Ecofeminismos

T√Ęnia A. Kuhnen

Professora do Centro das Humanidades da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) – Lattes.

Daniela Rosendo

Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) РLattes.

PDF – Ecofeminismos

Movimento Chipko. Fonte: https://www.britannica.com/topic/Chipko-movement

Defini√ß√£o 

O Ecofeminismo, conhecido tamb√©m inicialmente por feminismo ecol√≥gico, √© um conjunto de teorias e pr√°ticas que abarca tr√™s √°reas: os estudos feminista, ambientalista e, em alguns casos, o animalista. Esse √ļltimo tem sido chamado de ecofeminismo vegetariano, feminismo ecoanimalista ou, ainda, ecofeminismo animalista. Dessa forma, esse campo te√≥rico e pr√°tico pode ser associado a diferentes √°reas de conhecimento e articula pelo menos tr√™s categorias fundamentais em suas abordagens, quais sejam, as mulheres, a natureza e os animais (Rosendo e Kuhnen, 2019). Tendo em vista os elementos que comp√Ķem o ecofeminismo, originados na teoria e na pr√°tica situadas e vinculadas a contextos distintos de promo√ß√£o da subjuga√ß√£o e a opress√£o, podemos afirmar que ele existe de forma plural e, por isso, nos referimos aos “ecofeminismos”. A pluralidade √© ent√£o reflexo do aspecto contextual dos ecofeminismos e da forma como o conhecimento √© percebido, ou seja, sem presumir neutralidade, objetividade e abstra√ß√£o. A partir disso, √© poss√≠vel afirmar que os ecofeminismos abrangem diferentes abordagens epistemol√≥gicas, categorias e metodologias, al√©m de terem potencial para serem desenvolvidos em conjunto com distintas teorias pol√≠ticas e vertentes feministas (radical, marxista, anarquista etc.).

A rela√ß√£o entre as categorias mulheres, natureza e animais √© estabelecida a partir da compreens√£o de que diferentes formas de domina√ß√£o, explora√ß√£o e opress√£o est√£o interconectadas, de modo a refor√ß√°-las mutuamente. Nos sistemas capitalista e patriarcal, essa rela√ß√£o se d√° entre as minorias pol√≠ticas de forma estrutural e estruturante. Justamente por isso, ainda que a vulnerabilidade seja entendida como uma carater√≠stica geral, abrangente e fundamental dos seres vivos (Rosendo e Zirbel, 2019), diferentes indiv√≠duos e grupos s√£o mais afetados negativamente (causando-lhes dor, danos e sofrimento) em raz√£o desses sistemas de opress√£o estabelecidos a partir de categorias como g√™nero e classe, ainda que n√£o se restrinja a elas. Para confrontar os sistemas de opress√£o, Vandana Shiva e Maria Mies (1993) defendem que uma perspectiva ecofeminista deve desenvolver uma nova cosmologia que reconhe√ßa as diferentes formas de vida como dependentes da coopera√ß√£o e de rela√ß√Ķes de cuidado m√ļtuas. 

Nesse contexto de patriarcado e capitalismo, al√©m da rela√ß√£o entre a opress√£o das mulheres, dos animais e da natureza ser identificada como oriunda da mesma estrutura dualista, as an√°lises ecofeministas compreendem a interseccionalidade que permeia diferentes sistemas de opress√£o. A crise ambiental e clim√°tica, por exemplo, resulta do refor√ßo m√ļtuo entre as formas de preconceito mais conhecidas e abordadas nas teorias cr√≠ticas, como  racismo, sexismo, classismo, imperialismo, colonialismo, e formas de preconceito que mais recentemente vem sendo reivindicadas como parte dos sistemas de opress√£o e domina√ß√£o, a exemplo do capacitismo (discrimina√ß√£o contra pessoas com defici√™ncia), naturismo (domina√ß√£o injustificada da natureza), especismo (discrimina√ß√£o com base no pertencimento  √† esp√©cie) e heterossexismo (preconceito baseado na suposi√ß√£o do binarismo sexual) (Gaard e Gruen, 2005). √Č por isso que os diferentes movimentos e campos de estudo ‚Äď de g√™nero e feministas, ambientalistas e animalistas ‚Äď devem levar em conta a interseccionalidade, tendo em vista que os diferentes ‚Äúismos‚ÄĚ de domina√ß√£o t√™m por tr√°s a mesma l√≥gica de domina√ß√£o (Warren 1998; 2000).

Apesar de poderem ser trabalhados a partir de uma perspectiva disciplinar, os ecofeminismos s√£o inerentemente interdisciplinares e n√£o se restringem ao conhecimento te√≥rico/acad√™mico, como afirmamos inicialmente. Eles, inclusive, refletem diferentes posturas feministas e compreens√Ķes diversas da condi√ß√£o e da solu√ß√£o dos problemas de g√™nero e ambientais (Warren, 2003). √Č importante ressaltar que os ecofeminismos ‚Äď ainda que muitas vezes sua genealogia seja associada aos feminismos radical e da diferen√ßa ‚Äď, podem estar relacionados a diferentes feminismos (radical, socialista, marxista, descolonial etc.). 

A pr√°xis, entendida como a rela√ß√£o dial√©tica entre pensamento e a√ß√£o, √© uma caracter√≠stica fundamental dos ecofeminismos. Teoria e pr√°tica se integram mutuamente de modo a compreender e sistematizar, a partir de ferramentas conceituais e metodol√≥gicas, tanto a rela√ß√£o entre as diferentes formas de opress√£o quanto as experi√™ncias das mulheres que revelam modos n√£o hier√°rquico-dualistas e n√£o explorat√≥rios de estabelecer as rela√ß√Ķes sociais, ambientais e interesp√©cies. 

Para realizar essa tarefa, podemos nos valer de diferentes categorias, metodologias e abordagens epistemol√≥gicas “a partir das quais ser√° poss√≠vel estabelecer os conceitos, os m√©todos e o modo de compreender os conhecimentos e as vozes que tradicionalmente n√£o s√£o levados em considera√ß√£o pelo pensamento hegem√īnico na constru√ß√£o de variados campos” (Rosendo, 2019, p. 33). Por isso, os ecofeminismos permitem justamente pensar al√©m dos limites tradicionalmente estabelecidos e experimentar outras formas, n√£o can√īnicas, de pensar quest√Ķes epistemol√≥gicas, √©ticas e de justi√ßa.

Origens e filia√ß√Ķes hist√≥ricas

A origem dos ecofeminismos n√£o pode ser tra√ßada a partir de um √ļnico ponto isolado que corresponda a uma pessoa ou a um movimento de um lugar espec√≠fico, tampouco a um texto fundacional. Trata-se de um conjunto te√≥rico e pr√°tico com fontes diversas. Gaard e Gruen (2005) compreendem que o termo ecofeminismo resulta de um fen√īmeno de abrang√™ncia internacional, combinando movimentos sociais das d√©cadas de 60, 70 e princ√≠pios dos anos 80, do s√©culo XX, com escritos feministas voltados para quest√Ķes ecol√≥gicas e ambientais produzidos na d√©cada de 80. Inclusive, ainda que o termo ecofeminismo tenha predominado para se referir a esse conjunto de teorias e pr√°ticas, outras express√Ķes tamb√©m aparecem para nome√°-lo, como feminismo ecol√≥gico, ecologia feminista, g√™nero e meio ambiente. Em sentido an√°logo, Niamh Moore (2016) realiza uma discuss√£o geneal√≥gica sobre as origens do ecofeminismo e procura destacar sua diversidade de posi√ß√Ķes, vozes, formas e localiza√ß√Ķes, que lhe conferem um car√°ter n√£o dogm√°tico, apesar das tentativas posteriores de tipologizar os ecofeminismos. Para a autora, todavia, √© poss√≠vel situar a origem dos ecofeminismos tamb√©m a partir do reconhecimento de uma tens√£o entre pr√°tica e ativismo ecofeministas, de um lado, e teoria e academia, de outro. Apesar da tens√£o que se traduz em um dilema de autoria, √© poss√≠vel sustentar que teoria e pr√°tica formam uma teia de rela√ß√Ķes para originar os ecofeminismos. Por isso, seria equivocado afirmar que ‚Äúo ecofeminismo‚ÄĚ surge na academia, como uma teoria singular, pois no mesmo per√≠odo em que as intelectuais estavam desenvolvendo articula√ß√Ķes te√≥ricas a partir das reflex√Ķes sobre a materialidade das opress√Ķes interconectadas, movimentos de mulheres em diferentes lugares do mundo tamb√©m percebiam a conex√£o entre as diferentes formas de explora√ß√£o e a import√Ęncia de lutarem pelos territ√≥rios e bens comuns. Pode-se exemplificar com o Movimento Chipko, na √ćndia, e o Green Belt Movement, fundado pela queniana Wangari Maathai. O que evidenciamos, portanto, √© a rela√ß√£o n√£o hier√°rquica entre teoria e pr√°tica, entre uma origem intelectual ou de um movimento de base, na medida em que justamente uma das caracter√≠sticas dos ecofeminismos √© a pr√°xis, como ser√° exposto adiante.

Diversos movimentos ativistas liderados por mulheres a partir do final da d√©cada de 60 podem ser relacionados √† origem do ecofeminismo. Elas passaram a protagonizar de forma mais contundente movimentos pela paz, anti-nucleares, contra o lixo t√≥xico e a polui√ß√£o nos EUA e na Europa. No Sul Global, salientam Shiva e Mies (1993), tamb√©m se constitu√≠ram diferentes movimentos, destacando-se pautas como: uma gest√£o mais justa do acesso √† √°gua, conserva√ß√£o dos solos, utiliza√ß√£o da terra e manuten√ß√£o da base de sobreviv√™ncia das mulheres, a exemplo das florestas, contra os interesses industriais. Nesse contexto, merece destaque o movimento do abra√ßo √†s √°rvores das mulheres de Chipko na regi√£o o Himalaia, na √ćndia. Nos anos 70 e 80, mulheres daquela regi√£o iniciaram a√ß√Ķes n√£o violentas contra companhias mineradoras internacionais, cuja a√ß√£o estava resultando na destrui√ß√£o de florestas que constitu√≠am a fonte de sustento das comunidades ali situadas. Conforme Shiva e Mies (1993), as mulheres de Chipko reconheciam suas rela√ß√Ķes de depend√™ncia com a natureza e possu√≠am um senso local de prosperidade, liberdade e qualidade de vida associado √† sua capacidade de produzir e coletar localmente, que vinha sendo destru√≠do pelas companhias. Embora as mulheres envolvidas em diferentes movimentos sociais n√£o criaram ou usaram o termo ‚Äėecofeminismo‚Äô, suas lutas demonstram que √© poss√≠vel situar mulheres e crian√ßas em primeiro lugar, reverter a l√≥gica patriarcal, colonial e capitalista de aliena√ß√£o das interconex√Ķes entre as formas de vida e promover rela√ß√Ķes √©tico-pol√≠ticas baseadas no cuidado e na justi√ßa em diferentes n√≠veis – entre os sexos, g√™neros, comunidades humanas e n√£o humanas, diferentes gera√ß√Ķes e o meio ambiente.

No que diz respeito √† origem te√≥rica dos ecofeminismos, muitas autoras e relatos no campo dos estudos feministas apontam para o trabalho pioneiro da acad√™mica Fran√ßoise D‚ÄôEaubonne, em Le F√©minisme ou la Mort (1974), a quem se atribui a autoria da palavra ‚Äėecofeminismo‚Äô. A autora apontou para a exist√™ncia de uma liga√ß√£o entre a opress√£o das mulheres e da natureza. Entretanto, Moore (2016) apresenta as disputas em torno da relev√Ęncia do trabalho de D‚ÄôEaubonne √† medida que dar a ela a centralidade da autoria na hist√≥ria poderia colocar em quest√£o a pr√≥pria base ativista internacional e a diversidade de fontes associada √† origem dos ecofeminismos. Al√©m disso, o fato de o livro de D‚ÄôEaubonne ter sido traduzido para o ingl√™s mais tarde, permite indagar sobre a extens√£o da influ√™ncia de seu pensamento no desenvolvimento dos ecofeminismos nos EUA.

Shiva e Mies (1993) tamb√©m pontuam que embora D‚ÄôEaubonne seja reconhecida por ter usado o termo ‚Äėecofeminismo‚Äô pela primeira vez, a populariza√ß√£o da palavra √© consequ√™ncia de protestos diante da destrui√ß√£o e dos desastres ambientais, culminando em uma confer√™ncia feminista, em mar√ßo de 1980, nos EUA, chamada As mulheres e a vida na Terra: uma confer√™ncia sobre o eco-feminismo na d√©cada de 80, que teve Ynestra King como uma de suas organizadoras. Nesse sentido, hist√≥rias alternativas para a origem do ecofeminismo apontam para a relev√Ęncia do trabalho de King nos EUA por aproximar o campo dos estudos feministas das quest√Ķes ecol√≥gicas por meio de seu trabalho no Instituto de Ecologia Social, em Vermont (EUA). Como resultado da problematiza√ß√£o do feminismo a partir de problemas ambientais emergentes, King (1997, p. 126-127) se questiona: ‚ÄúO que adianta partilhar com igualdade um sistema que est√° matando a n√≥s todos? […] A crise ecol√≥gica est√° relacionada com sistemas de avers√£o a tudo o que √© natural e feminino por parte de formuladores brancos, masculinos, ocidentais, de filosofia, tecnologia e inven√ß√Ķes mort√≠feras‚ÄĚ. 

Outras autoras também possuem trabalhos influentes no contexto de emergência e consolidação do ecofeminismo: Gyn/Ecology (1978), de Mary Daly, Green Paradise Lost (1979), de Elizabeth Dodson Gray e The Death of Nature (1980), de Carolyn Merchant (Gaard e Gruen, 2005; Tong, 2014; Moore, 2016).

As motiva√ß√Ķes situadas na origem do movimento te√≥rico dos ecofeminismos giram em torno de uma insatisfa√ß√£o com a falta de espa√ßo para a categoria de g√™nero no contexto dos movimentos ambientalistas, ainda marcados pelo sexismo, e a preocupa√ß√£o emergente das acad√™micas feministas em rela√ß√£o √† explora√ß√£o do ambiente natural para manter o sistema de domina√ß√£o patriarcal. Isso continua sendo fundamental para pensadoras ecofeministas, pois cada vez mais se reconhece a necessidade de distanciamento de sistemas que negam a vida e a interdepend√™ncia, respons√°veis pelo aprofundamento de condi√ß√Ķes de injusti√ßa e explora√ß√£o ambiental, econ√īmica, social e pol√≠tica. Apesar das conquistas realizadas por mulheres e outras minorias pol√≠ticas, a degrada√ß√£o ambiental continua acelerada por estilos de vida consumistas impulsionados, sobretudo, pelo Norte Global, que, concomitantemente, explora, domina e coloniza os pa√≠ses do sul. Por isso, o ecofeminismo contempor√Ęneo atravessa fronteiras disciplinares e geopol√≠ticas, abordando diferentes problemas que emergem da interconex√£o entre humanos e a natureza (Phillips e Rumens, 2016).

√Č importante aqui pontuar que n√£o se defende uma separa√ß√£o entre a abordagem pr√°tica e a te√≥rica dos ecofeminismos, ainda que ambas possam apresentar tens√Ķes. Pelo contr√°rio, o ecofeminismo te√≥rico possui uma rela√ß√£o de interdepend√™ncia com a pr√°tica, uma vez que o di√°logo √© essencial para uma pr√°xis informada de combate √† l√≥gica da domina√ß√£o no campo pol√≠tico. Se a origem do ecofeminismo esteve ligada √† reflex√£o feminista aplicada a problemas ambientais por meio do ativismo e da academia, a continuidade dos ecofeminismos depende justamente da manuten√ß√£o dessa integra√ß√£o criativa, n√£o dogm√°tica, de modo a construir um outro mundo poss√≠vel, com redes de sustenta√ß√£o e apoio √† vida, justi√ßa de g√™nero, racial, √©tnica e ambiental para todos os seres vivos. √Č nesse sentido que Karen Warren (2000) defende que o ecofeminismo se constitui como uma teoria em processo, que pode ser explicada pelo recurso √† met√°fora do quilt ‚Äď teorias constru√≠das de maneira conjunta, que representam a particularidade das perspectivas de quilters de diferentes idades, etnias, ra√ßa, g√™nero, origens, classes.

Na hist√≥ria dos ecofeminismos, cabe destacar, conforme analisam Phillips e Rumens (2016) e Moore (2016), a tentativa de reduzir sua import√Ęncia a partir de uma acusa√ß√£o de essencialismo. Essa acusa√ß√£o est√° centrada na ideia de que, √† medida que se estabelecem associa√ß√Ķes entre mulheres e natureza, ainda que tais associa√ß√Ķes tenham um car√°ter mais sociohist√≥rico e cultural do que propriamente biol√≥gico ou espiritual, isto √©, assentado na valoriza√ß√£o da capacidade de gerar novas vidas e na simbologia do ciclo menstrual das mulheres, por exemplo, haveria um risco de sustentar que mulheres s√£o seres naturais, guardi√£s da ‚Äúm√£e natureza‚ÄĚ e, por serem parte da natureza, tamb√©m inferiores. Mas o ponto central dessa acusa√ß√£o emerge quando essas associa√ß√Ķes s√£o reivindicadas como universais que definem o ‚Äúser mulher‚ÄĚ, o que resulta no erro de tamb√©m homogeneizar experi√™ncias diversas de mulheres e o modo como se entendem pr√≥ximas – ou n√£o – da natureza. Essas acusa√ß√Ķes no √Ęmbito acad√™mico ganharam amplitude de modo a resultar numa recusa das pr√≥prias autoras a serem chamadas ecofeministas. O resultado foi uma redu√ß√£o no n√ļmero de publica√ß√Ķes no √Ęmbito internacional de livros e artigos cient√≠ficos que fizessem uso da denomina√ß√£o ap√≥s os anos 2000. Recentemente, todavia, conforme Adams e Gruen (2014), o interesse pelos ecofeminismos tem se renovado √† medida que o impacto das atividades humanas sobre o mundo mais do que humano ou para al√©m dos humanos, isto √©, o mundo compreendido como um todo de rela√ß√Ķes de interdepend√™ncia cuja centralidade n√£o est√° nos integrantes da esp√©cie humana, tornam-se cada vez mais evidentes.

Ecofeminismos e sua história no Brasil

No Brasil, h√° poucos estudos que catalogam as publica√ß√Ķes ecofeministas. O trabalho de an√°lise do conte√ļdo de duas revistas voltadas para quest√Ķes feministas e de g√™nero, quais sejam, Cadernos Pagu (UNICAMP) e Revista Estudos Feministas (UFSC), desenvolvido por Daniel Kirjner (2019), aponta para a pouca representatividade no espa√ßo acad√™mico de tem√°ticas ecofeministas, com refer√™ncias limitadas a um certo perfil de autoras ecofeministas do Norte Global, al√©m de se destacar a aus√™ncia de artigos que tratem do ecofeminismo animalista e de uma perspectiva feminista interesp√©cies, no per√≠odo analisado em ambos os peri√≥dicos entre 1992 e 2015 . 

Uma exce√ß√£o √© o trabalho e obra da fil√≥sofa e te√≥loga feminista brasileira Ivone Gebara, refer√™ncia da teologia da liberta√ß√£o na regi√£o latinoamericana. Reconhecidamente ecofeminista, Gebara desafiou o eurocentrismo, o androcentrismo e o antropocentrismo presentes na teologia dogm√°tica e defendeu sua transforma√ß√£o de modo a perceber os diferentes contextos e realidades, especialmente as marginais (Gebara, 2000 apud Kirjner, 2019). Contudo, o pr√≥prio ecofeminismo da te√≥loga permaneceu √† margem dos movimentos feminista e ecol√≥gico. Na nossa percep√ß√£o, v√°rios fatores certamente influenciaram essa invisibiliza√ß√£o ou falta de di√°logo, inclusive em raz√£o das cr√≠ticas das feministas ao conservadorismo da Igreja, dificultando o di√°logo com as te√≥logas, mesmo que feministas e defensoras dos direitos das mulheres, em especial quanto √† sa√ļde sexual e reprodutiva.  Por isso, √© preciso situar a produ√ß√£o te√≥rica de Gebara sobre o ecofeminismo na d√©cada de 1990, quando o movimento feminista no Brasil se concentrava nas quest√Ķes de identidade e empoderamento (Kirjner, 2019). O movimento ecol√≥gico, por sua vez, apresentava pouca consci√™ncia das quest√Ķes de g√™nero e, como caracter√≠stica mais espec√≠fica do Brasil, neste per√≠odo estava mais ocupado com a derrubada das florestas para a expans√£o do agroneg√≥cio do que com quest√Ķes ambientais caracter√≠sticas do espa√ßo urbano, a exemplo do problema do lixo, entre outras tratadas por Gebara a partir da periferia das grandes cidades. Al√©m disso, os traumas da ditadura militar ainda eram bastante recentes. Tendo em vista a viola√ß√£o sistem√°tica dos direitos civis e pol√≠ticos por mais de duas d√©cadas, em um regime autorit√°rio, a necessidade de restabelecer os processos democr√°ticos e os direitos fundamentais individuais parecem ter dificultado o avan√ßo dos direitos de outras dimens√Ķes ‚Äď coletiva e difusa ‚Äď, como os econ√īmicos, sociais, culturais e ambientais.

Sem preju√≠zo de outras produ√ß√Ķes que ainda n√£o tenhamos alcan√ßado e que remetam a quest√Ķes e pensadoras ecofeministas, cabe salientar, tamb√©m na d√©cada de 1990, o livro de Regina C√©lia Di Ciommo, Ecofeminismo e educa√ß√£o ambiental (1999). Mais recentemente, dentre outros trabalhos, tem-se a produ√ß√£o de Loreley Garcia, em especial o livro Meio Ambiente & G√™nero (2012), a obra de Emma Siliprandi, com destaque para Mulheres e agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas (2015), as publica√ß√Ķes de Daniela Rosendo, entre elas o livro Sens√≠vel ao Cuidado: uma perspectiva √©tica ecofeminista (2015), a colet√Ęnea Ecofeminismos: fundamentos te√≥ricos e pr√°xis interseccionais (2019), organizada por Daniela Rosendo, F√°bio A. G. Oliveira, Pr√≠scila Carvalho e T√Ęnia A. Kuhnen e o Guia ecofeminista: mulheres, direito, ecologia, de Vanessa Lemgruber (2020). 

Al√©m dessas obras que comp√Ķem a literatura ecofeminista brasileira refletindo a diversidade dos ecofeminismos, ressalta-se tamb√©m a produ√ß√£o espec√≠fica de uma de suas vertentes, ainda que seus t√≠tulos n√£o denotem explicitamente o conte√ļdo ecofeminista. O ecofeminismo animalista que, por vezes, se identifica a partir da rela√ß√£o entre feminismos, animalismos e veganismos, inclui n√£o s√≥ a rela√ß√£o entre mulheres, g√™nero e meio ambiente, mas tamb√©m interesp√©cies. Tal abordagem compreende que o especismo √© mais um “ismo” de domina√ß√£o que deve ser superado, assim como o sexismo, racismo, capacitismo e todas as outras formas de discrimina√ß√£o e opress√£o. Dentre as refer√™ncias dessa bibliografia, identifica-se o livro Rela√ß√Ķes multiesp√©cies em rede: feminismos, animalismos e veganismo (2017), organizado por Patr√≠cia Lessa e Dolores Galindo, cujo projeto foi desenvolvido a partir das apresenta√ß√Ķes do primeiro Simp√≥sio Tem√°tico sobre ecofeminismo realizado no Semin√°rio Internacional Fazendo G√™nero 10 (2013) – ST 26 Desafios atuais dos ecofeminismos: aproxima√ß√Ķes entre o sexismo e o especismo, proposto por Patr√≠cia Lessa e Thiago Santanna; e o livro Rela√ß√Ķes interseccionais em rede: feminismos, animalismos e veganismos (2019), organizado por Patricia Lessa, Roberta Stubs e Marta Bellini. 

Ao longo dos anos mais recentes, pode-se identificar um interesse aparentemente crescente pelos ecofeminismos na academia brasileira por meio da presen√ßa da literatura ecofeminista em disserta√ß√Ķes e teses de p√≥s-gradua√ß√£o stricto sensu. Al√©m disso, apesar da pouca presen√ßa dos ecofeminismos no debate e produ√ß√£o acad√™micas na grande √°rea das Humanidades (Kirjner, 2019), pode-se encontrar princ√≠pios ecofeministas no ativismo de mulheres do espa√ßo rural, conforme as an√°lises contidas em diferentes produ√ß√Ķes te√≥ricas, a exemplo do referido livro de Emma Siliprandi (2015). Maria da Gra√ßa Costa (2019) destaca aspectos hist√≥ricos da luta das mulheres brasileiras e latinas organizadas no Movimento das Mulheres Campesinas (MMC) em defesa de uma agroecologia. A pesquisa de Maria Ignez Paulilo, em Mulheres Rurais: quatro d√©cadas de di√°logo (2016), tamb√©m √© uma importante refer√™ncia no tema, al√©m do recente artigo sobre a Marcha das Margaridas e os ecofeminismos, em que T√Ęnia A. Kuhnen (2020) procura evidenciar como as abordagens ecofeministas ajudam a  pensar a intersec√ß√£o entre quest√Ķes de g√™nero e ambientais, o que seria central para o fazer e o pensar feminista das mulheres integrantes da Marcha das Margaridas, ainda que essas mulheres, em sua diversidade de formas de vida no espa√ßo rural, n√£o se denominem ecofeministas. 

A Marcha das Margaridas √© um movimento socioambiental unificado de mulheres do campo de todo o Brasil, que recebe apoio de diferentes organiza√ß√Ķes da sociedade civil, com destaque para o apoio da Confedera√ß√£o Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG). O nome do movimento √© inspirado na l√≠der sindical paraibana assassinada em 1983, Margarida Alves, precursora na luta pelos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo. Uma caracter√≠stica central desse movimento de mulheres √© a realiza√ß√£o de uma marcha na cidade de Bras√≠lia, que j√° contou com seis edi√ß√Ķes at√© o presente, destacando-se a √ļltima delas ocorrida em 2019, reunindo em torno de 100 mil mulheres, entre 13 e 14 de agosto, em Bras√≠lia, sob o lema ‚ÄúMargaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justi√ßa, igualdade e livre de viol√™ncia‚ÄĚ. Tais mulheres lutam contra diferentes sistemas de domina√ß√£o que as atingem. Em suas  lutas, saberes, fazeres e reivindica√ß√Ķes, com destaque para a agricultura familiar e a agroecologia, tem-se um ecofeminismo latino-americano. 

Um momento marcante para o ativismo de mulheres relacionado a quest√Ķes ambientais no Brasil e, por conseguinte, para a pr√≥pria hist√≥ria do ecofeminismo aqui e o encontro entre teoria e pr√°tica, foi o da Eco-92. O evento contou com a presen√ßa de pensadoras importantes dos estudos ecofeministas. Na ocasi√£o, realizou-se o Planeta F√™mea, segundo Rodriguez (2013, p. 40), um ‚Äúespa√ßo de reflex√£o das mulheres na Eco 92, criado sob a influ√™ncia das ideias ecofeministas propiciadas por Vandana Shiva, Maria Mies, Carolyn Merchant e redes e organiza√ß√Ķes sociais‚ÄĚ. No entanto, conforme a autora, a for√ßa do movimento feminista mais ‚Äėtradicional‚Äô da d√©cada de 1980 se sobressaiu aos prop√≥sitos ecofeministas. Em outras palavras, houve pouca acolhida da tentativa de incluir a perspectiva ecol√≥gica na demanda dos movimentos de mulheres na √©poca. Tamb√©m a partir da Eco-92, portanto, as correntes ecofeministas no Brasil conquistaram pouco espa√ßo e foram reduzidas pela atribui√ß√£o do adjetivo ‚Äúessencialistas‚ÄĚ, como afirmado anteriormente.

J√° em 2012, com a realiza√ß√£o da Rio+20, percebe-se mais espa√ßo para repensar a rela√ß√£o das mulheres e do feminismo com a natureza. Nesse per√≠odo, os ecofeminismos j√° haviam expandido suas an√°lises, reconhecendo a complexidade dos diferentes tipos de experi√™ncias de mulheres, mediadas por classe, etnia, sexualidade, capacidades, que n√£o poderiam ser reduzidas a uma leitura simplificada da proximidade entre mulheres e natureza. Se, para algumas mulheres, seria importante celebrar essa aproxima√ß√£o, a exemplo, do trabalho das parteiras, das rezadeiras e benzedeiras, com amplo conhecimento sobre o uso de ervas medicinais, para outras, os valores femininos aproximados da natureza precisavam ser contestados como espa√ßos de dom√≠nio, pois √†s tornavam suscet√≠veis a serem consideradas menos racionais e objetificadas. Outras mulheres ainda, cujas atividades de reprodu√ß√£o e produ√ß√£o dependiam da rela√ß√£o social de proximidade com a natureza, sentiram a necessidade de colocar em quest√£o o modelo de desenvolvimento patriarcal, capitalista e colonial, que amea√ßava seus modos de vida. Para Moore (2016), focar apenas na discuss√£o entre essencialismo e anti-essencialismo desvia os ecofeminismos de seu verdadeiro potencial: um tipo de filosofia e pr√°tica anti-dualista que pode buscar, por meio de metodologias geneal√≥gicas, outros sentidos para a natureza, para o ser mulher e pensar outras rela√ß√Ķes poss√≠veis entre seres humanos e natureza.

Ainda no ano de 2012, ressalta-se a publica√ß√£o de dois livros no Brasil que relacionam √†s conex√Ķes distintas entre mulheres, animais e natureza produzidas na sociedade patriarcal e androc√™ntrica: Galactolatria: mau deleite, da fil√≥sofa S√īnia T. Felipe, no qual a autora aborda as implica√ß√Ķes √©ticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino, subsidiando as teorias e cr√≠ticas ecofeministas que denunciam a explora√ß√£o das f√™meas; e a tradu√ß√£o de A Pol√≠tica Sexual da Carne, da escritora e ativista estadunidense Carol J. Adams, publicado originalmente em 1990, no qual a autora desenvolve uma teoria cr√≠tica feminista-vegetariana, introduzindo o debate sobre a quest√£o animalista nos ecofeminismos. Tais obras permitem tamb√©m refletir que, enquanto sociedade e corpo pol√≠tico, priorizamos um distanciamento da natureza, o que nos torna pouco conscientes do modo como nosso modo de vida impacta e destr√≥i grupos humanos minorit√°rios e a natureza. Nesse sentido, a quest√£o central n√£o seria tanto de apontar para proximidades e associa√ß√Ķes entre mulheres e natureza, mas sim como nosso distanciamento dualista do mundo natural, f√≠sico e emocional, inviabiliza a prote√ß√£o da vida, humana e n√£o humana.  

Voltando aos movimentos sociais mais recentes, Rodriguez (2013) pontua que mulheres brasileiras estão cada vez mais engajadas nas lutas em defesa da natureza no contexto brasileiro e em muitos territórios no mundo:

As lutas das altivas mulheres de Altamira e regi√£o contra a privatiza√ß√£o e barragem do Rio Xingu em Belo Monte, contra a privatiza√ß√£o da √°gua na cidade de Manaus, no cora√ß√£o da Amaz√īnia, pelo livre acesso aos baba√ßuais, especialmente na pioneira luta das bravas maranhenses, contra as florestas de monocultivo de eucalipto no Esp√≠rito Santo e Paran√°, contra a pesca de arrast√£o no Cear√°, e as muitas outras lutas em que quase sempre encontramos as mulheres √† frente, nos chamaram para a necessidade de renovar as reflex√Ķes de modo a permitir a compreens√£o da ess√™ncia de tais lutas (Rodriguez, 2013, p. 42).

 Em parte, esse engajamento que se evidencia no √Ęmbito mundial √© resultado dos impactos mais evidentes das mudan√ßas clim√°ticas, associadas √†s quest√Ķes controversas em torno dos efeitos das t√©cnicas gen√©ticas de produ√ß√£o da vida vegetal e animal e da cont√≠nua expans√£o das monoculturas do agroneg√≥cio para novas regi√Ķes no interior do Brasil. Nesse sentido, um marco na defesa dos corpos e territ√≥rios √© a realiza√ß√£o da 1¬™ Marcha das Mulheres Ind√≠genas, em 2019, junto a 6¬™ edi√ß√£o da Marcha das Margaridas, em Bras√≠lia., 

Neste momento em que a mercantiliza√ß√£o e financeiriza√ß√£o das diferentes formas de vida t√™m sido levadas ao extremo, os ecofeminismos se apresentam como uma alternativa para a atualiza√ß√£o dos feminismos (Rodriguez, 2013). No entanto, pode-se afirmar que o n√£o-lugar dos animais objetificados e homogeneizados na produ√ß√£o em confinamento de massa para o consumo de certos grupos humanos, ainda continua sendo, em grande medida, um tema de pouca relev√Ęncia dentro dos feminismos em geral e do modelo de sociedade estruturalmente especista. √Č preciso entender a conex√£o entre a explora√ß√£o das mulheres, dos animais e da natureza, e analis√°-la em profundidade. A explora√ß√£o da capacidade reprodutiva das galinhas e vacas para a produ√ß√£o de ovos e leite, o que inclui muitas vezes o uso da insemina√ß√£o artificial para acelerar o processo de reprodu√ß√£o no sistema das fazendas industriais do capitalismo, a destrui√ß√£o ambiental decorrente da expans√£o das √°reas de pastagens para o gado, a contamina√ß√£o da √°gua e a polui√ß√£o dos solos com agrot√≥xicos para produzir gr√£os que alimentam os animais confinados para consumo humano e a consequente redu√ß√£o das √°reas florestais, que viola o direito √† √°gua pot√°vel, afetam desproporcionalmente as mulheres, majoritariamente respons√°veis pela reprodu√ß√£o social e pelas tarefas do cuidado.

Contribui√ß√Ķes originais dos ecofeminismos

 As te√≥ricas ecofeministas auxiliam a compreender o funcionamento dos sistemas de domina√ß√£o e explora√ß√£o assentados em dualismos hier√°rquicos de valor. Plumwood (1993, p. 42) conceitua os dualismos como ‚Äúformas alienadas de diferencia√ß√£o‚ÄĚ constru√≠das e interpretadas com base no poder sistematizado e institucionalizado, que estabelece o que pertence a um reino inferior e estranho. Na concep√ß√£o dualista de mundo, os pares de cada um dos lados se inter-relacionam: mulheres e natureza s√£o aproximadas do lado inferior ao serem consideradas territ√≥rios de invas√£o, subordinadas e sem poder, distanciando-se do lado superior do dualismo ‚Äď do racionalismo, da cultura e dos homens. Com isso, tem-se que, apesar do sentido plural do termo ecofeminismo, a cr√≠tica aos dualismos que estruturam o modelo de sociedade ocidental √© uma quest√£o central.

Sem pretender esgotar aqui as diferentes contribui√ß√Ķes dos ecofeminismos ativistas e acad√™micos, algumas abordagens permitem entender como a subordina√ß√£o, domina√ß√£o e explora√ß√£o das mulheres, dos animais, da natureza e de outras minorias pol√≠ticas √© sustentada. Nesse sentido, destacam-se, por um lado, duas ferramentas te√≥ricas: 1) identidade mestre, de Val Plumwood; e 2) estrutura conceitual opressora, de Karen J. Warren. Por outro lado, a partir das ferramentas te√≥ricas apresentadas, as contribui√ß√Ķes voltam-se para reconceber as rela√ß√Ķes de forma n√£o opressiva:  1) defesa da √©tica do cuidado por parte de Marti Kheel e Alicia Puleo, por exemplo; e 2) ado√ß√£o da perspectiva de subsist√™ncia para a comunidade de vida na Terra, por Maria Mies e Vandana Shiva.

Plumwood (1993) aprofunda a an√°lise sobre os dualismos hier√°rquicos e os associa com a forma√ß√£o da ‚Äúidentidade mestre‚ÄĚ, que se refere ao modo hegem√īnico pelo qual a identidade masculina √© constru√≠da sobretudo nas sociedades patriarcais. Mesmo com varia√ß√Ķes regionais e temporais, bem como a influ√™ncia de categorias como ra√ßa, etnia, sexualidade etc., espera-se que homens desenvolvam e exercitem certas caracter√≠sticas: racionalidade, imparcialidade, agressividade, competitividade, autonomia e liberdade. Essas caracter√≠sticas s√£o constru√≠das em oposi√ß√£o, de modo dualista e hier√°rquico, a tra√ßos estabelecidos como femininos: falta de racionalidade ou prioriza√ß√£o das emo√ß√Ķes, parcialidade, passividade, depend√™ncia. Aqueles que n√£o t√™m os mesmos atributos do mestre s√£o tidos como ‚Äúdeficientes‚ÄĚ em rela√ß√£o ao masculino dominante e, portanto, s√£o posicionados abaixo do padr√£o ou considerados o ‚Äúoutro‚ÄĚ a ser controlado. O elemento central desse modelo de identidade √© a constru√ß√£o de uma ideia de racionalidade enquanto privil√©gio do ‚Äúmestre‚ÄĚ na sociedade ocidental, que tamb√©m concebe a natureza como a materialidade subordinada e o feminino como separado e abaixo dele. N√£o se trata, assim, meramente de uma identidade masculina, mas de um mestre e protagonista super-her√≥i assentado em m√ļltiplas exclus√Ķes e elimina√ß√Ķes de quaisquer outras identidades, cujas aventuras de conquista e domina√ß√£o formam a hist√≥ria intelectual ocidental. Os ‚Äúmestres‚ÄĚ encontram-se na elite branca, predominantemente masculina e formada no contexto de privil√©gios de classe, ra√ßa, g√™nero e tamb√©m esp√©cie.

Na mesma linha do conceito de ‚Äúidentidade mestre‚ÄĚ, Warren (2000) amplia a leitura de mundo ao caracterizar a ‚Äúestrutura conceitual opressora‚ÄĚ, que se apresenta como ‚Äúum conjunto de cren√ßas, valores, atitudes e suposi√ß√Ķes que moldam e refletem como a pessoa v√™ a si e ao seu mundo‚ÄĚ (Warren, 2000, p. 46, tradu√ß√£o nossa). Quando esse conjunto se associa a contextos opressores, a exemplo do patriarcado, passa a ser usado para justificar a subordina√ß√£o de grupos. Sob uma estrutura conceitual patriarcal, ent√£o, a produ√ß√£o de conhecimento e a organiza√ß√£o do pensamento humano de car√°ter euroc√™ntrico se baseiam na constru√ß√£o de hierarquias opressoras, as quais estabelecem quem s√£o os de cima (e possuem mais valor) e os de baixo (que possuem menos valor). Ao inv√©s de as diferen√ßas serem entendidas como complementares, s√£o categorizadas como pares excludentes e opostos. Isso envolve tamb√©m o estabelecimento de rela√ß√Ķes nas quais o poder √© exercido sobre algu√©m, de cima para baixo. Com isso, privil√©gios de grupo s√£o mantidos, criados e perpetuados. Por fim, toda essa estrutura de rela√ß√Ķes hier√°rquicas e excludentes, associada a um discurso que justifica a domina√ß√£o, sanciona a ‚Äúl√≥gica da domina√ß√£o‚ÄĚ.

Uma vez que a l√≥gica da domina√ß√£o passa a ser utilizada na regula√ß√£o das inter-rela√ß√Ķes, tem-se consequ√™ncias como o tratamento destrutivo da natureza, o desrespeito √†s demandas e formas de vida de minorias pol√≠ticas, prejudicando a pr√≥pria constru√ß√£o da identidade desses indiv√≠duos, em nome da manuten√ß√£o intencional de privil√©gios de grupos dominantes. As estruturas conceituais que est√£o na base dessa l√≥gica s√£o usadas para justificar diversos sistemas de domina√ß√£o a partir de diferentes categorias constru√≠das socialmente ‚Äď racismo, sexismo, especismo, capacitismo, naturismo, cisheterossexismo ‚Äď as quais est√£o entrela√ßadas e se refor√ßam mutuamente (Warren, 2000).

Para al√©m do ferramental te√≥rico-anal√≠tico que permite compreender a estrutura excludente e opressora que perdura tamb√©m nas sociedades democr√°ticas contempor√Ęneas, apesar da igualdade formal estabelecida, e est√° na base de diferentes formas de injusti√ßa, as autoras ecofeministas prop√Ķem reflex√Ķes no campo da filosofia moral, destacando-se a expans√£o da abordagem da √©tica do cuidado para al√©m da esp√©cie humana. Kheel (2008, 2019) e Puleo (2019) desenvolvem a abordagem do cuidado a partir de cr√≠ticas √†s limita√ß√Ķes das perspectivas tradicionais de expans√£o da comunidade moral com base no reconhecimento de direitos animais e ambientais. Na compreens√£o de Kheel (2019), uma √©tica do cuidado ecofeminista entende que a destrui√ß√£o da natureza externa est√° conectada com a destrui√ß√£o da natureza interna do ser humano. Por isso, ‚Äú[d]a mesma forma que ambientalistas est√£o recuperando as paisagens devastadas, n√≥s precisamos regenerar nossas ‚Äėpaisagens‚Äô internas, incluindo nossa capacidade de empatia pelos outros animais‚ÄĚ (Kheel, 2019, p. 41). Para construir uma ecologia do cuidado, √© necess√°rio que o ser humano remova fatores mentais que o impossibilitam de fazer florescer a capacidade de empatia, que permite transformar as intera√ß√Ķes com o mundo natural, ‚Äúaproximando-nos de um mundo de paz e n√£o viol√™ncia para todos os seres vivos‚ÄĚ (Kheel, 2019, p. 41).

Puleo (2019) entende que o cuidado atento √© um dos elementos que permite pensar um caminho alternativo √† globaliza√ß√£o androantropoc√™ntrica. Todavia, a valoriza√ß√£o do cuidado e da empatia n√£o pode se dar alheia a uma cr√≠tica aos estere√≥tipos de g√™nero subjacentes √† organiza√ß√£o patriarcal, promotora do exterm√≠nio e da competitividade do mercado. A valoriza√ß√£o, o ensino e o compartilhamento de atitudes e condutas de cuidado como um ideal universaliz√°vel precisam se dar concomitantemente √† constru√ß√£o de uma sociedade n√£o mais ordenada por dualismos hier√°rquicos de g√™nero. √Č necess√°ria uma reconcep√ß√£o do ser humano que integre raz√£o e emo√ß√£o e a partir da qual o humano deixe de se perceber como o protagonista na hist√≥ria para se compreender como parte de uma imensa rede de vida na terra.

  Se Kheel e Puleo prop√Ķem o cuidado nas inter-rela√ß√Ķes entre todas as formas de vida como express√£o do agir √©tico, Shiva e Mies se preocupam em repensar o cen√°rio da a√ß√£o pol√≠tica e econ√īmica de explora√ß√£o da natureza, das mulheres e das na√ß√Ķes do Sul Global, levado adiante pela ‚Äúidentidade mestre‚ÄĚ. O capitalismo e suas falsas promessas de bem-estar ao alcance de todos, de desenvolvimento inclusivo e sustent√°vel defendidas no Norte Global, est√° na raiz da destrui√ß√£o ambiental e dos modos de vida de comunidades humanas mais integradas ao meio ambiente no Sul Global.

Como contraproposta a esse modelo desenvolvimentista patriarcal e neoliberal, Shiva e Mies (1993, p. 15) reivindicam a necessidade de uma nova cosmologia que ‚Äúreconhece que a vida na natureza (incluindo os seres humanos) mant√©m-se por meio da coopera√ß√£o, cuidado e amor m√ļtuos‚ÄĚ. Nesse sentido, para respeitar a diversidade de todas as formas de vida, incluindo suas express√Ķes culturais, uma economia de subsist√™ncia deve ocupar o lugar. Os esfor√ßos humanos precisam se concentrar em promover um sentido de liberdade n√£o apoiado no consumismo e ac√ļmulo material, mas numa ‚Äúvis√£o da liberdade, da felicidade, a ‚Äėboa vida‚Äô, dentro dos limites da necessidade, da natureza‚ÄĚ (Idem, p. 17). A perspectiva da subsist√™ncia desenvolvida pelas autoras, inspirada nas lutas pela sobreviv√™ncia de movimentos locais, permite ampliar a liberdade para todos, humanos e n√£o humanos, e n√£o apenas para aqueles que configuram o grupo da ‚Äúidentidade mestre‚ÄĚ.

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Outros materiais:

ANPOF 8M – Dra. T√Ęnia Kuhnen (UFOB) fala sobre ecofeminismo. https://www.youtube.com/watch?v=Qf0i2QD7Q64&t=1s 

As sementes. https://www.youtube.com/watch?v=CCZcOCcm-9Q 

Ecofeminismo e epistemologia com Emma Siliprandi (aula 1). https://www.youtube.com/watch?v=wHz6ds7E-0M

Ecofeminismo e epistemologia com Emma Siliprandi (aula 2). https://www.youtube.com/watch?v=g8dFYBVcmII

Vandana Shiva por Daniela Rosendo. https://www.youtube.com/watch?v=S00pJ4De9OM&list=PLgMELou_Khj4KA7RPW6d7p97t2gvBfVhF&index=5

MARCHA DAS MARGARIDAS. Margaridas seguem em Marcha por Desenvolvimento Sustentável com Democracia, Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade: Caderno de textos para estudos e debates. Brasília: CONTAG, 2015.

Conversando sobre Ecofeminismos: Entrevista com Ivone Gebara. https://www.youtube.com/watch?v=PG5NXw-fSBc&t=1562s