Damaris Cudworth Masham

(1659 – 1708)

por Tessa Moura Lacerda, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de S√£o Paulo (USP) – Lattes

e Vivianne de Castilho Moreira, professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paran√° (UFPR) – Lattes

Damaris Cudworth Masham – PDF

Por Todd Whitesides – http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=102819325, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=54043683

Informa√ß√Ķes biogr√°ficas

Damaris Cudworth Masham, tamb√©m conhecida como Lady Masham, nasceu em Cambridge, em 18 de janeiro de 1659, e faleceu em Londres, em 20 de abril de 1708. Era filha de Ralph Cudworth, fil√≥sofo plat√īnico que lecionava na Universidade de Cambridge. Casou-se com Sir Francis Masham, de quem assumiu o sobrenome, conforme o costume da √©poca. J√° vi√ļvo, Sir Masham trouxe do primeiro casamento nove filhos. A estes se somou o √ļnico filho do casal, Francis Cudworth Masham.

Como a maioria das mulheres de seu tempo, Lady Masham n√£o recebeu educa√ß√£o formal. Em contrapartida, teve o privil√©gio raro de transitar, desde a inf√Ęncia, em c√≠rculos acad√™micos: primeiro gra√ßas ao ambiente intelectual de que seu pai fazia parte; depois de adulta, em virtude da profunda amizade com o fil√≥sofo John Locke. Locke chegou a morar por 14 anos na resid√™ncia dos Masham em Oates, onde, ali√°s, veio a falecer em 1704, deixando uma biblioteca de mais de 4.000 livros, al√©m de v√°rios instrumentos cient√≠ficos. Durante esse per√≠odo, foi preceptor do filho do casal, para quem legou em testamento uma vultosa heran√ßa. Gra√ßas a Locke, a fam√≠lia Masham p√īde tamb√©m frequentar um c√≠rculo seleto de intelectuais interlocutores do fil√≥sofo. Sir Isaac Newton foi uma das visitas ilustres que Locke recebeu quando residia com a fam√≠lia Masham.

Essas circunst√Ęncias permitiram que Lady Masham tomasse parte, como poucas mulheres de seu tempo, em debates filos√≥ficos. Mas seu protagonismo nesses debates e a reputa√ß√£o que conquistou est√£o longe de se explicar apenas pelas circunst√Ęncias. Ao contr√°rio, eles atestam o interesse que, desde muito jovem, a fil√≥sofa manifestou pelo conhecimento e pelas novidades cient√≠ficas do seu tempo. Foi sozinha e j√° adulta, por exemplo, que aprendeu latim, seguindo o m√©todo recomendado por Locke em sua obra Some Thoughts Concerning Education [Algumas Reflex√Ķes Sobre Educa√ß√£o] cf. (Hutton, 2020). Masham era, naturalmente, profunda conhecedora do pensamento de seu pai, bem como de outros plat√īnicos de Cambridge, como Henry More e John Smith. Mostrava tamb√©m desenvoltura nas obras de Descartes e Malebranche.

Todo esse estofo transparece nas correspondências que trocou, bem como nas duas obras que publicou, embora anonimamente, sobre filosofia moral, metafísica e educação das mulheres: Discourse Concerning the Love of God [Discurso sobre o amor de Deus] (1696), no qual se posiciona a respeito da teoria da causalidade contra a tese ocasionalista; e Occasional Thoughts in Reference to a Vertuous or Christian Life [Pensamentos ocasionais a respeito de uma vida cristã virtuosa] (1705). Dentre os pensadores e cientistas com quem Lady Masham manteve correspondência sobre temas filosóficos, morais e metafísicos diversos, destacam-se G. W. Leibniz, Jean Le Clerc, Philip Van Limborch, Lord Shaftesbury, além, naturalmente, do amigo John Locke.

Obra

1. Discurso sobre o amor de Deus (1696)

O Discourse Concerning the Love of God [Discurso sobre o amor de Deus] foi publicado anonimamente por Masham em 1696. √Č de se presumir, por√©m, que sua autoria era conhecida, j√° que quando, quase dez anos mais tarde, a obra foi publicada na tradu√ß√£o em franc√™s (Amsterd√£: 1705), recebeu um pref√°cio de Pierre Coste que faz alus√£o √† autora. O tema central do livro √© a causalidade e a cr√≠tica ao ocasionalismo. Em s√≠ntese, Masham sustenta a efetividade das rela√ß√Ķes causais entre as criaturas, nessa mesma toada dirigindo cr√≠ticas √† perspectiva ocasionalista. De acordo com esta √ļltima, as intera√ß√Ķes entre as criaturas que aparecem como rela√ß√Ķes causais seriam, no rigor metaf√≠sico, frutos da interven√ß√£o direta divina, destinadas a manter o equil√≠brio do todo. Dito de outro modo, as criaturas n√£o exerceriam influ√™ncia direta umas sobre as outras, mas corresponderiam apenas √†s ocasi√Ķes em que Deus produziria efeitos nos existentes.

No tratado, √© sobretudo a vers√£o do ocasionalismo sustentada por um jovem autor, a quem nomeia ‚ÄúSenhor N.‚ÄĚ, que a fil√≥sofa critica. Segundo Masham, o autor, que √© provavelmente John Norris, defende que s√≥ percebemos as coisas em Deus e que √© s√≥ a Deus que devemos ter amor (Masham, 2017, p.30). Masham rejeita ambas as teses e sublinha que a primeira jamais foi provada. Ali√°s, ela vai al√©m, declarando suspeitar que talvez jamais possa s√™-lo (Masham, 2017, p.20). E rebate a segunda tese sustentando que, quando dizemos amar um filho ou um amigo, queremos dizer que sentimos prazer neles; e quando dizemos amar a Deus sobre todas as coisas, √© porque Ele √© o maior bem existente e que, portanto, h√° um deleite ainda maior do que haveria no amor a um filho ou um amigo. E completa:

‚ÄúQuando digo que me amo, tamb√©m quero dizer que meu ser √© querido e agrad√°vel para mim. Dizer que se ama uma coisa, e que √© nisso que se tem prazer, √© o mesmo. ‘Amor’ √© apenas um nome dado √† disposi√ß√£o ou o ato da mente que encontramos em n√≥s mesmos para qualquer coisa que nos agrade‚ÄĚ. (Masham, 2017, p.5)

Portanto, dizer que amamos as coisas criadas é dizer que elas nos dão prazer e que contribuem para nosso bem. Se essas coisas forem meras causas ocasionais, ou seja, se nossa relação com elas não for direta, fruto de uma causalidade eficiente entre nós e elas, mas apenas uma relação mediada pela ação de Deus, o papel que elas desempenham em nossa vida prática desaparecerá. E desaparecerá, com ele, o próprio amor por elas, ou, mais precisamente, o prazer que o embasa, já que este deveria ser entendido, então, como efeito da ação divina sobre nós, e não como um sentimento que aquelas coisas suscitam em nós. A filósofa rejeita essa consequência e é severa contra os ocasionalistas:

‚ÄúDada a sua ignor√Ęncia de qualquer outra maneira de explicar a natureza de nossas ideias e percep√ß√Ķes, eles ‚ÄĒ as pessoas com quem estou discutindo ‚ÄĒ dificilmente podem perceber o que significam seus pr√≥prios argumentos, a menos que tenham uma √≥tima opini√£o sobre suas pr√≥prias habilidades ou uma p√©ssima opini√£o a respeito do poder e da sabedoria de Deus!‚ÄĚ. (Masham, 2017, p.8)

Lady Masham prossegue em sua crítica ponderando que, se percebêssemos em Deus todas as nossas ideias, os órgãos do sentido em sua maravilhosa construção seriam supérfluos. Partindo dessa ponderação, ela contesta com veemência a tese ocasionalista no Discurso sobre o amor de Deus,considerando que essa tese culmina por limitar a infinita sabedoria divina. Ainda segundo ela, a tese tem consequências indesejáveis para a vida em sociedade, pois se apenas Deus é objeto de nosso amor, e tudo o mais é uma causa ocasional de amor, então, no rigor, os próprios laços que fundam a vida social estão comprometidos, assim resultando inviável a vida em sociedade. Segundo ela:

‚ÄúN√£o pode haver evid√™ncia mais forte da falsidade da premissa de que o amor de Deus deve estar fundado em que ele √© a causa imediata de todas as nossas sensa√ß√Ķes do que o fato de que ela destr√≥i todos os deveres e obriga√ß√Ķes da vida social‚ÄĚ. (Masham, 2017, p.33)

Assim, segundo Masham, a tese representa um duplo abalo: ela abala a verdadeira piedade quando limita Deus cf. (Masham, 2017, p.20); e √© demolidora da vida em sociedade quando limita nosso amor. Ela arremata: ‚Äú√Č certo que, se n√£o tiv√©ssemos nenhum desejo exceto para com Deus, as v√°rias sociedades humanas n√£o poderiam se manter unidas por muito tempo, e nem mesmo a humanidade poderia continuar‚ÄĚ (Masham, 2017, p.22).

2. Pensamentos ocasionais a respeito de uma vida crist√£ virtuosa (1705)

Em seu segundo livro publicado, Occasional Thoughts in Reference to a Vertuous or Christian life [Pensamentos ocasionais a respeito de uma vida crist√£ virtuosa] (1705), Lady Masham advoga em favor da educa√ß√£o das mulheres, tomando parte na pol√™mica que ficou conhecida por ‚Äúquerela das mulheres‚ÄĚ. Esta querela opunha mis√≥ginos e feministas desde o s√©culo XV, mas ganha for√ßa durante o s√©culo XVII.

Lady Masham defende o acesso das mulheres √† educa√ß√£o de uma maneira particularmente ir√īnica: ela dir√° que a educa√ß√£o das mulheres √© fundamental, n√£o apenas porque as mulheres t√™m almas racionais e imortais (que, como as almas masculinas, precisam da salva√ß√£o), mas tamb√©m porque s√£o as mulheres ‚ÄĒ as m√£es ‚ÄĒ as respons√°veis pela educa√ß√£o das crian√ßas. Se as mulheres n√£o receberem educa√ß√£o adequada, como poder√£o educar os futuros cidad√£os ingleses? Reconhecendo o poder da educa√ß√£o para o desenvolvimento de reinos e comunidades (Masham, 1747, pp. 7-8), a fil√≥sofa critica fortemente a neglig√™ncia e a omiss√£o da sociedade em rela√ß√£o √† educa√ß√£o das mulheres:

‚ÄúEsta omiss√£o em rela√ß√£o a um Sexo mostra que os sofrimentos infligidos ao outro [sexo] ami√ļde se revelam, como de fato acontece, ineficazes. Pois a assist√™ncia atual das m√£es ser√° (em geral) considerada necess√°ria para uma boa forma√ß√£o da mente das Crian√ßas de ambos os Sexos; ademais, as Impress√Ķes recebidas naquela tenra Idade, muitas das quais vivenciadas entre as Mulheres, t√™m extrema import√Ęncia para os Homens ao longo de todo o resto de suas Vidas, porque t√™m uma forte influ√™ncia, muitas vezes inalterada, sobre suas Inclina√ß√Ķes e Paix√Ķes futuras‚ÄĚ. (Masham, 1747, pp. 7-8)

A fil√≥sofa considera que h√° uma lei universal e eterna do Direito (Masham, 1747, pp. 23-24), mas afirma que a religi√£o √© o √ļnico suporte seguro para a virtude:

‚ÄúA cren√ßa em um Ser Onipotente Superior, que inspeciona nossas A√ß√Ķes, e que nos recompensar√° ou nos punir√° de acordo com elas, √© (…) na verdade o √ļnico argumento est√°vel e irresist√≠vel para submeter nossos desejos a uma regra constante, que √© em que a Virtude consiste‚ÄĚ. (Masham, 1747, p.15)

Por essa razão, mulheres e homens devem receber uma educação religiosa. Afinal, se pessoas que não entendem da religião ensinam sobre religião, essa instrução irracional ou essa falta de instrução pode levar ao ceticismo cf. (Masham, 1747, p. 32). Se as verdades sagradas das quais a salvação depende não são ensinadas e se as pessoas nas quais as crianças confiam não podem ensiná-las, o resultado para sociedade é desastroso cf. (Masham, 1747, pp. 37-39).

Masham julga que a Lei da Raz√£o ou a Lei da Natureza √© o resultado da constitui√ß√£o imut√°vel das coisas, a religi√£o crist√£ apenas torna isso mais evidente cf. (Masham, 1747, p. 54). Em sintonia com a tradi√ß√£o inglesa, a fil√≥sofa considera que a ‚Äúgarantia racional da autoridade divina das Escrituras e a liberdade de examin√°-las s√£o absolutamente necess√°rias para a satisfa√ß√£o de qualquer pessoa racional, no que concerne √† certeza da religi√£o crist√£‚ÄĚ (Masham, 1747, p. 45). Com efeito, se uma crian√ßa pergunta por que se diz que as Escrituras s√£o a palavra de Deus, e recebe como resposta que √© pela majestade e pureza do texto ou coisas semelhantes, a crian√ßa pode com raz√£o duvidar das Escrituras como a palavra de Deus: ‚Äúpois como √© poss√≠vel, n√£o apenas para um menino ou uma menina, mas at√© mesmo para um homem ou mulher ind√≠gena ficar mais convencido por esta resposta (…)?‚ÄĚ (Masham, 1747, p. 49). S√≥ √© poss√≠vel ser racionalmente convencida disso, afirma Masham, se a crian√ßa souber ‚Äúque as Escrituras foram de fato escritas por aqueles cujos Nomes elas carregam; que essas pessoas foram testemunhas inquestion√°veis e historiadores fi√©is dos assuntos que relatam‚ÄĚ (Ibidem). A fil√≥sofa tem, portanto, uma concep√ß√£o de hist√≥ria que, remontando a Her√≥doto e √† ideia de testemunho, fundamenta sua leitura da B√≠blia e dos princ√≠pios religiosos. Em resumo: segundo ela, √© preciso explicar racionalmente as Escrituras.

Masham se serve também da crítica às regras sociais a fim de argumentar em favor do acesso das mulheres à educação. Ela questiona, por exemplo, o modo como a sociedade inglesa do período vê o casamento: os homens ingleses escolhem suas esposas pensando na fortuna, quando deveriam pensar no quão educadas nos preceitos religiosos as mulheres são:

‚ÄúAs mulheres s√£o muito mais dignas de pena do que de culpa. O cultivo da Raz√£o, embora necess√°rio √†s Senhoras para sua Realiza√ß√£o como Criaturas racionais, e embora necess√°rio para que elas deem boa educa√ß√£o a seus filhos e sejam √ļteis em suas fam√≠lias, raramente √© recomendado aos homens. Pensando, tolamente, que o Dinheiro atender√° a todas as coisas, eles n√£o se preocupam, no geral, com nada mais na Mulher com quem h√£o de se Casar. E visto que nem sempre encontram o que n√£o est√£o procurando, n√£o √© de admirar que a sua Descend√™ncia n√£o herde mais Razoabilidade do que eles pr√≥prios‚ÄĚ. (Masham, 1747, pp. 161-162)

Masham sugere ironicamente que manter as mulheres sem acesso √† educa√ß√£o, e particularmente √† educa√ß√£o religiosa, √© uma forma de controle e de poder: ‚ÄúMas o que √© dito aqui implica que as senhoras devem entender sua religi√£o t√£o bem a ponto de serem capazes de responder tanto aos que se op√Ķem a ela, quanto aos que n√£o a representam adequadamente‚ÄĚ (Masham, 1747, p. 165). Esses ‚Äúpatronos da ignor√Ęncia‚ÄĚ, que consideram desnecess√°rio que as mulheres recebam educa√ß√£o adequada, s√£o homens que agem contra os preceitos crist√£os: ‚Äúou n√£o devem estar persuadidos da Verdade do Cristianismo, ou ent√£o devem acreditar que as mulheres n√£o se preocupam em ser crist√£s‚ÄĚ (Ibidem).

As mulheres também precisam ser convencidas da necessidade de sua educação. E reconhecer a opressão em que se vive é o primeiro passo para lutar contra ela. Masham é dura em seu discurso:

‚Äú√Č de se temer que poucas senhoras (devido √† desvantagem de sua pr√≥pria educa√ß√£o) estejam t√£o bem preparadas quanto deveriam para cuidar de seus filhos, e que mesmo assim n√£o estejam dispostas a fazer o que puderem para tanto, seja por pensar que seria muito dif√≠cil (…), seja por uma quest√£o de orgulho ‚ÄĒ t√£o sem sentido (…) que algu√©m poderia ser tentado a questionar se tais mulheres ainda s√£o capazes ou dignas de ser as m√£es de criaturas racionais‚ÄĚ. (Masham, 1747, pp. 178-179)

Segundo a fil√≥sofa, nascemos todos para contribuir com o bem da comunidade, e n√£o para desfrutar do trabalho alheio e viver de maneira ociosa: Deus nos criou ‚Äúpara a sociedade e a comunh√£o m√ļtua, como membros do mesmo corpo, √ļteis uns aos outros em seus respectivos lugares‚ÄĚ (Masham, 1747, p. 179). Nenhuma pessoa, nenhuma mulher pode se colocar acima das necessidades coletivas, como a educa√ß√£o e a instru√ß√£o das crian√ßas; logo, as mulheres devem estar concernidas em aprimorar sua pr√≥pria educa√ß√£o.

A correspondência com Leibniz

O debate epistolar com Leibniz se d√° nos anos 1704-1705. Nessa correspond√™ncia, Masham se engaja na defesa da obra do pai, Ralph Cudworth, contra a interpreta√ß√£o que Pierre Bayle sustenta a seu respeito. Bayle afirmara, em uma controv√©rsia com Le Clerc, que as ‚Äúnaturezas pl√°sticas‚ÄĚ de Ralph Cudworth levariam ao ate√≠smo. Ao sustentar essa interpreta√ß√£o, ele se ampara no livro The True Intellectual System of the Universe [Verdadeiro sistema intelectual do universo], um tratado de metaf√≠sica que Cudworth havia publicado parcialmente em 1678. O livro angariou consolidada notoriedade a Cudworth, mas suscitou, concomitantemente, intensa controv√©rsia, da qual a cr√≠tica de Bayle √© um dos eixos. Nesse tratado, Cudworth critica o mecanicismo dos atomistas e dos cartesianos e prop√Ķe as naturezas pl√°sticas como uma media√ß√£o entre o mundo divino e o mundo natural, para manter a const√Ęncia das leis do universo. Ele sustenta a hip√≥tese do mediador pl√°stico (plastic medium), que seria como uma ‚Äúrevisita√ß√£o da alma do mundo plat√īnica‚ÄĚ (Ferreira, 2010, p.18). O mediador pl√°stico seria ‚Äúuma entidade, um princ√≠pio org√Ęnico, que estabelece a unidade entre corpo e alma‚ÄĚ (Marinho, 2021, p. 588). Cumpria-lhe unir esp√≠rito e mat√©ria, para o que ele partilharia as naturezas de ambos.

Segundo Cudworth, pelas naturezas pl√°sticas, Deus manifestaria sua vontade sem intervir diretamente no mundo. Como destaca Ferreira (2010, p. 18), com esta tese, ‚ÄúCudworth pretende fugir do ocasionalismo de Malebranche e simultaneamente afirmar a exist√™ncia de uma ordem no Universo. H√° como que uma iman√™ncia de Deus no mundo, o que leva a que sua a√ß√£o se manifeste no quotidiano sem que se torne necess√°rio recorrer √† sua vontade‚ÄĚ.

A ideia de um princ√≠pio org√Ęnico como media√ß√£o entre o mundo natural e o divino remete √†s concep√ß√Ķes vitalistas de Leibniz. E isso pode ter sido a motiva√ß√£o para que Lady Masham visse no fil√≥sofo um poss√≠vel aliado na defesa do pai contra a acusa√ß√£o de ate√≠smo erguida por Bayle. Ela toma a iniciativa de lhe enviar um exemplar do tratado de Cudworth e √© em agradecimento a esse presente que Leibniz redige a primeira das doze cartas que compor√£o o com√©rcio epist√≥lico entre Masham e ele.

Ainda que na correspond√™ncia com Leibniz compare√ßam formas de decoro, que envolvem a mod√©stia e a humildade caracter√≠sticas do g√™nero epistolar ‚ÄĒ como por exemplo, ‚Äúapesar de n√£o me incluir entre aquelas que podem confirmar a ideia favor√°vel que tendes das senhoras inglesas (…)‚ÄĚ (Masham, in Cardoso e Ferreira, 2010, carta 29/3/1704, p.56 – LEIBNIZ, 1996, p.337), ou ‚Äúuma interlocutora t√£o pequena como eu neste tipo de especula√ß√Ķes‚ÄĚ (Masham, in Cardoso e Ferreira, 2010, carta 3/6/1704, p.69 – Leibniz, 1996, p. 349) ‚Äď, a firmeza das posi√ß√Ķes sustentadas por Masham, a acuidade das obje√ß√Ķes e observa√ß√Ķes que faz √†s afirma√ß√Ķes de Leibniz, d√£o testemunho de que os temas abordados lhe s√£o familiares e sua complexidade n√£o a surpreende e nem intimida. Sobre a tese leibniziana da harmonia universal, que explicaria a causalidade entre as subst√Ęncias de maneira ideal, Masham afirma, por exemplo:

‚Äú(…) n√£o vejo nada estranho que pare√ßa n√£o ser poss√≠vel. Encontro nisto uma uniformidade que me agrada: e as vantagens propostas por esta hip√≥tese s√£o muito desej√°veis. Mas ainda me surge apenas como uma mera hip√≥tese; porque os caminhos de Deus n√£o s√£o limitados pelas nossas concep√ß√Ķes; o car√°ter inintelig√≠vel ou inconceb√≠vel para n√≥s de todos os caminhos menos um, n√£o me convence (…)‚ÄĚ. (Masham, in Cardoso e Ferreira, 2010, carta 3/6/1704, p.70 – Leibniz, 1996, p. 350)

E arremata em tom provocador, insinuando que Malebranche, o rival de Leibniz nesses assuntos, teceria alega√ß√Ķes similares em favor do ocasionalismo: ‚Äúlembro que o Pe. Malebranche (ou qualquer outro defensor de sua hip√≥tese) teria feito uma infer√™ncia como esta a partir da nossa ignor√Ęncia no interesse das causas ocasionais‚ÄĚ (Masham, in Cardoso e Ferreira, 2010, carta 3/6/1704, p.70 – Leibniz, 1996, p. 350).

Vemos que não parece ter exagerado o filósofo John Locke ao dizer de Lady Masham que:

‚ÄúEsta senhora √© t√£o versada nos estudos teol√≥gicos e filos√≥ficos, e tem uma mente t√£o original, que n√£o se encontrar√£o muitos homens aos quais ela n√£o seja superior em riqueza de conhecimentos e em capacidade para dela tomar partido‚ÄĚ. (apud. Ferreira, 2010, p.11)

Referências bibliográficas

Obras de Lady Masham:

Leibniz, G. W. (1996). Briefwechsel zwischen Leibniz und Lady Masham. In: Die philosophishen Schriften, Vol 3, pp. 331-375. Hildesheim: Georg Olms Verlag.

Leibniz, G. W. (2010). Correspondência entre G. W. Leibniz e Lady Masham. Tradução de Adelino Cardoso e Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Coleção Translata 6 РCentro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Lisboa: Universitas.

Masham, D. (2004). Occasional Thoughts in Reference to a Vertuous or Christian life. [E-book vers√£o online] The Project Gutenberg, EBook #13285. Recuperado de https://www.gutenberg.org/ebooks/13285. Acesso em 08 de abril de 2022

Masham, D. (1747). Occasional Thoughts in Reference to a Vertuous or Christian life. London: T. Waller. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=KmsIEU0XpfkC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false Acesso em 01 de outubro de 2022.

Masham, D. (2017). A Discourse concerning the Love of God. [E-book versão online] Copyright © Jonathan Bennett 2017. Recuperado de: https://www.earlymoderntexts.com/assets/pdfs/masham1696.pdf. Acesso em 02 de março de 2022

Obras sobre a filósofa:

Ferreira, M. (2010). Quando as mulheres obrigam os filósofos a explicar-se. Lady Masham e Leibniz. In Cardoso, A.; Ferreira, M. Correspondência entre G. W. Leibniz e Lady Masham; pp. 11-31. Lisboa: Universitas.

Lacerda, T. (2021). Sobre Lady Masham e alguns pensamentos ocasionais sobre o c√Ęnone em filosofia moderna. Seiscentos, 1 (1), pp. 40-58. Recuperado de: https://revistas.ufrj.br/index.php/seiscentos/article/view/47929/25894. Acesso em 10 junho 2022.

Marinho, A. (2021). Damaris Cudworth Masham e a constru√ß√£o da metaf√≠sica moderna. In: Aggio, J.; Ara√ļjo, C.; Faustino, S.; Sombra, L. (org.). Fil√≥sofas; pp. 587-608. Curitiba: Kotter Editorial.

Hutton, S. “Lady Damaris Masham”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2020 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = https://plato.stanford.edu/archives/win2020/entries/lady-masham/ . Acesso em 01 de outubro de 2022

Outros recursos:

Cudworth, R. The true intellectual system of the universe. The first part wherein all the reason and philosophy of atheism is confuted and its impossibility demonstrated. [E-book vers√£o online] Recuperado de: https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A35345.0001.001?view=toc Acesso em: 20 julho 2022