Psicodelia explicada por neurônios em curto

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“Está cheio de estrelas”, disse o astronauta Bowman enquanto era absorvido pelo Monolito Negro em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Uma sucessão de imagens psicodélicas (criadas com fotografia slit-scan) representavam então um contato com o Divino, ou o que quer que fosse, já que o próprio Kubrick nunca deixou claro o que diabos aquele final significava. Mas era algo grande, místico, mesmo religioso.

Imagens espirais e túneis de luz afins emergem repetidamente em experiências com drogas alucinógenas, e talvez não por mera coincidência, em iconografias religiosas resultantes de “visões”, como mandalas, arte islâmica ou catedrais cristãs. Não apenas isso, surgem também em experiências de “quase-morte”, alucinações de sinestésicos, cefaléias, epilepsia, distúrbios psicóticos, sífilis avançada, distúrbios do sono, tontura e mesmo em pinturas rupestres de milhares de anos.

Esta universalidade parece indicar algo maior, quiçá contato com planos superiores, ainda que cefaléias, sífilis avançada ou distúrbios psicóticos como meio de se aproximar de deus pareça um tanto bizarro. A neurociência aliada à matemática sugere uma explicação um pouco mais mundana. Porque a ciência já anda investigando o tema.

Nos anos 1920, o neurologista alemão Heinrich Klüver dedicou-se com afinco a estudar os efeitos da mescalina (peyote), e notou como tais padrões geométricos eram repetidamente relatados por diferentes sujeitos (incluindo ele mesmo, mas esta é outra história). Os padrões acabaram classificados no que ele chamou de “constantes de forma”, de quatro tipos: (I) túneis, (II) espirais, (III) colméias e (IV) teias.

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Pois estudos recentes, aliando descobertas sobre o funcionamento do córtex visual a modelos do funcionamento de neurônios sugerem que tais padrões podem surgir simplesmente de uma espécie de curto-circuito no cérebro. Perturbações simples no córtex visual, quando mapeadas ao correspondente que o sujeito perceberia, podem gerar padrões notavelmente similares às constantes de forma psicodélicas.

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À esquerda, a representação da alucinação de um maconhado. Ao lado, a simulação da percepção gerada pela perturbação do córtex visual. Simples assim. Nada de enxergar deus, e sim um produto da forma como nossos neurônios processam imagens, e como reagem assim a perturbações em seu funcionamento. “Está cheio de estrelas”, mas todas em seu cérebro.

Ou não tão simples, é preciso ressalvar. Neurocientistas, cientistas que são, admitem que ainda não conseguem explicar todas as alucinações relatadas. O próprio exemplo acima envolve uma complexidade maior do que os modelos usados, e a simulação envolve mais especulação. Mesmo o modelo utilizado para simular a percepção dos sujeitos frente às perturbações em seu córtex visual é, ainda, rudimentar, envolvendo diversas simplificações. É uma área ainda em exploração, mas pelo visto, extremamente promissora. Explicaria bem porque tanto religiosos em transe quanto drogados e sifilíticos em estado avançado poderiam partilhar as mesmas alucinações visuais. São seres humanos partilhando a mesma estrutura cerebral submetida a alguma perturbação.

O caso lembra um episódio que aconteceu há algum tempo comigo. Escrevo uma coluna promovendo uma “Dúvida Razoável” no blog S&H, tendo como colega o amigo Marcelo del Debbio, que promove sua “Teoria da Conspiração”.

Em uma das colunas, o Marcelo propôs um exercício para que qualquer um pudesse ver o “Prana”: olhar o céu, relaxando os olhos e focar o infinito. Com o tempo, “será possível ver minúsculas bolinhas brancas, às vezes com um pronto preto. Surgem por um segundo ou dois, deixam um ligeiro traço e tornam a desaparecer. Se você persistir na observação e expandir a visão, começará a ver que todo o campo pulsa num ritmo sincronizado”.

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Bem, ao ler sobre tal imediatamente comentei que o exercício e a observação era exatamente o processo indicado para ver “floaters” ou “moscas voadoras” (Muscae Volitantes). Não são elementos espirituais, e sim efeitos óticos: as “bolinhas brancas” ou pretas podem ser desde poeira sobre o olho até partículas flutuando dentro de seu globo ocular. É possível mesmo enxergar a pulsação de glóbulos em veias capilares na retina, “em ritmo sincronizado”.

O Marcelo esclareceu depois que o “Prana” a que se referia seria diferente destes efeitos óticos, que teriam movimento próprio e “formaria emanações a partir de seres vivos”, mas não posso deixar de imaginar que tais características podem ser apenas fruto de impressões subjetivas. Por que, afinal, ver “Prana” tem que envolver um processo idêntico ao usado para ver floaters, que têm uma explicação física simples?

E, voltando à psicodelia: afinal, por que ver tais imagens em transe induzido de diversas formas – a mais simples das quais é a ingestão de drogas alucinógenas, como em diversos cultos – envolve exatamente o processo para gerar perturbações no córtex visual? Por que a iconografia religiosa é tão similar a imagens padrão resultado de curto-circuitos em nosso cérebro?

Místicos podem dizer que é “mera coincidência”, mas estarão violando o dogma misticóide número 1 de que…

Coincidências não existem”.

– – –

Esta nota nem tentou explicar em detalhe os estudos envolvidos. Para tal:
Physics Makes a Toy of the Brain (Science after Sunclipse);
– "What Geometric Visual Hallucinations Tell Us about the Visual Cortex" (PDF) Neural Computation 14 (2002):473–491.

Discussão - 20 comentários

  1. Andre disse:

    Mori, queira desculpar, pois sei que o Del Debbio é seu amigo, mas ou ele é muito burro ou age de má fé escrevendo estas besteiras. O efeito das “moscas voadoras” é mais do que conhecido. E se não for, uma busca basiquinha no Google elucidaria.
    Agora, tem mente que prefere acreditar em efeitos transcendentais, enquanto outros usam isso para arregimentar seguidores.

  2. Kentaro Mori disse:

    Eu já cheguei a pensar se o Marcelo realmente acreditava naquelas coisas… e a resposta a que cheguei é que ele bem pode acreditar.
    Há por exemplo, um caso onde desconfiei que ele havia manipulado umas informações. Mas depois ele me mostrou a fonte, mesmo sem eu pedir, e fiquei surpreso porque ele não havia manipulado nada.
    Agora, claro que eu penso que as coisas em que ele acredita são um monte de besteira incoerente. Mas ainda não vi um caso dele agindo de má fé. E burro ele não é.

  3. preguiça disse:

    acho q a ingestão de drogas também altera a freqüência de funcionamento dos olhos (20 quadros por segundo), para alguma outra(s), podendo assim enxergar a porta respirando, e coisas parecidas.
    mas viagem mesmo é usar matemática para simular as alucinações! hahoihae
    agora, volto pros estudos das transformadas de fourier…

  4. João Carlos disse:

    Nem todo “místico” vai dizer isso, Mori… Eu sou um místico que acredita, por exemplo, em “fadas”. E sabe o que eu acho das figurinhas que as pessoas juram que “viram”?… Que são alucinações (com uma boa dose de apofenia…)
    Você acredita em unicórnios?… É claro que sim! Só que você chama pelo nome certo: rinoceronte. Os cavalinhos brancos com “chifres” de narval são figurinhas míticas, criadas – digamos – por “licença poética”…
    Nós discordamos sobre as causas das alucinações. Mas – só para dar um exemplo – os tupi (cujo forte nunca foi a matemática) chamavam os bois de tapiraçu… “Anta grande”. “Ídolos de Bacon”… 😉

  5. Rafael disse:

    drogas tb afetam o cerebro, como estado de transe tb. só são dois meios de chegar no mesmo lugar….

  6. Carlos Magno disse:

    Impossível convencer um cético argumentativo e aficionado unicamente da ciência.
    Que os deuses inumanos,- o Hubble e Colisor de Partículas, – e seus semideuses humanos, particularmente o deus Sagan, os abençoe sempre e continue a nutri-los com o concretismo energia-matéria tridimensional, pois o universo multidimensional, o Olimpo científico, é ainda inalcançável.
    Como meu cérebro não está polarizado unicamente nos padrões cartesianos, não somente acredito em fadas, gnomos, unicórnios e etc., com nomes de terminologias mitológicas ou convencionais da tradição esotérica, como sei de suas reais existências.
    Videntes de diferentes locais que jamais se conheceram confirmam indiscutivelmente suas formas e objetivos deles ali estar e se mostrar. De alguns deles até que tive vislumbres.
    As formas de túneis, espirais, teias e outras conhecidas, não são criações mentais de cérebros em desarmonias ou por quaisquer outras experiências, mas a constatação de que há padrões etéricos no arquétipo humano que os doutos das ciências não alcançam por lhes faltar instrumentos e compreensão. Esses ícones repetitivos que vocês afirmam ser gerados pela psique ou talvez emergindo de padrões inconscientes, os sacerdotes iniciados de antanho já conheciam e sabiam-nos explicar com detalhes. Há obras por eles deixadas sobre o assunto e o Del Debbio certamente conhece algumas.
    Mori, dá um tempo, você foi budista!

  7. Kentaro Mori disse:

    Todos temos neurônios. O córtex visual processa informação, e é notável que o faz até certo ponto de maneira muito mecânica.
    Reconhecer um gato, ou o desenho de um gato, é algo extremamente complexo e abstrato — a neurociência está muito longe de explicar tal em detalhe.
    Todavia, a neurociência felizmente avançou muito na compreensão de como o córtex visual processa _a imagem_ de um gato, ou do desenho de um gato, capturada pela retina. E ele o faz de forma bem mecânica, automática.
    Há neurônios que respondem a linhas verticais. Há outros que respondem a linhas horizontais. Há grupos dedicados a contornos, a movimentos… e assim por diante. Grosso modo como uma máquina. Mecânico, automático.
    Agora, com base nesse mapeamento, e algumas outras premissas, elaborou-se um modelo matemático de como esses neurônios reagiriam, e qual percepção produziriam, frente a uma perturbação.
    E o resultado? Esses “arquétipos”, essas imagens psicodélicas tão reverenciadas, tão universais. Mera coincidência?
    Atreva-se a considerar a possibilidade de que não seja mero acaso. Que a universalidade de descrição de tais formas não seja resultado de um contato com um plano “superio”, “espiritual” ou o que for, e sim produto de estruturas cerebrais que todos nós partilhamos.
    A evidência está aí. Tais formas são relatadas não apenas em transes espirituais, mas a qualquer assassino psicopata que ingira drogas alucinógenas, a um doente em estado terminal de sífilis, a um doente em surto psicótico. Como explicar isso em termos espirituais? Sem dúvida, haverá muitas histórias e justificativas…
    Mas a explicação mais simples é a de que todos esses submetem seu córtex visual a situações extremas, propícias à experiência de tais perturbações.
    Atreva-se a considerar esta possibilidade, e poderá especular que a contemplação de Mandalas pode talvez estimular padrões inusitados no córtex visual, e que místicos poderiam estar se valendo de um efeito deste tipo ao criar e venerar Mandalas. Note que esta hipótese não é um fim em si mesmo.

  8. Kentaro Mori disse:

    Ah sim, por isso disse que “místicos PODEM” hehehe
    Mas sim, imagino que seja possível interpretar esses resultados de forma coerente com crenças e idéias “místicas”.
    Penso que sempre é, seguramente o que diferencia “místicos” de “racionalistas” não é a inteligência. Há místicos inteligentíssimos, e racionalistas nem tão inteligentes.
    De certa forma, alguns místicos podem ser mais habilidosos em formular “racionalizações” que os próprios “racionalistas” 🙂

  9. Carlos Magno disse:

    Caro Mori:
    Atrevo-me sim em pensar em muitas hipóteses, pois tanto nas investigações das ciências materiais como nas espirituais não existe um termo definitivo e final.
    Mas atreva-se também a imaginar que as ciências dos antigos já mapeavam esses ícones mentais e cerebrais.
    O que vejo de principal nessas discussões não é o ceticismo em si, pois isso existe também no esoterismo, na religião e no ufologismo. Há naquelas áreas do conhecimento muitos seguidores e estudiosos que também exigem sempre um mínimo de lógica e provas daquilo que aloprados afirmam por conta unicamente de suas crenças.
    O que comumente constato, isto sim, é uma inversão no relativismo dos valores científicos e ao mesmo tempo uma tergiversação ao debate pela negação, tão somente pela negação. E o centro da gravidade passa a ser unicamente o cético ou o pseudo-cético.
    Lamentavelmente muitos críticos ferozes auto-intitulados de céticos não têm a menor consciência do que escrevem; a maioria é imatura demais para dizer-se conhecedora, embora ache que é muito esperta, mas não têm lastro para criticar como critica e agredir conforme agride.
    Mori, sinceramente, respeito sua inteligência e cavalheirismo e seu esforço dentro do que você idealiza, e por isso discuto o que vejo em você de controvérsias, mas a sabedoria dos antigos precisa também ser olhada e vista como ela é na sua realidade. Obviamente não se comprovam todas as coisas em laboratórios e nem por métodos científicos a fim de classificá-las definitivamente verdadeiras, mas cria-se a grande ilusão pelo ridículo arroubo da presunção, de que, a priori, aquilo que o academismo afirma conhecer existe, e o que não afirma não existe.
    E quanto mais rebuscadas e empoladas sejam as explicações dos métodos científicos mais essa verborragia distancia a realidade do acontecimento.

  10. luiz disse:

    Parabéns pela coluna , Kentaro! O mais interessante é que na coluna do Marcelo que achei esse link!
    E acredito que, sendo os padrões espirais o reflexo direto do próprio rearranjo do córtex cerebral e a famosa visão do”prana” como a visualização do fluxo de substãncias na córnea como elemento que sugerem que a famosa idéia de entrar em contato com o”eu interior” é perfeita para descrever o encontrado em técnicas de meditação “decentes”, pois é exatamente o que essas técnicas fazem: permitem ver o funcionamente do organismo com minimização da interferência externa.

  11. João Carlos disse:

    Não foi bem isso que eu disse, mas vá lá… 🙂 Concedo que a interpretação mais corrente é mesmo essa.
    A modos que a mensagem que eu queria deixar é que, se alguém me descreve uma experiência “mística” com sensações físicas (visão, cheiros, gostos, principalmente… alucinações táteis já são bem mais suspeitas), minha primeira hipótese é que a pessoa tenha sido sugestionada a ter essas sensações. Mas também se deve considerar a hipótese de que tenha havido uma percepção qualquer que não se “enquadra” no cotidiano e que o cérebro tenha “traduzido” isso em uma coisa mais compreensível (por meio de apofenias, sinestesias, etc).

  12. Noite disse:

    Foi ótimo ler esse post, entrei aqui por acaso (?) enquanto escrevia um artigo sobre moscas para o meu blog e adorei, adorei porque
    esses tempos atrás eu tive a visão do prana e das tais moscas voadoras citados acima, foi loucura,o mais engraçado é que vi o prana enquanto descansava os olhos, pois eu estava lendo o apocalipse de João para encontrar alguma similaridade com a equação de Valenzetti, da série de tv Lost, da qual sou fã, na hora imaginei estar vendo coisas espirituais e tendo uma revelação mística e tals, foi tão emocionante! algo mudou a partir daquele dia para mim…eu comecei a olhar para outros de frma diferente, mal sabia eu que estava tendo um curto circuito visual!! hehe,mesmo assim a experiência valeu, fiz uma porção de coisas boas, passei a amar mais todo mundo. Sei que quando a pessoa tem uma experiência mística a química do cérebro se modifica, já li sobre isso, tornamo-nos melhores, então qual o problema de acreditar em uma força maior que todos e que é ao mesmo tempo todos. Sobre as formas geom´tricas padrão, me lembraram as formas de fractais. Acho que no final tudo são fractais, inclusive nós mesmos… Desculpe a loucura eu acredito em ciência, mas não duvido de nada não.
    Abss

  13. vinicius disse:

    Kentaro, meu caro, nunca fumastes? Maconha não causa alucinações visuais. Muito menos coisas complexas como esses túneis…

  14. Fernando disse:

    kentaro, vc tá cada vez com textos melhores, sério…é muito bom ter alguém no brasil divulgando ciêbcia de uma forma tão boa, imarcial e de fácil leitura. Junto com vc, o átila (tb do science blogs brasil) e o charles (um longo argumento) são ótimos divulgadores, e o brasil precisa demais disso, voces deviam pensar em ampliar esse tipo de divulgação.

  15. Sandro disse:

    Vinicius, eu fumo maconha e já tive alucinações visuais. São em pequena escala, a depender da potência. A minha pergunta é pra você: já fumou camarão, ou pega esses prensados de esquina?

  16. […] Lembra daquela mancha que você devia observar por 20 segundos e depois olhar para uma parede branca ou o céu para ver Jesus? Pois fixe por 20 segundos no nariz vermelho e depois olhe para uma parede ou papel branco para… Poeiraaaa E a ciência por trás disso? Bem, por muito tempo se presumiu que o efeito seria apenas causado pela retina, em algo similar a um monitor de tubo ou plasma ficando “queimado” com uma mesma imagem. Uma nova pesquisa, contudo, evidencia algo ainda mais fascinante: o efeito se daria no cérebro, não na retina. Estamos pouco a pouco, e com ciência de verdade, fazendo uma engenharia reversa dos mecanismos básicos de nosso próprio cérebro. […]

  17. […] na retina. Estamos pouco a pouco, e com ciência de verdade, fazendo uma engenharia reversa dos mecanismos básicos de nosso próprio cérebro. Share this:TwitterFacebookEmailLike this:LikeBe the first to like this post. « Previous […]

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