Os meus dias j√° foram mais pequenos

Actualizado com artigo de 2020 em 18 de Fevereiro de 2021.

Aproveito-o agora para para ser publicado aqui e também no jornal Sul Informação).

Quando crianças os dias parecem durar e durar, havendo tempo para (quase) tudo. Há tempo de sobra para brincar, rir e fazer tudo e mais alguma coisa.
À medida que ganhamos rugas e dores nas costas, a divindade do tempo infinito encolhe e parece que o tempo já não é o que era.
Ele n√£o chega para nada, que est√° cada vez mais curto, que o tempo corre mais que a gente.
Quantas vezes j√° escut√°mos ‚ÄúO meu dia deveria ter 25 horas‚ÄĚ ou ‚ÄúS√≥ queria mais umas horas por dia‚ÄĚ.
As mudanças de percepção que a idade traz à duração dos dias são isso mesmo, mudanças na percepção.

Mas os dias já foram mesmo mais pequenos. Por outras palavras, a Terra já demorou menos tempo a efectuar o seu movimento de rotação.
O nosso planeta j√° teve dias mais pequenos do que as 24 horas a que estamos habituados.
A responsabilidade pelo aumento dos dias cabe às marés, sendo estas provocadas pela atracão gravitacional da Lua sobre o nosso planeta.

De forma breve: a atrac√£o da Lua sobre a Terra origina acumula√ß√£o de √°gua do mar no lado que est√° diante dela (mar√© alta) e tamb√©m do lado terrestre oposto*. Simultaneamente existir√£o locais onde essa √°gua ‚Äúfaltar√°‚ÄĚ, observando-se nestes locais a mar√© baixa.

Como o sentido da rota√ß√£o da Terra √© o mesmo que o da transla√ß√£o da Lua, mas muito mais r√°pido, gera-se um efeito de fric√ß√£o da √°gua do mar com os fundos oce√Ęnicos, que, aliado √† in√©rcia da pr√≥pria √°gua, abranda a rota√ß√£o da Terra.
Um efeito semelhante também é exercido pela Terra sobre a Lua. Como a Terra tem muito mais massa do que o nosso satélite, o nosso planeta já conseguiu deter o seu movimento de rotação, motivo pelo qual vemos sempre a mesma face da Lua.

N√£o entrarei em maiores detalhes sobre a mec√Ęnica celeste deste processo, mas refiro apenas que a Terra sofre actualmente um aumento nos seus dias de cerca de 1.8 milissegundos por s√©culo ‚Äď alguns autores referem 2.3 milissegundos por s√©culo.
Obrigado pela ajuda, dir√£o os mais necessitados de dias maiores, em tom de sarcasmo.

A estes responderei que simula√ß√Ķes feitas por computador permitiram deduzir que os dias tinham, quando a Terra estava no seu in√≠cio, apenas 6 horas. Aquilo que a maior parte de n√≥s passa hoje a dormir era a dura√ß√£o de um dia inteiro h√° cerca de 4.5 mil milh√Ķes de anos.
Mais: a an√°lise do ritmo do crescimento di√°rio de corais fossilizados, por exemplo, permitiu deduzir que a dura√ß√£o dos dias h√° 400 milh√Ķes de anos era de 22 horas.

E agora, caros desejosos-de-dias-maiores, estão satisfeitos com a vossa situação actual? Dias com 24 horas?
Era muito pior h√° milh√Ķes de anos.
Sim, porque, ao contrário de nós à medida que envelhecemos, os dias da Terra vão ficando cada vez maiores. Literalmente.

* por motivos de simplificação para o caso que se descreve omite-se o efeito do Sol.

Referências:

Williams, George E. (2000). Geological constraints on the Precambrian history of Earth’s rotation and the Moon’s orbit.¬†Reviews of Geophysics, 38 (1) pages 37‚Äď59.

Imagens:

1 РLa Voyage dans la Lune de Georges Méliès
2 – Daqui
3 – Daqui

4 Рatualização com artigo de 2020 e informação paleontológica.

5 Рartigo de divulgação que resume o artigo 4.

Luís Azevedo Rodrigues 

¬†(Este texto foi escrito como a minha colabora√ß√£o para a a√ß√£o interCi√™ncia, em que eram trocados de forma an√≥nima textos entre blogs. Este texto foi a minha “oferta” para o blog Curioso Realista, onde foi publicado originalmente.

Devaneios evolutivos…

394952_530625956958420_24964258_nEsta imagem/post, retirado e mais do que partilhado pela p√°gina de Facebook ‚ÄúI fucking love science‚ÄĚ √© uma excep√ß√£o √†s suas excelentes e divertidas imagens-mensagem.

E porquê?

1¬† ‚ÄúYou are the result of 3.8 billion years of evolutionary success‚ÄĚ
O aparente topo evolutivo ocupado pelo ser humano, de alguma forma reflectido no texto desta imagem, não é verdadeiro, já que a nossa espécie é um acaso da História Evolutiva da vida na Terra.
Ao contr√°rio do que est√° impl√≠cito, a Evolu√ß√£o da vida n√£o tem o ser humano como o pin√°culo evolutivo, o seu porto de chegada, o seu mais perfeito representante, o final do caminho da vida sobre a Terra, isto apesar da nossa exist√™ncia actual ser fruto de um sem n√ļmero de sucessos interm√©dios.
Seremos t√£o pin√°culo evolutivo da Hist√≥ria da Terra como outros seres vivos actuais ‚Äď representantes no presente de v√°rias linhagens de seres vivos que singraram ao longo do tempo.
2 Outra mensagem que poderá induzir em erro, e subjacente neste texto, é que a Evolução é sinónimo de um cada vez maior aperfeiçoamento e complexidade dos organismos, sendo o representante deste conceito nesta imagem/texto o ser humano.
Isto não é de todo verdade.
Embora existam casos de incremento de complexidade, a Evolu√ß√£o conduz* tamb√©m a redu√ß√£o de complexidade biol√≥gica, √† diminui√ß√£o de estruturas, entre outras altera√ß√Ķes morfol√≥gicas e/ou fisiol√≥gicas.
Evolu√ß√£o biol√≥gica n√£o √© sin√≥nimo de maior complexidade ‚Äď pode ou n√£o s√™-lo.

3 Ainda outra mensagem subjacente é a de cariz moral/comportamental. Devemos actuar em função do sucesso obtido pelos nossos antepassados, sejam eles mais ou menos distantes.
O que não me agrada nesta mensagem é a mistura entre sucesso evolutivo e a matrizes de comportamento moral/ético. Isto talvez possa justificar parte do sucesso evolutivo recente dos nossos antepassados, mas não justifica a esmagadora maioria do tempo geológico.
O singrar de um organismo e o sucesso de um c√≥digo de conduta, embora possam estar interligados, s√£o quest√Ķes distintas, sendo perigoso generaliz√°-los.
Se nos focarmos no comportamento humano e na diversidade de valores √©ticos e morais existentes, ent√£o estaremos de certeza a misturar alhos com bugalhos quando afirmamos que nos deveremos comportar em fun√ß√£o do sucesso biol√≥gico de um passado t√£o long√≠nquo como o de h√° centenas ou milhares de milh√Ķes de anos.

Apenas alguns devaneios evolutivos…já há muito debatidos e analisados por outros muito melhores do que eu.

* a utilização deste vocábulo é exagerada, sendo aqui utilizada por simplificação na leitura.

Podcast Ciência Viva À Conversa 2013

CIENCIA VIVA A CONVERSA LOGO√Č o regresso do espa√ßo de r√°dio e podcast Ci√™ncia Viva √Ä Conversa.

Depois dos 23 programas que gravei, com a excelente e indispensável edição do Director de antena da Rádio Universitária do Algarve, Pedro Duarte, retomamos este programa semanal.

Para além da difusão na Rádio Universitária do Algarve à 5ª feira (8h15, 12h15 e 15h15), o programa pode ser ouvido e descarregado nos sites dos Centros Ciência Viva no Algarve (Faro, Lagos e Tavira), no site do jornal Sul Informação, no site da RUA e e também no sítio de arquivo, para além deste blog (na barra lateral).

 

ADELINO CANARIOO primeiro programa Ciência Viva À Conversa de 2013 é com Adelino Canário do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e que será concluído na próxima 5ª feira.

 

O mais antigo dinossauro?

Imagine que descobria fotos antigas e que estas eram de um antepassado seu.

O que pensaria?

Iria procurar semelhanças na fisionomia entre si e a fotografia, seguramente.
Não foram fotos mas fósseis que permitem agora apresentar à grande família dos dinossauros o seu mais antigo familiar (ou muito próximo disso).
O Nyasasaurus parringtoni [1] foi escavado em 1930, no que √© hoje a Tanz√Ęnia, tendo sido estudado na d√©cada de 50, tendo nessa altura permanecido como material inconclusivo. Recentemente uma equipa de paleont√≥logos americanos e ingleses retomou o estudo deste material e verificou a sua import√Ęncia. O Nyasasaurus, em homenagem ao lago Niassa, tamb√©m chamado Malawi, tinha um tamanho de 2 a 3 metros e pesava entre 20 a 60 kgs (par√Ęmetros estimados). Este animal viveu no Tri√°sico m√©dio, h√° aproximadamente 235 milh√Ķes de anos, o que faz dele o mais antigo dinossauro que se conhece.

Dinossauro?

Úmero de Nyasasaurus e estrutura microscópica de secção deste osso (Nesbitt et al. 2012)

A an√°lise morfol√≥gica e filogen√©tica dos vest√≠gios de Nyasasaurus (√ļmero e v√°rias v√©rtebras) permitiram apontar para que este animal seja o mais antigo dinossauro que se conhece ou um representante primitivo de um grupo-irm√£o dos dinossauros.
A anatomia dos ossos encontrados permitiu identificar a presen√ßa de caracter√≠sticas √ļnicas dos dinossauros, nomeadamente a presen√ßa de uma crista deltopeitoral alongada no √ļmero* [2], zona do osso do membro anterior (bra√ßo) onde se inseriam m√ļsculos, bem como outras particularidades anat√≥micas na cintura p√©lvica.
Para al√©m destas evid√™ncias exteriores, a an√°lise microsc√≥pica aos tecidos √≥sseos tamb√©m permitiu descobrir que este animal apresentava padr√Ķes r√°pidos de crescimento √≥sseo, t√≠pico tamb√©m dos dinossauros.
Apesar destas evidências, muitas das características anatómicas presentes nos dinossauros, a equipa de paleontólogos que o descreveu ainda não está totalmente segura de posicionar o Nyasasaurus como um verdadeiro dinossauro ou, em alternativa, como pertencendo a um grupo irmão dos dinossauros.

√ömeros de v√°rios sauropodomorfos com algumas estruturas anat√≥micas destacadas (Rodrigues 2009). Comparar com √ļmero de Nyasasaurus.

O aparecimento dos dinossauros

Para al√©m de ser mais um elemento para a hist√≥ria da vida na Terra, o Nyasasaurus aumenta o conhecimento do aparecimento e diversifica√ß√£o do grupo de animais de enorme import√Ęncia ecol√≥gica no Mesoz√≥ico ‚Äď os dinossauros. Este animal faz recuar em 15 milh√Ķes de anos o surgimento dos dinossauros, caso se verifique ser o Nyasasaurus um verdadeiro dinossauro, como tudo leva a apontar.
Nos √ļltimos anos os paleont√≥logos que se dedicam aos estudos dos dinossauros t√™m investido muito quer na prospec√ß√£o, quer no estudo e descri√ß√£o de vest√≠gios de vertebrados no Tri√°sico. Este per√≠odo da hist√≥ria da Terra assistiu ao conjunto de fen√≥menos biol√≥gicos que ter√° levado √† diversifica√ß√£o e prolifera√ß√£o do grupo Dinosauria, grupo que viria a proliferar nos milh√Ķes de anos que se seguiram.
Há assim uma enorme vontade científica em descobrir e perceber a origem dos dinossauros.

 

Tri√°sico, Tanz√Ęnia e Portugal

Al√©m desta tend√™ncia de escava√ß√£o em sedimentos do Tri√°sico, tamb√©m se tem verificado uma outra vertente da investiga√ß√£o em dinossauros: come√ßar a olhar para as cole√ß√Ķes de f√≥sseis escavados no s√©culo passado. H√° assim uma re-escava√ß√£o dos sedimentos, sendo que desta vez a prospe√ß√£o √© feita nas caves e dep√≥sitos dos Museus de Hist√≥ria Natural.
De referir que foram alem√£es, em particular Werner Janensch, que efetuaram diversas campanhas de escava√ß√£o na Tanz√Ęnia logo a partir de 1909** do s√©culo passado. N√£o √© este o caso j√° que o Nyasasaurus foi escavado por Francis Rex Parrington, paleont√≥logo ingl√™s da Universidade de Oxford.

Em Portugal existem vários locais com rochas sedimentares de idade triásica sendo os potencialmente mais interessantes, do ponto de vista paleontológico de vertebrados, os localizados no Algarve, num conjunto de sedimentos de ambiente continental que se designam genericamente de Grés de Silves.
Mas do Tri√°sico falaremos um destes dias.
Agora é o momento de comemorar a chegada de um parente antigo dos dinossauros…ou próximo deles.

* compare-se o √ļmero de Nyasasaurus com os v√°rios √ļmeros de saur√≥podes [2] e as respetivas cristas deltopeitorais.

** algum do material procedente da Tanz√Ęnia est√° nas cole√ß√Ķes do Museu de Hist√≥ria Natural de Londres e no Museu de Hist√≥ria Natural de Berlim.

A segunda parte desta hist√≥ria (link) descreve o que se passou com material f√≥ssil da Tanz√Ęnia e que era…radioativo.

Referências:

[1] Nesbitt SJ, Barrett PM, Werning S, Sidor CA, Charig AJ. 2012 The oldest dinosaur? A Middle Triassic dinosauriform from Tanzania. Biol Lett 9: 20120949. http://dx.doi.org/10.1098/rsbl.2012.0949

[2] Rodrigues, L.A. Sauropodomorpha (Dinosauria, Saurischia) appendicular skeleton disparity: theoretical morphology and Compositional Data Analysis. Ph.D. Thesis. Universidad Aut√≥noma de Madrid, Madrid ‚Äď Spain, Supervised by Professor Angela Delgado Buscalioni and Co-supervised by Professor Jeffrey A. Wilson, University of Michigan, Ann Arbor. December 2009. ISBN 978-84-693-3839-1.

Imagens:

A – Natural History Museum, London/Mark Witton / SL.

B –¬†Natural History Museum / SL

C – Rodrigues 2009

(PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

O Panda Catal√£o

√Č uma t√≠pica imagem chinesa aquela que agora vem da Catalunha ‚Äď o panda.

Reconstitui√ß√£o de Kretzoiarctos beatrix ; fonte ‚Äď SINC

Quase todas as crian√ßas reconhecem este animal e uma parte delas sabe que este mam√≠fero vive actualmente na China. Talvez a maioria dos adultos desconhecer√° √© que o mais antigo panda gigante viveu h√° cerca de 11 milh√Ķes anos na pen√≠nsula ib√©rica.
Os vestígios fossilizados de um antepassado do panda gigante foram encontrados numa jazida fossilífera de Saragoça, designada Nombrevilla 2.

O Kretzoiarctos beatrix passa a ser o mais antigo representante da subfam√≠lia Ailuropodinae, grupo a que pertencem as formas extintas e as formas actuais do panda gigante, tendo os sedimentos onde foi encontrado¬† a idade de 11.6 milh√Ķes de anos.

Restos encontrados de Kretzoiarctos beatrix; fonte – de [1]

At√© esta descoberta, o mais antigo antepassado procedia do Mioc√©nico chin√™s, com uma idades que variavam entre os 7 e os 8 milh√Ķes de anos. A descoberta das mand√≠bulas e dentes fossilizadas, levada a cabo por paleont√≥logos do Instituto Catal√£o de Paleontologia, faz recuar assim o retrato da evolu√ß√£o do panda gigante em tr√™s milh√Ķes de anos, ampliando igualmente a imagem da distribui√ß√£o geogr√°fica passada deste mais do que emblem√°tico animal actual

O panda gigante (Ailuropoda melanoleuca) constitui há muito motivo de debate científico pois de há muito que se discute a sua origem e a sua relação na família Ursoidea, sendo este posicionamento apoiado por dados moleculares que o remetem como grupo-irmão do ursos.
Esta nova espécie fóssil, o Kretzoiarctos beatrix [1], para além de representar o mais antigo antepassado do panda gigante, constitui também o mais antigo vestígio de um ursídeo na península ibérica.

Sobre a possibilidade deste antepassado ter coloração branca e preta típica dos seus descendentes, os paleontólogos não confirmam dado não haver material fossilizado que o permita inferir [2].

Distribuição actual e do passado recente do panda gigante (Ailuropoda melanoleuca); fonte РWWF

Os paleont√≥logos que estudaram este material referem ainda que na origem da extin√ß√£o deste animal ter√£o estados altera√ß√Ķes ambientais com impacto direto nos ambientes em que este panda viveria ‚Äď as florestas densas e h√ļmidas ter√£o sido substitu√≠das por ambiente mais abertos e secos [2].

H√° 11 milh√Ķes de anos, tal como hoje, o clima a condicionar de sobremaneira a exist√™ncia das esp√©cies‚Ķainda assim, viva a panda catal√£o, viva!

(artigo publicado no jornal Sul Informação)

ResearchBlogging.orgReferências:

[1] Abella J, Alba DM, Robles JM, Valenciano A, Rotgers C, Carmona R, Montoya P, & Morales J (2012). Kretzoiarctos gen. nov., the Oldest Member of the Giant Panda Clade. PloS one, 7 (11) PMID: 23155439
[2] http://www.livescience.com/24788-oldest-panda-fossils.html

 

Imagens:
A ‚Äď reconstitui√ß√£o de Kretzoiarctos beatrix ; daqui ‚Äď SINC
B ‚Äď restos encontrados de Kretzoiarctos beatrix; de [1]
C ‚Äď distribui√ß√£o actual e do passado recente do panda gigante (Ailuropoda melanoleuca); daqui – WWF

(PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

Mãe é Mãe e com o ADN do Filho

A mãe compreende até o que os filhos não dizem.

(máxima hassídica)

A liga√ß√£o entre m√£e e filho √© forte. Diz√™-lo √© banal, redundante, superando esse v√≠nculo quase todas as rela√ß√Ķes afectivas ou biol√≥gicas.

Publicada há menos de uma semana, uma investigação científica revelou que o ADN dos filhos por vezes invade as células cerebrais das suas mães. Este fenómeno biológico há muito que é conhecido por ocorrer em vários órgãos, no fígado por exemplo, mas nunca havia sido quantificado em células cerebrais.

Os resultados apresentados na revista PloS One (1) apontaram a presen√ßa de material gen√©tico masculino nos c√©rebros das respectivas m√£es. O ADN circulou dos filhos var√Ķes para o corpo materno, num fen√≥meno denominado microquimerismo fetal.

59 c√©rebros foram autopsiados neste estudo, revelando que 37 das m√£es (63%) possu√≠am um gene espec√≠fico do filho. As m√£es ‚Äúcontaminadas‚ÄĚ com ADN da descend√™ncia apresentavam tamb√©m poucas evid√™ncias de doen√ßas neurol√≥gicas como o Alzheimer. Para um dos autores deste estudo, William Burlingham, n√£o existe ainda uma explica√ß√£o para esta correla√ß√£o entre a presen√ßa de ADN do filho e a aus√™ncias de altera√ß√Ķes neurol√≥gicas (2).

Como foi identificado o ADN dos filhos no cérebro das progenitoras?

O método mais prático de identificação do ADN estranho à mãe envolveu localizar o gene DYS14 do cromossoma Y, uma vez que apenas os homens possuem este cromossoma, facilitando assim a descoberta de material genético que não seja da progenitora. Este método não descarta a hipótese de que ADN feminino tenha o mesmo tipo de migração para o cérebro das mães, apenas facilita para já a identificação de ADN de origem masculina.

Microquimerismo fetal

O microquimerismo fetal é o fenómeno biológico pelo qual há transferência de material genético (ADN) entre dois indivíduos, sendo anteriormente conhecida a transferência entre a mãe e o feto ou mesmo entre irmãos gémeos durante a gestação. Conhecidas igualmente eram as trocas de material genético entre irmãos não gémeos já que existe em circulação, no corpo da mãe, ADN de um irmão mais velho e que, eventualmente, passará para o irmão mais novo.

A longevidade desse ADN estranho no corpo da m√£e pode mesmo atingir os 27 anos ap√≥s a gravidez (3). A difus√£o de ADN entre indiv√≠duos est√° associada ao desenvolvimento de algumas doen√ßas auto-imunes como o l√ļpus eritematoso sist√©mico ou doen√ßas reum√°ticas.

Os resultados agora publicados deste tipo de microquimerismo fetal n√£o deixam de serem surpreendentes mas lan√ßam sobretudo muitas quest√Ķes biol√≥gicas, como por exemplo:

Qual o papel do ADN do filho no cérebro das mãe?

Qual a relação entre a presença daquele ADN em diferentes quantidades em zonas distintas do cérebro materno?

Qual a interpretação para a correlação positiva entre a quantidade de ADN filial e a menor probabilidade de a mãe desenvolver Alzheimer?

Para al√©m destas quest√Ķes biol√≥gicas, n√£o deixo de me impressionar tamb√©m pelo valor emotivo deste fen√≥meno. √Ä carga afectiva que liga a m√£e e o filho acresce agora uma liga√ß√£o que se estende √†s c√©lulas cerebrais, fonte de todas as emo√ß√Ķes e pensamentos.

Mãe é mãe. E mais o é com o ADN dos filhos.

 

REFERÊNCIAS:

(1) Chan WFN, Gurnot C, Montine TJ, Sonnen JA, Guthrie KA, et al. (2012) Male Microchimerism in the Human Female Brain. PLoS ONE 7(9): e45592. doi:10.1371/journal.pone.0045592

(2) http://www.the-scientist.com/?articles.view/articleNo/32678/title/Swapping-DNA-in-the-Womb/

(3) Bianchi DW, Zickwolf GK, Weil GJ, Sylvester S, DeMaria MA (1996) Male fetal progenitor cells persist in maternal blood for as long as 27 years postpartum. Proc Natl Acad Sci U S A 93: 705‚Äď708. doi: 10.1073/pnas.93.2.705.

IMAGEM: ‚ÄúPetrograd Madonna‚ÄĚ, de Kuzma Petrov-Vodkin (1878-1939)

(PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

O que Fazer Com Isto?

A quest√£o n√£o dever√° ser nova e provavelmente existir√£o solu√ß√Ķes mas que fazer com estas algas que ciclicamente d√£o √† costa em grandes quantidades.

De certeza que poderiam ser aproveitadas para consumo animal ou para adubar os terrenos.

Esta √ļltima solu√ß√£o era (√©?) ainda utilizada na minha na Ria de Aveiro, sendo o material recolhido na ria denominado de moli√ßo (fundamentalmente plantas aqu√°ticas). Da√≠ o nome moliceiro para o barco onde eram recolhido o moli√ßo que serviria depois para adubar terrenos.

Nestes tempos de utilização, reutilização e poupança, que fazer com as algas ou outros materiais biológicos que dão à costa?

P.S. Рfotos da Praia da Rocha, 30 de Setembro de 2012. Luís Azevedo Rodrigues.

Geologia e Paleontologia Urbanas (vídeo)

Por estas e por outras √© que tenho andado a escrever t√£o pouco…

No mar também há seca

 O título deste artigo não anuncia uma má experiência num qualquer Barco do Amor, antes é o resumo de uma conversa do fim-de-semana.

O café chama-se Beira-Mar e partilhei mesa com o dono, também Mestre de um barco de pesca.

A conversa começou, como tantas outras, pelo tempo.

‚Äú√Č que vai de seca‚ÄĚ, disse-me.

‚ÄúPois vai. N√£o chove vai j√° para‚Ķbem, noutros anos n√£o noto o tempo como desta vez‚ÄĚ, respondi. ‚ÄúMas desde que o meu filho nasceu, e j√° l√° v√£o quase tr√™s meses, o rapaz ainda s√≥ apanhou uma manh√£ de chuva.‚ÄĚ, resumi eu o clima no Algarve dos √ļltimos tempos.

‚ÄúPois‚Ķa seca √© m√° para tudo. N√£o h√° nada para que sirva, √© m√° para os campos, para a pesca‚Ķ‚ÄĚ

‚ÄúPara a pesca?‚ÄĚ interrompi, pensando tratar-se de um engano.

‚ÄúSim, para a pesca tamb√©m faz falta que chova em terra. Se chove o mar fica revirado e isso √© bom para a faina. A terra que vem de terra alimenta os peixes‚Ķa seca em terra, tamb√©m √© seca no mar!‚ÄĚ

A aparente contradição, haver seca no mar, depois do espanto inicial fez-me pensar que o Mestre tinha razão.

Sempre que chove em terra os sedimentos s√£o arrastados para os cursos de √°gua e, por sua vez, estes s√£o transportados para o mar. O mar fica ent√£o carregado de sedimentos, com a cor alterada, como se tivesse sido lavrado. Seria isto que o pescador queria dizer com ‚Äúrevirado‚ÄĚ?

Talvez.

Todo o aporte sedimentar continental, carregado de mat√©ria org√Ęnica e mineral, contribui para a produtividade do meio marinho. Elementos qu√≠micos como o carbono, azoto e f√≥sforo s√£o fundamentais para os ecossistemas marinhos. A falta de um meio que transporte aquelas subst√Ęncias da terra para o mar ir√° originar altera√ß√Ķes na produtividade destes ecossistemas. A influ√™ncia terrestre √© especialmente importante em ambientes estuarinos como aquele a que o Mestre se referia e onde pesca ‚Äď em zonas pr√≥ximas √† foz do Rio Arade.

O mar precisa assim da √°gua e das subst√Ęncias da terra. De um mar revirado dependem os ecossistemas marinhos e, tamb√©m, os pescadores.

As conversas de café têm disto: percebermos que a seca em terra…também é seca no mar.

 

Referências:

Lake, P. S. (2011) Estuaries and Drought, in Drought and Aquatic Ecosystems: Effects and Responses, John Wiley & Sons, Ltd, Chichester, UK. doi: 10.1002/9781444341812.ch10

Consultado o cap√≠tulo 10 ‚ÄúEstuaries and drought‚ÄĚ em Google Books )

Imagem:

daqui

Este artigo foi também publicado nos jornais Sul Informação e Baluarte

(Não complicar) Ciência

Um exemplo de simplicidade na divulgação de ciência: pequenas coisas; bons exemplos.

Não é preciso complicar.
E sim, sou suspeito. √Č de um colega paleont√≥logo…