Auto da Ocorrência

PEGADA VALE MEIOS(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 28/06/2007)

Tr√Ęnsito parado. Avan√ßamos. Pol√≠cias. Medem algo na estrada. Mais √† frente, carros batidos. Os peritos continuam a medir e a escrever. Finalmente conseguimos passar, apenas retendo na mem√≥ria o resultado final do que aconteceu.

A familiar cena de cidade poderia ser um qualquer dia de um paleontólogo que estude pegadas de dinossauro.
T
al como os pol√≠cias e os mirones, tamb√©m os cientistas procuram saber o que se passou. Medem os vest√≠gios do acontecimento ocorrido algures num passado mais ou menos remoto. Os elementos da autoridade medem o rasto da travagem para inferirem o tempo de dura√ß√£o da mesma e a velocidade prov√°vel a que se deslocava o carro. Os paleont√≥logos medem o espa√ßo entre pegadas para deduzirem a velocidade do animal. Esta medi√ß√£o permitiu, por exemplo, constatar que, no Cabo Espichel, o trilho de um¬†dinossauro¬†carn√≠voro apresentava um passo (s√©rie de duas pegadas) irregular; por outras palavras, o animal coxeava. As raz√Ķes para este comportamento podem ser v√°rias: ferimento numa das patas ou, motivo mais dif√≠cil de comprovar, poderia estar a transportar uma presa.
Os paleont√≥logos conseguem inferir uma s√©rie de informa√ß√Ķes biol√≥gicas a partir da “cena do crime”: p.e., com base no tamanho e forma da pegada, conseguem concluir a altura do animal at√© √† anca e assim ter uma ideia geral do tamanho do animal.
No caso da maior jazida portuguesa de pegadas de dinossauroPedreira do Galinha, na zona de F√°tima – podem observar-se centenas de pegadas de saur√≥podes –¬†dinossauros¬†herb√≠voros quadr√ļpedes. Este local apresenta os maiores rastos de¬†dinossauros¬†do Jur√°ssico m√©dio (sensivelmente h√° 165 milh√Ķes de anos) a n√≠vel mundial, dois dos quais com mais de 140 metros de extens√£o.
N√£o s√≥ os rastos permitem deduzir informa√ß√Ķes sobre a velocidade e comportamento do animal.
A partir da forma das pegadas individuais, os paleont√≥logos obt√™m informa√ß√Ķes sobre o seu autor: √† semelhan√ßa de um CSI natural, deduzem, com maior ou menor rigor, o retrato-rob√ī de quem andou (literalmente) num determinado local.
As pegadas de dinossáurio também exerceram fascínio na produção literária.
A descoberta em 1909 de pegadas de Iguanodon, em Inglaterra, originou uma enorme excitação em Sir Arthur Conan Doyle, o criador do detective Sherlock Holmes.

Alguns autores apontam este motivo, bem como a publica√ß√£o da “Origem das Esp√©cies” de Darwin, como os principais factores de inspira√ß√£o para que Conan Doyle escrevesse “O Mundo Perdido”, relato de aventuras num pa√≠s da Am√©rica do Sul povoado de criaturas perigosas e pretensamente extintas.
Ao contr√°rio do que se passa nos acidentes de autom√≥vel, em que os respons√°veis materiais normalmente ficam junto do local da “ocorr√™ncia”, no caso das pegadas de¬†dinossauro¬†estes nunca l√° est√£o para soprar no bal√£o. Uma das perguntas mais frequentes que me s√£o feitas refere-se ao motivo pelo qual os ossos de¬†dinossauro¬†nunca s√£o encontrados perto das jazidas de pegadas. As raz√Ķes s√£o essencialmente duas: a maioria das pegadas √© produzida em momentos de actividade biol√≥gica habitual, isto √©, quando o animal se encontrava em movimento para pastar ou ca√ßar, n√£o sendo prov√°vel, assim, que tivesse deixado a√≠ o seu esqueleto…

O segundo motivo diz respeito √†s condi√ß√Ķes de preserva√ß√£o – tafonomia – dos vest√≠gios. Pegadas e ossos necessitam de condi√ß√Ķes geol√≥gicas diferentes para fossilizar, ou seja, os ingredientes para a fossiliza√ß√£o s√£o distintos para o registo icnol√≥gico (pegadas) e o registo osteol√≥gico (ossos).

Tal como os √≠ndios norte-americanos, que perseguiam os seus advers√°rios ou as presas numa ca√ßada, tamb√©m os paleont√≥logos seguem os rastos, embora nunca consigam alcan√ßar os seus autores… ao contr√°rio daqueles, apenas ficam com peda√ßos duma ocorr√™ncia do tempo passado.

Foto: Luís Azevedo Rodrigues Рjazida de Vale de Meios