada por um grupo de pessoas brancas, uma das entrevistadas de Neusa Souza se declara impotente diante dessa estrutura de imposi√ß√£o e o caminho para a melancolia √© aberto. O ponto √© que mesmo num ambiente de classe alta os afetos s√£o crivados pela ra√ßa, de sorte que rela√ß√Ķes s√£o rompidas por press√£o familiar que √©, na verdade, press√£o racial. No entanto, persiste o desejo, n√£o raramente frustrado, como norma de conduta supereg√≥ica em virtude da qual a autodeprecia√ß√£o √© sintonizada com a manuten√ß√£o do ideal do ego, em que as refer√™ncias do bom, do belo, os s√≠mbolos de bem e mal, do que devemos ser ou n√£o ser em uma sociedade, est√£o diretamente relacionados √†s caracter√≠sticas de que pessoas brancas t√™m o valor do bom e idealizado e as pessoas negras do que √© ruim e, portanto, indesejado. Em outras palavras, as normas de conduta social constrangem as pessoas negras a se auto desvalorizarem por n√£o corresponderem aos ideais da branquitude.

N√£o se trata de um fen√īmeno isolado e isso condena muitas vezes a pessoa negra a assumir as fantasias ou m√°scaras brancas que lhe s√£o impostas pela branquitude. Com essa chave de leitura podemos entender porque Lu√≠sa (entrevistada por Neusa Souza) incorpora o fetiche da mulher negra sedutora. O recurso de sobreviv√™ncia das pessoas negras muitas vezes √© vestir a m√°scara branca ou estar de acordo com a expectativa que a branquitude deposita sobre elas. E quando as pessoas negras, sobretudo as mulheres, n√£o vestem a fantasia de sedutora, no √Ęmbito intelectual toda sociedade parece estar √† espreita para apontar uma falha. Isso fomenta nas pessoas negras uma forma de ang√ļstia, como se n√£o pudesse falhar quando sabemos que falhar √© uma das caracter√≠sticas do humano, para recuperar um conceito que Neusa Santos Souza trabalha no artigo ‚ÄúA Ang√ļstia na experi√™ncia anal√≠tica‚ÄĚ, de 2005. Ang√ļstia que atravessa analista e analisante e √© com ela que nos deparamos no trabalho anal√≠tico. Uma condi√ß√£o paradoxal, desafios que o sujeito tem diante do encontro com a “opacidade do desejo do outro” (Souza, 2005, p. 15).

No artigo mencionado acima, Neusa Santos Souza descreve por uma √≥tica lacaniana os principais vetores da ang√ļstia e como esse afeto pode ser manejado na cl√≠nica respeitando a singularidade de cada processo psicanal√≠tico. Se com Souza √© poss√≠vel entender a ang√ļstia como ‚Äúa experi√™ncia do sujeito lan√ßado a√≠, entregue √†s feras e ao desejo do Outro‚ÄĚ (Souza, 2005, p.21), √© importante notar que a ang√ļstia das pessoas negras est√° diretamente ligada ao fato de que elas n√£o podem realizar o desejo da branquitude. Ou seja, ainda que a ang√ļstia seja abordada no artigo de 2005 por uma dimens√£o da singularidade e n√£o por um enquadramento mais generalista, esse afeto pode ajudar a compreender a posi√ß√£o das pessoas negras numa sociedade racista que exige delas que sejam o que nunca poder√£o ser, a saber: infal√≠veis. Ou seja, √© poss√≠vel encontrar no artigo sua rela√ß√£o direta com o trabalho com psic√≥ticos ‚ÄĒ tema sobre o qual a obra de Neusa Santos Souza se volta ap√≥s a publica√ß√£o de Tornar-se negro ‚ÄĒ, como uma discuss√£o mais geral sobre a rela√ß√£o √≠ntima entre ang√ļstia e psicose sem que isso nos impe√ßa de reconhecer que o modo pelo qual a autora pensa as quest√Ķes da psicose pode se aplicar para a explica√ß√£o da ang√ļstia das pessoas negras quando tentam, em v√£o, corresponder ao imperativo infalibilidade.

In√ļmeros ditados populares e express√Ķes racistas, as quais nos recusamos citar, tentam aterrorizar as pessoas negras as constrangendo a agirem como se n√£o pudessem falhar porque a expectativa da branquitude √© na verdade uma certeza quanto √† vulnerabilidade e √† falhabilidade das pessoas negras. Ou seja, a pessoa negra est√° condenada a falhar e lidar com isso lhe gera uma ang√ļstia muito forte. N√£o que o ser humano n√£o seja vulner√°vel, mas √© que a vulnerabilidade √© atribu√≠da apenas √†s pessoas negras e especialmente √†s mulheres negras.

O texto de Neusa Souza √© uma investiga√ß√£o sobre, por um lado, a nega√ß√£o da pessoa negra de sua pr√≥pria identidade, com uma incid√™ncia mais forte sobre as mulheres negras. Por outro, √© uma investiga√ß√£o sobre como a branquitude se imp√Ķe como modelo projetivo para a identifica√ß√£o da pessoa como pessoa. √Č uma obra de psican√°lise, mas cujo foco √© uma forma de sofrimento que est√° ligado √† condi√ß√£o de ser racializado como inferior. Esse sofrimento tem claramente uma base material anunciada por Neusa Souza logo no in√≠cio de sua obra (Souza, 2021, p.48). Essa base material no Brasil est√° marcada pela hist√≥ria escravista que organizou a produ√ß√£o, distribui√ß√£o e ac√ļmulo de propriedades de acordo com o crit√©rio racial. As suas palavras s√£o certeiras: ‚ÄúA sociedade escravista, ao transformar o africano em escravo, definiu o negro como ra√ßa, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padr√Ķes de intera√ß√£o com o branco e institui o paralelismo entre cor negra e a posi√ß√£o social inferior‚ÄĚ (Souza, 2021, p.48). Quando o caminho de ascens√£o social est√° condicionado aos padr√Ķes da branquitude, esta √© tomada ‚Äúcomo modelo de identidade, ao estruturar e levar a cabo a estrat√©gia de ascens√£o social‚ÄĚ (Souza, 2021, p.48).¬†

O ponto √© que n√£o se pode discutir racismo sem reconhecer a base material que lhe amparou no Brasil e √© por isso que obras marcadas pelo materialismo hist√≥rico como m√©todo de abordagem da sociedade brasileira figuram em abund√Ęncia em seus escritos. Ser√° que essa consci√™ncia das quest√Ķes materiais e sociais teria feito Neusa Souza desistir de retomar esse texto por n√£o se acreditar mais capaz de tecer essa an√°lise por meio da psican√°lise? Ser√° que ela acreditava que outras √°reas seriam mais promissoras para o estudo do racismo do que a psican√°lise? Ser√° que ela compreendeu que a psican√°lise n√£o explica de modo geral a condi√ß√£o do negro e que por isso o seu livro j√° recorria a obras de pensadores ligados a outros dom√≠nios do conhecimento?

Neusa Souza nos oferta algumas pistas na sua √ļltima entrevista. As quest√Ķes materiais e os seus impactos na vida das pessoas negras foram centrais no processo de subjetiva√ß√£o das pessoas negras, mas Souza acredita que tais quest√Ķes se referem a um fato que √©, de algum modo, contingente, que √© a ra√ßa. Afinal, se trata de uma cria√ß√£o cujo prop√≥sito era a explora√ß√£o das pessoas negras. Essas quest√Ķes efetivamente concorriam para a compreens√£o da ‚Äúneurose‚ÄĚ brasileira, como diria L√©lia Gonzalez (1984), e estavam presentes nas entrevistas que figuram no livro da Souza como uma esp√©cie de prova de como a subjetiva√ß√£o das pessoas negras √© atravessada pelo racismo. Com efeito, outros dom√≠nios da psican√°lise ajudam a compreender outras formas de sofrimento que n√£o est√£o ligadas substancialmente e quase exclusivamente √†s vari√°veis sociais, mas indicam outro campo de atua√ß√£o. Estamos falando das psicoses amplamente estudadas pela autora. Assim, a passagem das quest√Ķes da neurose, da neurose negra, para as quest√Ķes da psicose provavelmente impulsionou a obra de Souza a tomar outro rumo. Ela parecia querer descortinar novos horizontes nos quais a individualidade, como ela costumava frisar, √© completamente central para a compreens√£o e tratamento cl√≠nico.

¬†As ‚Äúgeneraliza√ß√Ķes‚ÄĚ que, segunda Neusa Santos Souza, estavam presentes em Tornar-se Negro perdem espa√ßo para uma an√°lise do individual, poder√≠amos dizer talvez uma an√°lise do singular, para a qual se voltam os seus estudos posteriores ligados especialmente √† psicose. Uma obra agora focada sobretudo na teoria e cl√≠nica psicanal√≠tica, mas que, quando mergulha na singularidade, n√£o hesita em destacar tamb√©m as quest√Ķes de g√™nero ligadas √†s experi√™ncias de ser uma mulher negra. Apesar de se afastar do tema das rela√ß√Ķes raciais, a autora mant√©m a pujan√ßa e originalidade do seu pensamento na mesma medida em que n√£o exclui de seu enquadramento reflexivo as quest√Ķes raciais. Longe de simplesmente desviar a rota das pondera√ß√Ķes sobre a racialidade, Souza parece desloc√°-las para um terreno mais preciso ou menos generalista e que indica uma forma mais espec√≠fica de subjetiva√ß√£o: a da mulher negra.

Em A ci√™ncia e a verdade: um coment√°rio, Neusa Souza, junto aos colegas Ana Beatriz Freire e Francisco Leonel Fernandes, investiga minuciosamente o texto ‚ÄúCi√™ncia e verdade‚ÄĚ de Jacques Lacan, um di√°logo com a filosofia, o campo cient√≠fico, a religi√£o e a magia. A autora assina 8 textos dos 17 artigos do livro. Tr√™s pontos chamam a aten√ß√£o no livro. O primeiro √© a import√Ęncia que Souza expressa em apontar certa continuidade do pensamento de Lacan da obra Freudiana, apontando suas diferen√ßas e viradas te√≥ricas, sobretudo no que se refere ao campo do sujeito e sua constitui√ß√£o. Se em um primeiro tempo ela aponta para um retorno √† Freud de Lacan, que demonstra que a divis√£o do sujeito, ou seja, um sujeito dividido, n√£o completo, faltante, que n√£o sabe tudo de si; o segundo ponto √© a dedica√ß√£o em apontar a caracter√≠stica √©tica da psican√°lise e sua teoria do sujeito, a partir da rela√ß√£o com as no√ß√Ķes de desejo, saber, verdade e ci√™ncia, marcando sua diferen√ßa com o C√≥gito Cartesiano e o sujeito da ci√™ncia. O conceito de causa em Lacan se refere √† inscri√ß√£o do inconsciente, como linguagem, que se d√° a partir da rela√ß√£o e exist√™ncia com o outro. Esse aspecto se encontra em todo o trabalho de Souza, em sua leitura cl√≠nica da rela√ß√£o do sujeito com a realidade e os efeitos que promovem o fen√īmeno da psicose. O terceiro aspecto que se destaca √© o exerc√≠cio filos√≥fico e de articula√ß√£o cl√≠nica de Souza com os desdobramentos da causalidade, compreendendo que, apesar de ser atravessado pelo desejo enigm√°tico de um Outro, o sujeito deve assumir sua pr√≥pria causalidade.¬†

A autora se at√©m a outro fator que concorre de modo diferenciado para o sofrimento das pessoas negras, que √© a quest√£o de g√™nero. Ao lado das quest√Ķes raciais e sendo enquadradas por elas, as quest√Ķes de g√™nero n√£o apenas n√£o ser√£o sonegadas na an√°lise de Neusa Santos como ser√£o um dos seus vetores principais. √Č o que podemos constatar no seu artigo publicado originalmente em 1998 e reeditado na nova edi√ß√£o de Tornar-se Negro, cujo t√≠tulo √© ‚ÄúO estrangeiro: nossa condi√ß√£o‚ÄĚ. Num texto que se prop√Ķe a discutir a rela√ß√£o entre a psicanalista e aquela pessoa submetida ao processo de psican√°lise, ela, mesmo sem mobilizar o conceito de ideologia, recorre a uma compreens√£o da norma social para mostrar as opress√Ķes de g√™nero. Afinal, afirma ela ‚Äúa norma √© sempre o masculino, o f√°lico, o adulto, o europeu‚ÄĚ (Souza, 2021, p.126). Ela faz as quest√Ķes de ra√ßa serem atravessadas pelas quest√Ķes de g√™nero. E √© nesse sentido que um cl√°ssico termo do pensamento de Freud ser√° mobilizado neste mesmo artigo para pensar as quest√Ķes de g√™nero por uma √≥tica racial e mostrar como o feminino pode se apresentar como aquilo que √© estranho ao enquadramento psicanal√≠tico, visto que ele expressa ‚Äúo excedente, a desmensura, o que n√£o se deixa reduzir, o que com a norma, n√£o tem medida comum‚ÄĚ (Souza, 2021, p.126).

¬† Das Unheimliche ou na sua tradu√ß√£o para o portugu√™s o Infamiliar/Estranho, um importante texto de Freud de 1910, que nos convida para pensar o inc√īmodo/infamiliar remeteria a algo que √© assustador, ao mesmo tempo que bastante familiar, velho conhecido, sendo o processo de recalque o respons√°vel por essa aproxima√ß√£o, o que ficaria expresso pelo sufixo un presente nessa palavra. O estranho familiar nos √© apresentado por Neusa Souza na sua rela√ß√£o com o estrangeiro, em um texto que alia o rigor te√≥rico com uma escrita extremamente po√©tica. Ao falar do estrangeiro que desde sempre vive em nossa casa, aponta: ‚Äúsendo o mais opaco, o mais escondido, √© ao mesmo tempo, o mais estranho e o mais interior […] por estar t√£o em n√≥s, t√£o escondido em n√≥s, se perde a√≠ ‚ÄĒ tal qual um bem precioso que, de t√£o bem guardado se perde‚ÄĚ (Souza, 1998, p. 156).

Na esteira de Freud, a autora lembra que existem algumas formas, figuras do estranho, sendo que o que nos concerne particularmente em seu texto √© a sua refer√™ncia ao estranho como feminino, aquilo que escapa √† norma: ‚ÄúO feminino pensado como diferen√ßa, alteridade ‚Äď o feminino como Outro. Outro sexo, Outra sexualidade, outro modo de gozo, outra ra√ßa, outro pa√≠s, outra l√≠ngua. O feminino √© o Outro que se op√Ķe ao mesmo, resiste ao um da norma‚ÄĚ (Souza, 1998, p. 159). A norma √† qual Neusa Souza se refere inclui n√£o s√≥ o masculino e o f√°lico, mas o adulto e o europeu. O que isso contribui para nosso tema? A mulher negra poderia encarnar a estrangeira por ser mulher: o estrangeiro sendo aqui articulado ao feminino, e a norma ao masculino e f√°lico.

Notadamente, este feminino n√£o se refere ao corpo anat√īmico, uma vez que n√£o √© exclusividade delas e n√£o √© impedido a eles. A mulher negra pode encarnar a estrangeira, ainda mais, por ser negra, estrangeira em rela√ß√£o aos brancos, na medida em que a norma, apontada por Neusa Souza de maneira um tanto gen√©rica, mas reconhec√≠vel por n√≥s, seria constitu√≠da pelo europeu. Podemos dizer que aqui o negro √© o estrangeiro do branco! Parece-nos poss√≠vel afirmar que a mulher negra representaria uma das figuras do estrangeiro, tanto para os homens ‚ÄĒ brancos e negros ‚ÄĒ como para as pr√≥prias mulheres brancas. De tal modo que, no tocante ao estrangeiro, ela se tornaria reincidente: mulher e negra. A tal ponto que n√£o podemos julgar ser um simples acaso a coincid√™ncia dessa face duplamente estrangeira que a mulher negra representa, com a dupla discrimina√ß√£o: tanto racial quanto de g√™nero.¬†

No rastro de sua apresenta√ß√£o, chama aten√ß√£o como ela nomeia, ainda na entrevista do programa Espelho, a continuidade de seus interesses nos estudos psicanal√≠ticos, ‚Äúuma quest√£o tamb√©m muito marginal que √© a quest√£o dos loucos‚ÄĚ os quais talvez pudessem ser compreendidos com aqueles que s√£o estrangeiros no mundo por estarem imersos nas suas fantasias; como ir√° explicar Neusa Santos Souza (Souza, 2008). Assim, ela assinalou o tema que se dedicou ao longo de sua vida em diferentes espa√ßos.

Neusa Santos Souza escreveu em 1991 um livro, republicado recentemente, A psicose: um estudo lacaniano. Um texto elementar, apesar de introdut√≥rio ao tema diante da perspectiva lacaniana. Considerando que uma de suas atividades tratava-se em dar semin√°rios cl√≠nicos na Casa Verde, uma maneira generosa de dividir seus estudos, transmiss√Ķes e experi√™ncias cl√≠nicas. Penna (2019) relata que em 1994 inicia o n√ļcleo de assist√™ncia em sa√ļde mental na Casa Verde, um hospital situado em Botafogo, no Rio de Janeiro. Esse n√ļcleo oferece uma s√©rie de dispositivos de tratamento no campo da sa√ļde mental, tratamento caracterizado pelos cuidados singulares. Neusa Santos Souza atuou durante os 10 √ļltimos anos de sua vida nessa institui√ß√£o, desenvolvendo atividades de transmiss√£o da psican√°lise e coordenando semin√°rios regulares. Ainda hoje o n√ļcleo funciona e mant√©m atividades semelhantes √†s realizadas por ela, mantendo viva sua mem√≥ria e suas transmiss√Ķes.

Ainda sobre seu livro, A psicose, cotejando com vinhetas cl√≠nicas, ilustrativas de como a psicose se apresenta em seus pacientes, seus quadros cl√≠nicos, Neusa Souza organiza de forma objetiva e did√°tica, em di√°logo com Freud e Lacan, as rela√ß√Ķes da psicose com os tr√™s registros, simb√≥lico, imagin√°rio e o real, tr√™s unidades interligadas e essenciais para realidade humana, segundo Lacan. O simb√≥lico √© a dimens√£o da nossa experi√™ncia humana que √© organizada a partir da linguagem e que permite a troca nas rela√ß√Ķes sociais; o imagin√°rio √© pensado a partir da rela√ß√£o d√ļbia que o humano tem com a imagem do outro e seu pr√≥prio corpo; e o real como aquilo que n√£o pode ser simbolizado, algo da ordem do desconhecido. Esses registros auxiliam na compreens√£o de como as pessoas se relacionam e se organizam com os acontecimentos e a realidade.

Para Neusa Santos Souza a psicose era resultado de uma cat√°strofe do encontro do sujeito com a linguagem, de onde emerge um sujeito √† deriva, ‚Äúsem arrimo do significante‚ÄĚ. Esse ‚Äúacidente silencioso‚ÄĚ ter√° consequ√™ncias sempre ruidosas.¬†

A autora se coloca √† altura do desafio em sua incurs√£o pelos estudos da Psicose: ela nunca recua e sempre se reposiciona no trabalho cl√≠nico diante das contradi√ß√Ķes que surgem. Em seu artigo, O sujeito suposto saber: uma obje√ß√£o √† transfer√™ncia na psicose? (1999), ela comenta o caso de Marcos, um paciente que prop√īs uma nova oficina:¬†

Havia muitas e variadas oficinas na Casa Verde, mas para Marcos faltava uma: uma Oficina de Vozes. N√£o, n√£o se tratava de organizar um coral, mas sim de criar um espa√ßo e um tempo reservados em que se pudesse falar do estranho ‚ÄĒ um estranho que se ouve, que se imp√Ķe como voz, ‚Äúas vozes‚ÄĚ ‚ÄĒ para se fazer alguma coisa com isso. E o que fazer com isso, em suas mais diversas possibilidades, concerne ao campo da significa√ß√£o, campo onde se encontra todo sujeito ‚ÄĒ neur√≥tico ou psic√≥tico ‚ÄĒ que se dirige ao analista (Souza, 1999, p. 114, apud Penna, 2019).¬†

 

Os residentes e trabalhadores da Casa Verde relatam que a oficina de ouvidores de vozes tomou corpo e foi levada também para o Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde um grupo de ouvidores se estabilizou e acontece até os dias de hoje. 

Autora de diversos artigos em di√°logo com o campo psicanal√≠tico, Neusa Santos Souza insiste em pesquisar, relatar e transmitir seu estudo sobre a Psicose. Apesar de n√£o estar associada formalmente √† academia, nem ter v√≠nculo com escolas psicanal√≠ticas, sua produ√ß√£o independente √© vasta e possibilita acompanhar a envergadura de quem amou, mergulhou e se dedicou intensamente √† paix√£o pelo tema t√£o marginalizado da loucura. Em 2005, com Maria Silvia Hanna, organiza um livro, O objeto da ang√ļstia, no qual escreve um artigo, ‚ÄúA ang√ļstia da experi√™ncia anal√≠tica‚ÄĚ. Livro este que apresenta e conceitua a ang√ļstia por diversos autores, tema principal no Semin√°rio X de Jacques Lacan. A psiquiatra escolhe dizer sobre ‚ÄúA ang√ļstia da experi√™ncia anal√≠tica‚ÄĚ, onde o analista se familiariza com o paciente. Diante da precipita√ß√£o da ang√ļstia, que transborda a experi√™ncia como ato, ela nos convida a continuar! ‚ÄúContinuar, continuar a trabalhar‚Ķ continuar a caminhar‚Ķcontinuar a levar as coisas adiante‚Ķ para al√©m do limite da ang√ļstia‚Ķ continuar no sentido de fazer a cada an√°lise uma aventura √ļnica‚Ķ para que ela possa se chamar experi√™ncia anal√≠tica.‚ÄĚ (Souza, 2005, pp. 27 e 28).

Ao final da entrevista do programa Espelho, L√°zaro Ramos pergunta: ‚ÄúPor que a senhora escolheu a psican√°lise?‚ÄĚ Souza responde:¬†

Pois √©, por que √© que eu escolhi a psican√°lise? √Č dif√≠cil a gente dizer aquilo que √© a causa do nosso desejo, n√©? …A gente √© sempre movida a priori por suas raz√Ķes, por suas quest√Ķes. Ent√£o a quest√£o da transfer√™ncia que se estuda desde o terceiro ano de medicina, nessa mat√©ria, rela√ß√£o m√©dico-paciente. A transfer√™ncia √© a quest√£o central da psican√°lise. A transfer√™ncia e o manejo dessa transfer√™ncia. Como trabalhar com isso. Ent√£o isso √© a psican√°lise. Desde sempre, talvez, eu tenha sido fisgada por ela (Souza, 2008).

Com Neusa Santos Souza somos convocadas a compreender o ponto forte da psican√°lise, o mais radical: entender os seus limites. Isto √©, a psican√°lise √© pensada ao longo de sua obra como um saber humano atravessado por quest√Ķes de classe, ra√ßa e g√™nero na mesma medida em que cont√©m um grande potencial de cuidado das singularidades. Nessa perspectiva, Neusa Santos Souza nunca negociou a import√Ęncia da psican√°lise na sa√ļde mental, mas apontou para v√°rios dos seus limites que est√£o inscritos nas quest√Ķes acima mencionadas. Para Neusa Santos Souza a psican√°lise √© definitivamente entendida como uma tarefa inacabada e da√≠ seu compromisso com a compreens√£o de temas marginais como a psicose, a loucura, o sofrimento com o racismo que ainda permanecem como feridas do nosso tempo. Afinal, como diz Neusa Santos Souza no seu √ļltimo escrito que versa sobre a quest√£o do racismo e que foi produzido na data simb√≥lica de 13 de maio, dias antes de sua morte. ‚ÄúA escravid√£o acabou, mas a nossa luta continua‚ÄĚ (Souza, 2021, p.163). Em suma, com a nossa pensadora aprendemos a import√Ęncia de um devir √©tico e radical para a psican√°lise. A d√ļp√©, Neusa Santos Souza.

 

Referências Bibliográficas

 

Obras de Neusa Santos Souza: 

Souza, N. S. (1983). Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens√£o Social. Rio de Janeiro: Edi√ß√Ķes Graal.

_________. (1989) A questão do dinheiro na psicanálise. In: Souza, N. S. Agenda de Psicanálise. Rio de Janeiro: Xanon. pp. 242-45. 

_________. (1991) A Psicose: um estudo Lacaniano. Rio de Janeiro: Campus. 

_________. (1994) Transferência e direção da cura na psicose. Boletim de Novidades, n. 57, pp. 36-43. 

_________. (1994) A Foraclusão, um caso de grandeza negativa. Boletim de Novidades, n. 59, pp. 43-53 

_________. (1995) Sexualidade e morte na psicose. Boletim de Novidades, n. 72, pp. 51-9.

Freire, A. B.; Leonel, F. de F. e S.; Souza, N. S. (1996) A Ciência e a Verdade: um comentário. Rio de Janeiro: Revinter.

Souza, N. S. (1997) Teoria e clínica da psicose. Latusa, Rio de Janeiro, n.1, pp. 154-6.

_________. (1998) O estrangeiro: nossa condição. In: Koltai, Caterina (Org.). O estrangeiro. São Paulo: Escuta. 

Souza, N. S. e Hanna, M. S. G. F. (org.). (2005). O objeto da ang√ļstia. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras.¬†

Souza, N. S. (1999) O Sujeito Suposto Saber: Uma obje√ß√£o √† transfer√™ncia na Psicose? √Āgora, Estudos em Teoria Psicanal√≠tica, v.2 n.1 pp. 109-119.¬†

_________. (2002) O Eu e o Sujeito: Ressentimento, culpa e responsabilidade. Cadernos de psicanálise РCírculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, n.15, pp. 59-76. 

_________. (2021) Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens√£o Social. S√£o Paulo: Zahar.

_________. (2021) A casa. In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens√£o Social. S√£o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2006)

_________. (2021) Contra o racismo: com muito orgulho e amor. In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. São Paulo: Zahar. (Texto Original de 2008). 

_________. (2021) E agora, José? In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. São Paulo: Zahar. (Texto Original de 2000)

_________. (2021) O Corpo em psican√°lise. In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens√£o Social. S√£o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2008)

_________. (2021) O estrangeiro: nossa condição. In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. São Paulo: Zahar. (Texto Original de 1998)

_________. (2021) O que pode uma analista aprender com os pacientes psicóticos. In Anexos de Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. São Paulo: Zahar. (Texto original de 2002)

_________. (2023) A psicose: um estudo Lacaniano. S√£o Paulo: Zahar.

_________. (2023) Amor e morte na psicose. In.: A psicose: um estudo Lacaniano. S√£o Paulo: Zahar.

_________. (2023) Psicose: Fen√īmeno e estrutura. A psicose: um estudo Lacaniano. S√£o Paulo: Zahar.¬†

 

Entrevistas e outros materiais em audiovisual sobre Neusa Santos Souza: 

 

Souza, N. S. (2008) Trilogia da Mente. [Entrevista concedida a L. Ramos e S. Almada]. Programa Espelho. Rio de Janeiro: Canal Brasil. Programa de TV. Agosto de 2008.

_________. (1990) Só e bem acompanhada. Cadernos de Psicanálise [Entrevista concedida a A. Salgado, C. Duba, I. Lamy e M. Resende], ano 8, n.11.



Produção em audiovisual sobre Neusa Santos Souza: 

 

SOUZA, Leonardo. Um grito parado no ar. Curta metragem. Rio de Janeiro, 2020. https://www.youtube.com/watch?v=V4WHFs8PGm0

 

Outros textos: 

 

Abu-Merh, A. (2022) Neusa Santos Souza e a Casa Verde. Revista Caju. Disponível em: https://revistacaju.com.br/2022/01/10/neusa-santos-souza-e-a-casa-verde/

Fanon, F. (2020) Pele Negra, Máscaras Brancas. São Paulo: UBU. 

Gonzalez, L. (1984) Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. In: Revista de Ciências Sociais Hoje: Anpocs, pp. 223-44. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/6608168/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20(1).pdf

Herkenhoff, A. (2009) Racismo: Por que se matou a psicanalista negra que fazia sucesso no Rio? Mamaterra Press. Disponível em: https://mamapress.wordpress.com/2016/08/03/racismo-por-que-se-matou-a-psicanalista-negra-que-fazia-sucesso-no-rio/

Penna, W. P. (2019) Escrevivências das memórias de Neusa Santos Souza: apagamentos e lembranças negras nas práticas PSIS. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação do Instituto de Psicologia, Universidade Federal Fluminense, Niterói.

Silva, M. L. (2021) Prefácio à edição. In.: Souza, N. S. Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. São Paulo: Zahar.