Simone de Beauvoir

(1908 – 1986)

Heci Regina Candiani  

Doutora em Ciências Socias pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) РLattes 

PDF – Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir em Israel, 1967. (Moshe Milner/Wikicommons) 

Simone de Beauvoir (Simone¬†Lucie¬†Ernestine¬†Marie Bertrand de Beauvoir) nasceu em Paris, Fran√ßa, em 9 de janeiro de 1908 e faleceu na mesma cidade em‚ÄĮ14 de abril de 1986, aos 78 anos. Foi criada em‚ÄĮuma abastada fam√≠lia burguesa que perdeu grande parte de seus recursos financeiros ap√≥s a Primeira Guerra Mundial. Seu pai, Georges Bertrand de Beauvoir, era advogado e sua m√£e, Fran√ßoise Bertrand de Beauvoir (Brasseur, quando solteira) dedicava-se √† administra√ß√£o da casa da fam√≠lia e √† educa√ß√£o das duas filhas, Simone e¬†H√©l√®ne¬†(Henriette-H√©l√®ne¬†Bertrand de Beauvoir, 1910-2001, pintora).¬†

Uma das grandes preocupa√ß√Ķes da fam√≠lia foi investir em uma forma√ß√£o tradicional e burguesa para as filhas e ambas¬†foram matriculadas no¬†Institut¬†Ad√©line¬†Desir,¬†escola privada exclusivamente para¬†meninas¬†de sua classe social. Simone de¬†Beauvoir¬†estudou ali at√© a¬†aprova√ß√£o¬†no¬†baccalaur√©at¬†de Matem√°tica e Filosofia¬†em 1925. Ao contr√°rio de muitas jovens de sua classe social,¬†ela¬†prosseguiu¬†os estudos licenciando-se em¬†Letras¬†Cl√°ssicas¬†no¬†Institut¬†Sainte-Marie-de-Neuilly¬†e Matem√°tica no¬†Institut¬†Catholique¬†de Paris. Em 1927, iniciou¬†sua¬†forma√ß√£o em¬†Filosofia na Sorbonne. Em 1929, foi aprovada¬†em segundo lugar no¬†concurso de¬†agr√©gation¬†em Filosofia¬†com uma disserta√ß√£o sobre Leibniz. Ela tinha, ent√£o,¬†21 anos,¬†sendo a¬†estudante¬†mais jovem a obter¬†esta¬†aprova√ß√£o¬†e¬†a¬†se tornar professora de filosofia at√© ent√£o.¬†De 1931 a 1935, ensinou filosofia em liceus femininos¬†nas cidades de¬†Marselha e Rouen, retornando¬†a Paris¬†em 1936¬†como professora do Liceu Moli√®re.¬†

Beauvoir iniciou a publicação de seus textos literários e filosóficos durante a Segunda Guerra Mundial e, em 1945, após o fim da guerra, fundou, junto com Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty, entre outros intelectuais, a revista Les Temps Modernes, dedicada a temas literários e políticos. Na revista, que foi publicada ininterruptamente de outubro de 1945 a meados de 2019, Beauvoir atuou como editora, tradutora e, posteriormente, membro do conselho editorial até1986.  

Suas principais influ√™ncias¬†filos√≥ficas¬†foram:¬†Hegel, Husserl, Heidegger, Marx, Descartes e¬†Bergson.¬†Os¬†principais interlocutores¬†contempor√Ęneos de Beauvoir¬†foram¬†os fil√≥sofos¬†Maurice Merleau-Ponty¬†e¬†Jean-Paul Sartre. Os tr√™s intelectuais se conheceram¬†quando eram estudantes de Filosofia nos anos 1920.¬†

 

Obra: temas e conceitos 

Fil√≥sofa, ativista,¬†feminista,¬†autora de fic√ß√£o e n√£o fic√ß√£o,¬†Simone de Beauvoir¬†produziu uma vasta obra composta¬†por¬†ensaios,¬†tratados,¬†uma pe√ßa de teatro, um¬†manifesto,¬†romances, contos,¬†novelas,¬†relatos de viagem,¬†mem√≥rias, cartas, di√°rios e¬†reportagens.¬†Sua¬†ampla produ√ß√£o textual, sua liga√ß√£o intelectual e afetiva com Jean-Paul Sartre, bem como o contexto hist√≥rico e intelectual franc√™s em meados do s√©culo XX, marcado por uma forte resist√™ncia √† atua√ß√£o das mulheres na esfera p√ļblica¬†fizeram com que, por muito tempo,¬†Simone de¬†Beauvoir¬†n√£o fosse considerada¬†fil√≥sofa.¬†Entretanto, ap√≥s sua morte, em 1986,¬†e mais especificamente¬†a¬†partir dos anos¬†1990,¬†com¬†a publica√ß√£o de textos in√©ditos da autora¬†e a libera√ß√£o do acesso a seus manuscritos para pesquisa, tem havido um renovado interesse em¬†seu pensamento, especialmente por parte de¬†fil√≥sofas feministas. Esses novos estudos,¬†ainda¬†em curso,¬†t√™m¬†servido¬†n√£o apenas para¬†reafirmar¬†a import√Ęncia de¬†suas¬†contribui√ß√Ķes¬†para¬†o¬†existencialismo, a¬†fenomenologia¬†e¬†a filosofia¬†feminista, mas¬†tamb√©m t√™m sido importantes para¬†demonstrar a especificidade do projeto intelectual de Beauvoir, em que a¬†√©tica,¬†a¬†pol√≠tica¬†e¬†a teoria feminista¬†s√£o¬†temas centrais, e conceitos como¬†situa√ß√£o,¬†liberdade,¬†ambiguidade¬†e¬†o Outro¬†s√£o trabalhados de maneira bastante original.¬†

 

Primeiros ensaios 

Um dos campos em que a contribui√ß√£o de Simone de Beauvoir para o existencialismo tem sido mais amplamente estudada √© o campo da √©tica. Esse tema, que perpassa toda a¬†obra de Simone de Beauvoir, √© trabalhado filosoficamente pela autora¬†particularmente em seus primeiros ensaios filos√≥ficos, escritos nos anos 1940, na esteira do fim da Segunda Guerra Mundial. Os dilemas √©ticos que a guerra imp√īs √† Europa e, particularmente √† Fran√ßa, que com a ocupa√ß√£o nazista se viu¬†confrontada com quest√Ķes como a resist√™ncia, o colaboracionismo,¬†os sentidos do desengajamento ou da ‚Äúneutralidade‚ÄĚ pol√≠tica,¬†a legitimidade ou n√£o da viol√™ncia contra invasores e colaboracionistas, a responsabilidade em rela√ß√£o aos outros indiv√≠duos, est√£o claramente presentes nesses ensaios.¬†¬†

No primeiro deles, intitulado¬†‚ÄúPirro¬†e¬†Cineias‚Ä̬†e publicado em 1944,¬†Beauvoir ir√° abordar justamente o sentido da a√ß√£o¬†individual. Para que agir? √Č a pergunta que ela se prop√Ķe a analisar.¬†Para ela, a √ļnica justificativa da a√ß√£o √© a liberdade, ampliar os limites da liberdade humana. ‚ÄúDistingui dois aspectos da liberdade: ela √© a pr√≥pria modalidade da exist√™ncia que, por bem ou por mal, de uma maneira ou de outra, retoma por sua conta tudo que lhe vem de fora; esse movimento interior √© indivis√≠vel, logo total em cada um. Em compensa√ß√£o, as possibilidades concretas que se abrem para as pessoas s√£o desiguais‚ÄĚ (Beauvoir, 2010, p. 540). O fato de existirem desigualdades entre as pessoas faz com que a a√ß√£o realmente √©tica seja, ent√£o, n√£o apenas aquela que visa ampliar a liberdade do sujeito, mas¬†que se paute pelo compromisso em ampliar tamb√©m a¬†liberdade dos¬†outros. Beauvoir evoca, assim, a ideia de que liberdade e √©tica se unem por meio da responsabilidade do sujeito com os demais indiv√≠duos e por um objetivo maior do que sua pr√≥pria exist√™ncia, o objetivo de¬†‚Äúliberar a liberdade‚ÄĚ (Beauvoir, 2010a, p.¬†540).¬†¬†

Esse debate √©¬†retomado pela autora¬†em¬†seus¬†ensaios¬†subsequentes,¬†publicados na revista¬†Les¬†Temps¬†Modernes:¬†‚ÄúIdealismo moral e realismo pol√≠tico‚ÄĚ (1945),¬†‚ÄúO existencialismo e a sabedoria das na√ß√Ķes‚ÄĚ (1945, t√≠tulo do ensaio e do livro que re√ļne os textos, 1965a¬†[1948])¬†e ‚ÄúOlho por olho‚ÄĚ (1946)¬†e¬†Por uma moral da ambiguidade¬†(2005 [1947]).¬†Para Beauvoir, a ambiguidade √© a condi√ß√£o inerente a todos os indiv√≠duos em sua rela√ß√£o com os outros, isso porque, embora¬†sejamos, em nossa consci√™ncia,¬†sujeitos livres, nas rela√ß√Ķes nos vemos¬†objetificados¬†pelos outros.¬†Essa amb√≠gua condi√ß√£o de¬†sujeitos/objetos¬†√© relevante para compreender as quest√Ķes essenciais da a√ß√£o¬†√©tica, como a ideia de que os fins justificam os meios (Beauvoir nos diz que n√£0) e como podemos agir eticamente quando estamos diante de um mundo marcado pela viol√™ncia e mesmo diante de um opressor.¬†¬†

 

O segundo sexo 

Um¬†dos motivos¬†para¬†o tardio¬†reconhecimento acad√™mico¬†e p√ļblico¬†de Simone de Beauvoir como fil√≥sofa foi¬†o fato de que ela¬†n√£o adotou em seu trabalho a¬†metodologia¬†de constru√ß√£o de um sistema filos√≥fico, que ela considerava¬†abstrata¬†e¬†universalizante. Sua op√ß√£o, em termos¬†metodol√≥gicos,¬†foi¬†buscar¬†analisar criticamente o conhecimento constru√≠do¬†sobre os temas de seu interesse e, a partir dessa cr√≠tica, analisar as experi√™ncias vividas das pessoas diretamente implicadas na quest√£o.¬†¬†

A¬†pensadora deu um importante passo nesse sentido¬†e estabeleceu as bases de seu m√©todo¬†em sua obra filos√≥fica¬†mais conhecida:¬†O segundo sexo. Hoje um texto can√īnico da filosofia feminista,¬†O segundo sexo¬†foi escrito¬†a partir de uma extensa pesquisa iniciada em¬†1946 e¬†conclu√≠do em¬†1949.¬†Mas o texto n√£o foi pensado pela autora como¬†uma¬†obra feminista em si. O que Beauvoir tinha em mente era apresentar uma¬†discuss√£o, com base no existencialismo, na fenomenologia e no marxismo,¬†sobre a¬†condi√ß√£o das mulheres nas sociedades ocidentais em meados do s√©culo XX, o livro traz como centrais os conceitos de situa√ß√£o e¬†de Outro.¬†

O conceito de situa√ß√£o √© fundamental no existencialismo e se refere¬†basicamente¬†ao fato de estarmos posicionados no tempo, no espa√ßo e em rela√ß√£o com os outros sobre condi√ß√Ķes espec√≠ficas¬†que n√£o escolhemos nem controlamos (nossa nacionalidade, etnia,¬†idade, classe social, educa√ß√£o,¬†o sexo que nos √© atribu√≠do j√° nas primeiras semanas de gesta√ß√£o,¬†nossas limita√ß√Ķes f√≠sicas, os valores vigentes no momento hist√≥rico em que vivemos, as conting√™ncias da exist√™ncia).¬†A situa√ß√£o expressa o lugar social de indiv√≠duos ou de coletividades.¬†¬†

Beauvoir inicia seu texto identificando¬†a¬†situa√ß√£o¬†das mulheres¬†como uma situa√ß√£o¬†de aprisionamento em uma condi√ß√£o de¬†inferioriza√ß√£o:¬†as mulheres t√™m suas a√ß√Ķes no mundo limitadas, s√£o relegadas √† alteridade absoluta, a condi√ß√£o de Outro, e essa condi√ß√£o √© produzida e sustentada, nas sociedades ocidentais patriarcais,¬†pelo modo como as mulheres s√£o retratadas pela¬†ci√™ncia, a hist√≥ria e a psican√°lise. Todo conhecimento produzido historicamente sobre as mulheres convergiu para um ponto que consistiu em justificar, a partir das diferen√ßas biol√≥gicas, um lugar secund√°rio para as mulheres na¬†vida¬†social.¬†Essa justifica√ß√£o¬†se sustenta por meio de uma¬†s√©rie de mitos¬†sobre a¬†biologia,¬†o¬†psiquismo e¬†o¬†papel¬†intelectual, social e¬†econ√īmico¬†das mulheres.¬†¬†

√Äs mulheres √© reservado um lugar secund√°rio n√£o porque elas sejam inferiores aos homens, mas porque o poder de determinar o que significa ser mulher¬†e o que significa ser homem est√° nas m√£os dos homens.¬†Retomando a ideia da ambiguidade do sujeito, Beauvoir nos diz que nenhum¬†sujeito¬†define a si mesmo como Outro. Porque essa defini√ß√£o exige uma¬†objetifica√ß√£o¬†que nunca pode recair sobre o pr√≥prio sujeito.¬†‚ÄúPor que as mulheres n√£o contestam a soberania do macho? Nenhum sujeito se define imediata e espontaneamente como o¬†inessencial; n√£o √© o Outro que se definindo como Outro define o Um; ele √© posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro n√£o se transforme no Um √© preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio‚ÄĚ (Beauvoir, 2009a, p. 18).¬†¬†¬†

Histórica, social, cultural e politicamente, as mulheres são retratadas como seres essencialmente biológicos e submetido às leis da natureza em contraposição aos homens como seres da razão, do conhecimento, e capazes de transcender sua biologia.  

√Č nesse sentido que a fil√≥sofa escreve¬†no texto¬†que ‚ÄúNingu√©m nasce mulher: torna-se mulher‚ÄĚ (Beauvoir,¬†2009a, p. 361). Beauvoir explica¬†o sentido de sua frase nos par√°grafos seguintes, especificando que a f√™mea humana n√£o √© dotada¬†‚Äúnaturalmente‚Ä̬†de caracter√≠sticas¬†como ‚Äúmisteriosos instintos¬†[que]¬†a destinem imediatamente √† passividade, ao coquetismo, √† maternidade‚ÄĚ (Beauvoir, 2009a, p. 361), mas que essas atribui√ß√Ķes, que s√£o socialmente associadas √† feminilidade, s√£o impostas ou ensinadas √† menina j√° nos primeiros anos de vida.¬†Essas imposi√ß√Ķes e essa mistifica√ß√£o do que √© ‚Äúser mulher‚Ä̬†constituem¬†as bases da opress√£o patriarcal, que submete as mulheres √† condi√ß√£o de¬†Outro¬†limitando¬†sua liberdade¬†de a√ß√£o, de escolha, e¬†a possibilidade de que ela defina¬†a si mesma.¬†¬†

Um¬†dos¬†aspectos¬†importantes¬†√© que neste livro¬†Beauvoir estabelece a import√Ęncia de retratar e analisar as experi√™ncias vividas pelas mulheres como parte de seu m√©todo, dando a essas experi√™ncias sua¬†dimens√£o filos√≥fica e pol√≠tica. Ela¬†se baseia em¬†conversas, di√°rios e¬†narrativas¬†de mulheres sobre suas¬†experi√™ncias¬†concretas para refletir sobre as formas e as consequ√™ncias da¬†opress√£o¬†patriarcal, da inf√Ęncia at√© a velhice.¬†Com isso, ela¬†mostra n√£o apenas o impacto da opress√£o patriarcal sobre¬†a vida concreta das mulheres¬†como apresenta as bases para a supera√ß√£o da condi√ß√£o de inferioridade a elas imposta.¬†¬†

Polêmico ainda hoje, 70 anos depois de sua publicação original, O segundo sexo tornou-se uma obra feminista devido à grande potência política inerente ao próprio conceito de situação. Em sociedades profundamente marcadas por desigualdades e injustiças, é inevitável que a discussão sobre a situação de indivíduos e grupos se torne uma discussão sobre poder. 

A vitalidade do conceito de situação, a escolha metodológica por privilegiar as experiências vividas bem como o modo como Beauvoir apresenta seu discurso em O segundo sexo são aspectos que evidenciam a ligação de Beauvoir com a fenomenologia. Essas características e o retorno ao conceito de Outro irão marcar também outro de seus textos mais importantes: A velhice (1990a [1970]).  

Publicada em 1970, esta obra¬†tamb√©m √© dividida¬†em duas partes. Na primeira, o tema √© analisado¬†de fora,¬†pelo conhecimento formal da¬†biologia,¬†da etnografia,¬†da hist√≥ria e¬†da sociologia; a¬†segunda parte trata da velhice como experi√™ncia vivida.¬†Dessa forma, a autora nos mostra como o¬†envelhecimento¬†√©, antes de uma limita√ß√£o f√≠sica ou intelectual, um processo cont√≠nuo da exist√™ncia e¬†uma transforma√ß√£o pessoal que n√£o se explica apenas por quest√Ķes biol√≥gicas:¬†√© uma transforma√ß√£o no modo como somos¬†objetificados¬†nas rela√ß√Ķes interpessoais,¬†nas¬†circunst√Ęncias econ√īmica e¬†no contexto¬†familiar.¬†A autora investiga ainda, nesse texto, como o processo de envelhecimento n√£o tem as mesmas consequ√™ncias e sentidos nas experi√™ncias de homens e mulheres e de pessoas de classes sociais diferentes.¬†¬†

 

Para além dos textos filosóficos 

Embora conhecida e estudada principalmente por¬†O segundo sexo,¬†nem o feminismo nem a filosofia de Simone de Beauvoir se esgotam com essa obra. Em rela√ß√£o ao feminismo, estima-se (Z√©phir,¬†1984, p. 144)¬†que, entre¬†1949¬†e¬†1979, Beauvoir produziu mais de 150 textos feministas, incluindo a√≠¬†artigos e¬†entrevistas.¬†Em √† rela√ß√£o ao debate mais estritamente filos√≥fico, al√©m dos primeiros ensaios e dos dois tratados j√° mencionados, a autora produziu cerca de mais duas dezenas de ensaios e artigos¬†publicados principalmente na revista¬†Les¬†Temps¬†Modernes. Nesses textos, ela tratou, por exemplo,¬†de temas como¬†o pensamento de grupos pol√≠ticos privilegiados¬†em¬†O pensamento de direita, hoje¬†(1967 [1955]), a¬†√©tica e¬†a¬†sexualidade em ‚ÄúDeve-se queimar Sade‚ÄĚ (1964 [1955]).¬†¬†

Al√©m dos textos formal e explicitamente pol√≠ticos, entretanto,¬†Beauvoir¬†fez amplo uso da filosofia para o embasamento e a argumenta√ß√£o de toda a sua produ√ß√£o textual. Quando escreve¬†sobre o racismo nos Estados Unidos em¬†Am√©rica dia a dia¬†(1963¬†[1948]), fam√≠lia, g√™nero e poder em sua pe√ßa Les¬†bouches¬†inutiles¬†(1945),¬†colonialismo em¬†Pour¬†Djamila¬†Boupacha¬†(1960),¬†por exemplo, ela mobiliza temas e reflex√Ķes filos√≥ficas que¬†ainda requerem an√°lises mais detalhadas.¬†Al√©m disso,¬†ela¬†produziu v√°rios romances de car√°ter claramente metaf√≠sico como¬†A convidada¬†(1985 [1943]),¬†O sangue dos outros¬†(1990b¬†[1945]) e¬†Todos os homens s√£o mortais¬†(1995 [1946]) nos quais temas como o Outro e a ambiguidade do sujeito ganham concretude nas situa√ß√Ķes vividas pelas¬†personagens. Em suas mem√≥rias¬†(publicadas¬†originalmente entre¬†1958¬†e 1970)¬†e em¬†Os mandarins¬†(1965b¬†[1954]),¬†Beauvoir n√£o s√≥ discute alguns dos conceitos filos√≥ficos de sua obra como apresenta um v√≠vido retrato da hist√≥ria¬†e dos conflitos intelectuais da Fran√ßa em meados do s√©culo XX.¬†

Todas essas caracter√≠sticas peculiares da produ√ß√£o intelectual da autora bem como¬†sua¬†metodologia particular¬†chamam a aten√ß√£o para o fato de que a compreens√£o e an√°lise do trabalho filos√≥fico de Beauvoir passa, necessariamente, pela an√°lise de seu papel como¬†intelectual p√ļblica¬†preocupada principalmente¬†com a maneira como as marcas sociais da alteridade se entrecruzam na experi√™ncia individual e coletiva. Sua preocupa√ß√£o com a compreens√£o de como diversas situa√ß√Ķes influenciam o acesso a privil√©gios,¬†a experi√™ncia de¬†opress√£o¬†e¬†a experi√™ncia fenomenol√≥gica e pol√≠tica do corpo¬†√© profundamente¬†relevante para os dias atuais.¬†As pesquisas sobre o pensamento de Simone de Beauvoir¬†na atualidade t√™m se concentrado em tr√™s principais linhas: a compreens√£o de sua¬†metodologia filos√≥fica, a an√°lise de seus textos filos√≥ficos e dos aspectos filos√≥ficos de seus textos liter√°rios e memorial√≠sticos, importante para a compreens√£o das rela√ß√Ķes entre¬†filosofia e a literatura e ainda, a¬†recep√ß√£o de sua obra em diversos pa√≠ses e¬†culturas. Esta √ļltima linha de pesquisa se concentra, principalmente, em¬†O segundo sexo.¬†Al√©m disso, as¬†pesquisas sobre a biografia de Beauvoir tamb√©m t√™m sido importantes para a compreens√£o da trajet√≥ria das mulheres na hist√≥ria da filosofia.¬†

 

Referências bibliográficas 

Obras de Simone de Beauvoir 

Beauvoir, S. de¬†(1945).¬†Les¬†bouches¬†inutiles¬†‚Äď pi√®ce¬†en¬†deux¬†actes¬†et¬†huit¬†tableaux.¬†Paris: Gallimard.¬†

______ (1960). Pour Djamila Boupacha. Le Monde, 2 juin, p. 5. 

______ (1963). A América dia a dia. Tradução de Emília Rodrigues. Lisboa: Arcádia. 

______ (1964).¬†Faut-il¬†br√Ľler¬†Sade. In Beauvoir, S.de.¬†Privil√®ges.¬†Paris: Gallimard.¬†

______¬†(1965a).¬†O existencialismo e a sabedoria das na√ß√Ķes. Tradu√ß√£o de Bruno da Ponte e Manuel de Lima. Lisboa: Editorial¬†Minotauro.¬†

_____ (1965b). Os mandarins. Tradução de Hélio de Souza. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 

______ (1967) O pensamento de direita hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 

______ (1985). A convidada. Tradução de Vitor Ramos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (1990a). A velhice. Tradução de Maria Helena Franco Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (1990b). O sangue dos outros. Tradução de Heloysa de Lima Dantas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (1995). Todos os homens são mortais. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (2005). Por uma moral da ambiguidade, seguido de Pirro e Cineias. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (2009a). O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (2009b). Memórias de uma moça bem-comportada. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______ (2010a). A força da idade. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

______(2010b). A força das coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

Literatura secundária 

Burawoy, M (2010). As antinomias do feminismo: Beauvoir encontra Bourdieu. In:  

Burawoy, M. O marxismo encontra Bourdieu. Tradução de Fernando Rogério Jardim. Campinas, SP: Editora da Unicamp, pp. 131-158. 

Candiani, H.R. (2018).¬†Na tessitura da situa√ß√£o: a trama das opress√Ķes na obra de Simone de Beauvoir. (Tese de Doutorado, Instituto de Filosofia e Ci√™ncias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP). Recuperado de http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/332410. Acesso em 19 ago. 2019.¬†

Chaperon, S (1999). Auê sobre O Segundo Sexo. Cadernos Pagu. v.12, pp. 37-53. 

______ (2000). A segunda Simone de Beauvoir,¬†Novos Estudos¬†Cebrap, n¬ļ 57, p.103-123.¬†

Cyfer, I¬†(2015). Afinal, o que √© uma mulher? Simone de Beauvoir e ‚Äúa quest√£o do sujeito‚ÄĚ na teoria cr√≠tica feminista.¬†Lua Nova, n¬ļ 94, S√£o Paulo, pp. 41-77.¬†¬†

Daigle, C¬†(2014).¬†Pensando com Simone de Beauvoir e para al√©m,¬†Sapere¬†Aude,¬†Belo Horizonte, v.5 ‚Äď n.9, pp.¬†381-392.¬†

Gunella, E. J. (2014).¬†Ontologia e √Čtica n’O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. (Disserta√ß√£o de Mestrado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci√™ncias Humanas, Universidade de S√£o Paulo, S√£o Paulo, SP). Recuperado de https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-12122014-195339/pt-br.php. Acesso em 19 ago. 2019.¬†

Kruks, S¬†(2012).¬†Teorizando a opress√£o,¬†Sapere¬†Aude, Belo Horizonte, v.3 ‚Äď n.6, pp.¬†13-56.¬†¬†

Z√©phir, J.¬†J¬†(1984).¬†Importance¬†des¬†√Čcrits¬†f√©ministes¬†de Simone de Beauvoir¬†post√©rieurs¬†au¬†Deuxi√®me¬†Sexe.¬†Simone de Beauvoir¬†Studies, v. 2, pp. 117-147