Brasil ameaçado – Peixe cachimbo (Micrognathus erugatus)

Um peixe cachimbo raro brasileiro, sua empadinha de camarão custa a vida dele (Imagem: Herald & Dawson, 1974)

Um peixe cachimbo brasileiro raro, sua empadinha de camarão custa a vida dele (Imagem: Herald & Dawson, 1974)

Essa espécie de peixe cachimbo foi descrita a partir de um único exemplar e sua coleta tem sido difícil desde então. É um peixe de fundo aparentado aos cavalos marinhos, mas com o focinho curto e o corpo alongado. São micropredadores, alimentando-se de pequenos invertebrados que vivem no fundo do mar entre algas, rochas e na areia. Os machos guardam os ovos até a eclosão numa dobra de pele ventral, o que restringe o número de filhotes e ameaça as populações. Por viver sempre junto ao fundo, esses animais são ameaçados pela pesca de arrasto muito comum para a captura de camarões. Para ajudar a salvar os peixes cachimbos consuma camarões de criação em vez dos provenientes da pesca no mar.

Brasil ameaçado – Lagartixa de areia

Tem brasileiro ameaçado na praia: Liolaemus lutzae. (Imagem: Karina Marques/ arkive.org)

A lagartixa de areia (Liolaemus lutzae) é um pequeno réptil de uns 8 cm que habita dunas em restingas do Rio de Janeiro.  Ela se alimenta de insetos quando jovens e apenas quatro espécies de plantas da restinga que acumulam água quando adultas. Sua reprodução ocorre uma vez só na vida e cada casal produz apenas quatro ovos, o que torna o crescimento populacional dessa espécie muito lento. A crescente ocupação urbana do litoral brasileiro tem empurrado essa lagartixa para mais perto do abismo da extinção. Então, troque o terreno naquele loteamento novo à beira mar que você queria comprar por férias num hotel já construído há anos e ajude a preservar essa e outras espécies da restinga.

Brasil ameaçado – rato candango

Juscelinomys candango, um rato com nome de político, mas esse não queríamos que fosse extinto. (Imagem: cienciahoje.uol.com.br)

Com tanto político para ser associado a ratos, esse daí recebeu o nome de Juscelinomys candango. A espécie foi descoberta durante a construção de Brasília, mas a cidade cresceu tanto que hoje o animal já pode ser considerado extinto. Só era conhecido para a região do Distrito Federal, onde já não é avistado desde 1960. Cavava tocas subterrâneas que recheava com fibras e gramíneas, alimentava-se de gramíneas, sementes e formigas. Foi a destruição do habitat que provavelmente levou a espécie ao seu fim. Você pode evitar que outros roedores (e aves) tenham esse mesmo destino colocando um guizo na coleira do seu gato, mantendo uma área verde no seu quintal e, claro, desativando as ratoeiras.

Brasil ameaçado – Bagre cavernícola

Ituglanis bambui, um bagre cavernícola ameaçado. (Imagem: Bichuette & Trajano, 2004)

Ituglanis bambui, um bagre cavernícola ameaçado. (Imagem: Bichuette & Trajano, 2004)

Meu primeiro trabalho científico foi com o grupo de biologia cavernícola da USP, eu participei de uma expedição a Terra Ronca, em Goiás, de onde vem o brasileiro ameaçado dessa semana. As descobridoras desse bagre cavernícola foram Eleonora Trajano e Maria Elina Bichuette, com as quais eu trabalhava nesse período. Elas descreveram Ituglanis bambui a partir de animais coletados na virada do século em riachos subterrâneos da caverna Angélica. Ituglanis bambui tem coloração ainda um pouco amarronzada e olhos reduzidos, mas presentes, o que sugere que ele não esteja vivendo em cavernas há muitas gerações já que olhos e pigmentação são perdidos em peixes totalmente adaptados às cavernas. Ele não tem forte hábito de entocar-se e nada solitariamente à meia água em busca de alimentos que localiza com seus barbilhões. O principal risco que essa espécie corre é ter uma população pequena e ter alto grau de endemismo em cavernas de solos calcários. Como o calcário é usado industrialmente em condições que variam do clareamento do papel até a produção de creme dental, economizar pasta de dente e usar aquelas folhas de papel reciclado e não clareado já é uma boa medida para cuidar desses bagres.

Brasil ameaçado – Cascudo zebra

O cascudo zebra é abundante em aquários pelo mundo, mas isso não adianta se ele é raro na natureza. (Imagem: wikipedia.org/ A. Birger)

Só de olhar a foto você já deve imaginar o que ameaça o brasileiro dessa semana, a captura para aquarismo. O cascudo zebra é um belo peixe de uns 6 cm que vive sobre rochas nas corredeiras do Rio Xingú. Ele se alimenta de microrganismos que crescem sobre superfícies duras como rochas e troncos, o que chamamos de perifíton. Os ovos são colocados em tocas que o macho protege e cuida. Os machos são territorialistas e brigam usando espinhos operculares, além disso, sua manutenção em aquário demanda água limpa e correnteza, o que torna sua criação complicada. Não bastasse a captura para o comércio de peixes ornamentais, sua área de ocorrência também deve ser diretamente afetada com a construção da usina de Belo Monte. Quer ajudar esse cascudo? Não povoe seu aquário com espécies ameaçadas ou que não se reproduzam em cativeiro.

Brasil ameaçado – Sapo Holoaden bradei

O sapinho do Itatiaia era abundante até os anos 70, agora é mais um brasileiro ameaçado, ou já extinto (Imagem: arkive.org/Ivan Sazima)

Esse sapinho é encontrado apenas em um trecho de mata de 10 km² acima dos dois mil metros de altitude na Serra de Itatiaia, isso se ainda for encontrado, porque há alguns anos que ele já não é mais visto por pesquisadores. Se você tem acompanhado essa série, já sabe que estar restrito a locais tão pequenos, um endemismo extremo, é uma recorrência entre as espécies ameaçadas. Muito pouco se sabe sobre Holoaden bradei, mas ele vive entre as folhas no chão da Mata Atlântica, os machos defendem a desova que é colocada no folhiço pela fêmea e provavelmente eclode sem passar pela fase de girino. Apesar de ser considerado numeroso até a década de 1970, atualmente a espécie já pode estar extinta. As principais causas de seu declínio foram a perda de qualidade do habitat e talvez a poluição do ar. Uma coisa que qualquer um pode fazer para proteger animais como esse sapo é andar somente nas trilhas, não acender fogueiras e não levar “lembranças” quando estiver fazendo ecoturismo, em especial no Itatiaia.

Brasil ameaçado – Bagrinho Heptapterus multiradiatus

A espécie é tão ameaçada que nem uma foto confiavelmente atribuída a ela está disponível na internet (Imagem: fishbase.org/Brosse)

O bagre heptapterus multiradiatus é um peixe de cerca de 9 cm que habita a Bacia do Alto Tietê. Tem o corpo longo e a nadadeira anal igualmente alongada. Seus olhos são reduzidos e tem barbilhões longos que usa como sensor tátil e químico para perceber o ambiente. A perda da vegetação ripária, o uso dos riachos que habita como manancial para obtenção de água na Grande São Paulo e a poluição dos rios no Alto Tietê são as principais causas do declínio das populações desse peixe. Destine o escoamento da água de banheiros para a rede de tratamento de esgoto adequadamente, assim você não contribui para a extinção de peixes. Fechar a torneira enquanto escova os dentes ou lava a louça também é uma medida ao alcance de todos e que ajudará esses bagrinhos.

Brasil ameaçado – Cardeal amarelo

O cardeal amarelo, Gubernatrix cristata, é tão capturado por traficantes que está criticamente ameaçado. (Imagem: Edwyn Harvey)

O cardeal amarelo (Gubernatrix cristata) é uma ave que habita o Sul do Brasil, Uruguai e Leste da Argentina. Ocorre em campos abertos e vegetação baixa, onde alimenta-se de sementes. O macho tem coloração amarela mais forte e contrastante com penas pretas na cauda enquanto as fêmeas são mais pardacentas. Vivem em casais ou formam bandos e colocam de dois a quatro ovos por ano em territórios que o macho defende cantando. Devido a essa coloração bonita e seu canto melódico, essa espécie é muito capturada e comercializada por traficantes de animais, a principal causa dela estar criticamente ameaçada de extinção. Sua preservação está entre as prioridades do plano de ação nacional para conservação dos campos sulinos. Além disso, monoculturas de eucalipto têm devastado seu habitat natural. Não criar passarinhos em gaiolas em casa já é uma excelente ajuda para preservar essa ave.

Brasil ameaçado – Formicivora erythronotos

Esse delicado passarinho precisa da sua ajuda para preservar a transição da mata atlântica para a restinga e mangue (Imagem: wikipedia.org/Rick Elis)

O pássaro formigueiro de cabeça negra ficou quase um século sem ser observado na natureza e já era considerado extinto. Felizmente no fim do século passado algumas populações na região de Angra dos Reis foram descobertas. Hoje acredita-se haver cerca de 2 mil indivíduos, mas a população está declinando. Eles habitam mata atlântice baixa e sua transição com a restinga e o mangue. Esse passarinho é muito sensível às alterações do ambiente pelo homem. Sabe o que você pode fazer por ele? Não compre palmito juçara. A extração dessa árvore numa mata é suficiente para excluir os formigueiros.

Brasil ameaçado – Eretmochelys imbricata

Tartaruga de pente, é preciso paciência e perseverança para superar o risco de extinção (Imagem: wikipedia.org/ Clark Anderson)

Nos meses que passei como estagiário no Projeto TAMAR uma das tarefas mais ingratas era alimentar uma tartaruga de pente que vivia nos tanques para os visitantes verem. Esse animal havia sido encontrado na praia quase morto, tão magro que a parte de baixo do casco (chamado plastrão) formava uma concavidade. Ela estava doente e não comia desde que chegara na base. Para mantê-la a veterinária Cecília Baptistotte me ensinou a preparar um delicioso suco de peixe (eu batia pedaços de peixe com água do mar num liquidificador e coava o caldo cinza e fedorento), inserir uma sonda esofágica no animal e injetar o alimento e alguns remédios dentro do estômago. Eu lamentava ver o animal semana após semana nas mesmas condições e já pensava se a morte não era melhor alternativa, mas a Cecília era irredutível em seus esforços. Fiquei meses nessa rotina, terminei meu estágio e nada do animal mostrar melhora nenhuma. Um dia, anos mais tarde, encontrei a Cecília e ela contou que a tal tartaruga estava plenamente recuperada. Nem acreditei, mas vidas ameaçadas, de um indivíduo ou uma espécie, dependem de persistência e paciência para serem recuperadas. A tartaruga de pente alimenta-se de corais e se reproduz desde o sudeste brasileiro até o Caribe, colocando cerca de 60 ovos em ninhos na praia. Fêmeas desovando eram capturadas para consumo dos ovos, da carne e produção de itens como armações de óculos e pentes com o casco, o que levou a espécie à beira da extinção. Um outro fator que leva à mortalidade os filhotes de tartarugas que tentam chegar ao mar é a poluição luminosa nas praias. Os filhotes são atraídos pela luz dos postes e dirigem-se à avenida em vez de irem para o mar. Uma forma de salvar filhotes de tartarugas de pente é evitar a iluminação de praias, pelo menos  na época de eclosão dos ovos.

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