Feminismo Gordo

Feminismo Gordo*

por Maria Luisa Jimenez Jimenez,

pós-doutoranda em psicossociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Docente da pós-graduação em Diversidade e Inclusão em Gestão da Pontifícia Universidade Católica

¬†de Minas Gerais e em Comunica√ß√£o da Universidade Estadual de Londrina ‚Äď Lattes

Verbete Feminismo Gordo – PDF

@juqueirozfotografiaMeu corpo gordo na fotografia – Blog Lute como uma Gorda

O termo ‚Äúfeminismo gordo‚ÄĚ refere-se a uma abordagem dentro dos feminismos que busca combater a gordofobia e promover a despatologiza√ß√£o das corporeidades gordas, denunciando a viol√™ncia contra as corpas gordas e propondo novos saberes sobre essas mulheres. Neste verbete, opto por empregar ‚Äúcorpas gordas‚ÄĚ e ‚Äúcorpes gordes‚ÄĚ, no feminino e em linguagem neutra, porque utilizamos a l√≥gica cuir como ressignifica√ß√£o pol√≠tica de seu significado original. Sobre o assunto, consultar Lenguaje, poder e identidad [Linguagem, poder e identidade] (Butler, 2004) e G√™nero: uma categoria √ļtil para an√°lise hist√≥rica (Scott, 1989).

Em fevereiro de 2021, a Academia Brasileira de Letras ‚Äď ABL apresentou em seu site, na se√ß√£o ‚ÄúNovas Palavras‚ÄĚ, a palavra ‚Äúgordofobia‚ÄĚ junto √† defini√ß√£o: ‚ÄúRep√ļdio ou avers√£o preconceituosa a pessoas gordas, que ocorre nas esferas afetiva, social e profissional‚ÄĚ (ABL, 2021). Apenas em 2021 ‚Äúgordofobia‚ÄĚ foi reconhecida pela ABL como palavra do nosso vocabul√°rio, e isso mostra como o ativismo e as pesquisas v√™m avan√ßando no pa√≠s.¬†

A gordofobia √© um estigma cultural, estrutural e institucional em que as pessoas odeiam e evitam, de todas as maneiras, possuir ou conviver com corporeidades gordas. √Č um preconceito com pessoas gordas, essa discrimina√ß√£o leva a exclus√£o social e, portanto, nega acessibilidade as pessoas gordas. Essa estigmatiza√ß√£o √© transmitida em muitos e diversos espa√ßos e contextos sociais na sociedade contempor√Ęnea. Esse prejulgamento acontece com a desvaloriza√ß√£o, humilha√ß√£o, inferioriza√ß√£o, ofensas e restri√ß√Ķes aos corpos gordos de modo geral (Jimenez-Jimenez, 2020a).

Estudos mostram que as mulheres negras periféricas são as que mais sofrem com a gordofobia no mundo todo, elas estão mais vulneráveis ao estigma, dessa maneira o feminismo gordo entende a questão da gordofobia como uma questão de classe, raça e gênero (Jimenez-Jimenez, 2024); (Barros, 2011).

O movimento do feminismo gordo √© diverso e plural, possui abordagens diversas, mas de modo geral busca questionar os padr√Ķes de beleza e as ideias de sa√ļde constitu√≠das em nossa sociedade neoliberal capitalista, reivindicando direitos b√°sicos, como acessibilidade e a constru√ß√£o de saberes localizados. O feminismo gordo tamb√©m levanta quest√Ķes sobre ci√™ncia, sa√ļde e o bem viver das pessoas gordas, criticando as narrativas que associam automaticamente a gordura √† falta de sa√ļde, de car√°ter e for√ßa de vontade, inferiorizando essas mulheres.

Este verbete fundamenta-se nas produ√ß√Ķes acad√™micas, artivistas e liter√°rias da pesquisa ativista gorda no Brasil e Abya Yala (Am√©rica Latina), dos estudos transdisciplinares das corporalidades gordas, Pesquisa Gorda. A maioria dessa produ√ß√£o se comp√Ķe por mulheres que apesar dos encontros e desencontros nesses estudos, est√£o se organizando na sistematiza√ß√£o e constru√ß√£o de narrativas que demonstrem como nossa sociedade tem sido violenta no entendimento e associa√ß√£o de pessoas gordas a pessoas doentes e incapazes. (Ver indica√ß√Ķes/refer√™ncias abaixo)

Marcada pelo discurso normatizado socialmente, a magreza eŐĀ o c√Ęnone vigente. Quando uma corpa n√£o est√° dentro desse padr√£o ‚ÄĒ ou seja, corpa magra, tida como bela e saud√°vel ‚ÄĒ, eŐĀ estigmatizada, considerada feia, m√°, anormal, doente, fraca e triste; √©, portanto, exclu√≠da socialmente. Essa discrimina√ß√£o eŐĀ conhecida como gordofobia, preconceito que leva aŐÄ exclus√£o social e nega acessibilidade √†s pessoas gordas.¬†

O sistema cisheteronormativocolonial fundamenta a gordofobia dentro de um sistema neoliberal capitalista que hierarquiza corporeidades como ‚Äúboas e ruins‚ÄĚ, ‚Äúsaud√°veis e doentes‚ÄĚ, ‚Äúbonitas e feias‚ÄĚ. Durante s√©culos, os saberes constru√≠dos sobre nossas corpas foram sistematizados, percebidos e controlados como coisas ‚Äúmonstruosas‚ÄĚ, ‚Äúerradas‚ÄĚ, que n√£o deveriam existir porque contaminam nossa sociedade e colocam em xeque a normatiza√ß√£o das corpas.

Cisheteronormatividade pressup√Ķe que todos s√£o cisg√™nero e heterossexuais, excluindo e marginalizando outras identidades de g√™nero e orienta√ß√Ķes sexuais. Para esse debate sugerimos a leitura do artigo ‚ÄúCisheteronormatividade como institui√ß√£o total‚ÄĚ, de Eli Bruno do Prado Rocha Rosa (2020).

A pauta da gordofobia em corpas gordas e suas primeiras discuss√Ķes que trazem a viol√™ncia contra mulheres gordas como quest√£o feminista est√° no livro Fat is a feminist issue [Gordura √© uma quest√£o feminista], de Susie Orbach, publicado em 1978, que demonstra que essa discuss√£o sobre gordofobia no feminismo come√ßa j√° faz algum tempo.

Contudo, mesmo que os feminismos contempor√Ęneos abordem muitas pautas ligadas ao corpo da mulher, com olhares e interpreta√ß√Ķes distintos, a normatiza√ß√£o, a medicaliza√ß√£o e o controle das corporeidades femininas est√£o em quase todas as discuss√Ķes dos feminismos na atualidade, e o direito √† pr√≥pria corpa √© uma luta antiga e constante nos movimentos de mulheres (Jimenez-Jimenez, 2020a). No entanto, a pauta da mulher gorda s√≥ tem tido espa√ßo e debate entre mulheres gordas. Usamos o conceito cr√≠tico universal de mulher neste texto, no entendimento de que corpas que performam o feminino s√£o subalternizadas e violentadas em nossa sociedade patriarcal.

O primeiro manifesto denunciando a viol√™ncia da gordofobia contra mulheres gordas √© o ‚ÄúFat Underground‚ÄĚ, que aconteceu nos Estados Unidos em 1973, elaborado por pioneiras no ativismo gordo e na pesquisa sobre corporalidades gordas e feministas que reivindicam respeito e dignidade.

No Brasil e na Abya Yala, surgem aproximadamente, a partir da década de 2010, movimentos de mulheres gordas que, apesar de nem sempre se nomearem como feministas gordas, reivindicam e denunciam violências contra suas corpas. Junto a estudos transdisciplinares das corporalidades gordas no Brasil, na pesquisa gorda existe uma preocupação política ativista de sistematizar saberes que denunciem violências, de que esses conhecimentos sejam revistos e modificados, de forma que as mulheres gordas centralizem a discussão sobre suas corporalidades, localizando esses saberes e respeitando essas subjetividades. 

Devido √† preval√™ncia dos estere√≥tipos que associam corpas gordas √† doen√ßa, essas pessoas s√£o exclu√≠das da constru√ß√£o do conhecimento sobre seus pr√≥prios corpos, perpetuando a ideia de inferioridade e inadequa√ß√£o. √Č necess√°ria uma abordagem mais inclusiva e respeitosa, promovendo uma vis√£o igualit√°ria no contexto da sa√ļde e do bem-estar.

Os discursos sobre corpos que est√£o com sa√ļde ou doen√ßa s√£o considerados universalmente verdadeiros, assemelhando-se a cren√ßas inquestion√°veis pela sociedade. Existe a cren√ßa arraigada de que apenas um tipo de corpo √© aceit√°vel socialmente, enquanto outros s√£o vistos como at√≠picos. A imposi√ß√£o da padroniza√ß√£o das apar√™ncias f√≠sicas √© realizada por mensagens disciplinares (Foucault, 1997), presentes em institui√ß√Ķes de grande influ√™ncia, criando a gordofobia como manifesta√ß√£o de preconceito e discrimina√ß√£o.

Nossa luta pela compreens√£o das realidades das pessoas gordas vai al√©m de quest√Ķes est√©ticas. Envolve direitos fundamentais injustamente negados, como preconceitos na assist√™ncia m√©dica, dificuldades no transporte p√ļblico e estere√≥tipos no emprego devido √† gordofobia enraizada em conceitos morais e preconceitos.

De acordo com estudos, a √©tica subjacente perpetua a exclus√£o social e a falta de acessibilidade para pessoas com corpos gordos. A percep√ß√£o de menor atratividade f√≠sica limita intera√ß√Ķes sociais, afetivas, sexuais e emocionais. A exclus√£o, muitas vezes disfar√ßada de cuidado, sa√ļde e afeto, est√° ligada √†s experi√™ncias das mulheres em in√ļmeros contextos sociais. De acordo com alguns pesquisadores, h√° uma moral que justifica a exclus√£o social e a n√£o acessibilidade de pessoas com corpos considerados gordos a espa√ßos sociais e privados (Aires, 2019; Arruda, 2022).

A culpabilização da própria pessoa gorda por ser gorda também é violenta, e faz parte da estigmatização estrutural que relaciona toda pessoa gorda ao fracasso, à preguiça e à doença. 

A gordofobia entendida como estigma estrutural entra nesse contexto como pressão na associação de que apenas o corpo magro é considerado belo, e, portanto, saudável e feliz. O corpo da mulher, considerado um corpo para procriação, cuidado, fragilidade e beleza, sempre sob e para o controle masculino (do pai, marido, médico e assim por diante), é constituído como um bem que deve sempre melhorar sua aparência e fragilidade para ser possuído, e a magreza faz parte desse controle.

Feminismo Gordo: por uma ciência localizada

A influ√™ncia da heran√ßa da ideologia colonial est√° diretamente relacionada √† perpetua√ß√£o do capitalismo e do patriarcado, resultando na priva√ß√£o de voz para os oprimidos no Sul e na marginaliza√ß√£o de conhecimentos e viv√™ncias alternativas. Isso fortalece desigualdades e injusti√ßas, destacando a necessidade de confrontar as din√Ęmicas opressivas presentes em nossa sociedade (Spivak, 2010).

A epistemologia moderna cartesiana construiu um modelo hegem√īnico de ci√™ncia moderna, oriundo do modelo de racionalidade que se constituiu a partir da revolu√ß√£o cient√≠fica do s√©culo XVI e que alcan√ßou seu apogeu no s√©culo XIX. Uma das caracter√≠sticas mais destacadas nesse contexto foi a omiss√£o das subjetividades na produ√ß√£o do conhecimento, visto que trabalhadores, mulheres, ind√≠genas, afrodescendentes, LGBTQIAPN+, gordes e exclu√≠das est√£o, sobretudo, no conjunto de pa√≠ses e regi√Ķes submetidos ao colonialismo europeu.

Na trajet√≥ria epistemol√≥gica das corporalidades gordas para uma concep√ß√£o de ‚Äúobesidade‚ÄĚ como epidemia e sua supervaloriza√ß√£o patol√≥gica, come√ßaram a aparecer, na d√©cada de 1990, informes da Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde (OMS) apontando as corpas gordas como uma doen√ßa perigosa e epid√™mica. Por consequ√™ncia, a m√≠dia e as estat√≠sticas surgiram como uma avalanche alarmista e sensacionalista na sociedade mundial.

A ideia de conhecimento universal legitima o pensamento euroc√™ntrico como √ļnico, da mesma forma que deriva dele. O estabelecimento dessa proposi√ß√£o opera, de forma silenciosa, por calar maneiras de pensar que n√£o s√£o hegem√īnicas. Apresenta-se como viol√™ncia relacionada a determinado conhecimento, podendo ser entendida como uma forma de exerc√≠cio de poder simb√≥lico de um indiv√≠duo, grupo ou na√ß√£o sobre outro, atrav√©s do conhecimento cient√≠fico, como forma de invisibilizar esse outro (Spivak, 2010).¬†

A concep√ß√£o que temos de sa√ļde e saud√°vel no discurso biom√©dico precisa ser revista, porque tem sido um modelo mecanicista, j√° que generaliza e simplifica o que consideramos ter sa√ļde dentro dos consult√≥rios m√©dicos. Segundo Canguilhem (1982), as ideias de patologia, anormalidade, doen√ßa e normalidade n√£o podem estar desassociadas do organismo e do ambiente em que se encontram. A investiga√ß√£o anal√≠tica desses conceitos n√£o pode deixar, portanto, de levar em conta os valores e constru√ß√Ķes sociais, isto √©, essa an√°lise deve estar marcada por estudos socioculturais. Para o fil√≥sofo, estar ou ficar doente nada tem a ver apenas com fen√īmenos biol√≥gicos e/ou objetivos, porque o que se considera saud√°vel ou doente sempre estar√° submerso nas subjetividades.

Dentro dessa concep√ß√£o equivocada, baseada no entendimento bin√°rio de doen√ßa e sa√ļde, constitui-se uma hierarquiza√ß√£o das corporeidades como ‚Äúsaud√°veis‚ÄĚ e ‚Äúdoentes‚ÄĚ. Quando n√£o se encaixam no que se entende por um corpo saud√°vel ‚ÄĒ branco, magro, cishetero ‚ÄĒ s√£o considerados inferiores, feios, sujos, pregui√ßosos, doentes. Esses estigmas v√£o sendo afirmados dentro dessa ci√™ncia que universaliza corpos, saberes na constru√ß√£o do conhecimento sobre sa√ļde, ra√ßa, g√™nero, corpas.¬†

No s√©culo XIX, se reafirmam novas t√©cnicas disciplinares dentro dessa l√≥gica de ‚Äúnormalidade‚ÄĚ essencial na constitui√ß√£o do sujeito dentro do capitalismo. Foucault (1999), nos volumes um e dois de sua obra Hist√≥ria da Sexualidade, faz um esfor√ßo geneal√≥gico para entender como os dispositivos de sexualidade s√£o significantes, porque entender essa constru√ß√£o ocupa um papel central para entender os processos de interdi√ß√Ķes do s√©culo XIX, a repress√£o constru√≠da para impedir os modos de existir aut√™nticos.

Esse projeto colonial constr√≥i, de forma imperativa, ferramentas mais sofisticadas para interven√ß√£o na vigil√Ęncia dos corpos, atribuindo √† medicina o papel de classificar, criminalizar, medicalizar e construir o ‚Äúperverso‚ÄĚ a toda corporeidade que n√£o siga o prot√≥tipo do corpo √ļnico saud√°vel, com sa√ļde.

Nesse sentido, construir novos saberes a partir da viol√™ncia epist√™mica contra mulheres gordas √© entender que n√£o se pode ignorar sentimentos, emo√ß√Ķes, dores e viol√™ncias que essas mulheres, desde suas inf√Ęncias, passam por serem gordas. A proposta √© exatamente o contr√°rio: quais s√£o essas emo√ß√Ķes? E o quanto isso pode ser violento para essas corporalidades? Como fazer uma ci√™ncia mais humana e respeitosa com essas corporalidades? (Jimenez-Jimenez et al., 2022c).¬†

Esses interesses feministas pelas pesquisas epistemol√≥gicas localizadas em suas realidades e, portanto, em contextos sociais localizados, t√™m impulsionado muitas mulheres de todos os tipos e lugares a apresentarem in√ļmeros caminhos epist√™micos que valorizem essas hist√≥rias e dores (Haraway, 2016). Os movimentos sociais liderados por mulheres na busca por direitos humanos no acesso √† sa√ļde no Brasil pode ser um exemplo dessa constru√ß√£o localizada.

Nossos saberes engordurados rompem com a l√≥gica hegem√īnica de sa√ļde, cuidado porque s√£o constru√ß√Ķes de (re)exist√™ncias para a sobreviv√™ncia, de forma criativa, ao projeto civilizat√≥rio de conquista do pensamento, da corpa, do g√™nero, dos saberes.

O feminismo gordo, dentro dessa perspectiva epistemol√≥gica decolonial, prop√Ķe romper com esse regime pol√≠tico de saber-poder, intencionando formas subalternas de sobreviver. A proposta √© denunciar esses saberes que constru√≠ram um chamado conhecimento que patologiza, ou seja, considera doentes, nossas corpas; como a doen√ßa intitulada ‚Äúobesidade‚ÄĚ, por exemplo, que classifica corpas como doentes e n√£o doentes segundo um c√°lculo de √ćndice de Massa Corporal (IMC), determinado por um c√°lculo matem√°tico entre altura e peso. Lembrando que em sua maioria s√£o mulheres perif√©ricas, latinas e pretas, e que essas pessoas s√£o entendidas como hierarquicamente inferiores por serem consideradas ‚Äúobesas‚ÄĚ, portanto doentes.

Chamamos de ‚Äúgordoc√≠dio‚ÄĚ, conceito cunhado pela pesquisadora Maria Thereza Chehab de Carvalho Melo no artigo ‚Äú‚ÄėGordoc√≠dio‚Äô: uma an√°lise da pol√≠tica sist√™mica de morte de pessoas gordas no Brasil‚ÄĚ,

(…) a condi√ß√£o de animaliza√ß√£o e patologiza√ß√£o constante de corpos gordos chega ao fen√īmeno aqui retratado de ‚Äúgordoc√≠dio‚ÄĚ, em que o Estado promove, com sua omiss√£o e desassist√™ncia, uma desigual oportunidade de viver e morrer, de forma que pessoas gordas acabam marginalizadas de pol√≠ticas p√ļblicas e de seus direitos fundamentais (Melo, 2023, p. 349).

A falta de escuta e atendimento digno e respeitoso, al√©m da inexist√™ncia de macas, cadeiras e aparelhos m√©dicos dentro das institui√ß√Ķes s√£o situa√ß√Ķes que demonstram que o preconceito est√° presente na falta de cuidado a pessoas gordas, j√° que o acesso a sa√ļde pode ser prejudicado pela gordofobia que interfere no tratamento e cria barreiras de aproxima√ß√£o, porque acaba n√£o permitindo pensar estrat√©gias efetivas de sa√ļde para esse grupo, num atendimento respeitoso e com dignidade. Dessa maneira, propomos aprofundar a compreens√£o a partir das pr√≥prias pessoas gordas, de como a gordofobia atua no saber m√©dico, na patologiza√ß√£o e medicaliza√ß√£o dessas pessoas e suas consequ√™ncias.

Feminismo gordo: ativismo coletivo, movimento político

Com certeza os recortes sociais marcam maior viol√™ncia, e exatamente por isso gostamos de pensar em muitos feminismos, no sentido de frentes e pautas. Somos diversas e nossas reinvindica√ß√Ķes e lutas tamb√©m, mesmo para quem ainda n√£o se autodenomina feminista. Afinal, a luta pela causa das mulheres ultrapassa a pr√≥pria hist√≥ria do movimento. Se pensarmos nas mulheres queimadas em fogueiras pela Inquisi√ß√£o, vemos que, hoje, a ferramenta ‚Äúfogueira‚ÄĚ perpassa o silenciamento, a hierarquiza√ß√£o, a viol√™ncia de g√™nero, o casamento (Federici, 2017). Tal como mulheres de tempos mais antigos podem ser identificadas como feministas sem mesmo se nomearem como tais, existem muitas mulheres e grupos envolvides na emancipa√ß√£o feminina gorda que nem sempre se intitulam como feministas gordas (Jimenez-Jimenez; Arruda; Silva, 2022b).

Há construção de novos saberes pulsando dentro e fora dos coletivos e das mulheres que se autodenominam feministas; existem propostas e lutas que caminham juntas, não separadas. Temos visto que não é preciso se autodenominar feminista para lutar pela participação de mulheres na política, pela autonomia de nossas corpas, contra a violência estrutural sofrida por nossas mães, avós, bisavós, filhas etc. Isso não quer dizer que se autodenominar também não seja político, já que o feminismo é um posicionamento político, de (re)existência, e a gordofobia é violência de gênero, é violência estrutural. As correntes que as mulheres gordas carregam precisam ser levantadas, conhecidas, conversadas entre todas nós. Posto que mulheres gordas sofrem gordofobia todos os dias, muitas vezes ao dia, como forma de sobrevivência existe uma necessidade de transformar a dor em algo, muitas vezes em maior dor.

As violências são de todos os tipos: estruturais, psicológicas, físicas, sexual, patrimonial, além do silenciamento e invalidação do próprio sofrimento, considerando as próprias vítimas com a culpabilização por serem como são: gordas.

Muitas pesquisas trazem depoimentos de diversas mulheres que denunciam essas violências desde muito cedo na própria família, por exemplo, quando os pais acreditam que a pessoa/criança gorda não emagrece porque não quer, e por esse motivo são punidas; ou mesmo na escola e/ou universidade quando a cadeira, banheiros, atividades e projetos não incluem a pessoa gorda; no mercado de trabalho quando as pessoas gordas não são contratadas por serem associadas à pessoas preguiçosas, sujas, doentes, feias e burras. Dessa forma a pessoa gorda sofre gordofobia desde muito cedo e muitas vezes em suas vivências em locais que inclusive deveriam ser de acolhimento e cuidado.

Para al√©m do sofrimento, o feminismo gordo tem mostrado muitas experi√™ncias em que o sofrimento pode ser ressignificado em textos, lutas, reposicionamentos no mundo, coletivos, livros, eventos, arte, poesia etc (vide ‚ÄúPara consultar‚ÄĚ, no fim do texto).

Em 2019, o coletivo feminista colombiano ‚ÄúGordas sin chaquetas‚ÄĚ organizou, em Bogot√°, o primeiro encontro do ativismo gordo em Abya Yala, que se chamou Encuentro de Activismos Gordes del Abya Yala y la Di√°spora Africana. Nesse evento de mulheres gordas havia representantes de diversos pa√≠ses, Brasil, Argentina, Colombia, Per√ļ, Mexico. O evento foi dividido em tr√™s eixos: Corpo e Desejo, Gordura, Ra√ßa e Colonialidade e Gordofobia M√©dica.

Aqui no Brasil existem alguns encontros, festas, feiras de pessoas gordas organizadas por coletivos, ou individualmente, mas ainda não estamos organizadas juridicamente como Associação Nacional, apesar da luta existir como Movimento Social estamos caminhando para um ativismo organizado política e judicialmente como Movimento Social no país.

O ativismo gordo nos evidencia que é possível, necessário e revolucionário criar teorias a partir de corpas que são marcadas por dor, humilhação e exclusão, transformando todo o ódio e a raiva pela sociedade em luta e se posicionando no mundo de outra maneira, de modo que viver seja um ato revolucionário.

A partir de nossas experi√™ncias, √© poss√≠vel reinventar o jeito de estar no mundo. √Č um processo demorado e lento, mas h√° mulheres consumindo e fazendo ativismo numa nova proposta de entender sua corpa gorda em sociedade e consigo mesmas, propondo novos saberes sobre nossas corporeidades, sobre uma vida com maior respeito e dignidade.

No mundo todo existem mulheres se organizando contra a gordofobia de in√ļmeras maneiras, dentro da academia, nas artes, nas ruas, no sexo, onde voc√™ menos imaginar. Algumas se nomeiam como feministas, outras ativistas, e outras est√£o em processo de reconhecer esse sofrimento como uma responsabilidade social e n√£o individual. As pautas s√£o diversas, mas se centralizam na patologiza√ß√£o e acessibilidade dessas corpas.

Esse debate, como proposta de reflex√£o ‚ÄĒ de que o feminismo gordo j√° existe e resiste na luta di√°ria de mulheres que sofrem a gordofobia desde suas inf√Ęncias e se reinventam todos os dias para sobreviver a tanta viol√™ncia contra nossas corpas ‚ÄĒ , tem acontecido em coletivos, em rodas, nas redes e nos encontros, basta voc√™ procurar a #ativismogordo, #antigordofobia, #gordativismo #ativismogorde que encontrar√° muitas mulheres falando sobre o tema em diversas culturas e l√≠nguas.

O feminismo gordo existe e emerge de m√£os dadas com o feminismo decolonial, da subalternidade, das periferias, dos saberes locais, da subvers√£o do imposto: negras, ind√≠genas, gordas, maricas, trans, sujas, sudakas, defi√ßas, l√©sbicas, lokas, putas, todas as que estejam √† margem do que a sociedade colonial enaltece e constr√≥i como padroniza√ß√£o do que √© ser ‚Äúnormal‚ÄĚ, ‚Äúsaud√°vel‚ÄĚ, ‚Äúbela‚ÄĚ e ‚Äúprodutiva‚ÄĚ. Todo esse conjunto de idealiza√ß√Ķes nos subalterna e classifica modos de vida como superiores e inferiores. Somos do lugar da falha.

Dessa maneira, as ativistas, de forma geral, procuram sair desse padrão de dor, humilhação e sofrimento e buscar outro caminho de estar e se perceber no mundo; para muitas delas parece importante perceber-se como gorda, usar o título de gorda como estratégia de autodenominação positiva, nunca negativa.

O termo ‚Äúgorda‚ÄĚ deve ser entendido como um adjetivo bom, que deve aparecer e existir, que se deve aceitar para ser vis√≠vel e estar presente na sociedade. Quando arrancamos de n√≥s esse sentimento de horror ligado ao adjetivo ‚Äúgordo‚ÄĚ, estamos nos tornando resistentes e desobedientes, dissidentes da norma imposta por uma sociedade que padroniza e controla corpas e desejos, que define o belo e o saud√°vel. Se a corpa magra √© estabelecida social e culturalmente enquanto uma corpa saud√°vel, qual lugar √© destinado √† corpa gorda? O lugar da ‚Äúcobran√ßa social por n√£o se encaixar no tipo de corpa considerado culturalmente o ‚Äėmelhor‚Äô‚ÄĚ, vivenciando uma s√©rie de prejulgamentos que desvalorizam, humilham, inferiorizam e restringem essa corpa (Jimenez-Jimenez, 2020b).

Feminismo gordo: por epistemologias engorduradas

Embora o ativismo gordo tenha surgido nos EUA, muitas pesquisadoras defendem que a origem da gordofobia est√° intrinsecamente ligada ao processo de coloniza√ß√£o de Abya Yala e √Āfrica, como um projeto pol√≠tico-epist√™mico de invas√Ķes, genoc√≠dios, explora√ß√Ķes e apagamento de culturas, na constru√ß√£o da ideia de ra√ßa, corpo, g√™nero e sexualidade. Esse processo levou √† forma√ß√£o de um conjunto de conhecimentos e ferramentas de controle, hierarquiza√ß√£o e repress√£o, com o objetivo de apagar qualquer conhecimento que n√£o estivesse relacionado √† suposta superioridade de saberes europeus (Montalbetti, 2022). A ci√™ncia moderna, derivada da filosofia de Descartes, estabeleceu uma hierarquia entre corpo e alma, resultando em concep√ß√Ķes bin√°rias que serviram como base para um projeto de “civiliza√ß√£o” por meio da conquista, e, mais que isso, do apagamento de outras ideias, saberes, culturas, cuidados, etc.¬†

A gordofobia, de forma similar √† constru√ß√£o de corpos superiores e inferiores, ra√ßas superiores e inferiores, g√™nero bin√°rio, √© o resultado desse processo colonizador. A soci√≥loga Sabrina Strings (2019) sublinha a hist√≥ria de Saartjie ‚ÄúSarah‚ÄĚ Baartman ‚ÄĒ sugiro ver o filme V√™nus Negra ‚ÄĒ (Kechiche, 2009), uma mulher sul-africana escravizada e gorda, explorada pela elite francesa em espet√°culos e festas. Essas origens racistas da gordofobia perpetuam-se at√© os dias de hoje, refletindo-se em nossos conhecimentos, estilos de vida, corpos, culturas e linguagens.

A l√≥gica do regime cisheteronormativocolonial √© pol√≠tica na reprodu√ß√£o de corpas e tecnologias que estejam dentro de um pensamento hegem√īnico, no que tange a corpas ‚Äúnormais‚ÄĚ e ‚Äúpatol√≥gicas‚ÄĚ. As gordas t√™m apresentado perspectivas de saberes que rompem com esse regime pol√≠tico hegem√īnico. Elas constroem novos saberes a partir da viol√™ncia epistemol√≥gica contra elas. √Č dessa perspectiva colonial de pessoas que foram historicamente perseguidas, torturadas e silenciadas que acontece o epistemic√≠dio (Carneiro, 2005). Um saber √ļnico, branco e patriarcal, como a outra face do genoc√≠dio, atua como instrumentaliza√ß√£o e legitima√ß√£o de viol√™ncia e apagamento de saberes, modos de vidas, l√≠nguas, corpas.

Estudar a gordofobia √© entender que n√£o se pode ignorar sentimentos, emo√ß√Ķes, dores e viol√™ncias na constru√ß√£o de conhecimento, j√° que essas mulheres sofrem todo tipo de viol√™ncias desde suas inf√Ęncias por serem gordas. Romper paradigmas e propor novas epistemes que transpassem nossas corpas e vis√Ķes sobre o mundo, a partir do feminismo gordo, transp√Ķe a proposta colonial capital√≠stica impregnada no fazer filos√≥fico e intenciona a constru√ß√£o de uma pesquisa socialmente transformadora, que denuncia viol√™ncias coloniais patriarcais dentro de uma proposta para o reconhecimento de nossas potencialidades e de uma filosofia gorda.

Foucault (1997, p. 127) explica: ‚ÄúO certo √© que as redes do poder passam hoje pela sa√ļde e pelo corpo. Antes passavam pela alma, agora pelo corpo‚ÄĚ. Ou seja, acaba-se por imprimir na corpa ‚ÄĒ revestida de s√≠mbolos e interpreta√ß√Ķes ‚ÄĒ julgamentos e expecta√ß√Ķes, √† qual ‚Äú[…] se aplicam sentimentos, discursos e pr√°ticas que est√£o na base das vidas sociais‚ÄĚ (Ferreira, 1994, p. 101). Pensar epistemologicamente em um feminismo dentro dessa an√°lise √© entender que esse movimento tem como centralidade a den√ļncia de viol√™ncias e de epistemes patriarcais, al√©m de propostas de epistemologias decoloniais feministas que valorizem as experi√™ncias das mulheres no mundo como saberes leg√≠timos, potentes e revolucion√°rios.

No que se refere √† proposta do feminismo decolonial, as cuirs, l√©sbicas, pretas, latinas, putas, trans, asi√°ticas, ind√≠genas, feias, gordas e sudakas apresentam perspectivas de conhecimento que rompem com esse regime pol√≠tico hegem√īnico, ou seja, quando se tem a ideia √ļnica e universal de conhecimento, legitima-se o pensamento euroc√™ntrico como superior. Essa constru√ß√£o colonizadora de uma episteme soberana √†s demais, principalmente as do Sul do mundo, est√° ligada diretamente ao contexto hist√≥rico/social da coloniza√ß√£o, no qual se deslegitima todo pensamento que n√£o esteja localizado numa l√≥gica heteronormativa-colonial.

No Brasil, a partir de 2017, come√ßa a se organizar a pesquisa e ativismo gordo, em consequ√™ncia se origina o Grupo de Estudos Transdisciplinares das Corporalidades Gordas, o Pesquisa Gorda, propondo uma pesquisa ativista feminista no pa√≠s. O grupo acontece com encontros para leituras, discuss√Ķes, produ√ß√Ķes de artigos, textos, mas tamb√©m de apoio e cuidado entre suas membras.

Realizamos reuni√Ķes abertas para pessoas gordas e aliades, al√©m de encontros fechados para planejar as atividades do grupo. Nosso objetivo √© oferecer um ambiente inclusivo para compartilhar experi√™ncias e apoio m√ļtuo. Para mais informa√ß√Ķes, siga nosso perfil no Instagram e site da Pesquisa Gorda.

Em 2022 aconteceu o I Congresso da Pesquisa Gorda no Brasil, ‚ÄúPesquisa Gorda: Ativismo, Estudo e Arte‚ÄĚ, de forma remota, registrado no Youtube do Pesquisa Gorda. Tivemos mais de 200 inscri√ß√Ķes e 60 trabalhos apresentados, 4 mesas de debate, com participa√ß√£o de pesquisadoras da Argentina, Col√īmbia, M√©xico, show de encerramento do Rap Plus Size e a produ√ß√£o de Anais com trabalhos completos apresentados no Congresso.

Em 2023, o grupo Pesquisa Gorda lan√ßou a Manifesta Gorda em celebra√ß√£o aos 50 anos do lan√ßamento do primeiro Manifesto antigordofobia elaborado por feministas gordas, o ‚ÄúFat Liberation‚ÄĚ, em 1973, nos Estados Unidos, um marco na luta contra a gordofobia. Os estudos/pesquisas das corporalidades gordas come√ßam a acontecer desde a d√©cada de 1960, junto ao Ativismo Gordo, na ocasi√£o da morte da cantora Cass Elliot, que faleceu por gordofobia, por n√£o ter acesso a exames e tratamentos para um c√Ęncer.

Mulheres gordas desde a d√©cada de 1970 nos EUA come√ßam a se organizar para pensar e se mobilizar para responder √†s consequ√™ncias desse tratamento hostil em suas vidas. O ativismo gordo nasce da morte da vocalista, Cass Elliot da banda The Mamas & The Papas, que era uma mulher gorda que vinha sofrendo de muitas dores abdominais e os atendimentos de cuidados m√©dicos nos hospitais, consult√≥rios eram sempre para que ela emagrecesse, e quando descobriu um c√Ęncer no est√īmago era tarde e acabou falecendo. Em decorr√™ncia dessa morte, mulheres gordas pr√≥ximas √† cantora come√ßaram a se organizar e questionar o preconceito contra suas corpas, dores e queixas (Jimenez-Jimenez, et al, 2023b, p.30).

Por ser estrutural e institucionalizada, a gordofobia ultrapassa as experiências pessoais e transborda na construção do conhecimento, já que as epistemologias que existem sobre nossas corporeidades são patologizantes, medicalizadoras e preconceituosas. Propomos, através de nossos estudos ativistas e vivências, o rompimento de paradigmas violentos com as pessoas gordas, na construção de epistemologias engorduradas.

Feminismo gordo na transformação social

O feminismo gordo vem despontando na Am√©rica Latina e no Brasil a passos largos, com representa√ß√Ķes de muitas corpas e propostas subalternas. Considerando o surgimento de ‚Äúnovos feminismos‚ÄĚ, vamos aprendendo com outros ativismos de mulheres que a mudan√ßa √© poss√≠vel, atrav√©s dos movimentos sociais.

Mulheres gordas latino-americanas come√ßam a se organizar pela internet e em coletivos para pensarem e discutirem ferramentas constru√≠das ao longo da viv√™ncia no mundo a partir de uma corpa gorda que sofre gordofobia desde sua inf√Ęncia. A partir de nossas viv√™ncias, √© poss√≠vel reinventar o jeito de estar no mundo. √Č um processo demorado e lento, mas existem mulheres como n√≥s, consumindo e fazendo ativismo numa nova proposta de (re)entender sua corpa gorda em sociedade e a si mesmas, na preocupa√ß√£o de recriar saberes que n√£o mais patologizem, medicalizem e matem corpas gordas.

O feminismo gordo denuncia, portanto, uma injusti√ßa epist√™mica sobre nossas corpas e se contrap√Ķe √† estigmatiza√ß√£o social dessas mulheres, √† patologiza√ß√£o e ao silenciamento, √† perda do acesso √† sexualidade como sujeito participante de suas pr√≥prias pr√°ticas sexuais, desejos e prazeres.

Levar em considera√ß√£o outros entendimentos, suas contradi√ß√Ķes e as consequ√™ncias de saberes violentos tamb√©m √© identificar nosso lugar social, nossos pontos de vista e afeta√ß√Ķes, o que √© muito importante para estar √† vontade e confiante na escrita, na pesquisa, na vida. Nossas hist√≥rias importam, a pesquisa/vida/ativismo ‚ÄĒ como rompimento com o colonialismo gordof√≥bico, cisheteronormativo, racista, masculino, machista ‚ÄĒ prop√Ķe ruptura de paradigmas e constru√ß√£o de novos saberes, novos mundos. √Č preciso e est√£o acontecendo den√ļncias dessas viol√™ncias epistemol√≥gicas, propostas epistemol√≥gicas a partir desse entendimento, revis√Ķes do que j√° existe, mas, principalmente, um rompimento com essa ci√™ncia colonialista e violenta com os corpos abjetos (Butler, 2016) e uma constru√ß√£o de saberes subalternos que n√£o sejam violentos com nenhuma corporalidade (Preciado, 2021).

Apryl Williams, bell hooks, Angela Davis, Sueli Carneiro, L√©lia Gonzalez, Carla Akotirene, Thula Pires, entre outras feministas negras, trazem em suas filosofias uma cr√≠tica j√° bem sistematizada sobre a epistemologia dominante, que, embora travestida de neutra e universal, √© masculina e branca. A constru√ß√£o do ‚Äúcient√≠fico‚ÄĚ, dentro dessa ‚Äúcivilidade‚ÄĚ violenta sobre o conhecimento constru√≠do, traz uma ideia de neutralidade, mas o que prop√Ķe s√£o opress√£o, hierarquiza√ß√£o e viol√™ncias.¬†

Quando bell hooks (2017, p. 86) denuncia que ‚Äú[…] a l√≠ngua padr√£o esconde os ru√≠dos da matan√ßa e da conquista‚ÄĚ, ela delata a constru√ß√£o da l√≠ngua formal como instrumento de hierarquiza√ß√£o de conhecimentos, nos traz para essa discuss√£o de constru√ß√£o de saberes que mais violentam do que ensinam, mais destroem do que constroem. Para que serve o conhecer, se n√£o para resistir ao mundo que oprime quem n√£o est√° dentro da caixa padronizada que √© o sistema capitalista?

√Č nessa l√≥gica que o feminismo gordo prop√Ķe repensar nossa maneira de usar a linguagem, j√° que ela √© violenta: racista, gordof√≥bica, machista, homof√≥bica, transf√≥bica, sexista, classista, etarista, entre outras brutalidades est√£o na composi√ß√£o na forma como escrevemos, falamos, argumentamos. Isso posto, incentivamos a pensarmos no uso da linguagem, assim como g√™nero, ra√ßa, classe, sexualidade, defici√™ncia, geolocaliza√ß√£o, tamanho, idade, profiss√£o, entre outras interseccionalidades relacionadas √†s corporalidades gordas, e a rever o uso de palavras como ‚Äúobesidade‚ÄĚ, ‚Äúacima do peso‚ÄĚ, ‚Äúexcesso de peso‚ÄĚ em nossas escritas, falas, trocas, a menos que sejam usadas com aspas, acompanhadas de uma an√°lise cr√≠tica-pol√≠tica.

O ativismo gordo na internet é importantíssimo para essas mulheres, pois é o meio em que se sentem seguras para expor a fragilidade e um pedido de ajuda, escuta e apoio, já que falar sobre gordofobia ainda é um tabu em nossa sociedade. Entender nossas corpas de outra maneira e fazer uso dessa experiência para compreender nossa existência como política pode ser estar mais feliz no mundo. 

Estamos falando de um ativismo em busca da transforma√ß√£o da sociedade por meio da a√ß√£o tanto virtual como presencial, em mobiliza√ß√Ķes ou acontecimentos nas cidades. Como vimos, o ativismo antigordofobia, mesmo que timidamente, mas a passos largos, vem ocupando espa√ßo no mundo virtual e f√≠sico e se posicionando como pol√≠tico e revolucion√°rio no que se refere a entender, conhecer e se colocar como mulheres gordas no mundo.

*O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico РBrasil (150533/2022-5).

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Feminismo Gordo

Em comemora√ß√£o ao dia das mulheres e para estrear nossas publica√ß√Ķes de 2024, preparamos um verbete super especial sobre o Feminismo Gordo para voc√™, escrito pela p√≥s-graduanda, professora de p√≥s-gradua√ß√£o e ativista Maria Luisa Jimenez Jimenez. Que o movimento feminista possui diversas vertentes e abordagens voc√™ provavelmente j√° sabe, mas voc√™ est√° por dentro das teoriaza√ß√Ķes e reivindica√ß√Ķes feitas pelo feminismo gordo? Depois de ler o verbete desta semana voc√™ vai entender o que √© o feminismo gordo e qual a hist√≥ria por tr√°s desse movimento. Como nos mostra Jimenez: ‚ÄúO termo ‚Äėfeminismo gordo‚Äô refere-se a uma abordagem dentro dos feminismos que busca combater a gordofobia e promover a despatologiza√ß√£o das corporeidades gordas, denunciando a viol√™ncia contra as corpas gordas e propondo novos saberes sobre essas mulheres‚ÄĚ. A autora afirma que a gordofobia √© um estigma cultural, estrutural e institucional no qual as pessoas gordas s√£o alvo de discrimina√ß√£o e exclus√£o social. Essa estigmatiza√ß√£o se faz presente nos mais diversos contextos sociais e aparece nas formas de desvaloriza√ß√£o, humilha√ß√£o, inferioriza√ß√£o, ofensas e restri√ß√Ķes aos corpos gordos.

O movimento do feminismo gordo √© diverso, mas em geral procura questionar os padr√Ķes institu√≠dos na sociedade capitalista, reivindicando direitos b√°sicos, como a acessibilidade e a constru√ß√£o de saberes localizados. Baseando-se nas produ√ß√Ķes acad√™micas, artivistas e liter√°rias da pesquisa ativista gorda no Brasil e na Am√©rica Latina e dos estudos transdisciplinares das corporalidades gordas do grupo Pesquisa Gorda, o verbete mostra como a magreza √© institu√≠da como padr√£o no discurso social vigente. O corpo magro √© tido como a representa√ß√£o da beleza e da sa√ļde, enquanto que o corpo gordo √© visto como feio, anormal e doente. Essa normatiza√ß√£o leva, entre outras problem√°ticas, √† exclus√£o social e nega√ß√£o de acessibilidade plena √†s pessoas gordas.

Ficou curiosa para saber mais sobre Feminismo Gordo? Ent√£o leia o verbete aqui e acesse a entrevista com a autora aqui!

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